Rio Revolta

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Hitler e o Socialismo

Hitler socializando com companheiros.

Em um dos mais repercutidos textos aqui do Rio Revolta, levantamos uma coleção de citações de Adolf Hitler sobre o marxismo. A finalidade, mais uma vez, era traçar um fundamental corte na posição que tenta colocar o nazismo como uma vertente do marxismo. As citações de Hitler naquele texto vieram ilustrar, com as palavras do referido, como o líder nazista tinha profundo asco da ideologia e visão de mundo marxista.

Porém, se esse asco de Hitler por Marx é inegável da a infinidade de citações no tema, ainda reside uma questão fundamental no caso. Afinal, se certamente Hitler odiava o marxismo, por que então ele regularmente se afirmava um socialista?

Para responder esta questão precisamos reafirmar o óbvio: o marxismo é uma tradição socialista, mas não é a única. Precisamos sair da dicotomia primária e inútil – “socialismo x capitalismo” – que corrói tanto a esquerda quanto a direita, e afirmar, com base no estudo histórico e econômico, que assim como Hitler, o próprio Marx identificou uma série de tipos de socialismo no seu tempo. O terceiro capítulo inteiro do Manifesto Comunista, chamado Literatura Socialista e Comunista, é dedicado a identificação dos outros tipos de socialismo e porque, segundo ele, estes modelos de socialismo estão condenados ao fracasso. Esta parte do seu livro-panfleto parece até hoje não ter entrado na cabeça de muitos dos seus leitores, na esquerda ou na direita.

Assim, para identificarmos os diversos tipos de socialismos existentes, faz-se importante dar uma rápida passada neste capítulo do Manifesto Comunista e acrescentar o que for relevante aos dias de hoje. Assim temos como tipos identificáveis de socialismo:

1. O socialismo feudal: é o socialismo que pretende voltar as relações sociais pré-capitalistas, buscando superar os problemas sociais gerados pelo mundo burguês, retornando à sociedade patriarcal e hierárquica do Ancien Regime. Caminhando junto com o socialismo cristão, superaria através da caridade e relações entre senhor, vassalo e camponês uma sociedade harmoniosa onde todos têm o seu lugar divinamente estabelecidos, não havendo espaço para o individualismo burguês e proletário. Ainda hoje o Socialismo Cristão tem importantes núcleos pelo mundo, tentando superar as agruras capitalistas através da solidariedade, trabalho voluntário e políticas estatais assistencialistas. O Papa Francisco poderia ser considerado um proeminente membro do Socialismo Cristão.

2. O socialismo pequeno-burguês: formado por pequenos proprietários urbanos (pequeno-burgueses), artesãos e pequenos camponeses. Ora ameaçados de proletarização pela concorrência com a grande indústria e esmagados pelos grandes proprietários rurais, estes socialistas reconheceram os problemas da sociedade burguesa e do feudalismo anterior, mas sua solução era simplesmente criar meios para evitar o inevitável: seu negócio/propriedade ser destruído pela concorrência com os grandes capitalistas e proprietários. “Para a manufatura, o regime corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal [familiar]”. Essa vertente socialista existe até os dias de hoje em alguns lugares do mundo e, com menor ou maior grau, consegue proteger a pequena propriedade urbana e rural da concorrência do grande capital através de impostos, taxações diferenciadas, regimes especiais (métodos inexistentes na época de Marx) e medidas muitas delas elaboradas por não socialistas como Otto Von Bismarck (criador das pensões públicas de aposentadoria) e John Maynard Keynes. Com Keynes, nos anos 1920 e 30, esta vertente ganhou importante embasamento teórico e aplicação econômica, permanecendo até hoje como alternativa capitalista ao liberalismo selvagem. Porém, com o imenso poder adquirido pelo grande capitalismo e subsequente concentração de propriedade e renda nos últimos 30 anos, essa vertente, como solução sistêmica, apesar de nos presentear com figuras incríveis como Pepe Mujica, cada vez mais, beira a utopia.

3. O socialismo Alemão ou o “verdadeiro” socialismo”. Essa é a mais importante passagem para nossa comparação com Hitler e o nazismo, pois toca em pontos fundamentais da seperação entre o “socialismo alemão” (que se auto-proclamava “socialismo verdadeiro”) e o socialismo de Marx (chamado hoje de marxismo). Para este, o “socialismo alemão” era uma versão do socialismo pequeno burguês, mas mais radical. Para estes socialistas, dizia o autor: “a supremacia industrial e apolítica da burguesia ameaça a pequena burguesia de destruição certa, de um lado, pela concentração de capitais, de outro, pelo desenvolvimento de um proletariado revolucionário. O verdadeiro socialismo pareceu aos pequenos burgues como uma arma capaz de aniquilar esses dois inimigos. Propagou-se como uma epidemia”. (MC, cap. III, pág. 54).

Marx prossegue em trecho ainda mais importante:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes. Com poucas exceções, todas as pretensas publicações socialistas ou comunistas que circulavam na Alemanha pertencem a esta imunda e enervante literatura.” (MC, cap III, pag 54-55, grifo nosso).

Voltaremos neste ponto mais adiante.

4. O socialismo conservador ou burguês: “uma parte da burguesia procura remediar os males sociais com o fim de consolidar a sociedade burguesa” (MC, cap III, pag 55). Com esta frase Marx abre o trecho sobre o socialismo conservador. Para Marx, “os socialistas burgueses querem as condições de vida da sociedade moderna, sem as lutas e os perigos que dela decorrem”. É ao mesmo tempo o socialismo reformista e o social-liberalismo, que buscam transformar as condições de vida material dos trabalhadores, sem no entanto mexer nas relações burguesas de produção.

No fundo, querem apenas reformas administrativas que acabam por fim, aprofundando o domínio burguês da sociedade. “Livre câmbio, no interesse da classe operária! Tarifas protetoras, no interesse da classe operária! Prisões celulares no interesse da classe operária!”. Enfim, “os burgueses são burgueses – no interesse da classe operária” (MC, cap III, pag 57). Soa quase como anedota, mas hoje ainda vemos isso de maneira evidente no Brasil: “Subsídios às montadoras, no interesse dos trabalhadores”. “Desoneração de grandes fortunas, no interesse dos trabalhadores!”. Afinal, é preciso crescer o bolo para depois reparti-lo ou dar migalhas para os trabalhadores. Usando o critério de Marx seria a vertente mais comum do socialismo hoje e de tão cretina que nos soa hoje, poucos que usam deste colorário têm a cara de pau de se intitularem socialistas.

5. O socialismo utópico: Marx coloca nesta categoria todos os socialistas que se atém mais a escrever sobre uma sociedade futura ideal perfeita, do que a pensar a analisar as reais condições que geraram a sociedade presente e como não reproduzi-las novamente. Ele diz:

“[sonham] com a realização experimental de suas utopias sociais: estabelecimento de falanstérios isolados, criação de colônias no interior, fundação de uma pequena Icária, edição de uma nova Jerusalém e, para dar realidade a todos esses castelos de ar, vêem-se obrigados a apelar para os bons sentimentos e os cofres dos filantropos burgueses”.

Nesta categoria, atualmente entrariam desde os que pensam em refundar uma sociedade hippie isolada, ou nos que vêem idilicamente uma sociedade tribal emulando uma sociedade indígena idealizada ou em alguns com pretensões mais elaboradas, o movimento Zeitgeist todo.

6. Por fim, apesar de Marx colocar o socialismo libertário pejorativamente como socialismo utópico, a tradição socialista libertária, também conhecida como “anarquismo”, ainda é bem representativa e foi responsável por grandes momentos da história dos trabalhadores brasileiros. As greves de 1917 (São Paulo)1918 (Rio de Janeiro), conseguiu feitos sem precedentes no país, sendo pouco depois esmagada com violência. E ainda, vários anarquistas participaram da fundação do Partido Comunista Brasileiro, apesar das fortes divergências que as duas correntes sempre tiveram (para curiosos, vale ler os debates entre Marx e Bakunin). Além disso, há uma forte influência anarquista na fundação da cultura cooperativista também no Brasil, mas fundamentalmente na Espanha, Itália e Alemanha.

***

Enfim, para qualquer olhar mais atento é óbvio que existem várias vertentes de socialismo não marxistas. Marx dedicou bastante do seu tempo a criticar estes socialismos que via como fadados ao fracasso ou ao embuste e enganação dos trabalhadores, causa que ele defendia. Qual causa exatamente? Acabar com a alienação do trabalhador provocada pelo regime assalariado, no qual o trabalhador vê horas de seu tempo e trabalho roubados (mais-valia) para gerar lucros para a classe parasítica, o burguês.

Mas voltemos então a questão do socialismo de Hitler.

O socialismo em Hitler

É incrível notarmos como Marx consegue descrever muito bem o tipo do socialismo reacionário dos fascistas e apontar com antescedência em torno de 70 anos, o cerne e o embuste do socialismo dos fascistas. Repetirei sua citação para entendermos melhor:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes.” (MC, cap III, pag 55)

 Ora, não era exatamente este o discurso fascista? A causa nacional está acima das mesquinhas lutas de classe e interesses individualistas dos burgueses e dos trabalhadores. “Alemanha acima de tudo”. O alemão é o filisteu ideal, a nação alemã a ideal e superior. Portanto, não é preciso fazer qualquer “rocambole explicativo”, usar fontes duvidosas ou falaciosas de fanáticos marxistas, ou usar retórica escapista para encontrar o distanciamento evidente entre nazismo e marxismo. Antes mesmo do fascismo existir per se, Marx já repudiava a base teórica e cultural do socialismo pequeno-burguês radical e nacionalista de onde o fascismo alemão surgiu e que, na visão dele, era uma “imunda e enervante literatura”. Hitler não poderia resumir melhor esse argumento:

“Quem quer que esteja preparado para fazer da causa nacional a sua própria, em tal extensão que saiba não haver maior ideal que a prosperidade de sua pátria; quem quer que haja compreendido nosso estupendo hino nacional, “Deustchland über Alles”, para significar que nada neste vasto mundo ultrapassa, a seus olhos, a Alemanha, povo e terra – esse homem é um socialista” (HITLER, Adolf IN: Hitler Reden, citado por William Shirer, opus cit. pg. 139)

O historiador Peter Gay vai buscar lá no século XVIII as origens deste socialismo autoritário alemão, típico do fascismo e nos revela com mais clareza quais as características deste socialismo:

“A luta de classes é tolice, e a Revolução Alemã, produto da teoria, é tolice também. O instinto alemão, que, arraigado no sangue é verídico, vê as coisas diferente: ‘O poder pertence a todos. O indivíduo o serve. O todo é soberano. O rei é apenas o primeiro servo de seu estado. (Frederico, o Grande) -. Todos têm o seu lugar. Existem comandos e obediência. Assim, desde o século XVIII, vinha sendo o socialismo autoritário – autoritativer – em essência antiliberal e antidemocrático – isto é, se pensarmos no liberalismo inglês ou na democracia francesa”. O alemão verdadeiro deve reconhecer as necessidades do momento e a, submisso a elas, deve transformar o socialismo do século XVIII em socialismo autoritário do século XX. ‘Juntos, prussianos e socialistas erguem-se contra o inglês dentro de nós contra a visão do mundo que penetrou em toda a existência de nosso povo, paralisou-o, e roubou-lhe a alma’. A única salvação está no ‘socialismo prussiano’; aí estão a busca […] pela comunidade e a liderança, na linguagem dos acampamentos dos oficiais”. (Gay, 1978, pg. 103).

