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Fascismo à Brasileira

Duas faces do neo-autoritarismo brasileiro?

Historicamente a adesão inicial ao fascismo foi um fenômeno típico das classes dominantes desesperadas e das classes médias empobrecidas e apenas pontualmente conquistou os estratos mais baixos da sociedade, ideologicamente dominados pelo trabalhismo social-democrata ou pelo comunismo. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha e camisas-negras na Itália, aos integralistas brasileiros e caudilhistas espanhóis seguidores de Franco, as classes médias, empobrecidas pelas sucessivas crises do pós-guerra (1921 e especialmente 1929), formaram o núcleo duro dos movimentos fascistas.

Esse alinhamento ao fascismo teve como fundo principal uma profunda descrença na política, no jogo de alianças e negociatas da democracia liberal e na sua incapacidade de solucionar as crises agudas que seguiam ao longo dos anos 1910, 20 e 30. Enquanto as democracias liberais estavam estáveis e em situação econômica favorável, com certo nível de emprego e renda, os movimentos fascistas foram minguados e pontuais, muito fracos em termos de adesão se comparados aos movimentos comunistas da mesma época. Porém, uma vez que a democracia liberal e sua ortodoxia econômica mostraram uma gritante fraqueza e falta de decisão diante do aprofundamento da crise econômica nos anos 1920 e 30, a população se radicalizou e clamou por mudanças e ação.

Lembremos que, quando os nazistas foram eleitos em 1932, a votação foi bastante radical se comparada aos pleitos anteriores; 85% dos votos dos eleitores alemães foram para partidos até então considerados mais radicais, a saber, Socialistas (social-democracia), Comunistas e Nazistas (nacional-socialistas), os dois primeiros à esquerda e o último à direita. Os conservadores ortodoxos, anteriormente no poder, estavam perdidos em seu continuísmo e indecisão, sem saber o que fazer da economia e às vezes até piorando a situação, como foi o caso da Áustria até 1938, completamente estagnada e sem soluções para sair da crise e do desemprego, refém da ortodoxia de pensadores da escola austríaca, tornando-se terreno fértil para o radicalismo nazista (que havia fracassado em 1934).

Além disso, o fascismo se apresentava como profundamente anticomunista, o que, do ponto de vista das classes dominantes mais abastadas e classes médias mais estáveis (proprietárias) menos afetadas pelas crises, era uma salvaguarda ideológica, pois o “Perigo Vermelho”, isto é, o medo de que os comunistas poderiam de fato tomar o poder, era um temor bastante real que a democracia liberal parecia incapaz de “resolver” pelos seus tradicionais métodos, especialmente após a crise de 1929. O fascismo desta maneira se apresentou como último refúgio dos conservadores (sejam de classe média ou da elite) contra o socialismo. Os intelectuais que influenciavam os setores sociais menos simpáticos ao fascismo, o viam como um mal menor “temporário” para proteger a “boa sociedade” das “barbáries socialistas”, como o guru liberal Ludwig von Mises colocou, reconhecendo a fraqueza da democracia liberal face ao “problema comunista”:

Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização européia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal. (L. von Mises, Liberalism, 1985[1927], Cap. 1, p. 47)

Além da descrença na política tradicional e do temor do perigo vermelho num cenário de crise, houve ainda uma razão fundamental para as classes médias adentrarem as fileiras do fascismo: o medo do empobrecimento e a perda do status social.

Esse sentimento – chamado de declassemént ou declassê no aportuguesado, algo como ”deixar de ser alguém de classe” – remetia ao medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente associava-se ao receio de que o prestígio social ou o reconhecimento social por sua posição econômica esmorecessem, mesmo para pequenos proprietários e profissionais liberais sem títulos de nobreza (ver Norbet Elias, Os Alemães). Esse medo entra ainda no contexto de uma evidente rejeição republicana, uma reação conservadora do etos nobiliárquico que dominava as classes altas e parte das classes médias urbanas nos países fascistas, à consolidação dos ideais liberais (mais igualitários) na estrutura social de poder e de privilégios, isto é, na tradição social aristocrática. Não foi por acaso que o fascismo foi uma força política exatamente onde os ideais liberais jamais haviam se arraigado, como Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Brasil.

Por fim, cumpre lembrar que os fascistas apelam à violência como forma de ação política. Como disse Mussolini: “Apenas a guerra eleva a energia humana a sua mais alta tensão e coloca o selo de nobreza nas pessoas que têm a coragem de fazê-la” (Doutrina do Fascismo, 1932, p. 7). A perseguição sem julgamento, campos de trabalho e autoritarismo não só vieram na prática muito antes do genocídio e da guerra, mas também já estavam em suas palavras muito antes de acontecerem. No discurso e na prática, a sociedade é (ou destina-se) apenas para aqueles que o fascista identifica como adequados; há um evidente elitismo e senso de pertencimento “correto” e “verdadeiro”, seja uma concepção de nação ou de identidade de raça ou grupo. E essa identidade “verdadeira” será estabelecida à força se preciso.

Mas porque estamos falando disso?

Parece crescente e cada vez mais evidente no Brasil que importantes setores da classe média e classe alta simpatizam com ideais semelhantes aos que formaram o caldeirão social do fascismo?

Vimos em texto recente que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carrega fortes sentimentos anti-republicanos (ou anticonstitucionais), herdados de nossa sucessão de classes dominantes sem conflito e mudança estrutural, sem qualquer alteração substancial de sua posição material e política, perpetuando suas crenças e cultura de Antigo Regime. Privilégios conquistados por herança ou “na amizade”, contatos pessoais, indicações, nepotismos, fiscalização seletiva e personalista; são todas marcas tradicionais de nossa cultura política. A lei aqui “não pega”, do mesmo jeito que para nazistas a palavra pessoal era mais importante que a lei. Há um paralelo assustador entre a teoria do fuhrerprinzip e a prática da pequena autoridade coronelista, à revelia da lei escrita, presente no Brasil.

Talvez por isso, também tenhamos, como a base social do fascismo de antigamente, uma profunda descrença na política e nos políticos. Enojada pelo jogo sujo da política tradicional, das trocas de favores entre empresas e políticos, como o caso do Trensalão ou entre políticos e políticos, como os casos dos mensalões nos mais variados partidos, a classe média tradicional brasileira se ilude com aventuras políticas onde a política parece ausente, como no governo militar ou na tecnocracia de governos de técnicos administrativos neoliberais. Ambos altamente políticos, com sua agenda definida, seus interesses de classe e poder, igualmente corruptos e escusos, mas suficientemente mascarados em discursos apolíticos e propaganda, seja pelo tecnicismo neoliberal ou pelo nacionalismo vazio dos protofascistas de 1964, levando incautos e ingênuos a segui-los como “nova política” messiânica que vai limpar tudo que havia de ruim anteriormente

Por sua vez, como terceiro ponto em comum, partes das classes médias tradicionais e a elite tem um ódio encarnado de “comunistas”, e basta ler os “bastiões intelectuais” da elite brasileira, como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino ou Olavo de Carvalho ou mesmo porta-vozes do soft power do neoconservadorismo brasileiro, como Lobão e Monica Sherazade. É curioso que o mais radical deles, Olavo de Carvalho, enxergue “marxismo cultural” em gente como George Soros (mega-especulador capitalista), associando-o ao movimento comunista internacional para subjugar o mundo cristão ocidental. Esse argumento em essência é basicamente o mesmo de Adolf Hitler: o marxismo e o capital financeiro internacional estão combinados para destruir a nação alemã (Mein Kampf, 2001[1925], p. 160, 176 e 181).

