Rio Revolta

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Hitler e o Socialismo

Hitler socializando com companheiros.

Em um dos mais repercutidos textos aqui do Rio Revolta, levantamos uma coleção de citações de Adolf Hitler sobre o marxismo. A finalidade, mais uma vez, era traçar um fundamental corte na posição que tenta colocar o nazismo como uma vertente do marxismo. As citações de Hitler naquele texto vieram ilustrar, com as palavras do referido, como o líder nazista tinha profundo asco da ideologia e visão de mundo marxista.

Porém, se esse asco de Hitler por Marx é inegável da a infinidade de citações no tema, ainda reside uma questão fundamental no caso. Afinal, se certamente Hitler odiava o marxismo, por que então ele regularmente se afirmava um socialista?

Para responder esta questão precisamos reafirmar o óbvio: o marxismo é uma tradição socialista, mas não é a única. Precisamos sair da dicotomia primária e inútil – “socialismo x capitalismo” – que corrói tanto a esquerda quanto a direita, e afirmar, com base no estudo histórico e econômico, que assim como Hitler, o próprio Marx identificou uma série de tipos de socialismo no seu tempo. O terceiro capítulo inteiro do Manifesto Comunista, chamado Literatura Socialista e Comunista, é dedicado a identificação dos outros tipos de socialismo e porque, segundo ele, estes modelos de socialismo estão condenados ao fracasso. Esta parte do seu livro-panfleto parece até hoje não ter entrado na cabeça de muitos dos seus leitores, na esquerda ou na direita.

Assim, para identificarmos os diversos tipos de socialismos existentes, faz-se importante dar uma rápida passada neste capítulo do Manifesto Comunista e acrescentar o que for relevante aos dias de hoje. Assim temos como tipos identificáveis de socialismo:

1. O socialismo feudal: é o socialismo que pretende voltar as relações sociais pré-capitalistas, buscando superar os problemas sociais gerados pelo mundo burguês, retornando à sociedade patriarcal e hierárquica do Ancien Regime. Caminhando junto com o socialismo cristão, superaria através da caridade e relações entre senhor, vassalo e camponês uma sociedade harmoniosa onde todos têm o seu lugar divinamente estabelecidos, não havendo espaço para o individualismo burguês e proletário. Ainda hoje o Socialismo Cristão tem importantes núcleos pelo mundo, tentando superar as agruras capitalistas através da solidariedade, trabalho voluntário e políticas estatais assistencialistas. O Papa Francisco poderia ser considerado um proeminente membro do Socialismo Cristão.

2. O socialismo pequeno-burguês: formado por pequenos proprietários urbanos (pequeno-burgueses), artesãos e pequenos camponeses. Ora ameaçados de proletarização pela concorrência com a grande indústria e esmagados pelos grandes proprietários rurais, estes socialistas reconheceram os problemas da sociedade burguesa e do feudalismo anterior, mas sua solução era simplesmente criar meios para evitar o inevitável: seu negócio/propriedade ser destruído pela concorrência com os grandes capitalistas e proprietários. “Para a manufatura, o regime corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal [familiar]”. Essa vertente socialista existe até os dias de hoje em alguns lugares do mundo e, com menor ou maior grau, consegue proteger a pequena propriedade urbana e rural da concorrência do grande capital através de impostos, taxações diferenciadas, regimes especiais (métodos inexistentes na época de Marx) e medidas muitas delas elaboradas por não socialistas como Otto Von Bismarck (criador das pensões públicas de aposentadoria) e John Maynard Keynes. Com Keynes, nos anos 1920 e 30, esta vertente ganhou importante embasamento teórico e aplicação econômica, permanecendo até hoje como alternativa capitalista ao liberalismo selvagem. Porém, com o imenso poder adquirido pelo grande capitalismo e subsequente concentração de propriedade e renda nos últimos 30 anos, essa vertente, como solução sistêmica, apesar de nos presentear com figuras incríveis como Pepe Mujica, cada vez mais, beira a utopia.

3. O socialismo Alemão ou o “verdadeiro” socialismo”. Essa é a mais importante passagem para nossa comparação com Hitler e o nazismo, pois toca em pontos fundamentais da seperação entre o “socialismo alemão” (que se auto-proclamava “socialismo verdadeiro”) e o socialismo de Marx (chamado hoje de marxismo). Para este, o “socialismo alemão” era uma versão do socialismo pequeno burguês, mas mais radical. Para estes socialistas, dizia o autor: “a supremacia industrial e apolítica da burguesia ameaça a pequena burguesia de destruição certa, de um lado, pela concentração de capitais, de outro, pelo desenvolvimento de um proletariado revolucionário. O verdadeiro socialismo pareceu aos pequenos burgues como uma arma capaz de aniquilar esses dois inimigos. Propagou-se como uma epidemia”. (MC, cap. III, pág. 54).

Marx prossegue em trecho ainda mais importante:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes. Com poucas exceções, todas as pretensas publicações socialistas ou comunistas que circulavam na Alemanha pertencem a esta imunda e enervante literatura.” (MC, cap III, pag 54-55, grifo nosso).

Voltaremos neste ponto mais adiante.

4. O socialismo conservador ou burguês: “uma parte da burguesia procura remediar os males sociais com o fim de consolidar a sociedade burguesa” (MC, cap III, pag 55). Com esta frase Marx abre o trecho sobre o socialismo conservador. Para Marx, “os socialistas burgueses querem as condições de vida da sociedade moderna, sem as lutas e os perigos que dela decorrem”. É ao mesmo tempo o socialismo reformista e o social-liberalismo, que buscam transformar as condições de vida material dos trabalhadores, sem no entanto mexer nas relações burguesas de produção.

No fundo, querem apenas reformas administrativas que acabam por fim, aprofundando o domínio burguês da sociedade. “Livre câmbio, no interesse da classe operária! Tarifas protetoras, no interesse da classe operária! Prisões celulares no interesse da classe operária!”. Enfim, “os burgueses são burgueses – no interesse da classe operária” (MC, cap III, pag 57). Soa quase como anedota, mas hoje ainda vemos isso de maneira evidente no Brasil: “Subsídios às montadoras, no interesse dos trabalhadores”. “Desoneração de grandes fortunas, no interesse dos trabalhadores!”. Afinal, é preciso crescer o bolo para depois reparti-lo ou dar migalhas para os trabalhadores. Usando o critério de Marx seria a vertente mais comum do socialismo hoje e de tão cretina que nos soa hoje, poucos que usam deste colorário têm a cara de pau de se intitularem socialistas.

5. O socialismo utópico: Marx coloca nesta categoria todos os socialistas que se atém mais a escrever sobre uma sociedade futura ideal perfeita, do que a pensar a analisar as reais condições que geraram a sociedade presente e como não reproduzi-las novamente. Ele diz:

“[sonham] com a realização experimental de suas utopias sociais: estabelecimento de falanstérios isolados, criação de colônias no interior, fundação de uma pequena Icária, edição de uma nova Jerusalém e, para dar realidade a todos esses castelos de ar, vêem-se obrigados a apelar para os bons sentimentos e os cofres dos filantropos burgueses”.

Nesta categoria, atualmente entrariam desde os que pensam em refundar uma sociedade hippie isolada, ou nos que vêem idilicamente uma sociedade tribal emulando uma sociedade indígena idealizada ou em alguns com pretensões mais elaboradas, o movimento Zeitgeist todo.

6. Por fim, apesar de Marx colocar o socialismo libertário pejorativamente como socialismo utópico, a tradição socialista libertária, também conhecida como “anarquismo”, ainda é bem representativa e foi responsável por grandes momentos da história dos trabalhadores brasileiros. As greves de 1917 (São Paulo)1918 (Rio de Janeiro), conseguiu feitos sem precedentes no país, sendo pouco depois esmagada com violência. E ainda, vários anarquistas participaram da fundação do Partido Comunista Brasileiro, apesar das fortes divergências que as duas correntes sempre tiveram (para curiosos, vale ler os debates entre Marx e Bakunin). Além disso, há uma forte influência anarquista na fundação da cultura cooperativista também no Brasil, mas fundamentalmente na Espanha, Itália e Alemanha.

***

Enfim, para qualquer olhar mais atento é óbvio que existem várias vertentes de socialismo não marxistas. Marx dedicou bastante do seu tempo a criticar estes socialismos que via como fadados ao fracasso ou ao embuste e enganação dos trabalhadores, causa que ele defendia. Qual causa exatamente? Acabar com a alienação do trabalhador provocada pelo regime assalariado, no qual o trabalhador vê horas de seu tempo e trabalho roubados (mais-valia) para gerar lucros para a classe parasítica, o burguês.

Mas voltemos então a questão do socialismo de Hitler.

O socialismo em Hitler

É incrível notarmos como Marx consegue descrever muito bem o tipo do socialismo reacionário dos fascistas e apontar com antescedência em torno de 70 anos, o cerne e o embuste do socialismo dos fascistas. Repetirei sua citação para entendermos melhor:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes.” (MC, cap III, pag 55)

 Ora, não era exatamente este o discurso fascista? A causa nacional está acima das mesquinhas lutas de classe e interesses individualistas dos burgueses e dos trabalhadores. “Alemanha acima de tudo”. O alemão é o filisteu ideal, a nação alemã a ideal e superior. Portanto, não é preciso fazer qualquer “rocambole explicativo”, usar fontes duvidosas ou falaciosas de fanáticos marxistas, ou usar retórica escapista para encontrar o distanciamento evidente entre nazismo e marxismo. Antes mesmo do fascismo existir per se, Marx já repudiava a base teórica e cultural do socialismo pequeno-burguês radical e nacionalista de onde o fascismo alemão surgiu e que, na visão dele, era uma “imunda e enervante literatura”. Hitler não poderia resumir melhor esse argumento:

“Quem quer que esteja preparado para fazer da causa nacional a sua própria, em tal extensão que saiba não haver maior ideal que a prosperidade de sua pátria; quem quer que haja compreendido nosso estupendo hino nacional, “Deustchland über Alles”, para significar que nada neste vasto mundo ultrapassa, a seus olhos, a Alemanha, povo e terra – esse homem é um socialista” (HITLER, Adolf IN: Hitler Reden, citado por William Shirer, opus cit. pg. 139)

O historiador Peter Gay vai buscar lá no século XVIII as origens deste socialismo autoritário alemão, típico do fascismo e nos revela com mais clareza quais as características deste socialismo:

“A luta de classes é tolice, e a Revolução Alemã, produto da teoria, é tolice também. O instinto alemão, que, arraigado no sangue é verídico, vê as coisas diferente: ‘O poder pertence a todos. O indivíduo o serve. O todo é soberano. O rei é apenas o primeiro servo de seu estado. (Frederico, o Grande) -. Todos têm o seu lugar. Existem comandos e obediência. Assim, desde o século XVIII, vinha sendo o socialismo autoritário – autoritativer – em essência antiliberal e antidemocrático – isto é, se pensarmos no liberalismo inglês ou na democracia francesa”. O alemão verdadeiro deve reconhecer as necessidades do momento e a, submisso a elas, deve transformar o socialismo do século XVIII em socialismo autoritário do século XX. ‘Juntos, prussianos e socialistas erguem-se contra o inglês dentro de nós contra a visão do mundo que penetrou em toda a existência de nosso povo, paralisou-o, e roubou-lhe a alma’. A única salvação está no ‘socialismo prussiano’; aí estão a busca […] pela comunidade e a liderança, na linguagem dos acampamentos dos oficiais”. (Gay, 1978, pg. 103).

Podemos ainda, voltando em Marx, buscar sua contundente crítica ao populismo bonapartista, típico de ditadores bem posteriores, do discurso que viria a ser largamente utilizado por fascistas no mundo inteiro para movimentar sociedades contra o comunismo (marxismo). No 18 Brumário de Bonaparte, Marx escreve:

“Durante o mês de junho todas as classes e partidos se haviam congregado no partido da ordem, contra a classe proletária, considerada como o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Tinham “salvo” a sociedade dos “inimigos da sociedade”. Tinham dado como senhas a seu exércitos as palavras de ordem da velha sociedade – “propriedade, família, religião, ordem – e proclamado aos cruzados da contra-revolução: “Sob este signo Vencerás”. A partir desse instante, tão logo um dos numerosos partidos que se haviam congregado sob esse signo contra os insurretos de junho tenta assenhorear-se do campo de batalha revolucionário em seu próprio interesse de classe, sucumbe ante o grito: “Propriedade, família religião, ordem.” A sociedade é salva tantas vezes quantas se contrai o círculo de seus dominadores e um interesse mais exclusivo se impõe ao mais amplo. Toda reivindicação ainda que da mais elementar reforma financeira burguesa, do liberalismo mais corriqueiro, do republicanismo mais formal, da democracia mais superficial, é simultaneamente castigada como um “atentado à sociedade” e estigmatizada como “socialismo”. E, finalmente, os próprios pontífices da “religião e da ordem” são derrubados a pontapés de seus trípodes píticos, arrancados de seus leitos na calada da noite, atirados em carros celulares, lançados em masmorras ou mandados para o exílio; seu templo é totalmente arrasado, suas bocas trançadas, suas penas quebradas, sua lei reduzida a frangalhos em nome da religião, da propriedade, da família e da ordem. Os burgueses fanáticos pela ordem são mortos a tiros nas sacadas de suas janelas por bandos de soldados embriagados, a santidade dos seu lares é profanada, e suas casas são bombardeadas como diversão em nome da propriedade, da família, da religião e da ordem.” (18 Brumário, pág. 36 e 37)

Ainda poderíamos usar este exemplo do 18 Brumário para a própria trajetória dos nazistas. Que com apoio de variados setores sociais, de burgueses e pequeno-burgueses, em nome dos principais valores tradicionais reacionários, da “verdadeira” família alemã, contra o “comunismo”, obteve apoio de vários setores sociais para depois, após a Noite das Facas Longas, esmagar industriais não alinhados (principalmente os que estavam envolvidos com a prisão de Hitler 12 anos antes), esmagar comunistas, socialistas (social-democratas da época) e condenar milhares de alemães à ruína em nome da Alemanha “ideal”.

Porém, isso tudo não parece suficiente para os que associam marxismo e nazismo. Entre vários outras tentativas superficiais, uma que parece recorrente é a utilização de uma citação de Hitler, encontrada na sua enorme biografia escrita por John Toland. A citação seria supostamente retirada de um discurso de 1 de Maio de 1927 e segue assim:

“Nos somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista de exploração dos economicamente fracos, com salários injustos, com a inadequada avaliação do ser humano de acordo com sua riqueza e propriedade ao invés da responsabilidade e da performance, e nós todos estamos determinados a destruir este sistema sob todas as condições” (John Toland, Hitler, p 224 – em inglês).

No entanto, se formos no original alemão, encontrado na compilação de discursos “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933“, onde temos mais de 10 fontes primárias (jornais da época) para o referido discurso, não encontraremos qualquer passagem semelhante a esta. E é incrível como Toland, jornalista prêmio Pullitzer, pôde ter errado essa importante citação. Se tivesse sido atribuída a nazistas anti-hitleristas como Otto Strasser, seria mais compreensível, ainda mais pela época (1927). Mas Hitler jamais diria algo assim. John Lucaks, autor conservador e anti-marxista do livro “O Hitler da História” (1997) afirma que John Toland inventou muitos trechos de seu livro, talvez este seja um dos casos. Enfim, para nossa argumentação aqui é apenas mais um reforço.

Além disso é comum aos associadores do nazismo com o marxismo, demonstrarem com a moeda comemorativa do Dia do Trabalho de 1934, onde figura uma água nazista com a foice e o martelo em cada lado, inegável associação do nazismo com o comunismo. Oras, uma águia com uma foice e um martelo é exatamente a cota de armas da Áustria (Primeira República 1919), e o país era alvo de intensa propaganda pró-nazista em 34 e Hitler já planejava o golpe naquela país, mas seu líder, o austrofascista Dollfuss era absolutamente anti-nazista. A comparação entre os dois está na foto abaixo:

Moeda do Trabalho e heráldica nazista.

Moeda do Trabalho e heráldica austríaca de 1919.

Vale lembrar, até para melhor entender o próprio símbolo da Áustria fora de qualquer contexto comunista, que a foice e o martelo já eram símbolos representando o trabalho do campo e a cidade há certo tempo. Essa é a mesma república austríaca que tinha Ludwig von Mises como principal conselheiro econômico do austrofascismo (1932-34). Assim para longe do simplismo panfletário anti-comunista, a foice para representar o campo está presente em diversos brasões europeus ainda na Idade Média. O martelo como símbolo do trabalho também já era mais do que popular e também podia se encontrar isolado ou combinado com a picareta. Talvez assim se explique o uso do símbolo pela Áustria e também pelos nazistas, já que nem todos os partidos comunistas usavam a foice e o martelo como símbolo. Além disso, vale lembrar também a célebre passagem de Hitler sobre a simbologia adotada:

Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente. (HITLER, Minha Luta, pag. 361)

Como mestre da propaganda e da oratória, as referências que Hitler faz tinham finalidade explícita: confundir e induzir ingênuos e curiosos de esquerda a frequentar as assembleias e eventos nazistas. Neste sentido, Hitler foi um dos pioneiros do marketing político e do discurso populista moderno. Assim, como Marx já denunciava em 1848, muitos alemães caíram no embuste do socialismo fascista e apoiaram com vigor o projeto nazista, uma “epidemia” (nas palavras de marx).

Mas enfim, o que de socialismo tinha Hitler?

