Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos de tags: Mídia

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 2)

Filme racista de 1915, apoiado pelo exército Norte Americano.

Quando ocorrido o 11 de Setembro, imediatamente o governo americano se reuniu com diretores de cinema em Hollywood para determinar o que fazer, que “bons caminhos” tomar para a produção cultural norte-americana (1). A ousadia e o espetáculo das ações do 11 de Setembro, não só o plano em si, mas o misancene que foi retratado pela TV, roupeu a tênue fronteira entre a ficção e a realidade, entre o documentário e fantasia, entre propaganda e enredo.

Não é nenhum grande mistério que a indústria do cinema sofre pressões ou busca financiamento público para suas obras culturais, até nos EUA – terra que se prega a supremacia do dinheiro privado. Durante a Primeira Grande Guerra, os EUA criaram o Comitê para Informação Pública (2), dedicado a fazer propaganda pró-governo e anti-alemã, durante todo o período da Guerra. Seu papel, além de fazer diretamente peças artísticas falando bem das causa governistas, era viabilizar que filmes pró-americanos tivessem a maior repercussão e financiamento possível.

Nessa mesma época, em 1915 surgiu um pioneiro filme de guerra chamado O nascimento de uma Nação, dirigido por D. W Grifith. A obra foi um sucesso estrondoso de bilheteria, apesar de usar atores brancos pintados de preto para o papel de negros e uma evidente apologia à Ku Klux Klan. No entanto, muito interessante do filme é seu pioneirismo em outra área: foi o primeiro filme a ter consultoria e apoio do West Point, também conhecida como Academia Militar dos Estados Unidos. O exército não só forneceu artilharia, mas deu consultoria para as cenas de guerra, emprestou canhões e soldados e, dada a recepção do filme, não teve nenhum problema com o conteúdo racista e apoio da KKK. Este filme financiou a KKK por muitos anos (3).

Desde então, a colaboração do exército e órgãos governamentais no cinema americano foi enorme. Pautando filmes, utilizando o cinema como potente arma de propaganda das idéias e políticas do governo. O objetivo principal é o uso da credibilidade e “isenção” do cinema e mídia privados para fomentar propagandas pró-sistema,  tentando criar novos conceitos, arraigar existentes, demolir opositores políticos e “subversivos”, criar consensos favoráveis à classe dominante do período, sem no entanto parecer usar a “máquina estatal” para tal, sem dar muito na cara, como falamos dos regimes ditatoriais no post anterior.

A Segunda Guerra reforçou essa aliança. A série de documentários Why We Fight (1942-1945), foi comissionada diretamente pelo governo, usando nada menos que um laureado com o Oscar Frank Capra para dirigi-la, numa tentativa de documentário que ficasse à altura dos de Leni Riefenstahl (4) para a Alemanha Nazista. A série também foi um sucesso.

Num lado mais lúdico, Walt Disney e sua corporação formaram um grande veículo privado para propaganda governamental, desde o Pato Donald explicando a importância de pagar impostos, até o mesmo pato  ridicularizando o nazismo. Num lance mais “sério” temos o Education for Death (Disney, 1943), animação sobre uma criança no regime nazista, de 1943, ambos desenhos bem sombrios para crianças segundo os padrões de hoje.

Junto com Mickey Mouse, Donald é o personagem mais popular da Disney, talvez por isso seja exatamente o desenho que revela um discurso ideológico muito mais marcante, uma representação – as vezes muito clara – da ideologia pró-sistema que quero enfatizar aqui:

Donald trabalha feito um condenado mas está sempre em dívida com o seu Tio, que frequentemente usa este argumento para forçá-lo (chantageá-lo) em alguma aventura de pilhagem e enriquecimento (do Patinhas é claro). Por mais que Donald trabalhe, jamais fica rico, se considera azarado ou não esforçado o suficiente, invejando seu rival Gastão, rico e “sortudo” sobrinho puxa-saco de Patinhas. Há até um clássico underground feito no Chile de Allende, explorando em mais detalhes as sutilezas (ou não) das histórias de Pato Donald e Tio Patinhas na América Latina. Para Ler Pato Donald (1972), ainda que dotado de exageros – um pouco – paranóicos (5), a obra mostra outras nuances profundas do discurso pró-sistema e elitista e vale ser lida.

Ao falar de Disney, não podemos esquecer a enorme presença do discurso conservador típico da direita  WASP (6) norte-americana, a ideologia dominante da produção cultural americana do seu tempo. À exceção de Mulan (1998), todas as princesas/protagonistas Disney são mulheres submissas, dependentes, passivas e alienadas, a espera de um príncipe encantado para mudar de vida, algumas até com Síndrome de Estocolmo, reproduzindo o que há de mais conservador em discurso sobre o papel da mulher na sociedade.

Corações e Mentes

Na história recente, apenas na minha geração, a profusão de filmes com larga presença militar e ideologia pró-americana é tão grande que fica difícil listar todos os filmes, vou colocar apenas alguns mais relevantes na minha lista.

