Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

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De derrota em derrota até a vitória final

"Todo poder aos black blocs?"

“Todo poder aos black blocs?”

50 mil pessoas defendendo a educação no Rio e só se fala de quebra-quebra, destruição, “porrada, tiro e bomba”.

Pelo que lutavam mesmo? Irrelevante.

Não interessa que o prefeito ignorou por completo as demandas e ainda disse que os “professores não sabem sabem fazer contas“, o importante é o ônibus incendiado, os prédios destruídos e a manifestação-espetáculo dos denominados blocos de preto.

Não interessa que uns dias antes, a polícia sob o comando estadual, fez o que mais sabe e reprimiu duramente os professores, sem que qualquer “baderneiro” tivesse iniciado o confronto.

Quem eram mesmo? Irrelevante.

Não interessa que não só professores estavam lá, que haviam bancários, bombeiros, estudantes, universitários e muitos simpatizantes. Até bandas musicais vieram enriquecer a manifestação, o foco é exibir o ônibus em chama na capa do jornal.

Qual era a pauta dessa greve mesmo? Irrelevante.

No velho roteiro do poder constituído, a velha e parte da nova mídia, quando não ficam no mais completo silêncio, trazem sempre o mesmo enredo: arruaceiros, vândalos e marginais estragaram uma manifestação legítima, a festa democrática. Ninguém lembra do que a imprensa dizia dos grevistas, “agitadores”, sindicalistas – os “comunalhas” de sempre – a destruir a Rio Branco depois da escandalosa privatização da Vale do Rio Doce em 1997? Não foi o MST taxado em capa de revista como baderneiro, raivoso ou coisa pior? Não chamaram o estancieiro latifundiário João Goulart de “comunista” e “subversivo”?

Nos jornais e na boca do poder constituído, qualquer ato político que venha a incomodar o seu poder será desqualificado. São vândalos, irresponsáveis e desordeiros.

Sempre foi assim.

Se há greve nos ônibus vão mostrar o coitado que não pode chegar no trabalho por causa de uns “sindicalistas egoístas”; se é greve de professor, a manchete é sobre alunos prejudicados por aproveitadores cooptados por sindicatos partidários e tendenciosos; se é pela descriminalização das drogas,  o tom é de “maconheiros filhos de papai que só querem fumar sua erva em Ipanema sem ser incomodado”; se são camponeses lutando por pequeno espaço no campo no país com colossal concentração de terras, não passam de “vagabundos ocupantes”, terroristas invasores; se a manifestação fecha uma rua vão indubitavelmente enfatizar o “direito de ir e vir” dos outros e que é que ditatorial fechar ruas. Enfim, o posterior “avacalhamento” público, distorção e “manipulação” das manifestações pela mídia (incluindo governo) é, certamente, a única regra que se deve tomar como verdadeira ao se expressar nas ruas. A desqualificação de greves, ocupações, manifestos, e claro, protestos violentos ou não, é a principal e mais eficaz arma de desmobilização e desarticulação de qualquer manifestação que toma as ruas, independente do número de manifestantes.

Portanto, se a regra é a desqualificação posterior em massa, algumas considerações fundamentais devem ser feitas.

Muitos concordaram que nos idos de junho, houve de fato a necessidade simbólica de “quebrar tudo” como demonstração clara e evidente de descontentamento com a ordem vigente. Como colocamos neste blog  anteriormente:

O vandalismo [de junho] representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica.

Então, na ocasião, quase que todos os lados apoiaram e exaltaram as manifestações espontâneas pelo país todo, culminando nos atos de destruição de 17 e 20 de junho. Seja a esquerda jovem vislumbrada com o gostinho de revolução deixado no ar enfumaçado, seja a direita oportunistas de plantão querendo usar o momento para derrubar o atual poder que detesta, passando pelos “coxinhas” e apolíticos em geral, inconscientemente nas ruas “contra tudo que está aí” sem saber exatamente o que exatamente defende.

Enfim veio Outubro e apresentou fatos diferentes.