Podemos ainda, voltando em Marx, buscar sua contundente crítica ao populismo bonapartista, típico de ditadores bem posteriores, do discurso que viria a ser largamente utilizado por fascistas no mundo inteiro para movimentar sociedades contra o comunismo (marxismo). No 18 Brumário de Bonaparte, Marx escreve:

“Durante o mês de junho todas as classes e partidos se haviam congregado no partido da ordem, contra a classe proletária, considerada como o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Tinham “salvo” a sociedade dos “inimigos da sociedade”. Tinham dado como senhas a seu exércitos as palavras de ordem da velha sociedade – “propriedade, família, religião, ordem – e proclamado aos cruzados da contra-revolução: “Sob este signo Vencerás”. A partir desse instante, tão logo um dos numerosos partidos que se haviam congregado sob esse signo contra os insurretos de junho tenta assenhorear-se do campo de batalha revolucionário em seu próprio interesse de classe, sucumbe ante o grito: “Propriedade, família religião, ordem.” A sociedade é salva tantas vezes quantas se contrai o círculo de seus dominadores e um interesse mais exclusivo se impõe ao mais amplo. Toda reivindicação ainda que da mais elementar reforma financeira burguesa, do liberalismo mais corriqueiro, do republicanismo mais formal, da democracia mais superficial, é simultaneamente castigada como um “atentado à sociedade” e estigmatizada como “socialismo”. E, finalmente, os próprios pontífices da “religião e da ordem” são derrubados a pontapés de seus trípodes píticos, arrancados de seus leitos na calada da noite, atirados em carros celulares, lançados em masmorras ou mandados para o exílio; seu templo é totalmente arrasado, suas bocas trançadas, suas penas quebradas, sua lei reduzida a frangalhos em nome da religião, da propriedade, da família e da ordem. Os burgueses fanáticos pela ordem são mortos a tiros nas sacadas de suas janelas por bandos de soldados embriagados, a santidade dos seu lares é profanada, e suas casas são bombardeadas como diversão em nome da propriedade, da família, da religião e da ordem.” (18 Brumário, pág. 36 e 37)

Ainda poderíamos usar este exemplo do 18 Brumário para a própria trajetória dos nazistas. Que com apoio de variados setores sociais, de burgueses e pequeno-burgueses, em nome dos principais valores tradicionais reacionários, da “verdadeira” família alemã, contra o “comunismo”, obteve apoio de vários setores sociais para depois, após a Noite das Facas Longas, esmagar industriais não alinhados (principalmente os que estavam envolvidos com a prisão de Hitler 12 anos antes), esmagar comunistas, socialistas (social-democratas da época) e condenar milhares de alemães à ruína em nome da Alemanha “ideal”.

Porém, isso tudo não parece suficiente para os que associam marxismo e nazismo. Entre vários outras tentativas superficiais, uma que parece recorrente é a utilização de uma citação de Hitler, encontrada na sua enorme biografia escrita por John Toland. A citação seria supostamente retirada de um discurso de 1 de Maio de 1927 e segue assim:

“Nos somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista de exploração dos economicamente fracos, com salários injustos, com a inadequada avaliação do ser humano de acordo com sua riqueza e propriedade ao invés da responsabilidade e da performance, e nós todos estamos determinados a destruir este sistema sob todas as condições” (John Toland, Hitler, p 224 – em inglês).

No entanto, se formos no original alemão, encontrado na compilação de discursos “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933“, onde temos mais de 10 fontes primárias (jornais da época) para o referido discurso, não encontraremos qualquer passagem semelhante a esta. E é incrível como Toland, jornalista prêmio Pullitzer, pôde ter errado essa importante citação. Se tivesse sido atribuída a nazistas anti-hitleristas como Otto Strasser, seria mais compreensível, ainda mais pela época (1927). Mas Hitler jamais diria algo assim. John Lucaks, autor conservador e anti-marxista do livro “O Hitler da História” (1997) afirma que John Toland inventou muitos trechos de seu livro, talvez este seja um dos casos. Enfim, para nossa argumentação aqui é apenas mais um reforço.

Além disso é comum aos associadores do nazismo com o marxismo, demonstrarem com a moeda comemorativa do Dia do Trabalho de 1934, onde figura uma água nazista com a foice e o martelo em cada lado, inegável associação do nazismo com o comunismo. Oras, uma águia com uma foice e um martelo é exatamente a cota de armas da Áustria (Primeira República 1919), e o país era alvo de intensa propaganda pró-nazista em 34 e Hitler já planejava o golpe naquela país, mas seu líder, o austrofascista Dollfuss era absolutamente anti-nazista. A comparação entre os dois está na foto abaixo:

Moeda do Trabalho e heráldica nazista.

Moeda do Trabalho e heráldica austríaca de 1919.

Vale lembrar, até para melhor entender o próprio símbolo da Áustria fora de qualquer contexto comunista, que a foice e o martelo já eram símbolos representando o trabalho do campo e a cidade há certo tempo. Essa é a mesma república austríaca que tinha Ludwig von Mises como principal conselheiro econômico do austrofascismo (1932-34). Assim para longe do simplismo panfletário anti-comunista, a foice para representar o campo está presente em diversos brasões europeus ainda na Idade Média. O martelo como símbolo do trabalho também já era mais do que popular e também podia se encontrar isolado ou combinado com a picareta. Talvez assim se explique o uso do símbolo pela Áustria e também pelos nazistas, já que nem todos os partidos comunistas usavam a foice e o martelo como símbolo. Além disso, vale lembrar também a célebre passagem de Hitler sobre a simbologia adotada:

Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente. (HITLER, Minha Luta, pag. 361)

Como mestre da propaganda e da oratória, as referências que Hitler faz tinham finalidade explícita: confundir e induzir ingênuos e curiosos de esquerda a frequentar as assembleias e eventos nazistas. Neste sentido, Hitler foi um dos pioneiros do marketing político e do discurso populista moderno. Assim, como Marx já denunciava em 1848, muitos alemães caíram no embuste do socialismo fascista e apoiaram com vigor o projeto nazista, uma “epidemia” (nas palavras de marx).

Mas enfim, o que de socialismo tinha Hitler?

Existem muitas formas de socialismo. Por exemplo, as pensões públicas por velhice (aposentadorias) foram inventadas por Otto von Bismarck nos anos de 1870. Assim como outras seguridades sociais para cidadãos alemães foram inauguradas em seu governo, resolutamente anti-marxista (inclusive com leis específicas contra os comunistas). As empresas estatais modernas, com dinheiro público de impostos, foram largamente inspiradas em socialistas não marxistas como Louis Blanchi e Charles Fourrier, a serviço do Estado Frances. Até mesmo clássicos liberais como Adam Smith, poderiam hoje, sob os critérios que se utiliza vulgarmente no discurso anti-comunista, ser classificado como “socialista”, ele escreve entre vários outros trechos:

“Os sujeitos de cada estado devem contribuir para o sustento do governo, o máximo que puderem, em proporção às suas respectivas habilidades, ou seja, em proporção à renda que eles possuem sob proteção do Estado”. (Riqueza das Nações, Livro V, capítulo II)

“Tudo para nós mesmos e nada para outras pessoas, parece, em qualquer era do mundo, a máxima vil dos mestres da humanidade”. (Riqueza das Nações, Livro III, capítulo IV)

Se formos mais longe, podemos observar a lógica de Ludwig von Mises, exposto em “Critique of Interventionism”:

“O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Sob este critério, praticamente todos os países capitalistas dos últimos 200 anos foram socialistas. A necessidade de alimentar, armar e financiar exércitos, funcionalismo público para correios, polícia, bombeiros, demanda para certo planejamento central, organização estatal, impostos e criação de empresas estatais para suprir fraquezas do setor privado. Para não falar na expansão militar que visa dar benefícios gordos ao empresariado nacional, como Cecil Rhodes ou a Cia. Das Índias Orientais bem sabem. É curioso o anti-estatismo seletivo: exército e polícia não parecem importar muito os liberais anti-socialistas. Imagino que considerem, olhando Mises, que caso as decisões importantes do Estado estiverem motivadas pelo lucro privado e sejam feitas pelo comando de capitalistas e empreendedores, talvez este Estado não seja tão autoritário e ruim pro capitalismo assim, por mais que fossem brutais contra os trabalhadores. Só desta maneira para entender como “campeões da liberdade” como Mises ou Hayek e Friedman, deram apoio ao fascismo austríaco e à ditadura de Pinochet respectivamente.

Assim, para não estender o que já está bem extenso, podemos concluir que, como diversos líderes com a mínima preocupação com a realidade econômica e social de seus países, Hitler tomou uma série de medidas socialistas. Diante de uma enorme crise financeira ele estatizou setores da economia da mesma maneira que recentemente, na crise de 2008, vários empreendimentos capitalistas foram salvos pelo Estado nos EUA e Europa e nos primeiros até mesmo estatizou-se temporariamente a Ford Motors para salvá-la da falência.

Hitler também estatizou alguns bancos para favorecer seus interesses, outros sua política favoreceu largamente seu grande aliado privado o Deutsche Bank. Além disso, no que posteriormente chamou-se de ‘keynesianismo de guerra’, incrementou a demanda militar para movimentar a industria e o emprego nacional, aumentando consideravelmente o papel do Estado na economia. Porém fez isso fortalecendo os principais fornecedores privados nacionais e internacionais: Krupp, Bayer, IBM, Ford, até mesmo a Renault, a serviço do governo fascista de Vichy, sob ocupação nazista, capturou seus lucros privados com a política socialista dos nazistas. Sobre o caso, Strasser, nazista rival de Hiler escreve:

“Eu nunca disse que toda a propriedade deva ser socializada. Ao contrário, eu sustentei que devemos socializar as propriedades que se mostram prejudiciais ao interesse nacional. Se não forem tão culpadas, eu deveria considerar um crime destruir elementos essenciais de nossa vida econômica. Pegue o fascismo italiano. Nosso estado nacional socialista, como o estado fascista, irá proteger tanto o interesse dos empregadores como o dos trabalhadores e se reservar ao direito de arbitrar em caso de disputa”. (atribuído a Hitler, IN: Strasser: Hitler and I, pag 112)

Além disso, no campo social, Hitler fortaleceu os centros comunitários, grupos mirins e sedes sindicais, agora sob bandeira nazista, com atividades que estimulassem a integração e participação popular. Claro, isto se você não fosse judeu, comunista, cigano, socialista (do tipo social-democrata), católico não submisso, qualquer um considerado “degenerado”. Enfim, pegando a lógica de grupos como os escoteiros, associações cristãs e etc, embebidas da ideologia nazista, estavam agora a serviço da integração social germanizante. Até mesmo pensou num imenso hotel de lazer coletivo na praia de Prora, para uso dos trabalhadores, porém, como o “carro do povo” (volkswagen), jamais foi usado pelo povo e ficou abandonado.

Assim, embora bastante questionável o teor desse estímulo ao coletivo, é inegável que esse aspecto fosse importante aos nazistas. Mas estas perspectivas não são invenções nazistas, são comuns no mundo todo nas mais diversas vertentes ideológicas e não tem um aspecto positivo ou negativo a priori. A organização comunitária para fins coletivos pode ter os mais variados aspectos, uns belos, outros terríveis. Dos exercícios coletivos em fábricas, tão populares no Japão e Coréia do Sul; dos “community centers” fundamentais na organização de pequenas cidades norte-americana; a cultura do “retribuir” o que a sociedade lhe deu, levando ao trabalho voluntário, tão comum em culturas protestantes. O aspecto social da política só é ignorado por gente desonesta ou ignorante, desde de Aristóteles sabemos que “o homem é um ser social”. Por outro lado, temos a Klu Klux Klan como exemplo negativo evidente; os grupos que se reúnem para espancar homossexuais ou, para citar um exemplo do cinema, a comunidade no filme “A Praia”, que vendo seu “paraíso” ameaçado, em nome do coletivo, exclui os indivíduos indesejáveis.

Enfim, o socialismo de Hitler não tinha absolutamente nada de marxista. Era o socialismo da “gemeinschaft” alemã, da comunidade alemã, em torno dos interesses nacionais alemães, seja de Estado, seja do capitalismo alemão, seja do que os nazistas atribuíssem como interesse coletivo. O socialismo dos nazistas era o socialismo das tropas, o socialismo militar, das trincheiras da Primeira Guerra, onde todos os homens eram iguais na sua imensa possibilidade de morrer. Sua intenção não era resolver a alienação do trabalho e do homem, excluído de sua essência pela exploração do sua mão de obra por terceiros, massacrado por jornadas estafantes para a nova aristocracia burguesa. Não, a sociedade que os nazistas queriam formar, mesmo se – num esforço quase impossível – esquecermos a sua imensa brutalidade com o “outro”, era ainda hierárquica, reacionária, extremamente alienada e injusta, onde somente os considerados fortes e capazes sobrevivem, o triunfo vil do darwinismo social, uma distopia do ideal iluminista que inspirou Marx e tantos outros socialistas do século XIX.

