Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

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Kadafi está morto

Kadafi e antigos amigos (2009).

Kadafi está morto. Parabens aos Líbios!

O lado positivo de eventos históricos excepcionais como o que o mundo presenciou no último dia 20 de Outubro, é que eles expõem com toda a clareza e sem rodeios as grosseiras fraudes e contradições do lamentável e vergonhoso discurso político hegemônico que correntemente domina o imaginário das sociedades ocidentais e daquelas que, como a brasileira, lhe são periféricas.

Neste dia, Muammar Kadafi, líder líbio, foi assassinado (pelos vídeos, foi executado mesmo). Não importa, e jamais saberemos ao certo, quem apertou o gatilho. Para todos os fins, foi assassinado por uma coalizão de potências interventoras estrangeiras ocidentais com elementos internos da sociedade líbia.

O que Rio Revolta pensa deste assassinato? Não nos interessa fazer qualquer juízo de valor a respeito de sua morte. Simplesmente aconteceu e, como dado da realidade, requer nossa análise fria.

Tampouco nos importa saber se Kadafi era ou não um líder legítimo para os líbios. Rio Revolta não acredita minimamente que as falidas instituições liberais burguesas (especialmente em países que se quer tiveram revoluções constitucionalistas significativas), baseadas em idealismos superficiais como “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido” e o “voto” como genuína expressão da vontade popular, sejam ponto irrefutável de defesa. Portanto, para nós, nada significa que ele não tenha sido eleito por esse sistema.

Poder legítimo é aquele que detém o monopólio do uso consentido da violência física numa dada sociedade por longos períodos de tempo. Repito, USO CONSENTIDO. Portanto, da nossa perspectiva, Kadafi era o líder legítimo da Líbia até o início da revolta, quando deixou de ser, porque a partir de então nem detinha mais o monopólio nem era consentido como seu detentor. Não é por acaso que na Líbia, assim como no Egito, os ‘governos de transição’ são compostos fundamentalmente por elites militares e políticas que já estavam no poder anteriormente, algumas fiéis escudeiras de seus recém-depostos líderes. O consentimento de seus pares acabou.

Vale notar, portanto, que nossa concepção de “legitimidade” não se inclina para juízos de valor idealistas, mas apenas para dados que por ventura possam ser apreendidos da realidade.

Tampouco acreditamos neste discurso fácil e falacioso que vê no “desejo de democracia e liberdade” dos povos árabes a motivação final para a rebelião contra seus poderes constituídos. Para começar, não sabemos o que estas idéias significam na cabeça de um líbio ou egípcio contemporâneo. Além do que, é difícil acreditar que um dos principais núcleos rebeldes anti-Kadafi, descendentes e seguidores de Idris Sinnassi, o monarca absolutista pan-islâmico, deposto ainda em 1959 por republicanos liderados pelo então ‘progressista’ e nacionalista Kadafi, sejam defensores da liberdade e da democracia.

A realidade é por demais complexa para ser simplificada em dicotomias bom x mal, liberdade x tirania. Rio Revolta acredita piamente que estas rebeliões tem fundamentos multicausais, e muitas, se não a maioria destas causas, são e permanecerão sendo intangíveis. O que é possível fazer é traçar cenários aqui e acolá, considerando questões de teoria política geral e da história daqueles povos. Portanto, quanto a este patético discurso enlatado, otimista e autorreferenciado, com requintes fukuyamistas de “fim da história”, o deixamos para “cientistas políticos” como William Waack ou, ainda “cineastas” como Arnaldo Jabor.

O que interessa para nós é colocar as brutais contradições que emergem deste fato já neste exato momento, e as que emergirão no futuro.

Kadafi e Tony Blair em 2007, na "African Farewell" tour do inglês.

Primeiramente, não podemos enxergar o mundo sob o prisma de filmes de velho oeste hollywoodianos. Não cremos na existência de mocinhos no filme da história da humanidade. Cabe, portanto, distinguir entre os bandidos e, arbitrariamente, escolher o seu preferido. Ou não.