Dando sequência ao violento “despejo” dos professores manifestantes que ocupavam a Câmara do Rio, uma grande manifestação de professores no Dia 1 de Outubro foi também seguida por ação violentíssima dos policiais. No esquema do “foi mal fessor“, a polícia desavergonhada de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, perdeu o pudor e reprimiu como nunca uma das categorias mais sofridas do país, causando indignação nacional e alimentando o fogo da grande manifestação do Dia 7 de Outubro. Situação semelhante ao estopim de junho, por muitos considerado a excessiva repressão da PM paulista no Movimento Passe-Livre.

O fato novo apresentado por essa manifestação do dia 1 de Outubro foi a atuação expressiva do bloco negro (black bloc). Como muitos presenciaram, foram fundamentais para segurar e desviar a atenção da violenta polícia cabralina, dando tempo para que as inúmeras senhorinhas e “tias”, componentes numerosos e mais frágeis presentes entre os professores manifestantes, fugissem dos cassetetes, nuvens de gás e pólvora causadas – neste dia – exclusivamente pela ação policial. Foi a primeira vez que visivelmente, o black bloc remontou sua origem alemã e colaborou efetivamente com outros núcleos políticos, no caso, o sindicato dos professores, fortalecendo todo o movimento. Não foi por acaso que entre o dia 1 e o dia 7 de Outubro, os professores e boa parte da esquerda, os defenderam ardentemente. “Black bloc é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo” era um grito que se houvia no dia 7.

50 mil pessoas na rua e só se fala em destruição.

Dia 7 de outubro, segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro.

Relembrando...

Nem a pusilanimidade da Dilma foi esquecida.

A manifestação foi incrível. A pauta específica era o repúdio ao plano de carreira da educação do Eduardo Paes, mas a pauta geral era pela melhoria da educação brasileira. Milhares de pessoas, professores, bombeiros, bandinhas, bancários, universitários, secundaristas, alunos e simpatizantes. Milhares de mensagens, faixas, cartazes, gritos e cantoria em protestos variados em torno da educação. Até mesmo a UNE-UBES e o PCdoB superaram sua agorafobia adquirida nos últimos anos e estavam lá com suas solitárias bandeiras a engrossar o caldo.

E então, após belíssima marcha pela Rio Branco, chega-se à Cinelândia. Certo tempo de gritaria e protesto na frente da Casa do Povo e começa o ritual destrutivo do fronte juvenil. Rojões e malvinas contra bancos e claro, contra a própria Câmara. Lembrando muito o dia 17 de Junho, a ausência de policiamento efetivo para uma manifestação daquele tamanho, só fez crescer a confiança da linha de frente e a suspeita da tática “terra arrasada”. Fogos de artifício e molotovs iluminaram a noite chuvosa.

No fundo não importa muito quem começou, pois o enredo seria como o descrito no início do texto.

Que tenha sido um revide, um ataque preemptivo ou uma reação espontânea, a linha de frente das manifestações de sua parte, fez chover rojões, malvinas, pedras, bombas caseiras, molotovs e tudo mais que a ritualística de confronto com a polícia tem apresentado. Os dois lados, cedo ou tarde, estavam bem agressivos e não demorou para a polícia, mesmo em baixo número avançasse gradativamente na “retomada do território”. Então, em meia hora, a grande manifestação foi dispersada em pequenos focos resistentes e radicais espalhados pelo Centro e adjacências. O grosso restante voltava para casa sob fortíssima chuva.

Porém, independente dos sentimentos sobre o bloco negro ou até mesmo da justeza de algumas suas práticas – parafraseando Brecht O que é uma vidraça de banco diante da criação de um banco? –, é difícil negar que o “ritual destrutivo” ofensivo, como apresentado no dia 7 de Outubro, esteja claramente servindo mais para reforçar o esvaziamento completo das manifestações, especialmente no sentido ideológico-propagandístico, do que para qualquer apelo por mudanças ou mesmo para angariar mais simpatizantes. A julgar pela capa da maioria dos jornais, editoriais, opiniões propagadas e repercutidas aos montes nas ruas e redes sociais, a velha fórmula de desqualificação já está em pleno vapor.