Leandro Dias

Referências:

HAYEK, Friedrich: O Caminho da Servidão. Rio de Janeiro, Bibliex, 1994.

HITLER, Adolf: Mein Kampf: Minha Luta. São Paulo, Centauro, 2001.

LUCAKS, John: O Hitler da História. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

MARX, Karl: O Manifesto Comunista; Ebooks Brasil, 1999 (link)

MARX, Karl: O 18 Brumário de Bonaparte, São Paulo, Boitempo 2011.

MISES, Ludwig von: Crique of Interventionism; mises.org (link)

NARLOCH, Leandro: Guia Politicamente Incorreto do Mundo; São Paulo, Leya, 2013

SHIRER, William: Ascensão e Queda do III Reich (vol. I), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962.

SMITH, Adam: A Riqueza das Nações, São Paulo, Nova Cultural, 1996

STRASSER, Otto: Hitler and I; Boston, Mifflin, 1940

TOLAND, John: Adolf Hitler; Garden City, NY; Doubleday, 1976

VOLNHALS, Clemens von (org): “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933″; Saur, 1992

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Vandalismo e Ruptura

Poder Popular

Quando o carro velho do trabalhador da rádio Tupi foi incendiado na histórica manifestação da Alerj dia 17 de Junho, foi impossível não sentir sincera pena do sujeito. Apesar do emblemático nome, o Versalles(1) do radialista não deveria ser um alvo de manifestantes enfurecidos com as agruras do sistema, numa das cidades mais desiguais do mundo. Não há significado algum em queimar um veículo velho de um trabalhador. Aquele automóvel não representa “opressão” nenhuma, ao contrário, pode-se até, num toque de humor, considerar um carro 1993 ainda em uso como “resistência ao consumismo”, oposto do fetiche consumista automobilístico baseado em endividamento no crediário, fenômeno típico da atualidade, “ou você tem ou você não tem”.

Naquele emblemático dia também foi atacado e saqueado um pequeno comércio local: uma farmácia familiar, uma loja de sandálias, revenda de chocolates e um restaurante. Mesmo na grande mídia, diante do imenso impacto que teve a tentativa de tomar a Alerj por parte dos manifestantes e a profusão de protestos grandes pelo país, a ênfase na destruição foi moderada e focou-se mais em compreender a natureza, reivindicações e as pautas (ou ausência delas). O foco não estava na violência, certamente maior que a violência recente no bairro nobre onde mora Sérgio Cabral. A pequena farmácia na rua da Assembléia não tem o mesmo valor das vitrines da Toulon no Leblon. Existem proprietários e Proprietários. “Ou você tem ou você não tem”.

Então, em meio ao desnorteio generalizado, seja da mídia, partidos ou maioria das entidades que se dispuseram a entender o assunto, não foram incomuns as apologias ao vandalismo, como forma legítima de expressão revoltosa de uma população dando um “basta” de verdade, não aquele abracinho bonito na Lagoa. Alguns levantaram o argumento que a “violência contra a propriedade” é um meio legítimo de ataque contra a ordem estabelecida, que a destruição de lojas e carros aleatórios se inserem numa lógica de resistência e combate anti-capitalistas, do povo oprimido revidando como pode a opressão do dia a dia, evocando superficialmente aquela velha máxima: “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”, tanto parafraseada aqui no blog. Alguns como Boechat, colocaram o vandalismo como posicionamento radical diante da completa desconexão do poder constituído da população. Outros evocaram essa violência como forma de oposição concreta a qualquer tipo de autoridade, numa espécie “orgânica” do anarquismo destrutivo, não ligado profundamente à qualquer corrente libertária identificável no Brasil ou mesmo consciente de sua própria anarquia, lembrando mais a violência do anarco-ilegalismo do que qualquer outra coisa.

Por mais que haja uma certa coerência na maioria destes pensamentos, como se os pequenos proprietários atingidos fossem mais um “dano colateral” de um processo muito maior. Apesar de seu caráter aparentemente ruim, haveria uma validade intrínseca no “ataque direto a qualquer  propriedade como forma de luta anti-capitalista”, mesmo nos pequenos proprietários. Porém, tem ficado claro atualmente o diagnóstico que Marx fez sobre o movimento Luddita: “deu ao governo anti-Jacobino […] o pretexto para as mais reacionárias e violentas medidas” (O Capital, pg. 554, citado aqui) e que, assim, o que ficará num futuro próximo é – novamente – a forte criminalização das manifestações e possivelmente, a aprovação da lei anti-terrorismo no Brasil, à maneira como foi feita nos EUA (2). Por isso, vale uma relida no famoso panfleto de 1848, onde podemos encontrar:

“[…] Censuram-nos […] por querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que declaram ser a base de toda liberdade, de toda independência individual. A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito!

Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, formas de propriedades anteriores à propriedade burguesa?

Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já as aboliu e continua a aboli-las diariamente.

Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa?” (Manifesto Comunista, Cap II, página 30)

Sob a mais simplista observação, há uma evidente diferença entre a Bayer e a “farmácia do Seu João” destruída na manifestação, ou entre a Monsanto ou agro-indústria latifundiária e o “Seu Severino” cultivador de aipim no interior do Rio; há uma diferença clara entre a Bolacha Discos e a Sony Music; é como comparar a Fifa à associação de jogadores do Aterro do Flamengo. É, portanto, difícil não notar que mais e mais farmácias pequenas (“do Seu João”), são repostas por redes nacionais e internacionais de farmácia, em fusões e aquisições (caso exemplar da Pacheco fundida com a Drogaria São Paulo) ou que o comércio local vai gradativamente sendo reposto por Walmart, Pão-de-Açúcar, Carrefour e Lojas Americanas entre outros.

O resultado lógico da concorrência capitalista é a concentração, formando monopólios e oligopólios – “só pode haver um” – e, desta maneira, o pequeno comércio familiar local é também, um tipo de resistência ao grande capitalismo predatório, que domina e corrói o Estado por dentro. O “Seu João” não financia campanhas políticas, não influencia processos decisórios públicos através de lobbies que favorecem os seus, ao contrário das corporações. Especialmente num país como o Brasil, onde o pequeno proprietário paga proporcionalmente muito mais impostos que os grandes empresários; onde a família dona de “biroscas”, “padocas”, vendinhas e armarinhos, faz jornadas de trabalho estafantes e dificilmente tem liquidez maior do que 4 ou 5 vezes a remuneração média de seus funcionários (uma distribuição de renda semelhante à Noruega), é difícil  no momento justificar a destruição destes estabelecimentos sob bases “revolucionárias” coerentes. No Brasil, existem proprietários e Proprietários.

Porém, uma das questões fundamentais levantadas pelo vandalismo é no campo político, representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica. Assim, quando os quebra-quebras surgiram como revolta disruptiva, parte significativa da população apoiou os meios usados pelos manifestantes, foi até constrangimento no show reacionário do Datena, quando numa votação ao vivo, os telespectadores deram 70% dos votos “a favor da baderna” e violência dos manifestantes.

Não foi notável, fato perceptível até aos mais leigos dos observadores, como a grande imprensa mudou de opinião temporariamente sobre a violência das manifestações?! Entre o dia 17 e o dia 20, quinta-feira também histórica, a grande imprensa que, a exemplo do Jabor (entre os mais cretinos que mudaram de opinião “do nada”), em oposição ao que sempre fez em relação a qualquer manifestação popular, resolveu insuflar mais ainda os ânimos, clamando que o povo continuasse nas ruas numa esperança de desestabilizar o governo que abomina, tentando de todo jeito pautar as manifestações num vazio “anti-corrupção lampedusiano”, levando às ruas todo tipo de gente, de coxinhas à nazistas. E oras, qualquer um com o mínimo de consciência, dado os nervos à flor da pele como estavam aqui no Rio, tinha certeza que as grandes manifestações pós-17 de junho acabariam em violência destrutiva, seja contra o Estado ou propriedades adjacentes. E, lógico, a grande repressão policial serviu – e serve – como ponto catalizador de revolta pois não foram poucos os que decidiram sair quebrando tudo após a repressão policial começar “do nada”, quando as manifestações seguiam pacíficas.

E, quando num intervalo de poucos dias, a mesma imprensa (especialmente a televisiva), voltou ao seu padrão normal, inicialmente durante a primeira manifestação contra o Cabral no Leblon, que os jornais ficaram “horrorizados” porque a polícia tinha ido longe demais pois tinha criança do Leblon tossindo por causa das bombas de gás (3) e na mais absoluta normalidade ignorou completamente a chacina de moradores da Maré, mesmo com a polícia admitindo que alguns “não eram bandidos” (4). Depois além de ainda prosseguir ignorando os mortos da Maré, também ignoraram o sumiço do trabalhador da Rocinha Amarildo, para dar ênfase a uma vitrine da loja Toulon, com direito ao burguês Ballesteros (5) chorando na TV pela “maldade praticada” e moradores do Leblon colando flores para manequins e vidros quebrados“, numa nova e vergonhosa demonstração das prioridades da classe alta carioca. Nova porque a brutal repressão policial durante a festa privada dos Barata no Copacabana Palace foi acompanhada de um clima de Bastilha, mostrando a completa desconexão com a realidade da alta burguesia brasileira.

Desta forma, o vandalismo serviu a um segundo propósito, desnudou completamente o oportunismo e desfaçatez da grande mídia brasileira. Não foi por acaso que sistematicamente os jornalistas da Globo foram expulsos das manifestações, um carro do SBT foi queimado e logo depois que a “poeira baixou”, uma dezena de manifestações contra a Rede Globo ocorreram, algumas bastante expressivas (em São Paulo por exemplo). Conhecendo nossa mídia, não seria forçado crer que não fosse o vandalismo e claro, a excessiva violência da polícia, independente da cidade, mas em especial no Rio, São Paulo e Minas Gerais, os protestos no geral não seriam mais do que nota de rodapé dos grandes meios de comunicação. Pois agora que eles têm pautas mais nítidas e a oposição ao monopólio da mídia é recorrente, as manifestações somem dos holofotes e focam, em parceria com o cretino governo do Cabral, no vandalismo e nas depredações.

Num terceiro ponto, o vandalismo contra agencias bancárias (Itaú foi um foco principal aqui no Rio) e contra órgãos do governo é auto-explicativo. No Brasil cada R$1,00 arrecadado em impostos pelo governo, 42 centavos vão diretamente para o setor bancário para pagar uma dívida pública que não é auditada desde 1931. Itaú e Bradesco estão entre os maiores credores da nossa dívida pública e os escorchantes juros cobrados aqui, o sexto maior juros real do mundo, são largamente influenciados pelo mesmo setor financeiro que se beneficia deles (6). Assim, não é “surpreendente” ou mesmo “desproposital” o vandalismo contra os bancos, em termos monetários é pouquíssimo diante do imenso roubo que nos fazem diuturnamente. Já dizia o baixinho russo: “o que é um assalto a banco diante da criação de um banco”. E foram realmente raros os depoimentos populares contra a depredação de agências bancárias.

Quanto aos órgãos públicos, a revolta é evidente e demonstrou fisicamente e seguidas vezes, uma revolta contra contra o que o poder constituído tem feito, tema que abordamos há algumas semanas. É importante notar esta diferença, as pautas têm se mostrado contra o que o poder constituído tem feito e não contra o poder constituído em si. Essa segunda vertente tem se mostrado bastante minoritária e é por isso, que agora que as pautas são mais identificáveis, é possível notar um evidente enquadramento das manifestações dentro do sistema, como aquela oposição que apenas reforça a ordem estabelecida, ajusta a máquina. Numa hora pedem o fim de uma PEC ou validação de uma outra; depois pedem mais verbas para educação; pedem mais transparência ao governo; maior participação no processo decisório; frequente a ordem é para trocar os líderes, mas em raros momentos questionam a estrutura que levou estes líderes ao poder. Pautas opositoras à Rede Globo, à privatização do Maracanã, contra  a truculência policial e a cartelização do transporte coletivo, se somadas à pauta pela educação de qualidade, são marcas clássicas do Brizolismo Carioca. Nada de revolucionário, apenas progressista.

