Rio Revolta

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Vigilância e Subversão

Símbolo do Information Awareness Office: “Conhecimento é poder”.

Há um história, provavelmente apócrifa, que conta a conversa entre o chanceler Otto von Bismarck e Guilherme II, kaiser alemão, sobre a construção rápida de ferrovias pelo país à época recentemente unificado. Apesar de interessado no progresso industrial e econômico que as ferrovias traziam, Guilherme estaria preocupado com a integração dos movimentos operários e a facilidade de contato entre trabalhadores das mais diversas regiões do país, que possibilitaria a unificação de campanhas republicanas e socialistas contra seu poder semi-absoluto recém conquistado. “Trens podem carregar muitos subversivos”, argumentava. O kaiser sabia que as ferrovias catalisaram as convulsões sociais francesas (WEBER, 1976; HOBSBAWM, 2009), especialmente a mais radical delas, a Comuna de Paris de 1871, e seu temor era de que fizessem o mesmo na Alemanha. Bismarck, porém, no melhor estilo realpolitik, teria convencido o imperador: “Trens também transportam muitas tropas”.

A discussão desses notáveis, apócrifa ou não, é altamente relevante nos dias de hoje.

Muito se tem debatido sobre o papel político da internet e das redes sociais não apenas nas relações comerciais e diplomáticas entre nações, mas também, e sobretudo, nos inúmeros levantes populares que vêm se propagando no mundo, dos protestos na Turquia, aos Indignados espanhóis, ou os Occupy por todo os EUA (especialmente na Califórnia), até as jornadas de junho no Brasil em 2013, passando é claro pelo massivo protesto no Egito e pelo recente Euromaidan na Ucrânia. Do ponto de vista da ordem estabelecida – independente de sua ideologia -, a “subversão” de fato se propaga de maneira muito rápida pela Internet, permitindo a convergência de bandeiras e demandas de regiões antes bastante distintas e a desmistificação da crescente propaganda governamental e corporativa e das manipulações grosseiras da mídia mainstream imediatamente após seu lançamento, transformando as redes sociais em um verdadeiro catalisador de pautas e núcleos descontentes. Como se viabilizasse a formação de uma “cauda longa” de inquietude, a internet e as redes sociais transformam minoriais invisíveis em núcleos autônomos interdependentes dos quais se propagam ondas de protestos e demonstrações públicas antes encabeçadas apenas por organizações tradicionais (partidos, sindicatos, igreja, associação de moradores e etc.) que, por sua natureza, precisam de mais tempo e recursos para propagar suas ideias. Hoje, como demonstrou o Mídia Ninja e suas inúmeras variáveis, basta um celular na mão e um computador com internet e qualquer um pode dar notícias em tempo real, quebrando o monopólio da informação oficial e corporativa.

Entretanto, se parece facilitar a organização de pessoas fora dos meios tradicionais, o “fenomeno Facebook” parece não demonstrar efeitos duradouros se não estiver associado a alguma organização tradicional. Muitas vezes formados tão rapidamente quanto flashmobs os movimentos “Facebookianos” podem ser também, como estes, igualmente efêmeros e superficiais. Observando a grande manifestação “cívica” do dia 20 de Junho de 2013, percebe-se que as milhares de pessoas que tomaram as ruas do país – cada uma com seu cartaz de protesto, com as mais variadas reinvindicações que, sem coesão ou consenso, mais pareciam um mar de reclamações individualizadas – transformaram a resposta aos críticos do “ativismo de sofá” (“saímos do Facebook”, diziam) numa paródia dela mesmo: não foram as pessoas que saíram do Facebook e foram para as ruas, mas o “mural” do Facebook que foi para as ruas com as pessoas. Transformando o protesto como fim e não como meio, apenas como forma de inserção social e participação política inócua. Seu vazio pode levar a extremas conclusões, como aponta Malcolm Caldwell: “Se antes os ativistas eram definidos por suas causas, agora são definidos pelas ferramentas que empregam. Os guerreiros do Facebook entram na internet para pressionar por mudanças” (CALDWELL, 2010). O objetivo é irrelevante, o importante é protestar.

Se as redes sociais realmente facilitam a “organização subversiva”, o fazem de maneira superficial. Malcolm Caldwell, já citado, tenta encontrar explicações para a fraqueza destes movimentos a partir dos vínculos sociais que estabelecem e do alto risco envolvido em suas questões:

(…) na verdade, [a rede social] não passa de uma forma de organização que favorece as conexões de vínculo fraco que nos dão acesso a informações, em detrimento das conexões de vínculo forte que nos ajudam a perseverar diante do perigo.