50 mil na rua e só se fala em “vandalismo e depredação”.

Desta forma, seja por muitas testemunhas que viram – na ocasião – a ação direta dos black blocs mais como “ataque” do que como “revide” contra a repressão da polícia ou, ainda mais importante, seja pelo evidente enfoque que todo o aparato midiático e governista já está dando na desqualificação em “vandalismo”, buscando uma vitimização da polícia e do governo local, o resultado será fatalmente o enredo tradicional de esvaziamento das pautas e a criminalização das manifestações radicais. E seria bastante ingênuo subestimar o poder de formação de consenso do aparelho estatal aliado do aparelho midiático.

Assim, é fundamental lembrar que tão ou mais importante que o fato em si, é como o mesmo é interpretado e é respondido pelos agentes do seu tempo.

Sem uma base ideológica, propagandística e objetivos claros, a violência simbólica da destruição disruptiva, será capturada por quem bem conseguir, positiva ou negativamente. E, em geral, infelizmente é usada para os fins mais retrógrados possíveis. Enquanto voam pedras e foguetinhos contra a polícia, retornam porrada, tiro e bomba. Se vão ao chão agências bancárias, pontos de ônibus e latas de lixo, o que retorna são leis anti-terrorismo, prisões arbitrárias, presunção de culpa e Lei de Segurança Nacional. Sem saber exatamente o que se pretende construir, a destruição pode apenas abrir caminho para outros que sabem exatamente o que querem e não terão escrúpulos em usar todos os agentes possíveis para seu fim.

Além disso, do ponto de vista do confronto em si, é importante lembrar o estrategista Sun Tsu, se nossos adversários e inimigos vêm com verdadeiros exércitos armados, cães e bombas, enquanto nós só temos palavras de ordem, fogos de artifício e muita disposição, é triste, mas nós já perdemos essa batalha. A arma da crítica não supera a crítica das armas, diria outro. Dado este cenário, é impossível tomar à força a Câmara ou a ALERJ, quiçá o Palácio do Planalto ou qualquer símbolo de comando do governo. Não há a remota possibilidade no contexto atual. Isso porque nem tem sido necessário ao Estado usar bala de verdade como ocorreu na Turquia e ocorre no Egito.

No contexto atual, a única possibilidade de vitória é a simbólica.

Por vitória simbólica compreende-se principalmente, o constrangimento público e desmoralização das “verdades do poder constituído” como parte de um processo de conscientização e educação política da população, envergonhando sua passividade e abalando o consenso e legitimidade do poder que a domina. O “constrangimento educativo” e desmoralização aparecem ao tornar evidentes algumas grandes contradições inerentes ao sistema capitalista que se pretende democrático e plural, forçando-o a tomar medidas claramente antagônicas à sua imagem pública. Isto é, o conduz a medidas claramente anti-constitucionais, a rudezas jurídicas, a apologia à repressão excessiva em plena democracia, ao autoritarismo praticado em nome da “liberdade” e claro, levá-o a escancarar a promiscuidade entre poder político e poder econômico que o constituí, como ficou evidente no alinhamento da grande mídia com o governo Cabral-Paes e, claro, no vergonhoso desfecho da CPI dos Ônibus, mostrando que realmente o  Estado não passa de um comitê de negócios da classe dominante.

Por fim, se bater em professores indefesos é um desastre político como foi e ninguém em sã consciência política apoiaria a prática, bater em professores que dão suporte a “vândalos e baderneiros” é uma história completamente diferente. A deslegitimação específica  dos black blocs busca na verdade, esvaziar o geral das manifestações, criando legitimidade na repressão indiscriminada, de “pacíficos ou não”. Assim, é fundamental que a posição violenta das manifestações surja como revide, como resposta e, jamais, como ataque, como assalto e afronta planejada ao poder constituído. Desta maneira, as táticas ofensivas dos black blocs, levando aos montes rojões, malvinas e fogos de artifício, parece servir apenas para legitimar uma repressão generalizada e esvaziar a manifestação em questão, escondendo as reivindicações e as pautas em fumaça e fogo. Elas não parecem constranger o real agressor, ao contrário, lhe dá motivos públicos o suficiente para justificar a repressão que o poder queria desde o início.

