Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos de tags: Brasil

Nova Direita para quem?

  • texto originalmente publicado em 24/12/2014

Tem sido recorrente na boca de alguns analistas políticos que há no Brasil o surgimento de uma “nova direita”, retrógrada, anti-democrática, ultra-conservadora e, no jargão pejorativo genérico, “fascista”. Afirmam alguns que ela seria um elemento surgido após as jornadas de junho de 2013, quando imensas manifestações tomaram o país e muitas, além da pauta extremamente difusa e incoerente, tiveram visível caráter conservador e até pediram a volta dos militares ao poder, como na ocorrida recentemente em São Paulo.

Não deveria surpreender que descontentes com os caminhos da democracia recorram aos militares para “solucionar” seus problemas. Não devemos esquecer que, no Antigo Regime, as Forças Armadas eram, por excelência, a representação social da nobreza – já que os nobres eram, em sua maioria, também, militares. Portanto, numa república como a nossa, que jamais “realinhou” os seus antigos nobres com o pensamento constitucional democrático, é natural que o extrato social herdeiro da nobreza recorra romanticamente aos militares para “recolocar a sociedade no seu curso natural”, isto é, com a nobreza novamente no topo e inquestionável. É um fenômeno comum em países cujas sociedades demoraram a derrotar o “espírito do Ancien Régime”, onde o medo da modernidade iluminista e da democracia popular marcou profundamente as ações das antigas classes dominantes. Foi assim nos principais países fascistas: Itália, Áustria, Alemanha, Espanha e Portugal.

Desta forma, infelizmente, uma breve observação histórica pode nos mostrar que não há absolutamente nada de novo no “dragão fascista”, golpista e com uma visão romântica do período militar que volta às ruas agora. A velha “síndrome da era de ouro” costuma abater extratos sociais órfãos de um período em que sua hegemonia e posição social eram incontestáveis. Para uma elite que sequer parece ter superado a libertação dos escravos, superar o Trabalhismo e a democracia popular será um longo caminho. Não é notável que 125 anos depois de fundada a república ainda tenha sido necessário perguntar se a população “queria a monarquia de volta”, como fizemos em 1993? E, além de incríveis 13% de monarquistas que tínhamos em 1993, podemos ver hoje em plena televisão aberta figuras defendendo a monarquia absolutista – na qual o rei pode dissolver o parlamento ao seu bel prazer – e mostrando assim, inclusive, desconhecimento sobre como funcionam as monarquias parlamentaristas europeias.

Essa “nova direita”, alardeiam alguns, surgiu resgatando a velha pauta anti-comunista da Guerra Fria. Só que agora a palavra da moda é o bolivarianismo, elemento-chave que, como o “comunista” do passado, pode ter qualquer designação pejorativa. Plebiscitos? Bolivarianismo. Consulta pública? Bolivarianismo. Vitória nas urnas? Bolivarianismo. Conselhos consultivos? Bolivarianismo. Para a “nova direita”, órfã de um inimigo desde a queda da URSS, o seu novo “tubarão branco”, síntese de todo o mal, reside agora no tal do “bolivarianismo” – c0nceito que a grande maioria sequer conhece ou entende.

Pronto, agora uma nova visão simplista e dicotômica do mundo pode novamente dominar o espectro da discussão política. Não importa se os EUA são o país com maior número de consultas populares e plebiscitos do mundo (fizeram mais de 146 plebiscitos apenas nestas últimas eleições de 2014). Não importa se na Alemanha ou no Japão cada bairro tenha seu conselho consultivo. Não importa se a Islândia tem a democracia participativa mais ativa do que qualquer sonho populista de Hugo Chaves. Na visão de mundo dos órfãos do antigo regime, a participação popular é sempre nociva.

A “novidade” para estes “analistas” que anunciam a “Nova Direita” seria, portanto, o retorno do discurso da Guerra Fria?! O que há de novidade nisso?

Não é preciso muito esforço de memória para encontrar uma série de “indícios” que revelem os profundos traços conservadores de nossa sociedade. Queiram alguns esquerdistas ou não, a ditadura militar teve importante base social: uma elite que jamais “engoliu” o trabalhismo e a inclusão das classes mais baixas que ele buscava; uma alta casta dos militares (também ligados à elite) que, além de perceberem seu visível declínio no papel político da república, compartilhavam da histeria anticomunista comum aos ocidentais naquela época. E mesmo uma então pequena classe média urbana , que compartilhava com esta elite seus valores culturais, temerosa de perder o status que sempre tivera num país de miseráveis e excluídos, deu base social para o novo regime. Lembrando que analfabetos não podiam votar e eles eram oficialmente 40% da população na época do golpe. Os golpistas, alimentados por estes traços conservadores históricos, com aval de forças norte-americanas durante o auge da Guerra Fria, criaram a base social suficiente, para que a ditadura pudesse existir, mesmo com alguns importantes protestos e resistentes durante seus 21 anos.

São estes fantasmas culturais elitistas que hoje ganham novo fôlego para nos assustar. Não é apenas o medo da participação política dos pobres que parecem temer, a própria inclusão dos pobres na cidadania e consumo parecem radicalizar estes sentimentos conservadores. A distribuição de renda, tímida mas notável, que vem sendo feita através das políticas de valorização do salário mínimo e, para os mais miseráveis, o programa do Bolsa Família, elevaram de fato expressivas camadas sociais historicamente excluídas. Nos levando inclusive, a afirmar, que nos rincões do Brasil e dos caóticos subúrbios próximos dos grandes centros, o programa representou o fim da servidão de facto, pois como o preconceito dos próprios críticos acidentalmente revelou: “não querem mais trabalhar, preferem receber Bolsa Família”. Oras, se alguém pára de trabalhar fixo pois prefere receber até R$150 reais do programa, é porque o ”salário” que se pagava a um miserável sem qualificação, era análogo a servidão e semi-escravidão.