Existem muitas formas de socialismo. Por exemplo, as pensões públicas por velhice (aposentadorias) foram inventadas por Otto von Bismarck nos anos de 1870. Assim como outras seguridades sociais para cidadãos alemães foram inauguradas em seu governo, resolutamente anti-marxista (inclusive com leis específicas contra os comunistas). As empresas estatais modernas, com dinheiro público de impostos, foram largamente inspiradas em socialistas não marxistas como Louis Blanchi e Charles Fourrier, a serviço do Estado Frances. Até mesmo clássicos liberais como Adam Smith, poderiam hoje, sob os critérios que se utiliza vulgarmente no discurso anti-comunista, ser classificado como “socialista”, ele escreve entre vários outros trechos:

“Os sujeitos de cada estado devem contribuir para o sustento do governo, o máximo que puderem, em proporção às suas respectivas habilidades, ou seja, em proporção à renda que eles possuem sob proteção do Estado”. (Riqueza das Nações, Livro V, capítulo II)

“Tudo para nós mesmos e nada para outras pessoas, parece, em qualquer era do mundo, a máxima vil dos mestres da humanidade”. (Riqueza das Nações, Livro III, capítulo IV)

Se formos mais longe, podemos observar a lógica de Ludwig von Mises, exposto em “Critique of Interventionism”:

“O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Sob este critério, praticamente todos os países capitalistas dos últimos 200 anos foram socialistas. A necessidade de alimentar, armar e financiar exércitos, funcionalismo público para correios, polícia, bombeiros, demanda para certo planejamento central, organização estatal, impostos e criação de empresas estatais para suprir fraquezas do setor privado. Para não falar na expansão militar que visa dar benefícios gordos ao empresariado nacional, como Cecil Rhodes ou a Cia. Das Índias Orientais bem sabem. É curioso o anti-estatismo seletivo: exército e polícia não parecem importar muito os liberais anti-socialistas. Imagino que considerem, olhando Mises, que caso as decisões importantes do Estado estiverem motivadas pelo lucro privado e sejam feitas pelo comando de capitalistas e empreendedores, talvez este Estado não seja tão autoritário e ruim pro capitalismo assim, por mais que fossem brutais contra os trabalhadores. Só desta maneira para entender como “campeões da liberdade” como Mises ou Hayek e Friedman, deram apoio ao fascismo austríaco e à ditadura de Pinochet respectivamente.

Assim, para não estender o que já está bem extenso, podemos concluir que, como diversos líderes com a mínima preocupação com a realidade econômica e social de seus países, Hitler tomou uma série de medidas socialistas. Diante de uma enorme crise financeira ele estatizou setores da economia da mesma maneira que recentemente, na crise de 2008, vários empreendimentos capitalistas foram salvos pelo Estado nos EUA e Europa e nos primeiros até mesmo estatizou-se temporariamente a Ford Motors para salvá-la da falência.

Hitler também estatizou alguns bancos para favorecer seus interesses, outros sua política favoreceu largamente seu grande aliado privado o Deutsche Bank. Além disso, no que posteriormente chamou-se de ‘keynesianismo de guerra’, incrementou a demanda militar para movimentar a industria e o emprego nacional, aumentando consideravelmente o papel do Estado na economia. Porém fez isso fortalecendo os principais fornecedores privados nacionais e internacionais: Krupp, Bayer, IBM, Ford, até mesmo a Renault, a serviço do governo fascista de Vichy, sob ocupação nazista, capturou seus lucros privados com a política socialista dos nazistas. Sobre o caso, Strasser, nazista rival de Hiler escreve:

“Eu nunca disse que toda a propriedade deva ser socializada. Ao contrário, eu sustentei que devemos socializar as propriedades que se mostram prejudiciais ao interesse nacional. Se não forem tão culpadas, eu deveria considerar um crime destruir elementos essenciais de nossa vida econômica. Pegue o fascismo italiano. Nosso estado nacional socialista, como o estado fascista, irá proteger tanto o interesse dos empregadores como o dos trabalhadores e se reservar ao direito de arbitrar em caso de disputa”. (atribuído a Hitler, IN: Strasser: Hitler and I, pag 112)

Além disso, no campo social, Hitler fortaleceu os centros comunitários, grupos mirins e sedes sindicais, agora sob bandeira nazista, com atividades que estimulassem a integração e participação popular. Claro, isto se você não fosse judeu, comunista, cigano, socialista (do tipo social-democrata), católico não submisso, qualquer um considerado “degenerado”. Enfim, pegando a lógica de grupos como os escoteiros, associações cristãs e etc, embebidas da ideologia nazista, estavam agora a serviço da integração social germanizante. Até mesmo pensou num imenso hotel de lazer coletivo na praia de Prora, para uso dos trabalhadores, porém, como o “carro do povo” (volkswagen), jamais foi usado pelo povo e ficou abandonado.

Assim, embora bastante questionável o teor desse estímulo ao coletivo, é inegável que esse aspecto fosse importante aos nazistas. Mas estas perspectivas não são invenções nazistas, são comuns no mundo todo nas mais diversas vertentes ideológicas e não tem um aspecto positivo ou negativo a priori. A organização comunitária para fins coletivos pode ter os mais variados aspectos, uns belos, outros terríveis. Dos exercícios coletivos em fábricas, tão populares no Japão e Coréia do Sul; dos “community centers” fundamentais na organização de pequenas cidades norte-americana; a cultura do “retribuir” o que a sociedade lhe deu, levando ao trabalho voluntário, tão comum em culturas protestantes. O aspecto social da política só é ignorado por gente desonesta ou ignorante, desde de Aristóteles sabemos que “o homem é um ser social”. Por outro lado, temos a Klu Klux Klan como exemplo negativo evidente; os grupos que se reúnem para espancar homossexuais ou, para citar um exemplo do cinema, a comunidade no filme “A Praia”, que vendo seu “paraíso” ameaçado, em nome do coletivo, exclui os indivíduos indesejáveis.

Enfim, o socialismo de Hitler não tinha absolutamente nada de marxista. Era o socialismo da “gemeinschaft” alemã, da comunidade alemã, em torno dos interesses nacionais alemães, seja de Estado, seja do capitalismo alemão, seja do que os nazistas atribuíssem como interesse coletivo. O socialismo dos nazistas era o socialismo das tropas, o socialismo militar, das trincheiras da Primeira Guerra, onde todos os homens eram iguais na sua imensa possibilidade de morrer. Sua intenção não era resolver a alienação do trabalho e do homem, excluído de sua essência pela exploração do sua mão de obra por terceiros, massacrado por jornadas estafantes para a nova aristocracia burguesa. Não, a sociedade que os nazistas queriam formar, mesmo se – num esforço quase impossível – esquecermos a sua imensa brutalidade com o “outro”, era ainda hierárquica, reacionária, extremamente alienada e injusta, onde somente os considerados fortes e capazes sobrevivem, o triunfo vil do darwinismo social, uma distopia do ideal iluminista que inspirou Marx e tantos outros socialistas do século XIX.

Leandro Dias

Referências:

HAYEK, Friedrich: O Caminho da Servidão. Rio de Janeiro, Bibliex, 1994.

HITLER, Adolf: Mein Kampf: Minha Luta. São Paulo, Centauro, 2001.

LUCAKS, John: O Hitler da História. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

MARX, Karl: O Manifesto Comunista; Ebooks Brasil, 1999 (link)

MARX, Karl: O 18 Brumário de Bonaparte, São Paulo, Boitempo 2011.

MISES, Ludwig von: Crique of Interventionism; mises.org (link)

NARLOCH, Leandro: Guia Politicamente Incorreto do Mundo; São Paulo, Leya, 2013

SHIRER, William: Ascensão e Queda do III Reich (vol. I), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962.

SMITH, Adam: A Riqueza das Nações, São Paulo, Nova Cultural, 1996

STRASSER, Otto: Hitler and I; Boston, Mifflin, 1940

TOLAND, John: Adolf Hitler; Garden City, NY; Doubleday, 1976

VOLNHALS, Clemens von (org): “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933″; Saur, 1992

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Fascismo à Brasileira

Duas faces do neo-autoritarismo brasileiro?

Historicamente a adesão inicial ao fascismo foi um fenômeno típico das classes dominantes desesperadas e das classes médias empobrecidas e apenas pontualmente conquistou os estratos mais baixos da sociedade, ideologicamente dominados pelo trabalhismo social-democrata ou pelo comunismo. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha e camisas-negras na Itália, aos integralistas brasileiros e caudilhistas espanhóis seguidores de Franco, as classes médias, empobrecidas pelas sucessivas crises do pós-guerra (1921 e especialmente 1929), formaram o núcleo duro dos movimentos fascistas.

Esse alinhamento ao fascismo teve como fundo principal uma profunda descrença na política, no jogo de alianças e negociatas da democracia liberal e na sua incapacidade de solucionar as crises agudas que seguiam ao longo dos anos 1910, 20 e 30. Enquanto as democracias liberais estavam estáveis e em situação econômica favorável, com certo nível de emprego e renda, os movimentos fascistas foram minguados e pontuais, muito fracos em termos de adesão se comparados aos movimentos comunistas da mesma época. Porém, uma vez que a democracia liberal e sua ortodoxia econômica mostraram uma gritante fraqueza e falta de decisão diante do aprofundamento da crise econômica nos anos 1920 e 30, a população se radicalizou e clamou por mudanças e ação.

Lembremos que, quando os nazistas foram eleitos em 1932, a votação foi bastante radical se comparada aos pleitos anteriores; 85% dos votos dos eleitores alemães foram para partidos até então considerados mais radicais, a saber, Socialistas (social-democracia), Comunistas e Nazistas (nacional-socialistas), os dois primeiros à esquerda e o último à direita. Os conservadores ortodoxos, anteriormente no poder, estavam perdidos em seu continuísmo e indecisão, sem saber o que fazer da economia e às vezes até piorando a situação, como foi o caso da Áustria até 1938, completamente estagnada e sem soluções para sair da crise e do desemprego, refém da ortodoxia de pensadores da escola austríaca, tornando-se terreno fértil para o radicalismo nazista (que havia fracassado em 1934).

Além disso, o fascismo se apresentava como profundamente anticomunista, o que, do ponto de vista das classes dominantes mais abastadas e classes médias mais estáveis (proprietárias) menos afetadas pelas crises, era uma salvaguarda ideológica, pois o “Perigo Vermelho”, isto é, o medo de que os comunistas poderiam de fato tomar o poder, era um temor bastante real que a democracia liberal parecia incapaz de “resolver” pelos seus tradicionais métodos, especialmente após a crise de 1929. O fascismo desta maneira se apresentou como último refúgio dos conservadores (sejam de classe média ou da elite) contra o socialismo. Os intelectuais que influenciavam os setores sociais menos simpáticos ao fascismo, o viam como um mal menor “temporário” para proteger a “boa sociedade” das “barbáries socialistas”, como o guru liberal Ludwig von Mises colocou, reconhecendo a fraqueza da democracia liberal face ao “problema comunista”:

Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização européia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal. (L. von Mises, Liberalism, 1985[1927], Cap. 1, p. 47)

Além da descrença na política tradicional e do temor do perigo vermelho num cenário de crise, houve ainda uma razão fundamental para as classes médias adentrarem as fileiras do fascismo: o medo do empobrecimento e a perda do status social.

Esse sentimento – chamado de declassemént ou declassê no aportuguesado, algo como ”deixar de ser alguém de classe” – remetia ao medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente associava-se ao receio de que o prestígio social ou o reconhecimento social por sua posição econômica esmorecessem, mesmo para pequenos proprietários e profissionais liberais sem títulos de nobreza (ver Norbet Elias, Os Alemães). Esse medo entra ainda no contexto de uma evidente rejeição republicana, uma reação conservadora do etos nobiliárquico que dominava as classes altas e parte das classes médias urbanas nos países fascistas, à consolidação dos ideais liberais (mais igualitários) na estrutura social de poder e de privilégios, isto é, na tradição social aristocrática. Não foi por acaso que o fascismo foi uma força política exatamente onde os ideais liberais jamais haviam se arraigado, como Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Brasil.

Por fim, cumpre lembrar que os fascistas apelam à violência como forma de ação política. Como disse Mussolini: “Apenas a guerra eleva a energia humana a sua mais alta tensão e coloca o selo de nobreza nas pessoas que têm a coragem de fazê-la” (Doutrina do Fascismo, 1932, p. 7). A perseguição sem julgamento, campos de trabalho e autoritarismo não só vieram na prática muito antes do genocídio e da guerra, mas também já estavam em suas palavras muito antes de acontecerem. No discurso e na prática, a sociedade é (ou destina-se) apenas para aqueles que o fascista identifica como adequados; há um evidente elitismo e senso de pertencimento “correto” e “verdadeiro”, seja uma concepção de nação ou de identidade de raça ou grupo. E essa identidade “verdadeira” será estabelecida à força se preciso.

Mas porque estamos falando disso?

Parece crescente e cada vez mais evidente no Brasil que importantes setores da classe média e classe alta simpatizam com ideais semelhantes aos que formaram o caldeirão social do fascismo?

Vimos em texto recente que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carrega fortes sentimentos anti-republicanos (ou anticonstitucionais), herdados de nossa sucessão de classes dominantes sem conflito e mudança estrutural, sem qualquer alteração substancial de sua posição material e política, perpetuando suas crenças e cultura de Antigo Regime. Privilégios conquistados por herança ou “na amizade”, contatos pessoais, indicações, nepotismos, fiscalização seletiva e personalista; são todas marcas tradicionais de nossa cultura política. A lei aqui “não pega”, do mesmo jeito que para nazistas a palavra pessoal era mais importante que a lei. Há um paralelo assustador entre a teoria do fuhrerprinzip e a prática da pequena autoridade coronelista, à revelia da lei escrita, presente no Brasil.

Talvez por isso, também tenhamos, como a base social do fascismo de antigamente, uma profunda descrença na política e nos políticos. Enojada pelo jogo sujo da política tradicional, das trocas de favores entre empresas e políticos, como o caso do Trensalão ou entre políticos e políticos, como os casos dos mensalões nos mais variados partidos, a classe média tradicional brasileira se ilude com aventuras políticas onde a política parece ausente, como no governo militar ou na tecnocracia de governos de técnicos administrativos neoliberais. Ambos altamente políticos, com sua agenda definida, seus interesses de classe e poder, igualmente corruptos e escusos, mas suficientemente mascarados em discursos apolíticos e propaganda, seja pelo tecnicismo neoliberal ou pelo nacionalismo vazio dos protofascistas de 1964, levando incautos e ingênuos a segui-los como “nova política” messiânica que vai limpar tudo que havia de ruim anteriormente

Por sua vez, como terceiro ponto em comum, partes das classes médias tradicionais e a elite tem um ódio encarnado de “comunistas”, e basta ler os “bastiões intelectuais” da elite brasileira, como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino ou Olavo de Carvalho ou mesmo porta-vozes do soft power do neoconservadorismo brasileiro, como Lobão e Monica Sherazade. É curioso que o mais radical deles, Olavo de Carvalho, enxergue “marxismo cultural” em gente como George Soros (mega-especulador capitalista), associando-o ao movimento comunista internacional para subjugar o mundo cristão ocidental. Esse argumento em essência é basicamente o mesmo de Adolf Hitler: o marxismo e o capital financeiro internacional estão combinados para destruir a nação alemã (Mein Kampf, 2001[1925], p. 160, 176 e 181).

A violência fascista, por sua vez, é apresentada na escalada de repressão punitivista e repressora do Estado, apesar de – ainda – ser menos brutal que o culto à guerra dos fascistas dos anos 1920 e 30. Antes restritos apenas aos programas sensacionalistas de tv sobre violência urbana e aos apologistas da ditadura como Jair Bolsonaro, o discurso violento proto-fascista “bandido bom é bandido morto”, que clama por uma escalada de repressão punitiva, sai do campo tradicionalmente duro da extrema direita e se alinha ao pensamento de economistas liberais neoconservadores que consideram que “o criminoso faz um cálculo antes de cometer seu crime, então é o caso de elevar constantemente o preço do crime (penas intermináveis, assédio, execuções), na esperança de levar aqueles que sentirem tentados à conclusão de que o crime já não compensa” (Serge Hamili, 2013). Assim, a apologia repressora se alinha à lógica do punitivismo mercantil de apologistas do mercado, mimetizando um Chile de Pinochet onde um duríssimo estado repressor, anticomunista, está alinhado com o discurso neoliberal mais radical.

E, ainda, somam-se a isso tudo o classismo e o racismo elitista evidentes de nossa “alta” sociedade. Da “gente diferenciada” que não pode frequentar Higienópolis, passando pelo humor rasteiro de um Gentili, ou o explícito e constrangedor classismo de Rachel Sherazade, que se assemelha à “pioneira revolta” de Luiz Carlos Prates ao constatar que “qualquer miserável pode ter um carro”, culminando com o mais vergonhoso atraso de Rodrigo Constantino em sua recente coluna, mostrando que nossos liberais estão mais inspirados por Arthur de Gobineau e Herbert Spencer do que Adam Smith ou Thomas Jefferson. A elite e a classe média tradicional (que segue o etos da primeira), não têm mais vergonha de expor sua crença no direito natural de governar e dominar os pobres, no “mandato histórico” da aristocracia sobre a patuléia brasileira. O darwinismo social vai deixando o submundo envergonhado da extrema direita para entrar nos nossos televisores diariamente.

Assim, com uma profunda descrença na política tradicional e no parlamento, somada a um anti-republicanismo dos privilégios de classe e herança, temperados por um anticomunismo irracional sob auspícios de um darwinismo social histórico e latente, aliado a uma escalada punitivista alinhada a “ciência” econômica neoliberal, temos uma receita perigosa para um neofascismo à brasileira. Porém, antes que corramos para as montanhas, falta um elemento fundamental para que esse caldeirão social desemboque em prática neofascista real: crise econômica profunda.