Assim, podemos resumir que o vandalismo serviu a alguns propósitos importantes. Primeiro quebrou o paradigma da inviolabilidade do Estado, quebrou de maneira pólitica, ainda que temporariamente, o seu monopólio da violência. Segundo, ele escancarou o posicionamento ideológico da mídia, o que para muitos “que dormiam” era o da mais absoluta neutralidade, agora já não é tão inquestionável assim, passo importante para a completa politização da questão. Terceiro a destruição frequente de agências bancárias demonstrou que, mesmo disruptivamente, os revoltosos sabem que muito do podre que criticam no poder público reside no sistema financeiro. E mesmo que tomemos a perspectiva de alguém externo aos protestos, o que fica é a emblemática destruição de um banco, e com a máscara da mídia começando a ser desvendada, o questionamento de “por que atacar um banco?” pode não ser respondido pelos mesmos agentes que os querem lá e assim, tornar-se uma pauta real na cabeça da população.

O vandalismo por fim, mostrou de maneira clara que o brasileiro têm o ímpeto necessário para uma quebra violenta de paradigma. A politização excessiva que os protestos suscitaram, exatamente por serem violentos, deixou mais claras as contradições evidentes em nossa sociedade, tornando mais visíveis o engendramento econômico no poder político constituído e na vida cotidiana, onde lojas são mais importantes que vidas humanas. É difícil que os que anteriormente viam com passividade ou desdém os desmandos do sistema e a violência necessária da PM para mantê-lo inquestionável, continuem neutros diante de tamanhos disparates.

Assim, principalmente se o vandalismo deixar de lado uma parte que ainda é um hooliganismo barato que mais parece saída de jogo no (antigo) Maracanã do que protesto, e for sistematicamente adotado como prática disciplinada, anti-corporativa e anti-sistêmica, confrontando bancos, lobistas e grandes corporações que sustentam o corrupto sistema político eleitoral, seu sentido pedagógico será bastante relevante, e justificará retroativamente todos os excessos como necessidades históricas momentâneas de um processo maior de ruptura.

José Livramento

Notas:

1 – Palácio de Versalles foi tomado por revolucionários durante a revolução francesa.

2 – Após o 11 de Setembro, os EUA chegaram a considerar o Greenpeace um grupo terrorista, da mesma forma que a direita tentava enquadrar o MST aqui.

3 – Nesse momento já haviam matado 10 pessoas na Maré.

4 – Não entrarei no mérito da polícia “Lei e Ordem” que mata antes e pergunta depois, comum às nossas metrópoles, matando indiscriminadamente bandidos em região de fronteira, num cenário que mais parece guerra do que qualquer outra coisa.

5 – A Família Ballesteros é dona da Aymoré Biscoitos, da Toulon e da Elmo Calçados. Altíssima burguesia de MG, com todos os problemas típicos da nossa alta burguesia.

6 – Até recentemente, o ex-presidente do Bank Boston, Henrique Meirelles, era o presidente do Banco Central!

*editado posteriormente para corrigir erros gramaticais.

Panela de Pressão

Flores de uma futura primavera?

Um espectro ronda o Brasil. O conformismo e resignação começaram a ranger suas engrenagens. Desmancham-se as teias de aranha, levanta-se a poeira e uma movimentação assustadora, não vista há muitos anos, sacode a inércia que parecia marcar “geneticamente”. Assustadora não pelo que propõe ou apresentam agora, mas pela possibilidade que demonstra, pelos preconceitos que quebra e, principalmente, pelo medo que exalta nos encastelados de nosso país.

Parece que não seremos mais os filhos do meio da história.

A “histórica” passividade, quietude e pacatez do brasileiro, fabricados por 25 anos de ditadura militar e 50 anos de monopólio midiático, mais uma vez não se mostra “natural” e fatídico. Para crer neste “conformismo natural” que o nosso ethos elitista-colonial tentou encucar temos de ignorar praticamente todas as décadas entre 1890 a 1960, de Canudos e Revolta da Vacina aos grandes comícios do Trabalhismo, passando por dois grandes levantes que pararam São Paulo e Rio (1917 e 18), uma grande marcha de insurgentes militares no Tenentismo (1922); um importante e brigado golpe de Estado em 1930; duas Intentonas, uma comunista e uma fascista (1935 e 1937);  inúmeros levantes das camponeses e quilombolas; uma guerra civil insurgente contra uma elite local que não queria se submeter ao poder republicanismo federal e é claro, os 5 anos ininterruptos de manifestações contra a própria ditadura, reprimidas como conhecemos já.

Se de um lado a ditadura batia e calava seus oponentes à força, o monopólio da mídia, fiel representante do ethos subserviente, formado numa incestuosa relação com o poder político, com os mesmos comandando emissoras, rádios e jornais, num aparelhamento tal da mídia pela classe dominante e suas idéias que faz Cuba parecer brincadeira em termos de controle, partia para refundar e reinventar a “candura” como marca do povo brasileiro. Deslegitimar e apagar os anos de rebeldia, proclame o fim do brasileiro que se reconhece como agente político, declare o Fim da Era Vargas, “o brasileiro é naturalmente pacífico e cândido”. Não é extremamente cretino chamar de “pacífico” um povo com uma das mais altas taxas de homicídio do mundo, com a polícia entre as mais violentas e dos mais indiferentes governantes que temos conhecimento?

Mas não podemos cair no clichê de culpar apenas a mídia e os resquícios da ditadura, como numa espécie de inimigo fantasma e intransponível e assim esvaziar os 25 anos subsequentes de história. Os anos de redemocratização foram de muitos conflitos e muita repressão. Lembrem de Eldorado dos Carajás, da movimentação para remoção do Collor, das grandes manifestações contra a privataria de FHC, sem contar os corriqueiros “choques de ordem”, amaciando as populações nos subúrbios e periferias e é claro, como no caso atual, as inúmeras lutas por transporte digno. Nas nossas periferias, com maquiagem UPP ou não, ainda hoje, as coisas ainda são mais ou menos como Lima Barreto colocou mais de 100 anos atrás: o Estado só aparece para cobrar imposto e para reprimir.

Não sejamos ingênuos ou desonestos. Sim, estas forças, muito bem articuladas (sem “sanhas conspiratórias”) são responsáveis também pelo construção do “pacatismo” de nossa população. Sim, todas as forças da ditadura continuam por aqui, os generais de pijama, a mídia das mais atrasadas do planeta, o semanário fascista-bacana, a classe média mais corrupta e anti-republicana que podemos imaginar e uma classe dominante ainda anti-desenvolvimentista, exportadora, aristocrática e anti-popular, eles fazem parte desta onda conservadora que cresceu como tsunami no Brasil.

Mas lembremos que a esquerda brasileira, como em quase toda parte do globo, aceitou o lema anti-radical, do “fim da história”, da “via eleitoral” e de que “nas ruas não conseguiriam nada”. A aceitação desta idéia e a meteórica ascensão do Partido dos Trabalhadores nos quadros eleitorais nos anos 90 e 2000, somada à proliferação de partidos minúsculos disputando migalhas nas eleições liberais, apenas reforçam o argumento de que uma parte da esquerda aceitou e se “deu muito bem” no abrandamento de suas posições.

“Lula Paz e Amor” veio e de fato fez um ótimo governo, especialmente se comparado com as décadas anteriores, no entanto, a ascensão da esquerda amansada ao poder nacional serviu como válvula de escape das imensas pressões sociais que existiam e existem no Brasil. Sem ter de fato resolvido a questão agrária, o MST e os conflitos agrários ficaram bastante calmos por quase 10 anos, para não prejudicar o PT. Sem ter resolvido as questões da ocupação urbana e moradia, da favelização das capitais, o PT conseguiu apaziguar os movimentos urbanos; sem ter resolvido grandes questões do vilipêndio das privatizações as manifestações a respeito foram amansadas (trambiqueiragens tão descaradas que finalmente a maior delas está sendo questionada pela Justiça), o PT conseguiu acalmar o funcionalismo mais radical.

Assim, sem ter de fato apresentado soluções consistentes e duradouras para os graves problemas históricos brasileiros, o PT conseguiu amansar os sindicatos e a militância radical do seu partido, que não é pequena nem menos importante. E conseguiu isso não com participação efetiva e real dos sindicatos e movimentos sociais no processo decisório e produtivo do país, nem mesmo fez isso com o Bolsa Família ou o aparelhamento político dos sindicatos e movimentos sociais como afirmam os anti-petistas, mas conquistou no bolso, com aumento real de salário e com crédito farto para que a população compre o seu carrinho e sua tv de plasma, enfim, se inclua na sociedade de consumo.

E pior, sem o prestígio de Lula e o impacto positivo inegável de seu governo, Dilma se transparece como uma Tony Blair de saias, na definitiva “New-Labourização” do Partido dos Trabalhadores, frequentemente acenando com a esquerda e assinando com a direita. A aliança com a “real política” do PMDB, o mais orgânico e menos ideológico dos partidos brasileiros, deu um ar fetichista à política do PT: “Eu sei muito bem que estas atitudes não são o que nós queremos e que vocês esperam, mas é um passo importante para a grande mudança que planejamos”. Um simulacro da política do “passo atrás para dar dois à frente de Lenin”. Em nome da governabilidade, os pontos nevrálgicos do atraso brasileiro foram sempre postergados e as (contra)reformas que os neoliberais querem, sempre contra os trabalhadores, vão se firmando, uma a uma, executadas pelo seu antigo inimigo, assim dando uma legitimidade que o Capital jamais teve no Brasil.

Neste ponto que lembro com temor de uma verdade inconveniente: o fascismo é filho de revoluções derrotadas. Para cada investida progressista que falha e não cumpre com as expectativas, uma onda de conservadorismo e retrocesso se segue, algumas com difícil recuperação.

E nós, aparentemente, falhamos em acabar com o ranço colonial-escravocrata-exportador, atualizado na mentalidade da ditadura e seus filhotes.

Não é por acaso que podemos facilmente notar que boa parte de nossa sociedade, aprova e ressalta costumes e comportamentos claramente autoritários, aplaudindo massacres, esculachos e classificando – até anteontem – toda e qualquer tipo de movimentação popular como baderna e vandalismo, seja em violência disruptiva tacando fogo em trens e ônibus, como em estudantes pedindo diminuição da passagem ou escolha democrática de seu reitor universitário. Desde que haja uma justificativa “aceita como verdade” por parte da “opinião consentida”, o Estado tem carta verde para reprimir a vontade e, sob o auspício de um legalismo seletivo, “Estado de Direito” quando é conveniente, a regra se transparece na criminalização de todo tipo de “não-alinhado” com a “política real”. Não é coincidência que no mundo – e no Brasil – vemos uma tendência de transformar juridicamente movimentos sociais em terroristas, legitimando assim, sua aniquilação como Inimigos do Estado.

A onda de retrocesso trás todo tipo de lixo com ela.

Quando vimos a população, muitas vezes seguindo o coro dos “formadores de opinião”,  a exaltar o filme Tropa de Elite, enraizar seus jargões e algumas de suas idéias, transformando a polícia mais assassina do mundo em uma espécie cínica de paladino da ordem e da justiça, há toda uma falência dos ideais progressistas por trás.

Me lembro dos aplausos ao Bope no desfile de 7 de Setembro pouco depois do filme e dos inúmeros episódios do jornal local exaltando a polícia e sua violência e associo com as bandeirinhas francesas saudando a invasão nazista de Paris. Me marcou a  “normalidade” que foi tratada a fileira de tanques subindo a Vila Cruzeiro e “piadas” online brincando com “Tropa de Elite III” durante a instalação de alguma UPPs; Ou aquele helicóptero da PM julgando e executando suspeitos como se fosse um videogame, numa versão de baixo orçamento do “Collateral Murder” norte-americano.