Esse fenômeno reacendeu uma espécie de esquizofrenia política nas antigas e tradicionais classes dominantes do país. Ora tentam resgatar o conflito ideólogico da Guerra Fria inexistente, agora sob nome de “bolivarianismo”, ou sem o menor constrangimento, tentam emplacar outra explicação dicotômica, desta vez racista e preconceituosa, no conflito “nordeste atrasado vs sul desenvolvido” para explicar as seguidas votações petistas, como bem tentaram fazer os “jornalistas” do Manhattan Connection, durante a aula que levaram do pesquisador eleitoral Alberto Carlos Almeida.A miopia chega ao ponto de em uma revista Veja, cujo leitor alvo é justamente estes segmentos sociais, escrever que 155 milhões de pessoas, isto é, mais de ¾ da população, pertencem ‘a um país dentro do Brasil’. Invertendo qualquer obviedade de uma séria análise objetiva, onde ¾ são menos “Brasil” do que o ¼ restante, leitor da Veja.

McGuime e o

Aparentemente 3/4 da população são um “país dentro do país”.

A esquizofrenia política destes segmentos sociais, deveria ser enxergada exatamente como isso, um desvio típico de uma classe que vê suas “verdades” históricas abaladas. O que deveria ficar claro para a esquerda temerária desta “escalada” à extrema direita de parte da nossa sociedade, é que isto sempre existiu e só não observava desta maneira quem estava “dormindo” ou preocupado com outras questões. Apenas com um pouco de esforço e pesquisa podemos lembrar das inúmeras e visíveis demonstrações conservadoras, retrógradas e proto-fascistas que ocorreram na nossa história recente, muito antes da consolidação do “lulismo”. Seriam traços da “nova direita” radical ou algo muito mais profundo do que o simplismo anti-fascista/anti-petista possa explicar?

Nosso país há anos bate recordes de crimes homofóbicos. Quantos membros do movimento LGBT foram abertamente hostilizados não só pelos “nazi” de sempre, mas por “gente de bem” em vários momentos ao longo dos últimos anos? O casal de jovens homossexuais espancado no metrô paulista recentemente é muito diferente dos inúmeros assassinatos de homossexuais dos anos 90? (como bem informou o relatório GGB de 2010). Violência contra mulher é um problema suficientemente grave para se fazer necessário algo como a Lei Maria Da Penha, que reafirme o óbvio de que bater e coagir a mulher/esposa é crime grave e que tirou o seu nome da violência brutal que uma mulher sofreu nos anos 1980. Em 2012, um jovem foi espacando ao proteger um mendigo de playboys em busca de diversão; nada muito diferente dos jovens ricos de Brasília que atearam fogo no índio Galdino que dormia num ponto de ônibus em 1997, a diferença é que não havia ali um jovem humano e corajoso para proteger o índio assassinado.

Quem vive numa grande metrópole como Rio, São Paulo ou Curitiba sabe que, até pouco tempo atrás, anarquistas e comunistas não podiam sair sozinhos em certas partes da cidade sem temer a violência de neonazistas. O higienismo que acusamos a “nova direita” de pregar hoje em dia, com seu nojo dos rolezinhos, aquela “gente diferenciada” nos aeroportos, shoppings e restaurantes, é mesmo muito diferente do nojinho da “velha direita”? Ora, o que foi a Chacina da Candelária em 1993 e o Massacre de Carandiru, se não outro exemplo do higienismo violento e protofascista impregnado em nossa sociedade? Anos atrás, César Maia, então prefeito do Rio, sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos. E não foi exatamente isso que, há algumas semanas, um “cidadão de bem” fez em São Paulo contra o morador de rua chamado “Menino Passarinho”? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra há anos espaço ainda no terceiro maior partido da nação, o mesmo que abriga Jair Bolsonaro?

Portanto, onde está a novidade? Isso tudo é fenômeno da “nova direita”, ou parte da esquerda estava tão cega, enfurnada em suas palestras universitárias ou gabinetes sindicais e governistas que não percebia a presença fantasmagórica do mais reacionário conservadorismo brasileiro?

Antes das manifestações de 2013, antes do “perigo bolivariano” das eleições de 2014, antes de começar a sobrar balas de borracha para jornalistas em passeatas, donas de casa e transeuntes aleatórios, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV não faziam coro em torno das mais reacionárias pautas? Não foi o Arnaldo Jabor que vinculou o Movimento Passe Livre ao PCC?! Lula ainda em 1989 não foi seguidamente chamado de comunista? O “perigo vermelho” da “república sindical” de Jango e de Lula são os nomes antigos do “bolivarianismo”.

Não houve quem defendeu e até aplaudiu a repressão fascista em Pinheirinho? Não subiam fileiras de tanques no Morro do Alemão em 2010, com os jornalistas falando que “tudo seguia na normalidade”? Como se colocar tanque nas ruas dos bairros do “outro país dentro do Brasil”, fosse algo normal. Outros não chamam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”? Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema da “restauração da ordem”, batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários? Quantas vezes a repressão forte da polícia foi justificada por razões puramente ideológicas ou higienistas? Desacato a autoridade e o velho “você sabe com quem está falando” ainda são razões pouquíssimo republicanas para prender e fazer valer a “lei e a ordem” das autoridades.

Oras, a repressão a movimentos de esquerda não é novidade alguma. De Chico Mendes à recém assassinada líder indígena Marinalva, fazer protestos progressistas é algo muito perigoso no Brasil. Militantes de esquerda apanharem nas ruas e serem hostilizados por radicais nacionalistas são fatos até bastante comuns no cenário de confrontos políticos pelo país afora. De líderes sindicais e indígenas assassinados, até deputados que investigam crimes de milicianos, ninguém escapou. Não é com surpresa que devemos ver a duvidosa e oportunista pesquisa recente da Folha sobre ditadura e democracia, há de fato, um fantasma autoritário que permeia toda nossa civilização.

A criminalização dos movimentos sociais, atitudes históricas dos governos proto-fascistas, é alguma novidade?! São há anos massacrados pela mídia, enquadrados como “quadrilhas”, baderneiros e vândalos. Ainda nos anos 1990, nos enormes confrontos ocorridos por conta da criminosa privatização da Vale do Rio Doce, não foram chamados de vândalos e dinossauros os sindicatos que se opuseram? Em quantas capas da grande mídia foi o MST chamado de terrorista e a reforma agrária apontada como pauta de comunistas!?

