Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

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Vigilância e Subversão

Símbolo do Information Awareness Office: “Conhecimento é poder”.

Há um história, provavelmente apócrifa, que conta a conversa entre o chanceler Otto von Bismarck e Guilherme II, kaiser alemão, sobre a construção rápida de ferrovias pelo país à época recentemente unificado. Apesar de interessado no progresso industrial e econômico que as ferrovias traziam, Guilherme estaria preocupado com a integração dos movimentos operários e a facilidade de contato entre trabalhadores das mais diversas regiões do país, que possibilitaria a unificação de campanhas republicanas e socialistas contra seu poder semi-absoluto recém conquistado. “Trens podem carregar muitos subversivos”, argumentava. O kaiser sabia que as ferrovias catalisaram as convulsões sociais francesas (WEBER, 1976; HOBSBAWM, 2009), especialmente a mais radical delas, a Comuna de Paris de 1871, e seu temor era de que fizessem o mesmo na Alemanha. Bismarck, porém, no melhor estilo realpolitik, teria convencido o imperador: “Trens também transportam muitas tropas”.

A discussão desses notáveis, apócrifa ou não, é altamente relevante nos dias de hoje.

Muito se tem debatido sobre o papel político da internet e das redes sociais não apenas nas relações comerciais e diplomáticas entre nações, mas também, e sobretudo, nos inúmeros levantes populares que vêm se propagando no mundo, dos protestos na Turquia, aos Indignados espanhóis, ou os Occupy por todo os EUA (especialmente na Califórnia), até as jornadas de junho no Brasil em 2013, passando é claro pelo massivo protesto no Egito e pelo recente Euromaidan na Ucrânia. Do ponto de vista da ordem estabelecida – independente de sua ideologia -, a “subversão” de fato se propaga de maneira muito rápida pela Internet, permitindo a convergência de bandeiras e demandas de regiões antes bastante distintas e a desmistificação da crescente propaganda governamental e corporativa e das manipulações grosseiras da mídia mainstream imediatamente após seu lançamento, transformando as redes sociais em um verdadeiro catalisador de pautas e núcleos descontentes. Como se viabilizasse a formação de uma “cauda longa” de inquietude, a internet e as redes sociais transformam minoriais invisíveis em núcleos autônomos interdependentes dos quais se propagam ondas de protestos e demonstrações públicas antes encabeçadas apenas por organizações tradicionais (partidos, sindicatos, igreja, associação de moradores e etc.) que, por sua natureza, precisam de mais tempo e recursos para propagar suas ideias. Hoje, como demonstrou o Mídia Ninja e suas inúmeras variáveis, basta um celular na mão e um computador com internet e qualquer um pode dar notícias em tempo real, quebrando o monopólio da informação oficial e corporativa.

Entretanto, se parece facilitar a organização de pessoas fora dos meios tradicionais, o “fenomeno Facebook” parece não demonstrar efeitos duradouros se não estiver associado a alguma organização tradicional. Muitas vezes formados tão rapidamente quanto flashmobs os movimentos “Facebookianos” podem ser também, como estes, igualmente efêmeros e superficiais. Observando a grande manifestação “cívica” do dia 20 de Junho de 2013, percebe-se que as milhares de pessoas que tomaram as ruas do país – cada uma com seu cartaz de protesto, com as mais variadas reinvindicações que, sem coesão ou consenso, mais pareciam um mar de reclamações individualizadas – transformaram a resposta aos críticos do “ativismo de sofá” (“saímos do Facebook”, diziam) numa paródia dela mesmo: não foram as pessoas que saíram do Facebook e foram para as ruas, mas o “mural” do Facebook que foi para as ruas com as pessoas. Transformando o protesto como fim e não como meio, apenas como forma de inserção social e participação política inócua. Seu vazio pode levar a extremas conclusões, como aponta Malcolm Caldwell: “Se antes os ativistas eram definidos por suas causas, agora são definidos pelas ferramentas que empregam. Os guerreiros do Facebook entram na internet para pressionar por mudanças” (CALDWELL, 2010). O objetivo é irrelevante, o importante é protestar.

Se as redes sociais realmente facilitam a “organização subversiva”, o fazem de maneira superficial. Malcolm Caldwell, já citado, tenta encontrar explicações para a fraqueza destes movimentos a partir dos vínculos sociais que estabelecem e do alto risco envolvido em suas questões:

(…) na verdade, [a rede social] não passa de uma forma de organização que favorece as conexões de vínculo fraco que nos dão acesso a informações, em detrimento das conexões de vínculo forte que nos ajudam a perseverar diante do perigo.

Transfere nossas energias das entidades que promovem atividades estratégicas e disciplinadas para aquelas que promovem flexibilidade e adaptabilidade. Torna mais fácil aos ativistas se expressarem e, mais difícil, que essa expressão tenha algum impacto.

As relações de vínculos fracos, isto é, fromadas através de redes sociais, comunidades online, fóruns, salas de bate papo, Facebook, Twitter e etc, são essencialmente efêmeros em seu resultado político concreto pois são construídos a partir de indivíduos atomizados em seus computadores pessoais, isolados em suas preferencias individuais e, ao contrário de qualquer organização política tradicional, não possuem um programa identificável, estratégias definidas ou metas traçadas, seu único ponto comum é um descontentamento com o status quo. Como já apontava Rosa Luxemburg há mais de cem anos, a “espontaneidade das massas” por si só, sem construção de um movimento coeso através de uma organização ou partido orgânico, é um esforço inócuo.

A fraqueza política da típica “manifestação facebookiana” é principalmente ligada à falta de substância e profundidade de seus objetivos e especialmente, a rejeição das organizações sociais tradicionais. Os Indignados espanhóis continuam permanemente indignados sem qualquer esboço de modificação da calamitosa situação espanhola, apesar de regularmente reunirem centenas de milhares pessoas; o Occupy Oakland (EUA), por exemplo, com sua imensa articulação tem como sua grande conquista forçar um abrandamento da repressão e indenização para meia dúzia de espancados pela polícia – mas, fora isso, não obteve qualquer resultado real (FRANK, 2012). No Egito, se podemos atribuir à internet a facilidade de divulgação das manifestações, o resultado é ainda mais catastrófico: milhões seguidamente nas ruas para levar ao poder exatamente o mesmo exército e forças econômicas que geraram a indignação em primeiro lugar.

Por outro lado, as organizações políticas de vínculo forte, chamadas de “tradicionais”, como igrejas enraizadas em suas comunidades; sindicatos organicos (e não os “pelegos” cooptados por patrões) ou mesmo entidades políticas pequenas mas coesas (associação de moradores, agremiação estudantil ou grupos de vítimas de um determinado crime), têm sua força pois estão diretamente ligadas a questões fundamentais na vida de seus membros, refletem questões sobre seu emprego (sindicato), sobre seu bairro (associação de moradores), sobre a cultura tradicional de uma região (igreja) e até sobre traumas comuns (organização de vítimas de um crime). Além disso, a atuação política destes três exemplos, independentes de sua vertente ideológica e por mais que tenham seus inúmeros problemas, são baseadas na disciplina, objetividade e num escopo concreto de ideias. A organização e disciplina das “Mães da Plaza de Mayo” na Argentina foi fundamental para o início da “revisão” dos anos de chumbo da ditadura argentina e prisão de seus responsáveis. A disciplina dos seguidores de Martin Luther King ou Malcolm X, muito antes de qualquer “rede social” foi fator preponderante na conquista dos direitos civis do movimento negro norte-americano.

Porém, se é verdade que as manifestações construídas via redes sociais estabelecem vínculos fracos e efêmeros sem consequencias políticas duradouras e abrangentes, é no entanto, inegável que uma vez combinadas a objetividade e coesão de idéias das “formas tradicionais” com o potencial difusor de ideias das redes sociais, a internet se transforma numa ferramenta poderosíssima de transformação social.

O melhor e mais recente exemplo disso foi o desenrolar da paralisação dos garis durante o carnaval do Rio de Janeiro em 2014. Apesar de ter sido realizada à revelia do sindicato da categoria, que se revelou totalmente descolado de sua base, seguiu o modelo tradicional de organização e ação sindical: greve, reivindicações claras e negociação a partir de lideranças estabelecidas pelos afetados e com alto poder de barganha. Criou-se pois, um sindicato orgânico dentro do próprio sindicato pelego. Por sua vez, a divulgação maciça nas redes sociais, somada ao momento certo da ação política, inflou grandemente o poder de negociação dos garis e foi fundamental para a vitória do movimento. E não seria difícil crer que, não fosse a divulgação em redes sociais, as conquistas do movimento teriam sido pífias como foram anteriormente e a escolta policial forçando os garis a trabalhar durante a greve, remontando capitães-do-mato de triste lembrança, teria passada desapercebida pelo grande público, não gerando o grande constrangimento que gerou.

Embora autores como Caldwell ou Thomas Frank tentem colocar nossos pés no chão e diminuir o entusiasmo pelas redes sociais, são notáveis os desconfortos políticos e constrangimentos públicos que as mesmas trazem para o poder estabelecido, seja para corporações que anteriormente tinham suas ações escondidas nos bastidores do poder e que agora ficam cada vez mais visíveis (o que, por exemplo, gera um crescente apelo para retirada de patrocínios privados a campanhas políticas), seja para governos, evidenciando a dificuldade do poder estabelecido de lidar com segredos de Estado e também com manifestações-relâmpago ou semi-espontâneas. Estamos falando da articulação e divulgação conseguida por ativistas como o Yes Men, constrangendo as relações de poder entre corporações e poder político, bem como, evidentemente, da sucessão interminável de “bombas jornalísticas” que a Wikileaks soltou para o público na internet, que precipitou inclusive a retirada de tropas oficiais do Iraque e transformou Julian Assange no mais importante prisioneiro político de nossa época. Em plena Inglaterra! Também estamos falando dos difusos “black blocs” que se reorganizam cada vez que suas comunidades virtuais são fechadas; e dos eventos de grande impacto social, ainda que pouco articulados politicamente, chamados de “rolezinhos” nos shoppings de elite pelo país, expondo mais uma vez o grotesco racismo e preconceito de classe de nossas elites dominantes e sua realidade virtual de consumo que sequer concebem que os “subalternos” possam ter a mesma lógica consumista que eles.

Enfim, se de fato as redes sociais constituem poderosa ferramenta de articulação de “subversivos”, de desmistificação da “palavra oficial” e do marketing corporativo, especialmente se trabalhada a partir de núcleos e estratégias tradicionais de ativismo. Se isso é verdade como parece, deveríamos ter uma visão otimista dessas mídias, como figuras importantes como Pierre Levy, Chris Anderson (autor de A Cauda Longa) e Clay Shirk (autor de Here Comes Everybody)?

Deveríamos mesmo compartilhar deste entusiasmo e nos deslumbrar com as maravilhas da tecnologia numa nova fase de justiça, transparência e organização social, sem antes nos perguntar: Afinal, o “trem virtual” também carrega tropas?

Neste sentido, é comum encontrarmos entusiastas da internet e das redes sociais que acreditam que a rede surge como uma ferramenta de emancipação do homem, através de sua capacidade de conexão entre as pessoas, pautas e idéias, e argumentam que a mesma está sendo “roubada” por governos autoritários, por corporações inescrupulosas e por oportunistas visando o lucro, destinando os evidentes benefícios da internet apenas para o controle e sustentação de governos espúrios e lucro privado de corporações, que a nobreza da internet está sendo vilipendiada pela vileza do capitalismo moderno.

As importantes revelações feitas pela Wikileaks, especialmente a partir do caso do cabo Chelsea Manning (Bradley Mannig) que deu publicidade aos enormes crimes de guerra do exército americano, assim como com as revelações do espião fugido Edward Snowden sobre a sistemática espionagem do governo americano sobre seus cidadãos e de outros países, revelando um aparato de controle e investigação jamais imaginado antes, podem dar reforço a essa argumentação de que “internet estar sendo roubada por governos controladores e corporações oportunistas”. Porém, devemos nos perguntar: seria isso mesmo?

É importante lembrar que a internet surge diretamente associada com o sistema de defesa dos EUA. Seja o SAGE, o ARPANET ou o ICN, é evidente a função militar original da rede. A integração que estas redes buscavam era a integração de núcleos de informação governamental, de laboratórios do departamento de defesa, do sistema de radar e balístico, enfim, tudo que pudesse melhorar a vigilância e a defesa nacional. Foram precisos pelo menos 40 anos restritas as primeiras redes militares e acadêmicas, para surgir a World Wide Web (sistema www) que a internet poderia ser classificada como propriamente “não-militar”.

Da mesma maneira que os grandes aviões bombardeiros deram origem aos aviões comerciais de passageiros, os sistemas de vigilância deram lugar a internet comercial pública. Porém, é importante frisar que, da mesma forma que os aviões bombardeiros continuam sendo fabricados, alguns custando dois bilhões de dólares a unidade, a internet continua como poderosíssima ferramenta militar, apesar de seu largo uso civil. Portanto, observando essa natureza das redes sociais para além das teorias de conspiração, que as colocam como obra direta do Information Awareness Office dos EUA e de seu filhote a NSA (Agência Nacional de Segurança), é factível crer que as mesmas “estão aptas a tornar a ordem social existente mais eficiente. Não são inimigos naturais do status quo” (Caldwell, op. cit). E, como os documentos de Edward Snowden comprovaram, independentemente da sua origem, as redes sociais (Google, Yahoo, Facebook, e etc) trabalham também a serviço de um sistema de vigilância e defesa do governo dos EUA. ”Sem aviso ou debate público, a administração [governamental] tem trabalhado na criação da maior base de dados e sistema computacional do mundo, com a habilidade de rastrear toda compra em cartão de crédito, reserva de viagens, tratamento médico e transações comuns de todo cidadão nos Estados Unidos (TURLEY, 2002). Investigando e controlando as ações de milhões de seus usuários, o maior sistema de observação já realizado faz a vigilância do Grande Irmão do livro 1984, de George Orwell, parecer uma peça obsoleta de museu.

Portanto, não temos que pensar que governos autoritários e paranóicos, associados com empresas inescrupulosas de informação e internet, estão roubando-a da população. A internet nunca deixou de ser um sistema de vigilância e segurança nacional, e tudo o que se faz nela não é apesar da vigilância, mas exatamente por causa dela. Assim, cabem às presentes e futuras organizações sociais que buscam um mundo mais justo, aperfeiçoar os históricos métodos de ação política com as modernas ferramentas online, renovando a prática, aperfeiçoando antigas e novas teorias, a fim de superar a enorme vigilância e opressão corporativa e estatal.

Leandro Dias

revisado por Carolina Dias
*Artigo originalmente publicado no Pragmatismo Político

REFERÊNCIAS

CALDWELL, Malcolm. A Revolução não será twittada. Observatório da Imprensa, n. 620, [on-line] 14/12/2010. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a-revolucao-nao-sera-tuitada. Acesso em 12 abr. 2014.

FRANK, Thomas. Quando a teoria torna a prática delirante. Le Monde Brasil, [on-line] 2012. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1330. Acesso em 13 abr. 2014.

HOBSBAWN, Eric. A Era das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.

LUXEMBURG, Rosa. The mass strike. Rosa Luxemburg Internet Archive, [on-line] 1999, Disponível em http://www.marxists.org/archive/luxemburg/1906/mass-strike/index.htm. Acesso em 13 abr. 2014.

WEBER, Eugen. Peasants into Frenchmen. Stanford, Stanford Press, 1976.

TURLEY, Jonathan. George Bush’s Big Brother. Los Angeles Times, [on-line] 17/11/2002. Disponível em: http://articles.latimes.com/2002/nov/17/opinion/oe-turley17. Acesso em 12 abr. 2014.

Será mesmo que só agora o fascismo acordou?

Revista Veja, 20 de Maio de 1970.

Como muitos leitores aqui do blog já puderam notar, o tema fascismo nos é bastante constante. Falamos dele frequentemente sob alguns prismas diferentes e em várias ocasiões, de seu ideário no Brasil. Escrevemos há exatos dois anos atrás, por ocasião dos “fantasmas” que foram bastante visíveis com a eleição de 2010, fantasmas que muitos parecem ter esquecido, que parte do ethos cultural da elite e classe média carrega um forte quesito proto-fascista e anti-republicano, filhos de um gigante que jamais dormiu, a ditadura; que por sua vez é filha de outro gigante que jamais morreu: o estado organizado sob uma lógica absolutista, coronelista, nobiliárquico e aristocrático. São temas recorrentes aqui o blog.

