Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos da Categoria: Elite

Fascismo à Brasileira

Duas faces do neo-autoritarismo brasileiro?

Historicamente a adesão inicial ao fascismo foi um fenômeno típico das classes dominantes desesperadas e das classes médias empobrecidas e apenas pontualmente conquistou os estratos mais baixos da sociedade, ideologicamente dominados pelo trabalhismo social-democrata ou pelo comunismo. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha e camisas-negras na Itália, aos integralistas brasileiros e caudilhistas espanhóis seguidores de Franco, as classes médias, empobrecidas pelas sucessivas crises do pós-guerra (1921 e especialmente 1929), formaram o núcleo duro dos movimentos fascistas.

Esse alinhamento ao fascismo teve como fundo principal uma profunda descrença na política, no jogo de alianças e negociatas da democracia liberal e na sua incapacidade de solucionar as crises agudas que seguiam ao longo dos anos 1910, 20 e 30. Enquanto as democracias liberais estavam estáveis e em situação econômica favorável, com certo nível de emprego e renda, os movimentos fascistas foram minguados e pontuais, muito fracos em termos de adesão se comparados aos movimentos comunistas da mesma época. Porém, uma vez que a democracia liberal e sua ortodoxia econômica mostraram uma gritante fraqueza e falta de decisão diante do aprofundamento da crise econômica nos anos 1920 e 30, a população se radicalizou e clamou por mudanças e ação.

Lembremos que, quando os nazistas foram eleitos em 1932, a votação foi bastante radical se comparada aos pleitos anteriores; 85% dos votos dos eleitores alemães foram para partidos até então considerados mais radicais, a saber, Socialistas (social-democracia), Comunistas e Nazistas (nacional-socialistas), os dois primeiros à esquerda e o último à direita. Os conservadores ortodoxos, anteriormente no poder, estavam perdidos em seu continuísmo e indecisão, sem saber o que fazer da economia e às vezes até piorando a situação, como foi o caso da Áustria até 1938, completamente estagnada e sem soluções para sair da crise e do desemprego, refém da ortodoxia de pensadores da escola austríaca, tornando-se terreno fértil para o radicalismo nazista (que havia fracassado em 1934).

Além disso, o fascismo se apresentava como profundamente anticomunista, o que, do ponto de vista das classes dominantes mais abastadas e classes médias mais estáveis (proprietárias) menos afetadas pelas crises, era uma salvaguarda ideológica, pois o “Perigo Vermelho”, isto é, o medo de que os comunistas poderiam de fato tomar o poder, era um temor bastante real que a democracia liberal parecia incapaz de “resolver” pelos seus tradicionais métodos, especialmente após a crise de 1929. O fascismo desta maneira se apresentou como último refúgio dos conservadores (sejam de classe média ou da elite) contra o socialismo. Os intelectuais que influenciavam os setores sociais menos simpáticos ao fascismo, o viam como um mal menor “temporário” para proteger a “boa sociedade” das “barbáries socialistas”, como o guru liberal Ludwig von Mises colocou, reconhecendo a fraqueza da democracia liberal face ao “problema comunista”:

Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização européia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal. (L. von Mises, Liberalism, 1985[1927], Cap. 1, p. 47)

Além da descrença na política tradicional e do temor do perigo vermelho num cenário de crise, houve ainda uma razão fundamental para as classes médias adentrarem as fileiras do fascismo: o medo do empobrecimento e a perda do status social.

Esse sentimento – chamado de declassemént ou declassê no aportuguesado, algo como ”deixar de ser alguém de classe” – remetia ao medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente associava-se ao receio de que o prestígio social ou o reconhecimento social por sua posição econômica esmorecessem, mesmo para pequenos proprietários e profissionais liberais sem títulos de nobreza (ver Norbet Elias, Os Alemães). Esse medo entra ainda no contexto de uma evidente rejeição republicana, uma reação conservadora do etos nobiliárquico que dominava as classes altas e parte das classes médias urbanas nos países fascistas, à consolidação dos ideais liberais (mais igualitários) na estrutura social de poder e de privilégios, isto é, na tradição social aristocrática. Não foi por acaso que o fascismo foi uma força política exatamente onde os ideais liberais jamais haviam se arraigado, como Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Brasil.

Por fim, cumpre lembrar que os fascistas apelam à violência como forma de ação política. Como disse Mussolini: “Apenas a guerra eleva a energia humana a sua mais alta tensão e coloca o selo de nobreza nas pessoas que têm a coragem de fazê-la” (Doutrina do Fascismo, 1932, p. 7). A perseguição sem julgamento, campos de trabalho e autoritarismo não só vieram na prática muito antes do genocídio e da guerra, mas também já estavam em suas palavras muito antes de acontecerem. No discurso e na prática, a sociedade é (ou destina-se) apenas para aqueles que o fascista identifica como adequados; há um evidente elitismo e senso de pertencimento “correto” e “verdadeiro”, seja uma concepção de nação ou de identidade de raça ou grupo. E essa identidade “verdadeira” será estabelecida à força se preciso.

Mas porque estamos falando disso?

Parece crescente e cada vez mais evidente no Brasil que importantes setores da classe média e classe alta simpatizam com ideais semelhantes aos que formaram o caldeirão social do fascismo?

Vimos em texto recente que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carrega fortes sentimentos anti-republicanos (ou anticonstitucionais), herdados de nossa sucessão de classes dominantes sem conflito e mudança estrutural, sem qualquer alteração substancial de sua posição material e política, perpetuando suas crenças e cultura de Antigo Regime. Privilégios conquistados por herança ou “na amizade”, contatos pessoais, indicações, nepotismos, fiscalização seletiva e personalista; são todas marcas tradicionais de nossa cultura política. A lei aqui “não pega”, do mesmo jeito que para nazistas a palavra pessoal era mais importante que a lei. Há um paralelo assustador entre a teoria do fuhrerprinzip e a prática da pequena autoridade coronelista, à revelia da lei escrita, presente no Brasil.

Talvez por isso, também tenhamos, como a base social do fascismo de antigamente, uma profunda descrença na política e nos políticos. Enojada pelo jogo sujo da política tradicional, das trocas de favores entre empresas e políticos, como o caso do Trensalão ou entre políticos e políticos, como os casos dos mensalões nos mais variados partidos, a classe média tradicional brasileira se ilude com aventuras políticas onde a política parece ausente, como no governo militar ou na tecnocracia de governos de técnicos administrativos neoliberais. Ambos altamente políticos, com sua agenda definida, seus interesses de classe e poder, igualmente corruptos e escusos, mas suficientemente mascarados em discursos apolíticos e propaganda, seja pelo tecnicismo neoliberal ou pelo nacionalismo vazio dos protofascistas de 1964, levando incautos e ingênuos a segui-los como “nova política” messiânica que vai limpar tudo que havia de ruim anteriormente

Por sua vez, como terceiro ponto em comum, partes das classes médias tradicionais e a elite tem um ódio encarnado de “comunistas”, e basta ler os “bastiões intelectuais” da elite brasileira, como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino ou Olavo de Carvalho ou mesmo porta-vozes do soft power do neoconservadorismo brasileiro, como Lobão e Monica Sherazade. É curioso que o mais radical deles, Olavo de Carvalho, enxergue “marxismo cultural” em gente como George Soros (mega-especulador capitalista), associando-o ao movimento comunista internacional para subjugar o mundo cristão ocidental. Esse argumento em essência é basicamente o mesmo de Adolf Hitler: o marxismo e o capital financeiro internacional estão combinados para destruir a nação alemã (Mein Kampf, 2001[1925], p. 160, 176 e 181).

A violência fascista, por sua vez, é apresentada na escalada de repressão punitivista e repressora do Estado, apesar de – ainda – ser menos brutal que o culto à guerra dos fascistas dos anos 1920 e 30. Antes restritos apenas aos programas sensacionalistas de tv sobre violência urbana e aos apologistas da ditadura como Jair Bolsonaro, o discurso violento proto-fascista “bandido bom é bandido morto”, que clama por uma escalada de repressão punitiva, sai do campo tradicionalmente duro da extrema direita e se alinha ao pensamento de economistas liberais neoconservadores que consideram que “o criminoso faz um cálculo antes de cometer seu crime, então é o caso de elevar constantemente o preço do crime (penas intermináveis, assédio, execuções), na esperança de levar aqueles que sentirem tentados à conclusão de que o crime já não compensa” (Serge Hamili, 2013). Assim, a apologia repressora se alinha à lógica do punitivismo mercantil de apologistas do mercado, mimetizando um Chile de Pinochet onde um duríssimo estado repressor, anticomunista, está alinhado com o discurso neoliberal mais radical.

E, ainda, somam-se a isso tudo o classismo e o racismo elitista evidentes de nossa “alta” sociedade. Da “gente diferenciada” que não pode frequentar Higienópolis, passando pelo humor rasteiro de um Gentili, ou o explícito e constrangedor classismo de Rachel Sherazade, que se assemelha à “pioneira revolta” de Luiz Carlos Prates ao constatar que “qualquer miserável pode ter um carro”, culminando com o mais vergonhoso atraso de Rodrigo Constantino em sua recente coluna, mostrando que nossos liberais estão mais inspirados por Arthur de Gobineau e Herbert Spencer do que Adam Smith ou Thomas Jefferson. A elite e a classe média tradicional (que segue o etos da primeira), não têm mais vergonha de expor sua crença no direito natural de governar e dominar os pobres, no “mandato histórico” da aristocracia sobre a patuléia brasileira. O darwinismo social vai deixando o submundo envergonhado da extrema direita para entrar nos nossos televisores diariamente.

Assim, com uma profunda descrença na política tradicional e no parlamento, somada a um anti-republicanismo dos privilégios de classe e herança, temperados por um anticomunismo irracional sob auspícios de um darwinismo social histórico e latente, aliado a uma escalada punitivista alinhada a “ciência” econômica neoliberal, temos uma receita perigosa para um neofascismo à brasileira. Porém, antes que corramos para as montanhas, falta um elemento fundamental para que esse caldeirão social desemboque em prática neofascista real: crise econômica profunda.

Apesar do terrorismo midiático, nossa sociedade não está em crise econômica grave que justifique esta radicalização filo-fascista recente. Pela primeira vez em décadas, o país vive certo otimismo econômico e, enquanto no final dos anos 1990, um em cada cinco brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é um em cada 11. A Petrobrás não só não vai quebrar como captou bilhões recentemente. A classe média nunca viajou, gastou no exterior e comprou tanto quanto hoje, nem mesmo no auge insano do Real valendo 0,52 centavos de dólar. O otimismo brasileiro está muito acima da média mundial, mesmo que abaixo das taxas dos anos anteriores.

No entanto, apesar de tudo isso, parte das antigas classes médias e elites continuam se radicalizando à extrema direita, dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, suporte ao punitivismo sanguinário das polícias militares, aplaudindo a repressão a manifestações e indiferentes a pobres sendo presos por serem pobres e negros em shopping centers. Isso tudo com aquela saudade da ditadura permeando todo o discurso. Se não há o evidente declassmént, o empobrecimento econômico, ou mesmo um medo real do mesmo, como explicar esta radicalização protofascista?

Não é possível que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o senso de superioridade de nossas elites e classes médias tradicionais sejam suficientes para esta radicalização, pois estes fatores já existiam antes e não desencadeavam tamanha excrescência fascistóide pública.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão gradualmente se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato, causada por alguma crise econômica. Esta sensação vem, não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas. Uma ascensão visível. Seja quando pobres compram carros com prestações a perder de vista; frequentam universidades antes dominadas majoritariamente por ricos brancos; ou jovens “diferenciados” e barulhentos frequentam shoppings de classe média, mesmo que seja para olhar a “ostentação”; ou ainda famílias antes excluídas lotando aeroportos para visitar parentes em toda parte.

Nossa elite e antiga classe média cultivaram por tanto tempo a sua pretensa superioridade cultural e evidente superioridade econômica, seu sangue-azul e posição social histórica; a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo num dos mais desiguais países do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares aos dela, gera um asco e uma rejeição tremenda. Estes setores tradicionais, tão conservadores que são, tão elitistas e mal acostumados que são, rejeitam em tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada” que deveria ter como destino apenas à resignação subalterna (“o seu lugar”), que a ascensão destes “inferiores” faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia oculto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares conservadores. Não há mais máscara, a elite e a classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas, racistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social histórica e, talvez no fundo, a antiga classe média teme constatar que sempre foi pobre em relação à elite que bajula, e enquanto havia miseráveis a perder de vista, sua impotência política e vazio social, eram ao menos suportáveis.

Leandro Dias

Revisado por Carolina Dias

REFERÊNCIAS GERAIS:

ELIAS, Norbert. Os Alemães. Rio de Janeiro: Zahar, 1996

HAMILI, Serge. O laissez faire é libertário?. IN: Le Monde Diplomatique Brasil, número 71, 2013.

HITLER, Adolf. Mein Kampf. São Paulo: Centauro, 1925

HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Cia das Letras,1996

MISES, Ludwig von. Liberalism.Irvington.The Foundation for Economic Education, 1985

MUSSOLINI, Benito. Doctrine of Fascism. Online World Future Fund. 1932

POULANTZAS, Nicos. Fascismo e Ditadura. Porto: Portucalense, 1972

SCHMIT, Carl. Teologia Política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006

Anúncios

Eike Batista e Visconde de Mauá: burgueses e burgueses

Eike Batista Bilionário na Veja.

Eike Batista Bilionário na Veja.

A quebra de Eike Batista, finalmente, chegou.

Fato óbvio e incontornável, a falência de OGX e OSX, as duas principais empresas de seu conglomerado, será oficializada na Justiça em questão de poucas semanas, ou mesmo dias.