Segundo, Kadafi parece ter tido um destino, de certa forma, merecido. Para dizer isso, pensamos em quantos milhares devem ter sofrido mortes igualmente sórdidas e humilhantes por sua pura e simples vontade e caprichos. Mas isto não resolve absolutamente o problema, ao contrário, o aprofunda. Porque sua morte não foi um ato de “justiça”, mas sim, de vingança dos vitoriosos. Vale relembrar que das principais forças rebeldes são herdeiras de forças que Kadafi depôs, 40 anos atrás.

Não adianta Kadafi ir embora enquanto Bush (pai e filho), Clinton, Obama, Blair, Brown, Cameron, Chirac, Sarkozy etc etc etc etc continuam circulando por aí. Isso para ficar apenas nas três potências que, efetivamente, invadiram a Líbia: EUA, Inglaterra e França (sempre eles, sempre eles….).

Não é só porque Kadafi perdeu que se transformou num criminoso de guerra contra a humanidade. Isto ele já era, de longa data. Mas os outros também são, e infelizmente continuarão por ai. E o pior, representados midiática e socialmente como os defensores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Mais impressionante ainda, um deles, o Sr. Barack “Hope” Obama, ganhou um Nobel da Paz… Especializando-se em “assassinatos seletivos”: Bin Laden, Al-Alawiki (este um cidadão americano, trazendo à lembrança os assassinatos igualmente ‘seletivos’ da CIA contra dissidentes internos norte- americanos nos anos 50 e 60). E agora, Kadafi. Mas quem será o próximo?

Mas Obama, no fundo, é um ‘nice guy’. Ele mata para que acabem as mortes. Faz a guerra para que acabem as guerras. Guerra é Paz, dissemos no nosso último post. Ah, bom!

Enquanto isso, não cria um mísero emprego para o proletário norte-americano. A idéia de torcer para que perca a reeleição em 2012 bem que seduziria Rio Revolta, não fosse a disputa contra um candidato qualquer do Tea Party republicano… Neste caso, já que é seis por meia dúzia, melhor que tudo continue como está. É como dizem da diferença do republicano pros democratas: os últimos pelo menos usam vaselina. “Quer me foder, me beija porra”.

Terceiro, apesar dos pesares – da ‘tirania’, ‘falta de democracia’ e toda a lenga-lenga hipócrita midiática – a Líbia era, até poucos meses atrás, de certo, o país de maior qualidade de vida da África e do mundo islâmico. Dados do IDH da ONU. Aliás, tomado por este mesmo índice, era um país em torno de 30 anos mais avançado que o livre e democrático Brasil, para não falar das outras 150 ‘democracias’ do mundo em completa miséria. Juscelino Kubitschek – o conservador Seu Nonô – uma vez, sabiamente, disse: “Liberdade não é mais do que uma palavra vazia para os que vivem na miséria”…

O segredo para o relativo sucesso da Líbia, isto era relativamente simples. Um país posicionado sobre um enorme lago de petróleo, com uma população bastante reduzida e dotado de indústria petrolífera consideravelmente, mas não de todo, nacionalizada. O regime socialista (não confundir com comunista ou bolchevique) de Kadafi fornecia gratuitamente à população serviços de educação, saúde, alimentação e moradia.

Vale para Kadafi o mesmo raciocínio que para Fidel. OK, pode ser ruim ou bem ruim com ele. Mas o que teria sido sem? Cuba era o cassino-puteiro da elite norte-americana. A Líbia era o poço de petróleo fácil e barato do Mediterrâneo e, na ausência de Kadafi, seria o que? Uma Nigéria com seus estupros coletivos e barbáries tribais? O Sudão da fome e concentração de renda? Mereceria outro ditador menos ‘ilustrado’ como Mubarak? Estagnando o Egito por 30 anos. Para não falar de outras ‘democracias’ africanas que fazem Cuba e a Líbia parecerem a Noruega. Triste mesmo é constatar que estes países caminham a passos largos para ser o que talvez tenham chegado perto de evitar: colonia econômica da barbárie sem fronteira capitalista. É a História andando, para trás.