Neste sentido, com simples observação da história recente podemos afirmar com certa precisão que não há absolutamente nada de novo no dragão fascista mostrando a sua cara nas ruas da cidade. Façamos um pouquinho de força e lembremos dos homossexuais foram espancados por “carecas”; do esquerdista que foi espancado por proteger um mendigo em 2012; dos membros do movimento LGBT que foram abertamente hostilizados não só pelos “nazi” de sempre, mas por “gente de bem” em vários momentos ao longo dos últimos anos. Não tem muito tempo que os anarquistas do Rio não podiam sair sozinhos pelos arredores da Lapa ou Praça da Bandeira sem temer alguma violência de neonazistas de todo o tipo; não vimos seguidamente mendigos, negros e nordestinos espancados por filhinhos da classe média em várias outras capitais?

Esquecemos disso tudo?

Como dissemos semana passada, ainda na tarde da histórica manifestação de segunda-feira dia 17, aqui no Rio:

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários […]?

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Oras, a repressão à esquerda e a vários dos movimentos a ela ligados não é novidade alguma. Militantes de esquerda apanharem nas ruas e serem hostilizados por radicais nacionalistas é algo até bastante comum no cenário de confrontos políticos pelo país a fora. A criminalização dos movimentos sociais, atitudes históricas dos governos proto-fascistas, nos é alguma novidade?! Não foram há anos massacrados pela mídia, enquadrados como “quadrilha”, baderneiros e vândalos?! Em quantas capas da grande mídia foi o MST chamado de terrorista? Quantas vezes o PSTU ou o PCB foram achincalhados pelos “pensadores” da extrema direita? Quantas vezes a repressão forte da polícia foi justificada por razões puramente ideológicas? O caso recente da USP foi um dos mais marcantes, mas poderia ter sido qualquer outra greve de professores “aparelhada pelos partidos de esquerda”. Nem mesmo a esquerda light petista foi poupada, acusada de fazer “revolução gramsciana” ou qualquer semelhante impropério encontrado em blogs da extrema direita da grande mídia como Reinaldo Azevedo. Não foi o Jabor até “ontem” a vincular o Movimento Passe Livre ao PCC?!

Ninguém lembra da Opus Dei, a mais retrógrada das forças dentro da Igreja Católica, e sua ligação com membros dos partidos de direita, especialmente o PSDB de Alckmin, o Gauleiter Paulista??! Ou das ligações da TFP e neointegralismo com a campanha do Serra de 2010?! Aliás, de que serviu a campanha do Serra em 2010 se não mostrar claramente que a extrema-direita estava bem viva, ativa e “tentaculosa”?

Esquecemos disso tudo? Ou isso não foi fascista o suficiente?

O que temos de lembrar portanto é que não é absolutamente novidade nenhuma a repressão e hostilização vinda da extrema direita. Ela não está maior do que estava uns anos atrás, só porque agora alguns a enxergam mais nitidamente quer dizer que ela esteja maior ou mais influente.

A única novidade é a confiança aparente que a extrema direita ganhou num momento de claro vácuo de poder público e fragmentação da esquerda diante de tantas pautas trazidas para o debate a medida que o movimento cresceu. Não houve qualquer hostilização a esquerda que não existisse antes, até o momento que toda a ordem foi temporariamente ao chão. Da mesma forma que não houve qualquer onda significativa de saques e violência disruptiva antes do desmoronamento temporário da ordem estabelecida. Isso é bem nítido.

Há uma boa parcela dos militares anti-esquerda?! Sempre houve. Esse núcleo já pedia a volta da ditadura? Sempre pediram. Isso não é novidade alguma. Bolsonaro ainda ganha votos suficiente para se eleger em TODA eleição. Feliciano não comprou seu cargo parlamentar. Alckmin não comanda seu feudo de violência sem agradar uma boa parte do seu público. Pinheirinho foi “anteontem”.

E nem é preciso entrar muito no mérito da relação das polícias militares com os movimentos de esquerda que já sabemos como sempre foi o seu papel. Se ela fez um “sentasso” com os manifestantes  de SP não deve ser lido se não como estratégia de um já queimado Alckmin. Quando a poeira baixar, vai ser difícil esquecer que sua repressão foi a centelha a inflamar o resto do país.

Portanto, a presença da extrema-direita como agente político é tão óbvio em nossa sociedade, que debater sua “novidade” parece ser chover no molhado e de um derrotismo, isso sim, preocupante.

Então, o que temos de refletir não é em como lidar com esta onda, não é o temor de um golpe de extrema direita. O golpe não virá porque o dinheiro está no “extremo centro”, não precisa dar golpe algum da extrema direita para continuar no poder. Nem mesmo o Partido Integralista, com tamanho proporcional maior que o PMDB hoje, conseguiu dar um golpe em 1937. A onda de extrema-direita já está aí há tempos e a esquerda tem crescido apesar dela.

O que temos de observar é a real novidade que o movimento das ruas trás. Algumas boas, outras nem tanto.

Quem viu as manifestações crescerem, do seu extremo foco nas passagens e mobilidade urbana ao aparente vazio do  “twitter analógico” que se tornou na última quinta dia 20, deveria ter observado dentr
o do festival de pautas aleatórias dos “apartidários”, “apolíticos” e mesmo dos “anti-partidários” algumas “bandeiras” que sempre foram historicamente ligadas à esquerda.

Primeiramente em termos de contexto, me refiro à revolta popular ao constatar sua real “falta de representatividade” no interior das democracias estáveis ocidentais,  dos Indignados espanhóis aos acampamentos do Occupy Wall Street nos EUA, passando agora, é lógico, pelo Brasil. Esse tema tem sido debatido por tantos pensadores que entrar nesta questão aqui seria um exercício longo e desnecessário (por enquanto) para nosso argumento. O fato evidente é que observamos nas ruas que boa parte da população de fato não se vê representada no parlamento democrático-liberal. Não ficou comum dizer “Fulano não me representa”?

E em termos práticos, a invasão das casas representativas, de Brasília ao Rio, não foi amorfa, disruptiva e de objetivos pouco claros para todos?

Se não podemos definir o que exatamente elas defendem, podemos no entanto ter certeza que a única coisa significativa que esse movimento representa é o sentimento nítido de “falta de representatividade” no interior das democracias liberais.

Por mais que muitos, especialmente no fronte disruptivo e caótico, não soubessem o que queriam, a maioria sabia exatamente o que não queria: o jogo político atual representado na câmara.

Oras, não é dos mais antigos esforços da esquerda o de afirmar que o parlamento na democracia liberal não passa de uma bancada de negócios das grandes corporações? Não afirmamos há quase 150 anos, que nada ali é para representar a população de fato, mas sim os lobbies corporativos dos aristocratas do momento? Aqui no blog dedicamos alguns posts ao tema, primeiro em “O Mercado Eleitoral e a Democracia Liberal” e mais recentemente em “Capitalismo e Democracia“.

Assim, no oceano de cartazes inúteis que mais parecem slogans ufanistas vazios, particularistas e improdutivos, como se ao invés de saírem do facebook, as pessoas tivessem o levado para as ruas [nota], temos que observar o mar de bandeiras que foram comuns à esquerda por décadas.

Não foram poucos os cartazes e opiniões não ligadas à partidos e a movimentos organizados que, em alternativa real “a tudo que está aí”, mencionavam idéias como a democracia direta, a democracia plebiscitária, a gestão participativa. Em entrevistas e opiniões, mesmo dos grandes jornais, blogs e nas redes sociais, não foram poucas as vezes que se observou um evidente clamor por real participação da população na decisão das prioridades econômicas do país, real participação no processo decisório, passando por cima de “políticos corruptos” para atender reais demandas da população. Não foi praticamente em uníssono o coro contra Sérgio Cabral justamente pelo sua evidente ligação com empresários do ramo de transportes?!

Não são estas algumas das bandeiras históricas de  boa parte da esquerda?!

Se de fato havia uma série de pautas da esquerda entre os “apolíticos” e os não ligados à partidos, muitos que, assim como parte da esquerda, se quer perceberam isso, não deveríamos estar desapontados com a derrota que foi o aparente “esvaziamento de nossas pautas”, com a “revolta dos coxinhas”, nem mesmo alarmados com a violência visível dos fascistas e suas opiniões aqui e acolá.  Isso sempre esteve presente, desde a mídia nos generalizando como vândalos durante greves, mesmo quando fascistas, legalizados ou não, nos reprimem com violência.

Até o momento, para quem não tivesse certo discernimento ideológico, a violência fascista, seja dos brutamontes que atacaram manifestantes de esquerda, seja da Polícia Militar em várias cidades do país, era “politicamente invisível” e “ideologicamente neutra”. Não era se quer cogitado quais seus interesses e idéias. Depois de atacar o movimento negro, o movimento homossexual, a esquerda radical – inclusive no interior do próprio PT – que estava lá desde o início de tudo, os fascistas mostraram claramente a todos a sua vilania, muitos que não faziam estão parando e refletindo. Com a poeira baixando, a recriminação à ambas truculências anti-democráticas está nítida em vários portais, progressistas ou não, até nas páginas do Globo. É justamente agora, quando o fascismo está nítido para vários setores progressistas da sociedade, que a esquerda, como natural e histórico inimigo deles, pode se fazer mais forte. Não deixaremos as pessoas, apolíticas ou não, esquecerem quem sempre esteve contra as forças mais reacionárias e violentas da sociedade.

Nas sabias palavras do blog Passa Palavra:

“Cremos que o momento agora é de concentrar nossos esforços […] onde os “coxinhas” não estão, onde as pautas populares encontram sua base real (e que por isso está sendo sistematicamente minimizado nos grandes meios de comunicação ou apresentado apenas como distúrbio social violento). Mas é claro que essa responsabilidade já não cabe exclusivamente ao MPL, e sim a um conjunto de forças da esquerda; sem desprezar, é claro, os muitos obstáculos e conservadorismo que decorrem dessa posição.”

 

Por Leandro Dias

[nota] – adicionado dia 26/06 ao texto, após revisão.

Por Stanley! Ou do Anti-comunismo rasteiro

Lulo-stalinismo nazista.

Lulo-stalinismo nazista.

O deputado evangélico Marco Feliciano, entre outras tantas pérolas que já conhecemos, proferiu em resposta aos que lhe queriam tirar da Comissão de Direitos Humanos, as seguintes palavras: “São homens e mulheres que usam dos mesmos mecanismos que Stanley usou no seu comunismo nazista. Usam da mesma linguagem de Hitler”.

Feliciano procurava associar a reação das pessoas ao seu discurso homofóbico e retrógrado com o que chamou de “comunismo nazista”.

O deputado considera que respostas hostis ao seu descarado preconceito e ignorância  são como censura ou pior, “repressão nazista”, “autoritária”. É como se repudiar o preconceito fosse algo preconceituoso, numa corruptela pós-moderna em algo como “ser anti-racista é censura e ataca o meu direito de ser preconceituoso”, considerando que a repúdia a um discurso de ódio não passa na verdade de “um ataque à liberdade”, transformando algoz em vítima e vítima em algoz, onde qualquer resistência é usada como justificativa para opressão: “Veja só como reagem, sempre falei que eram hostis!”

Essa “Reversal Pós-Moderna” – não é sua bota que pisa na minha cara, mas sua cara que me impede de pisar no chão” – é tão rasteira que dignificar um longo texto a esta perspectiva seria um exercício inútil e, portanto, vamos nos focar no final de sua pérola. Assim, nosso trabalho aqui se dedicará ao que tem de profundo em sua declaração, especificamente na invenção de um “comunismo nazista” por parte de Feliciano. Nos dedicaremos ao anti-esquerdismo rasteiro contido neste tipo de argumentação.

Ignorando  que ‘Stanley’ é certamente um erro aceitável (!) de pronúncia do deputado, Josef Stalin foi um algoz do nazismo, responsável direto pela derrota de Hitler na 2ª Grande Guerra. Entre vários importantes historiadores, das mais variadas vertentes, de John Lucaks a Eric Hobsbawn por exemplo, e até mesmo o New York Times queainda no período Mccarthista ressaltou a importância de Stalin na Segunda Guerra no obituário do líder soviético. E afinal, por mais que Hollywood tenha nos dado infinitos filmes sobre a importância norte-americana e poucos sobre os russos na derrota nazista, não foi uma bandeira soviética a flamular sobre o Reichstag, centro de governo de Hitler ao final da 2ª Guerra Mundial, na famosa foto de Yevgheny Khaldei?

No entanto, essa aproximação que Feliciano faz de Hitler e Stalin e, por extensão, entre nazismo e comunismo, não é privilégio de fanáticos religiosos com confuso estudo histórico. Há sérios intelectuais dispostos a esta aproximação e não é raro ver esta associação em discursos políticos, especialmente durante a Guerra Fria.

A esquerda marxista como Rosa Luxemburgo e Anton Pannekoek e pouco depois, Paul Mattick, denunciavam a aproximação do modelo de Josef Stalin com o fascismo de Mussolini, muito antes de Hitler chegar ao poder. Chamavam de “fascismo vermelho”, por caracterizarem a URSS fundamentalmente como “capitalismo de Estado sob domínio do Partido”, termo aliás, que o próprio Lenin utilizou (1) e que para ele era um “retrocesso” necessário para consolidação do país, “um passo atrás para dar dois a frente”. Onde o Estado absorve todo o excedente econômico produzido pelos trabalhadores e não os reverte para os mesmos, mas para o uso das necessidades do próprio Estado, sendo uma imensa burguesia monopolista. Neste sentido, várias décadas depois, observa-se uma continuidade no Partido Comunista Chinês, que insiste seguidamente em reafirmar seu compromisso “pragmático” com o comunismo, num país onde as corporações capitalistas nacionais e internacionais crescem de maneira descomunal e o capitalismo é cada vez mais dirigido pelo Estado em associação com as mesmas, numa situação econômica em grande escala, relativamente similar com a relação de Mussolini e Hitler com os industriais de seus países.

É quando partimos para o outro lado dos que associam marxismo com nazismo, que se faz necessário identificar as críticas e argumentos são de fato pertinentes ao tema, das argumentações que na verdade são apenas máscaras veladas de anticomunismo disfarçado em retórica elaborada. É assim que nos aparecem intelectuais radicais do capitalismo liberal como Hayek, Friedman e Mises, que muitas vezes parecem odiar a priori o socialismo e daí buscam constantemente argumentos para justificar seu repúdio.

Para eles marxismo e nazismo são versões da mesma coisa e vão buscar todo o tipo de exemplo para comprovar sua tese, porém, no geral, foi Mises quem expressou melhor essa associação, chamando genericamente de “Intervencionismo”, toda a ação Estatal na economia. Nas palavras dele, publicada em emblemático junho de 1929 (3 meses antes da esmagadora crise do livre mercado):

” O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (von Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Assim, com essa simplificação genérica, Mises consegue colocar praticamente todo tipo de atividade econômica estatal como ‘intervencionismo’, desde as do tipo fascista até o intervencionismo keynesiano e, é lógico, o marxismo.

Um dos primeiros fatores que Mises e todos que acreditam nessas premissas, é ignorar o que a realidade inúmeras vezes escancarou (e escancara) em nossa cara:

Para o grande empresário, especialmente numa crise, se associar ao Estado é a atitude mais lucrativa possível (2) e na história fizeram isso seguidas vezes, tantas vezes que foi preciso reformar o Estado para que se adaptasse às suas necessidades. Não foram as chamadas “revoluções burguesas” a consolidação do poder político de quem antes só tinha poder econômico (burguesia)?

O Motivo do Lucro é tão importante que o capitalista descobriu que se tomar o controle do Estado lhe dará segurança, lucros garantidos e ainda poder de coerção contra os trabalhadores e a concorrência (especialmente internacional). É ignorar que ao se associarem com o Estado, imensas quantidades de dinheiro público passaram  a bolsos privados de empresas como Krupp, IBM, Volkswagen, Ford Motors, Deutsche Bank, Rockefeller Chase Bank, entre várias outras, só para citar os nazistas nos anos 1930 e 40. Este é um tema que já levantei neste post.

A negação desta evidência para exaltar um idílico mercado livre perfeito, dada a abundância de documentações e análises econômicas e históricas que vão exatamente contra esse argumento, não pode parecer se não o mais rasteiro cinismo ou falsificação da realidade para adequar a tese criada a priori: “estado = socialismo = ruim”.