Transfere nossas energias das entidades que promovem atividades estratégicas e disciplinadas para aquelas que promovem flexibilidade e adaptabilidade. Torna mais fácil aos ativistas se expressarem e, mais difícil, que essa expressão tenha algum impacto.

As relações de vínculos fracos, isto é, fromadas através de redes sociais, comunidades online, fóruns, salas de bate papo, Facebook, Twitter e etc, são essencialmente efêmeros em seu resultado político concreto pois são construídos a partir de indivíduos atomizados em seus computadores pessoais, isolados em suas preferencias individuais e, ao contrário de qualquer organização política tradicional, não possuem um programa identificável, estratégias definidas ou metas traçadas, seu único ponto comum é um descontentamento com o status quo. Como já apontava Rosa Luxemburg há mais de cem anos, a “espontaneidade das massas” por si só, sem construção de um movimento coeso através de uma organização ou partido orgânico, é um esforço inócuo.

A fraqueza política da típica “manifestação facebookiana” é principalmente ligada à falta de substância e profundidade de seus objetivos e especialmente, a rejeição das organizações sociais tradicionais. Os Indignados espanhóis continuam permanemente indignados sem qualquer esboço de modificação da calamitosa situação espanhola, apesar de regularmente reunirem centenas de milhares pessoas; o Occupy Oakland (EUA), por exemplo, com sua imensa articulação tem como sua grande conquista forçar um abrandamento da repressão e indenização para meia dúzia de espancados pela polícia – mas, fora isso, não obteve qualquer resultado real (FRANK, 2012). No Egito, se podemos atribuir à internet a facilidade de divulgação das manifestações, o resultado é ainda mais catastrófico: milhões seguidamente nas ruas para levar ao poder exatamente o mesmo exército e forças econômicas que geraram a indignação em primeiro lugar.

Por outro lado, as organizações políticas de vínculo forte, chamadas de “tradicionais”, como igrejas enraizadas em suas comunidades; sindicatos organicos (e não os “pelegos” cooptados por patrões) ou mesmo entidades políticas pequenas mas coesas (associação de moradores, agremiação estudantil ou grupos de vítimas de um determinado crime), têm sua força pois estão diretamente ligadas a questões fundamentais na vida de seus membros, refletem questões sobre seu emprego (sindicato), sobre seu bairro (associação de moradores), sobre a cultura tradicional de uma região (igreja) e até sobre traumas comuns (organização de vítimas de um crime). Além disso, a atuação política destes três exemplos, independentes de sua vertente ideológica e por mais que tenham seus inúmeros problemas, são baseadas na disciplina, objetividade e num escopo concreto de ideias. A organização e disciplina das “Mães da Plaza de Mayo” na Argentina foi fundamental para o início da “revisão” dos anos de chumbo da ditadura argentina e prisão de seus responsáveis. A disciplina dos seguidores de Martin Luther King ou Malcolm X, muito antes de qualquer “rede social” foi fator preponderante na conquista dos direitos civis do movimento negro norte-americano.

Porém, se é verdade que as manifestações construídas via redes sociais estabelecem vínculos fracos e efêmeros sem consequencias políticas duradouras e abrangentes, é no entanto, inegável que uma vez combinadas a objetividade e coesão de idéias das “formas tradicionais” com o potencial difusor de ideias das redes sociais, a internet se transforma numa ferramenta poderosíssima de transformação social.

O melhor e mais recente exemplo disso foi o desenrolar da paralisação dos garis durante o carnaval do Rio de Janeiro em 2014. Apesar de ter sido realizada à revelia do sindicato da categoria, que se revelou totalmente descolado de sua base, seguiu o modelo tradicional de organização e ação sindical: greve, reivindicações claras e negociação a partir de lideranças estabelecidas pelos afetados e com alto poder de barganha. Criou-se pois, um sindicato orgânico dentro do próprio sindicato pelego. Por sua vez, a divulgação maciça nas redes sociais, somada ao momento certo da ação política, inflou grandemente o poder de negociação dos garis e foi fundamental para a vitória do movimento. E não seria difícil crer que, não fosse a divulgação em redes sociais, as conquistas do movimento teriam sido pífias como foram anteriormente e a escolta policial forçando os garis a trabalhar durante a greve, remontando capitães-do-mato de triste lembrança, teria passada desapercebida pelo grande público, não gerando o grande constrangimento que gerou.