Partindo das informações privilegiadas recebidas do pai, Eliezer Batista, presidente da Vale do Rio Doce nos governos Goulart e Figueiredo, Eike foi considerado pela mídia especializada, há apenas dois anos atrás, o sétimo homem mais rico do mundo, momento no qual sua fortuna foi calculada, no auge, em pouco mais de US$ 34,5 bilhões1.

Naquele momento, Eike detinha estoque de riqueza superior ao PIB de mais de 100 nações, ou mais da metade dos países do planeta.

Ou, ainda, se tomarmos uma cotação aproximada de um dólar valendo dois reais, uma riqueza superior à produção, em 2012, de 14 dos 27 estados brasileiros.

Nas revistas daqui, é claro, Eike foi representado, como o empresário-símbolo do capitalismo brasileiro, pois afinal de contas, segundo as mesmas, “enriquecer é glorioso”.

Orgulhosamente anunciaram que nascia “o mais novo bilionário brasileiro”, como se isso fosse sinal do nosso sucesso enquanto sociedade e nação.

Por conta e obra dessa mídia foi criado um ídolo com pretensões a ser verdadeiro herói nacional, tal qual há tempos no Brasil se deseja fazer crer dos empresários.

Heróis nacionais que “trabalham muito e competem honestamente”, geram empregos, renda; que produzem e nos abastecem.

Só “esqueceram” de dizer: “correm riscos” – com dinheiro público.

Lula e Eike

Com efeito, fato significativo foi que não era só a mídia a interessada em criar esse super-herói empresário, mas também ninguém menos que o então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.

Pois também Lula, cujo governo talvez tenha feito mais para consolidar e legitimar o capitalismo no Brasil do que qualquer outro em nossa história, desejava a construção de alguma figura pública representativa desse capitalismo brasileiro em rápida expansão que era, na segunda metade dos anos 2000, sucesso de crítica aqui e no exterior.

Não por acaso, tal qual fariam outros governos ainda mais conservadores, em seu governo, dito por muitos socialista, o BNDES concedeu seguidos empréstimos às empresas de Eike, cujo valor monta, segundo a própria instituição, à módica soma de 6 bilhões de reais2.

E como é típico das práticas neocorporativistas, esse festival de expansão de interesses privados financiado pelo dinheiro público foi representado pelo discurso oficial governista e pela sua militância como a defesa dos empregos da classe trabalhadora brasileira.

Talvez por força da relação entre o crescimento exponencial dos negócios de Eike e o dinheiro público que a ele foi fartamente concedido pelos governos petistas, agora que a casa caiu, temos agora que presenciar o discurso bizarro de certos militantes do referido partido que hoje atribuem a derrocada do “pobre Eike” a um “violento ataque especulativo”.

Esses “analistas”, ou talvez possamos chamá-los mais apropriadamente de torcedores de partidos políticos, mostram-se incapazes de perceber o óbvio: Eike não está sendo vítima de ataque especulativo algum – ele próprio era o ataque especulativo.

A não ser que se queira acreditar que é um fato normal e corriqueiro do capitalismo o salto da riqueza de Eike de pouco mais de sete para para US$ 27,7 bilhões em menos de um ano3.

Pois bem, nesta semana, o “ataque especulativo” reduziu o estoque de riqueza do injustiçado empreendedor para “irrisórios” US$ 73,7 milhões4, uma avassaladora perda de mais de 99% de “sua” riqueza em apenas um ano.

Eike Batista Glorioso

Eike Batista Glorioso

A “perda” da riqueza que nunca existiu

A explicação desses fatos é evidente: a “riqueza” perdida por Eike nunca realmente existiu.

O que vitimou Eike não foi ataque especulativo algum, mas sim, a ambição desmesurada que o caracteriza, por alguns louvada como exemplo do “espírito animal do empresariado”.

Tal qual a confiança exacerbada que Eike tem em si mesmo e que nunca fez nenhuma questão de esconder, demonstrada nas suas reiteradas afirmações, no auge do seu “sucesso”, que se tornaria, brevemente, o homem mais rico do mundo.

É significativo que Eike, louvado como o símbolo máximo do empreendedorismo brasileiro, tenha cometido erros da mais absoluta trivialidade que qualquer aluno de princípios de graduação em administração de empresas ou economia já seria capaz de apontar, tais como:

  1. Diversificou excessivamente seus negócios, perdendo foco;

  2. Expandiu seus negócios de forma temerariamente acelerada, criando uma multiplicidade de novos empreendimentos embora não tivesse praticamente nenhum negócio já consolidado;

  3. Criou empresas cujo único objetivo era fornecer produtos e serviços para outras empresas dele próprio, como o caso da OSX, estaleiro criado para servir à OGX.

Com poucos negócios de fato – concentrados na mineração e geração de energia elétrica – a estratosférica “riqueza” de Eike era bursátil, inflada pela confiança que nele depositavam os principais agentes dos chamados “mercados financeiros”.

Mercados onde circulam, praticamente sem amarras, monumentais volumes de capitais absolutamente incompatíveis e desconectados das relações produtivas da chamada economia real.

Portanto, a “riqueza” acumulada, e hoje perdida, por Eike foi muito menos obra de seu “empreendedorismo” do que da eficácia das suas relações públicas.

Visconde de Mauá: de fato, um burguês

Vale lembrarmos, a título de comparação com a quebra relâmpago e espetacular de Eike, a história do Visconde de Mauá, ainda no século XIX, de repercussões muito mais significativas para a história do Brasil.

Isso porque, ao contrário de Eike Batista, Mauá demonstrou ser um burguês de fato, e a isso foi forçado pelas condições dadas por seu meio ambiente.

Não havia, no Brasil da época de Mauá, praticamente coisa alguma que remetesse a uma sociedade capitalista moderna, coisa que de fato não éramos e nem poderíamos ser, a começar pela existência aqui de uma das mais espúrias das práticas: a escravidão.

Fundamentado naquela instituição, o país resumia-se a ser agrário-exportador5, e suas elites dirigentes, a começar pelos imperadores, desejavam que tudo continuasse como estava.

Para isso contribuía, também, a crença das principais cabeças pensantes brasileiras nos ideais liberais de livre-comércio internacional, num momento em que aqueles desfrutavam de ampla hegemonia.

Acreditavam aqueles homens que, de acordo com aqueles princípios, o Brasil deveria se especializar no que fazia de melhor, ou seja, vender ao exterior produtos primários e dele obter os produtos industrializados que não era capaz de produzir.

Como se não bastasse, o Brasil, ainda na condição de colônia portuguesa, foi forçado, por obra de tratado celebrado pelo rei português D. João VI com a Inglaterra, a abrir mão de praticamente todas as barreiras alfandegárias sobre as manufaturas inglesas, medidas de efeito devastador para a incipiente manufatura nacional.

Por todas essas razões, a indústria virtualmente inexistia no Brasil, até porque na existência da escravidão a introdução do chamado “trabalho livre”, assalariado – condição necessária para o surgimento de mercados consumidores para produtos industriais – era muito lenta e esporádica.

Inexistia também qualquer coisa semelhante a uma rede de meios de transporte no Brasil, cujo comércio entre as distantes regiões era realizado através de precária navegação de cabotagem e “estradas” sobrepostas, em geral, às antigas trilhas indígenas.

Um cenário, sem dúvidas, absolutamente desfavorável à industrialização e ao chamado “empreendedorismo” de eventuais capitalistas, sob quaisquer aspectos que se queira considerar: infra-estrutural, institucional e cultural.

Mauá, porém, fascinado com o que vira em visita à Inglaterra antes mesmo de ter trinta anos de idade, decidiu-se a reunir, como fosse possível, todos os meios técnicos e financeiros para empreender ampla diversidade de atividades produtivas.

E na sua indisponibilidade, criá-los.

Sendo muito ampla e significativa a lista de empresas e ramos nos quais atuou, citaremos aqui os seus empreendimentos que consideramos mais relevantes: o estaleiro naval Mauá, em Niterói, também uma fábrica de ferramentas, instrumentos de metal e máquinas; redes de iluminação pública e bondes urbanos no Rio de Janeiro; cabo telegráfico ligando o Brasil à Europa e aos Estados Unidos; ferrovias diversas, em todas as regiões do Brasil, exceto o Norte; Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas; e o Banco Mauá, que reunia as funções de banco comercial e de fomento de seus próprios negócios, tendo chegado a ser um dos maiores bancos do mundo.

Em muitos desses negócios, na virtual inexistência de outros burgueses no Brasil, Mauá teve como sócios capitais estrangeiros, majoritariamente ingleses.

E foi principalmente por uma fraude praticada por um grupo de engenheiros e contadores ingleses por ele contratados para construir uma ferrovia na província de São Paulo que Mauá, desprotegido pela Justiça brasileira, viu-se obrigado a arcar com dívidas gigantescas denominadas em libras esterlinas que resultaram na sua falência.

Ruiu então o império de Mauá, muito embora ele tenha, apesar disso, acumulado riqueza suficiente para viver seus últimos anos em condições confortáveis.

Vale lembrarmos, ainda, a elaboração da economia política de Mauá que, embora se reconhecesse como um liberal, clamou, em seu O Meio Circulante do Brasil, pela expansão dos meios de pagamento como forma de promover o desenvolvimento industrial no Brasil.

Questionou, portanto, a validade universal das teses liberais, propondo sua adaptação às condições brasileiras.

Estado e burgueses

Na inexistência do Estado empresário, ou garantidor dos empresários que fosse, teve o próprio Mauá, basicamente, que desempenhar as funções de um.

Mais do que isso, seguidas vezes sabotado por ações governamentais contraditórias e repentinas, Mauá não pôde, absolutamente, contar com qualquer tipo de apoio governamental, até por se tratar de governos que não queriam a industrialização do Brasil.

Foi, assim, presa fácil para o imperialismo inglês, e seu fracasso, apesar do surto de industrialização provocado por seus negócios6, significou, sem dúvidas, décadas de atraso no desenvolvimento industrial do Brasil.

Esse tema, interessantíssimo, é demasiado abrangente e complexo para ser tratado aqui, e por isso, nos limitaremos a indicar aos eventuais interessados alguma literatura pertinente7.

E concluímos dizendo que, ao contrário – muito ao contrário – de Mauá, Eike Batista teve tudo a seu favor, inclusive e principalmente o Estado.

Ser “herói empreendedor” tendo o Estado como sócio, “correr riscos” com cobertura de dinheiro público, tudo isso é muito fácil.

E mesmo assim, terminou quebrado.

Por estranho que possa parecer, em pleno 2013, no Brasil, não se fazem mais burgueses dignos desse nome como antigamente.

Daniel Kosinski

 5 Embora existissem atividades manufatureiras esparsas em algumas províncias como Minas Gerais, São Paulo e Bahia, além da capital. Já existia também, fundada em 1828 no Rio de Janeiro, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, a primeira entidade criada para pensar o desenvolvimento da indústria que se tem notícia no Brasil. A este respeito, ver: LIMA, H.F., 3 Industriais Brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Simonsen; e também SIMONSEN, R., Evolução Industrial do Brasil e outros ensaios.

 6 Prado Jr. apud Lima, H.F., já citado.

 7 Além dos livros já citados, vale conferir As Raízes do Pensamento Industrial Brasileiro, editado pela FIESP; e a Exposição de Motivos aos Credores, do próprio Mauá.

Será mesmo que só agora o fascismo acordou?

Revista Veja, 20 de Maio de 1970.

Como muitos leitores aqui do blog já puderam notar, o tema fascismo nos é bastante constante. Falamos dele frequentemente sob alguns prismas diferentes e em várias ocasiões, de seu ideário no Brasil. Escrevemos há exatos dois anos atrás, por ocasião dos “fantasmas” que foram bastante visíveis com a eleição de 2010, fantasmas que muitos parecem ter esquecido, que parte do ethos cultural da elite e classe média carrega um forte quesito proto-fascista e anti-republicano, filhos de um gigante que jamais dormiu, a ditadura; que por sua vez é filha de outro gigante que jamais morreu: o estado organizado sob uma lógica absolutista, coronelista, nobiliárquico e aristocrático. São temas recorrentes aqui o blog.

Neste sentido, com simples observação da história recente podemos afirmar com certa precisão que não há absolutamente nada de novo no dragão fascista mostrando a sua cara nas ruas da cidade. Façamos um pouquinho de força e lembremos dos homossexuais foram espancados por “carecas”; do esquerdista que foi espancado por proteger um mendigo em 2012; dos membros do movimento LGBT que foram abertamente hostilizados não só pelos “nazi” de sempre, mas por “gente de bem” em vários momentos ao longo dos últimos anos. Não tem muito tempo que os anarquistas do Rio não podiam sair sozinhos pelos arredores da Lapa ou Praça da Bandeira sem temer alguma violência de neonazistas de todo o tipo; não vimos seguidamente mendigos, negros e nordestinos espancados por filhinhos da classe média em várias outras capitais?

Esquecemos disso tudo?

Como dissemos semana passada, ainda na tarde da histórica manifestação de segunda-feira dia 17, aqui no Rio:

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários […]?

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Oras, a repressão à esquerda e a vários dos movimentos a ela ligados não é novidade alguma. Militantes de esquerda apanharem nas ruas e serem hostilizados por radicais nacionalistas é algo até bastante comum no cenário de confrontos políticos pelo país a fora. A criminalização dos movimentos sociais, atitudes históricas dos governos proto-fascistas, nos é alguma novidade?! Não foram há anos massacrados pela mídia, enquadrados como “quadrilha”, baderneiros e vândalos?! Em quantas capas da grande mídia foi o MST chamado de terrorista? Quantas vezes o PSTU ou o PCB foram achincalhados pelos “pensadores” da extrema direita? Quantas vezes a repressão forte da polícia foi justificada por razões puramente ideológicas? O caso recente da USP foi um dos mais marcantes, mas poderia ter sido qualquer outra greve de professores “aparelhada pelos partidos de esquerda”. Nem mesmo a esquerda light petista foi poupada, acusada de fazer “revolução gramsciana” ou qualquer semelhante impropério encontrado em blogs da extrema direita da grande mídia como Reinaldo Azevedo. Não foi o Jabor até “ontem” a vincular o Movimento Passe Livre ao PCC?!