Vamos ver daqui há 10 anos, quiçá, o que vai achar o cidadão líbio médio que hoje se sente libertado, da perspectiva de obtenção desta mesma saúde, educação e alimentação através das forças automáticas e impessoais dos ‘perfeitos mercados’… E sem dúvida, dada a correlação de forças recém estabelecida na Líbia – a vitória de uma guerrilha “libertadora” comprometida até sua última gota de sangue com os interesses corporativos estrangeiros -, será este o fabuloso do país: a ‘democracia liberal burguesa de mercado’, e nenhum outro.

Quarto. Claro está que a questão humanitária foi a última razão da intervenção ocidental na Líbia e a execução filmada de Khadafi veio coroar esta mentira. O mesmo pode ser dito da defesa dos valores ideológicos ocidentais. Mas é evidente que a representação social vem sendo esta, soa muito mais bonito e agradável, especialmente em países que vivem o simulacro de escolha do mercado eleitoral. E o mais impressionante é que não faltam ingênuos e otários acreditando.

Nunca vi o Jornal Nacional chamando de tirano ditador sanguinário o Rei Saudita – aquele mesmo cujo regime impõe uma versão radical da lei islâmica que impede até mesmo as mulheres de dirigir. O mesmo rei que mandou, não tem dois meses, tropas para ajudar na dura repressão da população do Bahrein que tentava fazer a sua ‘primavera’; que enviou tropas para reprimir rebeldes em 2009 no Iemen. Parece que uns são mais tirânicos e ditadores do que outros. Para não dizer das inúmeras ‘boas’ reuniões de líderes ‘democráticos’ ocidentais com Kadafi nos últimos 5 ou 6 anos. Bem, talvez os direitos humanos dos líbios subitamente se tornaram mais importantes que o das mulheres sauditas ou de agitadores do Bahrein ou Iêmen. Curiosa maneira de ver o mundo.

Estamos assistindo ao recrudescimento do imperialismo ou, se preferem, uma nova (a terceira?) onda imperialista. E ela está recomeçando precisamente pela interseção de seus elos mais frágeis, a África e o mundo islâmico.

A razão para isto é simples. O Ocidente em geral e os Estados Unidos em particular continuam drogados-viciados-doentes terminais em petróleo e seu ‘capitalismo liberal’ cada vez mais dependente de ações concretas do Estado para se expandir (Irônico, não?)

Só que necessitam do petróleo alheio, e há um novo monstro geopolítico em aberta ofensiva expansionista: a China. É necessário, portanto, reafirmar o controle ocidentalnorte-americano direto sobre as fontes energéticas, quem sabe mesmo, se preciso for, com o restabelecimento de colônias. Sinal de tempos difíceis à frente.

O regime de Kadafi vinha sendo recebido de braços abertos pelo Ocidente nos últimos anos, como o demonstra as várias fotos que postamos neste artigo.

Mutassim Kadafi (filho) e Hillary Clinton (2009)

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

E então, repentinamente, um levante popular ganha o apoio de todos os que se reaproximavam do “sanguinário ditador” até anteontem. E claro está que sem a intervenção da OTAN, os rebeldes teriam sido rapidamente esmagados. O Ocidente foi, portanto, o fiel da balança e principal responsável pelo resultado. Levando ao poder, curiosamente, vários fiéis seguidores e colaboradores de Kadafi, mas que não são tão nacionalistas ou socialistas como era Kadafi. Porque o problema do Ocidente não é ditadura ou democracia, mas sim, a confiabilidade do ditador, a garantia de seu domínio.

Disto fica, então, a nossa quinta e última contradição. O destino de Kadafi é o dos “amigos” do Ocidente. Porque este só tem, mesmo, um amigo único: $$$

Arnaldo Gordo
Pequena colaboração de José Livramento.