TFP nos anos 80

TFP crescendo já nos anos 80…

Ninguém se lembra da Opus Dei, a mais retrógrada das forças dentro da Igreja Católica, e de sua ligação com membros dos partidos ”comuns”, especialmente o PSDB de Alckmin? Ou das ligações da TFP e do neo-integralismo com a campanha do Serra à presidência de 2010?! Aliás, de que serviu a campanha do Serra em 2010 se não para mostrar claramente que a extrema-direita estava bem viva, ativa e “tentaculosa”?

Isso tudo é novidade? Ou isso não era “direita” o suficiente pois não parecia afetar o governismo “prágmático”?

Enfim, o que temos de lembrar, portanto, é que não há absolutamente ”nova direita” ou “nova extrema direita”, a diferença é que agora estamos prestando atenção nela ou que os meios de comunicação facilitaram a sua visibilidade. Ela não está maior agora do que estava anos atrás; não é porque agora alguns a enxergam mais nitidamente que ela esteja maior ou mais influente.

Se há uma parcela dos militares que são anti-esquerda?! Sempre houve. Esse núcleo já pedia a volta da ditadura? Sempre pediu. E ainda no caso da reeleição da Dilma, para surpresa dos golpistas que tomaram a Av. Paulista em domingo recente, o Clube Militar soltou nota pública, republicana, contra o impeachment: “A maioria decidiu. É a regra”, disse a nota. No entanto, Jair Bolsonaro é eleito sucessivamente desde 1988, Marcos Feliciano e Coronel Talhada não compraram seus votos de parlamentar, foram eleitos e outros semelhantes a eles já o foram anteriormente. Pode ser que a extrema direita esteja mais articulada e visível, como estão todos os movimentos sociais, impulsionados pela facilidade de comunicação e integração das redes virtuais, mas dizer que sua força cresceu ao ponto de dar um golpe? Dificilmente.

O golpe não virá porque o dinheiro está no “extremo centro” e não precisa de golpe algum para continuar lucrativo e no poder. Por mais que estas eleições de 2014 tenham sido muito polarizadas, em termos de programa, PSDB e PT estão muito semelhantes e, no fundo, quem acaba governando é o PMDB e naquele estilo do mais rasteiro oportunismo político e da troca de favores, mantendo o status corporatocrático. Se ilude quem pensa que com Aécio seria diferente; muito menos o seria com Marina, cuja fraqueza a levaria a fatiar imensamente o poder entre os ávidos partidos não alinhados – talvez por saber disso que sua pauta tenha sido extremamente difusa e remendada durante a fracassada campanha.

A entrada do racismo, do machismo, da homofobia e do anti-socialismo visceral como ideias políticas relevantes no cenário político brasileiro é algo tão óbvio que a esquerda debater sua “novidade” parece ser de uma miopia preocupante, ou ainda um exercício de discurso do próprio governismo pragmático. Se pela direita essas ideias reacionárias e proto-fascistas ganham força justamente pela mais absoluta falta de projeto real da direita e além, sua cada vez mais transparente falta de vontade de discutir honestamente projetos de país. Pela esquerda o fazem justamente para recriar a quimera da extrema-direita, conseguindo agregar em volta do pragmatismo governista toda a esquerda visivelmente insatisfeita com os caminhos do petismo, mas que teme ainda mais um retorno da linha dura militaresca de passado recente, como se esta não estivesse agora sob os estandartes da democracia.

Por Leandro Dias
Originalmente publicado em Dezembro de 2014

O Impostômetro: Riqueza, Estado e Burgueses no Brasil


Muito se falou nas últimas semanas da incrível marca de 1 TRILHÃO de reais apontada pelo chamado “Impostômetro”(1) para a arrecadação de impostos de todas as esferas do Estado brasileiro – União, estados e municípios – em 2012.

E isso porque ainda faltam três meses completos para o ano acabar. Estima-se que a carga tributária alcançará neste ano quase 36% do Produto Interno Bruto (2).

Sem dúvida um percentual elevado, embora não tão absurdo quanto quer nos fazer crer a grande mídia, o famoso PIG. A maioria dos países industrializados tem carga semelhante e, alguns, consideravelmente maior (3) (4), embora a diferença seja certamente gritante na qualidade dos serviços públicos prestados, a favor deles (5).

Da forma como é apresentada pelo PIG, a questão pode ser sintetizada numa única questão – já posta em tons eivados de suspeita -, idéia como sempre prontamente comprada pela classe média: onde vai parar e o que é feito com tão gigantesca montanha de recursos?

De sua parte, o empresariado – cuja fração paulistana é quem promove e sustenta a própria idéia do Impostômetro (6) – expõe sua insatisfação nos termos mais inequívocos, apontando para os absurdos de taxação sobre determinados produtos.

De fato, esses burgueses pensam estar tornando público o roubo do qual vêm se sentindo vítima por parte do Estado.

Como o tema rende muitas variáveis, vamos entrar nesta discussão a partir de um marco bem específico, explorando alguns de seus aspectos sem, contudo, pretender oferecer nessas poucas páginas uma explicação definitiva:

Quais as razões da elevada carga tributária brasileira?

Qual a legitimidade do discurso do chamado empresariado/PIG para contestá-la?

O capitalismo brasileiro

Historicamente, o Brasil tem se caracterizado pelo desenvolvimento de um capitalismo periférico e retardatário. Contudo, trata-se também de um capitalismo marcadamente rentista, ou seja, no qual existe uma clara tendência, da parte dos agentes detentores do capital, para utilizá-lo de forma não-produtiva.

Existem razões históricas de longo, médio e curto prazo, que possibilitam explicar esse fenômeno.

O emprego não-produtivo do capital é uma característica comum aos países de capitalismo subdesenvolvido, devido à constante insuficiência ou mesmo indisponibilidade de renda para a maior parte de suas populações.

Que estímulo pode ter o burguês para investir em atividades produtivas diante de uma população desprovida de renda monetária e, portanto, incapaz de se constituir em mercado consumidor para seus produtos?

Nesse caso, a tendência é que consumam seu capital em terras, fazendas, produção agropecuária para exportação, investimentos em ativos estrangeiros, consumo de artigos supérfluos de luxo e tudo o mais que se possa imaginar de improdutivo.

Improdutivo sob o aspecto de que não transforma, não industrializa. Pouco contrata mão-de-obra, e quando o faz, a níveis rasteiros de qualificação e assalariamento; não expande a oferta de produtos e serviços à população, não cria economias de escala, apenas perpetua as estruturas sociais e produtivas do atraso.