A violência fascista, por sua vez, é apresentada na escalada de repressão punitivista e repressora do Estado, apesar de – ainda – ser menos brutal que o culto à guerra dos fascistas dos anos 1920 e 30. Antes restritos apenas aos programas sensacionalistas de tv sobre violência urbana e aos apologistas da ditadura como Jair Bolsonaro, o discurso violento proto-fascista “bandido bom é bandido morto”, que clama por uma escalada de repressão punitiva, sai do campo tradicionalmente duro da extrema direita e se alinha ao pensamento de economistas liberais neoconservadores que consideram que “o criminoso faz um cálculo antes de cometer seu crime, então é o caso de elevar constantemente o preço do crime (penas intermináveis, assédio, execuções), na esperança de levar aqueles que sentirem tentados à conclusão de que o crime já não compensa” (Serge Hamili, 2013). Assim, a apologia repressora se alinha à lógica do punitivismo mercantil de apologistas do mercado, mimetizando um Chile de Pinochet onde um duríssimo estado repressor, anticomunista, está alinhado com o discurso neoliberal mais radical.

E, ainda, somam-se a isso tudo o classismo e o racismo elitista evidentes de nossa “alta” sociedade. Da “gente diferenciada” que não pode frequentar Higienópolis, passando pelo humor rasteiro de um Gentili, ou o explícito e constrangedor classismo de Rachel Sherazade, que se assemelha à “pioneira revolta” de Luiz Carlos Prates ao constatar que “qualquer miserável pode ter um carro”, culminando com o mais vergonhoso atraso de Rodrigo Constantino em sua recente coluna, mostrando que nossos liberais estão mais inspirados por Arthur de Gobineau e Herbert Spencer do que Adam Smith ou Thomas Jefferson. A elite e a classe média tradicional (que segue o etos da primeira), não têm mais vergonha de expor sua crença no direito natural de governar e dominar os pobres, no “mandato histórico” da aristocracia sobre a patuléia brasileira. O darwinismo social vai deixando o submundo envergonhado da extrema direita para entrar nos nossos televisores diariamente.

Assim, com uma profunda descrença na política tradicional e no parlamento, somada a um anti-republicanismo dos privilégios de classe e herança, temperados por um anticomunismo irracional sob auspícios de um darwinismo social histórico e latente, aliado a uma escalada punitivista alinhada a “ciência” econômica neoliberal, temos uma receita perigosa para um neofascismo à brasileira. Porém, antes que corramos para as montanhas, falta um elemento fundamental para que esse caldeirão social desemboque em prática neofascista real: crise econômica profunda.

Apesar do terrorismo midiático, nossa sociedade não está em crise econômica grave que justifique esta radicalização filo-fascista recente. Pela primeira vez em décadas, o país vive certo otimismo econômico e, enquanto no final dos anos 1990, um em cada cinco brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é um em cada 11. A Petrobrás não só não vai quebrar como captou bilhões recentemente. A classe média nunca viajou, gastou no exterior e comprou tanto quanto hoje, nem mesmo no auge insano do Real valendo 0,52 centavos de dólar. O otimismo brasileiro está muito acima da média mundial, mesmo que abaixo das taxas dos anos anteriores.

No entanto, apesar de tudo isso, parte das antigas classes médias e elites continuam se radicalizando à extrema direita, dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, suporte ao punitivismo sanguinário das polícias militares, aplaudindo a repressão a manifestações e indiferentes a pobres sendo presos por serem pobres e negros em shopping centers. Isso tudo com aquela saudade da ditadura permeando todo o discurso. Se não há o evidente declassmént, o empobrecimento econômico, ou mesmo um medo real do mesmo, como explicar esta radicalização protofascista?

Não é possível que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o senso de superioridade de nossas elites e classes médias tradicionais sejam suficientes para esta radicalização, pois estes fatores já existiam antes e não desencadeavam tamanha excrescência fascistóide pública.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão gradualmente se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato, causada por alguma crise econômica. Esta sensação vem, não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas. Uma ascensão visível. Seja quando pobres compram carros com prestações a perder de vista; frequentam universidades antes dominadas majoritariamente por ricos brancos; ou jovens “diferenciados” e barulhentos frequentam shoppings de classe média, mesmo que seja para olhar a “ostentação”; ou ainda famílias antes excluídas lotando aeroportos para visitar parentes em toda parte.

Nossa elite e antiga classe média cultivaram por tanto tempo a sua pretensa superioridade cultural e evidente superioridade econômica, seu sangue-azul e posição social histórica; a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo num dos mais desiguais países do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares aos dela, gera um asco e uma rejeição tremenda. Estes setores tradicionais, tão conservadores que são, tão elitistas e mal acostumados que são, rejeitam em tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada” que deveria ter como destino apenas à resignação subalterna (“o seu lugar”), que a ascensão destes “inferiores” faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia oculto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares conservadores. Não há mais máscara, a elite e a classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas, racistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social histórica e, talvez no fundo, a antiga classe média teme constatar que sempre foi pobre em relação à elite que bajula, e enquanto havia miseráveis a perder de vista, sua impotência política e vazio social, eram ao menos suportáveis.

Leandro Dias

Revisado por Carolina Dias

REFERÊNCIAS GERAIS:

ELIAS, Norbert. Os Alemães. Rio de Janeiro: Zahar, 1996

HAMILI, Serge. O laissez faire é libertário?. IN: Le Monde Diplomatique Brasil, número 71, 2013.

HITLER, Adolf. Mein Kampf. São Paulo: Centauro, 1925

HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Cia das Letras,1996

MISES, Ludwig von. Liberalism.Irvington.The Foundation for Economic Education, 1985

MUSSOLINI, Benito. Doctrine of Fascism. Online World Future Fund. 1932

POULANTZAS, Nicos. Fascismo e Ditadura. Porto: Portucalense, 1972

SCHMIT, Carl. Teologia Política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006

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De derrota em derrota até a vitória final

"Todo poder aos black blocs?"

“Todo poder aos black blocs?”

50 mil pessoas defendendo a educação no Rio e só se fala de quebra-quebra, destruição, “porrada, tiro e bomba”.

Pelo que lutavam mesmo? Irrelevante.

Não interessa que o prefeito ignorou por completo as demandas e ainda disse que os “professores não sabem sabem fazer contas“, o importante é o ônibus incendiado, os prédios destruídos e a manifestação-espetáculo dos denominados blocos de preto.

Não interessa que uns dias antes, a polícia sob o comando estadual, fez o que mais sabe e reprimiu duramente os professores, sem que qualquer “baderneiro” tivesse iniciado o confronto.