Basta o moto “bandido bom é bandido morto” como casus belli  para todo tipo de barbárie contra indesejáveis ser validada, com direito a vários programas de TV dando ares de “vontade popular” à brutalidade, amaciando a população, normalizando o terrorismo corporativo e estatal. Não foi o próprio Alckmin, governador de São Paulo, como um Gauleiter Nazista, que afirmou após um novo massacre da PM contra criminosos suspeitos, que “quem não reagiu está vivo”? Glorificando uma polícia que, como várias outras do país, trás sua versão da Totenkopf nazista no emblema ou escudo.

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários, evidenciando a clara incapacidade ou, porque não, falta de interesse das autoridades na autonomia real das universidades?

Quando grandes veículos da imprensa classificavam a luta pela reforma agrária como terrorista, não vi muitos levantarem assustados contra tamanha cretinice. É incrível encontrarmos opiniões sérias de que “invasor de terra tem que morrer” e que “reforma agrária é coisa de comunista”, em pleno século XXI. O Brasil é o único país “capitalista” que não só não fez reforma agrária, como mantém aquela mentalidade agro-exportadora muito viva, largamente representada no governo, pautando além da própria política de terras do Brasil, a maior sorte de conservadorismos semi-feudais que caminham ao lado dela. Não é coincidência que  seja comum encontrarmos muitos bóias-frias em condições análogas da escravidão e que o Bolsa Família, uma importante arma pela libertação do campo e da servidão por dívida, seja execrado pelos ruralistas e seus aliados.

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Alguém fora dos ciclos da esquerda mais radical foi sistematicamente contra isso?

Não podemos passar 20 anos tolerando e ignorando esta escalada conservadora, dignas de uma ditadura e posar de “surpreso” quando a polícia vem descer a porrada em nós por simplesmente querermos exercer um direito constitucional. A constituição não vale nada quando o dinheiro manda. Não podemos honestamente pensar que é novidade quando “descobrimos” que todos os políticos prestam mais contas a seus patrocinadores do que à própria população e que esta é a lógica do capitalismo “livre” (1). Não podemos honestamente aceitar tudo isso e se surpreender quando, em um momento de fricção, o Estado vêm de fato mostrar o que sempre foi: protetor da classe dominante, protetor das grandes corporações e dos financiadores de sua própria existência. O cachorro que nos morde hoje, é o que demos comida e vimos crescer ontem. Corruptos e autoritários… somos nós.

E agora, que aparentemente estamos saindo da inércia e que a onda conservadora está ganhando uma contra resposta, que a tampa da panela de pressão que a ascensão do PT colocou nos movimentos sociais está a ponto de estourar, vemos os velhos oportunistas de sempre, os fascistas saindo do armário e os pelegos pusilânimes perdendo as estribeiras.

De um lado o PT, cínico e envergonhado, claramente desviado de sua posição histórica de defesa popular, prefere ficar calado ou tímido, vendo a história se desenvolver em sua frente, talvez incrédulo ou temeroso, se recolhe na mediocridade da governabilidade e estabilização (2). Não quer fazer mais feio na sua Copa. Mas não me refiro às vaias da Dilma na abertura da Copa das Confederações: alguém que pode pagar no mínimo R$300 para ver um jogo semi-amistoso da seleção brasileira pertence a uma classe social que nunca gostou da Dilma ou do PT, naturais as vaias portanto. Não. Me refiro a Haddad diminuído à sua insignificância em SP, que até “anteontem” estaria na rua contra o PSDB e depois de muita relutância, quer negociar com os “baderneiros”. Me refiro também à Agnello, o petista que manda a PM caçar manifestantes em casa, coisas de deixar Alckimin com inveja; Me refiro à galopante diluição do PT em “partido do possível” num pragmatismo tolo e subserviente, lampeduziano, mudando as coisas para que elas continuem as mesmas.

Do outro lado, os abutres de sempre, parasitas e oportunistas eternos, falam através dos barões da mídia, porta-vozes da antiga classe dominante – aqueles que restauraram seu poder com a ditadura militar. Num esforço cínico tentam mudar o discurso que sempre fizeram, não é por acaso que a inversão que a imprensa vez tratou, desde o início desvincular a repressão da polícia de Alckmin e do PSDB, a mesma do Pinheirinho, dos protestos atuais. Se até ontem mandavam descer a porrada em baderneiros, reprimir a população,  enfatizando “a normalidade dos tanques na rua”, agora, como no patético mea culpa do Jabor após o seu vexaminoso discurso dos 20 centavos, procuram canalizar os descontentes para velhos motos conservadores e anti-governistas, erguendo o genérico “contra a corrupção”, capas de inúmeras Veja e Folha, como se tentando pautar as manifestações com a “não-pauta” da corrupção, do anti-lulismo e por extensão, anti-esquerda, tirando todo o caráter e raiz progressista e radical do próprio movimento.

Ao ver uma parte já importante dos “distúrbios civis” já clamando por “apartidarismo” e genérico “luta contra a corrupção”, além da preocupante tentativa de proibição da bandeira de partidos nas reuniões, clamor visto com frequência nas redes sociais, afetando especialmente os partidos da esquerda radical, únicas bandeiras presentes de fato nos movimentos, não posso deixar de lembrar das palavras de Slavoj Zizek ao Occupy Wall Street, no auge do movimento:

“Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo.”

Assim, enquanto o movimento permanecer definindo metas claras e objetivas, separando críticas sinceras à de um anti-esquerdismo barato, poderemos ver florescer algo novo e incrível em nosso país. Não, ainda não vejo algo que se possa chamar de Primavera Brasileira, são apenas os primeiros ventos que carregam as sementes da próxima flora. A água está quente mas ainda há mais pressão a ser feita até explodir a panela. Encerro com o mesmo texto de Zizek:

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS.”

Leandro Dias

Colaboração de José Livramento

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NOTAS:

1 – Já falamos dezenas de vezes por aqui, este é o normal do funcionamento da Democracia Liberal, que nada mais é que o nome bonito da Ditadura do Dinheiro, cito um comentário que fizemos aqui no blog meses atrás:

Se nossa sociedade […] é regida pela lei do mercado onde “uma mão lava a outra” e toda troca pressupõe um retorno utilitário, onde toda escolha é uma relação de consumo, o que esperar da democracia fundada sobre esta lógica?

Os mensalões não são uma disfunção corrupta da democracia liberal praticada por imorais aproveitadores, mensalões SÃO a democracia liberal.

2 – A exceção talvez de tímidas manifestações dos diretórios regionais e um ou outro político isolado, mais colado à militância do que a “real política” do núcleo do partido.

Por Stanley! Ou do Anti-comunismo rasteiro

Lulo-stalinismo nazista.

Lulo-stalinismo nazista.

O deputado evangélico Marco Feliciano, entre outras tantas pérolas que já conhecemos, proferiu em resposta aos que lhe queriam tirar da Comissão de Direitos Humanos, as seguintes palavras: “São homens e mulheres que usam dos mesmos mecanismos que Stanley usou no seu comunismo nazista. Usam da mesma linguagem de Hitler”.

Feliciano procurava associar a reação das pessoas ao seu discurso homofóbico e retrógrado com o que chamou de “comunismo nazista”.

O deputado considera que respostas hostis ao seu descarado preconceito e ignorância  são como censura ou pior, “repressão nazista”, “autoritária”. É como se repudiar o preconceito fosse algo preconceituoso, numa corruptela pós-moderna em algo como “ser anti-racista é censura e ataca o meu direito de ser preconceituoso”, considerando que a repúdia a um discurso de ódio não passa na verdade de “um ataque à liberdade”, transformando algoz em vítima e vítima em algoz, onde qualquer resistência é usada como justificativa para opressão: “Veja só como reagem, sempre falei que eram hostis!”

Essa “Reversal Pós-Moderna” – não é sua bota que pisa na minha cara, mas sua cara que me impede de pisar no chão” – é tão rasteira que dignificar um longo texto a esta perspectiva seria um exercício inútil e, portanto, vamos nos focar no final de sua pérola. Assim, nosso trabalho aqui se dedicará ao que tem de profundo em sua declaração, especificamente na invenção de um “comunismo nazista” por parte de Feliciano. Nos dedicaremos ao anti-esquerdismo rasteiro contido neste tipo de argumentação.

Ignorando  que ‘Stanley’ é certamente um erro aceitável (!) de pronúncia do deputado, Josef Stalin foi um algoz do nazismo, responsável direto pela derrota de Hitler na 2ª Grande Guerra. Entre vários importantes historiadores, das mais variadas vertentes, de John Lucaks a Eric Hobsbawn por exemplo, e até mesmo o New York Times queainda no período Mccarthista ressaltou a importância de Stalin na Segunda Guerra no obituário do líder soviético. E afinal, por mais que Hollywood tenha nos dado infinitos filmes sobre a importância norte-americana e poucos sobre os russos na derrota nazista, não foi uma bandeira soviética a flamular sobre o Reichstag, centro de governo de Hitler ao final da 2ª Guerra Mundial, na famosa foto de Yevgheny Khaldei?

No entanto, essa aproximação que Feliciano faz de Hitler e Stalin e, por extensão, entre nazismo e comunismo, não é privilégio de fanáticos religiosos com confuso estudo histórico. Há sérios intelectuais dispostos a esta aproximação e não é raro ver esta associação em discursos políticos, especialmente durante a Guerra Fria.

A esquerda marxista como Rosa Luxemburgo e Anton Pannekoek e pouco depois, Paul Mattick, denunciavam a aproximação do modelo de Josef Stalin com o fascismo de Mussolini, muito antes de Hitler chegar ao poder. Chamavam de “fascismo vermelho”, por caracterizarem a URSS fundamentalmente como “capitalismo de Estado sob domínio do Partido”, termo aliás, que o próprio Lenin utilizou (1) e que para ele era um “retrocesso” necessário para consolidação do país, “um passo atrás para dar dois a frente”. Onde o Estado absorve todo o excedente econômico produzido pelos trabalhadores e não os reverte para os mesmos, mas para o uso das necessidades do próprio Estado, sendo uma imensa burguesia monopolista. Neste sentido, várias décadas depois, observa-se uma continuidade no Partido Comunista Chinês, que insiste seguidamente em reafirmar seu compromisso “pragmático” com o comunismo, num país onde as corporações capitalistas nacionais e internacionais crescem de maneira descomunal e o capitalismo é cada vez mais dirigido pelo Estado em associação com as mesmas, numa situação econômica em grande escala, relativamente similar com a relação de Mussolini e Hitler com os industriais de seus países.

É quando partimos para o outro lado dos que associam marxismo com nazismo, que se faz necessário identificar as críticas e argumentos são de fato pertinentes ao tema, das argumentações que na verdade são apenas máscaras veladas de anticomunismo disfarçado em retórica elaborada. É assim que nos aparecem intelectuais radicais do capitalismo liberal como Hayek, Friedman e Mises, que muitas vezes parecem odiar a priori o socialismo e daí buscam constantemente argumentos para justificar seu repúdio.

Para eles marxismo e nazismo são versões da mesma coisa e vão buscar todo o tipo de exemplo para comprovar sua tese, porém, no geral, foi Mises quem expressou melhor essa associação, chamando genericamente de “Intervencionismo”, toda a ação Estatal na economia. Nas palavras dele, publicada em emblemático junho de 1929 (3 meses antes da esmagadora crise do livre mercado):

” O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (von Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Assim, com essa simplificação genérica, Mises consegue colocar praticamente todo tipo de atividade econômica estatal como ‘intervencionismo’, desde as do tipo fascista até o intervencionismo keynesiano e, é lógico, o marxismo.

Um dos primeiros fatores que Mises e todos que acreditam nessas premissas, é ignorar o que a realidade inúmeras vezes escancarou (e escancara) em nossa cara:

Para o grande empresário, especialmente numa crise, se associar ao Estado é a atitude mais lucrativa possível (2) e na história fizeram isso seguidas vezes, tantas vezes que foi preciso reformar o Estado para que se adaptasse às suas necessidades. Não foram as chamadas “revoluções burguesas” a consolidação do poder político de quem antes só tinha poder econômico (burguesia)?

O Motivo do Lucro é tão importante que o capitalista descobriu que se tomar o controle do Estado lhe dará segurança, lucros garantidos e ainda poder de coerção contra os trabalhadores e a concorrência (especialmente internacional). É ignorar que ao se associarem com o Estado, imensas quantidades de dinheiro público passaram  a bolsos privados de empresas como Krupp, IBM, Volkswagen, Ford Motors, Deutsche Bank, Rockefeller Chase Bank, entre várias outras, só para citar os nazistas nos anos 1930 e 40. Este é um tema que já levantei neste post.