Esse foi o caso brasileiro, pelo menos, até a primeira metade do século XX.

A irreversível passagem de um país rural e agrícola para outro urbano e industrial, ocorrida no final dos anos 50 e início dos 60, não alterou tão significativamente este quadro como era de se esperar.

Apesar da abertura de amplas possibilidades de investimento industrial produtivo, os burgueses brasileiros perpetuaram determinadas formas de utilização não-produtiva do capital, como a aquisição de território (investimento em imóveis e especulação imobiliária).

Ou, ainda, os investimentos no mercado financeiro.

Existem boas explicações para ambos os fatos: a persistência, por décadas, de elevados índices de inflação ou mesmo hiperinflação, que corroíam o poder de compra do dinheiro líquido, mas não dos imóveis, cujos preços eram reajustáveis.

Adquirir imóveis significa, particularmente em fases inflacionárias, a preservação de riqueza; porém, uma riqueza socialmente improdutiva.

Já nos anos 90, a desastrosa Fernandécada – Collor e FHC -, a política de juros estratosféricos praticada pelo Governo Federal possibilitou uma nova forma fácil e (teoriamente) sem riscos de acumulação de capital: a compra dos títulos públicos, tão generosamente remunerados.

Mal aparentemente incurável, pois persiste até os dias de hoje, embora substancialmente atenuado (7) pelos governos petistas de Lula (principalmente em seu segundo mandato) e Dilma.

Em suma, o que queremos dizer é que aquele clássico tipo-ideal de empreendedor criado por Joseph Schumpeter (8) – inovador, produtivo e intrépido – e promovido a herói contemporâneo pelos ideólogos burgueses não tem, por razões diversas, existido em grande número na história do desenvolvimento do capitalismo no Brasil.

É um burguês de caráter mais parasitário e consumidor do que multiplicador. Está mais para sanguesuga do que para coelho.

E se mal existem burgueses, que dirá uma burguesia, então (9).

(Muito) Breve história da industrialização brasileira

A industrialização da Inglaterra a partir do século XVIII, o país pioneiro, deu-se sob o comando das iniciativas privadas, e não do Estado – equivalente, naqueles tempos ao Rei.

O Rei foi, por sinal, e durante muito tempo, percebido como a grande ameaça pelos capitalistas, que se tornavam cada vez mais prósperos e se organizavam, enquanto burguesia, no Parlamento, que em suas origens não era mais do que um comitê político dos burgueses organizados (e só deles) contra o arbítrio e a concentração dos Poderes (10) no Rei.

Desde então, muito tempo se passou; mas o tal do Parlamento, hoje sob nomes e fórmulas distintas quase universalizado enquanto “democracia” (liberal burguesa), não mudou tanto assim.

E também não foi por outra razão que precisamente na Inglaterra surgiram as teorias – a economia política clássica – que vieram a justificar a não-intervenção dos poderes políticos sobre as atividades produtivas.

Muito embora, na realidade, nem mesmo na Inglaterra burgueses e reis tenham afinal demorado a perceber que tinham muito mais a lucrar juntos do que antagonizando-se.

A história do Brasil, é claro, foi completamente outra. Enquanto nação retardatária, organizada como plantation agro-exportadora fundamentada sobre o trabalho escravo, era sem dúvidas o último lugar deste planeta de onde se poderia esperar uma industrialização comandada por burgueses, por capitais privados.

Mesmo assim, alguns lunáticos isolados ocasionalmente surgiram por aqui, como Visconde de Mauá.

Embora já existisse em algumas partes do Brasil, antes mesmo da (extremamente tardia) abolição da escravidão com a Lei Áurea de 1888, um razoável contingente de trabalhadores assalariados, foi só a partir da virada do século XX que indústrias isoladas – fato muito diferente de industrialização – passaram a ter relativa importância (11).

Nunca houve, porém, nem no Império nem nas primeiras décadas da República, um ideal político de industrialização do Brasil, fosse por parte de uma burguesia (coisa que evidentemente não existia) ou dos governantes. Este ideal só foi surgir nas primeiras décadas do século XX, da influência do pensamento positivista (12), principalmente, em círculos militares.

E foi só com a Revolução de 1930 e a derrubada da República Velha que esses ideais de industrialização finalmente chegaram ao comando do Estado brasileiro, liderados por Getúlio Vargas (13).

Tomavam o poder de um país, então, praticamente desprovido de qualquer infra-estrutura de transportes, energética e industrial básica; onde também não havia um Estado com instituições minimamente organizadas para tal; cujas principais elites eram agro-exportadoras e se encontravam com suas bases de acumulação material fortemente deprimidas, devido ao colapso dos preços internacionais (principalmente do café) provocado pela Crise de 1929; com uma força de mão-de-obra esmagadoramente analfabeta e marginalizada; e todos os outros problemas que se possa imaginar.

Em suma, ao menos conforme o modelo inglês, não haveria quem desempenhasse a tarefa da industrialização.

Diante desse quadro, no Brasil, coube ao Estado tomar para si o papel da burguesia que assume os riscos e investe em indústria e infra-estrutura. Coube ao Estado ser o agente industrializador do Brasil.

Não é de outra coisa que trata o ideal do desenvolvimentismo.

Coisa que só se tornou possível de duas maneiras, num país então agro-exportador, pouco capitalizado e sem nenhum domínio tecnológico como o Brasil, e cujas elites fizeram a opção política de preservação do país na ordem capitalista internacional mediante endividamento externo e entrada do capital estrangeiro.

Alguma dúvida do porque termos desenvolvido um capitalismo industrial que é, precisamente, pesadamente endividado e profundamente internacionalizado?

E a inexistência dessa burguesia brasileira não foi uma dificuldade enfrentada apenas nos primórdios da industrialização, sob o Estado Novo.

Ela voltaria a se repetir em outros momentos cruciais deste processo: nos anos 50, durante o governo Kubitschek, que também enfrentou toda a oposição ao getulismo, de quem era, ao lado de João Goulart, o principal herdeiro político.

E mesmo no final dos anos 70, momento em que o Brasil já era um país consideravelmente industrializado, durante o governo Geisel, quando os burgueses se recusaram a assumir o papel desenvolvimentista que o governo pretendia lhes atribuir. Foi mais uma vez o Estado quem comandou e liderou o processo, criando uma nova leva de estatais e realizando pesados investimentos infra-estruturais (14), mediante pesados investimento e endividamento externos.