Quem eram mesmo? Irrelevante.

Não interessa que não só professores estavam lá, que haviam bancários, bombeiros, estudantes, universitários e muitos simpatizantes. Até bandas musicais vieram enriquecer a manifestação, o foco é exibir o ônibus em chama na capa do jornal.

Qual era a pauta dessa greve mesmo? Irrelevante.

No velho roteiro do poder constituído, a velha e parte da nova mídia, quando não ficam no mais completo silêncio, trazem sempre o mesmo enredo: arruaceiros, vândalos e marginais estragaram uma manifestação legítima, a festa democrática. Ninguém lembra do que a imprensa dizia dos grevistas, “agitadores”, sindicalistas – os “comunalhas” de sempre – a destruir a Rio Branco depois da escandalosa privatização da Vale do Rio Doce em 1997? Não foi o MST taxado em capa de revista como baderneiro, raivoso ou coisa pior? Não chamaram o estancieiro latifundiário João Goulart de “comunista” e “subversivo”?

Nos jornais e na boca do poder constituído, qualquer ato político que venha a incomodar o seu poder será desqualificado. São vândalos, irresponsáveis e desordeiros.

Sempre foi assim.

Se há greve nos ônibus vão mostrar o coitado que não pode chegar no trabalho por causa de uns “sindicalistas egoístas”; se é greve de professor, a manchete é sobre alunos prejudicados por aproveitadores cooptados por sindicatos partidários e tendenciosos; se é pela descriminalização das drogas,  o tom é de “maconheiros filhos de papai que só querem fumar sua erva em Ipanema sem ser incomodado”; se são camponeses lutando por pequeno espaço no campo no país com colossal concentração de terras, não passam de “vagabundos ocupantes”, terroristas invasores; se a manifestação fecha uma rua vão indubitavelmente enfatizar o “direito de ir e vir” dos outros e que é que ditatorial fechar ruas. Enfim, o posterior “avacalhamento” público, distorção e “manipulação” das manifestações pela mídia (incluindo governo) é, certamente, a única regra que se deve tomar como verdadeira ao se expressar nas ruas. A desqualificação de greves, ocupações, manifestos, e claro, protestos violentos ou não, é a principal e mais eficaz arma de desmobilização e desarticulação de qualquer manifestação que toma as ruas, independente do número de manifestantes.

Portanto, se a regra é a desqualificação posterior em massa, algumas considerações fundamentais devem ser feitas.

Muitos concordaram que nos idos de junho, houve de fato a necessidade simbólica de “quebrar tudo” como demonstração clara e evidente de descontentamento com a ordem vigente. Como colocamos neste blog  anteriormente:

O vandalismo [de junho] representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica.

Então, na ocasião, quase que todos os lados apoiaram e exaltaram as manifestações espontâneas pelo país todo, culminando nos atos de destruição de 17 e 20 de junho. Seja a esquerda jovem vislumbrada com o gostinho de revolução deixado no ar enfumaçado, seja a direita oportunistas de plantão querendo usar o momento para derrubar o atual poder que detesta, passando pelos “coxinhas” e apolíticos em geral, inconscientemente nas ruas “contra tudo que está aí” sem saber exatamente o que exatamente defende.

Enfim veio Outubro e apresentou fatos diferentes.

Dando sequência ao violento “despejo” dos professores manifestantes que ocupavam a Câmara do Rio, uma grande manifestação de professores no Dia 1 de Outubro foi também seguida por ação violentíssima dos policiais. No esquema do “foi mal fessor“, a polícia desavergonhada de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, perdeu o pudor e reprimiu como nunca uma das categorias mais sofridas do país, causando indignação nacional e alimentando o fogo da grande manifestação do Dia 7 de Outubro. Situação semelhante ao estopim de junho, por muitos considerado a excessiva repressão da PM paulista no Movimento Passe-Livre.

O fato novo apresentado por essa manifestação do dia 1 de Outubro foi a atuação expressiva do bloco negro (black bloc). Como muitos presenciaram, foram fundamentais para segurar e desviar a atenção da violenta polícia cabralina, dando tempo para que as inúmeras senhorinhas e “tias”, componentes numerosos e mais frágeis presentes entre os professores manifestantes, fugissem dos cassetetes, nuvens de gás e pólvora causadas – neste dia – exclusivamente pela ação policial. Foi a primeira vez que visivelmente, o black bloc remontou sua origem alemã e colaborou efetivamente com outros núcleos políticos, no caso, o sindicato dos professores, fortalecendo todo o movimento. Não foi por acaso que entre o dia 1 e o dia 7 de Outubro, os professores e boa parte da esquerda, os defenderam ardentemente. “Black bloc é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo” era um grito que se houvia no dia 7.

50 mil pessoas na rua e só se fala em destruição.

Dia 7 de outubro, segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro.

Relembrando...

Nem a pusilanimidade da Dilma foi esquecida.

A manifestação foi incrível. A pauta específica era o repúdio ao plano de carreira da educação do Eduardo Paes, mas a pauta geral era pela melhoria da educação brasileira. Milhares de pessoas, professores, bombeiros, bandinhas, bancários, universitários, secundaristas, alunos e simpatizantes. Milhares de mensagens, faixas, cartazes, gritos e cantoria em protestos variados em torno da educação. Até mesmo a UNE-UBES e o PCdoB superaram sua agorafobia adquirida nos últimos anos e estavam lá com suas solitárias bandeiras a engrossar o caldo.

E então, após belíssima marcha pela Rio Branco, chega-se à Cinelândia. Certo tempo de gritaria e protesto na frente da Casa do Povo e começa o ritual destrutivo do fronte juvenil. Rojões e malvinas contra bancos e claro, contra a própria Câmara. Lembrando muito o dia 17 de Junho, a ausência de policiamento efetivo para uma manifestação daquele tamanho, só fez crescer a confiança da linha de frente e a suspeita da tática “terra arrasada”. Fogos de artifício e molotovs iluminaram a noite chuvosa.

No fundo não importa muito quem começou, pois o enredo seria como o descrito no início do texto.

Que tenha sido um revide, um ataque preemptivo ou uma reação espontânea, a linha de frente das manifestações de sua parte, fez chover rojões, malvinas, pedras, bombas caseiras, molotovs e tudo mais que a ritualística de confronto com a polícia tem apresentado. Os dois lados, cedo ou tarde, estavam bem agressivos e não demorou para a polícia, mesmo em baixo número avançasse gradativamente na “retomada do território”. Então, em meia hora, a grande manifestação foi dispersada em pequenos focos resistentes e radicais espalhados pelo Centro e adjacências. O grosso restante voltava para casa sob fortíssima chuva.

Porém, independente dos sentimentos sobre o bloco negro ou até mesmo da justeza de algumas suas práticas – parafraseando Brecht O que é uma vidraça de banco diante da criação de um banco? –, é difícil negar que o “ritual destrutivo” ofensivo, como apresentado no dia 7 de Outubro, esteja claramente servindo mais para reforçar o esvaziamento completo das manifestações, especialmente no sentido ideológico-propagandístico, do que para qualquer apelo por mudanças ou mesmo para angariar mais simpatizantes. A julgar pela capa da maioria dos jornais, editoriais, opiniões propagadas e repercutidas aos montes nas ruas e redes sociais, a velha fórmula de desqualificação já está em pleno vapor.