Em Rambo 3 (1988), o exército americano usa um mercenário (Silvester Stallone) para ajudar mujahedins afegãos, conhecidos como Talibãs, retratados no filme como “defensores da liberdade”, para expulsar o imperialismo soviético. O filme faz uso maciço de bases militares, aviões, helicópteros e armamento americano. Lembrando que Bin Laden nesta época, era fiel aliado ocidental. É importante notar que, apesar de ser prática comum na época, o uso de mercernários privados em ações militares “extra-oficiais” era algo ainda mal visto (7).

Top Gun (1986) retrata toda a evolução de dois jovens nas fileiras da Marinha americana, da melhor maneira que Hollywood sabe fazer. É difícil não ver este filme como uma obra de propaganda militar, seu sucesso foi tão grande que a Marinha colocava bancadas de recrutamento na porta do cinema, com grande sucesso (ver documentário Hollywood and The Pentagon: A dangerous Liaison, de 2003).

Independence Day (1996) é um filme sobre invasão alienígena, mas seu discurso e ideologia é extremamente terrestre e não ficcional. É outra obra com largo uso de recursos, consultoria e equipamento militar. Retrata a invasão dos EUA por aliens que querem exterminar a humanidade. O próprio presidente dos EUA é voluntário para entrar num avião e lutar alienígenas, após longo e patriótico discurso. O interessante lembrar é que este é um daqueles filmes onde a bomba atômica salva a humanidade: é um míssil atômico, carregado por um suicida (“mártir”), que termina por destruir a super nave alienígena e salva a América. Guerreiros suicidas ainda não estavam em baixa como nos dias de hoje.

Impacto Profundo (1998), Armaggedon (1998), O núcleo (2003) e Sunshine: Alerta Solar (2007), são filmes, assim como Independence Day, onde a bomba atômica salva a humanidade da aniquilação. Vale lembrar que o produtor de Armaggedon é o mesmo de Top Gun e de Falcão Negro em Perigo (2001), e é o mais propagandístico destes filmes que pervertem o uso da bomba atômica.

Essa inversão do objetivo das coisas, servindo para o seu exato oposto me lembra de Slavoj Zizek e seus argumentos da falta de substância das coisas na pós-modernidade. Café sem cafeína, açúcar light, “invasão de defesa” (só para lembrar de Israel no presente momento), guerra sem vítimas e assim, o uso da maior arma de aniquilação humana já inventada – A bomba atômica – é transformada em sua salvação única, desprovida de seu caráter destruidor, se torna a ponta da lança que aniquila o dragão, a única esperança de defesa e resistência. Qualquer semelhança com George Orwell é mera coincidência. Aniquilação é Salvação.

Em Falcão Negro em Perigo, a resistência somali contra a invasão dos EUA (exército americano sob farda da ONU) durante a sua guerra civil em 1993, é vilanizada e o sangrento massacre em Mogadishiu, transformado num heróico épico de resgate paladínico, com direito a helicóptero tocando “Hell’s Bells” do ACDC. Nada é problematizado, nem o papel dos EUA, nem as intenções dos inimigos, os somalis são todos os bestializados, sem nome e sem importância.

A bestialização do inimigo lembra ainda de outro blockbuster apoiado/financiado pelo exército americano: Invasão do Mundo: A Batalha de Los Angeles (2011). Um filme que se você lembrar que a palavra ALIEN em inglês também se refere à imigrante ilegal, você têm um dos mais conservadores – para não dizer nazistas – filmes norte-americanos. Os inimigos quase invisíveis e indestrutíveis, bestas que vêm de todas as partes, sem valores ou origens identificáveis (como “chicanos” que podem ser desda Bolívia até o México), seu objetivo é apenas destruir a América. Os diálogos do filme são quase de manuais militares e junto Top Gun e Transformers (Michael Bay, 2007), considero os filmes mais apologéticos do exército que tenho notícia.

Nessa discussão toda vale citar primeiro 300 (Zack Snyder, 2006), inspirado no quadrinho de Frank Miller e Transformers (Michael Bay, 2007), baseado no desenho de mesmo nome dos anos 80, brilhantemente analisado por Slavoj Zizek.  Ele inverte a noção comum de que 300 é um filme apologético pró-americano, anti-islâmico (iraniano), militarístico, retratando a supremacia da guerra frente à diplomacia, num heroísmo americano contra a invasão de estrangeiros.

Este filme, para o filósofo, é um filme que retrata uma rica superpotência imperial (Pérsia), com um exército indestrutível, tentando invadir uma pobre região montanhosa habitada por fanáticos. Seus métodos são a intimidação, compra de políticos e figurões e a contratação de mercenários de todas as partes do mundo para formar um exército invasor em terras distantes da sua. A cultura persa é retratada em mostruosidades exóticas, festas promíscuas, com marcante falta de valores e uma moralidade comprável com dinheiro.

Esparta por sua vez é uma nação pequena, com um rei idealista, avesso às politicagens corruptas de interesseiros nobres, ou o misticismo pessimista dos oráculos. Dotado de um pequeno exército, o que lhe resta é a disciplina e a  crença fanática em seus valores e idéias.