Na década seguinte, quando a crise da dívida assolou toda a periferia capitalista e a capacidade de financiamento do Estado brasileiro se esgotou, a máquina parou de funcionar e o país simplesmente mergulhou na crise e na estagnação, das quais não mais saiu porque, na ausência do Estado, não seriam os burgueses que o fariam.

Foram os anos 80, chamada nos livros de história dos colégios de “a década perdida”.

Eles ainda não sabiam o que viria na de 90…

Para finalizar: os burgueses brasileiros surgiram a reboque deste processo, que absolutamente não comandaram, muito pelo contrário; chegaram mesmo, em muitos momentos, talvez por falta de compreensão do que se passava, a combatê-lo, como ficou evidente na sua oposição ao getulismo (15).

Foi o Estado, e não os burgueses, muito menos a burguesia, que nem existia – e num sentido schumpeteriano, talvez não exista integralmente nem mesmo hoje (16) – quem pensou, bancou e executou a industrialização.

Quando precisou de ou desejou ter uma burguesia como sócia, recorreu às estrangeiras, porque não encontrava nenhuma por aqui.

Estado e capitais estrangeiros abriam os caminhos; só então entravam os burgueses locais, quase sempre como sócios minoritários, parasitando o primeiro, subordinados aos segundos, e dependentes dos dois.

Para sermos cristalinos: a industrialização do Brasil foi obra do Estado, e de praticamente mais ninguém.

A burguesia (?) e o Impostômetro

Diante de burgueses incapazes de assumir riscos e de se bancar, que nem sequer reunem algumas das características mais básicas do que definimos como uma burguesia de fato, coube ao Estado financiar e organizar o capitalismo industrial no Brasil.

Mas tudo isso custou caro, extremamente caro, e quase sempre, em moeda estrangeira – o dólar.

O endividamento externo brasileiro, por muito tempo o maior do mundo, é uma das explicações para uma carga tributária tão elevada, pois essa dívida precisava ser rolada para que novos empréstimos fossem contraídos.

Mas certamente não a única. A desregulação e a financeirização da economia brasileira, fruto da década perdida dos neoliberais Collor e FHC, internalizou a maior parte dessa dívida, que foi então atrelada às estratosféricas taxas básicas de juros praticadas.

Isso também exigiu uma elevação substancial da carga tributária a partir de meados dos anos 90.

E agora, ainda temos que assistir à oposição tucana – sempre com o apoio do PIG – criticar a elevação da carga tributária ocorrida nos governos petistas, como se não tivesse nada a ver com isso.

E vale lembrar que ambos os governos, Lula e Dilma, empreenderam importantes políticas anti-cíclicas em momentos de aprofundamento de crise que consistiram, precisamente, na redução de impostos de produtos industrializados – eletrodomésticos, automóveis e outros.

A crítica dirigida pelos comerciantes e industriais paulistanos organizados ao gigantesco volume de arrecadação de impostos promovido pelo Estado brasileiro pode sugerir, finalmente, a formação desta burguesia que talvez se sinta, finalmente, apta a assumir seu papel empreendedor de tomadora de riscos, dispensando a tutela paternalista do governo.

Só o tempo dirá se este é o caso. Tradicionalmente, não tem sido.

Esses burgueses somente existem enquanto tal em considerável parte, e não por absolutamente nenhuma outra razão, devido aos pesados investimentos industriais e infra-estruturais realizados pelo Estado ao longo de décadas, tal qual pela organização institucional das bases de uma sociedade capitalista moderna.

Incluindo coisas que sempre rejeitaram, como as leis trabalhistas e a organização da Previdência Social, obras de Getúlio Vargas e fatos fundamentais para a criação das condições de estabilidade social concomitante à industrialização.

Não pretendemos negar que a carga tributária brasileira é extraordinariamente elevada em comparação aos mediocres serviços com que recompensa a população.

Mas não são também os empresários os maiores contribuintes, pois além de tudo, a maior parte dos impostos arrecadados no Brasil incide sobre o consumo, e não sobre a renda ou a propriedade.

O que equivale a dizer: quanto mais pobre um brasileiro, mais imposto ele paga (17).

A medida do Impostômetro é, de fato, a da hipocrisia desses burgueses que jamais assumiram seu papel histórico para o desenvolvimento deste país e que, agora, sentem-se no direito de reclamar das contas que lhes são cobradas por tudo que tem.

Que reclamem quanto quiserem, pois se não fosse o Estado e o seu roubo tributário, deixado a cargo dos heróis injustiçados do capitalismo, este país não existiria, e nem eles mesmos.

Deixado a cargo dessas elites, talvez fosse o Brasil ainda hoje um país exportador de açúcar ou café, sob regime escravo.

Daniel Kosinski

*Editado por Leandro Dias

Notas:

1 http://www.impostometro.com.br/

2 http://www.panoramabrasil.com.br/carga-tributaria-em-2012-deve-fechar-proximo-a-36-do-pib-id77299.html

3 http://www.opovo.com.br/app/politica/2012/01/24/noticiaspoliticas,2772726/entre-30-paises-com-maior-carga-tributaria-do-mundo-brasil-da-menor-retorno-a-populacao.shtml

4 http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/comunicado_presidencia/09_03_30_ComunicaPresi_EmpPublico_v19.pdf

5 http://envolverde.com.br/economia/artigo-economia/com-os-recursos-disponiveis-na-administracao-publica-e-impossivel-responder-as-demandas-sociais-2/

6 http://www.impostometro.com.br/paginas/quem-somos

7 http://www.bcb.gov.br/?copomjuros

8 SCHUMPETER, Joseph: Teoria do Desenvolvimento Econômico.

9 Com burguesia queremos dizer, um conjunto de burgueses conscientes de si, politicamente organizados e socialmente ativos, coisa que pouco tem a ver com a existência de burgueses isolados, coisa muito mais fácil de encontrar.

10 Em maiúsculo: Executivo, Legislativo e Judiciário.

11 FURTADO, Celso: Formação Econômica do Brasil.

12 Que em linhas muito gerais defendia a intervenção esclarecida e transformadora do homem sobre a realidade social.

13 Não por acaso, em 26 de novembro de 1930, apenas um mês após a vitória revolucionária, Getúlio Vargas criou o Ministério do Trabalho, do Comércio e da Indústria, já indicando inequivocamente suas intenções industrializantes.