Apesar do terrorismo midiático, nossa sociedade não está em crise econômica grave que justifique esta radicalização filo-fascista recente. Pela primeira vez em décadas, o país vive certo otimismo econômico e, enquanto no final dos anos 1990, um em cada cinco brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é um em cada 11. A Petrobrás não só não vai quebrar como captou bilhões recentemente. A classe média nunca viajou, gastou no exterior e comprou tanto quanto hoje, nem mesmo no auge insano do Real valendo 0,52 centavos de dólar. O otimismo brasileiro está muito acima da média mundial, mesmo que abaixo das taxas dos anos anteriores.

No entanto, apesar de tudo isso, parte das antigas classes médias e elites continuam se radicalizando à extrema direita, dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, suporte ao punitivismo sanguinário das polícias militares, aplaudindo a repressão a manifestações e indiferentes a pobres sendo presos por serem pobres e negros em shopping centers. Isso tudo com aquela saudade da ditadura permeando todo o discurso. Se não há o evidente declassmént, o empobrecimento econômico, ou mesmo um medo real do mesmo, como explicar esta radicalização protofascista?

Não é possível que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o senso de superioridade de nossas elites e classes médias tradicionais sejam suficientes para esta radicalização, pois estes fatores já existiam antes e não desencadeavam tamanha excrescência fascistóide pública.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão gradualmente se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato, causada por alguma crise econômica. Esta sensação vem, não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas. Uma ascensão visível. Seja quando pobres compram carros com prestações a perder de vista; frequentam universidades antes dominadas majoritariamente por ricos brancos; ou jovens “diferenciados” e barulhentos frequentam shoppings de classe média, mesmo que seja para olhar a “ostentação”; ou ainda famílias antes excluídas lotando aeroportos para visitar parentes em toda parte.

Nossa elite e antiga classe média cultivaram por tanto tempo a sua pretensa superioridade cultural e evidente superioridade econômica, seu sangue-azul e posição social histórica; a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo num dos mais desiguais países do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares aos dela, gera um asco e uma rejeição tremenda. Estes setores tradicionais, tão conservadores que são, tão elitistas e mal acostumados que são, rejeitam em tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada” que deveria ter como destino apenas à resignação subalterna (“o seu lugar”), que a ascensão destes “inferiores” faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia oculto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares conservadores. Não há mais máscara, a elite e a classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas, racistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social histórica e, talvez no fundo, a antiga classe média teme constatar que sempre foi pobre em relação à elite que bajula, e enquanto havia miseráveis a perder de vista, sua impotência política e vazio social, eram ao menos suportáveis.

Leandro Dias

Revisado por Carolina Dias

REFERÊNCIAS GERAIS:

ELIAS, Norbert. Os Alemães. Rio de Janeiro: Zahar, 1996

HAMILI, Serge. O laissez faire é libertário?. IN: Le Monde Diplomatique Brasil, número 71, 2013.

HITLER, Adolf. Mein Kampf. São Paulo: Centauro, 1925

HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Cia das Letras,1996

MISES, Ludwig von. Liberalism.Irvington.The Foundation for Economic Education, 1985

MUSSOLINI, Benito. Doctrine of Fascism. Online World Future Fund. 1932

POULANTZAS, Nicos. Fascismo e Ditadura. Porto: Portucalense, 1972

SCHMIT, Carl. Teologia Política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006

De derrota em derrota até a vitória final

"Todo poder aos black blocs?"

“Todo poder aos black blocs?”

50 mil pessoas defendendo a educação no Rio e só se fala de quebra-quebra, destruição, “porrada, tiro e bomba”.

Pelo que lutavam mesmo? Irrelevante.

Não interessa que o prefeito ignorou por completo as demandas e ainda disse que os “professores não sabem sabem fazer contas“, o importante é o ônibus incendiado, os prédios destruídos e a manifestação-espetáculo dos denominados blocos de preto.

Não interessa que uns dias antes, a polícia sob o comando estadual, fez o que mais sabe e reprimiu duramente os professores, sem que qualquer “baderneiro” tivesse iniciado o confronto.

Quem eram mesmo? Irrelevante.

Não interessa que não só professores estavam lá, que haviam bancários, bombeiros, estudantes, universitários e muitos simpatizantes. Até bandas musicais vieram enriquecer a manifestação, o foco é exibir o ônibus em chama na capa do jornal.

Qual era a pauta dessa greve mesmo? Irrelevante.

No velho roteiro do poder constituído, a velha e parte da nova mídia, quando não ficam no mais completo silêncio, trazem sempre o mesmo enredo: arruaceiros, vândalos e marginais estragaram uma manifestação legítima, a festa democrática. Ninguém lembra do que a imprensa dizia dos grevistas, “agitadores”, sindicalistas – os “comunalhas” de sempre – a destruir a Rio Branco depois da escandalosa privatização da Vale do Rio Doce em 1997? Não foi o MST taxado em capa de revista como baderneiro, raivoso ou coisa pior? Não chamaram o estancieiro latifundiário João Goulart de “comunista” e “subversivo”?

Nos jornais e na boca do poder constituído, qualquer ato político que venha a incomodar o seu poder será desqualificado. São vândalos, irresponsáveis e desordeiros.

Sempre foi assim.

Se há greve nos ônibus vão mostrar o coitado que não pode chegar no trabalho por causa de uns “sindicalistas egoístas”; se é greve de professor, a manchete é sobre alunos prejudicados por aproveitadores cooptados por sindicatos partidários e tendenciosos; se é pela descriminalização das drogas,  o tom é de “maconheiros filhos de papai que só querem fumar sua erva em Ipanema sem ser incomodado”; se são camponeses lutando por pequeno espaço no campo no país com colossal concentração de terras, não passam de “vagabundos ocupantes”, terroristas invasores; se a manifestação fecha uma rua vão indubitavelmente enfatizar o “direito de ir e vir” dos outros e que é que ditatorial fechar ruas. Enfim, o posterior “avacalhamento” público, distorção e “manipulação” das manifestações pela mídia (incluindo governo) é, certamente, a única regra que se deve tomar como verdadeira ao se expressar nas ruas. A desqualificação de greves, ocupações, manifestos, e claro, protestos violentos ou não, é a principal e mais eficaz arma de desmobilização e desarticulação de qualquer manifestação que toma as ruas, independente do número de manifestantes.

Portanto, se a regra é a desqualificação posterior em massa, algumas considerações fundamentais devem ser feitas.

Muitos concordaram que nos idos de junho, houve de fato a necessidade simbólica de “quebrar tudo” como demonstração clara e evidente de descontentamento com a ordem vigente. Como colocamos neste blog  anteriormente:

O vandalismo [de junho] representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica.

Então, na ocasião, quase que todos os lados apoiaram e exaltaram as manifestações espontâneas pelo país todo, culminando nos atos de destruição de 17 e 20 de junho. Seja a esquerda jovem vislumbrada com o gostinho de revolução deixado no ar enfumaçado, seja a direita oportunistas de plantão querendo usar o momento para derrubar o atual poder que detesta, passando pelos “coxinhas” e apolíticos em geral, inconscientemente nas ruas “contra tudo que está aí” sem saber exatamente o que exatamente defende.

Enfim veio Outubro e apresentou fatos diferentes.

Dando sequência ao violento “despejo” dos professores manifestantes que ocupavam a Câmara do Rio, uma grande manifestação de professores no Dia 1 de Outubro foi também seguida por ação violentíssima dos policiais. No esquema do “foi mal fessor“, a polícia desavergonhada de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, perdeu o pudor e reprimiu como nunca uma das categorias mais sofridas do país, causando indignação nacional e alimentando o fogo da grande manifestação do Dia 7 de Outubro. Situação semelhante ao estopim de junho, por muitos considerado a excessiva repressão da PM paulista no Movimento Passe-Livre.

O fato novo apresentado por essa manifestação do dia 1 de Outubro foi a atuação expressiva do bloco negro (black bloc). Como muitos presenciaram, foram fundamentais para segurar e desviar a atenção da violenta polícia cabralina, dando tempo para que as inúmeras senhorinhas e “tias”, componentes numerosos e mais frágeis presentes entre os professores manifestantes, fugissem dos cassetetes, nuvens de gás e pólvora causadas – neste dia – exclusivamente pela ação policial. Foi a primeira vez que visivelmente, o black bloc remontou sua origem alemã e colaborou efetivamente com outros núcleos políticos, no caso, o sindicato dos professores, fortalecendo todo o movimento. Não foi por acaso que entre o dia 1 e o dia 7 de Outubro, os professores e boa parte da esquerda, os defenderam ardentemente. “Black bloc é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo” era um grito que se houvia no dia 7.

50 mil pessoas na rua e só se fala em destruição.

Dia 7 de outubro, segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro.

Relembrando...

Nem a pusilanimidade da Dilma foi esquecida.

A manifestação foi incrível. A pauta específica era o repúdio ao plano de carreira da educação do Eduardo Paes, mas a pauta geral era pela melhoria da educação brasileira. Milhares de pessoas, professores, bombeiros, bandinhas, bancários, universitários, secundaristas, alunos e simpatizantes. Milhares de mensagens, faixas, cartazes, gritos e cantoria em protestos variados em torno da educação. Até mesmo a UNE-UBES e o PCdoB superaram sua agorafobia adquirida nos últimos anos e estavam lá com suas solitárias bandeiras a engrossar o caldo.

E então, após belíssima marcha pela Rio Branco, chega-se à Cinelândia. Certo tempo de gritaria e protesto na frente da Casa do Povo e começa o ritual destrutivo do fronte juvenil. Rojões e malvinas contra bancos e claro, contra a própria Câmara. Lembrando muito o dia 17 de Junho, a ausência de policiamento efetivo para uma manifestação daquele tamanho, só fez crescer a confiança da linha de frente e a suspeita da tática “terra arrasada”. Fogos de artifício e molotovs iluminaram a noite chuvosa.

No fundo não importa muito quem começou, pois o enredo seria como o descrito no início do texto.

Que tenha sido um revide, um ataque preemptivo ou uma reação espontânea, a linha de frente das manifestações de sua parte, fez chover rojões, malvinas, pedras, bombas caseiras, molotovs e tudo mais que a ritualística de confronto com a polícia tem apresentado. Os dois lados, cedo ou tarde, estavam bem agressivos e não demorou para a polícia, mesmo em baixo número avançasse gradativamente na “retomada do território”. Então, em meia hora, a grande manifestação foi dispersada em pequenos focos resistentes e radicais espalhados pelo Centro e adjacências. O grosso restante voltava para casa sob fortíssima chuva.

Porém, independente dos sentimentos sobre o bloco negro ou até mesmo da justeza de algumas suas práticas – parafraseando Brecht O que é uma vidraça de banco diante da criação de um banco? –, é difícil negar que o “ritual destrutivo” ofensivo, como apresentado no dia 7 de Outubro, esteja claramente servindo mais para reforçar o esvaziamento completo das manifestações, especialmente no sentido ideológico-propagandístico, do que para qualquer apelo por mudanças ou mesmo para angariar mais simpatizantes. A julgar pela capa da maioria dos jornais, editoriais, opiniões propagadas e repercutidas aos montes nas ruas e redes sociais, a velha fórmula de desqualificação já está em pleno vapor.

50 mil na rua e só se fala em “vandalismo e depredação”.

Desta forma, seja por muitas testemunhas que viram – na ocasião – a ação direta dos black blocs mais como “ataque” do que como “revide” contra a repressão da polícia ou, ainda mais importante, seja pelo evidente enfoque que todo o aparato midiático e governista já está dando na desqualificação em “vandalismo”, buscando uma vitimização da polícia e do governo local, o resultado será fatalmente o enredo tradicional de esvaziamento das pautas e a criminalização das manifestações radicais. E seria bastante ingênuo subestimar o poder de formação de consenso do aparelho estatal aliado do aparelho midiático.

Assim, é fundamental lembrar que tão ou mais importante que o fato em si, é como o mesmo é interpretado e é respondido pelos agentes do seu tempo.

Sem uma base ideológica, propagandística e objetivos claros, a violência simbólica da destruição disruptiva, será capturada por quem bem conseguir, positiva ou negativamente. E, em geral, infelizmente é usada para os fins mais retrógrados possíveis. Enquanto voam pedras e foguetinhos contra a polícia, retornam porrada, tiro e bomba. Se vão ao chão agências bancárias, pontos de ônibus e latas de lixo, o que retorna são leis anti-terrorismo, prisões arbitrárias, presunção de culpa e Lei de Segurança Nacional. Sem saber exatamente o que se pretende construir, a destruição pode apenas abrir caminho para outros que sabem exatamente o que querem e não terão escrúpulos em usar todos os agentes possíveis para seu fim.

Além disso, do ponto de vista do confronto em si, é importante lembrar o estrategista Sun Tsu, se nossos adversários e inimigos vêm com verdadeiros exércitos armados, cães e bombas, enquanto nós só temos palavras de ordem, fogos de artifício e muita disposição, é triste, mas nós já perdemos essa batalha. A arma da crítica não supera a crítica das armas, diria outro. Dado este cenário, é impossível tomar à força a Câmara ou a ALERJ, quiçá o Palácio do Planalto ou qualquer símbolo de comando do governo. Não há a remota possibilidade no contexto atual. Isso porque nem tem sido necessário ao Estado usar bala de verdade como ocorreu na Turquia e ocorre no Egito.

No contexto atual, a única possibilidade de vitória é a simbólica.

Por vitória simbólica compreende-se principalmente, o constrangimento público e desmoralização das “verdades do poder constituído” como parte de um processo de conscientização e educação política da população, envergonhando sua passividade e abalando o consenso e legitimidade do poder que a domina. O “constrangimento educativo” e desmoralização aparecem ao tornar evidentes algumas grandes contradições inerentes ao sistema capitalista que se pretende democrático e plural, forçando-o a tomar medidas claramente antagônicas à sua imagem pública. Isto é, o conduz a medidas claramente anti-constitucionais, a rudezas jurídicas, a apologia à repressão excessiva em plena democracia, ao autoritarismo praticado em nome da “liberdade” e claro, levá-o a escancarar a promiscuidade entre poder político e poder econômico que o constituí, como ficou evidente no alinhamento da grande mídia com o governo Cabral-Paes e, claro, no vergonhoso desfecho da CPI dos Ônibus, mostrando que realmente o  Estado não passa de um comitê de negócios da classe dominante.

Por fim, se bater em professores indefesos é um desastre político como foi e ninguém em sã consciência política apoiaria a prática, bater em professores que dão suporte a “vândalos e baderneiros” é uma história completamente diferente. A deslegitimação específica  dos black blocs busca na verdade, esvaziar o geral das manifestações, criando legitimidade na repressão indiscriminada, de “pacíficos ou não”. Assim, é fundamental que a posição violenta das manifestações surja como revide, como resposta e, jamais, como ataque, como assalto e afronta planejada ao poder constituído. Desta maneira, as táticas ofensivas dos black blocs, levando aos montes rojões, malvinas e fogos de artifício, parece servir apenas para legitimar uma repressão generalizada e esvaziar a manifestação em questão, escondendo as reivindicações e as pautas em fumaça e fogo. Elas não parecem constranger o real agressor, ao contrário, lhe dá motivos públicos o suficiente para justificar a repressão que o poder queria desde o início.

No nosso contexto portanto, a vitória simbólica é erguida em geral a partir de uma derrota física; se constrói ao fazer com que o poder constituído atue contra a opinião consensual da população e contra sua própria opinião como poder representativo do povo, gerando mais e mais insatisfação e escancarando mais e mais contradições inerentes ao “capitalismo democrático”. O constrangimento público enfim, deslegitima o poder constituído e fortalece os seus antagonistas, reforça o ímpeto dos radicais, radicaliza os moderados e os “simpáticos à causa”, por fim, força a todos à politização, incluindo os “indiferentes” e “alienados”, passo fundamental para a conscientização de classe e posição social no conflito. Relembrando o velho chinês: “De derrota em derrota até a vitória final”.

Leandro Dias

Eike Batista e Visconde de Mauá: burgueses e burgueses

Eike Batista Bilionário na Veja.

Eike Batista Bilionário na Veja.

A quebra de Eike Batista, finalmente, chegou.

Fato óbvio e incontornável, a falência de OGX e OSX, as duas principais empresas de seu conglomerado, será oficializada na Justiça em questão de poucas semanas, ou mesmo dias.

Partindo das informações privilegiadas recebidas do pai, Eliezer Batista, presidente da Vale do Rio Doce nos governos Goulart e Figueiredo, Eike foi considerado pela mídia especializada, há apenas dois anos atrás, o sétimo homem mais rico do mundo, momento no qual sua fortuna foi calculada, no auge, em pouco mais de US$ 34,5 bilhões1.

Naquele momento, Eike detinha estoque de riqueza superior ao PIB de mais de 100 nações, ou mais da metade dos países do planeta.

Ou, ainda, se tomarmos uma cotação aproximada de um dólar valendo dois reais, uma riqueza superior à produção, em 2012, de 14 dos 27 estados brasileiros.

Nas revistas daqui, é claro, Eike foi representado, como o empresário-símbolo do capitalismo brasileiro, pois afinal de contas, segundo as mesmas, “enriquecer é glorioso”.

Orgulhosamente anunciaram que nascia “o mais novo bilionário brasileiro”, como se isso fosse sinal do nosso sucesso enquanto sociedade e nação.

Por conta e obra dessa mídia foi criado um ídolo com pretensões a ser verdadeiro herói nacional, tal qual há tempos no Brasil se deseja fazer crer dos empresários.

Heróis nacionais que “trabalham muito e competem honestamente”, geram empregos, renda; que produzem e nos abastecem.

Só “esqueceram” de dizer: “correm riscos” – com dinheiro público.