No nosso contexto portanto, a vitória simbólica é erguida em geral a partir de uma derrota física; se constrói ao fazer com que o poder constituído atue contra a opinião consensual da população e contra sua própria opinião como poder representativo do povo, gerando mais e mais insatisfação e escancarando mais e mais contradições inerentes ao “capitalismo democrático”. O constrangimento público enfim, deslegitima o poder constituído e fortalece os seus antagonistas, reforça o ímpeto dos radicais, radicaliza os moderados e os “simpáticos à causa”, por fim, força a todos à politização, incluindo os “indiferentes” e “alienados”, passo fundamental para a conscientização de classe e posição social no conflito. Relembrando o velho chinês: “De derrota em derrota até a vitória final”.

Leandro Dias

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A democracia e o mito da sua representação pacífica

A Paz no Alemão

As manifestações ocorridas no Brasil nas últimas semanas, resultando quase sempre em confrontos localizados com as forças de segurança do Estado, trazem uma vez mais para a ordem do dia as representações dos fatos veiculadas pelos grandes grupos de comunicação hoje existentes no Brasil.

Essas representações são invariavelmente parciais ou, simplesmente, flagrantemente deturpadas.

Via de regra, elas exploram alguns episódios limitados de danos ou destruição de propriedades e bens públicos e privados para disseminar a idéia da existência do “vandalismo” nas manifestações, ou seja, em última instância, criminalizando toda e qualquer demonstração ou emprego de violência por parte da reduzida parcela dos manifestantes que apresentam disposição e coragem para tal.

Conceituou-se, nesses discursos, uma distinção clara entre “manifestantes” – pacíficos – e “vândalos”, “arruaceiros” ou “baderneiros” – violentos -, nos quais os primeiros são aceitos ou até mesmo comemorados, enquanto que os últimos são denunciados e rechaçados com veemência.

Tudo se passa como se a eventual violência dos manifestantes fosse uma ilegitimidade numa sociedade em si mesma pacífica e que aquela violência, quando presente, deva ser a priori condenada.

Subjaz a esse discurso o ideal de que a chamada “democracia” seria uma forma em si pacífica, não-violenta, de organização política e que permite, sim, a livre manifestação dos insatisfeitos, desde que essa expressão se dê de forma ordeira, pacífica, não confrontadora, sem danos ao patrimônio.

Por razões óbvias, além da mídia, esse também é o próprio discurso oficial das figuras representantes das autoridades constituídas, tais como prefeitos, governadores e a própria presidente da República.

Finalmente, trata-se de um discurso de fácil aceitação e grande reverberação por amplas parcelas da população, conforme temos percebido ao observar as chamadas “redes sociais”.

Contudo trata-se de um discurso distorcido, não sendo muito difícil percebermos o porque.

Ordem política é violência

Max Weber, em que pesem todos os seus esforços para conceituar as formas típico-ideais do exercício consensual do domínio político, ou seja, com o consentimentos dos dominados – tradicional, carismático e racional-legal -, nunca negou o fato de que o poder último, decisório e definitivo que sustenta essa relação é o emprego da violência.

Por isso, naquela que provavelmente é, na sociologia, a definição não-marxista mais corrente do Estado, Weber definiu a sua principal característica como a de ser o detentor do monopólio do uso legítimo da violência.

No Brasil contemporâneo, a julgar pela representação dos fatos veiculada pela mídia e exercitada nos discursos dos representantes dos poderes constituídos, tudo se passa como se a ordem política atualmente vigente entre nós, dita “democrática”, não fosse, ela própria, assegurada pelo emprego rotineiro da violência em larga escala, de forma mais ou menos explícita.

É uma ordem representada como, em si mesma, pacífica, livre do uso e do exercício da violência, fundamentada, em última instância, no típico ideal liberal de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, através de seus representantes escolhidos em eleições livres.

Todavia, é evidente que as coisas não se passam dessa maneira, e nem poderiam se passar, particularmente, numa sociedade como a brasileira, caracterizada por níveis impressionantes de desigualdade na apropriação da renda, da riqueza, no acesso aos serviços públicos e aparelhos midiáticos.