Mas Mises, o mais radical dos gurus liberais, não deixa o seu cinismo apenas numa “inocente” formação teórica e negação da realidade. Ele mesmo trabalhou para o governo fascista austríaco de Engelbert Adolphus nos anos 30 e não só isso, ainda em 1927, admite que o fascismo foi uma boa solução para o capitalismo, uma solução contingencial, mas boa, como podemos ver aqui (tradução minha, nota 3):

“Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miravam na estabilização de ditaduras estão cheios de boas intenções e suas intervenções, no momento, salvaram a civilização Européia. O mérito que portanto o fascismo ganhou para si, viverá eternamente na história. E apesar de ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode prometer sucesso continuado. Fascismo foi uma mudança de emergência. Vê-lo como algo a mais seria um erro fatal” (Liberalismo, o Argumento do Fascismo).

Assim, fica altamente compreensível o apoio posterior dos discípulos de Mises, Hayek e Friedman, ao neofascista ditador chileno Augusto Pinochet, carniceiro com mais de 30 mil mortos em sua conta, usado como plataforma de experimentação do neoliberalismo. Hayek admite:

“Como instituições de longo período, eu sou totalmente contra ditaduras. Mas ditaduras podem ser um sistema necessário por um período transitório […]. Pessoalmente eu prefiro um ditador liberal do que um governo democrático ausente de liberalismo. Minha impressão pessoal – e isso é válido para a América do Sul – é que o Chile, por exemplo, vai observar uma transição de uma ditadura governamental para um governo liberal” (nota 12).

É o mesmo cinismo deslavado que vemos nos dias de hoje, que continua a defender “o estado mínimo”, “os perigos da intervenção da economia” e um suposto “capitalismo livre do Estado” mesmo depois da colossal intervenção estatal de 700 bilhões de dólares para salvar os bancos ou para salvar a Ford Motors nos EUA. Isso numa crise econômica essencialmente causada pela falta de regulamentação – isto é, excesso de liberdade – do mercado norte-americano, como explicou muito bem David Harvey em O Enigma do Capital.

O Estado forte é ruim, mas de tempos em tempos, para solucionar uma crise ou para usar a repressão violenta contra a população, extirpando o “socialismo” ou “marxismo cultural” dela e então favorecer o empresariado soberano numa especie de “livre mercado sem democracia”, ele é ótimo e necessário. “Viverá eternamente na história”.

A desonestidade intelectual não tem limites.

Qualquer análise objetiva da realidade demonstra o quão forçado é associar nazismo e marxismo. Basta lembrar que, além dos conflitos físicos frequentes entre nazistas e comunistas durante todo os anos 1910 e 20 (4) , o objetivo do nazismo em relação ao marxismo já estava claro desde 1925, ano de publicação do Mein Kampf (como vimos no nosso último post) ou até antes, em 1922, quando o fascismo já estava no poder na Itália. É difícil portanto, não pensar que essa associação parte de um ódio anti-comunista a priori, traduzido numa forma “elaborada” do Reductio ad Hitlerum (5), e o principal argumento-slogan válido para desvalorizar o comunismo é, no fundo, associar tudo o que já o envolveu, ao nazismo. Onde nazista é a palavra-chave universal para a maldade, na simples dicotomia que tentam trabalhar hoje em dia em quase todos os temas.

Stalin era ruim não pelas suas inúmeras características brutais e intransigentes que claramente destoavam de qualquer preceito marxista, onde apresentava muito mais as características de um nacionalista radical, imperialista e autocrata, inserido assim num ethos político russo, longe de um “internacionalista, iluminista defensor da democracia”, como poderíamos classificar Karl Marx. Era ruim porque era socialista.

Stalin era ruim não por expurgar e prender importantes comunistas soviéticos que poderiam lhe contestar a liderança, chegando a mais de 300 mil presos políticos, ou por ter executado boa parte da cúpula bolchevique que participou da revolução de 1917  (6), podendo-se dizer que apenas Hitler matou mais comunistas do que Stalin. Não, não por isso. Era ruim porque fez isso através de uma ideologia análoga ao nazismo.

Desta forma, até decisões econômicas catastróficas são lidas então sob a perspectiva nazista. A coletivização rápida e forçada das terras feudais da Ucrânia, alterando o panorama e distribuição de alimentos em toda URSS, provocando 4 a 5 milhões de mortes de fome em 3 anos é lida como genocídio planejado análogo ao extermínio industrial de judeus que inclusive usou maquinário da corporação estadunidense IBM. É irrelevante notar que se fôssemos condenar governos por matar de fome sua população por incompetência e negligência,  teríamos de aumentar a lista para centenas de tiranos ao longo de todo o século XIX e XX. A fome na Irlanda matou 15% da população do país por volta de 1850 e não vemos a Rainha Vitória da Inglaterra figurar na lista de genocidas ao lado de Stalin. Ainda mais, se formos com o ex-relator da ONU, Jean Ziegler por exemplo, poderemos considerar que  uma criança morta de fome é, na verdade, assassinada e restará pouquíssimos países não-assassinos de crianças no mundo e curiosamente, Cuba estaria entre eles.

Josef Stalin portanto, não é analisado e criticado pelo que de fato fez de ruim e tirânico, enquanto líder de um país em situação de guerra desde no nascimento, mas porque o que ele fez não passou de uma versão russa do nazismo hitlerista, “exemplos evidentes” de como o estatismo é vil e repugnante. Ele era ruim porque era como Hitler, esvaziando todo o conteúdo fundamental para entender não só o stalinismo, mas o fascismo e mesmo o liberalismo. O seu “comunismo nazista” é um redução ad hominem para condená-lo, sendo irrelevante que na realidade, sua relação com os nazistas e por extensão, do marxismo com o fascismo, fosse sempre de choque e conflito.

Não basta que o Mein Kampf, livro de Hitler, tenha páginas e páginas dedicadas ao seu ódio absoluto ao marxismo, bolchevismo, assembleísmo, à Revolução Comunista da Baviera e à União Soviética. Nem bastam inúmeros discursos de toda a intelligenzia nazista abominando o marxismo, a URSS e os bolcheviques (7). Não bastam os 20 anos seguidos que os soviéticos fizeram propaganda anti-nazista e os nazistas propagandas anti-soviéticas, nas mais variadas formas e moldes, inclusive durante a breve Paz Armada que tiveram.

Não basta Hitler ter dito para os grandes capitalistas (não-judeus) de seu país que não iria mexer nos negócios da Krupp ou de qualquer outra grande empresa capitalista alemã e que seu objetivo principal era acabar com o marxismo, algo, obviamente, impensável para um marxista (8). Não bastam as inúmeras corporações capitalistas que apoiaram o regime nazista e abominavam os soviéticos. Não basta Hitler ter acusado outros nazistas de serem bolcheviques em acalorados debates e usar isso de motivo para perseguições, como o caso do nazista Otto Strasser (9).

Não bastam as relações comerciais entre os nazistas e os soviéticos terem se deteriorado consideravelmente por pura vontade ideológica e não econômica. Não bastam tropas soviéticas terem lutado contra tropas nazi-fascistas na Guerra Civil Espanhola em 1936, sendo a URSS a única nação a enviar oficialmente tropas contra o fascismo espanhol e que este era apoiado abertamente pelos nazistas.

Ignorando toda a rivalidade teórica e belicosa entre nazismo e comunismo, alguns defensores desta associação, citam o pacto de não-agressão entre Hitler e Stalin de 1939 como prova irrefutável da aliança entre seus países e ideologias. O mais estúpido deste argumento é o mais óbvio: um país só faz pacto de não-agressão com inimigos, jamais com aliados. Imaginem se os EUA iriam ter um pacto de não-agressão com a Inglaterra ou a França durante os anos 30. O acordo Molotov-Ribbentrop é justamente prova cabal de que os países e os líderes eram inimigos declarados que por conveniência e oportunismo resolveram rapinar um inimigo histórico comum (a Polônia) sem a necessidade de conflito (10). Não é muito diferente dos inúmeros acordos políticos e comerciais entre EUA e URSS ao longo de toda a Guerra Fria.

É preciso no entanto colocar que, para além de todo o cinismo que uma associação entre as duas ideologias carrega, podemos sim dizer que Hitler e Stalin tinham suas semelhanças, seja na perseguição de rivais ao seu poder, seja na relação com a Polônia e até mesmo no culto a personalidade, onde Stalin claramente entrava em choque com Marx (11). Mas estas semelhanças estavam muito longe de ser simpatias reais ou qualquer relação teórica profunda, por isso que em analise teórica acabam na imposição forçada, simplista e ahistórica de Von Mises onde marxismo e keynesianismo pregam um Estado interventor, logo podem ser associados ao intervencionismo do nazi-fascismo.

E ainda, da mesma forma que podemos atribuir afinidades entre Stalin e Hitler, podemos também, traçar entre grande parte dos anti-comunistas ocidentais com Hitler, Mussolini e muitos outros fascistas. Von Mises na sua apologia ao fascismo não me deixa mentir. Friedman e os Chicago Boys do fascista chileno Pinochet também não. Até os franceses saudando os nazistas com bandeirinhas sob a liderança de Phillipe Petaín durante a conquista nazista, são reflexo desta simpatia ocidental pelo nazi-fascismo. Ora, não foi em visita aos EUA o acidente do Zepelim nazista Hindeburg ? Henry Ford, Rockefeller e muitos industriais norte-americanos não tiveram importantes relações com o regime de Hitler? O apaziguamento covarde de Neville Chamberllain não usava um temor de nova guerra como protagonista de um anti-comunismo histérico do Ocidente?

Assim, ao observar o discurso anti-comunista em gente como Feliciano ou Bolsonaro e tantos outros de nossa vida política, temos que perceber, no seio de opiniões aparentemente infundadas, mas comuns na mentalidade ocidental, aonde descansa teoricamente e a quem serve este tipo de argumentação. O fascismo é o capitalismo aplicado sem o cinismo liberal e deles o marxismo é inimigo declarado.

Leandro Dias

*Colaborou: André Brito

NOTAS

1 – Ver BERTELLI, Antonio Roberto, “Capitalismo de Estado e Socialismo”, páginas 67 a 80.

2 – Para Marx, o Estado moderno é, se não, a consolidação do poder da propriedade privada. Ver verbete Estado da enciclopédia marxista.

3 – Esse texto poderia ser resumido assim: “fascismo é ruim porque é violento, intervencionista e etc, mas na contingência do momento, para bater e proteger do comunismo, é bom e deve entrar para história por isso”.

4 – Rosa Luxemburgo por exemplo, foi morta pela polícia da Baviera, que na época tinha forte associação com os grupos paramilitares de extrema direita, genericamente chamados de Freikorps.

5 – A prática ad hominem não é rara nesta escola.

6 – Até mesmo um stalinista admite isso, Ludo Martens em seu livro “Stalin, um novo Olhar”.

7 – Ver nosso último post  e ver também “Landmark Speeches of National Socialism”, por Randall Bytwerk (organizador).

8 – Vale ler o grande número de documentos oficiais, discursos e livros nazistas compilados por Jeremy Noakes, no seu excelente “Documents on Nazism” (1919-1945), especialmente a sessão Hitler e os Industriais.

9 -Ver “Hitler und Ich” (Hitler e Eu), livro de Otto Strasser, político e dos primeiros importantes membros do Partido Nazista, expulso do partido em 1930. Lembrem também que em 1934 a “Noite das Facas Longas” foi justamente um “pogron” para exterminar os elementos esquerdistas e socialistas, muitas vezes chamados de “bolcheviques” pelos seus algozes.

10 – Ver citação “Página 488” do nosso texto último post sobre Hitler.

11 – Marx diz em carta a um amigo (tradução minha): “Nenhum de nós se importa com a popularidade. A prova disso é por exemplo, que devido à aversão a qualquer culto à personalidade, eu nunca permiti que as inúmeras expressões de reconhecimento que eu recebi durante a existência da Internacional alcançassem o campo da publicidade, eu nunca as respondi, exceto ocasionalmente quando fui refutá-las. Quando Engels e eu entramos na organização secreta “Sociedade Comunista”, exigimos a condição de que tudo que encorajasse credos supersticiosos na autoridade deveriam ser removidos dos estatutos.” (Letter to W. Blos, IN: Wikiquote). Essa colocação é diametralmente oposta ao “princípio da autoridade” dos nazistas.

12 – Citação adicionada na revisão deste texto, 25-5-2013. Ver aqui ; aqui e ver GANDIN, Greg, Empire’s Workshop, Henry Holt Company, EUA, 2006.

O “marxismo” citado no Mein Kampf de Adolf Hitler.

 

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Resolvi reunir aqui uma lista enorme de citações de Hitler sobre o marxismo, comunismo, bolchevismo e URSS. É um exercício acadêmico, como fonte de referências futuras. Este texto servirá de apêndice de um outro texto que estou escrevendo. É uma compilação de afirmações ipsis literis de Adolf Hitler a cerca do tema.

Procurei citar os parágrafos e frases importantes para a compreensão da relação (ou falta dela) de Hitler com o marxismo, e, como o autor mesmo fazia, não vai ser difícil observar o evidente antissemitismo associado com o tema. Por incrível que pareça, não estão todas as citações de Hitler sobre o tema em seu livro de 500 e poucas páginas.

O conteúdo é muitas vezes chocante ou contraditório, mas sempre que possível procurei citar o contexto, daí a grande extensão deste texto. Inicialmente começarei com a palavra escrita do próprio autor, retirada de seu livro, o Mein Kampf, na tradução de Klaus Von Puschen, publicada pela editora Centauro em 2001.

Assim, aqui vai:

Página 22: “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”

Página 43: “Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos  o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo”

Página 51:  No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”

Página 53:”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.

Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”

Página 63: “A democracia do ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível. Ela oferece um terreno propício, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua expressão externa – o parlamentarismo – apareceu como um monstrengo de “lama e de fogo”, no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. ”

Página 116: “Pela segunda vez na minha vida, analisei profundamente essa doutrina de destruição [o marxismo] – desta vez, porém, não mais guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela observação dos acontecimentos gerais da vida política.  […]

Comecei a considerar, pela primeira vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência mundial. Estudei os móveis, as lutas e os sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também estudo profundo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Página 116: “No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao meu pequeno círculo de meus conhecidos, bem como a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época – o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos – tendo-se em vista a intenção do marxismo – tinham de ser um dia terríveis.

Página 116: “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”

Página 127: “O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.’

[…]

Tinha chegado agora o momento oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo. Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem considerações para com as lamentações que provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as bênçãos fraternais de bombas americanas. Teria sido dever de um governo cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os operários alemães se tinham integrado de novo a Pátria.

“Que se deveria fazer? Por os dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação. Ter-se-ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria de ser chamado à razão pela força convincente das baionetas.”

Página 160: “Foi assim que os dogmas de Gottfried Feder me incitaram a me ocupar de maneira decidida com esses assuntos que eu pouco conhecia. Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital’ – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.”

Página 176: “Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.”

Página 181: “Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores os judeus”

Página 192: O bolchevismo da arte é a única forma cultural possível da exteriorização do marxismo.

Quando essa coisa estranha aparece, a arte dos Estados bolchevizados só pode contar com produtos doentios de loucos ou degenerados, que desde o século passado, conhecemos sob forma de dadaísmo e cubismo, como arte oficialmente reconhecida e admirada.”

Página 236: “O processo aí emprego pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

[…]

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e loucura, mas tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores. Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que pode se dar a esse aborto de um cérebro criminoso a denominação de “doutrina’. ”

Página 237: “De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas mas, em verdade, constituem um único bloco: o movimento dos políticos e dos sindicatos.”

Página 243:  “Mesmo as eleições de representantes ao “Reichstag” anunciavam, com o seu acréscimo patente de votos marxistas, o desmoronamento  interno cada vez mais próximo e a todos manifesto. Todos os sucessos dos denominados partidos políticos não tinham mais valor, não só por não poderem fazer parar a ascensão da onda marxista, mesmo nas chamadas vitórias eleitorais burguesas, como também pelo fato de já trazerem dentro de si os fermentos da decomposição. Inconscientemente, o mundo burguês já se achava contaminado pelo veneno mortal do marxismo”.

Página 287: “E se uma parte do marxismo, por vezes, tenta, com muita prudência, aparentar indissolúvel união com os princípios democráticos, convém não esquecer, que esses senhores, nas horas críticas, não deram a menor importância a uma decisão por maioria, à maneira democrática ocidental. Isso foi quando os parlamentares burgueses viam a segurança do Reich garantida pela monumental parvoíce de uma grande maioria, enquanto o marxismo com uma multidão de vagabundos, desertores, pulhas partidários e literatos judeus, em pouco tempo, arrebatava o poder para si, aplicando, assim, ruidosa bofetada à democracia. Por isso, só ao espírito crédulo dos magros parlamentares da burguesia democrática cabe supor que, agora ou no futuro, os interessados pela universal peste marxistíca e seus defensores possam ser banidos com as fórmulas de exorcismo do parlamentarismo ocidental”.