Para Zizek a Pérsia É o Imperialismo americano, Xerxes tentando seduzir e corromper os gregos é como um Ronald Reagan tentando seduzir e corromper Sandinistas ou lideranças sauditas. Esparta promete acabar com o misticismo, defendendo um reinado de razão e democracia, no melhor estilo iluminista, contra a barbáries sem valores do mundo Persa. Não foi a toa que os revolucionários comunistas alemães se proclamaram “Liga Espartaquista“, diz.

Apesar de concordar com todos os pontos de Zizek, o filme não foi feito para acadêmicos e pessoas mais interessadas em tramas complexas e reflexão profunda. É um blockbuster de verão. A mensagem que fica para o menos atento, interessado apenas num pipocão de fim de semana para entreter sua monótona vida proletária, é a versão superficial do filme: a supremacia ocidental frente ao barbarismo oriental.

Os inimigos usam turbantes e aparatos exóticos, falam com sotaque ou são ininteligíveis, são infinitos e estão em todo lugar (clássica paranóia direitista contra imigrantes); a política e a diplomacia são corruptas (de ambos os lados), só o exército é virtuoso e dotado de uma verdade que faça sentido. Tanto que o filme repercutiu muito mal no Oriente Médio, com declarações públicas de Ahmadinejad inclusive (9).

Porém, essa clara ambiguidade do filme, talvez demonstre a sutileza apologética do cinema ideológico que eu esteja tentando mostrar, dando razão à narrativa de Zizek: na superfície faz um discurso enquanto a substância do filme é completamente diferente, muitas vezes até oposta à superfície. Algo que torna o filme brilhante.

Prosseguindo.

A série de filmes Transformers por sua vez, é tão propagandística e apologética que faz Alexander Nevsky de Eisenstein parecer uma obra de ficção completamente sem relação com o stalinismo. É um festival de recursos, aparato, discursos e argumentos pró-americanos, de um militarismo gritante. Como Top Gun (10), é  praticamente um vídeo de recrutamento, com direito a um jovem conhecendo uma bela moça enquanto se torna um “soldado a serviço dos Transformers”. Mesmo porque os vídeos oficiais de recrutamento não estão tão longe de um filme hollywoodiano:

Já que estamos falando de super heróis vejamos a – nada subliminar – situação de Homem de Ferro (2008) e a nova série de filmes do Batman (2005-2012). Ambos bilionários enriquecidos com dinheiro da fabricação de armamentos para o Complexo Industrial-Militar norte-americano e ambos auto-proclamados defensores da justiça. A não problematização da sua maneira de enriquecer, ignorando o fato de que qualquer um que saiba minimamente de como se faz dinheiro na indústria de armamentos (11) sabe que não há nada de nobre ou heróico em vender armamentos militares. No pano de fundo é algo como enfatizar a “riqueza é uma virtude por si só” (ver este meme), independente de onde veio o dinheiro.

O Homem de Ferro, no filme Vingadores (2012) ainda reforça a noção que mencionei acima de que a bomba-atômica é a única salvação da humanidade. Quando os heróis e os mercenários pára-estatais da S.H.I.E.L.D falham para conter a invasão alienígena,  Homem de Ferro conduz um míssil atômico até o coração do portal invasor, destruindo-o. Novamente a Bomba Atômica salva a humanidade (ou os EUA).

Já em Batman, especialmente no último filme da série, surge outra pérola de discurso pró-sistema. Batman é um agente pára-militar perseguindo um vilão, líder de excluídos que vivem em esgotos e que querem destruir a ordem vigente. Bane começa tentando destruir a fonte de riqueza dos seus inimigos explodindo a Bolsa de Valores e falindo o Batman. Vale lembrar o diálogo logo no início do filme entre o vilão e um funcionário da Bolsa (12):

Comerciante da Bolsa: “Isso é uma bolsa de valores, não há nada o que roubar”

Bane: “É mesmo?! E o que vocês fazem aqui diariamente?!”

Depois Bane quer destruir uma prisão repleta de “suspeitos” de atos ilícitos contra o regime, presos após o endurecimento de leis especiais “anti-terror”, numa conservadora visão da Queda da Bastilha. Se somarmos com a ridicularização e satanização dos Tribunais de Sentença contra “agentes do sistema” e a liderança de um implacável, incorruptível e “sanguinário” líder, temos já três importantes referências à Revolução Francesa. Bane ainda chama os habitantes de Gotham para tomar as ruas, “cuidar do que lhes pertence”, sem qualquer desmando ou interferência sua, apenas convoca os cidadãos após destruir a força repressiva do Estado (a polícia), numa inspiração “Occupy Wall Street”.

Ao fim, Batman, o bilionário acima da lei, que sempre age quando julga que a lei ou a polícia não estão sendo eficientes,  utilizando todo aparato militar que seu dinheiro pôde comprar, marcha para derrotar Bane e sua revolução. No caminho ainda coopta a Mulher Gato, uma bela ladra e alienada, se junta ao bilionário para destruir a ideologia louca de Bane. O dinheiro sempre vence.