Uma sociedade, portanto, cujo controle social de amplas camadas de sua população, marginalizadas, requer o exercício permanente, diário, da violência em suas formas mais explícitas, conforme se pode verificar nas ações de repressão das forças estatais nas favelas e nas áreas periféricas das cidades brasileiras, no campo ou em demarcações indígenas.

Portanto, é necessário contrapor àquele discurso um fato óbvio e inegável: a ordem dita “democrática” por ele defendida é, sim, violenta, e por sinal, violenta numa escala incrivelmente superior, em duração e intensidade, à violência praticada em qualquer das manifestações já ocorridas na história desse país.

Vamos, considerar, portanto, o problema em termos distintos dos contidos naquele discurso: não se trata de denunciar a violência como produto da ação de “vândalos”, mas sim, de distinguir a prática da “violência oficial”, ou estatal, da “violência não-oficial”, ou paraestatal.

Não há “democracia” pacífica

Uma ordem política, seja qual for e até que se prove o contrário, se fundamenta na imposição, ou na capacidade dos agentes dominantes em impor seu domínio sobre uma determinada população, dominada.

As formas de estabelecer, assegurar e exercer esse domínio fazendo o menor uso possível da violência, ou pelo menos, reconhecendo a necessidade de seu emprego de maneira contida, pontual, é um problema que vem ocupando muitos dos principais filósofos políticos da história, a começar, pelo menos, por Maquiavel, considerado o fundador da ciência política.

Daí também todo o apelo, de natureza moral, oriundos de fontes tão distintas como os ideais religiosos, liberais, socialistas e muitos outros mais, para o exercício mais consensual possível da política, fazendo, com isso, o uso mais limitado possível da violência, jamais a descartando, contudo.

Todavia, em que pesem os interesses e as pressões dos valores éticos e morais contra o uso da violência na política, deve-se reconhecer na história que a imposição do domínio sobre os dominados é, sempre, em última instância, garantida pela violência, que é o recurso último, decisivo e definivo da política, não importando sob quais formas institucionais, ditas “democráticas” ou não, essa esteja sendo praticada.

Isso não implica defender o uso indiscriminado ou arbitrário da violência como forma de exercício legítimo da política, nem de naturalizar esse uso, aceitando-o.

Mas se trata de reconhecer que, pelo menos até o presente estágio da história humana, sem esse recurso, não foi possível o estabelecimento de relações de domínio nem, consequentemente, de Estado.

A fraude da criminalização do “vandalismo” e o mito da natureza pacífica da “democracia”

Concluindo, o discurso midiático e governamental do caráter pacífico, não violento, da dita “democracia” é, portanto, enviesado, pois só reconhece como prática da violência a violência não-oficial, paraestatal, não admitindo que a ordem política estabelecida é, também ela – ou melhor, primordialmente ela – fundamentada na prática diária da violência.

Sendo a violência um componente fundamental da manutenção da ordem política dita “democrática” sob a qual hoje se encontra o Brasil, não há nenhuma contradição em questionar se é moralmente condenável o emprego da violência por parte dos “vândalos”.

Não se trata, também, de enaltecê-los ou de julgar justas as suas ações, mas de questionar porque deve-se negar o uso da violência pela população se esse é um recurso ostenstivamente utilizado contra ela própria pela ordem estabelecida, “democrática”, que a domina.

A esse respeito devemos lembrar, inclusive, que filósofos políticos liberais, como por exemplo John Locke, defenderam não somente o direito, mas também o dever, de uma população recorrer às armas para derrubar governos que não estivessem cumprindo adequadamente suas responsabilidades.

Por isso, aqueles que rejeitam o “vandalismo” sem se dar conta, ou sem reconhecer, que ele significa uma violência de escala e intensidade mínima se comparada à violência da ordem estabelecida, estão, por ingenuidade ou má intenção, se colocando como porta-vozes de uma ordem que se sustenta na violência como fator decisório último, mas que nega a sua prática aos que reagem ao seu domínio.