Página 288: “Mas, numa época em que uma parte, aparelhada com todas as armas de uma nova doutrina [o marxismo], embora mil vezes criminosa,  se prepara para o ataque a uma ordem existente, a outra parte só pode resistir-lhe sempre se adotar fórmulas de uma nova fé política; em nosso caso, se trocar a senha de uma defesa fraca e covarde pelo grito de guerra de um ataque animoso e brutal.”

Página 291: “À nossa concepção política usual repousa geralmente sobre a idéia de que ao Estado, em si, se pode atribuir força criadora e cultural, mas que ele nada tem a ver com a questão racial; e que ele é, antes de mais nada, um produto das necessidades econômicas ou, no melhor dos casos, o resultante natural da competição política pelo poder. Essa concepção fundamental, em seu lógico e consequente desenvolvimento progressivo, leva não só ao desconhecimento das forças primordiais da raça como à desvalorização do indivíduo. Porque a negação da diferença entre as raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver a relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. A aceitação da identidade das raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver em relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. Por isso, o marxismo internacional é simplesmente  a versão aceita pelo judeu Karl Marx de idéias e conceitos já há muito existentes de fato sob a forma de aceitação de uma determinada fé política. Sem o alicerce de uma semelhante intoxicação geral já existente, jamais teria sido possível o espantoso êxito político dessa doutrina. Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um feiticeiro, com ela aniquilar rapidamente a vida das nações livres da terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça.

Página 291: “O mundo burguês é marxistísco, mas acredita na possibilidade de domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus”.

Página 335: ” Se o programa social do novo movimento consistisse em suprimir a personalidade e por em seu lugar a autoridade das massas, o Nacional-Socialismo já ao nascer, estaria contaminado pelo veneno do marxismo, como é o caso dos partidos burgueses.”

Página 342: “O que nossa burguesia sempre olhou com indiferença, isto é, a verdade segundo a qual ao marxismo só se ligam as classes iletradas era, na realidade, a condição sine qua non para o êxito do mesmo. Enquanto os partidos burgueses, na sua intelectualidade superficial, nada mais representavam do que um bando incapaz e indisciplinado, o marxismo, com um material humano intelectualmente inferior, formou um exército de soldados partidários que obedeciam tão cegamente aos seus dirigentes judeus como outrora aos seus oficiais alemães.”

Página 353: “A força que deu ao marxismo sua espantosa influência sobre as massas não foi a obra intelectual preparada pelos judeus, mas sim a formidável propaganda oral que inundou a nação, acabando pela dominação das camadas populares. De cem mil proletários alemães não se tiram talvez cem que conheçam a obra de Marx, que era estudada, mil vezes mais, pelos intelectuais, especialmente os judeus, do que por genuínos adeptos do movimento nas classes inferiores.

Esse livro não foi escrito para o povo, mas exclusivamente para os líderes intelectuais da máquina que os judeus montaram para a conquista do mundo. ”

Página 361: Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias  tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos  cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Página 368-369: “É a essa idéia que a bandeira preta, branca e vermelha, do antigo Reich, deve a sua ressurreição como emblema dos partidos nacionais-burgueses.

É evidente que o símbolo de uma crise que podia ser vencida pelo marxismo, em circunstâncias pouco honrosas, pouco se presta a servir de emblema sob o qual esse mesmo marxismo tem que ser novamente aniquilado. Por mais santas e caras que possam ser essas antigas e belíssimas cores aos olhos de todo alemão bem intencionado, que tenha combatido na Guerra e assistido ao sacrifício de tantos compatriotas, debaixo dessas cores, não pode essa bandeira simbolizar uma luta no futuro.”

Página 384-385: “Ninguém deve esquecer que tudo que há de verdadeiramente grande neste mundo não foi jamais alcançado pelas lutas de ligas, mas representa o triunfo de um vencedor único. O êxito de coalizões já traz na sua origem o germe da corrupção futura. Na realidade só se concebem grandes revoluções suscetíveis de causar verdadeiras mutações de ordem espiritual, quando arrebentam sob a forma de combates titânicos  de elementos isolados, nunca porém, como empreendimentos de combinação de grupos.”

Página 446: “Não o sindicato em si é que é “lutador de classe’, mas o marxismo é que o fez dele um instrumento para a luta de classes. Ele criou as armas econômicas dos Estados nacionais livres, independentes, para aniquilamento da sua indústria nacional e do seu comércio nacional e por consequência para a escravização de povos livres ao serviço do judaísmo financeiro universal super-estatal.”

Página 449: “Quem […] tivesse realmente arruinado sindicatos marxistas a fim de, em lugar dessa instituição da luta de classes aniquiladora, colocar a idéia do sindicato nacional-socialista e contribuir para a sua vitória, esse pertence ao número dos verdadeiros grandes homens de nosso povo e seu busto deverá, um dia, ser dedicado à posteridade, no Walhalla de Regensburg”.

Página 450: Utilidade real para o movimento [sindical], como para nosso povo em geral […] só pode surgir de um movimento sindical nacional-socialista, se esse já estiver tão fortemente embebido das nossas idéias nacional-socialistas que ele não corra mais perigo de seguir as pegadas marxistas. Pois um sindicato nacional-socialista, que visse como sua missão apenas a concorrência aos marxistas, seria pior que nenhum. Ele tem de declarar a sua luta ao sindicato marxista, não apenas como organização, mas antes de tudo, como idéia. Ele deve encontrar nele o pregoeiro da luta de classes e da idéia de luta de classes e deve se tornar, em lugar deles, o guardião dos interesses profissionais dos cidadãos alemães.

Página 488: “Uma aliança, cujo o objetivo não compreenda a hipótese de uma guerra, não tem sentido nem valor. Alianças só fazem para luta. Embora, no momento de ser realizado um tratado de aliança, esteja muito afastada a idéia de guerra, a probabilidade de uma complicação bélica é, não obstante, a verdadeira causa.

[…]

Assim pois, o simples fato de uma aliança com a Rússia é uma indicação da próxima guerra. O seu desenlace seria o fim da Alemanha.

[…]

Os atuais detentores do poder na Rússia, não pensam absolutamente em fazer uma aliança honesta ou de mantê-la.

É preciso não esquecer nunca que os dirigente da Rússia atual são sanguinários criminosos vulgares e que se trta, no caso, da borra da sociedade, que, favorecida pelas circunstâncias, em uma hora trágica, derrubou um grande Estado e, na fúria do massacre, estrangulou  e destruiu milhões dos mais inteligentes de seus compatriotas e agora, há dez anos, dirige o mais tirânico regime de todos os tempos. Não devemos esquecer que muitos deles pertencem a uma raça que combina uma rara mistura de crueldade bestial e grande habilidade em mentir e que se julga especialmente chamada, agora, a submeter o mundo todo à sua sangrenta opressão.”

Página 488: Não devemos esquecer que o judeu internacional, que continua a dominar na Rússia, não olha a Alemanha como um aliado, mas como um Estado destinado à mesma sorte. Não se conclui, porém, nenhum tratado com uma parte, cujo único interesse está no aniquilamento da outra.”

Página 489: “Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaismo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo”.

Página 489: “A luta contra a bolchevização mundial exige uma atitude clara com relação à Russia soviética. Não se pode afugentar o Diabo com Belzebu.”

Página 502: “Qualquer idéia de resistência contra a França seria rematada loucura, se não se declarasse guerra de morte aos elementos marxistas que, cinco anos antes, impediram que a Alemanha continuasse a luta nas linhas de frente.”

Página 503: “O fato de ter o nosso soldado outrora lutado com ardor é a prova mais evidente de que não estava ainda contaminado pela loucura marxista. À proporção, porém, que o soldado e o operário alemão, com o decorrer da Guerra, iam caindo nas garras do marxismo, eram elementos perdidos para a Pátria.”

Página 503: “No ano de 1923 estávamos em face de uma situação idêntica à de 1918. QUalquer que fosse a maneira de resistir que se escolhesse, a condição indispensável seria livrar primeiro, o nosso povo do marxismo corruptor.”

Página 505: “No dia em que, na Alemanha, for destruído o marxismo, romper-se-ão, na verdade, para sempre, os nossos grilhões”.

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Futuramente pretendo compilar mais citações de Hitler sobre o tema, focando em discursos e documentos oficiais do partido. O objetivo inicial é demonstrar o ódio visceral de Hitler ao marxismo e o incrível rocambole ideológico capaz de fazer o marxismo estar submetido ao capitalismo internacional numa conspiração judaica para dominar o mundo.

Depois destas, alguém ainda tem a desonestidade intelectual de associar marxismo e nazismo?

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Leandro Dias

A Renúncia de Bento XVI e a Estratégia para o Futuro da Igreja

O papa e os esqueletos no armário

Neste breve texto, vamos tratar da Igreja Católica como um fenômeno com duas faces. Há, de um lado, uma doutrina religiosa, ou para usarmos um termo que preferimos, uma ideologia. De outro, existe um corpo político, uma instituição que zela pelos interesses da fé católica ou, para sermos mais francos, de suas elites dirigentes.

Nosso foco de interesse cairá sobre esse corpo político, no fundo, uma espécie de Monarquia – embora, por questões doutrinárias, despojada de uma de suas principais características, qual seja, a sucessão por laços sanguíneos – da qual o Papa, infalível, vem a ser o Rei.

Portanto, não discutiremos nesse artigo aspectos de doutrina religiosa, mas sim, seus aspectos políticos, ou melhor dizendo, a Igreja Católica enquanto corpo político.

Já de longa data vem sendo notório e evidente o declínio da influência da Igreja Católica em todo o mundo, particularmente naquelas regiões em que conheceu sua maior hegemonia.

Na Europa Ocidental, berço de seu poder político e militar, a prosperidade material alcançada por seus povos levou, progressivamente, ao esvaziamento da religiosidade. Isso porque, em regra, quem tem dinheiro não precisa de Deus.

Muito pelo contrário, para aqueles que dispõem do dinheiro, crer em Deus atrapalha, pois impõe limites morais em como usá-lo. Embora Max Weber tenha mesmo dito o contrário (1).

Vamos lembrar que a Igreja Católica condenou por muito tempo a usura – embora a praticasse. E que as doutrinas liberais não pretendiam apenas libertar os donos do dinheiro do controle pelos reis, mas também, dos papas e de Deus.

Já na América Latina, colonizada pelos mais católicos e inquisidores dos reis espanhóis e portugueses, é a emergência do evangelismo neopentecostal que vem esvaziando o Catolicismo, embora este ainda permaneça sendo, por aqui, a religião mais popular.

De fato, há uma crise de longa data na Igreja Católica, e a explicação não parece muito difícil de encontrar. Pelo menos desde o pós-Segunda Guerra Mundial, há um mundo ocidental que vem sendo cada vez mais liberalizado, e a Igreja Católica se recusa a aceitar esse fato.

Cresce desde então a liberalização nos costumes, principalmente sexuais.

Não parece mais compatível com o curso dos fatos históricos no Ocidente a cruzada levada a cabo pela Igreja Católica contra fatos sociais como o casamento (civil) entre pessoas do mesmo sexo, as relações sexuais antes do casamento, o uso de contraceptivos e, em última instância, a legalização do aborto.

Fatos que, queira a Igreja ou não, tudo nos leva a crer, serão cada vez mais comuns e socialmente aceitos.

A Igreja pode continuar se posicionando contra todos esses fatos, é claro. Mas ela se verá, cada vez mais, condenando fatos que seus fiéis praticam. Tal qual a resistência da Igreja, décadas atrás, a aceitar a idéia da solubilidade dos matrimônios. Divórcios hoje são plenamente aceitos pela sociedade, e absolutamente comuns – caminham, mesmo, para serem a regra, e não a exceção.

Todavia, a Igreja vem se comportando, nos últimos dois papados – o de João Paulo II e o de Bento XVI, que acaba de se encerrar – como se ainda tivesse a hegemonia ideológica sobre governos e indivíduos, tal qual na Idade Média. Se comporta como se estivesse ao seu alcance frear o movimento de liberalização ou mesmo revertê-lo, trazendo “mentes e corações” de volta aos seus ideais, ao seu estilo de vida.

Acontece que tal poder, explicitamente, não lhe pertence mais, mas sim, está nas mãos da mais onipresente e multifacetada das instituições modernas – por sinal, uma que é laica e completamente materialista: o capital.
A Igreja deveria, enquanto corpo político, buscar meios de compatibilizar essa enxurrada moderna de valores liberais com seus princípios doutrinários. Em caso de fracasso, crescerá ainda mais a alienação da Igreja Católica em relação ao mundo objetivamente existente ao seu redor.

O que ela pensa e prega – mas não necessariamente pratica – vai se afastar cada vez mais da vida real, cotidiana de seus fieis (ou de seus potenciais fiéis), tornando irreversível seu declínio enquanto corpo político. Isso não significa, é claro, uma liberalização repentina, radical. Mas uma indicação de flexibilidade, um processo paulatino, algum tipo de concessão.

Nesse contexto, um Papa europeu não traria nada de novo, num continente em que o declínio da religiosidade, seja de qual filiação for, parece, na atual conjuntura, um fato irreversível. Muito embora nada indique que a Europa Ocidental vá deixar de ser o centro político da Igreja.

Um Papa africano parece pouco provável, e a África não é, por certo, um continente onde o Catolicismo seja muito difundido ou onde possa se expandir, haja vista sua instabilidade política, a pobreza, a presença também marcante do Islamismo, pelo menos em sua metade norte, e a convivência, em quase todos os cantos, com as religiosidades animistas nativas do continente.

Na Ásia o Catolicismo é, exceção feita às Filipinas, esmagadoramente minoritário em todos os países, e mesmo praticamente ou de todo inexistente em muitos deles.

Sem dúvidas é na América Latina que o Catolicismo, apesar de tudo, demonstra sua maior vitalidade, sendo praticamente universalizado, apesar do avanço do protestantismo neopentecostal, conforme já citamos. Um avanço que vem sendo especialmente marcado no Brasil, o maior país católico do mundo, desde a década de 70.

Contraditoriamente, se no nosso diagnóstico foi a inflexibilidade da Igreja Católica em se liberalizar junto com o mundo ocidental, foi justamente no Brasil que a Igreja Católica apresentou uma de suas vertentes mais progressistas, que veio a ser a Teologia da Libertação. E não foi por acaso que essa interpretação foi duramente combatida pelo então Papa João Paulo II e pelo então cardeal Joseph Ratzinger, desde 1981 na qualidade de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, principal responsável por zelar pela doutrina da Igreja Católica. Em suma, do ponto de vista dos seus interesses estratégicos, muito bem faria à Igreja eleger um Papa latino-americano – ou talvez um norte-americano de origem latina – de tendências liberais, progressistas.

Um Papa popular, mais permeável ao liberalismo dos tempos modernos.
E que pusesse a Igreja em marcha, uma marcha lenta que fosse, em direção a essa contemporaneidade.

Daniel K.

Capitalismo e Democracia

Protesto

“Eu não acredito que ainda tenho que protestar por esta merda”

O Estado Moderno, capitalista e pró lucro surgiu antes da democracia como a conhecemos ou pensamos hoje. De uma maneira resumida poderíamos dizer que o poder político deste Estado originou-se como força resultante dos acertos da classe dominante de uma determinada sociedade, ora se mostrou como um mediador de conflitos entre poderosas famílias de nobres e de burgueses, que através de negociações e acordos entre seus membros, chegavam a conclusões de interesse mútuo, e ora como a representação da supremacia de um grupo unificador se impondo contra menores, seja pela força econômica ou força militar (1).

A representatividade dos grupos sociais e econômicos de um país, isto é, o acesso ao seu Estado e portanto ao “poder legítimo”, surgiu sempre de maneira classista, explicitamente destinando-se a representar a classe que dominava de fato o Estado. O voto no Estado Moderno sempre foi censitário, por renda, por impostos ou posse de terras (2). O voto censitário era justificado como um avaliador simples da capacidade, estabilidade e qualidade do indivíduo, uma expressão meritocrática da sua posição na sociedade, um reflexo “lógico” da ideologia liberal-capitalista. “No taxation without representation”, lema clássico do movimento independentista norte-americano, uma vez realizada a independência que queriam, se tornou “no representation without taxation”, isto é, somente quem pagava impostos de propriedade é que poderiam se fazer representados dentro do Estado, excluindo a esmagadora maioria da população.

Hobsbawn escreve em “A Era das Revoluções” (pg. 106-107):

[…] No geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata, mas sim um devoto do constitucionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários.