***

Assim, por mais que não seja tão claro como nas ditaduras citadas no post anterior, fica difícil não ver em Hollywood um fundamental braço propagandístico da ideologia do sistema. A sutileza e a máscara de isenção que carrega o torna o mais eficaz instrumento de divulgação da ideologia americana, uma fábrica de influência de corações e mentes em defesa daquilo que querem que seja verdade. Seja nos filmes blockbusters, seja nos jogos de videogame super-vendidos (13), também feitos sob ideologia da Califórnia, Hollywood é a própria expressão do Agitprop do sistema, é a perfeita exemplificação do “Aparelho Ideológico do Estado”. É difícil lembrar de um único blockbuster sem fundamental influência do pensamento hegemônico norte-americano, é a realização elegante do Ministério da Verdade. Aniquilação é Salvação.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/1586468.stm

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Committee_on_Public_Information

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_birth_of_a_nation

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Why_We_Fight

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/White_Anglo-Saxon_Protestant

6 – No nosso post Wikileaks: eu já sabia evidenciamos que a esquerda paranóica não era tão paranóica assim e que muitos dos crimes revelados documentalmente pela Wikileaks e outros vazamentos, como o recente da taxa Libor e do preço do combustível pautado por corporações, revelado pelo Guardian, já eram pregados por quase toda a direita séria há muitos anos, da imensa cartelização até os acordões das classes dominantes econômicas.

7 – Nos anos 90 haviam 50 militares para cada mercenário privado, agora a proporção é 1 para 10 (Peter Singer  IN: http://en.wikipedia.org/wiki/Private_military_company )

8 – In the 1990s there used to be 50 military personnel for every 1 contractor, now the ratio is 10 to 1 (Singer).

9 – http://voices.yahoo.com/iran-condemns-blockbuster-movie-300-as-american-psychological-249323.html?cat=40

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Top_Gun#Involvement_of_the_U.S._military

11 – Um míssil, uma munição ou uma granada, são dos melhores produtos capitalistas. No momento em que são usados não só são consumidos, como destroem coisas que estão no seu caminho. É a obsolência capitalista no seu mais alto grau.

12 – http://www.imdb.com/title/tt1345836/quotes

13 – Em reportagem da Al Jazeera recente, além da promíscua relação cinema-exército, se menciona ainda o universo dos videogames, que vale lembrar apenas o que considero um dos ápices da relação: America’s Army (2007), um jogo totalmente financiado pelo exército americano, sendo um dos primeiros com grande qualidade gráfica totalmente gratuito. Seu objetivo, segundo seu próprio criador era “utilizar da tecnologia computacional para prover ao público uma experiência virtual de um Soldado que fosse envolvente, informativa e divertida” ( http://en.wikipedia.org/wiki/America’s_Army). Vale analisar também a série Call of Duty e Medal of Honour para reforçar o argumento acima.

Crítica aos Princípios das Organizações Globo

Globo-grafiteFaz pouco mais de uma semana que as Organizações Globo, sabe-se lá porque, resolveram sair do armário. Alguns especularam que foi pelo que foi dito na blogosfera sobre a situação interna da Globo, do pautamento de reportagens e etc… Talvez tenha sido o Murdoch, quem sabe?

Assim, divulgaram um documento, com considerável destaque em seu site, contendo seus princípios programáticos, ou seja, os valores que norteiam o jornalismo (“jornalismo”) da Organização. Vale a pena lembrar outros momentos que a Globo fez grande alarde para seus princípios editoriais e compromissos com a ‘informação’ e democracia.

Certamente a mais importante foi o editorial de 2 de Abril de 1964, uma ode ao Golpe Militar contra um presidente eleito e popular. A segunda vez, também igualmente marcante foi em 1984 quando ressaltaram sua participação na “Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais, de preservação das instituições democráticas, ameaçados pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Vale a pena ler na íntegra.

Não menos importante foram as declarações de isenção e princípios (sic) após a escandalosa montagem do debate de 1989 e campanha difamatória desta mesma eleição, contra Lula e Brizola. Muito apartidário e isento.

Rio Revolta apoia integralmente esta iniciativa de transparência que certos veículos fizeram. Seria fantástico se todos os veículos de comunicação de massa fizessem o mesmo, assumindo para que vieram ao mundo e sua corrente ideológica, como fez o Estadão no calor da batalha eleitoral de 2010. Não poderíamos, entretanto, abster-se de comentar fato de tamanha importância. Por isso, segue-se o texto integral, mais precisamente, a Parte III do documento, a única que realmente nos interessa, e que disserta sobre os tais valores fundamentais.

***

As Organizações Globo serão sempre independentes, apartidárias, laicas e praticarão um jornalismo que busque a isenção, a correção e a agilidade, como estabelecido aqui de forma minuciosa. Não serão, portanto, nem a favor nem contra governos, igrejas, clubes, grupos econômicos, partidos. Mas defenderão intransigentemente o respeito a valores sem os quais uma sociedade não pode se desenvolver plenamente: a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza.