Nenhuma imagem pertence ao Rio Revolta, para saber as fontes consulte  http://www.tineye.com/

Direitos Humanos, o Irã, a Arábia Saudita e o Petróleo

O vazamento, para o mundo ocidental, da notícia de que uma iraniana havia sido condenada à morte por apedrejamento, em seu país, por adultério e conspiração para o assassinato de seu marido, gerou nova onda de indignação e protestos mundo afora contra aquele regime. A grande mídia brasileira, associada à mídia mundialmente hegemônica e sob direção e domínio desta, mais especificamente aquela de origem e expressão anglo-saxã, não tem sido diferente e vem replicando este numa base diária, nas últimas duas semanas, em tons de forte condenação ao regime iraniano e à sua política de direitos humanos.

Rio Revolta acha interessante notar em que nenhum momento os veículos midiáticos questionam a inocência de Ashtiani, se a pena de morte para assassinato premeditado (conspiratório) e adultério, caso clássico de crime passional contra o marido, muito comum pelo mundo, é válida ou não. Apesar de bastante controverso o caso e claramente problemático dentro do complicado sistema legal iraniano, ela foi julgada duas vezes e condenada a morte por assassinato, conspiração e adultério. Porém, nada disso é levantado pela mídia, enfatizam o caso de adultério e, principalmente, no modo como ela seria executada. A execução por si só, nem é se quer discutida pois, os veículos de mídia, seguindo a linha norte-americana, não questionam a pena capital, pois os EUA também a praticam. Então, Rio Revolta pensa que há muito mais por trás do estardalhaço relativo a Ashtiani.

Pois bem, devemos então avaliar quais as razões de mais este ataque contra aquele país. Estamos partindo do pressuposto, que a experiência histórica parece mostrar verdadeiro, de que a defesa inflexível dos direitos humanos esconde interesses de outra ordem, mais especificamente, políticos e econômicos.

Para fins de comparação, levanto então o caso da Arábia Saudita. Proponho uma rápida abordagem da formação política deste regime, da sua política de direitos humanos e do tratamento dispensado às mulheres, para compará-lo com o caso iraniano.

Não é mistério, para ninguém que se interesse pelos assuntos políticos e de relações internacionais que a Arábia Saudita, longe de ser um exemplo, é na verdade o que uma mente ocidental descreveria como o mais intolerável dos mundos. Uma rápida e extremamente superficial pesquisa revelaria certas feições, muito bem conhecidas posto que o próprio regime não faz nenhuma razão de escondê-las – não as esconde porque não precisa fazê-lo.

Para exemplificar o que afirmo, recorro à mais trivial das mais triviais fontes: a Wikipedia. Seguem-se estes curtos parágrafos, da versão em língua inglesa:

“O sistema legal Saudita prescreve pena capital ou pena corporal, incluindo amputação de mãos e pés para certos crimes como assassinato, roubo, estupro, tráfico de drogas, homossexualismo e adultério. Furto é também passível de punição por amputação da mão, no entanto é raramente prescrito para um primeiro crime [réu primário]. A côrte pode impor outras duras punições, como flagelação, para crimes menos sérios contra a moral pública, como embriaguez. Assassinato, morte acidental e flagelação são abertos a punição pela família das vítimas. Retribuição pode ser alcançada por ou através de indenização. A indenização paga por uma morte acidental de uma mulher ou de um homem cristão é metade da paga para um muçulmano homem. Todos os outros (hindus, budistas e sikhs) são avaliados a uma taxa de 1/16. A principal razão disso é que, de acordo com a lei Islâmica, homens são tidos como os provedores de suas famílias e portanto, espera-se que ganhem mais dinheiro durante sua vida. Espera-se que a indenização por morte de um homem sustente a família, por pelo menos um curto período. Morte por defesa da honra não são punidas tão severamente quanto assassinato. Isso se origina do fato de que mortes por defesa da honra são feitas no interior de uma família e feitas para compensar algum ato ‘desenroso’ cometido. […]

A Arábia Saudita é também o único país do mundo onde as mulheres são banidas de dirigir em ruas públicas. Mulheres podem dirigir fora-de-estrada e em complexos residenciais privados – alguns se extendem por muitos quilômetros quadrados. O banimento por ser suspenso em breve, no entanto apenas em certas condições.