Em alguns casos, já no final do século XIX, depois de décadas de luta popular, quando a elite estava um tanto “envergonhada” destas práticas descaradas de cerceamento político de partes expressivas de sua população pelo simples fatos de serem despossuídos, passaram a adotar eufemismos “liberais e progressistas” como a escolaridade como critério de votação, numa releitura da clássica frase de Anatole de France: “É proibido tanto a ricos analfabetos quanto a pobres analfabetos votar em seus representantes”. Isso para sociedades que não possuíam escolas públicas.

A Inglaterra, emblemático exemplo de “democracia ocidental”, só deu plenos direitos à sua população masculina toda votar em 1918, até então o voto destinava-se apenas, em maior ou menor grau, proprietários homens (mulheres só foram poder votar em 1928). Por lá, o voto secreto só entrou de fato em vigor em 1872 e o fim oficial da compra de votos apenas em 1884 (3). Neste processo, através de uma série de demandas populares foram diminuídas as restrições de propriedade, e a classe operária pôde começar a votar de fato em 1867 e mesmo assim, apenas 32% da população masculina na idade adequada, estava apta para tal nesta época (4).

Vale lembrar que até 1949 proprietários de empresas e comércio, podiam votar mais de uma vez em determinadas eleições, claramente uma medida para enfraquecer o poder popular organizado dos despossuídos. E, se lembrarmos que até 1910 parlamentares não recebiam salário naquele país, tínhamos uma seríssima restrição de acesso da massa de trabalhadores ao parlamento que não tinham tempo hábil para exercer o cargo e trabalhar em fábricas por exemplo, não tendo como financiar sua carreira parlamentar, a não ser quando um ou outro sindicato podia bancar os seus representantes. E mais, desde que parte da classe operária pôde começar a votar em 1867, apenas quem fosse proprietário e acima de 30 anos poderia concorrer a algum cargo, sendo que a expectativa de vida para um trabalhador inglês no meio do século XIX não passava de 40 anos (5).

Então, mesmo se forçarmos a barra e esquecermos todo o império colonial criado pelos britânicos, ainda temos que a toda a formação e consolidação do capitalismo inglês se deu fundamentalmente em bases não democráticas, semi-servil ou escrava (6).

Nos EUA, a auto-proclamada Terra da Liberdade, os direitos plenos a voto nacionais só foram instaurados em inacreditáveis 1964-1965, com a 24ª emenda e o Ato dos Direitos Civis. Até então os estados decidiam a questão e, embora a constituição nacional permitisse voto de ex-escravos desde 1869 (15ª emenda), os estados da federação trataram de passar, já naquela época, leis que na prática impediam os negros de votar (7). Os artifícios eram os mais variado, como testes de alfabetização (sendo que negros eram proibidos em escolas públicas), histórico de impostos (poll tax), inúmeros documentos e atestados de propriedades. Além disso, a proibição de votar a presos por certos crimes proliferou o número de pequenas prisões de negros e pobres em época de eleição para evitar que fossem votar, fato ainda controverso até hoje (8).

E mais, o voto só se tornou secreto nos EUA após 1884 (9), até então o nosso conhecido voto de cabresto, reforçado por poderosas elites e grupos paramilitares como a Klu Klux Kan e os Camisas Vermelhas (10) impediam ou intimidavam negros e minorias de votar como queriam. Assim, depois de muita luta, estado por estado, o voto universal de fato, só foi lei nacional nos EUA em 1965, isso se desconsiderarmos as implicações conservadoras que o voto colegiado (indireto) ainda fazem hoje, papo para outro post. Quanto pioneirismo da Terra da Liberdade.

Na França, o voto universal não restringido por renda ou posição social, só foi instaurado em 1875, após intenso combate popular desde as revoluções populares de 1848 e quatro anos depois da Comuna de Paris de 1871, a mais libertária das Revoluções, em que o voto universal foi uma das principais bandeiras (11). Porém, nem tudo são flores na República Francesa, apenas em 1913 o voto secreto foi estabelecido, mais de 120 anos desde a Revolução Francesa (12). E, em termos de igualdade de gênero, a França está atrás até mesmo do Brasil, as mulheres na França só passaram a votar em tardios 1945 (13)

Enfim, citando alguns outros exemplos, temos a Suíça  outro bastião da civilização, com uma democracia direta (plebiscitária) das mais antigas e sólidas, cunhada após intensos conflitos populares liderados por fortes correntes radicais contra resquícios do Antigo Regime (ainda em 1848). A Suiça só deu voto universal às mulheres em 1971 (14), isto é, este país, exemplo de democracia ocidental, só deu direito a voto a outra metade de sua população 41 anos atrás. Ali do lado, na Alemanha o voto universal masculino só chegou em 1918, isso com a derrota na Grande Guerra, até então havia um sistema censitário e nobiliárquico (1871-1918),  isso sem esquecer o período nazista que revogou a democracia alemã entre 1935 e 1945, mas não vêm ao caso.

Os exemplos poderiam prosseguir ainda com os vários países independentes das colônias inglesas, que só deram direito a todos os seus cidadãos a votar entre 1880 e 1920, sendo que a Austrália só deu direito a voto às minorias aborígenes em 1962. No caso europeu, não podemos esquecer que Espanha e Portugal só deram direito pleno de voto à sua população, respectivamente em 1978 e 1975 (15). No Brasil só para mencionar, fomos acabar com o voto censitário e vinculado à propriedade com a constituição de 1934, embora analfabetos, metade da população brasileira, só tenham obtido direito de votar com a constituição de 1988, com o final da ditadura militar. Até então eram – oficialmente – cidadãos de segunda classe.

E ainda que vivamos numa era de maior fiscalização e voto secreto, o famigerado voto de cabresto ainda está presente em várias eleições pelo mundo. Se antigamente era vinculado à coronéis e industriais “linha dura”, hoje são os chefes de milícia no Brasil (16) ou donos de empresa “respeitáveis” nos EUA (17) que forçam seus candidatos preferidos.

Porém, o que toda essa informação significa?

O capitalismo e o Estado Moderno como o conhecemos se estabeleceram na maioria dos países analisados muito antes da universalização de suas democracias. E sempre, sem exceção, o establishment capitalista evitou ao máximo que o direito pleno que tanto pregavam fossem de fato universalizados. A liberdade era apenas para quem tinha renda ou “capacidade”, nada para o homem comum e pobre das fábricas, campos e usinas. Foi com extrema luta de trabalhadores, liderados – é importante frisar – por comunistas, socialistas, anarquistas e sindicalistas em geral, é que o voto, entre tantos outros direitos sociais hoje “comuns”, foi conquistado contra o poder capitalista dominante, fundando a democracia mais ou menos plena.

A hegemonia da “busca pelo lucro” veio muito antes da democracia se tornar hegemônica (e a hegemonia da última ainda é bastante contestável). O ideal da democracia capitalista não era muito diferente da democracia grega antiga, onde um punhado de aristocratas e oligarcas tinham direito a comandar o Estado, deixando uma massa de escravos e semi-escravos sem direito a escolha, condenados à sua própria origem de nascença. E hoje ainda, é mais do que comum encontrarmos países capitalistas sem democracia, poderíamos dizer até que uma democracia transparente e estável é uma exceção e não uma regra nos países capitalistas.

Democracia jamais foi condição sine qua non para o capitalismo. Não foram os capitalistas radicais friedmanianos que instauraram o “livre mercado” na mais assassina das ditaduras da América do Sul, com mais de 30.000 mortos no Chile? (17). Não é Singapura uma rígida ditadura capitalista de Estado, tida como exemplar pelo “ocidente”? Ou o que foi o Egito e é a Arábia Saudita, se não brutais ditaduras aliadas do ocidente democrático-capitalista, produzindo petróleo para o “libertário” capitalismo euro-americano? Não é a China, o mais brutal regime capitalista já pensado: um Estado aristocrático, super-poderoso, que do comunismo só absorveu o que tinha de pior – a estrutura de poder bolchevique -, enquadrando infindável contingente de pessoas em trabalhos semi-escravos a serviço das mega-corporações mundiais? A prova final de que o namoro entre capitalismo e democracia não passa de retórica.

Então hoje, não é surpresa que em sinal de mais uma crise econômica, o capitalismo ganhe nova força solapando a democracia como nos acostumamos a conhecer, marchando abertamente para Estados onde proprietários e plutocratas detém de juri e de fato todo o poder político. A criminalização de movimentos sociais e sindicatos, ridicularização e esvaziamento de protestos, brutalidade policial em níveis ditatoriais no coração de todas as democracias ocidentais, esmagamento de direitos trabalhistas históricos, corporações e sistema financeiro fazendo rodízio entre os seus líderes favoritos, seja nos EUA ou no México; latifundiários derrubando governos eleitos no Paraguai e em Honduras, criando verdadeiras cidades privadas na última (17), tudo com auspícios das lideranças ocidentais; a Alemanha aplicando uma dieta econômica tirânica e colonial no seio da Europa, escravizando a Grécia de uma maneira sem precedentes; tudo em nome da “liberdade e da saúde da economia”. E poderíamos ainda incluir a promiscuidade entre o sistema carcerário, judiciário e corporações criando uma verdadeira “indústria do crime e punição” por toda parte (em especial nos EUA), exemplificada muito bem por Michael Moore no filme, “Capitalismo uma História de Amor”.

Falando deste filme, ao contrário do que prega Michael Moore, não foi o capitalismo, suas mega-corporações e interesses privados representados dentro do Estado, que atropelaram a democracia. Numa perspectiva histórica, foi a democracia – a busca por igualdade social e econômica além da meramente jurídica -, é que tentou, por um breve momento da história, em certos cantos do mundo, atropelar o capitalismo. O Estado capitalista sempre foi abertamente feito para proprietários, para corporações e seus interesses privados, o interesse da massa de trabalhadores foi sempre visto como um mal que “desordena a economia e o mercado”. Então, é natural dentro desta lógica, que esses direitos sociais e trabalhistas históricos, conquistados à duras penas, sejam “revisados” e excluídos da estrutura do Estado em todas as oportunidades que aparecem, em nome da economia e da “austeridade”. O acirramento do conflito entre trabalhadores, Estado e corporações que vemos hoje é na verdade um retorno nítido às disputas do final do século XIX. A breve história do Estado de Bem Estar Social e da democracia popular, mal completaram algumas décadas e já aparecem seriamente questionadas e ameaçadas, se mostrando inviáveis dentro da lógica do sistema. Seu ápice não passou de mera exceção na história do capitalismo.

“Eu não acredito que estamos lutando por estes direitos novamente”.

LEANDRO DIAS

Notas:

1 – A dicotomia entre Estado e Capitalismo, tão enfatizada por liberais, não passa de um mito ideológico de reinvenção do passado. O Estado sempre foi o principal fomentador do capitalismo privado na imensa maioria das nações, foi através deles que os interesses privados dominantes se fizeram ainda mais dominantes e se expandiram. Seja o exército inglês protegendo a expansão da empresa privada Companhia das Índias Orientais no processo de colonização indiano ou na Rodésia e em tantas outras nações africanas, ou as indústrias petroleiras e armamentista sendo os principais lobistas e beneficiários da expansão belicosa norte-americana no Oriente Médio. Não será preciso ir muito a fundo, pois já tocamos neste assunto aqui aqui.

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Suffrage

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/Parliamentary_Franchise_in_the_United_Kingdom_1885%E2%80%931918 ; e também aqui http://en.wikipedia.org/wiki/Elections_in_the_United_Kingdom#History

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Representation_of_the_People_Act_1884

5 – http://www.census-helper.co.uk/victorian-life/

6 – Ver Hobsbawn, Eric “A Era das Revoluções” e Engels, Friedrich “As Condições da Classe Operária Inglesa” (pdf).

7 – http://en.wikipedia.org/wiki/Voting_rights_in_the_United_States

8 – http://jacobinmag.com/2012/05/the-political-economy-of-mass-incarceration/

9 – http://en.wikipedia.org/wiki/Secret_ballot

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Red_Shirts_(Southern_United_States)

11 – http://en.wikipedia.org/wiki/Paris_Commune

12 – http://www.assemblee-nationale.fr/histoire/suffrage_universel/suffrage-1870.asp#gauche

13 – http://en.wikipedia.org/wiki/Women’s_suffrage

14 – http://history-switzerland.geschichte-schweiz.ch/chronology-womens-right-vote-switzerland.html

15 – http://en.wikipedia.org/wiki/Universal_suffrage

16 – http://www.cartacapital.com.br/politica/paes-ganharia-eleicao-no-primeiro-turno-diz-ibope/

17 – http://www.nytimes.com/2012/10/27/us/politics/bosses-offering-timely-advice-how-to-vote.html

18  – http://en.wikipedia.org/wiki/Chicago_Boys

19 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120909_honduras_cidade_modelo_lgb.shtml

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 2)

Filme racista de 1915, apoiado pelo exército Norte Americano.

Quando ocorrido o 11 de Setembro, imediatamente o governo americano se reuniu com diretores de cinema em Hollywood para determinar o que fazer, que “bons caminhos” tomar para a produção cultural norte-americana (1). A ousadia e o espetáculo das ações do 11 de Setembro, não só o plano em si, mas o misancene que foi retratado pela TV, roupeu a tênue fronteira entre a ficção e a realidade, entre o documentário e fantasia, entre propaganda e enredo.

Não é nenhum grande mistério que a indústria do cinema sofre pressões ou busca financiamento público para suas obras culturais, até nos EUA – terra que se prega a supremacia do dinheiro privado. Durante a Primeira Grande Guerra, os EUA criaram o Comitê para Informação Pública (2), dedicado a fazer propaganda pró-governo e anti-alemã, durante todo o período da Guerra. Seu papel, além de fazer diretamente peças artísticas falando bem das causa governistas, era viabilizar que filmes pró-americanos tivessem a maior repercussão e financiamento possível.

Nessa mesma época, em 1915 surgiu um pioneiro filme de guerra chamado O nascimento de uma Nação, dirigido por D. W Grifith. A obra foi um sucesso estrondoso de bilheteria, apesar de usar atores brancos pintados de preto para o papel de negros e uma evidente apologia à Ku Klux Klan. No entanto, muito interessante do filme é seu pioneirismo em outra área: foi o primeiro filme a ter consultoria e apoio do West Point, também conhecida como Academia Militar dos Estados Unidos. O exército não só forneceu artilharia, mas deu consultoria para as cenas de guerra, emprestou canhões e soldados e, dada a recepção do filme, não teve nenhum problema com o conteúdo racista e apoio da KKK. Este filme financiou a KKK por muitos anos (3).

Desde então, a colaboração do exército e órgãos governamentais no cinema americano foi enorme. Pautando filmes, utilizando o cinema como potente arma de propaganda das idéias e políticas do governo. O objetivo principal é o uso da credibilidade e “isenção” do cinema e mídia privados para fomentar propagandas pró-sistema,  tentando criar novos conceitos, arraigar existentes, demolir opositores políticos e “subversivos”, criar consensos favoráveis à classe dominante do período, sem no entanto parecer usar a “máquina estatal” para tal, sem dar muito na cara, como falamos dos regimes ditatoriais no post anterior.

A Segunda Guerra reforçou essa aliança. A série de documentários Why We Fight (1942-1945), foi comissionada diretamente pelo governo, usando nada menos que um laureado com o Oscar Frank Capra para dirigi-la, numa tentativa de documentário que ficasse à altura dos de Leni Riefenstahl (4) para a Alemanha Nazista. A série também foi um sucesso.

Num lado mais lúdico, Walt Disney e sua corporação formaram um grande veículo privado para propaganda governamental, desde o Pato Donald explicando a importância de pagar impostos, até o mesmo pato  ridicularizando o nazismo. Num lance mais “sério” temos o Education for Death (Disney, 1943), animação sobre uma criança no regime nazista, de 1943, ambos desenhos bem sombrios para crianças segundo os padrões de hoje.

Junto com Mickey Mouse, Donald é o personagem mais popular da Disney, talvez por isso seja exatamente o desenho que revela um discurso ideológico muito mais marcante, uma representação – as vezes muito clara – da ideologia pró-sistema que quero enfatizar aqui:

Donald trabalha feito um condenado mas está sempre em dívida com o seu Tio, que frequentemente usa este argumento para forçá-lo (chantageá-lo) em alguma aventura de pilhagem e enriquecimento (do Patinhas é claro). Por mais que Donald trabalhe, jamais fica rico, se considera azarado ou não esforçado o suficiente, invejando seu rival Gastão, rico e “sortudo” sobrinho puxa-saco de Patinhas. Há até um clássico underground feito no Chile de Allende, explorando em mais detalhes as sutilezas (ou não) das histórias de Pato Donald e Tio Patinhas na América Latina. Para Ler Pato Donald (1972), ainda que dotado de exageros – um pouco – paranóicos (5), a obra mostra outras nuances profundas do discurso pró-sistema e elitista e vale ser lida.