Para os propósitos deste documento, não cabe defender a importância de cada um desses valores; ela é evidente por si só. O que se quer é frisar que todas as ações que possam ameaçá-los devem merecer atenção especial, devem ter uma cobertura capaz de jogar luz sobre elas. Não haverá, contudo, apriorismos. Essas ações devem ser retratadas com espírito isento e pluralista, acolhendo- se amplamente o contraditório, de acordo com os princípios aqui descritos, de modo a que o público possa concluir se há ou não riscos e como se posicionar diante deles.

A afirmação destes valores é também uma forma de garantir a própria atividade jornalística. Sem a democracia, a livre iniciativa e a liberdade de expressão, é impossível praticar o modelo de jornalismo de que trata este documento, e é imperioso defendê-lo de qualquer tentativa de controle estatal ou paraestatal. Os limites do jornalista e das empresas de comunicação são as leis do país, e a liberdade de informar nunca pode ser considerada excessiva.

Esta postura vigilante gera incômodo, e muitas vezes acusações de partidarismos. Deve-se entender o incômodo, mas passar ao largo das acusações, porque o jornalismo não pode abdicar desse seu papel: não se trata de partidarismos, mas de esmiuçar toda e qualquer ação, de qualquer grupo, em especial de governos, capaz de ameaçar aqueles valores. Este é um imperativo do jornalismo do qual não se pode abrir mão.

Isso não se confunde com a crença, partilhada por muitos, de que o jornalismo deva ser sempre do contra, deva sempre ter uma postura agressiva, de crítica permanente. Não é isso. Não se trata de ser contra sempre (nem a favor), mas de cobrir tudo aquilo que possa pôr em perigo os valores sem os quais o homem, em síntese, fica tolhido na sua busca por felicidade. Essa postura está absolutamente em linha com o que rege as ações das Organizações Globo. No documento “Visão, Princípios e Valores”, de 1997, está dito logo na abertura: “Queremos ser o ambiente onde todos se encontram. Entendemos mídia como instrumento de uma organização social que viabilize a felicidade.

O jornalismo que praticamos seguirá sempre este postulado.”

***

Para quem tem o mínimo de leitura e consciência, a coleção de fraudes e engôdos destes poucos parágrafos é vasta. Vamos então caminhando por partes.

A primeira coisa evidente que se nota no texto é o seu viés explicitamente liberal e, um pouco mais implicitamente, utilitarista. Estas afirmações fundamentam-se caso prestemos atenção na evidente obsessão do documento com a idéia de controle das funções jornalísticas pelo Estado, que deve ser, afinal, “fiscalizado” por aquelas; e na referência implícita ao “princípio da maior felicidade”.

Para os interessados, vale a pena ler A LiberdadeUtilitarismo, de John Stuart Mill, que mais parece ter sido o próprio autor desse texto global, ainda que Mill escreva muito melhor do que qualquer jornalista da Globo.

Mesmo que este discurso liberal clássico tenha sido seguidamente desmascarado, refutado, posto a prova seguidas vezes por intelectuais tão grandes ou maiores que o próprio Mill, ou quando a própria realidade nua e crua solapa o pouco de substância que discursos como este possam ter, como o fez e vem fazendo o caso Murdoch na Inglaterra; ou com os inúmeros documentos vazados pelo Wikileaks ligando a nata do jornalismo (global ou não) ao interesse político da embaixada norte-americana. Mesmo com tudo isso, ainda há os que acreditam na fantasia da liberdade de expressão liberal… bem, maravilha! Para nós do Rio Revolta só resta, quanto a isso, a lamentar.

Da primeira frase, extraímos as seguintes qualificações: independentes, apartidárias, laicas, isenção, correção, agilidade.

Laicismo e agilidade não nos importam. E mesmo que fôssemos entrar prfundamente neste mérito, vale ressaltar que qualquer análise rasteira da programação global constata que seu ideário é majoritariamente judaico-cristão, tendendo para a corrente conservadora católica. Mas não aprofundaremos esta questão. E quanto à agilidade, não foram poucas vezes que a qualidade (!) da reportagem foi esvaziada pela necessidade de publicá-la o mais rápido possível. Houve um caso recente que o jornal “matou” um político antes da hora, sem confirmar sua morte e, mais recentemente ainda, prenderam a diretora da Caixa, antes mesmo da polícia saber do “crime” da dita cuja.

Correção é uma idéia completamente subjetiva, o que é correto para um não é para outro, e portanto o termo sequer deveria constar do documento, que se propõe a ser “objetivo” desde seu início.

Independência não nos diz nada, é um termo vazio, sem esclarecer: com relação ao que?

A coisa se agrava significativamente quando fala a respeito de apartidarismo e isenção. Qualquer discurso que se represente como “apartidário” e “isento” é, a princípio, um discurso fraudulento, mentiroso. Apartidarismo e isenção são duas idéias completamente abstratas e irrealizáveis. É objetivamente impossível para qualquer mensagem, se expresse ela da forma que for – falada, escrita, televisionada ou o que mais se queira imaginar – ser isenta ou apartidária. Ela necessariamente expressa um conjunto de valores quaisquer considerados por seus autores, a priori, mais importantes ou relevantes do que outros, que se considera menos importantes ou, simplesmente, se rejeita.