Ninguém lembra da Opus Dei, a mais retrógrada das forças dentro da Igreja Católica, e sua ligação com membros dos partidos de direita, especialmente o PSDB de Alckmin, o Gauleiter Paulista??! Ou das ligações da TFP e neointegralismo com a campanha do Serra de 2010?! Aliás, de que serviu a campanha do Serra em 2010 se não mostrar claramente que a extrema-direita estava bem viva, ativa e “tentaculosa”?

Esquecemos disso tudo? Ou isso não foi fascista o suficiente?

O que temos de lembrar portanto é que não é absolutamente novidade nenhuma a repressão e hostilização vinda da extrema direita. Ela não está maior do que estava uns anos atrás, só porque agora alguns a enxergam mais nitidamente quer dizer que ela esteja maior ou mais influente.

A única novidade é a confiança aparente que a extrema direita ganhou num momento de claro vácuo de poder público e fragmentação da esquerda diante de tantas pautas trazidas para o debate a medida que o movimento cresceu. Não houve qualquer hostilização a esquerda que não existisse antes, até o momento que toda a ordem foi temporariamente ao chão. Da mesma forma que não houve qualquer onda significativa de saques e violência disruptiva antes do desmoronamento temporário da ordem estabelecida. Isso é bem nítido.

Há uma boa parcela dos militares anti-esquerda?! Sempre houve. Esse núcleo já pedia a volta da ditadura? Sempre pediram. Isso não é novidade alguma. Bolsonaro ainda ganha votos suficiente para se eleger em TODA eleição. Feliciano não comprou seu cargo parlamentar. Alckmin não comanda seu feudo de violência sem agradar uma boa parte do seu público. Pinheirinho foi “anteontem”.

E nem é preciso entrar muito no mérito da relação das polícias militares com os movimentos de esquerda que já sabemos como sempre foi o seu papel. Se ela fez um “sentasso” com os manifestantes  de SP não deve ser lido se não como estratégia de um já queimado Alckmin. Quando a poeira baixar, vai ser difícil esquecer que sua repressão foi a centelha a inflamar o resto do país.

Portanto, a presença da extrema-direita como agente político é tão óbvio em nossa sociedade, que debater sua “novidade” parece ser chover no molhado e de um derrotismo, isso sim, preocupante.

Então, o que temos de refletir não é em como lidar com esta onda, não é o temor de um golpe de extrema direita. O golpe não virá porque o dinheiro está no “extremo centro”, não precisa dar golpe algum da extrema direita para continuar no poder. Nem mesmo o Partido Integralista, com tamanho proporcional maior que o PMDB hoje, conseguiu dar um golpe em 1937. A onda de extrema-direita já está aí há tempos e a esquerda tem crescido apesar dela.

O que temos de observar é a real novidade que o movimento das ruas trás. Algumas boas, outras nem tanto.

Quem viu as manifestações crescerem, do seu extremo foco nas passagens e mobilidade urbana ao aparente vazio do  “twitter analógico” que se tornou na última quinta dia 20, deveria ter observado dentr
o do festival de pautas aleatórias dos “apartidários”, “apolíticos” e mesmo dos “anti-partidários” algumas “bandeiras” que sempre foram historicamente ligadas à esquerda.

Primeiramente em termos de contexto, me refiro à revolta popular ao constatar sua real “falta de representatividade” no interior das democracias estáveis ocidentais,  dos Indignados espanhóis aos acampamentos do Occupy Wall Street nos EUA, passando agora, é lógico, pelo Brasil. Esse tema tem sido debatido por tantos pensadores que entrar nesta questão aqui seria um exercício longo e desnecessário (por enquanto) para nosso argumento. O fato evidente é que observamos nas ruas que boa parte da população de fato não se vê representada no parlamento democrático-liberal. Não ficou comum dizer “Fulano não me representa”?

E em termos práticos, a invasão das casas representativas, de Brasília ao Rio, não foi amorfa, disruptiva e de objetivos pouco claros para todos?

Se não podemos definir o que exatamente elas defendem, podemos no entanto ter certeza que a única coisa significativa que esse movimento representa é o sentimento nítido de “falta de representatividade” no interior das democracias liberais.

Por mais que muitos, especialmente no fronte disruptivo e caótico, não soubessem o que queriam, a maioria sabia exatamente o que não queria: o jogo político atual representado na câmara.

Oras, não é dos mais antigos esforços da esquerda o de afirmar que o parlamento na democracia liberal não passa de uma bancada de negócios das grandes corporações? Não afirmamos há quase 150 anos, que nada ali é para representar a população de fato, mas sim os lobbies corporativos dos aristocratas do momento? Aqui no blog dedicamos alguns posts ao tema, primeiro em “O Mercado Eleitoral e a Democracia Liberal” e mais recentemente em “Capitalismo e Democracia“.

Assim, no oceano de cartazes inúteis que mais parecem slogans ufanistas vazios, particularistas e improdutivos, como se ao invés de saírem do facebook, as pessoas tivessem o levado para as ruas [nota], temos que observar o mar de bandeiras que foram comuns à esquerda por décadas.

Não foram poucos os cartazes e opiniões não ligadas à partidos e a movimentos organizados que, em alternativa real “a tudo que está aí”, mencionavam idéias como a democracia direta, a democracia plebiscitária, a gestão participativa. Em entrevistas e opiniões, mesmo dos grandes jornais, blogs e nas redes sociais, não foram poucas as vezes que se observou um evidente clamor por real participação da população na decisão das prioridades econômicas do país, real participação no processo decisório, passando por cima de “políticos corruptos” para atender reais demandas da população. Não foi praticamente em uníssono o coro contra Sérgio Cabral justamente pelo sua evidente ligação com empresários do ramo de transportes?!

Não são estas algumas das bandeiras históricas de  boa parte da esquerda?!

Se de fato havia uma série de pautas da esquerda entre os “apolíticos” e os não ligados à partidos, muitos que, assim como parte da esquerda, se quer perceberam isso, não deveríamos estar desapontados com a derrota que foi o aparente “esvaziamento de nossas pautas”, com a “revolta dos coxinhas”, nem mesmo alarmados com a violência visível dos fascistas e suas opiniões aqui e acolá.  Isso sempre esteve presente, desde a mídia nos generalizando como vândalos durante greves, mesmo quando fascistas, legalizados ou não, nos reprimem com violência.

Até o momento, para quem não tivesse certo discernimento ideológico, a violência fascista, seja dos brutamontes que atacaram manifestantes de esquerda, seja da Polícia Militar em várias cidades do país, era “politicamente invisível” e “ideologicamente neutra”. Não era se quer cogitado quais seus interesses e idéias. Depois de atacar o movimento negro, o movimento homossexual, a esquerda radical – inclusive no interior do próprio PT – que estava lá desde o início de tudo, os fascistas mostraram claramente a todos a sua vilania, muitos que não faziam estão parando e refletindo. Com a poeira baixando, a recriminação à ambas truculências anti-democráticas está nítida em vários portais, progressistas ou não, até nas páginas do Globo. É justamente agora, quando o fascismo está nítido para vários setores progressistas da sociedade, que a esquerda, como natural e histórico inimigo deles, pode se fazer mais forte. Não deixaremos as pessoas, apolíticas ou não, esquecerem quem sempre esteve contra as forças mais reacionárias e violentas da sociedade.

Nas sabias palavras do blog Passa Palavra:

“Cremos que o momento agora é de concentrar nossos esforços […] onde os “coxinhas” não estão, onde as pautas populares encontram sua base real (e que por isso está sendo sistematicamente minimizado nos grandes meios de comunicação ou apresentado apenas como distúrbio social violento). Mas é claro que essa responsabilidade já não cabe exclusivamente ao MPL, e sim a um conjunto de forças da esquerda; sem desprezar, é claro, os muitos obstáculos e conservadorismo que decorrem dessa posição.”

 

Por Leandro Dias

[nota] – adicionado dia 26/06 ao texto, após revisão.

Alguns comentários sobre as eleições 2012: José Serra e o PSDB

Bento Carneiro?

Rio Revolta não vê grandes fatos a serem comentados sobre o resultado das eleições municipais de 2012. Por isso, destacaremos apenas aqueles dois que consideramos de alguma relevância: a derrota de José Serra em São Paulo, e o crescimento do PSB enquanto partido, ambos fatos com repercussões certas em 2014. No post presente, abordaremos a primeira destas questões.

José Serra

Foi sem dúvidas o grande derrotado destas eleições. Confesso que sua vitória me parecia certa antes do início da campanha em si, dado o tradicional conservadorismo dos paulistanos, acostumados a passar cheques em branco para o tucanato.

Somava-se a este fato a intensa propaganda anti-petista veiculada diariamente pelos veículos de comunicação de massa, em uníssono, através da fabricação do que estão chamando de mensalão (que comentamos aqui).

Mas desta vez, nem mesmo tudo isso foi suficiente. A derrota de Serra foi acachapante, senão mesmo humilhante, considerando-se a virtual inexistência política de Fernando Haddad antes de sua empreitada à prefeitura de SP.

Por sinal, é a segunda vez que Lula inventa, do nada, um candidato vitorioso sobre José Serra. A 1ª vez foi na eleição da atual presidente do país, Dilma Roussef, em 2010.

Ganhar do Serra está mesmo muito fácil.

Rio Revolta considera excelente a derrota de José Serra. Trata-se de uma figura política deprimente; suas campanhas eleitorais são sempre baixas, apelativas (1); seus “governos”, infelizes.

Sua ambição é desmedida e muito superior às suas capacidades.

Quanto aos seus “governos” (com muitas aspas), vale lembrar que costumam durar pouco, as vezes muito pouco, leia-se, até as próximas eleições.

Prefeito eleito de São Paulo em 2004, abandonou o cargo apenas 15 meses depois, para concorrer ao governo do estado em 2006 (eleição que, apesar desta flagrante demonstração de “comprometimento” com seu eleitor, ele ganhou).

Foi quando Serra entregou a prefeitura para uma figura então obscuríssima e totalmente desconhecida que atendia pelo nome de Gilberto Kassab.

Espécie assustadora de frankenstein (2), essa “brilhante” criatura política inventada por José Serra ainda conseguiu se reeleger em 2008, embora, ao que tudo indica, tenha feito um “governo” verdadeiramente lamentável (3).

Mas a vida é mesmo muito curiosa.

Eis que anos depois, nas eleições municipais de 2014, José Serra, com mais uma derrota presidencial adicionada ao seu currículo e apostando suas últimas cartas na política, sai como candidato à Prefeitura da administração de….. Gilberto Kassab, sua criatura!

E a elevadíssima rejeição deste último, somado ao desgaste da imagem de José Serra, se materializam em sua derrota para Fernando Haddad do PT e, queremos crer, em seu definitivo enterro político (como indigente).

José Serra: ambição, traição e incompetência

A verdade é que José Serra já vinha sendo, faz tempo, uma força negativa para os resultados eleitorais nacionais do PSDB, embora tenha conquistado vitórias importantes em São Paulo e um número expressivo de votos na derrota para Dilma.

Vale lembrar de alguns fatos.

Nas eleições presidenciais de 2002, o então-PFL-atual-DEM, fiel escudeiro do PSDB durante os oito trágicos anos do reinado de Fernando Henrique Cardoso (4), propôs uma inversão de papéis. A proposta era que, ao contrário do período 1995-2002, o PFL apontaria o candidato à presidência da República e ao PSDB caberia a vice-presidência.

Uma idéia que não era, em si, nada absurda.

Vamos lembrar que, em 2002, o PFL controlava 1.028 prefeituras, contra 990 do PSDB (5); governava seis estados (AM, BA, MA, PR, RO, TO), e o PSDB, sete (CE, ES, GO, MT, PA, SP, SE) (6); possuía 105 deputados federais, contra 99 do PSDB; e 20 senadores, contra 16 do PSDB (7).

Ou seja, excetuando-se a presidência da República, o PFL, enquanto partido, era até mesmo ligeiramente maior que o PSDB.

Para aplicar seu plano, os pefelistas só não contavam com dois problemas: as enormes ambições de José Serra; e os vínculos orgânicos do PSDB com a grande mídia, também chamada de PIG (8).

De fato, o PSDB recusou a proposta e o PFL a revelia lançou a candidatura de Roseana Sarney que, tão logo ganhou alguma envergadura, chegando a quase 30% das intenções de voto segundo as pesquisas (9), foi impiedosamente torpedeada pela mídia tucana, retirando sua candidatura ainda em março de 2002.

Roseana Sarney e as ambições presidenciais pefelistas foram tão brutalmente torpedeadas como teria sido – e muitos foram – qualquer candidato do PT.

Mas vamos concordar que não era preciso grande arapongagem para descobrir as picaretagens de um Sarney…..

Assim, estava aberto o caminho do campo conservador para mais uma candidatura tucana, e o indicado, como se esperava, foi José Serra, já desde então queridinho da mídia, ministro da Saúde do “governo” FHC e a quem se atribuía a criação dos medicamentos genéricos.

Mas a resposta do PFL à tremenda ingratidão dos ambiciosos e traidores tucanos foi clara: seus figurões não participaram ativamente da campanha presidencial do PSDB e o partido não apontou um quadro seu para a vice-presidência na chapa de Serra (10).

E foi assim que as ambições de Serra, alimentadas pela mídia tucana que lhe é subserviente, puseram fim à virtuosa (para eles) coligação conservadora PSDB-PFL que havia sustentado a presidência FHC.