14 Construção da Hidroelétrica de Itaipú, por exemplo.

15 Na verdade, combatiam o comando político daquela industrialização pelos governos de Vargas, e depois por JK, embora não fossem, eles próprios, capazes de comandá-la. Isso porque o ideal getulista propunha uma industrialização conservadora, porém, anti-liberal, assegurando a proteção social aos trabalhadores.

16 O que não impediu o surgimento de burgueses prósperos e poderosos, mesmo em escala global: Eike Batista, os Gerdau, entre outros.

17 http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u402037.shtml

Fascistização à Brasileira

Carros esperando por miseráveis.

Carros esperando por miseráveis.

Historicamente a adesão ao fascismo sempre foi um fenômeno das classes médias empobrecidas, em maior ou menor grau. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha, dos camisas-negras na Itália, os integralistas brasileiros dos anos 30, dos nacionalistas (caudilhistas) espanhóis seguidores de Franco, as classes médias empobrecidas descontentes com os rumos de suas vidas e governo, adentravam as fileiras extremistas do fascismo.

Na primeira onda fascista, a roda extremista era empurrada pelo contexto de crise extrema gerada pela Crash de 1929, que empobreceu todos os setores da sociedade, deixando os governos liberais reféns de sua ortodoxia. As crises são sempre berçários de extremismos. Assim, faz muito mais sentido a força que ganhou o neofascismo russo (Nacional Bolchevismo e a liga Outra Rússia) depois da queda da URSS durante a esmagadora crise econômica que o país viveu nos anos 90 e só foi se recuperar nos últimos anos. Para estas populações médio-classistas, o medo do empobrecimento, da consequente perda de sua posição social, levava as pessoas a decisões mais radicais. Ressalto que nas eleições de Hitler em 1932, somados Socialistas (naquela época eram bem mais radicais), Comunistas e os Nacional Socialistas, tiveram quase 85% dos votos dos eleitores alemães. Os conservadores, ortodoxos, estavam perdidos em seu continuísmo e pusilanimidade, sem saber o que fazer da economia.

Este sentimento, este medo de empobrecimento e da perda de situação social, foi chamado por inúmeros estudiosos do assunto de “declassemént” ou ‘declassê” no aportuguesado, algo como ‘deixar de ser alguém de classe”. Era o medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente estavam associados a este sentimento, o medo do prestígio social ou do reconhecimento social por sua posição econômica; havia também uma rejeição conservadora ao comunismo ateu; uma rejeição da política tradicional, num certo sentido, uma apolitização; um nacionalismo radical em nações que recentemente passaram por processos de reestruturação de poder que, em decorrência disso, gerou uma certa rejeição republicana, uma reação conservadora à consolidação dos ideais liberais na estrutura social e de poder, especialmente por parte dos setores que tradicionalmente tinham poderes, privilégios e certa posição social na sociedade antes desta onda liberal. E estes sentimentos juntos consolidaram o grande número de simpatizantes do fascismo por todo o mundo.

Sim, é fato que as massas aderiram ao fascismo, especialmente na Alemanha, mas seu núcleo, seu ethos cultural e uma proporção enorme dos seus seguidores eram profissionais liberais, trabalhadores do colarinho-branco, funcionários médio e superiores da indústria, não o esquétipo do “trabalhador”. O pobre, proletário, trabalhador comum era sindicalizado, ligado aos comunistas, anarquistas ou socialistas.

Mas porque estou falando disso?

Observo hoje no Brasil um interessante fenômeno de fascistização das classes médias e procuro entender as razões.

Que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carregam fortes sentimentos anti-republicanos, herdados da nossa completa falta de revoluções conflituosas na história, eu já falei várias vezes neste blog (aqui, aqui e aqui); que as classes médias e a elite tem um ódio encarnado de “comunista” nossa história recente dá mais e mais provas disso, como o ódio elitista ao Lula (haha que comunista…) ou ao MST (aliás, muitos acham que Reforma Agrária é coisa de comunista – outra piada) também não é novidade; que cresce mais e mais um sentimento apolitizante nas classes médias também não é mistério nenhum (falei rapidamente disso aqui).

Porém, nossa sociedade não parece estar em crise econômica grave que justifique esta radicalização à direita recente. E não está de fato, pela primeira vez em décadas, o país vive um certo otimismo econômico e enquanto no final dos anos 90 1 em cada 5 brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é 1 para 10. No entanto, as classes médias tradicionais e as elites continuam se radicalizando e dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, aversão a esquerda, suporte a medidas extremadas do estado, aplausos à repressão e aquela saudade explícita da ditadura.

Vamos citar uns breves exemplos para clarificar o que digo:

– seguidas manifestações explícitas contra nordestinos, homossexuais, negros e ‘gente diferenciada’ (especialmente em São Paulo, nata da velha classe média e elite conservadora);

– frequente apoio às políticas de repressão contra sindicatos, professores, manifestantes e etc. Apoio este evidente em jornalões de grande circulação.

– exaltação do Caveirão do Bope, a Gestapo do Sérgio Cabral.

– bombardeio severo às políticas de inclusão social rápida e paleativa (Bolsa Família, política de cotas sócio-raciais…);

– exaltação frequente de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro. As próprias declarações preconceituosas de Bolsonaro ganham ecos que anteriormente não tinham.

– as seguidas manifestações em redes sociais e correntes de email contra pobres, com Mayara como figurinha da vez… As próprias defesas dela em blogs e jornalões apenas aumentam o bojo desta radicalização à direita da classe média e média alta.

Enfim, há uma série de fatores que mostram uma radicalização política à direita das classes médias e elites brasileiras. Vale lembrar também que estes setores conservadores elitistas e médio-classistas sempre fazem suas defesas em nome da nação, numa concepção de nação hoje degenerada mas que um dia foi linda e bela, onde seus poderes eram intocados. Neste sentido o nacionalismo de nossas elites é muito mais vil do que o dos fascismos dos anos 30. Ele é cínico e conservador, é o ‘nacionalismo’ dos ditadores de 64 (“O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”).