Embora autores como Caldwell ou Thomas Frank tentem colocar nossos pés no chão e diminuir o entusiasmo pelas redes sociais, são notáveis os desconfortos políticos e constrangimentos públicos que as mesmas trazem para o poder estabelecido, seja para corporações que anteriormente tinham suas ações escondidas nos bastidores do poder e que agora ficam cada vez mais visíveis (o que, por exemplo, gera um crescente apelo para retirada de patrocínios privados a campanhas políticas), seja para governos, evidenciando a dificuldade do poder estabelecido de lidar com segredos de Estado e também com manifestações-relâmpago ou semi-espontâneas. Estamos falando da articulação e divulgação conseguida por ativistas como o Yes Men, constrangendo as relações de poder entre corporações e poder político, bem como, evidentemente, da sucessão interminável de “bombas jornalísticas” que a Wikileaks soltou para o público na internet, que precipitou inclusive a retirada de tropas oficiais do Iraque e transformou Julian Assange no mais importante prisioneiro político de nossa época. Em plena Inglaterra! Também estamos falando dos difusos “black blocs” que se reorganizam cada vez que suas comunidades virtuais são fechadas; e dos eventos de grande impacto social, ainda que pouco articulados politicamente, chamados de “rolezinhos” nos shoppings de elite pelo país, expondo mais uma vez o grotesco racismo e preconceito de classe de nossas elites dominantes e sua realidade virtual de consumo que sequer concebem que os “subalternos” possam ter a mesma lógica consumista que eles.

Enfim, se de fato as redes sociais constituem poderosa ferramenta de articulação de “subversivos”, de desmistificação da “palavra oficial” e do marketing corporativo, especialmente se trabalhada a partir de núcleos e estratégias tradicionais de ativismo. Se isso é verdade como parece, deveríamos ter uma visão otimista dessas mídias, como figuras importantes como Pierre Levy, Chris Anderson (autor de A Cauda Longa) e Clay Shirk (autor de Here Comes Everybody)?

Deveríamos mesmo compartilhar deste entusiasmo e nos deslumbrar com as maravilhas da tecnologia numa nova fase de justiça, transparência e organização social, sem antes nos perguntar: Afinal, o “trem virtual” também carrega tropas?

Neste sentido, é comum encontrarmos entusiastas da internet e das redes sociais que acreditam que a rede surge como uma ferramenta de emancipação do homem, através de sua capacidade de conexão entre as pessoas, pautas e idéias, e argumentam que a mesma está sendo “roubada” por governos autoritários, por corporações inescrupulosas e por oportunistas visando o lucro, destinando os evidentes benefícios da internet apenas para o controle e sustentação de governos espúrios e lucro privado de corporações, que a nobreza da internet está sendo vilipendiada pela vileza do capitalismo moderno.

As importantes revelações feitas pela Wikileaks, especialmente a partir do caso do cabo Chelsea Manning (Bradley Mannig) que deu publicidade aos enormes crimes de guerra do exército americano, assim como com as revelações do espião fugido Edward Snowden sobre a sistemática espionagem do governo americano sobre seus cidadãos e de outros países, revelando um aparato de controle e investigação jamais imaginado antes, podem dar reforço a essa argumentação de que “internet estar sendo roubada por governos controladores e corporações oportunistas”. Porém, devemos nos perguntar: seria isso mesmo?

É importante lembrar que a internet surge diretamente associada com o sistema de defesa dos EUA. Seja o SAGE, o ARPANET ou o ICN, é evidente a função militar original da rede. A integração que estas redes buscavam era a integração de núcleos de informação governamental, de laboratórios do departamento de defesa, do sistema de radar e balístico, enfim, tudo que pudesse melhorar a vigilância e a defesa nacional. Foram precisos pelo menos 40 anos restritas as primeiras redes militares e acadêmicas, para surgir a World Wide Web (sistema www) que a internet poderia ser classificada como propriamente “não-militar”.