Ao falar de Disney, não podemos esquecer a enorme presença do discurso conservador típico da direita  WASP (6) norte-americana, a ideologia dominante da produção cultural americana do seu tempo. À exceção de Mulan (1998), todas as princesas/protagonistas Disney são mulheres submissas, dependentes, passivas e alienadas, a espera de um príncipe encantado para mudar de vida, algumas até com Síndrome de Estocolmo, reproduzindo o que há de mais conservador em discurso sobre o papel da mulher na sociedade.

Corações e Mentes

Na história recente, apenas na minha geração, a profusão de filmes com larga presença militar e ideologia pró-americana é tão grande que fica difícil listar todos os filmes, vou colocar apenas alguns mais relevantes na minha lista.

Em Rambo 3 (1988), o exército americano usa um mercenário (Silvester Stallone) para ajudar mujahedins afegãos, conhecidos como Talibãs, retratados no filme como “defensores da liberdade”, para expulsar o imperialismo soviético. O filme faz uso maciço de bases militares, aviões, helicópteros e armamento americano. Lembrando que Bin Laden nesta época, era fiel aliado ocidental. É importante notar que, apesar de ser prática comum na época, o uso de mercernários privados em ações militares “extra-oficiais” era algo ainda mal visto (7).

Top Gun (1986) retrata toda a evolução de dois jovens nas fileiras da Marinha americana, da melhor maneira que Hollywood sabe fazer. É difícil não ver este filme como uma obra de propaganda militar, seu sucesso foi tão grande que a Marinha colocava bancadas de recrutamento na porta do cinema, com grande sucesso (ver documentário Hollywood and The Pentagon: A dangerous Liaison, de 2003).

Independence Day (1996) é um filme sobre invasão alienígena, mas seu discurso e ideologia é extremamente terrestre e não ficcional. É outra obra com largo uso de recursos, consultoria e equipamento militar. Retrata a invasão dos EUA por aliens que querem exterminar a humanidade. O próprio presidente dos EUA é voluntário para entrar num avião e lutar alienígenas, após longo e patriótico discurso. O interessante lembrar é que este é um daqueles filmes onde a bomba atômica salva a humanidade: é um míssil atômico, carregado por um suicida (“mártir”), que termina por destruir a super nave alienígena e salva a América. Guerreiros suicidas ainda não estavam em baixa como nos dias de hoje.

Impacto Profundo (1998), Armaggedon (1998), O núcleo (2003) e Sunshine: Alerta Solar (2007), são filmes, assim como Independence Day, onde a bomba atômica salva a humanidade da aniquilação. Vale lembrar que o produtor de Armaggedon é o mesmo de Top Gun e de Falcão Negro em Perigo (2001), e é o mais propagandístico destes filmes que pervertem o uso da bomba atômica.

Essa inversão do objetivo das coisas, servindo para o seu exato oposto me lembra de Slavoj Zizek e seus argumentos da falta de substância das coisas na pós-modernidade. Café sem cafeína, açúcar light, “invasão de defesa” (só para lembrar de Israel no presente momento), guerra sem vítimas e assim, o uso da maior arma de aniquilação humana já inventada – A bomba atômica – é transformada em sua salvação única, desprovida de seu caráter destruidor, se torna a ponta da lança que aniquila o dragão, a única esperança de defesa e resistência. Qualquer semelhança com George Orwell é mera coincidência. Aniquilação é Salvação.

Em Falcão Negro em Perigo, a resistência somali contra a invasão dos EUA (exército americano sob farda da ONU) durante a sua guerra civil em 1993, é vilanizada e o sangrento massacre em Mogadishiu, transformado num heróico épico de resgate paladínico, com direito a helicóptero tocando “Hell’s Bells” do ACDC. Nada é problematizado, nem o papel dos EUA, nem as intenções dos inimigos, os somalis são todos os bestializados, sem nome e sem importância.

A bestialização do inimigo lembra ainda de outro blockbuster apoiado/financiado pelo exército americano: Invasão do Mundo: A Batalha de Los Angeles (2011). Um filme que se você lembrar que a palavra ALIEN em inglês também se refere à imigrante ilegal, você têm um dos mais conservadores – para não dizer nazistas – filmes norte-americanos. Os inimigos quase invisíveis e indestrutíveis, bestas que vêm de todas as partes, sem valores ou origens identificáveis (como “chicanos” que podem ser desda Bolívia até o México), seu objetivo é apenas destruir a América. Os diálogos do filme são quase de manuais militares e junto Top Gun e Transformers (Michael Bay, 2007), considero os filmes mais apologéticos do exército que tenho notícia.

Nessa discussão toda vale citar primeiro 300 (Zack Snyder, 2006), inspirado no quadrinho de Frank Miller e Transformers (Michael Bay, 2007), baseado no desenho de mesmo nome dos anos 80, brilhantemente analisado por Slavoj Zizek.  Ele inverte a noção comum de que 300 é um filme apologético pró-americano, anti-islâmico (iraniano), militarístico, retratando a supremacia da guerra frente à diplomacia, num heroísmo americano contra a invasão de estrangeiros.

Este filme, para o filósofo, é um filme que retrata uma rica superpotência imperial (Pérsia), com um exército indestrutível, tentando invadir uma pobre região montanhosa habitada por fanáticos. Seus métodos são a intimidação, compra de políticos e figurões e a contratação de mercenários de todas as partes do mundo para formar um exército invasor em terras distantes da sua. A cultura persa é retratada em mostruosidades exóticas, festas promíscuas, com marcante falta de valores e uma moralidade comprável com dinheiro.

Esparta por sua vez é uma nação pequena, com um rei idealista, avesso às politicagens corruptas de interesseiros nobres, ou o misticismo pessimista dos oráculos. Dotado de um pequeno exército, o que lhe resta é a disciplina e a  crença fanática em seus valores e idéias.

Para Zizek a Pérsia É o Imperialismo americano, Xerxes tentando seduzir e corromper os gregos é como um Ronald Reagan tentando seduzir e corromper Sandinistas ou lideranças sauditas. Esparta promete acabar com o misticismo, defendendo um reinado de razão e democracia, no melhor estilo iluminista, contra a barbáries sem valores do mundo Persa. Não foi a toa que os revolucionários comunistas alemães se proclamaram “Liga Espartaquista“, diz.

Apesar de concordar com todos os pontos de Zizek, o filme não foi feito para acadêmicos e pessoas mais interessadas em tramas complexas e reflexão profunda. É um blockbuster de verão. A mensagem que fica para o menos atento, interessado apenas num pipocão de fim de semana para entreter sua monótona vida proletária, é a versão superficial do filme: a supremacia ocidental frente ao barbarismo oriental.

Os inimigos usam turbantes e aparatos exóticos, falam com sotaque ou são ininteligíveis, são infinitos e estão em todo lugar (clássica paranóia direitista contra imigrantes); a política e a diplomacia são corruptas (de ambos os lados), só o exército é virtuoso e dotado de uma verdade que faça sentido. Tanto que o filme repercutiu muito mal no Oriente Médio, com declarações públicas de Ahmadinejad inclusive (9).

Porém, essa clara ambiguidade do filme, talvez demonstre a sutileza apologética do cinema ideológico que eu esteja tentando mostrar, dando razão à narrativa de Zizek: na superfície faz um discurso enquanto a substância do filme é completamente diferente, muitas vezes até oposta à superfície. Algo que torna o filme brilhante.

Prosseguindo.

A série de filmes Transformers por sua vez, é tão propagandística e apologética que faz Alexander Nevsky de Eisenstein parecer uma obra de ficção completamente sem relação com o stalinismo. É um festival de recursos, aparato, discursos e argumentos pró-americanos, de um militarismo gritante. Como Top Gun (10), é  praticamente um vídeo de recrutamento, com direito a um jovem conhecendo uma bela moça enquanto se torna um “soldado a serviço dos Transformers”. Mesmo porque os vídeos oficiais de recrutamento não estão tão longe de um filme hollywoodiano:

Já que estamos falando de super heróis vejamos a – nada subliminar – situação de Homem de Ferro (2008) e a nova série de filmes do Batman (2005-2012). Ambos bilionários enriquecidos com dinheiro da fabricação de armamentos para o Complexo Industrial-Militar norte-americano e ambos auto-proclamados defensores da justiça. A não problematização da sua maneira de enriquecer, ignorando o fato de que qualquer um que saiba minimamente de como se faz dinheiro na indústria de armamentos (11) sabe que não há nada de nobre ou heróico em vender armamentos militares. No pano de fundo é algo como enfatizar a “riqueza é uma virtude por si só” (ver este meme), independente de onde veio o dinheiro.

O Homem de Ferro, no filme Vingadores (2012) ainda reforça a noção que mencionei acima de que a bomba-atômica é a única salvação da humanidade. Quando os heróis e os mercenários pára-estatais da S.H.I.E.L.D falham para conter a invasão alienígena,  Homem de Ferro conduz um míssil atômico até o coração do portal invasor, destruindo-o. Novamente a Bomba Atômica salva a humanidade (ou os EUA).

Já em Batman, especialmente no último filme da série, surge outra pérola de discurso pró-sistema. Batman é um agente pára-militar perseguindo um vilão, líder de excluídos que vivem em esgotos e que querem destruir a ordem vigente. Bane começa tentando destruir a fonte de riqueza dos seus inimigos explodindo a Bolsa de Valores e falindo o Batman. Vale lembrar o diálogo logo no início do filme entre o vilão e um funcionário da Bolsa (12):

Comerciante da Bolsa: “Isso é uma bolsa de valores, não há nada o que roubar”

Bane: “É mesmo?! E o que vocês fazem aqui diariamente?!”

Depois Bane quer destruir uma prisão repleta de “suspeitos” de atos ilícitos contra o regime, presos após o endurecimento de leis especiais “anti-terror”, numa conservadora visão da Queda da Bastilha. Se somarmos com a ridicularização e satanização dos Tribunais de Sentença contra “agentes do sistema” e a liderança de um implacável, incorruptível e “sanguinário” líder, temos já três importantes referências à Revolução Francesa. Bane ainda chama os habitantes de Gotham para tomar as ruas, “cuidar do que lhes pertence”, sem qualquer desmando ou interferência sua, apenas convoca os cidadãos após destruir a força repressiva do Estado (a polícia), numa inspiração “Occupy Wall Street”.

Ao fim, Batman, o bilionário acima da lei, que sempre age quando julga que a lei ou a polícia não estão sendo eficientes,  utilizando todo aparato militar que seu dinheiro pôde comprar, marcha para derrotar Bane e sua revolução. No caminho ainda coopta a Mulher Gato, uma bela ladra e alienada, se junta ao bilionário para destruir a ideologia louca de Bane. O dinheiro sempre vence.

***

Assim, por mais que não seja tão claro como nas ditaduras citadas no post anterior, fica difícil não ver em Hollywood um fundamental braço propagandístico da ideologia do sistema. A sutileza e a máscara de isenção que carrega o torna o mais eficaz instrumento de divulgação da ideologia americana, uma fábrica de influência de corações e mentes em defesa daquilo que querem que seja verdade. Seja nos filmes blockbusters, seja nos jogos de videogame super-vendidos (13), também feitos sob ideologia da Califórnia, Hollywood é a própria expressão do Agitprop do sistema, é a perfeita exemplificação do “Aparelho Ideológico do Estado”. É difícil lembrar de um único blockbuster sem fundamental influência do pensamento hegemônico norte-americano, é a realização elegante do Ministério da Verdade. Aniquilação é Salvação.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/1586468.stm

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Committee_on_Public_Information

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_birth_of_a_nation

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Why_We_Fight

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/White_Anglo-Saxon_Protestant

6 – No nosso post Wikileaks: eu já sabia evidenciamos que a esquerda paranóica não era tão paranóica assim e que muitos dos crimes revelados documentalmente pela Wikileaks e outros vazamentos, como o recente da taxa Libor e do preço do combustível pautado por corporações, revelado pelo Guardian, já eram pregados por quase toda a direita séria há muitos anos, da imensa cartelização até os acordões das classes dominantes econômicas.

7 – Nos anos 90 haviam 50 militares para cada mercenário privado, agora a proporção é 1 para 10 (Peter Singer  IN: http://en.wikipedia.org/wiki/Private_military_company )

8 – In the 1990s there used to be 50 military personnel for every 1 contractor, now the ratio is 10 to 1 (Singer).

9 – http://voices.yahoo.com/iran-condemns-blockbuster-movie-300-as-american-psychological-249323.html?cat=40

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Top_Gun#Involvement_of_the_U.S._military

11 – Um míssil, uma munição ou uma granada, são dos melhores produtos capitalistas. No momento em que são usados não só são consumidos, como destroem coisas que estão no seu caminho. É a obsolência capitalista no seu mais alto grau.

12 – http://www.imdb.com/title/tt1345836/quotes

13 – Em reportagem da Al Jazeera recente, além da promíscua relação cinema-exército, se menciona ainda o universo dos videogames, que vale lembrar apenas o que considero um dos ápices da relação: America’s Army (2007), um jogo totalmente financiado pelo exército americano, sendo um dos primeiros com grande qualidade gráfica totalmente gratuito. Seu objetivo, segundo seu próprio criador era “utilizar da tecnologia computacional para prover ao público uma experiência virtual de um Soldado que fosse envolvente, informativa e divertida” ( http://en.wikipedia.org/wiki/America’s_Army). Vale analisar também a série Call of Duty e Medal of Honour para reforçar o argumento acima.

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 1)

Alexander Nevsky (1938, Sergei Eisenstein)

É lugar comum nas análises dos regimes fascistas e bolcheviques, a ênfase em seus respectivos aparatos de propaganda. Natural, é difícil falar da Alemanha nazista sem falar de Göebbels ou ignorar a relevância que a propaganda ideológica tem  para Adolf Hitler no seu livro Mein Kampf (Minha Luta), e mais ainda, como estas idéias se traduziram ao propagarem-se através de aparelhos estatais com sua posterior subida ao poder. No caso bolchevique, é difícil não enxergar o exagerado culto à personalidade ou o alinhamento até da própria ciência com a “verdade” do partido, como foi o caso do Lissenkismo (em inglês). Ou mesmo na Coréia do Norte onde o próprio culto à personalidade e à classe dominante suprimiram até mesmo as menções ideológicas marxistas ainda nos 70 (curioso é chamar aquilo de ditadura bolchevique).

Em ditaduras não há mistério em identificar a vontade do governo em seus projetos de propaganda explícitos, sejam filmes, livros ou arte em geral.  No caso do regime nazista, elas eram feitas exclusivamente por agência central do governo, especialmente depois de 1934 quando ocorreu um sanguinário realinhamento dos membros e ideologia do partido, levando a execução e prisão de política de inúmeros elementos “subversivos” dentro do partido.

Assim, a dificuldade não é perceber o que é óbvio, que o governo nazista e o sistema de poder que o sustentava, faziam propagandas que lhe eram favoráveis o tempo todo e em todas as mídias possíveis. o Mein Kampf está repleto destas intenções, tendo dois capítulos inteiros sobre o tema.  Se não é difícil notar as obras claramente de propaganda, o mais interessante portanto, é notar a propaganda do sistema em obras que não eram produzidas diretamente pelo aparato estatal, burôs de propaganda ou Ministérios da Verdade (1).

Os Caminhos da Força e da Beleza (1925)

Leni Riefenstahl, atriz e talentosa cineasta, favorita do regime nazista, produziu importantes obras exaltando o partido e seus líderes. O interessante porém, além da relevância histórica de seus documentários apologéticos do regime, é observar dois filmes que ela atuou e co-produziu antes dos documentários pró-regime, são eles Wege zu Kraft und Schönheit  (1925, Os caminhos da força e da beleza) e Das blaue Licht (A luz azul).

O primeiro é um filme, digamos, naturista, da aproximação entre beleza, força física e a natureza, um sempre presente culto ao corpo e à saúde. Fundamentalmente encaixado no idealismo da cultura alemã dos anos 20, da rejeição da vida urbana e cosmopolita (corrupta) e exaltação da vida simples, “natural”, fora das cidades. Não é um filme de propaganda, foi feito durante o período democrático de Weimar, mas o seu tema é recorrente na cultura nazista posterior, por isso é mais importante, revela traços da mentalidade anti-cosmopolita, proto-fascista que já permeava a Alemanha. É um filme “pró-sistema” e anti-Weimar, considerando que a direita radical alemã considerava República de Weimar  uma representação do cosmopolitismo burguês liberal, pela primeira vez elevado ao poder central naquele país. Era um filme altamente alinhado com a extrema direita, antes mesmo dela se solidificar no poder.