(tradução: J. L. O link para o artigo original em inglês e completo é este: http://en.wikipedia.org/wiki/Saudi_arabia)

Deste curto trecho, podemos rapidamente concluir que o regime saudita: pratica a pena de morte e os mais duros castigos corporais para uma série de crimes como assassinato, assalto, furto, estupro, venda de drogas; e para “crimes” como homossexualismo e adultério; o regime saudita bane o consumo de bebidas alcóolicas; mortes acidentais podem ser facilmente indenizadas (chamado blood money); neste caso, uma indenização um homem islâmico vale o dobro que uma mulher, ou que um homem cristão; e 16 vezes mais do que todos os outros; por fim, as mulheres são proibidas de dirigir em ruas públicas, e deduz-se do artigo que talvez, quem sabe, isto possa ser mudado em breve, sob certas condições. Estamos no ano de 2010.

Este é um brevíssimo retrato da política de direitos humanos da Arábia Saudita. Não creio ser necessário, mas é também pertinente lembrar que trata-se de uma monarquia islâmica absoluta, um dos regimes mais arbitrários do mundo, ou seja, uma excrescência histórica.

A política de direitos humanos do Irã é, ainda que fundamentada na mesma fonte que a saudita, isto é, a Shari’ah, ou “Lei Islâmica”, relativamente mais tolerante, posto que pelo menos as mulheres não possuem o mesmo status que crianças. E quanto ao regime, o Irã é uma república teocrática islâmica, com um chefe de Estado fixo, o aiatollah, mas que contém a possibilidade de mudança do chefe de governo, ou seja, existe a possibilidade de imprimir ao país direcionamentos políticos mais progressistas ou mais conservadores. O antecessor de Ahmadnejad, Khatami, da ala progressista da elite iraniana, era notoriamente mais flexível e pró-Ocidente.

Coloca-se, então, uma questão fundamental: porque o Irã é tão frequente e violentamente atacado pela mídia ocidental e a Arábia Saudita, consideravelmente mais retrógrada (sob uma perspectiva ocidental), sequer é citada?

Chegamos, então, no ponto pretendido. Aquele ponto no qual o discurso hegemônico, a ideologia dominante revela-se inteiramente como mistificação da realidade, ou seja, no qual os motivos pretendidos mostram-se absolutamente frágeis e por trás deles podemos acessar os motivos reais, concretos, aqueles que não podem ser tornados públicos, que não podem ser ditos.

Para isto, recuo um pouco na História. Volto aos anos 50, década em que Arábia Saudita e Irã eram dóceis integrantes da ordem internacional capitalista da “Guerra Fria”, sob hegemonia norte-americana. Estes dois países encontravam, então, posição absolutamente central no esquema desta ordem, posto que donos das maiores reservas de petróleo do mundo e os principais exportadores para o mundo ocidental. Especialmente o Irã, cujas reservas já haviam sido descobertas, desde o início do século, pelos ingleses, que as vinham explorando deste então. Quanto à Arábia Saudita, suas descobertas de petróleo remontam ao final dos anos 30, portanto um pouco mais tarde.

Ainda que tenham no Islã um elemento que os assemelhe, Irã e Arábia Saudita são, de todo o resto, sociedades muito diferentes. E isto se dá, inclusive, dentro do próprio Islã: enquanto o Irã é xiita, os sauditas são sunitas. Esta divergência é muito séria, e surgiu pouco tempo após a morte do Profeta Mohammed, pois se dá exatamente em torno da obrigatoriedade ou na recusa em buscar seus sucessores no comando político e religioso do mundo islâmico entre seus descendentes. Em termos de raízes étnicas, os iranianos são indo-europeus, e falam uma língua indo-européia; ao passo que os sauditas são semitas, como sua língua. Não são portanto um mesmo povo; ao contrário, são povos distintos, com línguas distintas e que historicamente antagonizam-se.