E quanto a isso não cabem subterfúgios. A própria idéia de ser “neutro” já é resultado da adesão a um determinado valor – o de que se deve buscar ser neutro… Já dizia o ditado: a única coisa neutra que existe é sabão.

Nada nem ninguém conseguirá jamais escapar deste imperativo. Mensagem é, antes de mais nada, uma transmissão de valores. Por isto não existem isenção e apartidarismo. Qualquer estudante de comunicação aprende isso no primeiro período de faculdade, ou melhor, deveria aprender. O que as Organizações Globo pretendem com os termos “apartidarismo” e “isenção” é se atribuir uma idéia de neutralidade que a coloque, diante do público, como um interlocutor “neutro”, “científico” e, portanto, “desideologizado”, confiável. Todos sabem que isto é falso, então, afirmar o contrário, só tem um nome: Isto se chama FRAUDE.

Rio Revolta, por sinal, não se propõe a ser mentiroso e fraudulento e, portanto, expõe clara e explicitamente que defende um determinado ponto de vista, uma visão de mundo específica que não é uma VERDADE auto-evidente e absoluta, mas se não uma opinião a qual se adere ou se ataca.

A mesma preocupação não permeia as Organizações Globo, que afirmam a importância dos valores “a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza” como evidentes por si só, não cabendo, portanto, sequer defendê-los (e por analogia, nem atacá-los). Ou seja, as Organizações se propõem a invocar a própria VERDADE inconteste e revelada quando alardeiam qualquer destes princípios. Tratam de travestir de verdades absolutas idéias que não passam de opiniões – ainda que largamente aceitas. Mais uma vez, trata-se de uma FRAUDE.

Aprofundemos um pouco alguns destes elementos.

Democracia, em princípio, nada nos diz. Que tipo de Democracia se fala? Popular? Socialista? Representativa? Direta? Greco-romana?

É evidente que Rio Revolta sabe que as Organizações se referem às instituições liberais democráticas burguesas. Quando o documento ausenta qualquer adjetivo que qualifique aquela democracia que defende, nada mais faz do que tentar passar a idéia de que “democracia” não precise, mesmo, de um termo que a qualifique, o que implica, em última instância, que a ÙNICA democracia que se possa conceber seja este teatro eleitoreiro em que vivemos. Este tipo de “democracia” em que o cidadão só é digno deste nome enquanto eleitor-consumidor, exercendo sua soberania política uma única vez a cada quatro anos, num apertar de botões numa urna eletrônica supostamente “isenta”. Trata-se, uma vez mais, de uma FRAUDE.

Já escrevemos sobre a democracia liberal antes e, neste caso, vale repetir:

Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínimo público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.” (Deformadores de Opinião, 27/09/2010).

Quanto aos direitos humanos, na medida em que asseguram mais do que qualquer outra coisa o direito irrestrito à propriedade, ao lucro e à utilização de dinheiro para ganhar mais dinheiro – não interessando os danos aos “direitos humanos” ALHEIOS que possam advir destas ações -, não podem prescindir de uma retificação: não são direitos humanos de fato, mas sim direitos BURGUESES. Trata-se aqui da velha e incrivelmente eficaz ideologia liberal-burguesa que faz do homem burguês o ideal absoluto e a-histórico de ser humano. É a universalização de um valor particularista, específico de uma classe e segmento social, Meszaros fala muito disso em sua obra prima Para Além do Capital. É necessário contextualizar historicamente este homem burguês que se quer como o homem por natureza, identificar como a ideologia liberal-burguesa reescreveu o passado para justificar o presente no melhor estilo “Grande Irmão” ou como eficazmente Carl Polanyi desmistifica este mito do homem ideal liberal clássico. E neste sentido, o discurso das Organizações só pode ser – uma vez mais – uma FRAUDE.

Para quem quiser tirar a dúvida com seus próprios olhos: Declaração Universal dos Direitos do Homem. Depois de ler, reflita bem no silêncio do seu lar, quais os únicos destes artigos que REALMENTE são cumpridos e universalmente propagados.

Liberdades Individuais e Livre Iniciativa – valores auto-evidentes para as Organizações -, só podem ser entendidos desta maneira se se aceita a fraude do discurso burguês sobre os direitos humanos. É evidente que liberdades individuais e livre iniciativa só se tornam fatos concretos e defensáveis na medida em que as liberdades e iniciativas de uns não obstaculizem ou impossibilitem as liberdades e iniciativas de outros – e este definitivamente não é o caso de nenhuma sociedade capitalista, na medida em que não se conhece nenhum exemplo deste tipo em que não exista um pequeno punhado de exploradores que enriquecem se apropriando da riqueza produzida pelo trabalho de uma enormidade de explorados.

Ainda se coloca que o estágio do “capitalismo de livre iniciativa” que existiu em certa época e em certos cantinhos do mundo é uma lenda do passado, praticamente inexistente no presente. A consequência última da competição capitalista se fez nos mais poderosos monopólios e oligopólios do mundo, largamente e abertamente patrocinados, protegidos ou mesmo criados pelos Estados em favorecimento de certas elites, de acordo com o interesse. Poucas grandes corporações e gigantescos grupos financeiros hoje dominam a esmagadora maioria da “iniciativa” privada do mundo. Negar isso é uma fraude. Esse fato já era evidente ainda uns 80 anos atrás e economistas da época, tanto de esquerda e de direita, procuraram combater estes problemas, sem sucesso.