A negação desta evidência para exaltar um idílico mercado livre perfeito, dada a abundância de documentações e análises econômicas e históricas que vão exatamente contra esse argumento, não pode parecer se não o mais rasteiro cinismo ou falsificação da realidade para adequar a tese criada a priori: “estado = socialismo = ruim”.

Mas Mises, o mais radical dos gurus liberais, não deixa o seu cinismo apenas numa “inocente” formação teórica e negação da realidade. Ele mesmo trabalhou para o governo fascista austríaco de Engelbert Adolphus nos anos 30 e não só isso, ainda em 1927, admite que o fascismo foi uma boa solução para o capitalismo, uma solução contingencial, mas boa, como podemos ver aqui (tradução minha, nota 3):

“Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miravam na estabilização de ditaduras estão cheios de boas intenções e suas intervenções, no momento, salvaram a civilização Européia. O mérito que portanto o fascismo ganhou para si, viverá eternamente na história. E apesar de ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode prometer sucesso continuado. Fascismo foi uma mudança de emergência. Vê-lo como algo a mais seria um erro fatal” (Liberalismo, o Argumento do Fascismo).

Assim, fica altamente compreensível o apoio posterior dos discípulos de Mises, Hayek e Friedman, ao neofascista ditador chileno Augusto Pinochet, carniceiro com mais de 30 mil mortos em sua conta, usado como plataforma de experimentação do neoliberalismo. Hayek admite:

“Como instituições de longo período, eu sou totalmente contra ditaduras. Mas ditaduras podem ser um sistema necessário por um período transitório […]. Pessoalmente eu prefiro um ditador liberal do que um governo democrático ausente de liberalismo. Minha impressão pessoal – e isso é válido para a América do Sul – é que o Chile, por exemplo, vai observar uma transição de uma ditadura governamental para um governo liberal” (nota 12).

É o mesmo cinismo deslavado que vemos nos dias de hoje, que continua a defender “o estado mínimo”, “os perigos da intervenção da economia” e um suposto “capitalismo livre do Estado” mesmo depois da colossal intervenção estatal de 700 bilhões de dólares para salvar os bancos ou para salvar a Ford Motors nos EUA. Isso numa crise econômica essencialmente causada pela falta de regulamentação – isto é, excesso de liberdade – do mercado norte-americano, como explicou muito bem David Harvey em O Enigma do Capital.

O Estado forte é ruim, mas de tempos em tempos, para solucionar uma crise ou para usar a repressão violenta contra a população, extirpando o “socialismo” ou “marxismo cultural” dela e então favorecer o empresariado soberano numa especie de “livre mercado sem democracia”, ele é ótimo e necessário. “Viverá eternamente na história”.

A desonestidade intelectual não tem limites.

Qualquer análise objetiva da realidade demonstra o quão forçado é associar nazismo e marxismo. Basta lembrar que, além dos conflitos físicos frequentes entre nazistas e comunistas durante todo os anos 1910 e 20 (4) , o objetivo do nazismo em relação ao marxismo já estava claro desde 1925, ano de publicação do Mein Kampf (como vimos no nosso último post) ou até antes, em 1922, quando o fascismo já estava no poder na Itália. É difícil portanto, não pensar que essa associação parte de um ódio anti-comunista a priori, traduzido numa forma “elaborada” do Reductio ad Hitlerum (5), e o principal argumento-slogan válido para desvalorizar o comunismo é, no fundo, associar tudo o que já o envolveu, ao nazismo. Onde nazista é a palavra-chave universal para a maldade, na simples dicotomia que tentam trabalhar hoje em dia em quase todos os temas.

Stalin era ruim não pelas suas inúmeras características brutais e intransigentes que claramente destoavam de qualquer preceito marxista, onde apresentava muito mais as características de um nacionalista radical, imperialista e autocrata, inserido assim num ethos político russo, longe de um “internacionalista, iluminista defensor da democracia”, como poderíamos classificar Karl Marx. Era ruim porque era socialista.

Stalin era ruim não por expurgar e prender importantes comunistas soviéticos que poderiam lhe contestar a liderança, chegando a mais de 300 mil presos políticos, ou por ter executado boa parte da cúpula bolchevique que participou da revolução de 1917  (6), podendo-se dizer que apenas Hitler matou mais comunistas do que Stalin. Não, não por isso. Era ruim porque fez isso através de uma ideologia análoga ao nazismo.

Desta forma, até decisões econômicas catastróficas são lidas então sob a perspectiva nazista. A coletivização rápida e forçada das terras feudais da Ucrânia, alterando o panorama e distribuição de alimentos em toda URSS, provocando 4 a 5 milhões de mortes de fome em 3 anos é lida como genocídio planejado análogo ao extermínio industrial de judeus que inclusive usou maquinário da corporação estadunidense IBM. É irrelevante notar que se fôssemos condenar governos por matar de fome sua população por incompetência e negligência,  teríamos de aumentar a lista para centenas de tiranos ao longo de todo o século XIX e XX. A fome na Irlanda matou 15% da população do país por volta de 1850 e não vemos a Rainha Vitória da Inglaterra figurar na lista de genocidas ao lado de Stalin. Ainda mais, se formos com o ex-relator da ONU, Jean Ziegler por exemplo, poderemos considerar que  uma criança morta de fome é, na verdade, assassinada e restará pouquíssimos países não-assassinos de crianças no mundo e curiosamente, Cuba estaria entre eles.

Josef Stalin portanto, não é analisado e criticado pelo que de fato fez de ruim e tirânico, enquanto líder de um país em situação de guerra desde no nascimento, mas porque o que ele fez não passou de uma versão russa do nazismo hitlerista, “exemplos evidentes” de como o estatismo é vil e repugnante. Ele era ruim porque era como Hitler, esvaziando todo o conteúdo fundamental para entender não só o stalinismo, mas o fascismo e mesmo o liberalismo. O seu “comunismo nazista” é um redução ad hominem para condená-lo, sendo irrelevante que na realidade, sua relação com os nazistas e por extensão, do marxismo com o fascismo, fosse sempre de choque e conflito.

Não basta que o Mein Kampf, livro de Hitler, tenha páginas e páginas dedicadas ao seu ódio absoluto ao marxismo, bolchevismo, assembleísmo, à Revolução Comunista da Baviera e à União Soviética. Nem bastam inúmeros discursos de toda a intelligenzia nazista abominando o marxismo, a URSS e os bolcheviques (7). Não bastam os 20 anos seguidos que os soviéticos fizeram propaganda anti-nazista e os nazistas propagandas anti-soviéticas, nas mais variadas formas e moldes, inclusive durante a breve Paz Armada que tiveram.

Não basta Hitler ter dito para os grandes capitalistas (não-judeus) de seu país que não iria mexer nos negócios da Krupp ou de qualquer outra grande empresa capitalista alemã e que seu objetivo principal era acabar com o marxismo, algo, obviamente, impensável para um marxista (8). Não bastam as inúmeras corporações capitalistas que apoiaram o regime nazista e abominavam os soviéticos. Não basta Hitler ter acusado outros nazistas de serem bolcheviques em acalorados debates e usar isso de motivo para perseguições, como o caso do nazista Otto Strasser (9).

Não bastam as relações comerciais entre os nazistas e os soviéticos terem se deteriorado consideravelmente por pura vontade ideológica e não econômica. Não bastam tropas soviéticas terem lutado contra tropas nazi-fascistas na Guerra Civil Espanhola em 1936, sendo a URSS a única nação a enviar oficialmente tropas contra o fascismo espanhol e que este era apoiado abertamente pelos nazistas.

Ignorando toda a rivalidade teórica e belicosa entre nazismo e comunismo, alguns defensores desta associação, citam o pacto de não-agressão entre Hitler e Stalin de 1939 como prova irrefutável da aliança entre seus países e ideologias. O mais estúpido deste argumento é o mais óbvio: um país só faz pacto de não-agressão com inimigos, jamais com aliados. Imaginem se os EUA iriam ter um pacto de não-agressão com a Inglaterra ou a França durante os anos 30. O acordo Molotov-Ribbentrop é justamente prova cabal de que os países e os líderes eram inimigos declarados que por conveniência e oportunismo resolveram rapinar um inimigo histórico comum (a Polônia) sem a necessidade de conflito (10). Não é muito diferente dos inúmeros acordos políticos e comerciais entre EUA e URSS ao longo de toda a Guerra Fria.

É preciso no entanto colocar que, para além de todo o cinismo que uma associação entre as duas ideologias carrega, podemos sim dizer que Hitler e Stalin tinham suas semelhanças, seja na perseguição de rivais ao seu poder, seja na relação com a Polônia e até mesmo no culto a personalidade, onde Stalin claramente entrava em choque com Marx (11). Mas estas semelhanças estavam muito longe de ser simpatias reais ou qualquer relação teórica profunda, por isso que em analise teórica acabam na imposição forçada, simplista e ahistórica de Von Mises onde marxismo e keynesianismo pregam um Estado interventor, logo podem ser associados ao intervencionismo do nazi-fascismo.

E ainda, da mesma forma que podemos atribuir afinidades entre Stalin e Hitler, podemos também, traçar entre grande parte dos anti-comunistas ocidentais com Hitler, Mussolini e muitos outros fascistas. Von Mises na sua apologia ao fascismo não me deixa mentir. Friedman e os Chicago Boys do fascista chileno Pinochet também não. Até os franceses saudando os nazistas com bandeirinhas sob a liderança de Phillipe Petaín durante a conquista nazista, são reflexo desta simpatia ocidental pelo nazi-fascismo. Ora, não foi em visita aos EUA o acidente do Zepelim nazista Hindeburg ? Henry Ford, Rockefeller e muitos industriais norte-americanos não tiveram importantes relações com o regime de Hitler? O apaziguamento covarde de Neville Chamberllain não usava um temor de nova guerra como protagonista de um anti-comunismo histérico do Ocidente?

Assim, ao observar o discurso anti-comunista em gente como Feliciano ou Bolsonaro e tantos outros de nossa vida política, temos que perceber, no seio de opiniões aparentemente infundadas, mas comuns na mentalidade ocidental, aonde descansa teoricamente e a quem serve este tipo de argumentação. O fascismo é o capitalismo aplicado sem o cinismo liberal e deles o marxismo é inimigo declarado.

Leandro Dias

*Colaborou: André Brito

NOTAS

1 – Ver BERTELLI, Antonio Roberto, “Capitalismo de Estado e Socialismo”, páginas 67 a 80.

2 – Para Marx, o Estado moderno é, se não, a consolidação do poder da propriedade privada. Ver verbete Estado da enciclopédia marxista.

3 – Esse texto poderia ser resumido assim: “fascismo é ruim porque é violento, intervencionista e etc, mas na contingência do momento, para bater e proteger do comunismo, é bom e deve entrar para história por isso”.

4 – Rosa Luxemburgo por exemplo, foi morta pela polícia da Baviera, que na época tinha forte associação com os grupos paramilitares de extrema direita, genericamente chamados de Freikorps.

5 – A prática ad hominem não é rara nesta escola.

6 – Até mesmo um stalinista admite isso, Ludo Martens em seu livro “Stalin, um novo Olhar”.

7 – Ver nosso último post  e ver também “Landmark Speeches of National Socialism”, por Randall Bytwerk (organizador).

8 – Vale ler o grande número de documentos oficiais, discursos e livros nazistas compilados por Jeremy Noakes, no seu excelente “Documents on Nazism” (1919-1945), especialmente a sessão Hitler e os Industriais.

9 -Ver “Hitler und Ich” (Hitler e Eu), livro de Otto Strasser, político e dos primeiros importantes membros do Partido Nazista, expulso do partido em 1930. Lembrem também que em 1934 a “Noite das Facas Longas” foi justamente um “pogron” para exterminar os elementos esquerdistas e socialistas, muitas vezes chamados de “bolcheviques” pelos seus algozes.

10 – Ver citação “Página 488” do nosso texto último post sobre Hitler.