50 mil na rua e só se fala em “vandalismo e depredação”.

Desta forma, seja por muitas testemunhas que viram – na ocasião – a ação direta dos black blocs mais como “ataque” do que como “revide” contra a repressão da polícia ou, ainda mais importante, seja pelo evidente enfoque que todo o aparato midiático e governista já está dando na desqualificação em “vandalismo”, buscando uma vitimização da polícia e do governo local, o resultado será fatalmente o enredo tradicional de esvaziamento das pautas e a criminalização das manifestações radicais. E seria bastante ingênuo subestimar o poder de formação de consenso do aparelho estatal aliado do aparelho midiático.

Assim, é fundamental lembrar que tão ou mais importante que o fato em si, é como o mesmo é interpretado e é respondido pelos agentes do seu tempo.

Sem uma base ideológica, propagandística e objetivos claros, a violência simbólica da destruição disruptiva, será capturada por quem bem conseguir, positiva ou negativamente. E, em geral, infelizmente é usada para os fins mais retrógrados possíveis. Enquanto voam pedras e foguetinhos contra a polícia, retornam porrada, tiro e bomba. Se vão ao chão agências bancárias, pontos de ônibus e latas de lixo, o que retorna são leis anti-terrorismo, prisões arbitrárias, presunção de culpa e Lei de Segurança Nacional. Sem saber exatamente o que se pretende construir, a destruição pode apenas abrir caminho para outros que sabem exatamente o que querem e não terão escrúpulos em usar todos os agentes possíveis para seu fim.

Além disso, do ponto de vista do confronto em si, é importante lembrar o estrategista Sun Tsu, se nossos adversários e inimigos vêm com verdadeiros exércitos armados, cães e bombas, enquanto nós só temos palavras de ordem, fogos de artifício e muita disposição, é triste, mas nós já perdemos essa batalha. A arma da crítica não supera a crítica das armas, diria outro. Dado este cenário, é impossível tomar à força a Câmara ou a ALERJ, quiçá o Palácio do Planalto ou qualquer símbolo de comando do governo. Não há a remota possibilidade no contexto atual. Isso porque nem tem sido necessário ao Estado usar bala de verdade como ocorreu na Turquia e ocorre no Egito.

No contexto atual, a única possibilidade de vitória é a simbólica.

Por vitória simbólica compreende-se principalmente, o constrangimento público e desmoralização das “verdades do poder constituído” como parte de um processo de conscientização e educação política da população, envergonhando sua passividade e abalando o consenso e legitimidade do poder que a domina. O “constrangimento educativo” e desmoralização aparecem ao tornar evidentes algumas grandes contradições inerentes ao sistema capitalista que se pretende democrático e plural, forçando-o a tomar medidas claramente antagônicas à sua imagem pública. Isto é, o conduz a medidas claramente anti-constitucionais, a rudezas jurídicas, a apologia à repressão excessiva em plena democracia, ao autoritarismo praticado em nome da “liberdade” e claro, levá-o a escancarar a promiscuidade entre poder político e poder econômico que o constituí, como ficou evidente no alinhamento da grande mídia com o governo Cabral-Paes e, claro, no vergonhoso desfecho da CPI dos Ônibus, mostrando que realmente o  Estado não passa de um comitê de negócios da classe dominante.

Por fim, se bater em professores indefesos é um desastre político como foi e ninguém em sã consciência política apoiaria a prática, bater em professores que dão suporte a “vândalos e baderneiros” é uma história completamente diferente. A deslegitimação específica  dos black blocs busca na verdade, esvaziar o geral das manifestações, criando legitimidade na repressão indiscriminada, de “pacíficos ou não”. Assim, é fundamental que a posição violenta das manifestações surja como revide, como resposta e, jamais, como ataque, como assalto e afronta planejada ao poder constituído. Desta maneira, as táticas ofensivas dos black blocs, levando aos montes rojões, malvinas e fogos de artifício, parece servir apenas para legitimar uma repressão generalizada e esvaziar a manifestação em questão, escondendo as reivindicações e as pautas em fumaça e fogo. Elas não parecem constranger o real agressor, ao contrário, lhe dá motivos públicos o suficiente para justificar a repressão que o poder queria desde o início.

No nosso contexto portanto, a vitória simbólica é erguida em geral a partir de uma derrota física; se constrói ao fazer com que o poder constituído atue contra a opinião consensual da população e contra sua própria opinião como poder representativo do povo, gerando mais e mais insatisfação e escancarando mais e mais contradições inerentes ao “capitalismo democrático”. O constrangimento público enfim, deslegitima o poder constituído e fortalece os seus antagonistas, reforça o ímpeto dos radicais, radicaliza os moderados e os “simpáticos à causa”, por fim, força a todos à politização, incluindo os “indiferentes” e “alienados”, passo fundamental para a conscientização de classe e posição social no conflito. Relembrando o velho chinês: “De derrota em derrota até a vitória final”.

Leandro Dias

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 2)

Filme racista de 1915, apoiado pelo exército Norte Americano.

Quando ocorrido o 11 de Setembro, imediatamente o governo americano se reuniu com diretores de cinema em Hollywood para determinar o que fazer, que “bons caminhos” tomar para a produção cultural norte-americana (1). A ousadia e o espetáculo das ações do 11 de Setembro, não só o plano em si, mas o misancene que foi retratado pela TV, roupeu a tênue fronteira entre a ficção e a realidade, entre o documentário e fantasia, entre propaganda e enredo.

Não é nenhum grande mistério que a indústria do cinema sofre pressões ou busca financiamento público para suas obras culturais, até nos EUA – terra que se prega a supremacia do dinheiro privado. Durante a Primeira Grande Guerra, os EUA criaram o Comitê para Informação Pública (2), dedicado a fazer propaganda pró-governo e anti-alemã, durante todo o período da Guerra. Seu papel, além de fazer diretamente peças artísticas falando bem das causa governistas, era viabilizar que filmes pró-americanos tivessem a maior repercussão e financiamento possível.

Nessa mesma época, em 1915 surgiu um pioneiro filme de guerra chamado O nascimento de uma Nação, dirigido por D. W Grifith. A obra foi um sucesso estrondoso de bilheteria, apesar de usar atores brancos pintados de preto para o papel de negros e uma evidente apologia à Ku Klux Klan. No entanto, muito interessante do filme é seu pioneirismo em outra área: foi o primeiro filme a ter consultoria e apoio do West Point, também conhecida como Academia Militar dos Estados Unidos. O exército não só forneceu artilharia, mas deu consultoria para as cenas de guerra, emprestou canhões e soldados e, dada a recepção do filme, não teve nenhum problema com o conteúdo racista e apoio da KKK. Este filme financiou a KKK por muitos anos (3).