Lula e Eike

Com efeito, fato significativo foi que não era só a mídia a interessada em criar esse super-herói empresário, mas também ninguém menos que o então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.

Pois também Lula, cujo governo talvez tenha feito mais para consolidar e legitimar o capitalismo no Brasil do que qualquer outro em nossa história, desejava a construção de alguma figura pública representativa desse capitalismo brasileiro em rápida expansão que era, na segunda metade dos anos 2000, sucesso de crítica aqui e no exterior.

Não por acaso, tal qual fariam outros governos ainda mais conservadores, em seu governo, dito por muitos socialista, o BNDES concedeu seguidos empréstimos às empresas de Eike, cujo valor monta, segundo a própria instituição, à módica soma de 6 bilhões de reais2.

E como é típico das práticas neocorporativistas, esse festival de expansão de interesses privados financiado pelo dinheiro público foi representado pelo discurso oficial governista e pela sua militância como a defesa dos empregos da classe trabalhadora brasileira.

Talvez por força da relação entre o crescimento exponencial dos negócios de Eike e o dinheiro público que a ele foi fartamente concedido pelos governos petistas, agora que a casa caiu, temos agora que presenciar o discurso bizarro de certos militantes do referido partido que hoje atribuem a derrocada do “pobre Eike” a um “violento ataque especulativo”.

Esses “analistas”, ou talvez possamos chamá-los mais apropriadamente de torcedores de partidos políticos, mostram-se incapazes de perceber o óbvio: Eike não está sendo vítima de ataque especulativo algum – ele próprio era o ataque especulativo.

A não ser que se queira acreditar que é um fato normal e corriqueiro do capitalismo o salto da riqueza de Eike de pouco mais de sete para para US$ 27,7 bilhões em menos de um ano3.

Pois bem, nesta semana, o “ataque especulativo” reduziu o estoque de riqueza do injustiçado empreendedor para “irrisórios” US$ 73,7 milhões4, uma avassaladora perda de mais de 99% de “sua” riqueza em apenas um ano.

Eike Batista Glorioso

Eike Batista Glorioso

A “perda” da riqueza que nunca existiu

A explicação desses fatos é evidente: a “riqueza” perdida por Eike nunca realmente existiu.

O que vitimou Eike não foi ataque especulativo algum, mas sim, a ambição desmesurada que o caracteriza, por alguns louvada como exemplo do “espírito animal do empresariado”.

Tal qual a confiança exacerbada que Eike tem em si mesmo e que nunca fez nenhuma questão de esconder, demonstrada nas suas reiteradas afirmações, no auge do seu “sucesso”, que se tornaria, brevemente, o homem mais rico do mundo.

É significativo que Eike, louvado como o símbolo máximo do empreendedorismo brasileiro, tenha cometido erros da mais absoluta trivialidade que qualquer aluno de princípios de graduação em administração de empresas ou economia já seria capaz de apontar, tais como:

  1. Diversificou excessivamente seus negócios, perdendo foco;

  2. Expandiu seus negócios de forma temerariamente acelerada, criando uma multiplicidade de novos empreendimentos embora não tivesse praticamente nenhum negócio já consolidado;

  3. Criou empresas cujo único objetivo era fornecer produtos e serviços para outras empresas dele próprio, como o caso da OSX, estaleiro criado para servir à OGX.

Com poucos negócios de fato – concentrados na mineração e geração de energia elétrica – a estratosférica “riqueza” de Eike era bursátil, inflada pela confiança que nele depositavam os principais agentes dos chamados “mercados financeiros”.

Mercados onde circulam, praticamente sem amarras, monumentais volumes de capitais absolutamente incompatíveis e desconectados das relações produtivas da chamada economia real.

Portanto, a “riqueza” acumulada, e hoje perdida, por Eike foi muito menos obra de seu “empreendedorismo” do que da eficácia das suas relações públicas.

Visconde de Mauá: de fato, um burguês

Vale lembrarmos, a título de comparação com a quebra relâmpago e espetacular de Eike, a história do Visconde de Mauá, ainda no século XIX, de repercussões muito mais significativas para a história do Brasil.

Isso porque, ao contrário de Eike Batista, Mauá demonstrou ser um burguês de fato, e a isso foi forçado pelas condições dadas por seu meio ambiente.

Não havia, no Brasil da época de Mauá, praticamente coisa alguma que remetesse a uma sociedade capitalista moderna, coisa que de fato não éramos e nem poderíamos ser, a começar pela existência aqui de uma das mais espúrias das práticas: a escravidão.

Fundamentado naquela instituição, o país resumia-se a ser agrário-exportador5, e suas elites dirigentes, a começar pelos imperadores, desejavam que tudo continuasse como estava.

Para isso contribuía, também, a crença das principais cabeças pensantes brasileiras nos ideais liberais de livre-comércio internacional, num momento em que aqueles desfrutavam de ampla hegemonia.

Acreditavam aqueles homens que, de acordo com aqueles princípios, o Brasil deveria se especializar no que fazia de melhor, ou seja, vender ao exterior produtos primários e dele obter os produtos industrializados que não era capaz de produzir.

Como se não bastasse, o Brasil, ainda na condição de colônia portuguesa, foi forçado, por obra de tratado celebrado pelo rei português D. João VI com a Inglaterra, a abrir mão de praticamente todas as barreiras alfandegárias sobre as manufaturas inglesas, medidas de efeito devastador para a incipiente manufatura nacional.

Por todas essas razões, a indústria virtualmente inexistia no Brasil, até porque na existência da escravidão a introdução do chamado “trabalho livre”, assalariado – condição necessária para o surgimento de mercados consumidores para produtos industriais – era muito lenta e esporádica.

Inexistia também qualquer coisa semelhante a uma rede de meios de transporte no Brasil, cujo comércio entre as distantes regiões era realizado através de precária navegação de cabotagem e “estradas” sobrepostas, em geral, às antigas trilhas indígenas.

Um cenário, sem dúvidas, absolutamente desfavorável à industrialização e ao chamado “empreendedorismo” de eventuais capitalistas, sob quaisquer aspectos que se queira considerar: infra-estrutural, institucional e cultural.

Mauá, porém, fascinado com o que vira em visita à Inglaterra antes mesmo de ter trinta anos de idade, decidiu-se a reunir, como fosse possível, todos os meios técnicos e financeiros para empreender ampla diversidade de atividades produtivas.

E na sua indisponibilidade, criá-los.

Sendo muito ampla e significativa a lista de empresas e ramos nos quais atuou, citaremos aqui os seus empreendimentos que consideramos mais relevantes: o estaleiro naval Mauá, em Niterói, também uma fábrica de ferramentas, instrumentos de metal e máquinas; redes de iluminação pública e bondes urbanos no Rio de Janeiro; cabo telegráfico ligando o Brasil à Europa e aos Estados Unidos; ferrovias diversas, em todas as regiões do Brasil, exceto o Norte; Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas; e o Banco Mauá, que reunia as funções de banco comercial e de fomento de seus próprios negócios, tendo chegado a ser um dos maiores bancos do mundo.

Em muitos desses negócios, na virtual inexistência de outros burgueses no Brasil, Mauá teve como sócios capitais estrangeiros, majoritariamente ingleses.

E foi principalmente por uma fraude praticada por um grupo de engenheiros e contadores ingleses por ele contratados para construir uma ferrovia na província de São Paulo que Mauá, desprotegido pela Justiça brasileira, viu-se obrigado a arcar com dívidas gigantescas denominadas em libras esterlinas que resultaram na sua falência.

Ruiu então o império de Mauá, muito embora ele tenha, apesar disso, acumulado riqueza suficiente para viver seus últimos anos em condições confortáveis.

Vale lembrarmos, ainda, a elaboração da economia política de Mauá que, embora se reconhecesse como um liberal, clamou, em seu O Meio Circulante do Brasil, pela expansão dos meios de pagamento como forma de promover o desenvolvimento industrial no Brasil.

Questionou, portanto, a validade universal das teses liberais, propondo sua adaptação às condições brasileiras.

Estado e burgueses

Na inexistência do Estado empresário, ou garantidor dos empresários que fosse, teve o próprio Mauá, basicamente, que desempenhar as funções de um.

Mais do que isso, seguidas vezes sabotado por ações governamentais contraditórias e repentinas, Mauá não pôde, absolutamente, contar com qualquer tipo de apoio governamental, até por se tratar de governos que não queriam a industrialização do Brasil.

Foi, assim, presa fácil para o imperialismo inglês, e seu fracasso, apesar do surto de industrialização provocado por seus negócios6, significou, sem dúvidas, décadas de atraso no desenvolvimento industrial do Brasil.

Esse tema, interessantíssimo, é demasiado abrangente e complexo para ser tratado aqui, e por isso, nos limitaremos a indicar aos eventuais interessados alguma literatura pertinente7.

E concluímos dizendo que, ao contrário – muito ao contrário – de Mauá, Eike Batista teve tudo a seu favor, inclusive e principalmente o Estado.

Ser “herói empreendedor” tendo o Estado como sócio, “correr riscos” com cobertura de dinheiro público, tudo isso é muito fácil.

E mesmo assim, terminou quebrado.

Por estranho que possa parecer, em pleno 2013, no Brasil, não se fazem mais burgueses dignos desse nome como antigamente.

Daniel Kosinski

 5 Embora existissem atividades manufatureiras esparsas em algumas províncias como Minas Gerais, São Paulo e Bahia, além da capital. Já existia também, fundada em 1828 no Rio de Janeiro, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, a primeira entidade criada para pensar o desenvolvimento da indústria que se tem notícia no Brasil. A este respeito, ver: LIMA, H.F., 3 Industriais Brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Simonsen; e também SIMONSEN, R., Evolução Industrial do Brasil e outros ensaios.

 6 Prado Jr. apud Lima, H.F., já citado.

 7 Além dos livros já citados, vale conferir As Raízes do Pensamento Industrial Brasileiro, editado pela FIESP; e a Exposição de Motivos aos Credores, do próprio Mauá.

A democracia e o mito da sua representação pacífica

A Paz no Alemão

As manifestações ocorridas no Brasil nas últimas semanas, resultando quase sempre em confrontos localizados com as forças de segurança do Estado, trazem uma vez mais para a ordem do dia as representações dos fatos veiculadas pelos grandes grupos de comunicação hoje existentes no Brasil.

Essas representações são invariavelmente parciais ou, simplesmente, flagrantemente deturpadas.

Via de regra, elas exploram alguns episódios limitados de danos ou destruição de propriedades e bens públicos e privados para disseminar a idéia da existência do “vandalismo” nas manifestações, ou seja, em última instância, criminalizando toda e qualquer demonstração ou emprego de violência por parte da reduzida parcela dos manifestantes que apresentam disposição e coragem para tal.

Conceituou-se, nesses discursos, uma distinção clara entre “manifestantes” – pacíficos – e “vândalos”, “arruaceiros” ou “baderneiros” – violentos -, nos quais os primeiros são aceitos ou até mesmo comemorados, enquanto que os últimos são denunciados e rechaçados com veemência.

Tudo se passa como se a eventual violência dos manifestantes fosse uma ilegitimidade numa sociedade em si mesma pacífica e que aquela violência, quando presente, deva ser a priori condenada.

Subjaz a esse discurso o ideal de que a chamada “democracia” seria uma forma em si pacífica, não-violenta, de organização política e que permite, sim, a livre manifestação dos insatisfeitos, desde que essa expressão se dê de forma ordeira, pacífica, não confrontadora, sem danos ao patrimônio.

Por razões óbvias, além da mídia, esse também é o próprio discurso oficial das figuras representantes das autoridades constituídas, tais como prefeitos, governadores e a própria presidente da República.

Finalmente, trata-se de um discurso de fácil aceitação e grande reverberação por amplas parcelas da população, conforme temos percebido ao observar as chamadas “redes sociais”.

Contudo trata-se de um discurso distorcido, não sendo muito difícil percebermos o porque.

Ordem política é violência

Max Weber, em que pesem todos os seus esforços para conceituar as formas típico-ideais do exercício consensual do domínio político, ou seja, com o consentimentos dos dominados – tradicional, carismático e racional-legal -, nunca negou o fato de que o poder último, decisório e definitivo que sustenta essa relação é o emprego da violência.

Por isso, naquela que provavelmente é, na sociologia, a definição não-marxista mais corrente do Estado, Weber definiu a sua principal característica como a de ser o detentor do monopólio do uso legítimo da violência.

No Brasil contemporâneo, a julgar pela representação dos fatos veiculada pela mídia e exercitada nos discursos dos representantes dos poderes constituídos, tudo se passa como se a ordem política atualmente vigente entre nós, dita “democrática”, não fosse, ela própria, assegurada pelo emprego rotineiro da violência em larga escala, de forma mais ou menos explícita.

É uma ordem representada como, em si mesma, pacífica, livre do uso e do exercício da violência, fundamentada, em última instância, no típico ideal liberal de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, através de seus representantes escolhidos em eleições livres.

Todavia, é evidente que as coisas não se passam dessa maneira, e nem poderiam se passar, particularmente, numa sociedade como a brasileira, caracterizada por níveis impressionantes de desigualdade na apropriação da renda, da riqueza, no acesso aos serviços públicos e aparelhos midiáticos.

Uma sociedade, portanto, cujo controle social de amplas camadas de sua população, marginalizadas, requer o exercício permanente, diário, da violência em suas formas mais explícitas, conforme se pode verificar nas ações de repressão das forças estatais nas favelas e nas áreas periféricas das cidades brasileiras, no campo ou em demarcações indígenas.

Portanto, é necessário contrapor àquele discurso um fato óbvio e inegável: a ordem dita “democrática” por ele defendida é, sim, violenta, e por sinal, violenta numa escala incrivelmente superior, em duração e intensidade, à violência praticada em qualquer das manifestações já ocorridas na história desse país.

Vamos, considerar, portanto, o problema em termos distintos dos contidos naquele discurso: não se trata de denunciar a violência como produto da ação de “vândalos”, mas sim, de distinguir a prática da “violência oficial”, ou estatal, da “violência não-oficial”, ou paraestatal.

Não há “democracia” pacífica

Uma ordem política, seja qual for e até que se prove o contrário, se fundamenta na imposição, ou na capacidade dos agentes dominantes em impor seu domínio sobre uma determinada população, dominada.

As formas de estabelecer, assegurar e exercer esse domínio fazendo o menor uso possível da violência, ou pelo menos, reconhecendo a necessidade de seu emprego de maneira contida, pontual, é um problema que vem ocupando muitos dos principais filósofos políticos da história, a começar, pelo menos, por Maquiavel, considerado o fundador da ciência política.

Daí também todo o apelo, de natureza moral, oriundos de fontes tão distintas como os ideais religiosos, liberais, socialistas e muitos outros mais, para o exercício mais consensual possível da política, fazendo, com isso, o uso mais limitado possível da violência, jamais a descartando, contudo.

Todavia, em que pesem os interesses e as pressões dos valores éticos e morais contra o uso da violência na política, deve-se reconhecer na história que a imposição do domínio sobre os dominados é, sempre, em última instância, garantida pela violência, que é o recurso último, decisivo e definivo da política, não importando sob quais formas institucionais, ditas “democráticas” ou não, essa esteja sendo praticada.

Isso não implica defender o uso indiscriminado ou arbitrário da violência como forma de exercício legítimo da política, nem de naturalizar esse uso, aceitando-o.

Mas se trata de reconhecer que, pelo menos até o presente estágio da história humana, sem esse recurso, não foi possível o estabelecimento de relações de domínio nem, consequentemente, de Estado.

A fraude da criminalização do “vandalismo” e o mito da natureza pacífica da “democracia”

Concluindo, o discurso midiático e governamental do caráter pacífico, não violento, da dita “democracia” é, portanto, enviesado, pois só reconhece como prática da violência a violência não-oficial, paraestatal, não admitindo que a ordem política estabelecida é, também ela – ou melhor, primordialmente ela – fundamentada na prática diária da violência.

Sendo a violência um componente fundamental da manutenção da ordem política dita “democrática” sob a qual hoje se encontra o Brasil, não há nenhuma contradição em questionar se é moralmente condenável o emprego da violência por parte dos “vândalos”.

Não se trata, também, de enaltecê-los ou de julgar justas as suas ações, mas de questionar porque deve-se negar o uso da violência pela população se esse é um recurso ostenstivamente utilizado contra ela própria pela ordem estabelecida, “democrática”, que a domina.

A esse respeito devemos lembrar, inclusive, que filósofos políticos liberais, como por exemplo John Locke, defenderam não somente o direito, mas também o dever, de uma população recorrer às armas para derrubar governos que não estivessem cumprindo adequadamente suas responsabilidades.

Por isso, aqueles que rejeitam o “vandalismo” sem se dar conta, ou sem reconhecer, que ele significa uma violência de escala e intensidade mínima se comparada à violência da ordem estabelecida, estão, por ingenuidade ou má intenção, se colocando como porta-vozes de uma ordem que se sustenta na violência como fator decisório último, mas que nega a sua prática aos que reagem ao seu domínio.

Há, portanto, um discurso claro em curso que visa criar, na sociedade brasileira, um clima de censura ou coerção moral contra o exercício não-oficial ou paraestatal da violência, sem reconhecer a natureza cotidiana e abertamente violenta das práticas políticas de suas próprias instituições.

Um discurso pretensamente pacifista mas, na prática, profundamente conservador e legitimador de uma ordem política explicitamente violenta e que precisa sê-lo, posto que garantidora de desigualdades sócio-econômicas brutais.

Não há, a esse respeito, outro caminho: ou se rejeita a violência como um todo, criminalizando-a seja quais forem suas fontes ou os agentes que a praticam, ou se aceita, sem criminalizar, a violência de ambas as partes como um dado concreto, por desagradável que seja, do exercício da política.