Mas no entanto isto tudo não me deixa satisfeito na explicação desta radicalização das classes médias e elite. Acredito que as forças materiais é que no fundo, movem o mundo de fato. Penso que as pessoas tendem a se radicalizar muito mais quando a situação é de crise econômica do que em qualquer outra situação. Não há o evidente declassment, o empobrecimento econômico, ou o medo do mesmo, desta forma, não acho que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o elitismo de nossas classes médias (sonhando com palácios de princesas em apartamentos de dois quartos de condomínios fechados) sejam suficiente para esta radicalização recente destes setores sociais.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão mais e mais se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato. Esta sensação vêm não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas.

Nossa elite e classe média cultivou por tanto tempo a sua superioridade cultural e econômica, seu sangue-azul, sua nobreza histórica, a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo no mais desigual país do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares que ela, gera um asco e uma rejeição tremenda à atual sociedade. A frase do Luís Carlos Prates, ‘jornalista’ catarinense resume bem esta idéia: “por causa deste governo espúrio… agora qualquer miserável pode ter um carro”. Qualquer miserável agora tem celular mp7, smartphone; qualquer miserável pode ir aos shoppings, lotar os aeroportos; votar em interesse próprio…

Estes setores tradicionais, tão conservadoras que são, tão elitistas e mal acostumadas que são, rejeitam a tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada”, que a ascensão dos ‘diferenciados’ faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia culto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares antigos. Não há mais máscara, a elite e classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social.

Temem concluir o que sempre foi óbvio: somos todos proletários.

José Livramento

A Arma das Drogas não supera a Droga das Armas.

Direitos Humanos enlatado

Direitos Humanos enlatado

O Dinheiro da Droga ou a Droga do Dinheiro.

A grande maioria das vezes que se discute drogas temos um forte viés moralista na questão, geralmente resumidos em: “drogas são ruins e precisam ser controladas” ou “usa drogas quem quer e por isso devem ser liberadas”. A razão moral para rejeitá-las ou tolerá-las é por vezes ideológica, religiosa ou política. É frequente figuras públicas negarem ou admitirem o uso de drogas para se enquadrar em determinados nichos culturais que querem atingir, exemplos clássicos: Bill Clinton, Gabeira e FHC, ou Bolsonaro num outro extremo.

Por outro lado, há os críticos das políticas anti-drogas que tomam o viés econômico, afirmando que os custos da guerra anti-drogas são muito altos e que seguir irrestritamente a agenda norte-americana na questão pode ser um problema maior que a solução. Por agenda norte-americana leia-se combate irrestrito ao usuário e aos traficantes, aplicação da agenda anti-terror aos traficantes e produtores de drogas (as leis californianas seriam uma exceção aqui). Apesar do argumento econômico já ser um caminho um pouco melhor na compreensão da questão do combate ou não às drogas, ainda é insuficiente, pois não abraça toda lógica por trás da agenda da guerra às drogas.

A Guerra Contra as Drogas é uma política antiga do governo Norte Americano. Interessante que ela começou antes mesmo do boom de usuários nos EUA, do meio pro final dos anos 70 e seu ápice atual de uso per capita de drogas ilícitas. Só aí reforça o argumento que faremos a seguir, o uso de drogas não era nem de perto um problema sério de Estado como se tornou nos anos 80 e 90, mas já em 1970 ela toma forma de Guerra mesmo, com várias intervenções desde então: Panamá, El Salvador, Granada, Colombia… Intervenções e influência em políticas internas de praticamente todos os países latino-americanos, em especial no México, maior entreposto de drogas para os EUA. Diga-se de passagem os EUA são o maior consumidor do mundo de todas as drogas ‘tradicionais’, em 2004 cálculos oficiais mostraram mais de 15% da população americana já havia usado cocaína e 2.7% usava regularmente.

Assim, do ponto de vista da retórica moralista anti-drogas dos EUA, esta guerra teria algum sentido. É compreensível que uma bancada evangélica fortíssima, WASP, queira acabar com as mazelas do mundo, fazendo valer o destino manifesto de todo ultra-religioso e em particular, destino manifesto ‘civilizador’ muito comum na retórica norte-americana. O porém é que no mundo em que vivemos, nós já estamos carecas de saber que a moral não é parâmetro para política de estado, vivemos na era do “dinheiro über Alles” e nele, a moral está submetida ao poder do dinheiro. Exemplos não faltam, só de lembrar que a CIA já foi – e talvez ainda seja – um dos maiores atravessadores e facilitadores do tráfico de drogas internacional, sem falar. A partir deste fato temos de reanalisar a política de drogas no mundo e, em particular no Brasil.

No médio-longo prazo, a grande parte das leis no Estado capitalista seguem a seguinte lógica: se os custos para fazer valer a lei são muito maiores que os gastos com os reparos dos problemas que sua falta provoca, a lei é inviável. Esta é a pura lógica do mercado aplicada ao Estado, principalmente nesta última fase de 30 anos para cá, no bojo do ideário neoliberal, que enfraqueceu o viés ideológico do Estado, nos EUA principalmente e no Brasil em particular. Não se esqueça da retórica pós-soviética de que o político – o representante – se apresentou no discurso anti-estatal dos neoliberais como mero administrador do Estado, este se tornou algo altamente instrumentalizado, o político como um financista controlando o Estado de maneira apolítica e descarregado de moral e ideologia. A retórica é que “a política é ruim”, “o fim das ideologias”, “não existe esquerda e direita”, esse tipo de coisa que procura despolitizar e alienar as decisões do Estado, camuflando os reais interesses – altamente políticos e econômicos – presentes no fundo deste discurso.

No entanto, é essa a regra mercadológica que rege por exemplo, legislação do trânsito. O governo brasileiro notou que o custo econômico em hospitais, tratamento, recuperação de estradas, indenização de vítimas, infraestrutura de resgate, médicos e etc, educação no trânsito, é um bocado maior do que aplicar leis mais rígidas de radares e de álcool ao dirigir. Além é claro, da indústria das multas, caça-níquel fácil, num páis que as leis não pegam e quebrar leis é quase obrigatório. A redução no custo hospitalar e reativo (de reação ao problema) foi enorme. Obviamente, o lado humano em reduzir em até 25% o número de mortes no trânsito vem a calhar politicamente para os realizadores da empreitada e, de fato, para a sociedade em geral. Mas é como disse em outro texto:

Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínio público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.”