Desde então, a colaboração do exército e órgãos governamentais no cinema americano foi enorme. Pautando filmes, utilizando o cinema como potente arma de propaganda das idéias e políticas do governo. O objetivo principal é o uso da credibilidade e “isenção” do cinema e mídia privados para fomentar propagandas pró-sistema,  tentando criar novos conceitos, arraigar existentes, demolir opositores políticos e “subversivos”, criar consensos favoráveis à classe dominante do período, sem no entanto parecer usar a “máquina estatal” para tal, sem dar muito na cara, como falamos dos regimes ditatoriais no post anterior.

A Segunda Guerra reforçou essa aliança. A série de documentários Why We Fight (1942-1945), foi comissionada diretamente pelo governo, usando nada menos que um laureado com o Oscar Frank Capra para dirigi-la, numa tentativa de documentário que ficasse à altura dos de Leni Riefenstahl (4) para a Alemanha Nazista. A série também foi um sucesso.

Num lado mais lúdico, Walt Disney e sua corporação formaram um grande veículo privado para propaganda governamental, desde o Pato Donald explicando a importância de pagar impostos, até o mesmo pato  ridicularizando o nazismo. Num lance mais “sério” temos o Education for Death (Disney, 1943), animação sobre uma criança no regime nazista, de 1943, ambos desenhos bem sombrios para crianças segundo os padrões de hoje.

Junto com Mickey Mouse, Donald é o personagem mais popular da Disney, talvez por isso seja exatamente o desenho que revela um discurso ideológico muito mais marcante, uma representação – as vezes muito clara – da ideologia pró-sistema que quero enfatizar aqui:

Donald trabalha feito um condenado mas está sempre em dívida com o seu Tio, que frequentemente usa este argumento para forçá-lo (chantageá-lo) em alguma aventura de pilhagem e enriquecimento (do Patinhas é claro). Por mais que Donald trabalhe, jamais fica rico, se considera azarado ou não esforçado o suficiente, invejando seu rival Gastão, rico e “sortudo” sobrinho puxa-saco de Patinhas. Há até um clássico underground feito no Chile de Allende, explorando em mais detalhes as sutilezas (ou não) das histórias de Pato Donald e Tio Patinhas na América Latina. Para Ler Pato Donald (1972), ainda que dotado de exageros – um pouco – paranóicos (5), a obra mostra outras nuances profundas do discurso pró-sistema e elitista e vale ser lida.

Ao falar de Disney, não podemos esquecer a enorme presença do discurso conservador típico da direita  WASP (6) norte-americana, a ideologia dominante da produção cultural americana do seu tempo. À exceção de Mulan (1998), todas as princesas/protagonistas Disney são mulheres submissas, dependentes, passivas e alienadas, a espera de um príncipe encantado para mudar de vida, algumas até com Síndrome de Estocolmo, reproduzindo o que há de mais conservador em discurso sobre o papel da mulher na sociedade.

Corações e Mentes

Na história recente, apenas na minha geração, a profusão de filmes com larga presença militar e ideologia pró-americana é tão grande que fica difícil listar todos os filmes, vou colocar apenas alguns mais relevantes na minha lista.

Em Rambo 3 (1988), o exército americano usa um mercenário (Silvester Stallone) para ajudar mujahedins afegãos, conhecidos como Talibãs, retratados no filme como “defensores da liberdade”, para expulsar o imperialismo soviético. O filme faz uso maciço de bases militares, aviões, helicópteros e armamento americano. Lembrando que Bin Laden nesta época, era fiel aliado ocidental. É importante notar que, apesar de ser prática comum na época, o uso de mercernários privados em ações militares “extra-oficiais” era algo ainda mal visto (7).

Top Gun (1986) retrata toda a evolução de dois jovens nas fileiras da Marinha americana, da melhor maneira que Hollywood sabe fazer. É difícil não ver este filme como uma obra de propaganda militar, seu sucesso foi tão grande que a Marinha colocava bancadas de recrutamento na porta do cinema, com grande sucesso (ver documentário Hollywood and The Pentagon: A dangerous Liaison, de 2003).

Independence Day (1996) é um filme sobre invasão alienígena, mas seu discurso e ideologia é extremamente terrestre e não ficcional. É outra obra com largo uso de recursos, consultoria e equipamento militar. Retrata a invasão dos EUA por aliens que querem exterminar a humanidade. O próprio presidente dos EUA é voluntário para entrar num avião e lutar alienígenas, após longo e patriótico discurso. O interessante lembrar é que este é um daqueles filmes onde a bomba atômica salva a humanidade: é um míssil atômico, carregado por um suicida (“mártir”), que termina por destruir a super nave alienígena e salva a América. Guerreiros suicidas ainda não estavam em baixa como nos dias de hoje.

Impacto Profundo (1998), Armaggedon (1998), O núcleo (2003) e Sunshine: Alerta Solar (2007), são filmes, assim como Independence Day, onde a bomba atômica salva a humanidade da aniquilação. Vale lembrar que o produtor de Armaggedon é o mesmo de Top Gun e de Falcão Negro em Perigo (2001), e é o mais propagandístico destes filmes que pervertem o uso da bomba atômica.

Essa inversão do objetivo das coisas, servindo para o seu exato oposto me lembra de Slavoj Zizek e seus argumentos da falta de substância das coisas na pós-modernidade. Café sem cafeína, açúcar light, “invasão de defesa” (só para lembrar de Israel no presente momento), guerra sem vítimas e assim, o uso da maior arma de aniquilação humana já inventada – A bomba atômica – é transformada em sua salvação única, desprovida de seu caráter destruidor, se torna a ponta da lança que aniquila o dragão, a única esperança de defesa e resistência. Qualquer semelhança com George Orwell é mera coincidência. Aniquilação é Salvação.

Em Falcão Negro em Perigo, a resistência somali contra a invasão dos EUA (exército americano sob farda da ONU) durante a sua guerra civil em 1993, é vilanizada e o sangrento massacre em Mogadishiu, transformado num heróico épico de resgate paladínico, com direito a helicóptero tocando “Hell’s Bells” do ACDC. Nada é problematizado, nem o papel dos EUA, nem as intenções dos inimigos, os somalis são todos os bestializados, sem nome e sem importância.

A bestialização do inimigo lembra ainda de outro blockbuster apoiado/financiado pelo exército americano: Invasão do Mundo: A Batalha de Los Angeles (2011). Um filme que se você lembrar que a palavra ALIEN em inglês também se refere à imigrante ilegal, você têm um dos mais conservadores – para não dizer nazistas – filmes norte-americanos. Os inimigos quase invisíveis e indestrutíveis, bestas que vêm de todas as partes, sem valores ou origens identificáveis (como “chicanos” que podem ser desda Bolívia até o México), seu objetivo é apenas destruir a América. Os diálogos do filme são quase de manuais militares e junto Top Gun e Transformers (Michael Bay, 2007), considero os filmes mais apologéticos do exército que tenho notícia.