Uma vez desfeita esta fraude e postas essas duas idéias sob a devida perspectiva histórica – ou seja, como interesses de classe (burguesa), e jamais como necessidades naturais do homem -, perdem totalmente sua substância e capacidade de embasar um discurso verdadeiro de liberdade.

Por fim, a cereja do nosso bolo: a Liberdade de Expressão. O que significa isso? Significa que um jornal possa, isenta e apartidariamente, revelar a VERDADE ao público, tornando-o informado das podres entranhas do poder estatal que tenta a todo instante nos escravizar, roubar nosso dinheiro, calar nossas vozes e – evidentemente – censurar os jornalistas, controlando e manipulando a livre consciência dos povos, impedindo o livre fluxo de informações e condenando-nos todos ao pior dos mundos!

Rio Revolta se regozija com a perspectiva de ter nas Organizações Globo a sua perspectiva de salvação de cenário de tal maneira sombrio e se sente um filho adolescente mimado e super-protegido, porém rebelde e mal agradecido.

Liberdade de Imprensa significa: que grupos capitalistas extremamente poderosos vão tentar controlar ideologicamente a sociedade, determinando quais valores correspondem a sua visão de mundo e devem, portanto, ser difundidos com variados graus de sutileza; e determinando, de forma análoga, quais valores são prejudiciais aos seus interesses mais fundamentais e devem, por isto, ser reprimidos ou desacreditados mediante uma associação qualquer a um passado arcaico, jurássico, “ideologizado” etc etc etc.

Liberdade de Imprensa significa: que grupos capitalistas extremamente poderosos terão suas inúmeras redes de rádio, jornais e televisão e poderão manipular livremente a agenda pública de um país qualquer, determinando o que é e o que não é interessante que caia na boca do povo e torne-se foco de discussão. E significa também que o povo não terá qualquer participação na elaboração ativa de conteúdo “jornalístico”, pois o máximo que seus parcos recursos materiais e organizacionais permitirá será a constituição de pequenos veículos de mídia locais.

Liberdade de Imprensa significa: que a elite dominante, rica burguesia, contará para você a história que quiser, da forma que quiser, e não contará para você o que a interessar que você não saiba. E que os homens do governo não só não deve ousar tolher a “liberdade de informar”, deixando a tal burguesia agir como bem entender de acordo com os interesses que bem quiser, como devem ver a mesma telenovela que você vê.

Eis que, depois disso tudo, as Organizações Globo aparecem com uma tal “função” do jornalismo…. Não nos interessa a “função” deste tal de jornalismo, posto que Rio Revolta não acredita na existência disso.

“Jornalismo” significa a transmissão de valores em larga escala permitida pelo desenvolvimento tecnológico e pela capacidade de aglutinação de capitais, recursos organizacionais e habilidades humanas proporcionadas pela moderna sociedade industrial.

“Jornalismo” significa fazer rigorosamente isto que a blogosfera faz, com o Rio Revolta incluído, contar uma história baseada numa visão de mundo específica que se adotou as expensas de várias outras que não foram adotadas por critérios completamente parciais e subjetivos.

Com a diferença de que Organizações como a Globo dispõem de meios infinitamente superiores aos da blogosfera, e uma dose também infinitamente maior de falta de vergonha na cara para fazer passar suas opiniões por verdades absolutas objetivas e inatacáveis.

Mas é fácil identificar a função das Organizações Globo: como todo grupo capitalista, sua função é a de usar dinheiro para ganhar cada vez mais dinheiro. Com a peculiaridade de que ao invés de fabricar e vender comida, remédios, crédito bancário, minério de ferro ou eletrodomésticos – fabricam e vendem notícias.

Para encerrar, caros leitores, gostaríamos de lembrar-lhes uma velha máxima:

Jornalismo não informa; deforma.

Arnaldo Gordo

participação: José Livramento

Wikileaks: “eu já sabia”

Eu já sabia

Wikileaks ou Eu Já Sabia

A Wikileaks chegou com o pé na porta. Como uma voadora na cara da política internacional, particularmente, na ‘diplomacia’ norte-americana, ela escancarou os reais desígnios norte-americanos. O rei está nú, alguns diriam. Outros falariam que finalmente o Império está sendo desmascarado, e o mundo ‘horrorizado’ vê, um atrás do outro, os escândalos internacionais envolvendo os Estados Unidos e suas corporações. O jornalismo, muito curiosamente, parece até perdido em meio a enxurrada de novos riquíssimos materiais para estudo. Imagino também, que o povo de Relações Internacionais esteja frenético 24 horas, sete dias por semana, estudando as incríveis revelações. Julian Assange, o arauto da Wikileaks, como Ellberg nos arquivos divulgados em 1971 sobre os crimes do Vietnã, se tornou inimigo público número 1 de grandes nações. Caçado pela Interpol, conseguiu inclusive, o mais improvável, fazer grande parte do mundo duvidar da democracia suéca! Sim, porque o que o próprio Wikileaks vem demonstrando que as teorias de conspiração podem ser de fato, muito mais do que teorias. No entanto, analisando caso a caso da wikileaks, pegando suas revelações no geral, nos perguntamos: alguma coisa é realmente surpreendente? Quando me fiz esta pergunta, eu lembrei da clássica “Eu já sabia”, vista volta e meia nos estádios do nosso amado futebol.