No caso do cigarro, essa lógica foi largamente documentada nos últimos 20 anos. Os governos pelo mundo notaram que fazer campanhas anti-tabagismo e proibir fumo em locais públicos reduzia drasticamente os gastos hospitalares a médio-longo prazo, nas doenças ligadas ao cigarro, fumaça e etc. O nome bonito disso é prevenção, o nome feio é “planejamento de custos”. Planejamento de saúde aliás que faz Cuba, a ilha maldita, ter a melhor relação saúde-custos per capita do mundo, já dizia o ditado: prevenir é melhor que remediar.

Mas o que isso tem a ver com o nosso texto? A lógica do combate ou liberação das drogas como política de Estado segue este raciocínio. Porém, é ainda mais complexo.

Na questão das drogas temos de levar em conta este tipo de planejamento do governo, mas temos de levar em conta que o principal Estado engajado na Guerra Contra as Drogas é os EUA. Nós não vemos outras potências como Alemanha, França, Japão e mesmo Espanha, tradicional aliado norte-americano, tão engajados em combater as drogas pelo mundo como os EUA. Será mesmo uma cruzada religiosa contra esta imoralidade da droga?! Dificilmente.

A Guerra Contra as Drogas envolve um titã econômico pouco falado nas discussões sobre os entorpecentes: as armas. Adicione este poderoso elemento na equação acima e temos uma bombástica política infinita de produção e destruição capitalista.

Alguém já se perguntou porque armamento é algo tão fundamental para a indústria capitalista?

Pense num AR-15 (também conhecido como M-16) ou num AK-47… Estas duas armas consistem em produtos que de tão eficazes são praticamente idêntico ao modelo criado em 1964 e 1947 respectivamente, inclusive com pentes facilmente adaptados entre todas as versões produzidas há décadas… Como um produto capitalista que, por natureza, tem obsolescência programada, poderia sobreviver ao longo destes anos, praticamente inalterado? Aliás, de tão bem feitos, em ambos os modelos existem peças em funcionamento há mais de 30 anos. A indústria de armamento ganha muito mais na munição (no projétil) do que na arma que a atira. Pense que produto magnífico pro ciclo mercadológico capitalista: uma vez usado, ele não só se autodestrói como destrói alguma coisa no caminho… E tudo isso feito majoritariamente com dinheiro público transferido para a iniciativa privada! Maravilha. E sim, usei o exemplo do soviético AK-47 de propósito, para demonstrar como a lógica capitalista nunca foi derrubada na URSS, como já demonstrou Istvan Meszaros e outros intelectuais críticos soviéticos.

Sob esta lógica a política anti-drogas norte-americana é muito mais compreensível. A moralidade passa longe e do fundo do discurso humanitário, preocupado com o bem comum, novamente surge o que sempre foi o interesse: o dinheiro. Assim, fica claro porque a defesa econômica da liberalização das drogas também é falha. Por mais que a legalização das drogas traga colossais dividendos em termos de impostos e vantagens comerciais a países pequenos e economicamente inexpressivos, primário-exportadores; e que reduza o tamanho necessário de forças policiais e de fiscais de fronteiras, além de fundamentalmente diminuir a violência, como as experiências portuguesas e espanholas dos últimos 10 anos mostraram. Essa economia jamais será superior ao montante garantido da venda de armas, amortização das dívidas geradas em países pequenos que não têm dinheiro para as armas, nem para os hospitais, nem para a fiscalização de fronteiras. Sim, países expressivos como Espanha e Holanda conseguem quebrar o esquema que praticamente só favorece a indústria americana, mas o que dirá de Guatemala, Honduras, El Salvador, Colômbia, Equador, países primário-exportadores com históricas elites cooptadas, a serviço do dinheiro estrangeiro para se perpetuar no poder… Até o México, um país rico economicamente é refém da política anti-drogas e da violência degeneradora que ela causa. Além do que, a vista grossa implícita na política americana anti-drogas é evidente. Cada ano que passa os EUA consomem mais drogas e de maior qualidade, apesar de ter mais e mais gastos com o combate a elas.

Assim temos que a Guerra contra as Drogas não é sobre drogas, é sobre guerra, ou a manutenção da guerra. Seguindo a lógica da Guerra ao Terror – ou melhor, cronologicamente falando, esta segue a lógica da Guerra às Drogas -. Ela é criada para não acabar, apenas se expandir e ficar mais violenta e no maior número de estados satélites possível. O governo dos EUA faz lobby em países com elites fracas e facilmente cooptáveis, suscetíveis ao seu imenso poder de “barganha”, como a maioria dos países da América Central, como o México, uma colônia americana de fato mas não de direito, Guatemala e Colômbia para aplicarem leis anti-drogas mais fortes. Desta maneira estes governos compram mais armas dos fabricantes norte-americanos, consequentemente os traficantes compram mais armas dos EUA para se defender de uma força repressora mais forte. Há dados de que perto de 10% do PIB da Guatemala sejam de armas e drogas (viomundo.com.br). Da mesma forma que pegam mais dinheiro emprestado para financiar seu aparato de fiscalização, seus hospitais para tratar os feridos nas altíssimas taxas de criminalidade destes países.

Um exemplo claro desta ação é que as FARC estão praticamente controladas, reduzidas a uma ínfima parcela do que já foram e no entanto as drogas colombianas continuam a entrar nos EUA normalmente, indicando um fato importante: ou as FARC nunca foram responsáveis pelo montante de fabricação de drogas que sempre lhe foi atribuída, ou forças “governistas” na Colômbia continuam a produzir para os EUA, no vácuo das FARC. Em qualquer das alternativas, a retórica da invasão e semi-colonização da Colômbia cai por terra.

Assim, reitero que discutir a política de combate as drogas sem mencionar a indústria de armamentos, de endividamento, de controle político e social (nem entrei nesta parte porque Hélio Luz já disse tudo no outro post) e sustentação de governos faroáveis em países ricos mas politicamente fracos, da América Latina e Oriente Médio por exemplo, não falar disso tudo ao discutir a questão das drogas é continuar com o discurso vazio e inócuo que jamais terá algumsucesso. A economia move o mundo.

José Livramento