Daniel Kosinski

Vandalismo e Ruptura

Poder Popular

Quando o carro velho do trabalhador da rádio Tupi foi incendiado na histórica manifestação da Alerj dia 17 de Junho, foi impossível não sentir sincera pena do sujeito. Apesar do emblemático nome, o Versalles(1) do radialista não deveria ser um alvo de manifestantes enfurecidos com as agruras do sistema, numa das cidades mais desiguais do mundo. Não há significado algum em queimar um veículo velho de um trabalhador. Aquele automóvel não representa “opressão” nenhuma, ao contrário, pode-se até, num toque de humor, considerar um carro 1993 ainda em uso como “resistência ao consumismo”, oposto do fetiche consumista automobilístico baseado em endividamento no crediário, fenômeno típico da atualidade, “ou você tem ou você não tem”.

Naquele emblemático dia também foi atacado e saqueado um pequeno comércio local: uma farmácia familiar, uma loja de sandálias, revenda de chocolates e um restaurante. Mesmo na grande mídia, diante do imenso impacto que teve a tentativa de tomar a Alerj por parte dos manifestantes e a profusão de protestos grandes pelo país, a ênfase na destruição foi moderada e focou-se mais em compreender a natureza, reivindicações e as pautas (ou ausência delas). O foco não estava na violência, certamente maior que a violência recente no bairro nobre onde mora Sérgio Cabral. A pequena farmácia na rua da Assembléia não tem o mesmo valor das vitrines da Toulon no Leblon. Existem proprietários e Proprietários. “Ou você tem ou você não tem”.

Então, em meio ao desnorteio generalizado, seja da mídia, partidos ou maioria das entidades que se dispuseram a entender o assunto, não foram incomuns as apologias ao vandalismo, como forma legítima de expressão revoltosa de uma população dando um “basta” de verdade, não aquele abracinho bonito na Lagoa. Alguns levantaram o argumento que a “violência contra a propriedade” é um meio legítimo de ataque contra a ordem estabelecida, que a destruição de lojas e carros aleatórios se inserem numa lógica de resistência e combate anti-capitalistas, do povo oprimido revidando como pode a opressão do dia a dia, evocando superficialmente aquela velha máxima: “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”, tanto parafraseada aqui no blog. Alguns como Boechat, colocaram o vandalismo como posicionamento radical diante da completa desconexão do poder constituído da população. Outros evocaram essa violência como forma de oposição concreta a qualquer tipo de autoridade, numa espécie “orgânica” do anarquismo destrutivo, não ligado profundamente à qualquer corrente libertária identificável no Brasil ou mesmo consciente de sua própria anarquia, lembrando mais a violência do anarco-ilegalismo do que qualquer outra coisa.

Por mais que haja uma certa coerência na maioria destes pensamentos, como se os pequenos proprietários atingidos fossem mais um “dano colateral” de um processo muito maior. Apesar de seu caráter aparentemente ruim, haveria uma validade intrínseca no “ataque direto a qualquer  propriedade como forma de luta anti-capitalista”, mesmo nos pequenos proprietários. Porém, tem ficado claro atualmente o diagnóstico que Marx fez sobre o movimento Luddita: “deu ao governo anti-Jacobino […] o pretexto para as mais reacionárias e violentas medidas” (O Capital, pg. 554, citado aqui) e que, assim, o que ficará num futuro próximo é – novamente – a forte criminalização das manifestações e possivelmente, a aprovação da lei anti-terrorismo no Brasil, à maneira como foi feita nos EUA (2). Por isso, vale uma relida no famoso panfleto de 1848, onde podemos encontrar:

“[…] Censuram-nos […] por querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que declaram ser a base de toda liberdade, de toda independência individual. A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito!

Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, formas de propriedades anteriores à propriedade burguesa?

Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já as aboliu e continua a aboli-las diariamente.

Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa?” (Manifesto Comunista, Cap II, página 30)

Sob a mais simplista observação, há uma evidente diferença entre a Bayer e a “farmácia do Seu João” destruída na manifestação, ou entre a Monsanto ou agro-indústria latifundiária e o “Seu Severino” cultivador de aipim no interior do Rio; há uma diferença clara entre a Bolacha Discos e a Sony Music; é como comparar a Fifa à associação de jogadores do Aterro do Flamengo. É, portanto, difícil não notar que mais e mais farmácias pequenas (“do Seu João”), são repostas por redes nacionais e internacionais de farmácia, em fusões e aquisições (caso exemplar da Pacheco fundida com a Drogaria São Paulo) ou que o comércio local vai gradativamente sendo reposto por Walmart, Pão-de-Açúcar, Carrefour e Lojas Americanas entre outros.

O resultado lógico da concorrência capitalista é a concentração, formando monopólios e oligopólios – “só pode haver um” – e, desta maneira, o pequeno comércio familiar local é também, um tipo de resistência ao grande capitalismo predatório, que domina e corrói o Estado por dentro. O “Seu João” não financia campanhas políticas, não influencia processos decisórios públicos através de lobbies que favorecem os seus, ao contrário das corporações. Especialmente num país como o Brasil, onde o pequeno proprietário paga proporcionalmente muito mais impostos que os grandes empresários; onde a família dona de “biroscas”, “padocas”, vendinhas e armarinhos, faz jornadas de trabalho estafantes e dificilmente tem liquidez maior do que 4 ou 5 vezes a remuneração média de seus funcionários (uma distribuição de renda semelhante à Noruega), é difícil  no momento justificar a destruição destes estabelecimentos sob bases “revolucionárias” coerentes. No Brasil, existem proprietários e Proprietários.

Porém, uma das questões fundamentais levantadas pelo vandalismo é no campo político, representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica. Assim, quando os quebra-quebras surgiram como revolta disruptiva, parte significativa da população apoiou os meios usados pelos manifestantes, foi até constrangimento no show reacionário do Datena, quando numa votação ao vivo, os telespectadores deram 70% dos votos “a favor da baderna” e violência dos manifestantes.

Não foi notável, fato perceptível até aos mais leigos dos observadores, como a grande imprensa mudou de opinião temporariamente sobre a violência das manifestações?! Entre o dia 17 e o dia 20, quinta-feira também histórica, a grande imprensa que, a exemplo do Jabor (entre os mais cretinos que mudaram de opinião “do nada”), em oposição ao que sempre fez em relação a qualquer manifestação popular, resolveu insuflar mais ainda os ânimos, clamando que o povo continuasse nas ruas numa esperança de desestabilizar o governo que abomina, tentando de todo jeito pautar as manifestações num vazio “anti-corrupção lampedusiano”, levando às ruas todo tipo de gente, de coxinhas à nazistas. E oras, qualquer um com o mínimo de consciência, dado os nervos à flor da pele como estavam aqui no Rio, tinha certeza que as grandes manifestações pós-17 de junho acabariam em violência destrutiva, seja contra o Estado ou propriedades adjacentes. E, lógico, a grande repressão policial serviu – e serve – como ponto catalizador de revolta pois não foram poucos os que decidiram sair quebrando tudo após a repressão policial começar “do nada”, quando as manifestações seguiam pacíficas.

E, quando num intervalo de poucos dias, a mesma imprensa (especialmente a televisiva), voltou ao seu padrão normal, inicialmente durante a primeira manifestação contra o Cabral no Leblon, que os jornais ficaram “horrorizados” porque a polícia tinha ido longe demais pois tinha criança do Leblon tossindo por causa das bombas de gás (3) e na mais absoluta normalidade ignorou completamente a chacina de moradores da Maré, mesmo com a polícia admitindo que alguns “não eram bandidos” (4). Depois além de ainda prosseguir ignorando os mortos da Maré, também ignoraram o sumiço do trabalhador da Rocinha Amarildo, para dar ênfase a uma vitrine da loja Toulon, com direito ao burguês Ballesteros (5) chorando na TV pela “maldade praticada” e moradores do Leblon colando flores para manequins e vidros quebrados“, numa nova e vergonhosa demonstração das prioridades da classe alta carioca. Nova porque a brutal repressão policial durante a festa privada dos Barata no Copacabana Palace foi acompanhada de um clima de Bastilha, mostrando a completa desconexão com a realidade da alta burguesia brasileira.

Desta forma, o vandalismo serviu a um segundo propósito, desnudou completamente o oportunismo e desfaçatez da grande mídia brasileira. Não foi por acaso que sistematicamente os jornalistas da Globo foram expulsos das manifestações, um carro do SBT foi queimado e logo depois que a “poeira baixou”, uma dezena de manifestações contra a Rede Globo ocorreram, algumas bastante expressivas (em São Paulo por exemplo). Conhecendo nossa mídia, não seria forçado crer que não fosse o vandalismo e claro, a excessiva violência da polícia, independente da cidade, mas em especial no Rio, São Paulo e Minas Gerais, os protestos no geral não seriam mais do que nota de rodapé dos grandes meios de comunicação. Pois agora que eles têm pautas mais nítidas e a oposição ao monopólio da mídia é recorrente, as manifestações somem dos holofotes e focam, em parceria com o cretino governo do Cabral, no vandalismo e nas depredações.

Num terceiro ponto, o vandalismo contra agencias bancárias (Itaú foi um foco principal aqui no Rio) e contra órgãos do governo é auto-explicativo. No Brasil cada R$1,00 arrecadado em impostos pelo governo, 42 centavos vão diretamente para o setor bancário para pagar uma dívida pública que não é auditada desde 1931. Itaú e Bradesco estão entre os maiores credores da nossa dívida pública e os escorchantes juros cobrados aqui, o sexto maior juros real do mundo, são largamente influenciados pelo mesmo setor financeiro que se beneficia deles (6). Assim, não é “surpreendente” ou mesmo “desproposital” o vandalismo contra os bancos, em termos monetários é pouquíssimo diante do imenso roubo que nos fazem diuturnamente. Já dizia o baixinho russo: “o que é um assalto a banco diante da criação de um banco”. E foram realmente raros os depoimentos populares contra a depredação de agências bancárias.

Quanto aos órgãos públicos, a revolta é evidente e demonstrou fisicamente e seguidas vezes, uma revolta contra contra o que o poder constituído tem feito, tema que abordamos há algumas semanas. É importante notar esta diferença, as pautas têm se mostrado contra o que o poder constituído tem feito e não contra o poder constituído em si. Essa segunda vertente tem se mostrado bastante minoritária e é por isso, que agora que as pautas são mais identificáveis, é possível notar um evidente enquadramento das manifestações dentro do sistema, como aquela oposição que apenas reforça a ordem estabelecida, ajusta a máquina. Numa hora pedem o fim de uma PEC ou validação de uma outra; depois pedem mais verbas para educação; pedem mais transparência ao governo; maior participação no processo decisório; frequente a ordem é para trocar os líderes, mas em raros momentos questionam a estrutura que levou estes líderes ao poder. Pautas opositoras à Rede Globo, à privatização do Maracanã, contra  a truculência policial e a cartelização do transporte coletivo, se somadas à pauta pela educação de qualidade, são marcas clássicas do Brizolismo Carioca. Nada de revolucionário, apenas progressista.

Assim, podemos resumir que o vandalismo serviu a alguns propósitos importantes. Primeiro quebrou o paradigma da inviolabilidade do Estado, quebrou de maneira pólitica, ainda que temporariamente, o seu monopólio da violência. Segundo, ele escancarou o posicionamento ideológico da mídia, o que para muitos “que dormiam” era o da mais absoluta neutralidade, agora já não é tão inquestionável assim, passo importante para a completa politização da questão. Terceiro a destruição frequente de agências bancárias demonstrou que, mesmo disruptivamente, os revoltosos sabem que muito do podre que criticam no poder público reside no sistema financeiro. E mesmo que tomemos a perspectiva de alguém externo aos protestos, o que fica é a emblemática destruição de um banco, e com a máscara da mídia começando a ser desvendada, o questionamento de “por que atacar um banco?” pode não ser respondido pelos mesmos agentes que os querem lá e assim, tornar-se uma pauta real na cabeça da população.

O vandalismo por fim, mostrou de maneira clara que o brasileiro têm o ímpeto necessário para uma quebra violenta de paradigma. A politização excessiva que os protestos suscitaram, exatamente por serem violentos, deixou mais claras as contradições evidentes em nossa sociedade, tornando mais visíveis o engendramento econômico no poder político constituído e na vida cotidiana, onde lojas são mais importantes que vidas humanas. É difícil que os que anteriormente viam com passividade ou desdém os desmandos do sistema e a violência necessária da PM para mantê-lo inquestionável, continuem neutros diante de tamanhos disparates.

Assim, principalmente se o vandalismo deixar de lado uma parte que ainda é um hooliganismo barato que mais parece saída de jogo no (antigo) Maracanã do que protesto, e for sistematicamente adotado como prática disciplinada, anti-corporativa e anti-sistêmica, confrontando bancos, lobistas e grandes corporações que sustentam o corrupto sistema político eleitoral, seu sentido pedagógico será bastante relevante, e justificará retroativamente todos os excessos como necessidades históricas momentâneas de um processo maior de ruptura.

José Livramento

Notas:

1 – Palácio de Versalles foi tomado por revolucionários durante a revolução francesa.

2 – Após o 11 de Setembro, os EUA chegaram a considerar o Greenpeace um grupo terrorista, da mesma forma que a direita tentava enquadrar o MST aqui.

3 – Nesse momento já haviam matado 10 pessoas na Maré.

4 – Não entrarei no mérito da polícia “Lei e Ordem” que mata antes e pergunta depois, comum às nossas metrópoles, matando indiscriminadamente bandidos em região de fronteira, num cenário que mais parece guerra do que qualquer outra coisa.

5 – A Família Ballesteros é dona da Aymoré Biscoitos, da Toulon e da Elmo Calçados. Altíssima burguesia de MG, com todos os problemas típicos da nossa alta burguesia.

6 – Até recentemente, o ex-presidente do Bank Boston, Henrique Meirelles, era o presidente do Banco Central!

*editado posteriormente para corrigir erros gramaticais.

Será mesmo que só agora o fascismo acordou?

Revista Veja, 20 de Maio de 1970.

Como muitos leitores aqui do blog já puderam notar, o tema fascismo nos é bastante constante. Falamos dele frequentemente sob alguns prismas diferentes e em várias ocasiões, de seu ideário no Brasil. Escrevemos há exatos dois anos atrás, por ocasião dos “fantasmas” que foram bastante visíveis com a eleição de 2010, fantasmas que muitos parecem ter esquecido, que parte do ethos cultural da elite e classe média carrega um forte quesito proto-fascista e anti-republicano, filhos de um gigante que jamais dormiu, a ditadura; que por sua vez é filha de outro gigante que jamais morreu: o estado organizado sob uma lógica absolutista, coronelista, nobiliárquico e aristocrático. São temas recorrentes aqui o blog.

Neste sentido, com simples observação da história recente podemos afirmar com certa precisão que não há absolutamente nada de novo no dragão fascista mostrando a sua cara nas ruas da cidade. Façamos um pouquinho de força e lembremos dos homossexuais foram espancados por “carecas”; do esquerdista que foi espancado por proteger um mendigo em 2012; dos membros do movimento LGBT que foram abertamente hostilizados não só pelos “nazi” de sempre, mas por “gente de bem” em vários momentos ao longo dos últimos anos. Não tem muito tempo que os anarquistas do Rio não podiam sair sozinhos pelos arredores da Lapa ou Praça da Bandeira sem temer alguma violência de neonazistas de todo o tipo; não vimos seguidamente mendigos, negros e nordestinos espancados por filhinhos da classe média em várias outras capitais?

Esquecemos disso tudo?

Como dissemos semana passada, ainda na tarde da histórica manifestação de segunda-feira dia 17, aqui no Rio:

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários […]?

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Oras, a repressão à esquerda e a vários dos movimentos a ela ligados não é novidade alguma. Militantes de esquerda apanharem nas ruas e serem hostilizados por radicais nacionalistas é algo até bastante comum no cenário de confrontos políticos pelo país a fora. A criminalização dos movimentos sociais, atitudes históricas dos governos proto-fascistas, nos é alguma novidade?! Não foram há anos massacrados pela mídia, enquadrados como “quadrilha”, baderneiros e vândalos?! Em quantas capas da grande mídia foi o MST chamado de terrorista? Quantas vezes o PSTU ou o PCB foram achincalhados pelos “pensadores” da extrema direita? Quantas vezes a repressão forte da polícia foi justificada por razões puramente ideológicas? O caso recente da USP foi um dos mais marcantes, mas poderia ter sido qualquer outra greve de professores “aparelhada pelos partidos de esquerda”. Nem mesmo a esquerda light petista foi poupada, acusada de fazer “revolução gramsciana” ou qualquer semelhante impropério encontrado em blogs da extrema direita da grande mídia como Reinaldo Azevedo. Não foi o Jabor até “ontem” a vincular o Movimento Passe Livre ao PCC?!

Ninguém lembra da Opus Dei, a mais retrógrada das forças dentro da Igreja Católica, e sua ligação com membros dos partidos de direita, especialmente o PSDB de Alckmin, o Gauleiter Paulista??! Ou das ligações da TFP e neointegralismo com a campanha do Serra de 2010?! Aliás, de que serviu a campanha do Serra em 2010 se não mostrar claramente que a extrema-direita estava bem viva, ativa e “tentaculosa”?

Esquecemos disso tudo? Ou isso não foi fascista o suficiente?

O que temos de lembrar portanto é que não é absolutamente novidade nenhuma a repressão e hostilização vinda da extrema direita. Ela não está maior do que estava uns anos atrás, só porque agora alguns a enxergam mais nitidamente quer dizer que ela esteja maior ou mais influente.