O segundo filme tem uma inspiração numa lenda alemã de mesmo nome, adorada pela direita nacionalista alemã de então. No caso do filme, também revela no fundo o conflito entre cidade e vida simples do interior. Junta (Riefenstahl), solitária adoradora da natureza, que se conecta com ela meditando com cristais numa caverna secreta próxima, é seduzida por Vigo, pintor da cidade grande, que depois revela o segredo dos cristais à cidade e os rouba junto com outros moradores. Reiterando o conflito entre a cidade corrupta e o interior nobre, puro e imaculado, a “verdadeira Alemanha”.

Ainda em filmes sob temática nazista, vale lembrar a apenas razoável produção recente: Um Homem Bom (dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim em 2008). Viggo Mortensen interpreta um escritor alemão no início dos anos 30 na Alemanha, ganhando prestígio acadêmico no país por ter escrito um livro cujo único mérito foi fazer apologia da eutanásia de doentes. Mesmo – no contexto do filme – o livro ter sido escrito antes do regime nazista chegar ao poder e, mesmo o autor não sendo [ainda] um nazista, o livro cai nas graças do partido e o autor virou celebridade, um intelectual nazista “orgânico”, expondo algumas idéias importantes ao sistema, antes mesmo que a própria propaganda oficial o fizesse.

A sutileza domina sem esforço, prende sem amarras, arraiga costumes e vontades de uma determinada corrente política, de uma vontade de classe, e as traveste de uma vontade universal, dando um ar de naturalidades a construções históricas, sociais e ideológicas. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, pois é a que tem mais recursos para propagar suas idéias (2), muito mais importante do que suas propagandas oficiais propriamente ditas, são as obras culturais que solidificam e reafirmam seu sistema de poder, sem no entanto parecer que o fazem.

Quanto fogo anti-semita foi atiçado pelos Protocolos dos Sábios do Sião? Uma farsa literária feita pela Okrana (Polícia Secreta da Rússia Czarista) desmascarada tantas vezes que é incrível ainda acreditarem em sua veracidade. Brilhantemente produzido como obra verídica e não como propaganda do governo, este livro caiu como uma luva na ação do Czar russo na opressão de judeus “conspiradores” (3), lembrando que os judeus, já nesta época eram associados ao marxismo e subversão comunista. O fato de na época não ter sido amplamente reconhecido como propaganda anti-semita de um governo decadente à procura de justificativas para destruir seus inimigos, mas como uma obra genuína e “isenta”, deu aos Protocolos até hoje uma aura de verdade, aparecendo vez ou outra na verborragia anti-semita, mais de 100 anos depois de sua criação.

Ainda na Rússia, mas no caso soviético, muito além do evidente culto à personalidade instaurado durante o stalinismo, perpetuado pelos seus sucessores e copiado na China e na Coréia do Norte, caracterizado pela reafirmação sistemática das idéias do partido comunista, heroísmo e genialidade de seus líderes e mentores ideológicos, temos uma produção cultural altamente pró-sistema feitos sem ser explicitamente como tal, ainda que, alguns, tivessem recebido verbas estatais para tal.

A Queda da Dinastia Romanov (Esfir Shub, 1927), Aelita (Yakov Protazanov, 1924), Mãe (Vsevolod Pudovkin, 1926), todos filmes pré-stalinistas, são muito mais sutis e, digamos elegantes, em sua apologia “aos novos tempos soviéticos”. Na época em que os vários estúdios de cinema eram independentes de controle central mas igualmente comprometidos com a revolução, vemos uma apologia ao futuro, uma rejeição à tradição czarista e reafirmação da importância de abandonar as idéias atrasadas da nobreza, da Rússia antiga e abraçar o novo caminho escolhido. Está tudo lá: a reafirmação do conflito de classes, da nobreza atrasada oprimindo a população, a importância da resiliência da população comum, glorificando o trabalho árduo com a esperança de melhorias reais ao derrubar o passado, o sacrifício na construção de algo novo, a reafirmação da resistência para aguentar os tempos difíceis que se seguiam (4) e construir um novo país.

É notável porém, em outros filmes não descaradamente pró-regime (5) de Sergei Eisenstein, como Alexander Nevsky (1938) e Ivan, o terrível (1944), perceber a mudança das diretrizes ideológico-políticas do partido central, passando a exaltar outros valores diferentes daqueles dos anos 20. Liderança dura de um chefe para o bem nacional, união do país em sacrifício para manter o que foi conquistado, vigilância contra um perigo que ameaça a ordem, uma frequente reafirmação do poder do governo através de uma releitura da tradição czarista. De uma maneira geral, enquanto nos anos 20 pregavam os tempos de mudança, rejeição ao passado feudal e corrupto, numa visão otimista e “olhando para o futuro; nos anos 30 a tendência foi de reforçar a imagem de uma liderança forte, do sacrifício em defesa do que foi construído, reinventando o passado para justificar e reafirmar o presente.

Ainda em ditaduras vermelhas, falarei rapidamente da China que tinha o padrão de permitir apenas filmes claramente pró-regime, com pouca ou nenhuma sutileza, vou lembrar apenas de um blockbuster chinês em particular, que teve grande sucesso e chegou ao ocidente como obra prima: Herói (2002) de Zhang Yimun, a reinvenção de um passado específico para afirmar o sistema presente. Herói é um épico sobre a tentativa de assassinato de um imperador que está tentando a todo custo unificar o país e quando o seu assassino percebe isso, desiste de seu plano de assassiná-lo, se tornando um mártir para a unificação e aceitação da vontade do imperador.

No geral, é bem claro em regimes autoritários a máxima de Marx (2), a força política dominante construiu e pautou todo um aparato midiático propagandístico pró-sistema, repercutiu suas idéias, consolidou e difundiu a ideologia dominante, ora explicitamente, ora implicitamente. Depois de estabilizadas, as forças dominantes não se preocuparam muito em enganar e ludibriar sua população com propagandas ardilosas e dissimuladas, no caso específico de comunistas, nunca foi este o seu método, em geral seguiram bem à risca o panfleto de Karl Marx:  “Os comunistas não se rebaixam em dissimular suas idéias e seus objetivos” (6).  Assim, é bem fácil identificar em seus regimes quando estamos vendo propaganda e quando estamos vendo “ficção”.

Mas seria esta uma exclusividade das ditaduras? Até aonde vai a propaganda do sistema no “mundo livre”?

Na parte 2, semana que vem, mostrarei que não.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – Ministério da Verdade foi um termo extraído do livro 1984, de George Orwell.

2 – Citado em A Ideologia Alemã, de Karl Marx: “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual.” (IN: http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm)

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_Protocols_of_the_Elders_of_Zion

4 – Além da Guerra Civil interna a Rússia combateu 7 nações invasoras no início dos anos 20, causando fome e escassez generalizada dada a destruição dos campos).

5 – Entende-se por não descaradamente  filmes que não falam do partido ou contenham qualquer slogan claro do partido, são obras de ficção histórica e não documentários ou filmes educativos.

6 – Manifesto Comunista, Seção IV, página 58 (Instituto José Luis e Rosa Sunderman, 2003).

A previsível reeleição de Barack Obama

Obituário Tea Party

“Obituário da América” que Tea Party proclamou após a derrota.

Nas eleições recentes, dia 6.11.2012, os eleitores norte-americanos reelegeram Barack Obama como presidente daquele país, para mais quatro anos de mandato. Para nós do Rio Revolta, o resultado não causa a menor surpresa.

Vejamos porque.

O governo Obama

O fator crucial para este resultado não foi a relativamente baixa aprovação da administração Obama (1), que em seu primeiro mandado foi, para dizer o mínimo, decepcionante. A economia norte-americana continuou por todo o período em estado letárgico, embora em lenta recuperação. Por sua vez, o desemprego (oficial), embora com tendência declinante (2), permanece elevado – 7,9% da força de trabalho em outubro de 2012. Dito dessa forma, parece pouco. Mas percentuais são números, e não pessoas, e o número delas que se encontra atualmente sem emprego nos EUA é de 12,3 milhões.

Tudo isso, em boa parte, porque os Estados Unidos não se permitem criar um banco estatal de desenvolvimento, como o BNDES brasileiro.

Para os americanos, bancos estatais, mesmo os que só financiam os negócios burgueses, caracterizam socialismo.
O máximo que a histeria ideológica dos americanos pelo que chamam (embora não pratiquem) de livre-mercado lhes permitiu conceber contra a crise financeira foram pacotes trilionários de resgate para setores considerados absolutamente essenciais à sobrevivência de seu capitalismo, como os bancos e a indústria automobilística.
Em resumo, transferiram uma montanha incalculável de dinheiro para as mãos dos mesmos banqueiros que emprestaram e especularam tão ostensivamente, e de forma tão temerária, que criaram uma bolha de endividamento cujo estouro levou o sistema ao colapso.

Colapso que só não se concretizou, de fato, devido à intervenção estatal nos chamados mercados.

Os governos Bush e Obama também salvaram suas indústrias automobilísticas nacionais como a GM, Ford e Chrysler, embora elas tenham se tornado muito menos eficientes que as indústrias japonesas – Toyota e Honda -, que já dominam boa parte do mercado consumidor do país (3).

Fossem seguir à risca o livre-mercado que pregam, os norte-americanos teriam deixado suas fábricas nacionais morrerem. Afinal, é natural do pleno funcionamento do livre-mercado a eliminação dos menos eficientes…

Em suma, os pacotões trilionários foram uma criação de Bush endossada por Obama, verdadeiro prêmio à eficiência de seus banqueiros e industriais, no melhor estilo da meritocracia americana. Tudo para garantir que a ciranda financeira prossiga normalmente. A única coisa de maior interesse que Obama criou em seu 1° mandato foi, incontestavelmente, o Patient Protection and Affordable Care Act – também conhecido como Obamacare (4).

Trata-se de um sistema público de cobertura médica para boa parte da população do país que, até então, não possuía recursos para ter acesso aos serviços de assistência médica privados. Um número estimado em 50 milhões de pessoas (5), no país mais rico do mundo.  Desnecessário dizer que, por isso, Obama foi logo taxado de socialista. Sim porque, sem dúvidas, a existência de um sistema público de saúde compromete irreversivelmente a liberdade de escolha do indivíduo…

Não pretendemos nem lembrar a política externa, na qual Obama – Prêmio Nobel da Paz em 2009 (6) -, como todo presidente norte-americano, teve atuação criminosa. Promoveu ou foi, no mínimo, conivente com o golpe de Estado em Honduras; apoiou política e materialmente a invasão ocidental da Líbia; encerrou a ocupação no Iraque é verdade (nota do editor n°1), mas a mantém no Afeganistão; violou a soberania (?) nacional do Paquistão para – assim se acredita – eliminar Osama bin Laden; reforçou a Quarta Frota Americana para o Atlântico Sul, (re)criação de Bush filho em abril de 2008 (nota do editor n°2); além de apoiar o golpe branco do Paraguai, levando a cabo as claras intenções de criação de uma base militar no país (nota do editor n°3).

Enfim, pode-se argumentar, como atenuante para sua performance decepcionante, que Obama teve que lidar, na segunda metade do seu mandato, com um legislativo que lhe era francamente hostil. Particularmente, estamos falando da Câmara dos Representantes, de maioria amplamente republicana a partir da metade de seu mandato – no Senado, a maioria era, e continuará sendo, democrata (53 senadores contra 47 republicanos) (7).

Uma maioria republicana que, por sinal, foi renovada nestas eleições: agora serão 240 republicanos (em 2010 eram 242) contra 190 democratas (em 2010 eram 193) (8). Vale lembrar que, em 2008, na esteira da vitória de Obama nas eleições presidenciais, os democratas tinham 257 congressistas e os republicanos, 178, momento em que Obama desfrutou, portanto, de ampla maioria nas duas casas do Congresso. De qualquer maneira, não foi um grande governo. De estadista, Obama pode até ter a pose e o carisma, mas careceu de grandes feitos e idéias.

Porque então, apesar disso tudo, Obama foi reeleito?

O Partido Republicano e o Tea Party: um circo dos horrores

Obama teve seu trabalho para a reeleição enormemente facilitado por um simples fato: a impressionante desconexão entre o pensamento (?) atual dos republicanos e a realidade. O fato é que o Partido Republicano encontra-se hoje refém de uma ala, e precisamente da mais radical, o chamado Tea Party (9).

Um grupo composto em sua maioria por fundamentalistas religiosos e econômicos dos estados do sul e do meio-oeste dos Estados Unidos e que acreditam em ou defendem fervorosamente coisas como:

– o ideal de governo mínimo e um rigoroso e inflexível equilíbrio fiscal;
– o livre funcionamento do que chamam de mercados;
– o que consideram ser o empreendedorismo individual;
– políticas ferrenhamente anti-imigratórias;
– o ensino do criacionismo nas escolas;
– o excepcionalismo histórico dos EUA e o cumprimento de sua missão civilizatória no mundo;
– e a superioridade de seus valores culturais e de suas instituições políticas.

Por outro lado, os membros do Tea Party se opõem visceralmente a:

– impostos em geral;
– expansão dos gastos governamentais, do endividamento e do déficit público;
– prestação de serviços públicos à sociedade, coisa que consideram ser socialismo;
– a atuação dos EUA enquanto polícia internacional; defendem um retorno ao tradicional isolacionismo anterior ao século XX;
– facilitação de concessão de cidadania ou visto de permanência aos imigrantes;
– liberação do aborto em qualquer caso; entre outros.

Em resumo, trata-se de uma reação conservadora extremamente exacerbada ao caminhar da sociedade norte-americana para os valores do liberalismo e do multiculturalismo, tal qual à expansão das funções governamentais do Estado norte-americano.

Embora isoladamente muitos desses valores sejam, sem dúvidas, ideais tradicionais na cultura política norte-americana, sua sistematização enquanto doutrina (10) e a inflexibilidade com que são defendidos caracterizam o Tea Party. E não necessariamente todos os demais eleitores nem mesmo republicanos, que dirá de todo o país.

Posto isso, podemos dizer que as falhas de estratégia política da campanha republicana para 2012 foram clamorosas.
Por curioso que pareça, os republicanos começaram até relativamente bem ao escolher nas primárias Mitt Romney, ex-governador de Massachussets, um estado de forte tendência democrática e liberal.  Uma opção, a princípio, menos ortodoxa do que o libertário Ron Paul, a tea-partier Michelle Bachmann e o fanfarrão Newt Gingrich.

Romney, um mórmon, fez um governo considerado moderado em seu estado, no qual aprovou uma legislação de seguridade social em muito semelhante ao Obamacare que viria futuramente a criticar. Ryan, católico e, por contraditório que possa parecer, objetivista (11), foi escolhido por Romney para ser seu companheiro de chapa por se aproximar do extremismo do Tea Party em questões como a defesa das liberdades individuais e do governo mínimo (12).
Embora já apontasse para uma acomodação com os ideais extremistas do Tea Party, a chapa Romney-Ryan ainda não era, dentro do que se poderia esperar dos republicanos, das mais ortodoxas. Estava mais próxima do centro político do que a grande maioria dos outros potenciais candidatos republicanos. Todavia, como se não bastasse esse gesto, falas terríveis e desastradas de Romney fizeram lembrar os mais belos ideais do Tea Party.  Senão, vejamos alguns exemplos:

– Gravado por câmera escondida, Romney diz, em jantar privado de arrecadação de fundos, que 47% do eleitorado não pagam imposto e dependem do governo e, por isso, não deveria perder seu tempo com eles, pois automaticamente votariam em Obama (13). Com isso ele hostilizou e se afastou do que ele próprio percebeu como quase a metade do eleitorado do país;

– Criticando o Obamacare, Romney diz, num país atualmente com 12,3 milhões de desempregados: “[…] eu gosto de poder demitir pessoas que trabalham para mim” (14);

– Romney, empresário multi-milionário, não se dispôs a abrir suas declarações de imposto de renda, apesar das enormes pressões que sofreu para tal. Pairam sobre ele suspeitas de uso de artifícios para driblar o fisco dos EUA;

– Romney retoma um velho tema da cultura política norte-americana ao dizer que “Deus fez a América para dominar o mundo” (15).