Sem dúvidas, valiosa contribuição de José Serra para a vitória de Lula em 2002.

Em 2006, com Serra fora do páreo na presidência – foi candidato vitorioso ao governo de SP -, Geraldo Alckmin foi o candidato tucano derrotado por Lula.

Por sinal, aquele que chegou mais próximo de derrotar o PT desde 2002, pelo menos, no 1° turno (11).

Nas eleições presidenciais de 2010, o nome mais viável eleitoralmente do PSDB já era, sem dúvidas, o de Aécio Neves, que significaria uma renovação na liderança do partido e encontrava-se muito prestigiado após seus dois mandatos como governador de Minas Gerais, o 2° maior colégio eleitoral do país.

Aécio defendia a realização de prévias dentro do partido entre ele e Serra, para definir o candidato.

Todavia, José Serra e Geraldo Alckmin, no comando do PSDB de São Paulo, impuseram a candidatura Serra ao partido.

Como Aécio Neves ainda era relativamente novo (então com 50 anos) e podia esperar, acabou lançando-se candidato ao Senado, fato que, de certa maneira, acomodou as forças, permitindo a Serra ser o candidato sem prévias num partido, teoricamente, unido.

Contudo, ao lançar-se candidato a senador, Aécio automaticamente rejeitou a possibilidade de compor chapa com Serra, no papel de vice-presidente. Esvaziava assim aquela que poderia ser, teoricamente, a chapa tucana mais forte à presidência.

É de se duvidar se até mesmo em Minas Gerais Aécio tenha se empenhado pela vitória de Serra como poderia se esperar; ou talvez, tenha mesmo apoiado, tacitamente, a sua derrota (12).

E assim José Serra, mais uma vez e como quase sempre, desagregou suas próprias forças e perdeu as eleições.

O fim (?) político de José Serra e o PSDB

O problema é que, ao contrário do que possa parecer óbvio num primeiro momento, a provável – mas nada certa (13) – morte política de José Serra pode não ser um fato a ser comemorado por aqueles que, como nós do Rio Revolta, fazemos oposição visceral às figuras e aos valores políticos do tucanato e a tudo que lhes diz respeito.

Por sinal, o invejoso Fernando Henrique Cardoso, também enterrado politicamente como indigente desde 2002, já se encontra em campanha aberta para impor seu mesmo e trágico destino ao camarada José Serra (14).

Sem dúvidas, para aqueles que, como Aécio Neves, pretendiam tomar o controle do PSDB das mãos de Serra e, de forma mais ampla, do tucanato paulista, essa é a hora.

Para um político com a visibilidade e a experiência de Serra, perder uma eleição municipal no seu quintal equivale a uma sentença de inviabilidade eleitoral.

Porém, é importante explicarmos: com inviabilidade eleitoral queremos dizer, disputar cargos majoritários, Poder Executivo.

Isso porque, apesar de tudo, não temos dúvidas de que, infelizmente, Serra permanecerá sendo um sério contendor em eleições legislativas. São Paulo o elegeria facilmente deputado federal ou senador, talvez com votação recorde.

De qualquer forma, será mesmo necessária muita lealdade de seus aliados para que não o abandonem.

Lealdade e política são duas coisas que, em geral, não combinam.

Politicamente, Serra está completamente esvaziado; mas egocêntrico e pretensioso que é, por certo, não desistirá de seus delírios de grandeza.

Está certo e nada parece convencê-lo do contrário de que, apesar dos já 70 anos de idade, de todas as derrotas sofridas, de todo o desgaste e falta de credibilidade junto ao eleitorado e da sua estética de vampiro, ainda pode ser presidente da República.

Em todo caso, para nós que nos opomos e combatemos o tucanato, seria ótimo que Serra ganhasse essa disputa e conseguisse sobreviver politicamente.

Com isso, o PSDB não se renovaria, Serra continuaria disputando eleições majoritárias e, quem sabe, até mesmo a presidência em 2014, 2018, 2030, 2050, sabe-se lá.

Seriam derrotas certas que assegurariam a este país que os tucanos jamais voltariam a administrá-lo.

Um cenário, todavia, que parece pouco provável.

Acreditamos mesmo que, desta vez, o vampiro morreu.

A conferir.

Antonio Gordo

1 – A lista é extensa, de cabeça, lembro de alguns episódios da campanha presidencial de 2010: a “agressão da bolinha de papel”; o uso manipulativo de uma filiação à Igreja Católica que nunca existiu (visita a Aparecida, por exemplo); a propaganda que tentou vincular Dilma à defesa do aborto; e etc.

2 – http://www.youtube.com/watch?v=DwZRpy1CQCg

3 – http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-08-17/avaliacao-negativa-da-gestao-kassab-e-de-43-diz-ibope.html

4 – Sim, reinado: sua coalizão tinha a maioria esmagadora da Câmara dos Deputados, do Senado e dos governos estaduais; contava com apoio irrestrito da grande mídia/PIG; ditou um número espantoso de medidas provisórias; privatizou/doou quase tudo que quis; e por fim, comprou sua própria reeleição.

5 – http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2004-10-04/pt-pl-e-pps-estao-em-ascensao-nas-prefeituras-desde-1996

6 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_gerais_no_Brasil_em_1998

7 – http://www.ipu.org/parline-e/reports/arc/2044_98.htm

8 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_da_Imprensa_Golpista

9 – http://www1.uol.com.br/fernandorodrigues/arquivos/pesquisas/eleicoes2002/pres.shl

10 – A candidata a vice-presidência na chapa de Serra foi a eleitoralmente expressiva tucana do Espírito Santo, Rita Camata. O PSDB se apresentou, portanto, como uma chapa puro-sangue.

11 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_presidencial_brasileira_de_2006

12 – O voto “Dilmécio” foi majoritário em Minas Gerais naquelas eleições.

13- http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,apos-derrota-serra-diz-a-tucanos-que-renovacao-e-coisa-do-pt,953695,0.htm

14 – http://oglobo.globo.com/topico-eleicoes-2012/serra-critica-tese-de-fh-sobre-renovacao-no-psdb-6604836

Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

De uns meses para cá voltou com força às manchetes o dragão da corrupção. Enxurrada de capas bombásticas em vários jornais, denúncias retumbantes, espionagem em hotéis, todo o tipo de acusação. As vassourinhas voltaram às manchetes. Em geral, e era de se esperar, as denúncias se focam no governo e seus aliados.Não é novidade, lembrando dos massacres públicos nos diários e semanários em 2004, que quase derrubaram o ex-presidente Lula, denúncias que até hoje não foram muito adiante por falta de provas, além da baixaria das últimas eleições (tópico abordado aqui em vários posts), a grande imprensa em uníssono espanca diariamente o governo e seus aliados.

Na grande mídia a exceção é a Record que, apesar de implicitamente apoiar o governo, agregou jornalistas um pouco mais sérios e menos elitistas nos últimos tempos, criando reportagens investigativas com o mínimo teor republicano e equilíbrio, variando entre crítica e defesa do governo. Seu principal mérito é ser o único agente grande da imprensa, sistematicamente atacando a FIFA e a CBF, ambos envolvidos em falcatruas esportivas muito maiores que o ministério do PseudoB, PCdoB quero dizer. Embora deixe de lado as falcatruas da Universal… coisa para outro post.

Mas se estamos falando de como a corrupção aparece na mídia, estamos falando do jogo das elites. É exatamente disso que se trata na verdade toda a discussão sobre a corrupção na imprensa. O Brasil vive um momento de transição de elites, para o bem ou para o mal. O PT nos últimos dez anos se consolidou como uma nova elite política, apoiada por novos setores da elite econômica brasileira, além das tradicionais bases urbanas médio-classistas que já o acompanhavam desde os anos 90.

O capitalismo industrial nacional esmagado pelo fundamentalismo liberal de mercado do PSDB-PFL acabou por abandonar o ‘projeto‘ de país que os demotucanos queriam, embarcando no projeto mais ‘nacionalista’ do PT. Arriscada de ser quase destruída durante 1994-2002, com a abertura escancarada do nosso mercado sem qualquer política de estruturação e competitividade real para a pequena e média empresa nacional, esse setor importante, que emprega a maior parte da mão de obra, passou a apoiar os petistas. A aliança de Lula com o falecido industrial Alencar, apenas evidenciava esse fato.

Do outro lado, o PT teve a genial iniciativa de fazer a expansão econômica brasileira baseada no crédito bancário. O partido compreendeu exatamente o que fizeram os norte-americanos depois de sua crise econômica de 1979 e trataram de expandir a renda através da garantia de crédito – relativamente – barato aos trabalhadores e não no aumento real dos salários, como o keynesianismo tradicional pregaria. Nesse sentido, o setor financeiro brasileiro adorou a idéia, e foi algo que os demotucanos jamais conseguiram executar, pois estavam muito mais voltados para o setor financeiro especulativo e de commodities exportadores do que o de crédito popular e formação de mercado interno. Não é por acaso que Lula chamou seus amigos banqueiros e empresários, patrocinadores de campanha, de ‘camaradas’ em ocasião de um evento da Fiesp. A expansão do crédito e consequentemente de bancos como Itaú e Bradesco no país foi impressionante. Não há camarada melhor [para eles]!

Além disso, soma-se que as medidas anticíclicas do governo, citadas pelo Rio Revolta aqui, seguraram a crise financeira nacional e permitiram a expansão do emprego e da renda média nacional, levando mais setores das classes baixas à apoiar o PT. Sem contar os pequenos incentivos paliativos tipo Bolsa Família (o nosso food-stamp) e Minha Casa Minha Vida, ambos dando sólidas bases de eleitorado baixa renda ao PT. País abandonado de tal forma que a mera inserção econômica de um auxílio-alimentação irrisório (especialmente em relação ao PIB) eleva em médio prazo toda a renda das classes mais baixas e consequentemente de toda a economia.

Por outro lado, já era evidente para qualquer um mais atento, que o PSDB estava mais interessado na velha elite industrial paulista e na elite agro-exportadora, latifundiária, ambos largamente baseados no setor de commodities e mercado financeiro especulativo, setores que sempre os apoiaram e que podemos chamar de ‘velha elite’ nacional. Não foi a toa que partidos que sempre caminharam do lado dele foram PFL-DEM, herdeiro dos latifundiários e da velha burguesia sulista (como Bornhausen) e o PPB (hoje PP), da tradicional burguesia, como Maluf e Amin em Santa Catarina. Além, é claro, do PMDB, eterno partido do poder, fisiologismo no seu mais alto grau. Assim, o PSDB nunca teve preocupação real com o desenvolvimento do capitalismo nacional ou com a expansão do mercado interno. Algo fatal, especialmente em momentos de crise mundial.

Então, voltando ao tema do presente texto.

No bojo desta troca de elites no poder brasileiro que vivemos, vemos a velha elite exportadora, em franca decadência, vociferar através dos principais aparelhos midiáticos que ainda controla, contra o novo poder constituído. Isso também não é novidade. Quando esta mesma elite foi preterida pelo trabalhismo na Era Vargas e depois no seu ápice com Jango, ela vociferou tanto que botou os tanques na rua contra o governo. Mas antes dos tanques vieram as marchas da família e as vassourinhas contra a corrupção. Por isso que citamos o lacerdismo com frequência, especialmente quando se fala de José Serra.

Essa elite arcaica, atrasada e acostumada a estar eternamente com o poder absoluto do país, tão falada em nosso blog (aquiaqui e aqui), não tem um projeto nacional definido, nada substancial, especialmente agora em crise agonizante do neoliberalismo em sua própria matriz. Nela o oportunismo reina. Assim, a única bandeira que a restou foi a do combate à corrupção, da moralidade e da acusação do ‘mar-de-lama’ que vivemos, não importa que quase a metade dos que estão no poder agora, são exatamente as mesmas forças que estavam quando o poder era o ‘tradicional’. A moralidade, muitas vezes, dá as mãos ao fascismo nacional, como denunciamos aqui, e o ‘combate’ a corrupção atende perfeitamente a agenda de qualquer elite que não esteja no poder. “A corrupção é sempre maior agora do que era quando nós governávamos”. Lema elitista por excelência, cansei de ouvir isso em relação aos anos militares e os anos de ‘privataria’ de FHC.

Mas não nos enganemos, a corrupção é sim um evidente problema. Ninguém pode negar isso. Porém, a raiz de nossa corrupção não é de uma fraca moralidade do PT ou de maneira filosófica, de como o ‘poder corrompe’ quem chega lá em cima. Outra frase que ouvimos por aí com frequência. Nosso problema de corrupção é histórico e altamente arraigado em todos os setores da sociedade, do empresário que dá propina pro fiscal até o assessor preso com dinheiro na cueca. A corrupção estava aí bem antes do PT, aliás, por mais que pareça absurdo, é o governo que tem mais combatido a corrupção em décadas. A Polícia Federal nunca prendeu tanto e pela primeira vez na história, um banqueiro foi preso e algemado por corrupção. Embora o judiciário tenha decidido ser “republicano” num momento tão conveniente e embarreirou os ‘excessos’ da ABIN e PF, soltando Daniel Dantas pouco depois. Além de que, se formos friamente nos números, DEM (PFL) e PSDB lideram absolutos no ranking de cassados pela Ficha Limpa. O mar-de-lama mais grosso que a mídia mostra agora, é apenas rebuliço dos arautos do conservadorismo brasileiro.