A única novidade é a confiança aparente que a extrema direita ganhou num momento de claro vácuo de poder público e fragmentação da esquerda diante de tantas pautas trazidas para o debate a medida que o movimento cresceu. Não houve qualquer hostilização a esquerda que não existisse antes, até o momento que toda a ordem foi temporariamente ao chão. Da mesma forma que não houve qualquer onda significativa de saques e violência disruptiva antes do desmoronamento temporário da ordem estabelecida. Isso é bem nítido.

Há uma boa parcela dos militares anti-esquerda?! Sempre houve. Esse núcleo já pedia a volta da ditadura? Sempre pediram. Isso não é novidade alguma. Bolsonaro ainda ganha votos suficiente para se eleger em TODA eleição. Feliciano não comprou seu cargo parlamentar. Alckmin não comanda seu feudo de violência sem agradar uma boa parte do seu público. Pinheirinho foi “anteontem”.

E nem é preciso entrar muito no mérito da relação das polícias militares com os movimentos de esquerda que já sabemos como sempre foi o seu papel. Se ela fez um “sentasso” com os manifestantes  de SP não deve ser lido se não como estratégia de um já queimado Alckmin. Quando a poeira baixar, vai ser difícil esquecer que sua repressão foi a centelha a inflamar o resto do país.

Portanto, a presença da extrema-direita como agente político é tão óbvio em nossa sociedade, que debater sua “novidade” parece ser chover no molhado e de um derrotismo, isso sim, preocupante.

Então, o que temos de refletir não é em como lidar com esta onda, não é o temor de um golpe de extrema direita. O golpe não virá porque o dinheiro está no “extremo centro”, não precisa dar golpe algum da extrema direita para continuar no poder. Nem mesmo o Partido Integralista, com tamanho proporcional maior que o PMDB hoje, conseguiu dar um golpe em 1937. A onda de extrema-direita já está aí há tempos e a esquerda tem crescido apesar dela.

O que temos de observar é a real novidade que o movimento das ruas trás. Algumas boas, outras nem tanto.

Quem viu as manifestações crescerem, do seu extremo foco nas passagens e mobilidade urbana ao aparente vazio do  “twitter analógico” que se tornou na última quinta dia 20, deveria ter observado dentr
o do festival de pautas aleatórias dos “apartidários”, “apolíticos” e mesmo dos “anti-partidários” algumas “bandeiras” que sempre foram historicamente ligadas à esquerda.

Primeiramente em termos de contexto, me refiro à revolta popular ao constatar sua real “falta de representatividade” no interior das democracias estáveis ocidentais,  dos Indignados espanhóis aos acampamentos do Occupy Wall Street nos EUA, passando agora, é lógico, pelo Brasil. Esse tema tem sido debatido por tantos pensadores que entrar nesta questão aqui seria um exercício longo e desnecessário (por enquanto) para nosso argumento. O fato evidente é que observamos nas ruas que boa parte da população de fato não se vê representada no parlamento democrático-liberal. Não ficou comum dizer “Fulano não me representa”?

E em termos práticos, a invasão das casas representativas, de Brasília ao Rio, não foi amorfa, disruptiva e de objetivos pouco claros para todos?

Se não podemos definir o que exatamente elas defendem, podemos no entanto ter certeza que a única coisa significativa que esse movimento representa é o sentimento nítido de “falta de representatividade” no interior das democracias liberais.

Por mais que muitos, especialmente no fronte disruptivo e caótico, não soubessem o que queriam, a maioria sabia exatamente o que não queria: o jogo político atual representado na câmara.

Oras, não é dos mais antigos esforços da esquerda o de afirmar que o parlamento na democracia liberal não passa de uma bancada de negócios das grandes corporações? Não afirmamos há quase 150 anos, que nada ali é para representar a população de fato, mas sim os lobbies corporativos dos aristocratas do momento? Aqui no blog dedicamos alguns posts ao tema, primeiro em “O Mercado Eleitoral e a Democracia Liberal” e mais recentemente em “Capitalismo e Democracia“.

Assim, no oceano de cartazes inúteis que mais parecem slogans ufanistas vazios, particularistas e improdutivos, como se ao invés de saírem do facebook, as pessoas tivessem o levado para as ruas [nota], temos que observar o mar de bandeiras que foram comuns à esquerda por décadas.

Não foram poucos os cartazes e opiniões não ligadas à partidos e a movimentos organizados que, em alternativa real “a tudo que está aí”, mencionavam idéias como a democracia direta, a democracia plebiscitária, a gestão participativa. Em entrevistas e opiniões, mesmo dos grandes jornais, blogs e nas redes sociais, não foram poucas as vezes que se observou um evidente clamor por real participação da população na decisão das prioridades econômicas do país, real participação no processo decisório, passando por cima de “políticos corruptos” para atender reais demandas da população. Não foi praticamente em uníssono o coro contra Sérgio Cabral justamente pelo sua evidente ligação com empresários do ramo de transportes?!

Não são estas algumas das bandeiras históricas de  boa parte da esquerda?!

Se de fato havia uma série de pautas da esquerda entre os “apolíticos” e os não ligados à partidos, muitos que, assim como parte da esquerda, se quer perceberam isso, não deveríamos estar desapontados com a derrota que foi o aparente “esvaziamento de nossas pautas”, com a “revolta dos coxinhas”, nem mesmo alarmados com a violência visível dos fascistas e suas opiniões aqui e acolá.  Isso sempre esteve presente, desde a mídia nos generalizando como vândalos durante greves, mesmo quando fascistas, legalizados ou não, nos reprimem com violência.

Até o momento, para quem não tivesse certo discernimento ideológico, a violência fascista, seja dos brutamontes que atacaram manifestantes de esquerda, seja da Polícia Militar em várias cidades do país, era “politicamente invisível” e “ideologicamente neutra”. Não era se quer cogitado quais seus interesses e idéias. Depois de atacar o movimento negro, o movimento homossexual, a esquerda radical – inclusive no interior do próprio PT – que estava lá desde o início de tudo, os fascistas mostraram claramente a todos a sua vilania, muitos que não faziam estão parando e refletindo. Com a poeira baixando, a recriminação à ambas truculências anti-democráticas está nítida em vários portais, progressistas ou não, até nas páginas do Globo. É justamente agora, quando o fascismo está nítido para vários setores progressistas da sociedade, que a esquerda, como natural e histórico inimigo deles, pode se fazer mais forte. Não deixaremos as pessoas, apolíticas ou não, esquecerem quem sempre esteve contra as forças mais reacionárias e violentas da sociedade.

Nas sabias palavras do blog Passa Palavra:

“Cremos que o momento agora é de concentrar nossos esforços […] onde os “coxinhas” não estão, onde as pautas populares encontram sua base real (e que por isso está sendo sistematicamente minimizado nos grandes meios de comunicação ou apresentado apenas como distúrbio social violento). Mas é claro que essa responsabilidade já não cabe exclusivamente ao MPL, e sim a um conjunto de forças da esquerda; sem desprezar, é claro, os muitos obstáculos e conservadorismo que decorrem dessa posição.”

 

Por Leandro Dias

[nota] – adicionado dia 26/06 ao texto, após revisão.

Por Stanley! Ou do Anti-comunismo rasteiro

Lulo-stalinismo nazista.

Lulo-stalinismo nazista.

O deputado evangélico Marco Feliciano, entre outras tantas pérolas que já conhecemos, proferiu em resposta aos que lhe queriam tirar da Comissão de Direitos Humanos, as seguintes palavras: “São homens e mulheres que usam dos mesmos mecanismos que Stanley usou no seu comunismo nazista. Usam da mesma linguagem de Hitler”.

Feliciano procurava associar a reação das pessoas ao seu discurso homofóbico e retrógrado com o que chamou de “comunismo nazista”.

O deputado considera que respostas hostis ao seu descarado preconceito e ignorância  são como censura ou pior, “repressão nazista”, “autoritária”. É como se repudiar o preconceito fosse algo preconceituoso, numa corruptela pós-moderna em algo como “ser anti-racista é censura e ataca o meu direito de ser preconceituoso”, considerando que a repúdia a um discurso de ódio não passa na verdade de “um ataque à liberdade”, transformando algoz em vítima e vítima em algoz, onde qualquer resistência é usada como justificativa para opressão: “Veja só como reagem, sempre falei que eram hostis!”

Essa “Reversal Pós-Moderna” – não é sua bota que pisa na minha cara, mas sua cara que me impede de pisar no chão” – é tão rasteira que dignificar um longo texto a esta perspectiva seria um exercício inútil e, portanto, vamos nos focar no final de sua pérola. Assim, nosso trabalho aqui se dedicará ao que tem de profundo em sua declaração, especificamente na invenção de um “comunismo nazista” por parte de Feliciano. Nos dedicaremos ao anti-esquerdismo rasteiro contido neste tipo de argumentação.

Ignorando  que ‘Stanley’ é certamente um erro aceitável (!) de pronúncia do deputado, Josef Stalin foi um algoz do nazismo, responsável direto pela derrota de Hitler na 2ª Grande Guerra. Entre vários importantes historiadores, das mais variadas vertentes, de John Lucaks a Eric Hobsbawn por exemplo, e até mesmo o New York Times queainda no período Mccarthista ressaltou a importância de Stalin na Segunda Guerra no obituário do líder soviético. E afinal, por mais que Hollywood tenha nos dado infinitos filmes sobre a importância norte-americana e poucos sobre os russos na derrota nazista, não foi uma bandeira soviética a flamular sobre o Reichstag, centro de governo de Hitler ao final da 2ª Guerra Mundial, na famosa foto de Yevgheny Khaldei?

No entanto, essa aproximação que Feliciano faz de Hitler e Stalin e, por extensão, entre nazismo e comunismo, não é privilégio de fanáticos religiosos com confuso estudo histórico. Há sérios intelectuais dispostos a esta aproximação e não é raro ver esta associação em discursos políticos, especialmente durante a Guerra Fria.

A esquerda marxista como Rosa Luxemburgo e Anton Pannekoek e pouco depois, Paul Mattick, denunciavam a aproximação do modelo de Josef Stalin com o fascismo de Mussolini, muito antes de Hitler chegar ao poder. Chamavam de “fascismo vermelho”, por caracterizarem a URSS fundamentalmente como “capitalismo de Estado sob domínio do Partido”, termo aliás, que o próprio Lenin utilizou (1) e que para ele era um “retrocesso” necessário para consolidação do país, “um passo atrás para dar dois a frente”. Onde o Estado absorve todo o excedente econômico produzido pelos trabalhadores e não os reverte para os mesmos, mas para o uso das necessidades do próprio Estado, sendo uma imensa burguesia monopolista. Neste sentido, várias décadas depois, observa-se uma continuidade no Partido Comunista Chinês, que insiste seguidamente em reafirmar seu compromisso “pragmático” com o comunismo, num país onde as corporações capitalistas nacionais e internacionais crescem de maneira descomunal e o capitalismo é cada vez mais dirigido pelo Estado em associação com as mesmas, numa situação econômica em grande escala, relativamente similar com a relação de Mussolini e Hitler com os industriais de seus países.

É quando partimos para o outro lado dos que associam marxismo com nazismo, que se faz necessário identificar as críticas e argumentos são de fato pertinentes ao tema, das argumentações que na verdade são apenas máscaras veladas de anticomunismo disfarçado em retórica elaborada. É assim que nos aparecem intelectuais radicais do capitalismo liberal como Hayek, Friedman e Mises, que muitas vezes parecem odiar a priori o socialismo e daí buscam constantemente argumentos para justificar seu repúdio.

Para eles marxismo e nazismo são versões da mesma coisa e vão buscar todo o tipo de exemplo para comprovar sua tese, porém, no geral, foi Mises quem expressou melhor essa associação, chamando genericamente de “Intervencionismo”, toda a ação Estatal na economia. Nas palavras dele, publicada em emblemático junho de 1929 (3 meses antes da esmagadora crise do livre mercado):

” O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (von Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Assim, com essa simplificação genérica, Mises consegue colocar praticamente todo tipo de atividade econômica estatal como ‘intervencionismo’, desde as do tipo fascista até o intervencionismo keynesiano e, é lógico, o marxismo.

Um dos primeiros fatores que Mises e todos que acreditam nessas premissas, é ignorar o que a realidade inúmeras vezes escancarou (e escancara) em nossa cara:

Para o grande empresário, especialmente numa crise, se associar ao Estado é a atitude mais lucrativa possível (2) e na história fizeram isso seguidas vezes, tantas vezes que foi preciso reformar o Estado para que se adaptasse às suas necessidades. Não foram as chamadas “revoluções burguesas” a consolidação do poder político de quem antes só tinha poder econômico (burguesia)?

O Motivo do Lucro é tão importante que o capitalista descobriu que se tomar o controle do Estado lhe dará segurança, lucros garantidos e ainda poder de coerção contra os trabalhadores e a concorrência (especialmente internacional). É ignorar que ao se associarem com o Estado, imensas quantidades de dinheiro público passaram  a bolsos privados de empresas como Krupp, IBM, Volkswagen, Ford Motors, Deutsche Bank, Rockefeller Chase Bank, entre várias outras, só para citar os nazistas nos anos 1930 e 40. Este é um tema que já levantei neste post.

A negação desta evidência para exaltar um idílico mercado livre perfeito, dada a abundância de documentações e análises econômicas e históricas que vão exatamente contra esse argumento, não pode parecer se não o mais rasteiro cinismo ou falsificação da realidade para adequar a tese criada a priori: “estado = socialismo = ruim”.

Mas Mises, o mais radical dos gurus liberais, não deixa o seu cinismo apenas numa “inocente” formação teórica e negação da realidade. Ele mesmo trabalhou para o governo fascista austríaco de Engelbert Adolphus nos anos 30 e não só isso, ainda em 1927, admite que o fascismo foi uma boa solução para o capitalismo, uma solução contingencial, mas boa, como podemos ver aqui (tradução minha, nota 3):

“Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miravam na estabilização de ditaduras estão cheios de boas intenções e suas intervenções, no momento, salvaram a civilização Européia. O mérito que portanto o fascismo ganhou para si, viverá eternamente na história. E apesar de ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode prometer sucesso continuado. Fascismo foi uma mudança de emergência. Vê-lo como algo a mais seria um erro fatal” (Liberalismo, o Argumento do Fascismo).

Assim, fica altamente compreensível o apoio posterior dos discípulos de Mises, Hayek e Friedman, ao neofascista ditador chileno Augusto Pinochet, carniceiro com mais de 30 mil mortos em sua conta, usado como plataforma de experimentação do neoliberalismo. Hayek admite:

“Como instituições de longo período, eu sou totalmente contra ditaduras. Mas ditaduras podem ser um sistema necessário por um período transitório […]. Pessoalmente eu prefiro um ditador liberal do que um governo democrático ausente de liberalismo. Minha impressão pessoal – e isso é válido para a América do Sul – é que o Chile, por exemplo, vai observar uma transição de uma ditadura governamental para um governo liberal” (nota 12).

É o mesmo cinismo deslavado que vemos nos dias de hoje, que continua a defender “o estado mínimo”, “os perigos da intervenção da economia” e um suposto “capitalismo livre do Estado” mesmo depois da colossal intervenção estatal de 700 bilhões de dólares para salvar os bancos ou para salvar a Ford Motors nos EUA. Isso numa crise econômica essencialmente causada pela falta de regulamentação – isto é, excesso de liberdade – do mercado norte-americano, como explicou muito bem David Harvey em O Enigma do Capital.

O Estado forte é ruim, mas de tempos em tempos, para solucionar uma crise ou para usar a repressão violenta contra a população, extirpando o “socialismo” ou “marxismo cultural” dela e então favorecer o empresariado soberano numa especie de “livre mercado sem democracia”, ele é ótimo e necessário. “Viverá eternamente na história”.

A desonestidade intelectual não tem limites.

Qualquer análise objetiva da realidade demonstra o quão forçado é associar nazismo e marxismo. Basta lembrar que, além dos conflitos físicos frequentes entre nazistas e comunistas durante todo os anos 1910 e 20 (4) , o objetivo do nazismo em relação ao marxismo já estava claro desde 1925, ano de publicação do Mein Kampf (como vimos no nosso último post) ou até antes, em 1922, quando o fascismo já estava no poder na Itália. É difícil portanto, não pensar que essa associação parte de um ódio anti-comunista a priori, traduzido numa forma “elaborada” do Reductio ad Hitlerum (5), e o principal argumento-slogan válido para desvalorizar o comunismo é, no fundo, associar tudo o que já o envolveu, ao nazismo. Onde nazista é a palavra-chave universal para a maldade, na simples dicotomia que tentam trabalhar hoje em dia em quase todos os temas.

Stalin era ruim não pelas suas inúmeras características brutais e intransigentes que claramente destoavam de qualquer preceito marxista, onde apresentava muito mais as características de um nacionalista radical, imperialista e autocrata, inserido assim num ethos político russo, longe de um “internacionalista, iluminista defensor da democracia”, como poderíamos classificar Karl Marx. Era ruim porque era socialista.

Stalin era ruim não por expurgar e prender importantes comunistas soviéticos que poderiam lhe contestar a liderança, chegando a mais de 300 mil presos políticos, ou por ter executado boa parte da cúpula bolchevique que participou da revolução de 1917  (6), podendo-se dizer que apenas Hitler matou mais comunistas do que Stalin. Não, não por isso. Era ruim porque fez isso através de uma ideologia análoga ao nazismo.