Como se não bastasse, seus companheiros republicanos não se sairam muito melhor:

– Todd Akin, candidato do Partido Republicano ao Senado pelo Estado americano de Missouri e (acredite) membro do Comitê de Ciência da Câmara dos Deputados, diz: “[…] no caso de um estupro legítimo (sic), o corpo feminino tem maneiras de bloquear essa coisa toda” (16);

– Richard Mourdock, candidato ao senado por Indiana, diz que “[…] gravidez após um estupro é a vontade de Deus” (17).

Não deve nos causar nenhuma surpresa que, mesmo num país repleto de fanáticos e fundamentalistas como os EUA, nenhum desses indivíduos tenha sido eleito. Preço justo a se pagar para um partido cujos sensíveis candidatos descartaram a priori: 47% do eleitorado; imigrantes; desempregados; e mulheres.

Rumo à renovação (?) republicana

Rio Revolta credita este tipo de crenças à sandice, à ignorância, à pura e simples cegueira. Porque é difícil crer que tenha se tratado de uma estratégia (?) eleitoral. Se foi, foi das mais estúpidas. Porque os fundamentalistas do Tea Party não votariam, com a mais absoluta certeza, num liberal negro com possíveis raízes familiares islâmicas como Barack Hussein Obama.

Romney e seus comparsas fizeram, portanto, campanha para seus mais-do-que-prováveis-eleitores, ao passo que, distanciando-se do centro político – dos independentes, dos conservadores que, apesar disso, são democratas (coisa que existe) e dos republicanos mais liberais (coisa que também existe) – os entregaram todos de presente nas mãos de Barack Obama.

Em suma, o pensamento (?) atual do Tea Party que dominou a retórica dos republicanos não permite adequar o partido, suas figuras e seus ideais à atual realidade demográfica e sócio-cultural dos Estados Unidos. Pelo contrário, cada vez mais fundamentalista, anti-social, xenófobo e rancoroso, o Tea Party pretende que o país se adeque às suas idéias. Parecem incapazes de compreender que o domínio atual dos EUA sobre o planeta requer, entre outras coisas, a difusão de seus valores e instituições liberais, a aceitação da imigração em grande escala e um Estado grande, poderoso e comandante.

Como bons fanáticos que são, pensam (?) que a realidade é que deve se adequar às suas teses, e não essas que deveriam explicar aquela. Para o Partido Republicano, a mensagem das eleições de 2012 deve ser clara. Sua viabilidade eleitoral requer que se adeque aos novos tempos, ao invés de fazer concessões a um grupo que permanece pregando uma América majoritariamente branca, conservadora, profundamente religiosa e pura e superior em seus valores e suas ações.

Uma América, em suma, que não existe mais.

E só mesmo o alucinado Tea Party para criar uma figura como essa que ilustra esse texto (18), sem perceber que a “morte” decretada ontém não foi da América mas, possivelmente, de si mesmo.

Daniel Kosinski

Notas

1 – http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_presidential_approval_rating

2 – http://data.bls.gov/pdq/SurveyOutputServlet?request_action=wh&graph_name=LN_cpsbref3

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/Effects_of_the_2008%E2%80%932010_automotive_industry_crisis_on_the_United_States

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Patient_Protection_and_Affordable_Care_Act

5 – http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2012/10/04/obama-revogacao-do-obamacare-deixaria-50-milhoes-sem-cobertura.htm

6 – http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/

7 – http://en.wikipedia.org/wiki/2012_senate_elections

8 – http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_House_of_Representatives_elections,_2012

9 – http://en.wikipedia.org/wiki/Tea_Party_movement

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Pledge_to_America

11 – Trata-se de uma filosofia política, muito contestada na academia, elaborada por uma pensadora de origem russa chamada Ayn Rand. É uma visão de mundo radicalmente racional e ateísta. Por ocasião das eleições 2012, pressionado pelos tea-partiers, Ryan negou ligação com essa doutrina.

12 – http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_ryan

13 – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/67020-gafes-em-serie-abalam-campanha-de-romney.shtml

14 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120110_primarias_new_hampshire_ac.shtml

15 – http://www.clicksergipe.com.br/1n_blog.asp?postagem=70856

16 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120820_estupro_deputado_ru.shtml

17 – http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-10-24/candidato-republicano-ao-senado-diz-que-gravidez-pos-estupro-e-vontade-de-deus.html

18 – http://oglobo.globo.com/topico-eleicoes-americanas/movimento-tea-party-declara-morte-dos-estados-unidos-apos-vitoria-de-obama-6664136

Notas do Editor (Leandro Dias)

1 – Obama de fato retirou formalmente as tropas oficiais do Iraque, ainda que todas as grandes corporações americanas de segurança (Private Military Contractors), dentre elas a famosa Blackwater, formem um contingente expressivo, substituindo o exército americano na maioria das tarefas. Nos primeiros 4 anos de guerra no Iraque, mesmo com maciça presença americana no país, os EUA gastaram 10 bilhões de dólares com estas empresas (http://www.thedailybeast.com/newsweek/2010/08/10/mercenaries-in-iraq-to-take-over-soldiers-jobs.html)

2 – http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u418285.shtml

3 – http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1293057&tit=Paraguai-discute-possibilidade-de-abrigar-base-militar-norte-americana

Alguns comentários sobre as eleições 2012: José Serra e o PSDB

Bento Carneiro?

Rio Revolta não vê grandes fatos a serem comentados sobre o resultado das eleições municipais de 2012. Por isso, destacaremos apenas aqueles dois que consideramos de alguma relevância: a derrota de José Serra em São Paulo, e o crescimento do PSB enquanto partido, ambos fatos com repercussões certas em 2014. No post presente, abordaremos a primeira destas questões.

José Serra

Foi sem dúvidas o grande derrotado destas eleições. Confesso que sua vitória me parecia certa antes do início da campanha em si, dado o tradicional conservadorismo dos paulistanos, acostumados a passar cheques em branco para o tucanato.

Somava-se a este fato a intensa propaganda anti-petista veiculada diariamente pelos veículos de comunicação de massa, em uníssono, através da fabricação do que estão chamando de mensalão (que comentamos aqui).

Mas desta vez, nem mesmo tudo isso foi suficiente. A derrota de Serra foi acachapante, senão mesmo humilhante, considerando-se a virtual inexistência política de Fernando Haddad antes de sua empreitada à prefeitura de SP.

Por sinal, é a segunda vez que Lula inventa, do nada, um candidato vitorioso sobre José Serra. A 1ª vez foi na eleição da atual presidente do país, Dilma Roussef, em 2010.

Ganhar do Serra está mesmo muito fácil.

Rio Revolta considera excelente a derrota de José Serra. Trata-se de uma figura política deprimente; suas campanhas eleitorais são sempre baixas, apelativas (1); seus “governos”, infelizes.

Sua ambição é desmedida e muito superior às suas capacidades.

Quanto aos seus “governos” (com muitas aspas), vale lembrar que costumam durar pouco, as vezes muito pouco, leia-se, até as próximas eleições.

Prefeito eleito de São Paulo em 2004, abandonou o cargo apenas 15 meses depois, para concorrer ao governo do estado em 2006 (eleição que, apesar desta flagrante demonstração de “comprometimento” com seu eleitor, ele ganhou).

Foi quando Serra entregou a prefeitura para uma figura então obscuríssima e totalmente desconhecida que atendia pelo nome de Gilberto Kassab.

Espécie assustadora de frankenstein (2), essa “brilhante” criatura política inventada por José Serra ainda conseguiu se reeleger em 2008, embora, ao que tudo indica, tenha feito um “governo” verdadeiramente lamentável (3).

Mas a vida é mesmo muito curiosa.

Eis que anos depois, nas eleições municipais de 2014, José Serra, com mais uma derrota presidencial adicionada ao seu currículo e apostando suas últimas cartas na política, sai como candidato à Prefeitura da administração de….. Gilberto Kassab, sua criatura!

E a elevadíssima rejeição deste último, somado ao desgaste da imagem de José Serra, se materializam em sua derrota para Fernando Haddad do PT e, queremos crer, em seu definitivo enterro político (como indigente).

José Serra: ambição, traição e incompetência

A verdade é que José Serra já vinha sendo, faz tempo, uma força negativa para os resultados eleitorais nacionais do PSDB, embora tenha conquistado vitórias importantes em São Paulo e um número expressivo de votos na derrota para Dilma.

Vale lembrar de alguns fatos.

Nas eleições presidenciais de 2002, o então-PFL-atual-DEM, fiel escudeiro do PSDB durante os oito trágicos anos do reinado de Fernando Henrique Cardoso (4), propôs uma inversão de papéis. A proposta era que, ao contrário do período 1995-2002, o PFL apontaria o candidato à presidência da República e ao PSDB caberia a vice-presidência.

Uma idéia que não era, em si, nada absurda.

Vamos lembrar que, em 2002, o PFL controlava 1.028 prefeituras, contra 990 do PSDB (5); governava seis estados (AM, BA, MA, PR, RO, TO), e o PSDB, sete (CE, ES, GO, MT, PA, SP, SE) (6); possuía 105 deputados federais, contra 99 do PSDB; e 20 senadores, contra 16 do PSDB (7).

Ou seja, excetuando-se a presidência da República, o PFL, enquanto partido, era até mesmo ligeiramente maior que o PSDB.

Para aplicar seu plano, os pefelistas só não contavam com dois problemas: as enormes ambições de José Serra; e os vínculos orgânicos do PSDB com a grande mídia, também chamada de PIG (8).

De fato, o PSDB recusou a proposta e o PFL a revelia lançou a candidatura de Roseana Sarney que, tão logo ganhou alguma envergadura, chegando a quase 30% das intenções de voto segundo as pesquisas (9), foi impiedosamente torpedeada pela mídia tucana, retirando sua candidatura ainda em março de 2002.

Roseana Sarney e as ambições presidenciais pefelistas foram tão brutalmente torpedeadas como teria sido – e muitos foram – qualquer candidato do PT.

Mas vamos concordar que não era preciso grande arapongagem para descobrir as picaretagens de um Sarney…..

Assim, estava aberto o caminho do campo conservador para mais uma candidatura tucana, e o indicado, como se esperava, foi José Serra, já desde então queridinho da mídia, ministro da Saúde do “governo” FHC e a quem se atribuía a criação dos medicamentos genéricos.

Mas a resposta do PFL à tremenda ingratidão dos ambiciosos e traidores tucanos foi clara: seus figurões não participaram ativamente da campanha presidencial do PSDB e o partido não apontou um quadro seu para a vice-presidência na chapa de Serra (10).

E foi assim que as ambições de Serra, alimentadas pela mídia tucana que lhe é subserviente, puseram fim à virtuosa (para eles) coligação conservadora PSDB-PFL que havia sustentado a presidência FHC.

Sem dúvidas, valiosa contribuição de José Serra para a vitória de Lula em 2002.

Em 2006, com Serra fora do páreo na presidência – foi candidato vitorioso ao governo de SP -, Geraldo Alckmin foi o candidato tucano derrotado por Lula.

Por sinal, aquele que chegou mais próximo de derrotar o PT desde 2002, pelo menos, no 1° turno (11).

Nas eleições presidenciais de 2010, o nome mais viável eleitoralmente do PSDB já era, sem dúvidas, o de Aécio Neves, que significaria uma renovação na liderança do partido e encontrava-se muito prestigiado após seus dois mandatos como governador de Minas Gerais, o 2° maior colégio eleitoral do país.

Aécio defendia a realização de prévias dentro do partido entre ele e Serra, para definir o candidato.

Todavia, José Serra e Geraldo Alckmin, no comando do PSDB de São Paulo, impuseram a candidatura Serra ao partido.

Como Aécio Neves ainda era relativamente novo (então com 50 anos) e podia esperar, acabou lançando-se candidato ao Senado, fato que, de certa maneira, acomodou as forças, permitindo a Serra ser o candidato sem prévias num partido, teoricamente, unido.

Contudo, ao lançar-se candidato a senador, Aécio automaticamente rejeitou a possibilidade de compor chapa com Serra, no papel de vice-presidente. Esvaziava assim aquela que poderia ser, teoricamente, a chapa tucana mais forte à presidência.

É de se duvidar se até mesmo em Minas Gerais Aécio tenha se empenhado pela vitória de Serra como poderia se esperar; ou talvez, tenha mesmo apoiado, tacitamente, a sua derrota (12).

E assim José Serra, mais uma vez e como quase sempre, desagregou suas próprias forças e perdeu as eleições.

O fim (?) político de José Serra e o PSDB

O problema é que, ao contrário do que possa parecer óbvio num primeiro momento, a provável – mas nada certa (13) – morte política de José Serra pode não ser um fato a ser comemorado por aqueles que, como nós do Rio Revolta, fazemos oposição visceral às figuras e aos valores políticos do tucanato e a tudo que lhes diz respeito.

Por sinal, o invejoso Fernando Henrique Cardoso, também enterrado politicamente como indigente desde 2002, já se encontra em campanha aberta para impor seu mesmo e trágico destino ao camarada José Serra (14).

Sem dúvidas, para aqueles que, como Aécio Neves, pretendiam tomar o controle do PSDB das mãos de Serra e, de forma mais ampla, do tucanato paulista, essa é a hora.

Para um político com a visibilidade e a experiência de Serra, perder uma eleição municipal no seu quintal equivale a uma sentença de inviabilidade eleitoral.

Porém, é importante explicarmos: com inviabilidade eleitoral queremos dizer, disputar cargos majoritários, Poder Executivo.

Isso porque, apesar de tudo, não temos dúvidas de que, infelizmente, Serra permanecerá sendo um sério contendor em eleições legislativas. São Paulo o elegeria facilmente deputado federal ou senador, talvez com votação recorde.

De qualquer forma, será mesmo necessária muita lealdade de seus aliados para que não o abandonem.

Lealdade e política são duas coisas que, em geral, não combinam.

Politicamente, Serra está completamente esvaziado; mas egocêntrico e pretensioso que é, por certo, não desistirá de seus delírios de grandeza.

Está certo e nada parece convencê-lo do contrário de que, apesar dos já 70 anos de idade, de todas as derrotas sofridas, de todo o desgaste e falta de credibilidade junto ao eleitorado e da sua estética de vampiro, ainda pode ser presidente da República.

Em todo caso, para nós que nos opomos e combatemos o tucanato, seria ótimo que Serra ganhasse essa disputa e conseguisse sobreviver politicamente.

Com isso, o PSDB não se renovaria, Serra continuaria disputando eleições majoritárias e, quem sabe, até mesmo a presidência em 2014, 2018, 2030, 2050, sabe-se lá.

Seriam derrotas certas que assegurariam a este país que os tucanos jamais voltariam a administrá-lo.

Um cenário, todavia, que parece pouco provável.

Acreditamos mesmo que, desta vez, o vampiro morreu.

A conferir.

Antonio Gordo

1 – A lista é extensa, de cabeça, lembro de alguns episódios da campanha presidencial de 2010: a “agressão da bolinha de papel”; o uso manipulativo de uma filiação à Igreja Católica que nunca existiu (visita a Aparecida, por exemplo); a propaganda que tentou vincular Dilma à defesa do aborto; e etc.

2 – http://www.youtube.com/watch?v=DwZRpy1CQCg

3 – http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-08-17/avaliacao-negativa-da-gestao-kassab-e-de-43-diz-ibope.html

4 – Sim, reinado: sua coalizão tinha a maioria esmagadora da Câmara dos Deputados, do Senado e dos governos estaduais; contava com apoio irrestrito da grande mídia/PIG; ditou um número espantoso de medidas provisórias; privatizou/doou quase tudo que quis; e por fim, comprou sua própria reeleição.

5 – http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2004-10-04/pt-pl-e-pps-estao-em-ascensao-nas-prefeituras-desde-1996

6 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_gerais_no_Brasil_em_1998

7 – http://www.ipu.org/parline-e/reports/arc/2044_98.htm

8 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_da_Imprensa_Golpista

9 – http://www1.uol.com.br/fernandorodrigues/arquivos/pesquisas/eleicoes2002/pres.shl

10 – A candidata a vice-presidência na chapa de Serra foi a eleitoralmente expressiva tucana do Espírito Santo, Rita Camata. O PSDB se apresentou, portanto, como uma chapa puro-sangue.

11 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_presidencial_brasileira_de_2006

12 – O voto “Dilmécio” foi majoritário em Minas Gerais naquelas eleições.

13- http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,apos-derrota-serra-diz-a-tucanos-que-renovacao-e-coisa-do-pt,953695,0.htm

14 – http://oglobo.globo.com/topico-eleicoes-2012/serra-critica-tese-de-fh-sobre-renovacao-no-psdb-6604836