Em termos históricos, a nacionalidade iraniana remonta a milênios atrás, se pensarmos que o país, até poucas décadas, chamava-se Pérsia. O Irã é portanto herdeiro de uma civilização que, a despeito da inclusão de novos e fundamentais elementos, como o próprio Islã, subsiste continuamente pelo menos desde o primeiro milênio antes de Cristo. E vale lembrar que, sob constante assédio de ingleses e russos, resistiu ao colonialismo europeu, não tendo sido ocupado diretamente por nenhuma potência estrangeira exceto por um breve período na 2a Guerra Mundial.

A situação da Arábia Saudita é radicalmente diferente. O reino saudita só foi concebido no século XVIII, tendo, porém, vida muito curta: os turcos otomanos logo tomaram o país – leia-se, suas principais cidades, no oeste do deserto: Meca e Medina. Enquanto Estado nacional, a Arábia Saudita só foi se constituir nos últimos anos do século XIX, sob égide do Império Britânico, interessado em desmembrar aquela mesma Turquia otomana, agora fragilizada. Portanto, é um país cuja identidade nacional é extremamente recente e de certa forma mais um dos Estados nacionais artificiais criados pelos europeus mundo afora.

Para assegurar o domínio sob as vitais reservas petrolíferas iranianas e sauditas, os anglo-saxões prontamente buscaram estabelecer no comando destes Estados elites locais extremamente arbitrárias e corruptas, dispostas à assegurar a inserção de suas reservas energéticas na ordem internacional em troca do fabuloso enriquecimento possibilitado pelo pagamento de royalties. Para tanto, estabeleceram violentos regimes ditatoriais: no caso saudita, a dinastia que lá até hoje se encontra e que empresta seu nome ao país; no caso do Irã, o regime do Shah Reza Pahlevi. Este passou 38 anos no poder, tempo que se não tivesse sido subservientemente dedicado à causa ocidental certamente teria rendido furiosas reportagens na Veja.

A situação na Arábia Saudita sempre se manteve sob controle, e o país permanece fielmente pró-Ocidente até os dias de hoje. Mas por razões diversas, o mesmo não se passou no Irã. A oposição ao regime totalitário do Shah foi crescendo ao longo dos anos, fundamentada em razões não somente religiosas, no desejo de estabelecer uma teocracia islâmica, mas também econômicas, a luta pela nacionalização da produção de petróleo. Portanto, era uma oposição ao mesmo tempo progressista e conservadora; pretendia modernizar a economia do Irã, livrando-a do que percebiam como o jugo imperialista ocidental, ao mesmo tempo em que se propunha retomar as bases mais tradicionais de sua sociedade.

A oposição, duramente reprimida pelo regime, explodiu em revolução; mais especificamente, na Revolução Iraniana, em 1979. É neste processo histórico que devemos enxergar toda a oposição que o Ocidente ainda hoje fomenta contra aquele regime. Pois esta revolução venceu, e ao vencer, rompeu o formato até então vigente da inserção do Irã na ordem internacional, ou seja, a sua posição de mero fornecedor de matérias primas para os centros dinâmicos capitalistas. Ao nacionalizar a indústria petrolífera, feriu de morte a hegemonia anglo-saxã na região, e fez do Irã um exemplo de bem sucedida revolução contra-hegemônica numa região extremamente cara ao mundo ocidental.

O discurso ocidental volta-se contra o caráter religioso conservador da Revolução Iraniana; mas na verdade, opõe-se ao seu caráter político-econômico progressista, ou seja, ao seu caráter anti-imperialista de libertação nacional. Se o Ocidente estivesse mesmo preocupado com a questão dos direitos humanos ou das mulheres iranianas, estaria ainda mais engajado nas críticas ao regime saudita, que sob uma perspectiva ocidental os viola de maneira ainda mais grosseira. Para sairmos do mundo islâmico, estaria, também, fazendo o mesmo com a China. No entanto, esta e a Arábia Saudita escapam dos ataques da propaganda ideológica, posto que inserem-se na ordem global capitalista, uma como maior fonte energética, a outra como área de super-exploração de mão de obra.