Desta forma, até decisões econômicas catastróficas são lidas então sob a perspectiva nazista. A coletivização rápida e forçada das terras feudais da Ucrânia, alterando o panorama e distribuição de alimentos em toda URSS, provocando 4 a 5 milhões de mortes de fome em 3 anos é lida como genocídio planejado análogo ao extermínio industrial de judeus que inclusive usou maquinário da corporação estadunidense IBM. É irrelevante notar que se fôssemos condenar governos por matar de fome sua população por incompetência e negligência,  teríamos de aumentar a lista para centenas de tiranos ao longo de todo o século XIX e XX. A fome na Irlanda matou 15% da população do país por volta de 1850 e não vemos a Rainha Vitória da Inglaterra figurar na lista de genocidas ao lado de Stalin. Ainda mais, se formos com o ex-relator da ONU, Jean Ziegler por exemplo, poderemos considerar que  uma criança morta de fome é, na verdade, assassinada e restará pouquíssimos países não-assassinos de crianças no mundo e curiosamente, Cuba estaria entre eles.

Josef Stalin portanto, não é analisado e criticado pelo que de fato fez de ruim e tirânico, enquanto líder de um país em situação de guerra desde no nascimento, mas porque o que ele fez não passou de uma versão russa do nazismo hitlerista, “exemplos evidentes” de como o estatismo é vil e repugnante. Ele era ruim porque era como Hitler, esvaziando todo o conteúdo fundamental para entender não só o stalinismo, mas o fascismo e mesmo o liberalismo. O seu “comunismo nazista” é um redução ad hominem para condená-lo, sendo irrelevante que na realidade, sua relação com os nazistas e por extensão, do marxismo com o fascismo, fosse sempre de choque e conflito.

Não basta que o Mein Kampf, livro de Hitler, tenha páginas e páginas dedicadas ao seu ódio absoluto ao marxismo, bolchevismo, assembleísmo, à Revolução Comunista da Baviera e à União Soviética. Nem bastam inúmeros discursos de toda a intelligenzia nazista abominando o marxismo, a URSS e os bolcheviques (7). Não bastam os 20 anos seguidos que os soviéticos fizeram propaganda anti-nazista e os nazistas propagandas anti-soviéticas, nas mais variadas formas e moldes, inclusive durante a breve Paz Armada que tiveram.

Não basta Hitler ter dito para os grandes capitalistas (não-judeus) de seu país que não iria mexer nos negócios da Krupp ou de qualquer outra grande empresa capitalista alemã e que seu objetivo principal era acabar com o marxismo, algo, obviamente, impensável para um marxista (8). Não bastam as inúmeras corporações capitalistas que apoiaram o regime nazista e abominavam os soviéticos. Não basta Hitler ter acusado outros nazistas de serem bolcheviques em acalorados debates e usar isso de motivo para perseguições, como o caso do nazista Otto Strasser (9).

Não bastam as relações comerciais entre os nazistas e os soviéticos terem se deteriorado consideravelmente por pura vontade ideológica e não econômica. Não bastam tropas soviéticas terem lutado contra tropas nazi-fascistas na Guerra Civil Espanhola em 1936, sendo a URSS a única nação a enviar oficialmente tropas contra o fascismo espanhol e que este era apoiado abertamente pelos nazistas.

Ignorando toda a rivalidade teórica e belicosa entre nazismo e comunismo, alguns defensores desta associação, citam o pacto de não-agressão entre Hitler e Stalin de 1939 como prova irrefutável da aliança entre seus países e ideologias. O mais estúpido deste argumento é o mais óbvio: um país só faz pacto de não-agressão com inimigos, jamais com aliados. Imaginem se os EUA iriam ter um pacto de não-agressão com a Inglaterra ou a França durante os anos 30. O acordo Molotov-Ribbentrop é justamente prova cabal de que os países e os líderes eram inimigos declarados que por conveniência e oportunismo resolveram rapinar um inimigo histórico comum (a Polônia) sem a necessidade de conflito (10). Não é muito diferente dos inúmeros acordos políticos e comerciais entre EUA e URSS ao longo de toda a Guerra Fria.

É preciso no entanto colocar que, para além de todo o cinismo que uma associação entre as duas ideologias carrega, podemos sim dizer que Hitler e Stalin tinham suas semelhanças, seja na perseguição de rivais ao seu poder, seja na relação com a Polônia e até mesmo no culto a personalidade, onde Stalin claramente entrava em choque com Marx (11). Mas estas semelhanças estavam muito longe de ser simpatias reais ou qualquer relação teórica profunda, por isso que em analise teórica acabam na imposição forçada, simplista e ahistórica de Von Mises onde marxismo e keynesianismo pregam um Estado interventor, logo podem ser associados ao intervencionismo do nazi-fascismo.

E ainda, da mesma forma que podemos atribuir afinidades entre Stalin e Hitler, podemos também, traçar entre grande parte dos anti-comunistas ocidentais com Hitler, Mussolini e muitos outros fascistas. Von Mises na sua apologia ao fascismo não me deixa mentir. Friedman e os Chicago Boys do fascista chileno Pinochet também não. Até os franceses saudando os nazistas com bandeirinhas sob a liderança de Phillipe Petaín durante a conquista nazista, são reflexo desta simpatia ocidental pelo nazi-fascismo. Ora, não foi em visita aos EUA o acidente do Zepelim nazista Hindeburg ? Henry Ford, Rockefeller e muitos industriais norte-americanos não tiveram importantes relações com o regime de Hitler? O apaziguamento covarde de Neville Chamberllain não usava um temor de nova guerra como protagonista de um anti-comunismo histérico do Ocidente?

Assim, ao observar o discurso anti-comunista em gente como Feliciano ou Bolsonaro e tantos outros de nossa vida política, temos que perceber, no seio de opiniões aparentemente infundadas, mas comuns na mentalidade ocidental, aonde descansa teoricamente e a quem serve este tipo de argumentação. O fascismo é o capitalismo aplicado sem o cinismo liberal e deles o marxismo é inimigo declarado.

Leandro Dias

*Colaborou: André Brito

NOTAS

1 – Ver BERTELLI, Antonio Roberto, “Capitalismo de Estado e Socialismo”, páginas 67 a 80.

2 – Para Marx, o Estado moderno é, se não, a consolidação do poder da propriedade privada. Ver verbete Estado da enciclopédia marxista.

3 – Esse texto poderia ser resumido assim: “fascismo é ruim porque é violento, intervencionista e etc, mas na contingência do momento, para bater e proteger do comunismo, é bom e deve entrar para história por isso”.

4 – Rosa Luxemburgo por exemplo, foi morta pela polícia da Baviera, que na época tinha forte associação com os grupos paramilitares de extrema direita, genericamente chamados de Freikorps.

5 – A prática ad hominem não é rara nesta escola.

6 – Até mesmo um stalinista admite isso, Ludo Martens em seu livro “Stalin, um novo Olhar”.

7 – Ver nosso último post  e ver também “Landmark Speeches of National Socialism”, por Randall Bytwerk (organizador).

8 – Vale ler o grande número de documentos oficiais, discursos e livros nazistas compilados por Jeremy Noakes, no seu excelente “Documents on Nazism” (1919-1945), especialmente a sessão Hitler e os Industriais.

9 -Ver “Hitler und Ich” (Hitler e Eu), livro de Otto Strasser, político e dos primeiros importantes membros do Partido Nazista, expulso do partido em 1930. Lembrem também que em 1934 a “Noite das Facas Longas” foi justamente um “pogron” para exterminar os elementos esquerdistas e socialistas, muitas vezes chamados de “bolcheviques” pelos seus algozes.

10 – Ver citação “Página 488” do nosso texto último post sobre Hitler.

11 – Marx diz em carta a um amigo (tradução minha): “Nenhum de nós se importa com a popularidade. A prova disso é por exemplo, que devido à aversão a qualquer culto à personalidade, eu nunca permiti que as inúmeras expressões de reconhecimento que eu recebi durante a existência da Internacional alcançassem o campo da publicidade, eu nunca as respondi, exceto ocasionalmente quando fui refutá-las. Quando Engels e eu entramos na organização secreta “Sociedade Comunista”, exigimos a condição de que tudo que encorajasse credos supersticiosos na autoridade deveriam ser removidos dos estatutos.” (Letter to W. Blos, IN: Wikiquote). Essa colocação é diametralmente oposta ao “princípio da autoridade” dos nazistas.

12 – Citação adicionada na revisão deste texto, 25-5-2013. Ver aqui ; aqui e ver GANDIN, Greg, Empire’s Workshop, Henry Holt Company, EUA, 2006.

O “marxismo” citado no Mein Kampf de Adolf Hitler.

 

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Resolvi reunir aqui uma lista enorme de citações de Hitler sobre o marxismo, comunismo, bolchevismo e URSS. É um exercício acadêmico, como fonte de referências futuras. Este texto servirá de apêndice de um outro texto que estou escrevendo. É uma compilação de afirmações ipsis literis de Adolf Hitler a cerca do tema.

Procurei citar os parágrafos e frases importantes para a compreensão da relação (ou falta dela) de Hitler com o marxismo, e, como o autor mesmo fazia, não vai ser difícil observar o evidente antissemitismo associado com o tema. Por incrível que pareça, não estão todas as citações de Hitler sobre o tema em seu livro de 500 e poucas páginas.

O conteúdo é muitas vezes chocante ou contraditório, mas sempre que possível procurei citar o contexto, daí a grande extensão deste texto. Inicialmente começarei com a palavra escrita do próprio autor, retirada de seu livro, o Mein Kampf, na tradução de Klaus Von Puschen, publicada pela editora Centauro em 2001.

Assim, aqui vai:

Página 22: “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”

Página 43: “Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos  o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo”

Página 51:  No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”

Página 53:”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.

Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”

Página 63: “A democracia do ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível. Ela oferece um terreno propício, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua expressão externa – o parlamentarismo – apareceu como um monstrengo de “lama e de fogo”, no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. ”

Página 116: “Pela segunda vez na minha vida, analisei profundamente essa doutrina de destruição [o marxismo] – desta vez, porém, não mais guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela observação dos acontecimentos gerais da vida política.  […]

Comecei a considerar, pela primeira vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência mundial. Estudei os móveis, as lutas e os sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também estudo profundo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Página 116: “No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao meu pequeno círculo de meus conhecidos, bem como a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época – o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos – tendo-se em vista a intenção do marxismo – tinham de ser um dia terríveis.

Página 116: “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”

Página 127: “O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.’

[…]

Tinha chegado agora o momento oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo. Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem considerações para com as lamentações que provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as bênçãos fraternais de bombas americanas. Teria sido dever de um governo cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os operários alemães se tinham integrado de novo a Pátria.

“Que se deveria fazer? Por os dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação. Ter-se-ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria de ser chamado à razão pela força convincente das baionetas.”

Página 160: “Foi assim que os dogmas de Gottfried Feder me incitaram a me ocupar de maneira decidida com esses assuntos que eu pouco conhecia. Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital’ – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.”

Página 176: “Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.”

Página 181: “Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores os judeus”

Página 192: O bolchevismo da arte é a única forma cultural possível da exteriorização do marxismo.

Quando essa coisa estranha aparece, a arte dos Estados bolchevizados só pode contar com produtos doentios de loucos ou degenerados, que desde o século passado, conhecemos sob forma de dadaísmo e cubismo, como arte oficialmente reconhecida e admirada.”

Página 236: “O processo aí emprego pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

[…]

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e loucura, mas tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores. Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que pode se dar a esse aborto de um cérebro criminoso a denominação de “doutrina’. ”

Página 237: “De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas mas, em verdade, constituem um único bloco: o movimento dos políticos e dos sindicatos.”

Página 243:  “Mesmo as eleições de representantes ao “Reichstag” anunciavam, com o seu acréscimo patente de votos marxistas, o desmoronamento  interno cada vez mais próximo e a todos manifesto. Todos os sucessos dos denominados partidos políticos não tinham mais valor, não só por não poderem fazer parar a ascensão da onda marxista, mesmo nas chamadas vitórias eleitorais burguesas, como também pelo fato de já trazerem dentro de si os fermentos da decomposição. Inconscientemente, o mundo burguês já se achava contaminado pelo veneno mortal do marxismo”.

Página 287: “E se uma parte do marxismo, por vezes, tenta, com muita prudência, aparentar indissolúvel união com os princípios democráticos, convém não esquecer, que esses senhores, nas horas críticas, não deram a menor importância a uma decisão por maioria, à maneira democrática ocidental. Isso foi quando os parlamentares burgueses viam a segurança do Reich garantida pela monumental parvoíce de uma grande maioria, enquanto o marxismo com uma multidão de vagabundos, desertores, pulhas partidários e literatos judeus, em pouco tempo, arrebatava o poder para si, aplicando, assim, ruidosa bofetada à democracia. Por isso, só ao espírito crédulo dos magros parlamentares da burguesia democrática cabe supor que, agora ou no futuro, os interessados pela universal peste marxistíca e seus defensores possam ser banidos com as fórmulas de exorcismo do parlamentarismo ocidental”.

Página 288: “Mas, numa época em que uma parte, aparelhada com todas as armas de uma nova doutrina [o marxismo], embora mil vezes criminosa,  se prepara para o ataque a uma ordem existente, a outra parte só pode resistir-lhe sempre se adotar fórmulas de uma nova fé política; em nosso caso, se trocar a senha de uma defesa fraca e covarde pelo grito de guerra de um ataque animoso e brutal.”

Página 291: “À nossa concepção política usual repousa geralmente sobre a idéia de que ao Estado, em si, se pode atribuir força criadora e cultural, mas que ele nada tem a ver com a questão racial; e que ele é, antes de mais nada, um produto das necessidades econômicas ou, no melhor dos casos, o resultante natural da competição política pelo poder. Essa concepção fundamental, em seu lógico e consequente desenvolvimento progressivo, leva não só ao desconhecimento das forças primordiais da raça como à desvalorização do indivíduo. Porque a negação da diferença entre as raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver a relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. A aceitação da identidade das raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver em relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. Por isso, o marxismo internacional é simplesmente  a versão aceita pelo judeu Karl Marx de idéias e conceitos já há muito existentes de fato sob a forma de aceitação de uma determinada fé política. Sem o alicerce de uma semelhante intoxicação geral já existente, jamais teria sido possível o espantoso êxito político dessa doutrina. Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um feiticeiro, com ela aniquilar rapidamente a vida das nações livres da terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça.

Página 291: “O mundo burguês é marxistísco, mas acredita na possibilidade de domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus”.

Página 335: ” Se o programa social do novo movimento consistisse em suprimir a personalidade e por em seu lugar a autoridade das massas, o Nacional-Socialismo já ao nascer, estaria contaminado pelo veneno do marxismo, como é o caso dos partidos burgueses.”

Página 342: “O que nossa burguesia sempre olhou com indiferença, isto é, a verdade segundo a qual ao marxismo só se ligam as classes iletradas era, na realidade, a condição sine qua non para o êxito do mesmo. Enquanto os partidos burgueses, na sua intelectualidade superficial, nada mais representavam do que um bando incapaz e indisciplinado, o marxismo, com um material humano intelectualmente inferior, formou um exército de soldados partidários que obedeciam tão cegamente aos seus dirigentes judeus como outrora aos seus oficiais alemães.”

Página 353: “A força que deu ao marxismo sua espantosa influência sobre as massas não foi a obra intelectual preparada pelos judeus, mas sim a formidável propaganda oral que inundou a nação, acabando pela dominação das camadas populares. De cem mil proletários alemães não se tiram talvez cem que conheçam a obra de Marx, que era estudada, mil vezes mais, pelos intelectuais, especialmente os judeus, do que por genuínos adeptos do movimento nas classes inferiores.

Esse livro não foi escrito para o povo, mas exclusivamente para os líderes intelectuais da máquina que os judeus montaram para a conquista do mundo. ”

Página 361: Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias  tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos  cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Página 368-369: “É a essa idéia que a bandeira preta, branca e vermelha, do antigo Reich, deve a sua ressurreição como emblema dos partidos nacionais-burgueses.

É evidente que o símbolo de uma crise que podia ser vencida pelo marxismo, em circunstâncias pouco honrosas, pouco se presta a servir de emblema sob o qual esse mesmo marxismo tem que ser novamente aniquilado. Por mais santas e caras que possam ser essas antigas e belíssimas cores aos olhos de todo alemão bem intencionado, que tenha combatido na Guerra e assistido ao sacrifício de tantos compatriotas, debaixo dessas cores, não pode essa bandeira simbolizar uma luta no futuro.”

Página 384-385: “Ninguém deve esquecer que tudo que há de verdadeiramente grande neste mundo não foi jamais alcançado pelas lutas de ligas, mas representa o triunfo de um vencedor único. O êxito de coalizões já traz na sua origem o germe da corrupção futura. Na realidade só se concebem grandes revoluções suscetíveis de causar verdadeiras mutações de ordem espiritual, quando arrebentam sob a forma de combates titânicos  de elementos isolados, nunca porém, como empreendimentos de combinação de grupos.”

Página 446: “Não o sindicato em si é que é “lutador de classe’, mas o marxismo é que o fez dele um instrumento para a luta de classes. Ele criou as armas econômicas dos Estados nacionais livres, independentes, para aniquilamento da sua indústria nacional e do seu comércio nacional e por consequência para a escravização de povos livres ao serviço do judaísmo financeiro universal super-estatal.”

Página 449: “Quem […] tivesse realmente arruinado sindicatos marxistas a fim de, em lugar dessa instituição da luta de classes aniquiladora, colocar a idéia do sindicato nacional-socialista e contribuir para a sua vitória, esse pertence ao número dos verdadeiros grandes homens de nosso povo e seu busto deverá, um dia, ser dedicado à posteridade, no Walhalla de Regensburg”.

Página 450: Utilidade real para o movimento [sindical], como para nosso povo em geral […] só pode surgir de um movimento sindical nacional-socialista, se esse já estiver tão fortemente embebido das nossas idéias nacional-socialistas que ele não corra mais perigo de seguir as pegadas marxistas. Pois um sindicato nacional-socialista, que visse como sua missão apenas a concorrência aos marxistas, seria pior que nenhum. Ele tem de declarar a sua luta ao sindicato marxista, não apenas como organização, mas antes de tudo, como idéia. Ele deve encontrar nele o pregoeiro da luta de classes e da idéia de luta de classes e deve se tornar, em lugar deles, o guardião dos interesses profissionais dos cidadãos alemães.