A Wikileaks revelou que os EUA cometeram centenas de crimes de Guerra… Isso é novidade? Afeganistão, Guantánamo, Iraque, assassinatos colaterais… Eu já sabia. É de ‘conhecimento mineral’ que os EUA patrocinaram uma série de atentados contra a democracia, patrocínio de ditaduras e de grupos de extermínio pelo mundo. As esquerdas pelo mundo já falam disso, sem parar, há pelo menos 50 anos – se você contar o livro do Lenin, de 1916 (Imperialismo: o mais alto estágio do capitalismo) temos estas denúncias há quase 100 anos já, na época é verdade, eram mais os Impérios europeus, mas já conta. Para quem tem preguiça de ler sobre isso recomendo dois recentes filmes: War on Democracy (2008) e South of the Border  (2009), o segundo tem legendado, o primeiro não sei.

A Wikileaks revelou que os EUA e seus satélites no Oriente Médio (Arábia Saudita e Israel) temem que o Irã tenha a bomba. Outra ‘fresquíssima’ novidade. No caso do Irã a única coisa que me pareceu novidade foi que setores religiosos estão descontentes no Irã pois o neo-fascista do Ahmadinejad para se fortalecer, enfraqueceu demais o Conselho dos Aiatolás (algo como o Senado iraniano)… Natural para um fascista, compreensível, mas nada incrivelmente surpreendente, aliás, algo pouquíssimo alardeado pela grande imprensa.

Os documentos de Assange também revelaram que a China está de saco cheio da Coréia do Norte… Quem não estaria, inclusive vários setores políticos chineses já se perguntavam isso há anos… Na Russia, os arquivos falavam que esta se transformara num Estado Mafioso, dominado de dentro do Estado por setores corruptos, ultra-mafiosos…. Nossa, isso surpreende alguém?? O partidão soviético já funcionava como uma máfia, quando ele caiu, ela só tomou o resto do Estado que não dominava, dilapidou e privatizou tudo que foi possível… Alguém realmente acha surpreendente que os delegados regionais e grandes lideranças regionais do PC soviético, se tornaram multi-bilionários fatiando o Estado virgem russo para o grande capitalismo mundial???

Na África a Pfizer usa crianças e doentes de países pobres como cobaias de seus remédios e ainda chantagia políticos locais quando as coisas não vão bem… Isso é terrível,fato. Mas é surpreendente e inédito? Virou até cinema, no excelente filme O Jardineiro Fiel. O setor farmacêutico americano que ameaçou de morte Michael Moore, que disse que Saúde Universal nos EUA é anticonstitucional… Surpreendente seria se elas fizessem algo realmente progressista e humano.

No Brasil, Wikileaks revelou que vastos setores da nossa elite política e economica são altamente subservientes, revelou que o lobby das petroleiras agia forte com o PSDB (Serra em particular) e que os EUA viram diversos de seus interesses políticos contrariados; revelou que ‘jornalistas’ como William Waack e Mainardi eram frequentemente consultados e usados como porta-vozes da vontade da CIA… Novidade mesmo? Nenhuma. De cabeça me lembro do livro de Theotonio dos Santos: Ascensão e Queda do Neoliberalismo, onde a parte sobre o Brasil já fala disso em 2004… Também lembro do livro O Desmonte da Nação de 1998, quando fala exatamente de FHC e o demotucanato (na época pefelismo-tucano) transformando sua Teoria da Dependência em Prática da Dependência.

Então, o que há de tão espantoso na Wikileaks??

Papai Noel

No fundo mesmo, nada. Quem sempre leu e esteve atento ao que o pensamento anti-hegemônico disse nos últimos 50 anos, vai achar a Wikileaks apenas mais uma nota de rodapé de referência bibliográfica, pois é isso que ela faz, engrossa um coro que já era dito há décadas. O espantoso são os jornalões da direitaça mundial não terem admitido que boa parte da esquerda paranóica esteve sempre certa: o imperialismo é altamente arraigado no Estado. O Estado Corporativista (isto é, das Corporações) coopta elites locais, compra quem puder, e o Estado (governo) dos EUA usa de sua influência política, militar e barganha (ameaça seria melhor palavra) com Estados e elites políticas menores, corruptas e subservientes, para fazer a vontade e os lobbies das suas mega-corporações capitalistas. O Estado americano é o maior agente capitalista do mundo…. Mas pera ae!! Isso é novidade?! Para os jornalões e a direita “integrada” parece que sim, mas eles – ao que tudo indica – nunca leram os clássicos da literatura da esquerda. Um pouco do Sapo Barbudo – o original – não faz mal a ninguém.

“Eu já sabia!”

José Livramento