Há, portanto, um discurso claro em curso que visa criar, na sociedade brasileira, um clima de censura ou coerção moral contra o exercício não-oficial ou paraestatal da violência, sem reconhecer a natureza cotidiana e abertamente violenta das práticas políticas de suas próprias instituições.

Um discurso pretensamente pacifista mas, na prática, profundamente conservador e legitimador de uma ordem política explicitamente violenta e que precisa sê-lo, posto que garantidora de desigualdades sócio-econômicas brutais.

Não há, a esse respeito, outro caminho: ou se rejeita a violência como um todo, criminalizando-a seja quais forem suas fontes ou os agentes que a praticam, ou se aceita, sem criminalizar, a violência de ambas as partes como um dado concreto, por desagradável que seja, do exercício da política.

Daniel Kosinski

A candidatura Freixo: esperança, inviabilidade e decepção

Veloso, Freixo e Chico

Toda eleição no Rio de Janeiro é a mesma coisa: a classe média dita politizada carioca se une, esperançosa, em torno de algum candidato, um novo e fabuloso messias moralizador que tudo resolverá, a começar, e principalmente, pelo combate à corrupção. Chama a nossa atenção como a classe média se encanta com promessas de combater aquilo que ela própria, sob as mais diversas formas, mais pratica.

Qual vem sendo o comportamento eleitoral recente desta tal classe média?

Passemos a alguns fatos. Não custa lembrarmos das últimas eleições, em 2010.

O referido estamento adotou como candidata Marina Silva, do PV, cuja monotemática campanha tinha como companheiro de chapa a vice-presidência o empresário paulista Guilherme Leal, presidente da Natura e dono de uma sustentável fortuna de aproximadamente um bilhão e meio de dólares, segundo a Revista Forbes. [1]
Sui generis combinação, numa mesma chapa, de uma plataforma política que conciliava um discurso ambientalista com a prática da mais voraz acumulação capitalista, resultando numa quimera chama desenvolvimento sustentável.
Como se o capitalismo pudesse ser outra coisa que não o avanço constante e irrefreável sobre todos os recursos humanos e naturais disponíveis.

Já no que dizia respeito às eleições para o governo do estado, a referida classe média adotou a candidatura Fernando Gabeira que, para antagonizar seu adversário Sergio Cabral, candidato do Governo Federal petista, terminou por apoiar a candidatura “progressista de esquerda” de José Serra, do PSDB, no plano nacional, no 2° turno [2].

Um candidato a vice-presidente sustentavelmente multi-bilionário e um candidato progressista ao governo estadual que apoiou José Serra no 2° turno das eleições presidenciais: fatos que, evidentemente, não foram suficientes para saltar aos olhos da intelligentsia [3] do Partido Socialista da Vieira Souto e adjacências.

Eis que se aproximam perigosamente as eleições municipais de 2012 e o fenômeno, mais uma vez, vem se repetindo, atendendo desta vez pelo nome de Marcelo Freixo, candidato do PSOL à Prefeitura carioca.

A primeira pergunta que faço a respeito é: porque Freixo resolveu concorrer no Rio de Janeiro, e não em sua base eleitoral, Niterói, onde suas possibilidades de vitória eram infinitamente superiores, até pelo próprio perfil pequeno-burguês da maior parte de seu eleitorado? [4]

O perfil de Marcelo Freixo, defensor de determinadas plataformas progressistas, aponta claramente para um candidato viável para cargos legislativos, de eleições proporcionais, porém de viabilidade eleitoral muito reduzida para cargos executivos, de eleições majoritárias, pois trata-se de questões que passam longe das preocupações diárias de subsistência da maior parte da população, mesmo num estado rico – para os medíocres padrões brasileiros – como o Rio de Janeiro.

Suas possibilidades se deterioram ainda mais fora de sua cidade, que dirá concorrendo contra Eduardo Paes, apoiado pelo trágico governador Sergio Cabral e também, trágica e desastrosamente, pela presidente Dilma e pelo ex-presidente Lula.