Nessa discussão toda vale citar primeiro 300 (Zack Snyder, 2006), inspirado no quadrinho de Frank Miller e Transformers (Michael Bay, 2007), baseado no desenho de mesmo nome dos anos 80, brilhantemente analisado por Slavoj Zizek.  Ele inverte a noção comum de que 300 é um filme apologético pró-americano, anti-islâmico (iraniano), militarístico, retratando a supremacia da guerra frente à diplomacia, num heroísmo americano contra a invasão de estrangeiros.

Este filme, para o filósofo, é um filme que retrata uma rica superpotência imperial (Pérsia), com um exército indestrutível, tentando invadir uma pobre região montanhosa habitada por fanáticos. Seus métodos são a intimidação, compra de políticos e figurões e a contratação de mercenários de todas as partes do mundo para formar um exército invasor em terras distantes da sua. A cultura persa é retratada em mostruosidades exóticas, festas promíscuas, com marcante falta de valores e uma moralidade comprável com dinheiro.

Esparta por sua vez é uma nação pequena, com um rei idealista, avesso às politicagens corruptas de interesseiros nobres, ou o misticismo pessimista dos oráculos. Dotado de um pequeno exército, o que lhe resta é a disciplina e a  crença fanática em seus valores e idéias.

Para Zizek a Pérsia É o Imperialismo americano, Xerxes tentando seduzir e corromper os gregos é como um Ronald Reagan tentando seduzir e corromper Sandinistas ou lideranças sauditas. Esparta promete acabar com o misticismo, defendendo um reinado de razão e democracia, no melhor estilo iluminista, contra a barbáries sem valores do mundo Persa. Não foi a toa que os revolucionários comunistas alemães se proclamaram “Liga Espartaquista“, diz.

Apesar de concordar com todos os pontos de Zizek, o filme não foi feito para acadêmicos e pessoas mais interessadas em tramas complexas e reflexão profunda. É um blockbuster de verão. A mensagem que fica para o menos atento, interessado apenas num pipocão de fim de semana para entreter sua monótona vida proletária, é a versão superficial do filme: a supremacia ocidental frente ao barbarismo oriental.

Os inimigos usam turbantes e aparatos exóticos, falam com sotaque ou são ininteligíveis, são infinitos e estão em todo lugar (clássica paranóia direitista contra imigrantes); a política e a diplomacia são corruptas (de ambos os lados), só o exército é virtuoso e dotado de uma verdade que faça sentido. Tanto que o filme repercutiu muito mal no Oriente Médio, com declarações públicas de Ahmadinejad inclusive (9).

Porém, essa clara ambiguidade do filme, talvez demonstre a sutileza apologética do cinema ideológico que eu esteja tentando mostrar, dando razão à narrativa de Zizek: na superfície faz um discurso enquanto a substância do filme é completamente diferente, muitas vezes até oposta à superfície. Algo que torna o filme brilhante.

Prosseguindo.

A série de filmes Transformers por sua vez, é tão propagandística e apologética que faz Alexander Nevsky de Eisenstein parecer uma obra de ficção completamente sem relação com o stalinismo. É um festival de recursos, aparato, discursos e argumentos pró-americanos, de um militarismo gritante. Como Top Gun (10), é  praticamente um vídeo de recrutamento, com direito a um jovem conhecendo uma bela moça enquanto se torna um “soldado a serviço dos Transformers”. Mesmo porque os vídeos oficiais de recrutamento não estão tão longe de um filme hollywoodiano:

Já que estamos falando de super heróis vejamos a – nada subliminar – situação de Homem de Ferro (2008) e a nova série de filmes do Batman (2005-2012). Ambos bilionários enriquecidos com dinheiro da fabricação de armamentos para o Complexo Industrial-Militar norte-americano e ambos auto-proclamados defensores da justiça. A não problematização da sua maneira de enriquecer, ignorando o fato de que qualquer um que saiba minimamente de como se faz dinheiro na indústria de armamentos (11) sabe que não há nada de nobre ou heróico em vender armamentos militares. No pano de fundo é algo como enfatizar a “riqueza é uma virtude por si só” (ver este meme), independente de onde veio o dinheiro.

O Homem de Ferro, no filme Vingadores (2012) ainda reforça a noção que mencionei acima de que a bomba-atômica é a única salvação da humanidade. Quando os heróis e os mercenários pára-estatais da S.H.I.E.L.D falham para conter a invasão alienígena,  Homem de Ferro conduz um míssil atômico até o coração do portal invasor, destruindo-o. Novamente a Bomba Atômica salva a humanidade (ou os EUA).

Já em Batman, especialmente no último filme da série, surge outra pérola de discurso pró-sistema. Batman é um agente pára-militar perseguindo um vilão, líder de excluídos que vivem em esgotos e que querem destruir a ordem vigente. Bane começa tentando destruir a fonte de riqueza dos seus inimigos explodindo a Bolsa de Valores e falindo o Batman. Vale lembrar o diálogo logo no início do filme entre o vilão e um funcionário da Bolsa (12):

Comerciante da Bolsa: “Isso é uma bolsa de valores, não há nada o que roubar”

Bane: “É mesmo?! E o que vocês fazem aqui diariamente?!”

Depois Bane quer destruir uma prisão repleta de “suspeitos” de atos ilícitos contra o regime, presos após o endurecimento de leis especiais “anti-terror”, numa conservadora visão da Queda da Bastilha. Se somarmos com a ridicularização e satanização dos Tribunais de Sentença contra “agentes do sistema” e a liderança de um implacável, incorruptível e “sanguinário” líder, temos já três importantes referências à Revolução Francesa. Bane ainda chama os habitantes de Gotham para tomar as ruas, “cuidar do que lhes pertence”, sem qualquer desmando ou interferência sua, apenas convoca os cidadãos após destruir a força repressiva do Estado (a polícia), numa inspiração “Occupy Wall Street”.

Ao fim, Batman, o bilionário acima da lei, que sempre age quando julga que a lei ou a polícia não estão sendo eficientes,  utilizando todo aparato militar que seu dinheiro pôde comprar, marcha para derrotar Bane e sua revolução. No caminho ainda coopta a Mulher Gato, uma bela ladra e alienada, se junta ao bilionário para destruir a ideologia louca de Bane. O dinheiro sempre vence.

***

Assim, por mais que não seja tão claro como nas ditaduras citadas no post anterior, fica difícil não ver em Hollywood um fundamental braço propagandístico da ideologia do sistema. A sutileza e a máscara de isenção que carrega o torna o mais eficaz instrumento de divulgação da ideologia americana, uma fábrica de influência de corações e mentes em defesa daquilo que querem que seja verdade. Seja nos filmes blockbusters, seja nos jogos de videogame super-vendidos (13), também feitos sob ideologia da Califórnia, Hollywood é a própria expressão do Agitprop do sistema, é a perfeita exemplificação do “Aparelho Ideológico do Estado”. É difícil lembrar de um único blockbuster sem fundamental influência do pensamento hegemônico norte-americano, é a realização elegante do Ministério da Verdade. Aniquilação é Salvação.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/1586468.stm

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Committee_on_Public_Information

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_birth_of_a_nation

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Why_We_Fight

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/White_Anglo-Saxon_Protestant

6 – No nosso post Wikileaks: eu já sabia evidenciamos que a esquerda paranóica não era tão paranóica assim e que muitos dos crimes revelados documentalmente pela Wikileaks e outros vazamentos, como o recente da taxa Libor e do preço do combustível pautado por corporações, revelado pelo Guardian, já eram pregados por quase toda a direita séria há muitos anos, da imensa cartelização até os acordões das classes dominantes econômicas.