A origem da corrupção brasileira é uma fraca república. E ela é fraca pois jamais eliminou sua elite tradicional, agro-exportadora, vinculada ao capital estrangeiro. Uma elite que olha para fora, manda os filhos para Europa e EUA para estudar e passar férias; que acha tudo maravilhoso no Primeiro Mundo, admira ricos sendo presos na Alemanha e EUA,  mas esquece como e o que foi fundamental para o consolidá-lo como tal: completa eliminação da mentalidade do Antigo Regime. Seja em repúblicas como França, EUA e Alemanha, ou reinos como Inglaterra, Japão e Dinamarca. O Antigo Regime e sua mentalidade só foram destruídos à força, com muita prisão, morte, deportação e em muitos casos, com guerra. Como um profundo ‘aggiornamento’ das elites à nova mentalidade. No Brasil, jamais expulsamos, matamos e prendemos os bandidos nobiliárquicos do nosso passado. Nossa república foi fundada pelos mesmos nobres e militares que estavam no Império e na Colônia, com os mesmos costumes. Nosso absolutismo nobiliárquico foi suplantado pela república nobiliárquica. Mudaram as estruturas, mas o fantasma das idéias persistiu. Já dissemos isso milhões de vezes aqui no blog.

Então, clamar por combate a corrupção sem entrar neste mérito fundamental é ser usado pelo oportunista de plantão para atuar politicamente contra a elite que atualmente manda.

Além disso, temos outra questão fundamental. Mesmo que peguemos como verdadeiro o dado da última edição da revista Veja – porta-voz das elites tradicionais e conservadoras -, em que quase 3% do nosso PIB é perdido para a corrupção e que esta é a razão primordial para o nosso subdesenvolvimento e atraso, chegamos a um evidente problema: 97% do nosso PIB é ‘bem utilizado’ e ainda assim vivemos nesta estagnação estrutural e subdesenvolvida.
É claro então, que esse argumento é de uma falácea impressionante. Se agora vivemos no nosso ‘pior momento de corrupção da história’ e ainda assim, utilizamos 97% do nosso PIB sem roubos, o problema do nosso subdesenvolvimento não é a corrupção. Ela é um problema sério do ponto de vista do valor bruto perdido, mas marginal em nossa estrutura econômica e desenvolvimento. Se é para falar de percentagens, a grande mídia não toca no assunto de que amortização de dívida e juros comem mais de 30% do nosso PIB. TRINTA POR CENTO. Pelo menos 10 vezes mais dinheiro escorre pelo ralo financeirista do que perdidos na corrupção. E em termos de impostos, 44% do que pagamos, vai direto para pagamento destes juros e amortização de dívidas antigas, algumas muitas vezes pagas em relação ao montante emprestado. Como dizem: “juros compostos são a maior arma de destruição em massa já inventada”. E, para citar jargões do conservadorismo anti-imposto: se nós trabalhamos 147 dias por ano apenas para pagar impostos ao Estado, 64 são dias inteiros que trabalhamos para pagar os bancos dívidas que já pagamos. Isso sim é que é um crime.

O problema muito menos é o chamado ‘excesso de Estado’ que o establishment neoliberal costuma insistir e, frequentemente, associando excesso de estado à corrupção. Este jargão ultra neoliberal ainda é insistente por aqui, mas agora vai contra a maré keynesiana que parece pegar os conservadores do mundo neste momento. Ele ignora completamente que foi justamente o oba-oba do setor privado norte-americano, altamente corrupto, que destruiu o mercado imobiliário e foi estopim da última crise, num país altamente desregulamentado como os EUA.

E ainda vale lembrar que foi precisamente a ação anti-cíclica estatal do governo Lula, absurdamente criticada por ‘gênios’ como Miriam Leitão, que salvou o Brasil do completo desastre econômico que o resto do mundo viveu a partir da Crise de 2008. “Excesso de Estado” que recentemente elevou a taxa de importação de automóveis, sob protestos retumbantes dos jornalões e do DEM, levando a Hyundai a anunciar a abertura de uma montadora aqui no Brasil. Aula primária de protecionismo que muitos neobobos parecem ter faltado.
Voltando novamente ao ponto. A corrupção brasileira é estrutural e arraigada na sociedade justamente porque confrontamos um ideário relativamente republicano (constitucional) – ainda que muito superficial -, com uma realidade estrutural de relações de poder altamente clientelista, coronelista, enfim, de Antigo Regime. Na história do ‘constitucionalismo’ (Revolução Francesa), as críticas burguesas (no sentido clássico) ao Antigo Regime eram absurdamente focadas neste clientelismo, favoritismo, personalismo e privilégios de classe (nobiliárquica). Para a burguesia em ascensão, o sistema nobiliárquico era corrupto e destrutivo.

Desta maneira que no Brasil, assumindo o fato de que nossa estrutura de estado é de Antigo Regime, nobiliárquica, temos a preocupante constatação de que a corrupção brasileira está engendrada em lei. Ela não é uma ‘simples’ falcatrua de roubar aqui é ali, estimulada pela falta de punição. A própria falta de punição é legalmente estabelecida e organicamente construída dentro das relações entre os poderes estatais para que não ataque e afete as elites estabelecidas, os ‘nobres’.

A corrupção brasileira é uma canetada de um prefeito criando uma estrada pública no meio do terreno de um ‘camarada’ seu; é a relação de troca de favores econômicos entre lobistas e senadores; é a escolha de certas empresas para execução de tais obras (as cartas marcadas tão corriqueiras em contratos públicos); é a escolha de uma matriz de transporte como o automóvel em detrimento do trem; é a escolha de uma política de juros que favorece uma pequena elite financeira, botando imensos contingentes de capital público sob controle direto do setor privado; é a reestruturação e atualização tecnológica de uma estatal com dinheiro público, para pouco tempo depois ser privatizada como ‘ineficaz’, ou pior, o sucateamento deliberado de setores anteriormente eficazes, justificando assim sua venda; é a concessão à indústria pesada em locais anteriormente proibidos; é a construção de açudes ‘públicos’ em terrenos de amigos de um deputado ou prefeito qualquer do interior do nordeste; a assinatura em massa de certas revistas em detrimento de outras com dinheiro público; é a remoção de famílias pobres inteiras para construção de condomínios de luxo; é a escolha deliberada de um prefeito de não fortalecer a escola pública em favorecimento do setor particular; são empreiteiras bancando políticos para que os favoreçam quando eleitos… Enfim, poderia me estender indefinidade com exemplos de práticas legalizadas que são altamente anti-republicanas.

Estas formas legalizadas, institucionalizadas, são representações muito mais sérias e acachapantes de corrupção do que qualquer desvio, roubo ou enriquecimento ilícito. De pequena canetada em pequena canetada, nosso desenvolvimento inteiro é engessado pelo funcionamento nobiliárquico elitista de nossa democracia. Roubar e desviar dinheiro é crime, escravizar uma nação inteira, é lei!

Crítica aos Princípios das Organizações Globo

Globo-grafiteFaz pouco mais de uma semana que as Organizações Globo, sabe-se lá porque, resolveram sair do armário. Alguns especularam que foi pelo que foi dito na blogosfera sobre a situação interna da Globo, do pautamento de reportagens e etc… Talvez tenha sido o Murdoch, quem sabe?

Assim, divulgaram um documento, com considerável destaque em seu site, contendo seus princípios programáticos, ou seja, os valores que norteiam o jornalismo (“jornalismo”) da Organização. Vale a pena lembrar outros momentos que a Globo fez grande alarde para seus princípios editoriais e compromissos com a ‘informação’ e democracia.

Certamente a mais importante foi o editorial de 2 de Abril de 1964, uma ode ao Golpe Militar contra um presidente eleito e popular. A segunda vez, também igualmente marcante foi em 1984 quando ressaltaram sua participação na “Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais, de preservação das instituições democráticas, ameaçados pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Vale a pena ler na íntegra.

Não menos importante foram as declarações de isenção e princípios (sic) após a escandalosa montagem do debate de 1989 e campanha difamatória desta mesma eleição, contra Lula e Brizola. Muito apartidário e isento.

Rio Revolta apoia integralmente esta iniciativa de transparência que certos veículos fizeram. Seria fantástico se todos os veículos de comunicação de massa fizessem o mesmo, assumindo para que vieram ao mundo e sua corrente ideológica, como fez o Estadão no calor da batalha eleitoral de 2010. Não poderíamos, entretanto, abster-se de comentar fato de tamanha importância. Por isso, segue-se o texto integral, mais precisamente, a Parte III do documento, a única que realmente nos interessa, e que disserta sobre os tais valores fundamentais.

***

As Organizações Globo serão sempre independentes, apartidárias, laicas e praticarão um jornalismo que busque a isenção, a correção e a agilidade, como estabelecido aqui de forma minuciosa. Não serão, portanto, nem a favor nem contra governos, igrejas, clubes, grupos econômicos, partidos. Mas defenderão intransigentemente o respeito a valores sem os quais uma sociedade não pode se desenvolver plenamente: a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza.

Para os propósitos deste documento, não cabe defender a importância de cada um desses valores; ela é evidente por si só. O que se quer é frisar que todas as ações que possam ameaçá-los devem merecer atenção especial, devem ter uma cobertura capaz de jogar luz sobre elas. Não haverá, contudo, apriorismos. Essas ações devem ser retratadas com espírito isento e pluralista, acolhendo- se amplamente o contraditório, de acordo com os princípios aqui descritos, de modo a que o público possa concluir se há ou não riscos e como se posicionar diante deles.

A afirmação destes valores é também uma forma de garantir a própria atividade jornalística. Sem a democracia, a livre iniciativa e a liberdade de expressão, é impossível praticar o modelo de jornalismo de que trata este documento, e é imperioso defendê-lo de qualquer tentativa de controle estatal ou paraestatal. Os limites do jornalista e das empresas de comunicação são as leis do país, e a liberdade de informar nunca pode ser considerada excessiva.

Esta postura vigilante gera incômodo, e muitas vezes acusações de partidarismos. Deve-se entender o incômodo, mas passar ao largo das acusações, porque o jornalismo não pode abdicar desse seu papel: não se trata de partidarismos, mas de esmiuçar toda e qualquer ação, de qualquer grupo, em especial de governos, capaz de ameaçar aqueles valores. Este é um imperativo do jornalismo do qual não se pode abrir mão.

Isso não se confunde com a crença, partilhada por muitos, de que o jornalismo deva ser sempre do contra, deva sempre ter uma postura agressiva, de crítica permanente. Não é isso. Não se trata de ser contra sempre (nem a favor), mas de cobrir tudo aquilo que possa pôr em perigo os valores sem os quais o homem, em síntese, fica tolhido na sua busca por felicidade. Essa postura está absolutamente em linha com o que rege as ações das Organizações Globo. No documento “Visão, Princípios e Valores”, de 1997, está dito logo na abertura: “Queremos ser o ambiente onde todos se encontram. Entendemos mídia como instrumento de uma organização social que viabilize a felicidade.

O jornalismo que praticamos seguirá sempre este postulado.”

***

Para quem tem o mínimo de leitura e consciência, a coleção de fraudes e engôdos destes poucos parágrafos é vasta. Vamos então caminhando por partes.

A primeira coisa evidente que se nota no texto é o seu viés explicitamente liberal e, um pouco mais implicitamente, utilitarista. Estas afirmações fundamentam-se caso prestemos atenção na evidente obsessão do documento com a idéia de controle das funções jornalísticas pelo Estado, que deve ser, afinal, “fiscalizado” por aquelas; e na referência implícita ao “princípio da maior felicidade”.

Para os interessados, vale a pena ler A LiberdadeUtilitarismo, de John Stuart Mill, que mais parece ter sido o próprio autor desse texto global, ainda que Mill escreva muito melhor do que qualquer jornalista da Globo.

Mesmo que este discurso liberal clássico tenha sido seguidamente desmascarado, refutado, posto a prova seguidas vezes por intelectuais tão grandes ou maiores que o próprio Mill, ou quando a própria realidade nua e crua solapa o pouco de substância que discursos como este possam ter, como o fez e vem fazendo o caso Murdoch na Inglaterra; ou com os inúmeros documentos vazados pelo Wikileaks ligando a nata do jornalismo (global ou não) ao interesse político da embaixada norte-americana. Mesmo com tudo isso, ainda há os que acreditam na fantasia da liberdade de expressão liberal… bem, maravilha! Para nós do Rio Revolta só resta, quanto a isso, a lamentar.

Da primeira frase, extraímos as seguintes qualificações: independentes, apartidárias, laicas, isenção, correção, agilidade.

Laicismo e agilidade não nos importam. E mesmo que fôssemos entrar prfundamente neste mérito, vale ressaltar que qualquer análise rasteira da programação global constata que seu ideário é majoritariamente judaico-cristão, tendendo para a corrente conservadora católica. Mas não aprofundaremos esta questão. E quanto à agilidade, não foram poucas vezes que a qualidade (!) da reportagem foi esvaziada pela necessidade de publicá-la o mais rápido possível. Houve um caso recente que o jornal “matou” um político antes da hora, sem confirmar sua morte e, mais recentemente ainda, prenderam a diretora da Caixa, antes mesmo da polícia saber do “crime” da dita cuja.

Correção é uma idéia completamente subjetiva, o que é correto para um não é para outro, e portanto o termo sequer deveria constar do documento, que se propõe a ser “objetivo” desde seu início.

Independência não nos diz nada, é um termo vazio, sem esclarecer: com relação ao que?

A coisa se agrava significativamente quando fala a respeito de apartidarismo e isenção. Qualquer discurso que se represente como “apartidário” e “isento” é, a princípio, um discurso fraudulento, mentiroso. Apartidarismo e isenção são duas idéias completamente abstratas e irrealizáveis. É objetivamente impossível para qualquer mensagem, se expresse ela da forma que for – falada, escrita, televisionada ou o que mais se queira imaginar – ser isenta ou apartidária. Ela necessariamente expressa um conjunto de valores quaisquer considerados por seus autores, a priori, mais importantes ou relevantes do que outros, que se considera menos importantes ou, simplesmente, se rejeita.

E quanto a isso não cabem subterfúgios. A própria idéia de ser “neutro” já é resultado da adesão a um determinado valor – o de que se deve buscar ser neutro… Já dizia o ditado: a única coisa neutra que existe é sabão.