11 – Marx diz em carta a um amigo (tradução minha): “Nenhum de nós se importa com a popularidade. A prova disso é por exemplo, que devido à aversão a qualquer culto à personalidade, eu nunca permiti que as inúmeras expressões de reconhecimento que eu recebi durante a existência da Internacional alcançassem o campo da publicidade, eu nunca as respondi, exceto ocasionalmente quando fui refutá-las. Quando Engels e eu entramos na organização secreta “Sociedade Comunista”, exigimos a condição de que tudo que encorajasse credos supersticiosos na autoridade deveriam ser removidos dos estatutos.” (Letter to W. Blos, IN: Wikiquote). Essa colocação é diametralmente oposta ao “princípio da autoridade” dos nazistas.

12 – Citação adicionada na revisão deste texto, 25-5-2013. Ver aqui ; aqui e ver GANDIN, Greg, Empire’s Workshop, Henry Holt Company, EUA, 2006.

O “marxismo” citado no Mein Kampf de Adolf Hitler.

 

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Resolvi reunir aqui uma lista enorme de citações de Hitler sobre o marxismo, comunismo, bolchevismo e URSS. É um exercício acadêmico, como fonte de referências futuras. Este texto servirá de apêndice de um outro texto que estou escrevendo. É uma compilação de afirmações ipsis literis de Adolf Hitler a cerca do tema.

Procurei citar os parágrafos e frases importantes para a compreensão da relação (ou falta dela) de Hitler com o marxismo, e, como o autor mesmo fazia, não vai ser difícil observar o evidente antissemitismo associado com o tema. Por incrível que pareça, não estão todas as citações de Hitler sobre o tema em seu livro de 500 e poucas páginas.

O conteúdo é muitas vezes chocante ou contraditório, mas sempre que possível procurei citar o contexto, daí a grande extensão deste texto. Inicialmente começarei com a palavra escrita do próprio autor, retirada de seu livro, o Mein Kampf, na tradução de Klaus Von Puschen, publicada pela editora Centauro em 2001.

Assim, aqui vai:

Página 22: “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”

Página 43: “Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos  o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo”

Página 51:  No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”

Página 53:”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.

Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”

Página 63: “A democracia do ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível. Ela oferece um terreno propício, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua expressão externa – o parlamentarismo – apareceu como um monstrengo de “lama e de fogo”, no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. ”

Página 116: “Pela segunda vez na minha vida, analisei profundamente essa doutrina de destruição [o marxismo] – desta vez, porém, não mais guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela observação dos acontecimentos gerais da vida política.  […]

Comecei a considerar, pela primeira vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência mundial. Estudei os móveis, as lutas e os sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também estudo profundo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Página 116: “No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao meu pequeno círculo de meus conhecidos, bem como a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época – o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos – tendo-se em vista a intenção do marxismo – tinham de ser um dia terríveis.

Página 116: “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”

Página 127: “O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.’

[…]

Tinha chegado agora o momento oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo. Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem considerações para com as lamentações que provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as bênçãos fraternais de bombas americanas. Teria sido dever de um governo cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os operários alemães se tinham integrado de novo a Pátria.

“Que se deveria fazer? Por os dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação. Ter-se-ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria de ser chamado à razão pela força convincente das baionetas.”

Página 160: “Foi assim que os dogmas de Gottfried Feder me incitaram a me ocupar de maneira decidida com esses assuntos que eu pouco conhecia. Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital’ – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.”

Página 176: “Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.”

Página 181: “Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores os judeus”

Página 192: O bolchevismo da arte é a única forma cultural possível da exteriorização do marxismo.

Quando essa coisa estranha aparece, a arte dos Estados bolchevizados só pode contar com produtos doentios de loucos ou degenerados, que desde o século passado, conhecemos sob forma de dadaísmo e cubismo, como arte oficialmente reconhecida e admirada.”

Página 236: “O processo aí emprego pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

[…]

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e loucura, mas tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores. Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que pode se dar a esse aborto de um cérebro criminoso a denominação de “doutrina’. ”

Página 237: “De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas mas, em verdade, constituem um único bloco: o movimento dos políticos e dos sindicatos.”

Página 243:  “Mesmo as eleições de representantes ao “Reichstag” anunciavam, com o seu acréscimo patente de votos marxistas, o desmoronamento  interno cada vez mais próximo e a todos manifesto. Todos os sucessos dos denominados partidos políticos não tinham mais valor, não só por não poderem fazer parar a ascensão da onda marxista, mesmo nas chamadas vitórias eleitorais burguesas, como também pelo fato de já trazerem dentro de si os fermentos da decomposição. Inconscientemente, o mundo burguês já se achava contaminado pelo veneno mortal do marxismo”.

Página 287: “E se uma parte do marxismo, por vezes, tenta, com muita prudência, aparentar indissolúvel união com os princípios democráticos, convém não esquecer, que esses senhores, nas horas críticas, não deram a menor importância a uma decisão por maioria, à maneira democrática ocidental. Isso foi quando os parlamentares burgueses viam a segurança do Reich garantida pela monumental parvoíce de uma grande maioria, enquanto o marxismo com uma multidão de vagabundos, desertores, pulhas partidários e literatos judeus, em pouco tempo, arrebatava o poder para si, aplicando, assim, ruidosa bofetada à democracia. Por isso, só ao espírito crédulo dos magros parlamentares da burguesia democrática cabe supor que, agora ou no futuro, os interessados pela universal peste marxistíca e seus defensores possam ser banidos com as fórmulas de exorcismo do parlamentarismo ocidental”.

Página 288: “Mas, numa época em que uma parte, aparelhada com todas as armas de uma nova doutrina [o marxismo], embora mil vezes criminosa,  se prepara para o ataque a uma ordem existente, a outra parte só pode resistir-lhe sempre se adotar fórmulas de uma nova fé política; em nosso caso, se trocar a senha de uma defesa fraca e covarde pelo grito de guerra de um ataque animoso e brutal.”

Página 291: “À nossa concepção política usual repousa geralmente sobre a idéia de que ao Estado, em si, se pode atribuir força criadora e cultural, mas que ele nada tem a ver com a questão racial; e que ele é, antes de mais nada, um produto das necessidades econômicas ou, no melhor dos casos, o resultante natural da competição política pelo poder. Essa concepção fundamental, em seu lógico e consequente desenvolvimento progressivo, leva não só ao desconhecimento das forças primordiais da raça como à desvalorização do indivíduo. Porque a negação da diferença entre as raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver a relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. A aceitação da identidade das raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver em relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. Por isso, o marxismo internacional é simplesmente  a versão aceita pelo judeu Karl Marx de idéias e conceitos já há muito existentes de fato sob a forma de aceitação de uma determinada fé política. Sem o alicerce de uma semelhante intoxicação geral já existente, jamais teria sido possível o espantoso êxito político dessa doutrina. Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um feiticeiro, com ela aniquilar rapidamente a vida das nações livres da terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça.

Página 291: “O mundo burguês é marxistísco, mas acredita na possibilidade de domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus”.

Página 335: ” Se o programa social do novo movimento consistisse em suprimir a personalidade e por em seu lugar a autoridade das massas, o Nacional-Socialismo já ao nascer, estaria contaminado pelo veneno do marxismo, como é o caso dos partidos burgueses.”

Página 342: “O que nossa burguesia sempre olhou com indiferença, isto é, a verdade segundo a qual ao marxismo só se ligam as classes iletradas era, na realidade, a condição sine qua non para o êxito do mesmo. Enquanto os partidos burgueses, na sua intelectualidade superficial, nada mais representavam do que um bando incapaz e indisciplinado, o marxismo, com um material humano intelectualmente inferior, formou um exército de soldados partidários que obedeciam tão cegamente aos seus dirigentes judeus como outrora aos seus oficiais alemães.”

Página 353: “A força que deu ao marxismo sua espantosa influência sobre as massas não foi a obra intelectual preparada pelos judeus, mas sim a formidável propaganda oral que inundou a nação, acabando pela dominação das camadas populares. De cem mil proletários alemães não se tiram talvez cem que conheçam a obra de Marx, que era estudada, mil vezes mais, pelos intelectuais, especialmente os judeus, do que por genuínos adeptos do movimento nas classes inferiores.

Esse livro não foi escrito para o povo, mas exclusivamente para os líderes intelectuais da máquina que os judeus montaram para a conquista do mundo. ”

Página 361: Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias  tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos  cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Página 368-369: “É a essa idéia que a bandeira preta, branca e vermelha, do antigo Reich, deve a sua ressurreição como emblema dos partidos nacionais-burgueses.

É evidente que o símbolo de uma crise que podia ser vencida pelo marxismo, em circunstâncias pouco honrosas, pouco se presta a servir de emblema sob o qual esse mesmo marxismo tem que ser novamente aniquilado. Por mais santas e caras que possam ser essas antigas e belíssimas cores aos olhos de todo alemão bem intencionado, que tenha combatido na Guerra e assistido ao sacrifício de tantos compatriotas, debaixo dessas cores, não pode essa bandeira simbolizar uma luta no futuro.”

Página 384-385: “Ninguém deve esquecer que tudo que há de verdadeiramente grande neste mundo não foi jamais alcançado pelas lutas de ligas, mas representa o triunfo de um vencedor único. O êxito de coalizões já traz na sua origem o germe da corrupção futura. Na realidade só se concebem grandes revoluções suscetíveis de causar verdadeiras mutações de ordem espiritual, quando arrebentam sob a forma de combates titânicos  de elementos isolados, nunca porém, como empreendimentos de combinação de grupos.”

Página 446: “Não o sindicato em si é que é “lutador de classe’, mas o marxismo é que o fez dele um instrumento para a luta de classes. Ele criou as armas econômicas dos Estados nacionais livres, independentes, para aniquilamento da sua indústria nacional e do seu comércio nacional e por consequência para a escravização de povos livres ao serviço do judaísmo financeiro universal super-estatal.”

Página 449: “Quem […] tivesse realmente arruinado sindicatos marxistas a fim de, em lugar dessa instituição da luta de classes aniquiladora, colocar a idéia do sindicato nacional-socialista e contribuir para a sua vitória, esse pertence ao número dos verdadeiros grandes homens de nosso povo e seu busto deverá, um dia, ser dedicado à posteridade, no Walhalla de Regensburg”.

Página 450: Utilidade real para o movimento [sindical], como para nosso povo em geral […] só pode surgir de um movimento sindical nacional-socialista, se esse já estiver tão fortemente embebido das nossas idéias nacional-socialistas que ele não corra mais perigo de seguir as pegadas marxistas. Pois um sindicato nacional-socialista, que visse como sua missão apenas a concorrência aos marxistas, seria pior que nenhum. Ele tem de declarar a sua luta ao sindicato marxista, não apenas como organização, mas antes de tudo, como idéia. Ele deve encontrar nele o pregoeiro da luta de classes e da idéia de luta de classes e deve se tornar, em lugar deles, o guardião dos interesses profissionais dos cidadãos alemães.

Página 488: “Uma aliança, cujo o objetivo não compreenda a hipótese de uma guerra, não tem sentido nem valor. Alianças só fazem para luta. Embora, no momento de ser realizado um tratado de aliança, esteja muito afastada a idéia de guerra, a probabilidade de uma complicação bélica é, não obstante, a verdadeira causa.

[…]

Assim pois, o simples fato de uma aliança com a Rússia é uma indicação da próxima guerra. O seu desenlace seria o fim da Alemanha.

[…]

Os atuais detentores do poder na Rússia, não pensam absolutamente em fazer uma aliança honesta ou de mantê-la.

É preciso não esquecer nunca que os dirigente da Rússia atual são sanguinários criminosos vulgares e que se trta, no caso, da borra da sociedade, que, favorecida pelas circunstâncias, em uma hora trágica, derrubou um grande Estado e, na fúria do massacre, estrangulou  e destruiu milhões dos mais inteligentes de seus compatriotas e agora, há dez anos, dirige o mais tirânico regime de todos os tempos. Não devemos esquecer que muitos deles pertencem a uma raça que combina uma rara mistura de crueldade bestial e grande habilidade em mentir e que se julga especialmente chamada, agora, a submeter o mundo todo à sua sangrenta opressão.”