Uma combinação de forças que tornam sua candidatura uma mera formalidade. O prognóstico é simples: só um milagre ou uma catástrofe total e aparentemente impossível para tirar a vitória de Eduardo Paes, ainda no 1° turno.

Essas questões a parte, a candidatura Marcelo Freixo vem recorrendo aos velhos artifícios das candidaturas que se fundamentam na classe média politizada carioca.

Embora inclinada à esquerda, às plataformas políticas progressistas, é uma classe média incapaz de se desvencilhar de suas origens pequeno-burguesas e dos privilégios de classe de que desfruta. Daí praticar um “esquerdismo” light, muito mais ligado às manifestações culturais das elites cosmopolitas bem educadas do que ao ativismo político junto aos partidos políticos, aos sindicatos e às classes trabalhadoras dominadas – coisas que ela, por sinal, rejeita. [5]

Em suma, um “esquerdismo” inócuo e politicamente neutro, como bem convém à ordem liberal burguesa.

Entre aqueles artifícios, destaco um marketing – sim, porque lembraremos sempre que eleição não é política, é comércio, mercado – que faz vasto uso de artistas populares de nome como Caetano Veloso e Chico Buarque, apelando para a fina sensibilidade artística de seu potencial eleitorado. Não custa lembrarmos que Chico Buarque é um dos mais notórios intelectuais orgânicos do comunismo parisiense. Não a toa, promoveram um show de arrecadação de fundos para a Primavera Carioca de Freixo, a preços módicos e bem populares, como é típico dessa classe artística engajada de esquerda: R$ 360 [6]. Mais da metade do valor do salário mínimo nacional, R$ 620 [7]. Tudo bem, shows para arrecadar fundos são extremamente comuns nas democracias do mundo, e normal ele querer fazer um show para obter grana da classe média alta, o ruim é ele não ter feito nada semelhante para captar grana ou apoio dos trabalhadores de baixa renda. Pelo menos não fez pior, os famigerados showmícios, shows pagos com grana do partido ou grana pública [8]para agregar pessoas para um candidato sem prestígio.

Diálogo com a classe trabalhadora é isso aí.

Para disputar e vencer eleições (burguesas) é necessário dinheiro – muito dinheiro. A candidatura Freixo não dispõe, nem remotamente, dos vastos recursos à disposição de seu principal rival, Eduardo Paes. Torna-se necessário buscar os recursos que viabilizem a vitória em algum lugar.

Para Paes, é simples: sem nenhum tipo de compromisso ou constrangimento de ordem ideológica, se apóia nas empreiteiras, que serão recompensadas depois com vitórias em “licitações” multi-milionárias.  Para Freixo, ideologicamente comprometido com uma plataforma de moralização da política, e eleitoralmente comprometido em ser oposição à candidatura Paes, não se trata de recurso cabível. Tem de recorrer a alternativas como, por exemplo, os artistas.  Muitos pensarão que esse fato absolve a candidatura Freixo, e torna imperativo realizar esse tipo de espetáculo com vistas a obter recursos que, quem sabe, viabilizem a improvável vitória. Mas devemos lembrar que trata-se de fato que, sem dúvidas, não impede a corrupção: basta, por exemplo, recompensar tais artistas com fantásticos cachês para shows no Réveillon carioca ou outros eventos. Lembrando o link acima do Paes, onde os artistas populares que o “seguem” são frequentemente pagos com dinheiro da prefeitura). [8]

Coloca-se, então, para Freixo e para candidaturas com o seu perfil, um paradoxo insolúvel.

Ou se mantém fiel ao seu programa progressista, e inviabiliza-se eleitoralmente; ou viabiliza-se entrando no jogo (sujo) da política eleitoral, corrompendo seu programa.

Nestes casos, só dois caminhos são possíveis: a derrota eleitoral, ou uma vitória de Pirro, que é seguida pela decepção de seus eleitores.

Tudo isso apenas expõe um fato muito, muito claro: socialismo e eleições (burguesas) não combinam, pois as instituições liberais burguesas que hoje se convencionou chamar de “democracia” não foram, é claro, pensadas para dar este tipo de resultado eleitoral. São instituições conservadoras, produto da ordem vigente, para a ordem vigente. A contradição, é insolúvel, é insuperável. Não se deve ter falsas esperanças: só mesmo a superação desta ordem pode solucioná-la.