7 – Nos anos 90 haviam 50 militares para cada mercenário privado, agora a proporção é 1 para 10 (Peter Singer  IN: http://en.wikipedia.org/wiki/Private_military_company )

8 – In the 1990s there used to be 50 military personnel for every 1 contractor, now the ratio is 10 to 1 (Singer).

9 – http://voices.yahoo.com/iran-condemns-blockbuster-movie-300-as-american-psychological-249323.html?cat=40

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Top_Gun#Involvement_of_the_U.S._military

11 – Um míssil, uma munição ou uma granada, são dos melhores produtos capitalistas. No momento em que são usados não só são consumidos, como destroem coisas que estão no seu caminho. É a obsolência capitalista no seu mais alto grau.

12 – http://www.imdb.com/title/tt1345836/quotes

13 – Em reportagem da Al Jazeera recente, além da promíscua relação cinema-exército, se menciona ainda o universo dos videogames, que vale lembrar apenas o que considero um dos ápices da relação: America’s Army (2007), um jogo totalmente financiado pelo exército americano, sendo um dos primeiros com grande qualidade gráfica totalmente gratuito. Seu objetivo, segundo seu próprio criador era “utilizar da tecnologia computacional para prover ao público uma experiência virtual de um Soldado que fosse envolvente, informativa e divertida” ( http://en.wikipedia.org/wiki/America’s_Army). Vale analisar também a série Call of Duty e Medal of Honour para reforçar o argumento acima.

A miséria da educação

Educação pelo ralo

Em praticamente todo discurso político e toda propaganda eleitoral é a mesma coisa: a educação é um problema sério no Brasil. O tema da educação é o mais repetido e de tão constante pode parecer muitas vezes, vazio de significado. Vazio pois parece descolado da realidade, surgindo apenas como uma “expressão”, um slogan de campanha, uma menção obrigatória na pauta de políticos e especialistas. Para evitar este vazio, começaremos dando uma dimensão real do problema:

Segundo os dados da UNESCO (1) e pesquisa Ibope (2), o Brasil possui 75% de analfabetos funcionais, isto é, 3 em 4 quatro pessoas mal sabem ler, escrever ou calcular. Se considerarmos este método um tanto “subjetivo”, especialmente constatando que variam bastante de acordo com o método utilizado (chegando a apenas 25% segundo o IBGE), podemos então, partir objetivamente para utilização dos parâmetros que muitos países do primeiro mundo usam: considerar analfabeto funcional quem não tem ensino fundamental completo (menos de 9 anos de estudo). Desta maneira, veremos que 50,5% da população brasileira não completou o ensino fundamental (3), isto é, tem menos de 8ª série. Se, sob mesmo critério, extendermos para ensino médio completo, tempos que 64,2% não terminou o segundo grau (3).

E pior, levando em conta o sabido “sol tapado com a peneira” que se mostrou a famigerada aprovação automática (e suas variantes retóricas), um método abominado pela imensa maioria de professores e pedagogos, inventado nos idos neoliberais de Paulo Renato, FHC e cia, com o intuito exclusivo de melhorar as estatísticas brasileiras da educação para a apreciação do FMI e Banco Mundial (4) já que os mesmos exigem metas e modelos educacionais como condicionantes de empréstimos e “boa avaliação” econômica dos países que atuam (naquela balela de Risco Brasil). Isso mesmo, nosso novo sistema educacional foi criado a partir de exigências do mercado financeiro, buscando lastrear a capacidade de pagamento do Estado brasileiro. Assim, é compreensível o dado do INAF 2011-12 (4) que considera que apenas 35% das pessoas com ensino médio completo são plenamente alfabetizadas. Não esqueçamos que isso pode ter até ter sido inventado pelos neobobos nos anos 90, mas em 2010 o MEC ainda dava lenha nesta fogueira de cérebros (5).

Ainda a somar a este hecatombe educacional, temos que menos de 14% dos que cursam o ensino médio estão no técnico (6), pouco mais de 1 milhão por ano, um número ridículo para um país industrial. Este número deveria ser perto de 30-40% (6). No ensino superior podemos ainda ficar pior, encontrando números não muito surpreendentes diante do quadro traçado: calculou-se que 38% de nossos universitários sejam analfabetos funcionais (7) e que a população formada (ensino superior completo) não passe de 8% da população (8), em qualquer idade.

E não! Antes que “os reaça pirem”, o sistema de cotas não tem nada a ver com este quadro. As cotas são assumidamente um sistema paliativo e extremamente necessário para começar a diminuir a incrível desigualdade social e racial deste país e em estudo de 2010 (9), a UERJ demonstrou sua enorme eficácia em quebrar estas barreiras, derrubando preconceito e estigmas. A única ressalva é que se não fizermos nada para mudar a estrutura social deste país, pobre vai continuar pobre, mas com diploma.

Algumas idéias fora de lugar

A questão educacional passa por uma série de fatores não exatamente ligados à metodologia. Aqui faço uma crítica recorrente entre alunos de licenciatura nas mais variadas faculdades: as faculdades de educação parecem ligadas à discutir o sexo dos anjos, ou melhor, “métodos para o professor melhorar o ensino dentro da sala de aula”. A discussão econômico-política, fundamentalmente ligadas à educação brasileira, passam ao largo e são até massacradas como tecnocráticas, stalinistas e etc. Não sejamos radicais economicistas e é óbvio que Piaget, Vigotsky e Freire são leituras fundamentais para um professor, mas que metodologia um professor que ganha equivalente a um operador de xerox (nada pessoal contra operadores de xerox) vai precisar para dominar uma turma numa periferia violenta onde só do aluno estar na escola já é um marco? O que uma educação libertadora fará numa comunidade sem saneamento básico, emprego digno e renda abaixo da linha da miséria? Discutir educação sem discutir distribuição de renda, economia e política é inútil para nossa presente situação.

O que pode fazer um professor esmagado por um sistema que praticamente não o quer ali?

Pressionado por diretores e autoridades a aprovar alunos fracos pois além de boa parte das verbas das escolas estarem condicionadas ao índice de aprovação do Ideb (10), os números precisam ser maquiados para serem usados como palanque de políticos locais e regionais, deixando ao professor uma margem muito restrita para realmente trazer alguma mudança na comunidade onde está inserido. A lógica utilitarista dos idos (ultra)neoliberais se perpetua, onde o mais importante é gerar números do que alterar realmente alguma coisa. Para que mudar a realidade se podemos simplesmente mudar os números?

A carência do sistema educacional brasileiro não é questão de metodologia do professor e é até curioso que muitas faculdades de educação insitam em jogar esta carga toda em cima deste profissional, parecem reforçar opiniões reacionárias de que o ensino é fraco porque os professores são ruins, preguiçosos e que não tem amor pela profissão, como o biltre do governador do Ceará Cid Gomes comentou não tem muito tempo (11).