Da mesma maneira que os grandes aviões bombardeiros deram origem aos aviões comerciais de passageiros, os sistemas de vigilância deram lugar a internet comercial pública. Porém, é importante frisar que, da mesma forma que os aviões bombardeiros continuam sendo fabricados, alguns custando dois bilhões de dólares a unidade, a internet continua como poderosíssima ferramenta militar, apesar de seu largo uso civil. Portanto, observando essa natureza das redes sociais para além das teorias de conspiração, que as colocam como obra direta do Information Awareness Office dos EUA e de seu filhote a NSA (Agência Nacional de Segurança), é factível crer que as mesmas “estão aptas a tornar a ordem social existente mais eficiente. Não são inimigos naturais do status quo” (Caldwell, op. cit). E, como os documentos de Edward Snowden comprovaram, independentemente da sua origem, as redes sociais (Google, Yahoo, Facebook, e etc) trabalham também a serviço de um sistema de vigilância e defesa do governo dos EUA. ”Sem aviso ou debate público, a administração [governamental] tem trabalhado na criação da maior base de dados e sistema computacional do mundo, com a habilidade de rastrear toda compra em cartão de crédito, reserva de viagens, tratamento médico e transações comuns de todo cidadão nos Estados Unidos (TURLEY, 2002). Investigando e controlando as ações de milhões de seus usuários, o maior sistema de observação já realizado faz a vigilância do Grande Irmão do livro 1984, de George Orwell, parecer uma peça obsoleta de museu.

Portanto, não temos que pensar que governos autoritários e paranóicos, associados com empresas inescrupulosas de informação e internet, estão roubando-a da população. A internet nunca deixou de ser um sistema de vigilância e segurança nacional, e tudo o que se faz nela não é apesar da vigilância, mas exatamente por causa dela. Assim, cabem às presentes e futuras organizações sociais que buscam um mundo mais justo, aperfeiçoar os históricos métodos de ação política com as modernas ferramentas online, renovando a prática, aperfeiçoando antigas e novas teorias, a fim de superar a enorme vigilância e opressão corporativa e estatal.

Leandro Dias

revisado por Carolina Dias
*Artigo originalmente publicado no Pragmatismo Político

REFERÊNCIAS

CALDWELL, Malcolm. A Revolução não será twittada. Observatório da Imprensa, n. 620, [on-line] 14/12/2010. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a-revolucao-nao-sera-tuitada. Acesso em 12 abr. 2014.

FRANK, Thomas. Quando a teoria torna a prática delirante. Le Monde Brasil, [on-line] 2012. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1330. Acesso em 13 abr. 2014.

HOBSBAWN, Eric. A Era das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.

LUXEMBURG, Rosa. The mass strike. Rosa Luxemburg Internet Archive, [on-line] 1999, Disponível em http://www.marxists.org/archive/luxemburg/1906/mass-strike/index.htm. Acesso em 13 abr. 2014.

WEBER, Eugen. Peasants into Frenchmen. Stanford, Stanford Press, 1976.

TURLEY, Jonathan. George Bush’s Big Brother. Los Angeles Times, [on-line] 17/11/2002. Disponível em: http://articles.latimes.com/2002/nov/17/opinion/oe-turley17. Acesso em 12 abr. 2014.

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Hitler e o Socialismo

Hitler socializando com companheiros.

Em um dos mais repercutidos textos aqui do Rio Revolta, levantamos uma coleção de citações de Adolf Hitler sobre o marxismo. A finalidade, mais uma vez, era traçar um fundamental corte na posição que tenta colocar o nazismo como uma vertente do marxismo. As citações de Hitler naquele texto vieram ilustrar, com as palavras do referido, como o líder nazista tinha profundo asco da ideologia e visão de mundo marxista.

Porém, se esse asco de Hitler por Marx é inegável da a infinidade de citações no tema, ainda reside uma questão fundamental no caso. Afinal, se certamente Hitler odiava o marxismo, por que então ele regularmente se afirmava um socialista?

Para responder esta questão precisamos reafirmar o óbvio: o marxismo é uma tradição socialista, mas não é a única. Precisamos sair da dicotomia primária e inútil – “socialismo x capitalismo” – que corrói tanto a esquerda quanto a direita, e afirmar, com base no estudo histórico e econômico, que assim como Hitler, o próprio Marx identificou uma série de tipos de socialismo no seu tempo. O terceiro capítulo inteiro do Manifesto Comunista, chamado Literatura Socialista e Comunista, é dedicado a identificação dos outros tipos de socialismo e porque, segundo ele, estes modelos de socialismo estão condenados ao fracasso. Esta parte do seu livro-panfleto parece até hoje não ter entrado na cabeça de muitos dos seus leitores, na esquerda ou na direita.