Página 488: “Uma aliança, cujo o objetivo não compreenda a hipótese de uma guerra, não tem sentido nem valor. Alianças só fazem para luta. Embora, no momento de ser realizado um tratado de aliança, esteja muito afastada a idéia de guerra, a probabilidade de uma complicação bélica é, não obstante, a verdadeira causa.

[…]

Assim pois, o simples fato de uma aliança com a Rússia é uma indicação da próxima guerra. O seu desenlace seria o fim da Alemanha.

[…]

Os atuais detentores do poder na Rússia, não pensam absolutamente em fazer uma aliança honesta ou de mantê-la.

É preciso não esquecer nunca que os dirigente da Rússia atual são sanguinários criminosos vulgares e que se trta, no caso, da borra da sociedade, que, favorecida pelas circunstâncias, em uma hora trágica, derrubou um grande Estado e, na fúria do massacre, estrangulou  e destruiu milhões dos mais inteligentes de seus compatriotas e agora, há dez anos, dirige o mais tirânico regime de todos os tempos. Não devemos esquecer que muitos deles pertencem a uma raça que combina uma rara mistura de crueldade bestial e grande habilidade em mentir e que se julga especialmente chamada, agora, a submeter o mundo todo à sua sangrenta opressão.”

Página 488: Não devemos esquecer que o judeu internacional, que continua a dominar na Rússia, não olha a Alemanha como um aliado, mas como um Estado destinado à mesma sorte. Não se conclui, porém, nenhum tratado com uma parte, cujo único interesse está no aniquilamento da outra.”

Página 489: “Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaismo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo”.

Página 489: “A luta contra a bolchevização mundial exige uma atitude clara com relação à Russia soviética. Não se pode afugentar o Diabo com Belzebu.”

Página 502: “Qualquer idéia de resistência contra a França seria rematada loucura, se não se declarasse guerra de morte aos elementos marxistas que, cinco anos antes, impediram que a Alemanha continuasse a luta nas linhas de frente.”

Página 503: “O fato de ter o nosso soldado outrora lutado com ardor é a prova mais evidente de que não estava ainda contaminado pela loucura marxista. À proporção, porém, que o soldado e o operário alemão, com o decorrer da Guerra, iam caindo nas garras do marxismo, eram elementos perdidos para a Pátria.”

Página 503: “No ano de 1923 estávamos em face de uma situação idêntica à de 1918. QUalquer que fosse a maneira de resistir que se escolhesse, a condição indispensável seria livrar primeiro, o nosso povo do marxismo corruptor.”

Página 505: “No dia em que, na Alemanha, for destruído o marxismo, romper-se-ão, na verdade, para sempre, os nossos grilhões”.

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Futuramente pretendo compilar mais citações de Hitler sobre o tema, focando em discursos e documentos oficiais do partido. O objetivo inicial é demonstrar o ódio visceral de Hitler ao marxismo e o incrível rocambole ideológico capaz de fazer o marxismo estar submetido ao capitalismo internacional numa conspiração judaica para dominar o mundo.

Depois destas, alguém ainda tem a desonestidade intelectual de associar marxismo e nazismo?

***

Leandro Dias

Capitalismo e Democracia

Protesto

“Eu não acredito que ainda tenho que protestar por esta merda”

O Estado Moderno, capitalista e pró lucro surgiu antes da democracia como a conhecemos ou pensamos hoje. De uma maneira resumida poderíamos dizer que o poder político deste Estado originou-se como força resultante dos acertos da classe dominante de uma determinada sociedade, ora se mostrou como um mediador de conflitos entre poderosas famílias de nobres e de burgueses, que através de negociações e acordos entre seus membros, chegavam a conclusões de interesse mútuo, e ora como a representação da supremacia de um grupo unificador se impondo contra menores, seja pela força econômica ou força militar (1).

A representatividade dos grupos sociais e econômicos de um país, isto é, o acesso ao seu Estado e portanto ao “poder legítimo”, surgiu sempre de maneira classista, explicitamente destinando-se a representar a classe que dominava de fato o Estado. O voto no Estado Moderno sempre foi censitário, por renda, por impostos ou posse de terras (2). O voto censitário era justificado como um avaliador simples da capacidade, estabilidade e qualidade do indivíduo, uma expressão meritocrática da sua posição na sociedade, um reflexo “lógico” da ideologia liberal-capitalista. “No taxation without representation”, lema clássico do movimento independentista norte-americano, uma vez realizada a independência que queriam, se tornou “no representation without taxation”, isto é, somente quem pagava impostos de propriedade é que poderiam se fazer representados dentro do Estado, excluindo a esmagadora maioria da população.

Hobsbawn escreve em “A Era das Revoluções” (pg. 106-107):

[…] No geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata, mas sim um devoto do constitucionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários.

Em alguns casos, já no final do século XIX, depois de décadas de luta popular, quando a elite estava um tanto “envergonhada” destas práticas descaradas de cerceamento político de partes expressivas de sua população pelo simples fatos de serem despossuídos, passaram a adotar eufemismos “liberais e progressistas” como a escolaridade como critério de votação, numa releitura da clássica frase de Anatole de France: “É proibido tanto a ricos analfabetos quanto a pobres analfabetos votar em seus representantes”. Isso para sociedades que não possuíam escolas públicas.

A Inglaterra, emblemático exemplo de “democracia ocidental”, só deu plenos direitos à sua população masculina toda votar em 1918, até então o voto destinava-se apenas, em maior ou menor grau, proprietários homens (mulheres só foram poder votar em 1928). Por lá, o voto secreto só entrou de fato em vigor em 1872 e o fim oficial da compra de votos apenas em 1884 (3). Neste processo, através de uma série de demandas populares foram diminuídas as restrições de propriedade, e a classe operária pôde começar a votar de fato em 1867 e mesmo assim, apenas 32% da população masculina na idade adequada, estava apta para tal nesta época (4).

Vale lembrar que até 1949 proprietários de empresas e comércio, podiam votar mais de uma vez em determinadas eleições, claramente uma medida para enfraquecer o poder popular organizado dos despossuídos. E, se lembrarmos que até 1910 parlamentares não recebiam salário naquele país, tínhamos uma seríssima restrição de acesso da massa de trabalhadores ao parlamento que não tinham tempo hábil para exercer o cargo e trabalhar em fábricas por exemplo, não tendo como financiar sua carreira parlamentar, a não ser quando um ou outro sindicato podia bancar os seus representantes. E mais, desde que parte da classe operária pôde começar a votar em 1867, apenas quem fosse proprietário e acima de 30 anos poderia concorrer a algum cargo, sendo que a expectativa de vida para um trabalhador inglês no meio do século XIX não passava de 40 anos (5).

Então, mesmo se forçarmos a barra e esquecermos todo o império colonial criado pelos britânicos, ainda temos que a toda a formação e consolidação do capitalismo inglês se deu fundamentalmente em bases não democráticas, semi-servil ou escrava (6).

Nos EUA, a auto-proclamada Terra da Liberdade, os direitos plenos a voto nacionais só foram instaurados em inacreditáveis 1964-1965, com a 24ª emenda e o Ato dos Direitos Civis. Até então os estados decidiam a questão e, embora a constituição nacional permitisse voto de ex-escravos desde 1869 (15ª emenda), os estados da federação trataram de passar, já naquela época, leis que na prática impediam os negros de votar (7). Os artifícios eram os mais variado, como testes de alfabetização (sendo que negros eram proibidos em escolas públicas), histórico de impostos (poll tax), inúmeros documentos e atestados de propriedades. Além disso, a proibição de votar a presos por certos crimes proliferou o número de pequenas prisões de negros e pobres em época de eleição para evitar que fossem votar, fato ainda controverso até hoje (8).

E mais, o voto só se tornou secreto nos EUA após 1884 (9), até então o nosso conhecido voto de cabresto, reforçado por poderosas elites e grupos paramilitares como a Klu Klux Kan e os Camisas Vermelhas (10) impediam ou intimidavam negros e minorias de votar como queriam. Assim, depois de muita luta, estado por estado, o voto universal de fato, só foi lei nacional nos EUA em 1965, isso se desconsiderarmos as implicações conservadoras que o voto colegiado (indireto) ainda fazem hoje, papo para outro post. Quanto pioneirismo da Terra da Liberdade.

Na França, o voto universal não restringido por renda ou posição social, só foi instaurado em 1875, após intenso combate popular desde as revoluções populares de 1848 e quatro anos depois da Comuna de Paris de 1871, a mais libertária das Revoluções, em que o voto universal foi uma das principais bandeiras (11). Porém, nem tudo são flores na República Francesa, apenas em 1913 o voto secreto foi estabelecido, mais de 120 anos desde a Revolução Francesa (12). E, em termos de igualdade de gênero, a França está atrás até mesmo do Brasil, as mulheres na França só passaram a votar em tardios 1945 (13)

Enfim, citando alguns outros exemplos, temos a Suíça  outro bastião da civilização, com uma democracia direta (plebiscitária) das mais antigas e sólidas, cunhada após intensos conflitos populares liderados por fortes correntes radicais contra resquícios do Antigo Regime (ainda em 1848). A Suiça só deu voto universal às mulheres em 1971 (14), isto é, este país, exemplo de democracia ocidental, só deu direito a voto a outra metade de sua população 41 anos atrás. Ali do lado, na Alemanha o voto universal masculino só chegou em 1918, isso com a derrota na Grande Guerra, até então havia um sistema censitário e nobiliárquico (1871-1918),  isso sem esquecer o período nazista que revogou a democracia alemã entre 1935 e 1945, mas não vêm ao caso.

Os exemplos poderiam prosseguir ainda com os vários países independentes das colônias inglesas, que só deram direito a todos os seus cidadãos a votar entre 1880 e 1920, sendo que a Austrália só deu direito a voto às minorias aborígenes em 1962. No caso europeu, não podemos esquecer que Espanha e Portugal só deram direito pleno de voto à sua população, respectivamente em 1978 e 1975 (15). No Brasil só para mencionar, fomos acabar com o voto censitário e vinculado à propriedade com a constituição de 1934, embora analfabetos, metade da população brasileira, só tenham obtido direito de votar com a constituição de 1988, com o final da ditadura militar. Até então eram – oficialmente – cidadãos de segunda classe.

E ainda que vivamos numa era de maior fiscalização e voto secreto, o famigerado voto de cabresto ainda está presente em várias eleições pelo mundo. Se antigamente era vinculado à coronéis e industriais “linha dura”, hoje são os chefes de milícia no Brasil (16) ou donos de empresa “respeitáveis” nos EUA (17) que forçam seus candidatos preferidos.

Porém, o que toda essa informação significa?

O capitalismo e o Estado Moderno como o conhecemos se estabeleceram na maioria dos países analisados muito antes da universalização de suas democracias. E sempre, sem exceção, o establishment capitalista evitou ao máximo que o direito pleno que tanto pregavam fossem de fato universalizados. A liberdade era apenas para quem tinha renda ou “capacidade”, nada para o homem comum e pobre das fábricas, campos e usinas. Foi com extrema luta de trabalhadores, liderados – é importante frisar – por comunistas, socialistas, anarquistas e sindicalistas em geral, é que o voto, entre tantos outros direitos sociais hoje “comuns”, foi conquistado contra o poder capitalista dominante, fundando a democracia mais ou menos plena.

A hegemonia da “busca pelo lucro” veio muito antes da democracia se tornar hegemônica (e a hegemonia da última ainda é bastante contestável). O ideal da democracia capitalista não era muito diferente da democracia grega antiga, onde um punhado de aristocratas e oligarcas tinham direito a comandar o Estado, deixando uma massa de escravos e semi-escravos sem direito a escolha, condenados à sua própria origem de nascença. E hoje ainda, é mais do que comum encontrarmos países capitalistas sem democracia, poderíamos dizer até que uma democracia transparente e estável é uma exceção e não uma regra nos países capitalistas.

Democracia jamais foi condição sine qua non para o capitalismo. Não foram os capitalistas radicais friedmanianos que instauraram o “livre mercado” na mais assassina das ditaduras da América do Sul, com mais de 30.000 mortos no Chile? (17). Não é Singapura uma rígida ditadura capitalista de Estado, tida como exemplar pelo “ocidente”? Ou o que foi o Egito e é a Arábia Saudita, se não brutais ditaduras aliadas do ocidente democrático-capitalista, produzindo petróleo para o “libertário” capitalismo euro-americano? Não é a China, o mais brutal regime capitalista já pensado: um Estado aristocrático, super-poderoso, que do comunismo só absorveu o que tinha de pior – a estrutura de poder bolchevique -, enquadrando infindável contingente de pessoas em trabalhos semi-escravos a serviço das mega-corporações mundiais? A prova final de que o namoro entre capitalismo e democracia não passa de retórica.

Então hoje, não é surpresa que em sinal de mais uma crise econômica, o capitalismo ganhe nova força solapando a democracia como nos acostumamos a conhecer, marchando abertamente para Estados onde proprietários e plutocratas detém de juri e de fato todo o poder político. A criminalização de movimentos sociais e sindicatos, ridicularização e esvaziamento de protestos, brutalidade policial em níveis ditatoriais no coração de todas as democracias ocidentais, esmagamento de direitos trabalhistas históricos, corporações e sistema financeiro fazendo rodízio entre os seus líderes favoritos, seja nos EUA ou no México; latifundiários derrubando governos eleitos no Paraguai e em Honduras, criando verdadeiras cidades privadas na última (17), tudo com auspícios das lideranças ocidentais; a Alemanha aplicando uma dieta econômica tirânica e colonial no seio da Europa, escravizando a Grécia de uma maneira sem precedentes; tudo em nome da “liberdade e da saúde da economia”. E poderíamos ainda incluir a promiscuidade entre o sistema carcerário, judiciário e corporações criando uma verdadeira “indústria do crime e punição” por toda parte (em especial nos EUA), exemplificada muito bem por Michael Moore no filme, “Capitalismo uma História de Amor”.

Falando deste filme, ao contrário do que prega Michael Moore, não foi o capitalismo, suas mega-corporações e interesses privados representados dentro do Estado, que atropelaram a democracia. Numa perspectiva histórica, foi a democracia – a busca por igualdade social e econômica além da meramente jurídica -, é que tentou, por um breve momento da história, em certos cantos do mundo, atropelar o capitalismo. O Estado capitalista sempre foi abertamente feito para proprietários, para corporações e seus interesses privados, o interesse da massa de trabalhadores foi sempre visto como um mal que “desordena a economia e o mercado”. Então, é natural dentro desta lógica, que esses direitos sociais e trabalhistas históricos, conquistados à duras penas, sejam “revisados” e excluídos da estrutura do Estado em todas as oportunidades que aparecem, em nome da economia e da “austeridade”. O acirramento do conflito entre trabalhadores, Estado e corporações que vemos hoje é na verdade um retorno nítido às disputas do final do século XIX. A breve história do Estado de Bem Estar Social e da democracia popular, mal completaram algumas décadas e já aparecem seriamente questionadas e ameaçadas, se mostrando inviáveis dentro da lógica do sistema. Seu ápice não passou de mera exceção na história do capitalismo.

“Eu não acredito que estamos lutando por estes direitos novamente”.

LEANDRO DIAS

Notas:

1 – A dicotomia entre Estado e Capitalismo, tão enfatizada por liberais, não passa de um mito ideológico de reinvenção do passado. O Estado sempre foi o principal fomentador do capitalismo privado na imensa maioria das nações, foi através deles que os interesses privados dominantes se fizeram ainda mais dominantes e se expandiram. Seja o exército inglês protegendo a expansão da empresa privada Companhia das Índias Orientais no processo de colonização indiano ou na Rodésia e em tantas outras nações africanas, ou as indústrias petroleiras e armamentista sendo os principais lobistas e beneficiários da expansão belicosa norte-americana no Oriente Médio. Não será preciso ir muito a fundo, pois já tocamos neste assunto aqui aqui.

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Suffrage

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/Parliamentary_Franchise_in_the_United_Kingdom_1885%E2%80%931918 ; e também aqui http://en.wikipedia.org/wiki/Elections_in_the_United_Kingdom#History

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Representation_of_the_People_Act_1884

5 – http://www.census-helper.co.uk/victorian-life/

6 – Ver Hobsbawn, Eric “A Era das Revoluções” e Engels, Friedrich “As Condições da Classe Operária Inglesa” (pdf).

7 – http://en.wikipedia.org/wiki/Voting_rights_in_the_United_States

8 – http://jacobinmag.com/2012/05/the-political-economy-of-mass-incarceration/

9 – http://en.wikipedia.org/wiki/Secret_ballot

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Red_Shirts_(Southern_United_States)

11 – http://en.wikipedia.org/wiki/Paris_Commune

12 – http://www.assemblee-nationale.fr/histoire/suffrage_universel/suffrage-1870.asp#gauche

13 – http://en.wikipedia.org/wiki/Women’s_suffrage

14 – http://history-switzerland.geschichte-schweiz.ch/chronology-womens-right-vote-switzerland.html

15 – http://en.wikipedia.org/wiki/Universal_suffrage

16 – http://www.cartacapital.com.br/politica/paes-ganharia-eleicao-no-primeiro-turno-diz-ibope/

17 – http://www.nytimes.com/2012/10/27/us/politics/bosses-offering-timely-advice-how-to-vote.html

18  – http://en.wikipedia.org/wiki/Chicago_Boys

19 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120909_honduras_cidade_modelo_lgb.shtml