Página 488: Não devemos esquecer que o judeu internacional, que continua a dominar na Rússia, não olha a Alemanha como um aliado, mas como um Estado destinado à mesma sorte. Não se conclui, porém, nenhum tratado com uma parte, cujo único interesse está no aniquilamento da outra.”

Página 489: “Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaismo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo”.

Página 489: “A luta contra a bolchevização mundial exige uma atitude clara com relação à Russia soviética. Não se pode afugentar o Diabo com Belzebu.”

Página 502: “Qualquer idéia de resistência contra a França seria rematada loucura, se não se declarasse guerra de morte aos elementos marxistas que, cinco anos antes, impediram que a Alemanha continuasse a luta nas linhas de frente.”

Página 503: “O fato de ter o nosso soldado outrora lutado com ardor é a prova mais evidente de que não estava ainda contaminado pela loucura marxista. À proporção, porém, que o soldado e o operário alemão, com o decorrer da Guerra, iam caindo nas garras do marxismo, eram elementos perdidos para a Pátria.”

Página 503: “No ano de 1923 estávamos em face de uma situação idêntica à de 1918. QUalquer que fosse a maneira de resistir que se escolhesse, a condição indispensável seria livrar primeiro, o nosso povo do marxismo corruptor.”

Página 505: “No dia em que, na Alemanha, for destruído o marxismo, romper-se-ão, na verdade, para sempre, os nossos grilhões”.

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Futuramente pretendo compilar mais citações de Hitler sobre o tema, focando em discursos e documentos oficiais do partido. O objetivo inicial é demonstrar o ódio visceral de Hitler ao marxismo e o incrível rocambole ideológico capaz de fazer o marxismo estar submetido ao capitalismo internacional numa conspiração judaica para dominar o mundo.

Depois destas, alguém ainda tem a desonestidade intelectual de associar marxismo e nazismo?

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Leandro Dias

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 1)

Alexander Nevsky (1938, Sergei Eisenstein)

É lugar comum nas análises dos regimes fascistas e bolcheviques, a ênfase em seus respectivos aparatos de propaganda. Natural, é difícil falar da Alemanha nazista sem falar de Göebbels ou ignorar a relevância que a propaganda ideológica tem  para Adolf Hitler no seu livro Mein Kampf (Minha Luta), e mais ainda, como estas idéias se traduziram ao propagarem-se através de aparelhos estatais com sua posterior subida ao poder. No caso bolchevique, é difícil não enxergar o exagerado culto à personalidade ou o alinhamento até da própria ciência com a “verdade” do partido, como foi o caso do Lissenkismo (em inglês). Ou mesmo na Coréia do Norte onde o próprio culto à personalidade e à classe dominante suprimiram até mesmo as menções ideológicas marxistas ainda nos 70 (curioso é chamar aquilo de ditadura bolchevique).

Em ditaduras não há mistério em identificar a vontade do governo em seus projetos de propaganda explícitos, sejam filmes, livros ou arte em geral.  No caso do regime nazista, elas eram feitas exclusivamente por agência central do governo, especialmente depois de 1934 quando ocorreu um sanguinário realinhamento dos membros e ideologia do partido, levando a execução e prisão de política de inúmeros elementos “subversivos” dentro do partido.

Assim, a dificuldade não é perceber o que é óbvio, que o governo nazista e o sistema de poder que o sustentava, faziam propagandas que lhe eram favoráveis o tempo todo e em todas as mídias possíveis. o Mein Kampf está repleto destas intenções, tendo dois capítulos inteiros sobre o tema.  Se não é difícil notar as obras claramente de propaganda, o mais interessante portanto, é notar a propaganda do sistema em obras que não eram produzidas diretamente pelo aparato estatal, burôs de propaganda ou Ministérios da Verdade (1).

Os Caminhos da Força e da Beleza (1925)

Leni Riefenstahl, atriz e talentosa cineasta, favorita do regime nazista, produziu importantes obras exaltando o partido e seus líderes. O interessante porém, além da relevância histórica de seus documentários apologéticos do regime, é observar dois filmes que ela atuou e co-produziu antes dos documentários pró-regime, são eles Wege zu Kraft und Schönheit  (1925, Os caminhos da força e da beleza) e Das blaue Licht (A luz azul).

O primeiro é um filme, digamos, naturista, da aproximação entre beleza, força física e a natureza, um sempre presente culto ao corpo e à saúde. Fundamentalmente encaixado no idealismo da cultura alemã dos anos 20, da rejeição da vida urbana e cosmopolita (corrupta) e exaltação da vida simples, “natural”, fora das cidades. Não é um filme de propaganda, foi feito durante o período democrático de Weimar, mas o seu tema é recorrente na cultura nazista posterior, por isso é mais importante, revela traços da mentalidade anti-cosmopolita, proto-fascista que já permeava a Alemanha. É um filme “pró-sistema” e anti-Weimar, considerando que a direita radical alemã considerava República de Weimar  uma representação do cosmopolitismo burguês liberal, pela primeira vez elevado ao poder central naquele país. Era um filme altamente alinhado com a extrema direita, antes mesmo dela se solidificar no poder.

O segundo filme tem uma inspiração numa lenda alemã de mesmo nome, adorada pela direita nacionalista alemã de então. No caso do filme, também revela no fundo o conflito entre cidade e vida simples do interior. Junta (Riefenstahl), solitária adoradora da natureza, que se conecta com ela meditando com cristais numa caverna secreta próxima, é seduzida por Vigo, pintor da cidade grande, que depois revela o segredo dos cristais à cidade e os rouba junto com outros moradores. Reiterando o conflito entre a cidade corrupta e o interior nobre, puro e imaculado, a “verdadeira Alemanha”.

Ainda em filmes sob temática nazista, vale lembrar a apenas razoável produção recente: Um Homem Bom (dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim em 2008). Viggo Mortensen interpreta um escritor alemão no início dos anos 30 na Alemanha, ganhando prestígio acadêmico no país por ter escrito um livro cujo único mérito foi fazer apologia da eutanásia de doentes. Mesmo – no contexto do filme – o livro ter sido escrito antes do regime nazista chegar ao poder e, mesmo o autor não sendo [ainda] um nazista, o livro cai nas graças do partido e o autor virou celebridade, um intelectual nazista “orgânico”, expondo algumas idéias importantes ao sistema, antes mesmo que a própria propaganda oficial o fizesse.

A sutileza domina sem esforço, prende sem amarras, arraiga costumes e vontades de uma determinada corrente política, de uma vontade de classe, e as traveste de uma vontade universal, dando um ar de naturalidades a construções históricas, sociais e ideológicas. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, pois é a que tem mais recursos para propagar suas idéias (2), muito mais importante do que suas propagandas oficiais propriamente ditas, são as obras culturais que solidificam e reafirmam seu sistema de poder, sem no entanto parecer que o fazem.

Quanto fogo anti-semita foi atiçado pelos Protocolos dos Sábios do Sião? Uma farsa literária feita pela Okrana (Polícia Secreta da Rússia Czarista) desmascarada tantas vezes que é incrível ainda acreditarem em sua veracidade. Brilhantemente produzido como obra verídica e não como propaganda do governo, este livro caiu como uma luva na ação do Czar russo na opressão de judeus “conspiradores” (3), lembrando que os judeus, já nesta época eram associados ao marxismo e subversão comunista. O fato de na época não ter sido amplamente reconhecido como propaganda anti-semita de um governo decadente à procura de justificativas para destruir seus inimigos, mas como uma obra genuína e “isenta”, deu aos Protocolos até hoje uma aura de verdade, aparecendo vez ou outra na verborragia anti-semita, mais de 100 anos depois de sua criação.

Ainda na Rússia, mas no caso soviético, muito além do evidente culto à personalidade instaurado durante o stalinismo, perpetuado pelos seus sucessores e copiado na China e na Coréia do Norte, caracterizado pela reafirmação sistemática das idéias do partido comunista, heroísmo e genialidade de seus líderes e mentores ideológicos, temos uma produção cultural altamente pró-sistema feitos sem ser explicitamente como tal, ainda que, alguns, tivessem recebido verbas estatais para tal.

A Queda da Dinastia Romanov (Esfir Shub, 1927), Aelita (Yakov Protazanov, 1924), Mãe (Vsevolod Pudovkin, 1926), todos filmes pré-stalinistas, são muito mais sutis e, digamos elegantes, em sua apologia “aos novos tempos soviéticos”. Na época em que os vários estúdios de cinema eram independentes de controle central mas igualmente comprometidos com a revolução, vemos uma apologia ao futuro, uma rejeição à tradição czarista e reafirmação da importância de abandonar as idéias atrasadas da nobreza, da Rússia antiga e abraçar o novo caminho escolhido. Está tudo lá: a reafirmação do conflito de classes, da nobreza atrasada oprimindo a população, a importância da resiliência da população comum, glorificando o trabalho árduo com a esperança de melhorias reais ao derrubar o passado, o sacrifício na construção de algo novo, a reafirmação da resistência para aguentar os tempos difíceis que se seguiam (4) e construir um novo país.

É notável porém, em outros filmes não descaradamente pró-regime (5) de Sergei Eisenstein, como Alexander Nevsky (1938) e Ivan, o terrível (1944), perceber a mudança das diretrizes ideológico-políticas do partido central, passando a exaltar outros valores diferentes daqueles dos anos 20. Liderança dura de um chefe para o bem nacional, união do país em sacrifício para manter o que foi conquistado, vigilância contra um perigo que ameaça a ordem, uma frequente reafirmação do poder do governo através de uma releitura da tradição czarista. De uma maneira geral, enquanto nos anos 20 pregavam os tempos de mudança, rejeição ao passado feudal e corrupto, numa visão otimista e “olhando para o futuro; nos anos 30 a tendência foi de reforçar a imagem de uma liderança forte, do sacrifício em defesa do que foi construído, reinventando o passado para justificar e reafirmar o presente.

Ainda em ditaduras vermelhas, falarei rapidamente da China que tinha o padrão de permitir apenas filmes claramente pró-regime, com pouca ou nenhuma sutileza, vou lembrar apenas de um blockbuster chinês em particular, que teve grande sucesso e chegou ao ocidente como obra prima: Herói (2002) de Zhang Yimun, a reinvenção de um passado específico para afirmar o sistema presente. Herói é um épico sobre a tentativa de assassinato de um imperador que está tentando a todo custo unificar o país e quando o seu assassino percebe isso, desiste de seu plano de assassiná-lo, se tornando um mártir para a unificação e aceitação da vontade do imperador.

No geral, é bem claro em regimes autoritários a máxima de Marx (2), a força política dominante construiu e pautou todo um aparato midiático propagandístico pró-sistema, repercutiu suas idéias, consolidou e difundiu a ideologia dominante, ora explicitamente, ora implicitamente. Depois de estabilizadas, as forças dominantes não se preocuparam muito em enganar e ludibriar sua população com propagandas ardilosas e dissimuladas, no caso específico de comunistas, nunca foi este o seu método, em geral seguiram bem à risca o panfleto de Karl Marx:  “Os comunistas não se rebaixam em dissimular suas idéias e seus objetivos” (6).  Assim, é bem fácil identificar em seus regimes quando estamos vendo propaganda e quando estamos vendo “ficção”.

Mas seria esta uma exclusividade das ditaduras? Até aonde vai a propaganda do sistema no “mundo livre”?

Na parte 2, semana que vem, mostrarei que não.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – Ministério da Verdade foi um termo extraído do livro 1984, de George Orwell.

2 – Citado em A Ideologia Alemã, de Karl Marx: “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual.” (IN: http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm)

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_Protocols_of_the_Elders_of_Zion

4 – Além da Guerra Civil interna a Rússia combateu 7 nações invasoras no início dos anos 20, causando fome e escassez generalizada dada a destruição dos campos).

5 – Entende-se por não descaradamente  filmes que não falam do partido ou contenham qualquer slogan claro do partido, são obras de ficção histórica e não documentários ou filmes educativos.

6 – Manifesto Comunista, Seção IV, página 58 (Instituto José Luis e Rosa Sunderman, 2003).