Assim, para identificarmos os diversos tipos de socialismos existentes, faz-se importante dar uma rápida passada neste capítulo do Manifesto Comunista e acrescentar o que for relevante aos dias de hoje. Assim temos como tipos identificáveis de socialismo:

1. O socialismo feudal: é o socialismo que pretende voltar as relações sociais pré-capitalistas, buscando superar os problemas sociais gerados pelo mundo burguês, retornando à sociedade patriarcal e hierárquica do Ancien Regime. Caminhando junto com o socialismo cristão, superaria através da caridade e relações entre senhor, vassalo e camponês uma sociedade harmoniosa onde todos têm o seu lugar divinamente estabelecidos, não havendo espaço para o individualismo burguês e proletário. Ainda hoje o Socialismo Cristão tem importantes núcleos pelo mundo, tentando superar as agruras capitalistas através da solidariedade, trabalho voluntário e políticas estatais assistencialistas. O Papa Francisco poderia ser considerado um proeminente membro do Socialismo Cristão.

2. O socialismo pequeno-burguês: formado por pequenos proprietários urbanos (pequeno-burgueses), artesãos e pequenos camponeses. Ora ameaçados de proletarização pela concorrência com a grande indústria e esmagados pelos grandes proprietários rurais, estes socialistas reconheceram os problemas da sociedade burguesa e do feudalismo anterior, mas sua solução era simplesmente criar meios para evitar o inevitável: seu negócio/propriedade ser destruído pela concorrência com os grandes capitalistas e proprietários. “Para a manufatura, o regime corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal [familiar]”. Essa vertente socialista existe até os dias de hoje em alguns lugares do mundo e, com menor ou maior grau, consegue proteger a pequena propriedade urbana e rural da concorrência do grande capital através de impostos, taxações diferenciadas, regimes especiais (métodos inexistentes na época de Marx) e medidas muitas delas elaboradas por não socialistas como Otto Von Bismarck (criador das pensões públicas de aposentadoria) e John Maynard Keynes. Com Keynes, nos anos 1920 e 30, esta vertente ganhou importante embasamento teórico e aplicação econômica, permanecendo até hoje como alternativa capitalista ao liberalismo selvagem. Porém, com o imenso poder adquirido pelo grande capitalismo e subsequente concentração de propriedade e renda nos últimos 30 anos, essa vertente, como solução sistêmica, apesar de nos presentear com figuras incríveis como Pepe Mujica, cada vez mais, beira a utopia.

3. O socialismo Alemão ou o “verdadeiro” socialismo”. Essa é a mais importante passagem para nossa comparação com Hitler e o nazismo, pois toca em pontos fundamentais da seperação entre o “socialismo alemão” (que se auto-proclamava “socialismo verdadeiro”) e o socialismo de Marx (chamado hoje de marxismo). Para este, o “socialismo alemão” era uma versão do socialismo pequeno burguês, mas mais radical. Para estes socialistas, dizia o autor: “a supremacia industrial e apolítica da burguesia ameaça a pequena burguesia de destruição certa, de um lado, pela concentração de capitais, de outro, pelo desenvolvimento de um proletariado revolucionário. O verdadeiro socialismo pareceu aos pequenos burgues como uma arma capaz de aniquilar esses dois inimigos. Propagou-se como uma epidemia”. (MC, cap. III, pág. 54).

Marx prossegue em trecho ainda mais importante:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes. Com poucas exceções, todas as pretensas publicações socialistas ou comunistas que circulavam na Alemanha pertencem a esta imunda e enervante literatura.” (MC, cap III, pag 54-55, grifo nosso).

Voltaremos neste ponto mais adiante.

4. O socialismo conservador ou burguês: “uma parte da burguesia procura remediar os males sociais com o fim de consolidar a sociedade burguesa” (MC, cap III, pag 55). Com esta frase Marx abre o trecho sobre o socialismo conservador. Para Marx, “os socialistas burgueses querem as condições de vida da sociedade moderna, sem as lutas e os perigos que dela decorrem”. É ao mesmo tempo o socialismo reformista e o social-liberalismo, que buscam transformar as condições de vida material dos trabalhadores, sem no entanto mexer nas relações burguesas de produção.