É necessário, portanto, estar sempre muito atento ao discurso hegemônico. Sempre que um discurso humanista é invocado, costuma ter por detrás motivações político-ideológicas que defendem determinados interesses econômicos. É necessário olhar além das aparências, analisar o dito pelo não-dito. Não é possível assistir a uma peça de teatro sem que se levantem os panos. Não podemos deixar-nos enganar: por trás da defesa dos direitos humanos encondem-se, sempre, muitos e muitos bilhões de dólares.

A.G.

Os EUA, o Irã e a bomba

Teste termonuclear

Curiosa e assustadora a intransigência norte-americana quando ao “programa nuclear” iraniano (entre aspas, mesmo). A última vez que os Estados Unidos acusaram um outro país de ter um perigoso “programa de fabricação de armas de destruição em massa”, rapidamente ressoaram os tambores da guerra e este país, o Iraque, encontra-se hoje destroçado – sendo devidamente reconstruído por empresas norte-americanas. Quanto ao terceiro acusado na época, a Coréia do Norte, mostrou efetivamente ter tal programa – já testou suas bombinhas por aí. Com isso, assegurou sua independência militar, segura de que não será invadida, independentemente das tresloquices que seu guia supremo e timoneiro celestial inventar.

A obsessão atual é o Irã. Acusa-se este país de fabricar armamento nuclear, enquanto na realidade se está de olho em seu petróleo. A infeliz retórica anti-semita do presidente iraniano certamente não ajuda. O que não deve ser confundido com representar o Irã e a sociedade iraniana como anti-semitas; neste tocante, devemos lembrar que há uma comunidade judaica razoavelmente numerosa neste país (calcula-se entre 10 e 40.000 judeus). O judaísmo não é proibido pela Constituição, que o reconhece como uma religião minoritária; nem é oficialmente perseguido pelo Estado iraniano, ainda que a realidade cotidiana nos seja evidentemente impossível de conhecer. O presidente Khatami, anterior ao atual, de linha mais liberal, menos conservadora, era conhecido por visitar centros judaicos iranianos. Acusar o Irã de ser anti-semita é leviano, se não mal intencionado; este talvez possa ser o caso de Ahmadnejad, no entanto.

Retornando à bomba, Rio Revolta é flagrante e inflexivelmente a favor de um mundo sem armas nucleares. Mas acredita que, por uma questão da mais trivial lógica, um mundo sem armas requer que nenhum país as tenha. E existe um seleto clube que as possui e não pretende abrir mão delas – os mesmos que tentam impor a “não-proliferação” ao resto do planeta. Os dois principais deles deram o exemplo há poucas semanas, num fabuloso acordo que reduziu seus arsenais. Rússia e Estados Unidos concordaram em desmontar grande número de ogivas e a partir de algum momento futuro vão possuir apenas em torno de 2.000 ogivas nucleares prontas para utilização cada. E todos nós vamos dormir muito mais tranquilos depois disso.

Rio Revolta acredita que se alguns poucos países possuem tais armas, todos devem ter o direito de possuí-los. Inclusive o Brasil. Principalmente o Brasil, caso queira efetivamente a autonomia e a influência geopolítica na qual hoje tanto se fala. Rio Revolta não se engana com esse “viés republicano e pacífico” da governança global contemporânea e sabe que a História dá voltas. Rio Revolta se escandaliza com a aceitação de tal situação por parte da gigantesca maioria dos Estados nacionais. Rio Revolta lamenta profundamente que 189 paises tenham assinado o “Tratado de Não-Proliferação Nuclear”, cinco dos quais são Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China.

Enola Gay prestes a levar 20 quilotons de democracia ao Japão em 1945.

É chocante e absurdo que 184 Estados nacionais assinaram um tratado que os impede de fabricar uma única ogiva atômica enquanto permite a estas cinco nações continuarem tendo gigantescos arsenais.

E quanto ao perigo do Irã desenvolver armas atômicas, Rio Revolta lembra a todos que só houve até hoje na história um único Estado suficientemente genocida a se mostrar capaz de lançar armas atômicas sobre um outro povo. Brinde a quem acertar.

A.G.