Nada nem ninguém conseguirá jamais escapar deste imperativo. Mensagem é, antes de mais nada, uma transmissão de valores. Por isto não existem isenção e apartidarismo. Qualquer estudante de comunicação aprende isso no primeiro período de faculdade, ou melhor, deveria aprender. O que as Organizações Globo pretendem com os termos “apartidarismo” e “isenção” é se atribuir uma idéia de neutralidade que a coloque, diante do público, como um interlocutor “neutro”, “científico” e, portanto, “desideologizado”, confiável. Todos sabem que isto é falso, então, afirmar o contrário, só tem um nome: Isto se chama FRAUDE.

Rio Revolta, por sinal, não se propõe a ser mentiroso e fraudulento e, portanto, expõe clara e explicitamente que defende um determinado ponto de vista, uma visão de mundo específica que não é uma VERDADE auto-evidente e absoluta, mas se não uma opinião a qual se adere ou se ataca.

A mesma preocupação não permeia as Organizações Globo, que afirmam a importância dos valores “a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza” como evidentes por si só, não cabendo, portanto, sequer defendê-los (e por analogia, nem atacá-los). Ou seja, as Organizações se propõem a invocar a própria VERDADE inconteste e revelada quando alardeiam qualquer destes princípios. Tratam de travestir de verdades absolutas idéias que não passam de opiniões – ainda que largamente aceitas. Mais uma vez, trata-se de uma FRAUDE.

Aprofundemos um pouco alguns destes elementos.

Democracia, em princípio, nada nos diz. Que tipo de Democracia se fala? Popular? Socialista? Representativa? Direta? Greco-romana?

É evidente que Rio Revolta sabe que as Organizações se referem às instituições liberais democráticas burguesas. Quando o documento ausenta qualquer adjetivo que qualifique aquela democracia que defende, nada mais faz do que tentar passar a idéia de que “democracia” não precise, mesmo, de um termo que a qualifique, o que implica, em última instância, que a ÙNICA democracia que se possa conceber seja este teatro eleitoreiro em que vivemos. Este tipo de “democracia” em que o cidadão só é digno deste nome enquanto eleitor-consumidor, exercendo sua soberania política uma única vez a cada quatro anos, num apertar de botões numa urna eletrônica supostamente “isenta”. Trata-se, uma vez mais, de uma FRAUDE.

Já escrevemos sobre a democracia liberal antes e, neste caso, vale repetir:

Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínimo público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.” (Deformadores de Opinião, 27/09/2010).

Quanto aos direitos humanos, na medida em que asseguram mais do que qualquer outra coisa o direito irrestrito à propriedade, ao lucro e à utilização de dinheiro para ganhar mais dinheiro – não interessando os danos aos “direitos humanos” ALHEIOS que possam advir destas ações -, não podem prescindir de uma retificação: não são direitos humanos de fato, mas sim direitos BURGUESES. Trata-se aqui da velha e incrivelmente eficaz ideologia liberal-burguesa que faz do homem burguês o ideal absoluto e a-histórico de ser humano. É a universalização de um valor particularista, específico de uma classe e segmento social, Meszaros fala muito disso em sua obra prima Para Além do Capital. É necessário contextualizar historicamente este homem burguês que se quer como o homem por natureza, identificar como a ideologia liberal-burguesa reescreveu o passado para justificar o presente no melhor estilo “Grande Irmão” ou como eficazmente Carl Polanyi desmistifica este mito do homem ideal liberal clássico. E neste sentido, o discurso das Organizações só pode ser – uma vez mais – uma FRAUDE.

Para quem quiser tirar a dúvida com seus próprios olhos: Declaração Universal dos Direitos do Homem. Depois de ler, reflita bem no silêncio do seu lar, quais os únicos destes artigos que REALMENTE são cumpridos e universalmente propagados.

Liberdades Individuais e Livre Iniciativa – valores auto-evidentes para as Organizações -, só podem ser entendidos desta maneira se se aceita a fraude do discurso burguês sobre os direitos humanos. É evidente que liberdades individuais e livre iniciativa só se tornam fatos concretos e defensáveis na medida em que as liberdades e iniciativas de uns não obstaculizem ou impossibilitem as liberdades e iniciativas de outros – e este definitivamente não é o caso de nenhuma sociedade capitalista, na medida em que não se conhece nenhum exemplo deste tipo em que não exista um pequeno punhado de exploradores que enriquecem se apropriando da riqueza produzida pelo trabalho de uma enormidade de explorados.

Ainda se coloca que o estágio do “capitalismo de livre iniciativa” que existiu em certa época e em certos cantinhos do mundo é uma lenda do passado, praticamente inexistente no presente. A consequência última da competição capitalista se fez nos mais poderosos monopólios e oligopólios do mundo, largamente e abertamente patrocinados, protegidos ou mesmo criados pelos Estados em favorecimento de certas elites, de acordo com o interesse. Poucas grandes corporações e gigantescos grupos financeiros hoje dominam a esmagadora maioria da “iniciativa” privada do mundo. Negar isso é uma fraude. Esse fato já era evidente ainda uns 80 anos atrás e economistas da época, tanto de esquerda e de direita, procuraram combater estes problemas, sem sucesso.

Uma vez desfeita esta fraude e postas essas duas idéias sob a devida perspectiva histórica – ou seja, como interesses de classe (burguesa), e jamais como necessidades naturais do homem -, perdem totalmente sua substância e capacidade de embasar um discurso verdadeiro de liberdade.

Por fim, a cereja do nosso bolo: a Liberdade de Expressão. O que significa isso? Significa que um jornal possa, isenta e apartidariamente, revelar a VERDADE ao público, tornando-o informado das podres entranhas do poder estatal que tenta a todo instante nos escravizar, roubar nosso dinheiro, calar nossas vozes e – evidentemente – censurar os jornalistas, controlando e manipulando a livre consciência dos povos, impedindo o livre fluxo de informações e condenando-nos todos ao pior dos mundos!

Rio Revolta se regozija com a perspectiva de ter nas Organizações Globo a sua perspectiva de salvação de cenário de tal maneira sombrio e se sente um filho adolescente mimado e super-protegido, porém rebelde e mal agradecido.

Liberdade de Imprensa significa: que grupos capitalistas extremamente poderosos vão tentar controlar ideologicamente a sociedade, determinando quais valores correspondem a sua visão de mundo e devem, portanto, ser difundidos com variados graus de sutileza; e determinando, de forma análoga, quais valores são prejudiciais aos seus interesses mais fundamentais e devem, por isto, ser reprimidos ou desacreditados mediante uma associação qualquer a um passado arcaico, jurássico, “ideologizado” etc etc etc.

Liberdade de Imprensa significa: que grupos capitalistas extremamente poderosos terão suas inúmeras redes de rádio, jornais e televisão e poderão manipular livremente a agenda pública de um país qualquer, determinando o que é e o que não é interessante que caia na boca do povo e torne-se foco de discussão. E significa também que o povo não terá qualquer participação na elaboração ativa de conteúdo “jornalístico”, pois o máximo que seus parcos recursos materiais e organizacionais permitirá será a constituição de pequenos veículos de mídia locais.

Liberdade de Imprensa significa: que a elite dominante, rica burguesia, contará para você a história que quiser, da forma que quiser, e não contará para você o que a interessar que você não saiba. E que os homens do governo não só não deve ousar tolher a “liberdade de informar”, deixando a tal burguesia agir como bem entender de acordo com os interesses que bem quiser, como devem ver a mesma telenovela que você vê.

Eis que, depois disso tudo, as Organizações Globo aparecem com uma tal “função” do jornalismo…. Não nos interessa a “função” deste tal de jornalismo, posto que Rio Revolta não acredita na existência disso.

“Jornalismo” significa a transmissão de valores em larga escala permitida pelo desenvolvimento tecnológico e pela capacidade de aglutinação de capitais, recursos organizacionais e habilidades humanas proporcionadas pela moderna sociedade industrial.

“Jornalismo” significa fazer rigorosamente isto que a blogosfera faz, com o Rio Revolta incluído, contar uma história baseada numa visão de mundo específica que se adotou as expensas de várias outras que não foram adotadas por critérios completamente parciais e subjetivos.

Com a diferença de que Organizações como a Globo dispõem de meios infinitamente superiores aos da blogosfera, e uma dose também infinitamente maior de falta de vergonha na cara para fazer passar suas opiniões por verdades absolutas objetivas e inatacáveis.

Mas é fácil identificar a função das Organizações Globo: como todo grupo capitalista, sua função é a de usar dinheiro para ganhar cada vez mais dinheiro. Com a peculiaridade de que ao invés de fabricar e vender comida, remédios, crédito bancário, minério de ferro ou eletrodomésticos – fabricam e vendem notícias.

Para encerrar, caros leitores, gostaríamos de lembrar-lhes uma velha máxima:

Jornalismo não informa; deforma.

Arnaldo Gordo

participação: José Livramento

Terror e cinismo

A balela do choque de civilizações foi mais uma vez desmentida pela realidade. Não bastou  livros e mais livros das mais variadas correntes ideológicas das tradições da esquerda, acabassem com o argumento hungtingtoniano por escrito, que desmistificassem as bases do status quo neoliberal, da farsa ideológica que é a globalização ocidental e sua resistência… Foi preciso que mais um ato bárbaro perpetrado pela extrema-direita no coração da “civilização” ocidental, para que caísse a ficha da mentalidade mediana midiática sobre a realidade político-social do mundo.

Repetidas vezes ao longo dos últimos anos, religião islâmica e terrorismo eram associados indiscriminadamente, uma fortíssima agenda norte-americana, repetida há mil pela direita do mundo todo, inclusive a brasileira. Descaradamente agora nos atos do neonazista Andrew Breivik, quando antes de saber do acontecido, associaram imediatamente o ataque na Noruega ao islamismo, com sucessivas declarações resgatando o Choque das Civilzações de Huntington. Não é preciso  dizer que poucos pediram desculpas às comunidades islâmicas depois de comprovado que o ato era de um neonazista.

Desde o 11 de Setembro e até um pouco antes,  são frequentes os comentários, posts, artigos e declarações – inclusive oficiais –  tentando associar a mentalidade islâmica e o Corão ao terrorismo, como se o Corão fosse o novo Protocolo dos Sábios do Sião. Foi Berlusconi mesmo – tido há anos como neofascista pela esquerda -, que disse que o Ocidente teria de retomar uma Cruzada. Seguidas vezes vimos exercícios de retórica, logo desmascarados como não científicos, muito menos éticos, de partir de um pressuposto “islamismo é vil” e procurar em todas as fontes possíveis dados que corroborem este argumento. Esta, diga-se de passagem é a definição típica da pseudo-ciência: partir de um pressuposto e procurar acontecimentos que a corroborem, ignorando uma maciça ordem de argumentos e acontecimentos que desmentem a teoria inicial. É a pseudo-ciência incrivelmente popular na direita e aqui incluo o stalinismo nas mais altas tradições da direita pseudo-científica (vale ler o lyssenkantismo).  Não é suficiente desmacará-la como pseudo-ciência seguidas vezes, pois a sua lógica é a da soberba, do preconceito, da superioridade, da infalibilidade inexorável de uma raça, líder ou idéia.

Breivik é o estereótipo do extrema direita, mas seu discurso percorre vários elementos comuns à direita. Acredita que antes houve uma era de ouro na Europa, que a sociedade está contaminada, que ele traz a cura e precisa divulgá-la para uma população cegada pela agenda liberal e marxista. Seu discurso é tão semelhante ao do Mein Kampf de Adolf Hitler, que sua tentativa de usar o julgamento como palanque foi exatamente o que Hitler fez quando condenado à prisão pelo Putsch da Cervejaria, por isso, jamais Breivik teve intenção de se matar e sempre procurou manter a calma e a “sobriedade”. Essa é a parte radical do seu discurso, que dá as mãos ao nazismo. Hitler dizia que o marxismo e o liberalismo eram duas faces da mesma moeda.

Porém quando você avança para outros argumentos fundamentais da crença de Breivik e de grande parte da extrema-direita, se encontra uma consonância assustadora com elementos tidos como moderados e “coerentes”. Bravatas como crer que a ONU é um agente da dominação marxista mundial; que Clinton (e os democratas mais liberais nos EUA) são agentes de Pequim em Washington; mais recentemente que Obama é um socialista, são argumentos comuns na direita liberal radical por aqui no Brasil. Aliás, a expressão “marxismo cultural” Breivik usa frequentemente em seus textos é lugar comum em anti-comunistas radicais como Olavo de Carvalho e sua versão vaselinada Arnaldo Jabor. Para não falar em “sovietização do Brasil” e “ditadura socialista petista”, outras expressões frequentes em veículos “liberais” altamente anti-esquerda, como Veja e Estadão. Inclusive Breivik usa a expressão “Revolução Marxista Brasileira”, para falar da degeneração que se vive em nossa terra.

O terrorista norueguês é um fundamentalista cristão, racista e social-darwinista. Este elemento-chave de seu pensamento é altamente coerente segundo a lógica da extrema-direita, social-darwinista e da superioridade cultural branca ocidental. Sua lógica é similar a que levou Huntington a nomear o Choque das Civilizações entre o ocidente civilizado e o oriente bárbaro.  Huntington e seu ethos neoliberal, cultuador do Livre Mercado, são apenas demonstrações moderadas do darwinismo-social que se baseia a economia néo-clássica, cerne do culto neoliberal. Enquanto Breivik é a linha de frente deste novo tipo de fascismo, a verdade nua e crua do mesmo bojo cultural que a civilização huntingtoniana toma como ideal.