No fundo, querem apenas reformas administrativas que acabam por fim, aprofundando o domínio burguês da sociedade. “Livre câmbio, no interesse da classe operária! Tarifas protetoras, no interesse da classe operária! Prisões celulares no interesse da classe operária!”. Enfim, “os burgueses são burgueses – no interesse da classe operária” (MC, cap III, pag 57). Soa quase como anedota, mas hoje ainda vemos isso de maneira evidente no Brasil: “Subsídios às montadoras, no interesse dos trabalhadores”. “Desoneração de grandes fortunas, no interesse dos trabalhadores!”. Afinal, é preciso crescer o bolo para depois reparti-lo ou dar migalhas para os trabalhadores. Usando o critério de Marx seria a vertente mais comum do socialismo hoje e de tão cretina que nos soa hoje, poucos que usam deste colorário têm a cara de pau de se intitularem socialistas.

5. O socialismo utópico: Marx coloca nesta categoria todos os socialistas que se atém mais a escrever sobre uma sociedade futura ideal perfeita, do que a pensar a analisar as reais condições que geraram a sociedade presente e como não reproduzi-las novamente. Ele diz:

“[sonham] com a realização experimental de suas utopias sociais: estabelecimento de falanstérios isolados, criação de colônias no interior, fundação de uma pequena Icária, edição de uma nova Jerusalém e, para dar realidade a todos esses castelos de ar, vêem-se obrigados a apelar para os bons sentimentos e os cofres dos filantropos burgueses”.

Nesta categoria, atualmente entrariam desde os que pensam em refundar uma sociedade hippie isolada, ou nos que vêem idilicamente uma sociedade tribal emulando uma sociedade indígena idealizada ou em alguns com pretensões mais elaboradas, o movimento Zeitgeist todo.

6. Por fim, apesar de Marx colocar o socialismo libertário pejorativamente como socialismo utópico, a tradição socialista libertária, também conhecida como “anarquismo”, ainda é bem representativa e foi responsável por grandes momentos da história dos trabalhadores brasileiros. As greves de 1917 (São Paulo)1918 (Rio de Janeiro), conseguiu feitos sem precedentes no país, sendo pouco depois esmagada com violência. E ainda, vários anarquistas participaram da fundação do Partido Comunista Brasileiro, apesar das fortes divergências que as duas correntes sempre tiveram (para curiosos, vale ler os debates entre Marx e Bakunin). Além disso, há uma forte influência anarquista na fundação da cultura cooperativista também no Brasil, mas fundamentalmente na Espanha, Itália e Alemanha.

***

Enfim, para qualquer olhar mais atento é óbvio que existem várias vertentes de socialismo não marxistas. Marx dedicou bastante do seu tempo a criticar estes socialismos que via como fadados ao fracasso ou ao embuste e enganação dos trabalhadores, causa que ele defendia. Qual causa exatamente? Acabar com a alienação do trabalhador provocada pelo regime assalariado, no qual o trabalhador vê horas de seu tempo e trabalho roubados (mais-valia) para gerar lucros para a classe parasítica, o burguês.

Mas voltemos então a questão do socialismo de Hitler.

O socialismo em Hitler

É incrível notarmos como Marx consegue descrever muito bem o tipo do socialismo reacionário dos fascistas e apontar com antescedência em torno de 70 anos, o cerne e o embuste do socialismo dos fascistas. Repetirei sua citação para entendermos melhor:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes.” (MC, cap III, pag 55)

 Ora, não era exatamente este o discurso fascista? A causa nacional está acima das mesquinhas lutas de classe e interesses individualistas dos burgueses e dos trabalhadores. “Alemanha acima de tudo”. O alemão é o filisteu ideal, a nação alemã a ideal e superior. Portanto, não é preciso fazer qualquer “rocambole explicativo”, usar fontes duvidosas ou falaciosas de fanáticos marxistas, ou usar retórica escapista para encontrar o distanciamento evidente entre nazismo e marxismo. Antes mesmo do fascismo existir per se, Marx já repudiava a base teórica e cultural do socialismo pequeno-burguês radical e nacionalista de onde o fascismo alemão surgiu e que, na visão dele, era uma “imunda e enervante literatura”. Hitler não poderia resumir melhor esse argumento:

“Quem quer que esteja preparado para fazer da causa nacional a sua própria, em tal extensão que saiba não haver maior ideal que a prosperidade de sua pátria; quem quer que haja compreendido nosso estupendo hino nacional, “Deustchland über Alles”, para significar que nada neste vasto mundo ultrapassa, a seus olhos, a Alemanha, povo e terra – esse homem é um socialista” (HITLER, Adolf IN: Hitler Reden, citado por William Shirer, opus cit. pg. 139)

O historiador Peter Gay vai buscar lá no século XVIII as origens deste socialismo autoritário alemão, típico do fascismo e nos revela com mais clareza quais as características deste socialismo:

“A luta de classes é tolice, e a Revolução Alemã, produto da teoria, é tolice também. O instinto alemão, que, arraigado no sangue é verídico, vê as coisas diferente: ‘O poder pertence a todos. O indivíduo o serve. O todo é soberano. O rei é apenas o primeiro servo de seu estado. (Frederico, o Grande) -. Todos têm o seu lugar. Existem comandos e obediência. Assim, desde o século XVIII, vinha sendo o socialismo autoritário – autoritativer – em essência antiliberal e antidemocrático – isto é, se pensarmos no liberalismo inglês ou na democracia francesa”. O alemão verdadeiro deve reconhecer as necessidades do momento e a, submisso a elas, deve transformar o socialismo do século XVIII em socialismo autoritário do século XX. ‘Juntos, prussianos e socialistas erguem-se contra o inglês dentro de nós contra a visão do mundo que penetrou em toda a existência de nosso povo, paralisou-o, e roubou-lhe a alma’. A única salvação está no ‘socialismo prussiano’; aí estão a busca […] pela comunidade e a liderança, na linguagem dos acampamentos dos oficiais”. (Gay, 1978, pg. 103).

Podemos ainda, voltando em Marx, buscar sua contundente crítica ao populismo bonapartista, típico de ditadores bem posteriores, do discurso que viria a ser largamente utilizado por fascistas no mundo inteiro para movimentar sociedades contra o comunismo (marxismo). No 18 Brumário de Bonaparte, Marx escreve:

“Durante o mês de junho todas as classes e partidos se haviam congregado no partido da ordem, contra a classe proletária, considerada como o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Tinham “salvo” a sociedade dos “inimigos da sociedade”. Tinham dado como senhas a seu exércitos as palavras de ordem da velha sociedade – “propriedade, família, religião, ordem – e proclamado aos cruzados da contra-revolução: “Sob este signo Vencerás”. A partir desse instante, tão logo um dos numerosos partidos que se haviam congregado sob esse signo contra os insurretos de junho tenta assenhorear-se do campo de batalha revolucionário em seu próprio interesse de classe, sucumbe ante o grito: “Propriedade, família religião, ordem.” A sociedade é salva tantas vezes quantas se contrai o círculo de seus dominadores e um interesse mais exclusivo se impõe ao mais amplo. Toda reivindicação ainda que da mais elementar reforma financeira burguesa, do liberalismo mais corriqueiro, do republicanismo mais formal, da democracia mais superficial, é simultaneamente castigada como um “atentado à sociedade” e estigmatizada como “socialismo”. E, finalmente, os próprios pontífices da “religião e da ordem” são derrubados a pontapés de seus trípodes píticos, arrancados de seus leitos na calada da noite, atirados em carros celulares, lançados em masmorras ou mandados para o exílio; seu templo é totalmente arrasado, suas bocas trançadas, suas penas quebradas, sua lei reduzida a frangalhos em nome da religião, da propriedade, da família e da ordem. Os burgueses fanáticos pela ordem são mortos a tiros nas sacadas de suas janelas por bandos de soldados embriagados, a santidade dos seu lares é profanada, e suas casas são bombardeadas como diversão em nome da propriedade, da família, da religião e da ordem.” (18 Brumário, pág. 36 e 37)

Ainda poderíamos usar este exemplo do 18 Brumário para a própria trajetória dos nazistas. Que com apoio de variados setores sociais, de burgueses e pequeno-burgueses, em nome dos principais valores tradicionais reacionários, da “verdadeira” família alemã, contra o “comunismo”, obteve apoio de vários setores sociais para depois, após a Noite das Facas Longas, esmagar industriais não alinhados (principalmente os que estavam envolvidos com a prisão de Hitler 12 anos antes), esmagar comunistas, socialistas (social-democratas da época) e condenar milhares de alemães à ruína em nome da Alemanha “ideal”.

Porém, isso tudo não parece suficiente para os que associam marxismo e nazismo. Entre vários outras tentativas superficiais, uma que parece recorrente é a utilização de uma citação de Hitler, encontrada na sua enorme biografia escrita por John Toland. A citação seria supostamente retirada de um discurso de 1 de Maio de 1927 e segue assim:

“Nos somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista de exploração dos economicamente fracos, com salários injustos, com a inadequada avaliação do ser humano de acordo com sua riqueza e propriedade ao invés da responsabilidade e da performance, e nós todos estamos determinados a destruir este sistema sob todas as condições” (John Toland, Hitler, p 224 – em inglês).