Se o problema fosse método e técnica dos professores seria facilmente resolvido, pois o que mais tem é gente competente e dedicada nas escolas deste país. O que não falta ao professor brasileiro é amor e superação. Ganhando a miséria que ganham, merecem mesmo é um pedestal (ou será uma cruz?). Não dá para fundar um sistema educacional com professor estadual e municipal ganhando 40% menos que a média nacional para a mesma escolaridade (16).

E em se tratando de alunos, vale lembrar a completa falta de perspectiva e pouca ascensão social que estudar mostrou neste país nas últimas décadas, com leve alteração recente (ainda não solidificada). Não sejamos ingênuos, não é coincidência que 8% da população seja universitária e apenas 22% tenha concluído o ensino médio. A nossa classe A e topo da Classe B correspondem a menos de 10% da população do país e 20% é o tamanho da classe B “média” (13) e (14). E esta relação é sólida há décadas, basta cruzar os índices de analfabetismo com distribuição de renda e veremos a regularidade (15). Além disso, é difícil manter um quadro consistente entre estudantes que precisam também trabalhar desde muito cedo ou cuidar de outros familiares para que irmãos mais velhos e pais trabalhem em tempo integral para sustentar. Nem vale a pena bater no sistema de creches brasileiro, pois ele praticamente inexiste (12). É extremamente difícil para uma família de classe C, D e E manter um aluno no ensino médio exclusivamente estudando.

A renda está fundamentalmente ligada ao nível educacional e não o contrário.

Por muitos anos vivemos com a máxima “a educação é o caminho para uma melhor renda familiar”, mas no Brasil o inverso é muito mais verdadeiro: “a renda familiar é o caminho para uma melhor educação”. Apenas com um esforço pessoal e familiar enorme é que as classes baixas conseguem romper esta barreira e alterar pontualmente este quadro. Ninguém é cretino o suficiente para achar que a competição é igual entre ricos e pobres no sistema educacional.

Mas vamos a mais números.

Se cruzarmos os gastos anuais com educação pública (~162 bilhões anuais, nota 17) e privada (~40 bilhões, nota 18) com a população de jovens entre zero e 25 anos (80 milhões de pessoas, nota 19) temos que o gasto anual por estudante em todos os níveis (creche, fundamental, médio e universitário) é de R$2.525 reais por ano, ou aproximadamente R$210 por mês.

Isto é, por volta de 2010 gastamos em média 1/3 do salário mínimo por mês com nossos estudantes. No mesmo período a média anual européia foi de aproximadamente U$6.500 (R$13.000 anuais, nota 20) ou R$1080 por aluno por mês. Esse é o tamanho da diferença. Não é preciso ser um gênio em políticas educacionais para saber que o problema real está aqui. Não há metodologia revolucionária que tape este buraco; não há financiamento cretino de laptop obsoleto ao professor que tape este buraco (21); não há Stakhanov (23) do ensino ou amor pela profissão que supere isso. É como colocar uma BMW 2012 para correr com um Gol 87 e esperar que o talento do piloto resolva.

O gasto com educação no Brasil é proporcional à necessidade do sistema de castas em que vivemos se manter funcionando.

Um equilíbrio nefasto determinado pelos agentes mais interessados em sua estagnação, numa balança criminosa e destrutiva. O número de universitários e qualificados é apenas o suficiente para construir uma elite dirigente do Estado e dos setores capitalistas que o cercam, para manter o país exatamente nos moldes em que sempre foi: ignorante, extremamente desigual e com um enorme exército de reserva (21) em todas as áreas possíveis. Se um sistema é algo que produz efeitos sistematicamente, o nosso sistema educacional é uma máquina de formação de mão-de-obra pouco qualificada, pouco instruída, subalterna e submissa, pronta para trabalhar por qualquer miséria que seja “o padrão do mercado”.

Não é coincidência que o comando da educação fundamental e média esteja a cargo de municípios e estados, como foi escrito em nossa Constituição. São as elites locais e regionais que dominam econômica e politicamente a educação deste país, elas determinam a eficácia da principal ferramenta para questioná-las politicamente. Não há grandes mistérios e métodos para solucionar o sistema educacional brasileiro. Retire o controle econômico e político da educação das pequenas elites locais, federalizando e unificando todo o sistema educacional nacional, deixando apenas a decisão curricular para cada organização regional de professores e educadores. Para acabar com a Casa Grande, só tirando a chave da biblioteca das mãos dela.

Leandro Dias

Notas:

(1) http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=700

(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Analfabetismo_funcional

(3) http://noticias.r7.com/educacao/noticias/metade-da-populacao-nunca-estudou-ou-tem-ensino-fundamental-incompleto-no-brasil-20120427.html

(4) http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-07-17/menos-de-30-dos-brasileiros-sao-plenamente-alfabetizados-diz-pesquisa

(5) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,aprovacao-automatica,558494,0.htm

(6) http://www.ifb.edu.br/planaltina/noticias/3792-ensino-tecnico-desperta-interesse-de-alunos-e-qualifica-mao-de-obra

(7) http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=444534

(8) http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1082213-aumenta-o-numero-de-brasileiros-com-ensino-superior-completo.shtml

(9) http://oglobo.globo.com/educacao/primeiro-grande-estudo-sobre-sistema-de-acoes-afirmativas-da-uerj-pioneiro-no-pais-mostra-2997559

(10) http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/23710/educacao-no-pais-avanca-mas-aluno-aprende-pouco/

(11)  http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/ce/professor+deve+trabalhar+por+amor+nao+por+dinheiro+diz+cid/n1597184673225.html

(12) http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/12891/brasil-deve-triplicar-numero-de-matriculas-em-creches-para-atingir-meta-do-pne

(13) http://www1.folha.uol.com.br/poder/935502-classe-c-e-a-unica-que-continua-a-crescer-aponta-fgv.shtml

(14) http://www.abep.org/novo/Utils/FileGenerate.ashx?id=197

(15) http://www.ufjf.br/ladem/2012/02/24/analfabetismo-no-brasil-evidencia-desigualdades-sociais-historicas/

(16) http://educacao.uol.com.br/noticias/2010/12/15/professor-ganha-40-menos-que-media-do-trabalhador-brasileiro-com-mesma-escolaridade.htm

(17) http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,-gastos-do-brasil-com-educacao-nao-sao-suficientes-para-atingir-metas-diz-ipea-,810843,0.htm

(18) http://www.sinpro-rs.org.br/idiomas/noticias.asp?id_noticia=831&key_noticia=5Z47JCPF74hTY8Fjq4SI

(19) http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=12&uf=00

(20) http://epp.eurostat.ec.europa.eu/statistics_explained/index.php?title=File:Expenditure_on_educational_institutions,_2004_and_2009_(1).png

(21) http://governo-sp.jusbrasil.com.br/noticias/145629/financiamento-de-laptop-a-professor-comeca-na-segunda

(22) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ex%C3%A9rcito_industrial_de_reserva

(23) http://pt.wikipedia.org/wiki/Stakhanovismo