O ato de Breivik não veio apenas revelar o quão perigoso e visível está a extrema-direita na Europa, isso para a esquerda atenta, já era visível há um bocado de tempo e, muito por isso, que constantemente escrevo sobre o fascismo neste blog. Como Hobsbawn disse: o nacionalismo ainda é uma força política incrivelmente potente, que não pode ser subestimada. Mas acima da evidente desumanidade que o radicalismo pode levar, o terrorismo deste neonazista veio revelar a mais clara perspectiva sobre o chamado terrorismo islâmico.

Há pelo menos 15 anos que Edwar Said e Tariq Ali, para citar apenas dois intelectuais, dizem que as raízes do extremismo árabe são da extrema-direita nacionalista. Que a esmagadora maioria dos grupos extremistas islâmicos tem demandas nacionalistas: querem a fundação de um estado; querem sua terra desocupada por forças estrangeiras; querem ter autonomia para tomar suas decisões; querem independência econômica; direito de escolher a própria política nacional. Em nenhum momento foi colocado pela mídia tradicional, pelos intelectuais tradicionais do centro e da direita que estes terroristas islâmicos, assim como Breivik, eram fanáticos nacionalistas, acima de qualquer retórica e público religioso que possam discursar. Lembrando Zizek, para cada região afundada em extremismo e obscurantismo há uma esquerda esmagada e humilhada alguns anos antes, do Kansas ao Afeganistão.

Ignorar que os valores claramente defendidos por radicais monstruosos como Breivik são bandeiras comuns à direita é puro exercício de cinismo. A exaltação de superioridade da civilização ocidental, simbolizada no seu apogeu sob o livre mercado e no capitalismo identitário,  a noção de que “os outros” (islâmicos, latinos, africanos) são incapazes de absorver os valores que esta civilização tem e portanto precisam ser forçadamente integrados a ela, não faz senão dar novos nomes à missão civilizatória do homem branco, ponto nevrálgico das teorias raciais e darwinistas sociais. Há pouco tempo vários líderes europeus “moderados” declararam o fim do multiculturalismo, arrochavam seguidamente suas políticas anti-imigrantes, transbordavam seu antes escondido senso de superioridade em medidas altamente racistas e anti-iluministas.

Acreditar que estes pilares fundamentais do radicalismo de Breivik são meras idéias confinadas na extrema direita e não a raiz por trás de todo o discurso que procura declarar o capitalismo ocidental como o fim da história, é um forte exercício de cinismo. Brevik simboliza a definitiva união do antigo fascismo com o novo.

José Livramento

Fascistização à Brasileira

Carros esperando por miseráveis.

Carros esperando por miseráveis.

Historicamente a adesão ao fascismo sempre foi um fenômeno das classes médias empobrecidas, em maior ou menor grau. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha, dos camisas-negras na Itália, os integralistas brasileiros dos anos 30, dos nacionalistas (caudilhistas) espanhóis seguidores de Franco, as classes médias empobrecidas descontentes com os rumos de suas vidas e governo, adentravam as fileiras extremistas do fascismo.

Na primeira onda fascista, a roda extremista era empurrada pelo contexto de crise extrema gerada pela Crash de 1929, que empobreceu todos os setores da sociedade, deixando os governos liberais reféns de sua ortodoxia. As crises são sempre berçários de extremismos. Assim, faz muito mais sentido a força que ganhou o neofascismo russo (Nacional Bolchevismo e a liga Outra Rússia) depois da queda da URSS durante a esmagadora crise econômica que o país viveu nos anos 90 e só foi se recuperar nos últimos anos. Para estas populações médio-classistas, o medo do empobrecimento, da consequente perda de sua posição social, levava as pessoas a decisões mais radicais. Ressalto que nas eleições de Hitler em 1932, somados Socialistas (naquela época eram bem mais radicais), Comunistas e os Nacional Socialistas, tiveram quase 85% dos votos dos eleitores alemães. Os conservadores, ortodoxos, estavam perdidos em seu continuísmo e pusilanimidade, sem saber o que fazer da economia.

Este sentimento, este medo de empobrecimento e da perda de situação social, foi chamado por inúmeros estudiosos do assunto de “declassemént” ou ‘declassê” no aportuguesado, algo como ‘deixar de ser alguém de classe”. Era o medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente estavam associados a este sentimento, o medo do prestígio social ou do reconhecimento social por sua posição econômica; havia também uma rejeição conservadora ao comunismo ateu; uma rejeição da política tradicional, num certo sentido, uma apolitização; um nacionalismo radical em nações que recentemente passaram por processos de reestruturação de poder que, em decorrência disso, gerou uma certa rejeição republicana, uma reação conservadora à consolidação dos ideais liberais na estrutura social e de poder, especialmente por parte dos setores que tradicionalmente tinham poderes, privilégios e certa posição social na sociedade antes desta onda liberal. E estes sentimentos juntos consolidaram o grande número de simpatizantes do fascismo por todo o mundo.

Sim, é fato que as massas aderiram ao fascismo, especialmente na Alemanha, mas seu núcleo, seu ethos cultural e uma proporção enorme dos seus seguidores eram profissionais liberais, trabalhadores do colarinho-branco, funcionários médio e superiores da indústria, não o esquétipo do “trabalhador”. O pobre, proletário, trabalhador comum era sindicalizado, ligado aos comunistas, anarquistas ou socialistas.

Mas porque estou falando disso?

Observo hoje no Brasil um interessante fenômeno de fascistização das classes médias e procuro entender as razões.

Que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carregam fortes sentimentos anti-republicanos, herdados da nossa completa falta de revoluções conflituosas na história, eu já falei várias vezes neste blog (aqui, aqui e aqui); que as classes médias e a elite tem um ódio encarnado de “comunista” nossa história recente dá mais e mais provas disso, como o ódio elitista ao Lula (haha que comunista…) ou ao MST (aliás, muitos acham que Reforma Agrária é coisa de comunista – outra piada) também não é novidade; que cresce mais e mais um sentimento apolitizante nas classes médias também não é mistério nenhum (falei rapidamente disso aqui).

Porém, nossa sociedade não parece estar em crise econômica grave que justifique esta radicalização à direita recente. E não está de fato, pela primeira vez em décadas, o país vive um certo otimismo econômico e enquanto no final dos anos 90 1 em cada 5 brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é 1 para 10. No entanto, as classes médias tradicionais e as elites continuam se radicalizando e dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, aversão a esquerda, suporte a medidas extremadas do estado, aplausos à repressão e aquela saudade explícita da ditadura.

Vamos citar uns breves exemplos para clarificar o que digo:

– seguidas manifestações explícitas contra nordestinos, homossexuais, negros e ‘gente diferenciada’ (especialmente em São Paulo, nata da velha classe média e elite conservadora);

– frequente apoio às políticas de repressão contra sindicatos, professores, manifestantes e etc. Apoio este evidente em jornalões de grande circulação.

– exaltação do Caveirão do Bope, a Gestapo do Sérgio Cabral.

– bombardeio severo às políticas de inclusão social rápida e paleativa (Bolsa Família, política de cotas sócio-raciais…);

– exaltação frequente de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro. As próprias declarações preconceituosas de Bolsonaro ganham ecos que anteriormente não tinham.

– as seguidas manifestações em redes sociais e correntes de email contra pobres, com Mayara como figurinha da vez… As próprias defesas dela em blogs e jornalões apenas aumentam o bojo desta radicalização à direita da classe média e média alta.

Enfim, há uma série de fatores que mostram uma radicalização política à direita das classes médias e elites brasileiras. Vale lembrar também que estes setores conservadores elitistas e médio-classistas sempre fazem suas defesas em nome da nação, numa concepção de nação hoje degenerada mas que um dia foi linda e bela, onde seus poderes eram intocados. Neste sentido o nacionalismo de nossas elites é muito mais vil do que o dos fascismos dos anos 30. Ele é cínico e conservador, é o ‘nacionalismo’ dos ditadores de 64 (“O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”).

Mas no entanto isto tudo não me deixa satisfeito na explicação desta radicalização das classes médias e elite. Acredito que as forças materiais é que no fundo, movem o mundo de fato. Penso que as pessoas tendem a se radicalizar muito mais quando a situação é de crise econômica do que em qualquer outra situação. Não há o evidente declassment, o empobrecimento econômico, ou o medo do mesmo, desta forma, não acho que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o elitismo de nossas classes médias (sonhando com palácios de princesas em apartamentos de dois quartos de condomínios fechados) sejam suficiente para esta radicalização recente destes setores sociais.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão mais e mais se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato. Esta sensação vêm não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas.

Nossa elite e classe média cultivou por tanto tempo a sua superioridade cultural e econômica, seu sangue-azul, sua nobreza histórica, a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo no mais desigual país do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares que ela, gera um asco e uma rejeição tremenda à atual sociedade. A frase do Luís Carlos Prates, ‘jornalista’ catarinense resume bem esta idéia: “por causa deste governo espúrio… agora qualquer miserável pode ter um carro”. Qualquer miserável agora tem celular mp7, smartphone; qualquer miserável pode ir aos shoppings, lotar os aeroportos; votar em interesse próprio…

Estes setores tradicionais, tão conservadoras que são, tão elitistas e mal acostumadas que são, rejeitam a tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada”, que a ascensão dos ‘diferenciados’ faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia culto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares antigos. Não há mais máscara, a elite e classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social.

Temem concluir o que sempre foi óbvio: somos todos proletários.

José Livramento

Wikileaks: “eu já sabia”

Eu já sabia

Wikileaks ou Eu Já Sabia

A Wikileaks chegou com o pé na porta. Como uma voadora na cara da política internacional, particularmente, na ‘diplomacia’ norte-americana, ela escancarou os reais desígnios norte-americanos. O rei está nú, alguns diriam. Outros falariam que finalmente o Império está sendo desmascarado, e o mundo ‘horrorizado’ vê, um atrás do outro, os escândalos internacionais envolvendo os Estados Unidos e suas corporações. O jornalismo, muito curiosamente, parece até perdido em meio a enxurrada de novos riquíssimos materiais para estudo. Imagino também, que o povo de Relações Internacionais esteja frenético 24 horas, sete dias por semana, estudando as incríveis revelações. Julian Assange, o arauto da Wikileaks, como Ellberg nos arquivos divulgados em 1971 sobre os crimes do Vietnã, se tornou inimigo público número 1 de grandes nações. Caçado pela Interpol, conseguiu inclusive, o mais improvável, fazer grande parte do mundo duvidar da democracia suéca! Sim, porque o que o próprio Wikileaks vem demonstrando que as teorias de conspiração podem ser de fato, muito mais do que teorias. No entanto, analisando caso a caso da wikileaks, pegando suas revelações no geral, nos perguntamos: alguma coisa é realmente surpreendente? Quando me fiz esta pergunta, eu lembrei da clássica “Eu já sabia”, vista volta e meia nos estádios do nosso amado futebol.

A Wikileaks revelou que os EUA cometeram centenas de crimes de Guerra… Isso é novidade? Afeganistão, Guantánamo, Iraque, assassinatos colaterais… Eu já sabia. É de ‘conhecimento mineral’ que os EUA patrocinaram uma série de atentados contra a democracia, patrocínio de ditaduras e de grupos de extermínio pelo mundo. As esquerdas pelo mundo já falam disso, sem parar, há pelo menos 50 anos – se você contar o livro do Lenin, de 1916 (Imperialismo: o mais alto estágio do capitalismo) temos estas denúncias há quase 100 anos já, na época é verdade, eram mais os Impérios europeus, mas já conta. Para quem tem preguiça de ler sobre isso recomendo dois recentes filmes: War on Democracy (2008) e South of the Border  (2009), o segundo tem legendado, o primeiro não sei.

A Wikileaks revelou que os EUA e seus satélites no Oriente Médio (Arábia Saudita e Israel) temem que o Irã tenha a bomba. Outra ‘fresquíssima’ novidade. No caso do Irã a única coisa que me pareceu novidade foi que setores religiosos estão descontentes no Irã pois o neo-fascista do Ahmadinejad para se fortalecer, enfraqueceu demais o Conselho dos Aiatolás (algo como o Senado iraniano)… Natural para um fascista, compreensível, mas nada incrivelmente surpreendente, aliás, algo pouquíssimo alardeado pela grande imprensa.

Os documentos de Assange também revelaram que a China está de saco cheio da Coréia do Norte… Quem não estaria, inclusive vários setores políticos chineses já se perguntavam isso há anos… Na Russia, os arquivos falavam que esta se transformara num Estado Mafioso, dominado de dentro do Estado por setores corruptos, ultra-mafiosos…. Nossa, isso surpreende alguém?? O partidão soviético já funcionava como uma máfia, quando ele caiu, ela só tomou o resto do Estado que não dominava, dilapidou e privatizou tudo que foi possível… Alguém realmente acha surpreendente que os delegados regionais e grandes lideranças regionais do PC soviético, se tornaram multi-bilionários fatiando o Estado virgem russo para o grande capitalismo mundial???

Na África a Pfizer usa crianças e doentes de países pobres como cobaias de seus remédios e ainda chantagia políticos locais quando as coisas não vão bem… Isso é terrível,fato. Mas é surpreendente e inédito? Virou até cinema, no excelente filme O Jardineiro Fiel. O setor farmacêutico americano que ameaçou de morte Michael Moore, que disse que Saúde Universal nos EUA é anticonstitucional… Surpreendente seria se elas fizessem algo realmente progressista e humano.

No Brasil, Wikileaks revelou que vastos setores da nossa elite política e economica são altamente subservientes, revelou que o lobby das petroleiras agia forte com o PSDB (Serra em particular) e que os EUA viram diversos de seus interesses políticos contrariados; revelou que ‘jornalistas’ como William Waack e Mainardi eram frequentemente consultados e usados como porta-vozes da vontade da CIA… Novidade mesmo? Nenhuma. De cabeça me lembro do livro de Theotonio dos Santos: Ascensão e Queda do Neoliberalismo, onde a parte sobre o Brasil já fala disso em 2004… Também lembro do livro O Desmonte da Nação de 1998, quando fala exatamente de FHC e o demotucanato (na época pefelismo-tucano) transformando sua Teoria da Dependência em Prática da Dependência.