Arnaldo Gordo

Notas:

1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Leal
2. http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,gabeira-confirma-apoio-a-serra-no-2-turno,620075,0.htm
3. O termo vem do idioma russo, e se refere àqueles trabalhadores engajados em atividades culturais e intelectuais. Seu antônimo, muito mais comum, se denomina burritsia.
4.Niterói é uma cidade curiosa, e de certa maneira, motivo de inveja para a classe média burguesa da capital. A divisão Niterói-São Gonçalo equivaleria às zonas Sul e Centro do Rio de Janeiro formarem uma cidade independente dos subúrbios. Não é outra a razão pela qual Niterói tem um dos três mais elevados índices de desenvolvimento humano do Brasil, enquanto São Gonçalo é um município marcadamente subdesenvolvido.
5. Se os trabalhadores se emanciparem, de onde virão as faxineiras e empregadas domésticas?
6. E que ainda dá ao PIG a oportunidade de fazer gozações:
http://oglobo.globo.com/pais/ingresso-de-show-pro-marcelo-freixo-custara-360-5973854
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/show-caetano-veloso-chico-buarque-marcelo-freixo-a-noite-acanhada-da-esquerda-festiva
6. http://www.portalbrasil.net/salariominimo_2012.htm
8. http://eleicoes.uol.com.br/2012/noticias/2012/07/24/artistas-que-apoiam-eduardo-paes-fizeram-shows-pagos-pela-prefeitura-do-rio.htm

O Sr. Governador chora por óleo ($$$) mas não chora por mortos

Rio Revolta volta no tempo algumas semanas…

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Há algumas poucas semanas, um comovido Sr. Governador encontrava-se na PUC-RJ quando, visivelmente muito emocionado e comovido, chorou como uma criança que teve seu pirulito roubado.

O nosso teatral Sr. Governador, além de estar revivendo suas veias artísticas de suas épocas de aluno do Tablado, não chorava o choro sincero do infante lesado em suas guloseimas; mas chorava, sim, o choro demagógico de quem sabe que, por obra de um determinado Sr. Deputado do Sul do país, seu grupo político-partidário perderia acesso à verdadeiras montanhas de $$$…. Além do mais, sua reeleição no final do ano, até então tranquilamente encaminhada, sofreria sem dúvida um desagradável percalço, sendo o assunto devidamente explorado pela “oposição”.

Passemos às palavras do próprio Sr. Governador:

“O Rio de Janeiro quebra”

“Não é que a gente não consiga fazer as Olimpíadas. A gente não consegue fazer mais nada. Nem pegar um empréstimo”

Isso em função das perdas no orçamento do estado, que chegariam a 5 bilhões R$ diretamente; e mais 2 bilhões R$ indiretamente, que deixariam de ser arrecadados pelos municípios.

Pois bem. Nosso Sr. Governador tem toda a razão em estar desesperado, comovido; deve estar preocupadíssimo porque na falta desse dinheiro, o estado que governa deixará de apresentar o asfalto mais liso e as melhores estradas do país; os programas habitacionais de milhões de casas construídas terão que ser interrompidos; a educação secundária do estado cairá assustadoramente de nível e não poderá mais rivalizar com as escolas japonesas; o sistema-modelo de saneamento básico da Baixada Fluminense não poderá sofrer reparos e rapidamente desaparecerá; o Metrô do Rio continuará sendo o mais abrangente, eficiente e barato do país; ah e claro, não poderia esquecer das Olimpíadas, motivo de orgulho máximo e a solução para todos os problemas da cidade: não poderá, infelizmente, ser mais realizada…..

Algumas semanas, uns dias de chuva e mais ou menos 250 mortos depois, o referido Sr. Governador, falando ao vivo para a televisão nos pés do desmanchado Morro do Bumba, não demonstrou nem de longe tal comoção. Também não chorou.

E quanto as vaias que recebeu?

http://www.youtube.com/watch?v=chGdDNlnMig

A. G.