Então, o que há de tão espantoso na Wikileaks??

Papai Noel

No fundo mesmo, nada. Quem sempre leu e esteve atento ao que o pensamento anti-hegemônico disse nos últimos 50 anos, vai achar a Wikileaks apenas mais uma nota de rodapé de referência bibliográfica, pois é isso que ela faz, engrossa um coro que já era dito há décadas. O espantoso são os jornalões da direitaça mundial não terem admitido que boa parte da esquerda paranóica esteve sempre certa: o imperialismo é altamente arraigado no Estado. O Estado Corporativista (isto é, das Corporações) coopta elites locais, compra quem puder, e o Estado (governo) dos EUA usa de sua influência política, militar e barganha (ameaça seria melhor palavra) com Estados e elites políticas menores, corruptas e subservientes, para fazer a vontade e os lobbies das suas mega-corporações capitalistas. O Estado americano é o maior agente capitalista do mundo…. Mas pera ae!! Isso é novidade?! Para os jornalões e a direita “integrada” parece que sim, mas eles – ao que tudo indica – nunca leram os clássicos da literatura da esquerda. Um pouco do Sapo Barbudo – o original – não faz mal a ninguém.

“Eu já sabia!”

José Livramento

A República das Leis que Não pegam

Inspirado pelo clássico depoimento de Hélio Luz sobre a polícia do Rio e o Estado e, no bojo das questões sobre segurança, papel do Estado, Lei e Ordem, resolvi aprofundar questões que levantei no post Elite Arcaica e o Capitalismo e, em parte de Brasília, Versalhes Tupiniquim, principalmente tentando buscar uma resposta para a questão: até que ponto o brasileiro está preparado para aceitar uma República republicana, isto é, até que ponto estamos prontos para aceitar o “Império da Lei”?

Essa questão é muito difícil. No primeiro post que citei acima, tento evidenciar as origens conservadoras de nossa elite e classe média, de como o Brasil nunca teve de fato uma revolução republicana, iluminista, e como aceitamos facilmente ideais fascistas, monarquistas e anti-liberais. Aqui as elites sempre foram dando anéis para não perder os dedos, sempre alteraram suas formações legais e aparência para se manter no poder. Mudamos nossas estruturas mas os fantasmas das idéias arcaicas persistiram. Desta maneira conservamos mais ou menos mesma estrutura de poder, semelhante estrutura social, da Colônia, ao Império e depois à República Velha, e a República Nova. É que muitos chamam de “modernização conservadora”.

Para começar alguns podem insistir em por que me refiro tanto a isso como “as elites”, “as classes dominantes” e tento excluir desta problemática as classes subalternas ou, mesmo, o brasileiro como um todo. Bem, primeiro por que acredito quando o Barbudo diz que os valores dominantes de uma sociedade são os valores de sua classe dominante e, reforço esta argumentação por saber que os principais formadores de opinião, os principais meios de comunicação, as principais estruturas de informação, estão – no Brasil – exclusivamente ligados às classes dominantes. No Brasil são raras as rádios comunitárias, mais raras ainda são as TVs comunitárias, tampouco os periódicos impressos são horizontalizados. Isto por si só, já corrobora o argumento anterior. Em vários momentos importantes – como na interessante eleição politizada que tivemos recentemente e agora na “guerra urbana carioca” – vimos os jornalões da grande imprensa, da elite da elite, falarem em uníssono os temas, com algumas diferenças menores, nada muito conflitante.

Mas voltando ao tema e enfatizando o parágrafo acima. As idéias e valores dominantes nos mais vastos setores da sociedade são predominantemente os ideais e valores de nossas classes dominantes. Portanto é fundamental termos isto em mente quando pensarmos no Brasil como um todo, em costumes ‘típicos’ e etc. É lógico que isso não é uma regra matemática ou esquema físico-químico, estamos falando de um país de 190 milhões de habitantes, com elites heterogêneas e com seus próprios conflitos políticos internos. No entanto alguns valores ‘universais’ perpetuam-se em nossa vida corriqueira e já expliquei um bocado deles no post sobre a Elite Arcaica, não vou repeti-los.

A República das Leis que Não pegam

A clássica frase atribuída a Benavides, ex-presidente e militar Peruano resume exatamente o espírito brasileiro predominante: “Aos meus amigos, tudo. Aos meus inimigos, a Lei”. O Brasil é um fenômeno onde se respeita as leis quando se é conveniente, este costume é que é a lei brasileira. Aliás, agir por costumes é bem a base de nossas tradições civis. Como não canso de repetir, somos um país de Antigo Regime, o jeitinho brasileiro nada mais é do que o modo de agir de um típico cidadão – ops, cidadão não – súdito do Antigo Regime, jeitinho este que era encontrado em toda a Europa pré-Napoleônica. Sérgio Buarque de Holanda escreveu sobre isso em 1936 e por incrível que pareça ele ainda não ficou tão defasado em se tratando de Brasil, neste interim Portugal e Espanha que ele cita muito, fizeram suas respectivas revoluções liberais. Ele cita muito os dois países, mas para lá o livro ficou muito defasado. O Brasil é o mais consuetudinário dos constitucionalistas.

Até que ponto o brasileiro é republicano?

Aqui existem leis que não pegam. Se o costume é estacionar em local proibido ou avançar sinal,  nós o faremos seguidamente – mesmo depois de sermos multados. Muitos brasileiros inclusive não respeitam uma simples fila de banco ou de estacionamento para se pagar. Se um cidadão vê um outro cometendo uma infração ele imediatamente se vê no direito de cometê-la também. Esse costume é típico da nobreza, se um nobre faz, outro fará também, deixe que o Rei decida quem deverá responder ou não por isso. Todo nosso sistema político funciona nesta base e, em geral, pela origem dos infratores já sabemos quem levará a pior, Daniel Dantas que o diga, foi condenado na Inglaterra e absolvido no Brasil.

Ninguém mais acha estranho a cultura brasileira de sempre condenar o que recebe a propina e não o que a paga? Isto é simples posição social. O cidadão que suborna o policial para livrar o filho que atropelou o skatista passa incólume, enquanto o policial é mil-e-uma vezes condenado por todos os jornais, é demitido e execrado. É fácil de entender: o almofadinha que pagou é de um estamento muito superior ao mal-pago, mal-treinado, mal-relacionado policial que aceitou o suborno, um tem cartão gold no banco e saldo com 5 dígitos, o outro ganha R$1200 por mês e mais um extra se a hierarquia do “quem quer rir, tem que fazer rir” permitir (estes PMs de patrulha são – em geral – dos mais ralés).

É isso mesmo, um policial tem que arriscar o pescoço por R$1000-1500 reais. Qualquer idiota preferiria negociar com traficantes do que entrar em confronto. Além de ter que pagar do próprio bolso a própria munição, pela sua arma e muitas vezes, pelo combustível da viatura que conduz. Não há ideologia ou lavagem cerebral que supere os gritos de fome de um filho ou o choro de uma mãe que não quer enterrar sua prole.

É esse o sujeito que tem que fazer cumprir a Lei? O Estado quer um miserável, desesperado, aflito, que – não é nada raro – mora em periferias violentas, cumpra sua vontade? E fica surpreso quando eles são corruptos?! Não é a toa que o tráfico paga ‘bolsa-polícia’ a membros de suas gangues para entrarem para a polícia e facilitar as coisas depois.

Mas voltemos a outros pontos.

Um fiscal que faz vista-grossa é até bem visto nos setores comerciais que atua, aliás – as vezes – pela própria estrutura tributária do setor comercial, a vista grossa é fundamental, pois se os comerciantes todos pagassem na íntegra seus impostos que são exigidos, o comércio brasileiro iria à falência em pouco tempo. Sonegar é uma “vantagem comercial” em relação à concorrência, os que sabem fazer melhor, que conhecem os melhores esquemas, oferecem melhor preço ao consumidor final, por mais tempo, com mais estabilidade. Os lojistas que conhecem o melhor muambeiro sempre terão vantagens, alguns inclusive conseguem proezas como trazer contrabando em aviões do exército, em navios da Marinha… diga-se de passagem, boato recorrente aqui no Rio: o maior contrabandista de armas da cidade é a Marinha. Espero que seja só boato.

Temos casos ridículos e gritantes desta nossa falha brutal. Um investigador federal desbarata um colossal esquema de lavagem de dinheiro e corrupção, envolvendo várias figuras proeminentes, vários bancos em diversos países, movimentam cifras que chegam a casa das bilhares de dezenas de reais sonegados, desviados e usurpados, enfim, um dos mais escandalosos esquemas de corrupção da história… Este investigador não só é afastado, como a investigação toma outro rumo, os canhões da grande imprensa se viram contra ele, é chamado de tirano, ditador, araponga, é acusado de um crime – que cometeu de fato segundo o torpe judiciário: utilizou demais do aparelho investigativo – e se esquece do acusado e do esquema de corrupção. Mais ou menos assim soltaram Dantas e colocaram o delegado Protógenes na cadeia. E isso é tratado com a maior naturalidade pela grande imprensa, “O Estado de Direito segue na normalidade”. Normalidade para quem?!

Em caso semelhante um jornalista descobre enormes indícios de fraudes em licitações e privatizações durante os governos neoliberais de FHC e Serra, prejuízos a União na casa também dos bilhões. A história se repete em tragédia: é massacrado pelos jornalões, condenado como ditador e araponga, desvia-se completamente do assunto e, inverte-se todo o caso de corrupção. Assim o livro de Amaury Ribeiro atrasa ainda mais… Normalidade na mídia, “a república” continua intacta. República de Bananas provavelmente.

A polícia é banana e o judiciário é mamão: um prende e o outro solta.

Um judiciário altamente corporativista, elitista, mais arcaico que qualquer outro setor de nossa legislação. Seus quadros não tem qualquer renovação substancial pois são todos eleitos por magistrados anteriores, conservados desde o tempo do ronca, da época que os blocos de carnaval eram dos clubes de elite no centro do Rio. A população não dá um pitaco se quer. A organização do Judiciário é lenta, defasada e altamente corrupta, feita para sempre proteger os poderosos, juízes que matam em frente das câmeras, filhos de nobres que queima índios e são filmados, senadores fatiando com motosserra. Gilmar Mendes e Geraldo Brindeiro estão aí para provar esta tese, dois engavetadores de crimes lesa-pátria. Dois juízes da Nobreza. Aos meus amigos tudo, aos meus inimigos, a lei!

Depois a esquerda se espanta – ela ainda se espanta! – como a mania de exacerbação do Poder Executivo (polícias, presidentes, prefeitos e etc) que temos no Brasil, aquela tendência ditatorial que hoje está explícita nos jornais. O judiciário é altamente corrupto e injusto, o legislativo é altamente defasado e lobbista, só passa leis que favoreçam o Partido do Dinheiro ou quando a situação está tão gritante, com a demanda popular tão grande que a Lei se faz necessária, caso da Ficha Limpa, ou mesmo da Lei Seca. Restam às pessoas que adentram o executivo – o menos elitizado e mais republicano dos três poderes – uma crença de ‘justiça cósmica, divina ou idelógica’, acumulando papel de juíz e executor da pena. Costume que não só é perigosíssimo, como totalmente anti-democrático. Muitos estão cansados de prender para ver o judiciário soltar ou ver gritantes desvios da lei seguindo impunemente.

Daí origina-se outro traço anti-republicano brasileiro: nem todos são inocentes até que se prove o contrário. A presunção da inocência no Brasil sempre vai por água abaixo quando a segurança da elite e de suas propriedades são ameaçadas. É o próprio ideal nobilárquico pré-republicano: o castelo é sagrado! Os nobres diziam isso, a propriedade é sagrada, ainda mais se for da terra! Oras, não é coincidência que aqui Reforma Agrária seja coisa de comunista, de ‘esquerdinha tresloucado’… O próprio dono do castelo é que dita as leis! Nos EUA, França, Alemanha, Japão, Coréia e qualquer país desenvolvido, quem fez a reforma agrária foram os ricos burgueses, pois sabiam que reforma agrária é o capitalismo chegando ao campo… Aqui, não, nossos nobres que odeiam os pilares da sociedade moderna rejeitam a reforma agrária como se fosse o último Dragão Vermelho a ser derrotado. Não foi Lenin – ele mesmo, o socialista mór’ – que disse que Reforma Agrária era um passo atrás para dar dois a frente??? Ele considerava um passo atrás pois sabia que isso era capitalismo do campo e, para ele, um retrocesso.

Breves e velhas conclusões

Então é compreensível que não expropriemos as terras de escravocratas comprovados – isso depois de 120 anos de abolição oficial; entendemos porque ainda vemos a realeza na capa da Caras; porque parecemos aceitar de cabeça-baixa nossa condição de subalterno, de proletário do mundo. É por isso que ignoramos carros parados na calçada, a lei do silêncio, a taxa de bombeiros, porque furamos filas, porque sempre procurarmos algum camarada para nos facilitar a entrada em algum evento, porque não nos revoltamos quando frequentes delitos são cometidos pela elite dominante do Palácio de Brasília… Nossa cultura não é republicana. A única lei que se deve considerar – sempre – no Brasil, é a Lei de Gerson: o brasileiro tentará, sempre que possível, levar vantagem em tudo. Do liberalismo só absorvemos o individualismo e a competitividade, do feudalismo ficamos com o favorecimento, personalismo e autoritarismo. Constantemente abrimos mão da liberdade pela segurança, trocamos a justiça pela ordem social.

Somos o mais ‘moderno’ Estado Arcaico do mundo.

José Livramento