No entanto, se formos no original alemão, encontrado na compilação de discursos “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933“, onde temos mais de 10 fontes primárias (jornais da época) para o referido discurso, não encontraremos qualquer passagem semelhante a esta. E é incrível como Toland, jornalista prêmio Pullitzer, pôde ter errado essa importante citação. Se tivesse sido atribuída a nazistas anti-hitleristas como Otto Strasser, seria mais compreensível, ainda mais pela época (1927). Mas Hitler jamais diria algo assim. John Lucaks, autor conservador e anti-marxista do livro “O Hitler da História” (1997) afirma que John Toland inventou muitos trechos de seu livro, talvez este seja um dos casos. Enfim, para nossa argumentação aqui é apenas mais um reforço.

Além disso é comum aos associadores do nazismo com o marxismo, demonstrarem com a moeda comemorativa do Dia do Trabalho de 1934, onde figura uma água nazista com a foice e o martelo em cada lado, inegável associação do nazismo com o comunismo. Oras, uma águia com uma foice e um martelo é exatamente a cota de armas da Áustria (Primeira República 1919), e o país era alvo de intensa propaganda pró-nazista em 34 e Hitler já planejava o golpe naquela país, mas seu líder, o austrofascista Dollfuss era absolutamente anti-nazista. A comparação entre os dois está na foto abaixo:

Moeda do Trabalho e heráldica nazista.

Moeda do Trabalho e heráldica austríaca de 1919.

Vale lembrar, até para melhor entender o próprio símbolo da Áustria fora de qualquer contexto comunista, que a foice e o martelo já eram símbolos representando o trabalho do campo e a cidade há certo tempo. Essa é a mesma república austríaca que tinha Ludwig von Mises como principal conselheiro econômico do austrofascismo (1932-34). Assim para longe do simplismo panfletário anti-comunista, a foice para representar o campo está presente em diversos brasões europeus ainda na Idade Média. O martelo como símbolo do trabalho também já era mais do que popular e também podia se encontrar isolado ou combinado com a picareta. Talvez assim se explique o uso do símbolo pela Áustria e também pelos nazistas, já que nem todos os partidos comunistas usavam a foice e o martelo como símbolo. Além disso, vale lembrar também a célebre passagem de Hitler sobre a simbologia adotada:

Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente. (HITLER, Minha Luta, pag. 361)

Como mestre da propaganda e da oratória, as referências que Hitler faz tinham finalidade explícita: confundir e induzir ingênuos e curiosos de esquerda a frequentar as assembleias e eventos nazistas. Neste sentido, Hitler foi um dos pioneiros do marketing político e do discurso populista moderno. Assim, como Marx já denunciava em 1848, muitos alemães caíram no embuste do socialismo fascista e apoiaram com vigor o projeto nazista, uma “epidemia” (nas palavras de marx).

Mas enfim, o que de socialismo tinha Hitler?

Existem muitas formas de socialismo. Por exemplo, as pensões públicas por velhice (aposentadorias) foram inventadas por Otto von Bismarck nos anos de 1870. Assim como outras seguridades sociais para cidadãos alemães foram inauguradas em seu governo, resolutamente anti-marxista (inclusive com leis específicas contra os comunistas). As empresas estatais modernas, com dinheiro público de impostos, foram largamente inspiradas em socialistas não marxistas como Louis Blanchi e Charles Fourrier, a serviço do Estado Frances. Até mesmo clássicos liberais como Adam Smith, poderiam hoje, sob os critérios que se utiliza vulgarmente no discurso anti-comunista, ser classificado como “socialista”, ele escreve entre vários outros trechos:

“Os sujeitos de cada estado devem contribuir para o sustento do governo, o máximo que puderem, em proporção às suas respectivas habilidades, ou seja, em proporção à renda que eles possuem sob proteção do Estado”. (Riqueza das Nações, Livro V, capítulo II)

“Tudo para nós mesmos e nada para outras pessoas, parece, em qualquer era do mundo, a máxima vil dos mestres da humanidade”. (Riqueza das Nações, Livro III, capítulo IV)

Se formos mais longe, podemos observar a lógica de Ludwig von Mises, exposto em “Critique of Interventionism”:

“O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Sob este critério, praticamente todos os países capitalistas dos últimos 200 anos foram socialistas. A necessidade de alimentar, armar e financiar exércitos, funcionalismo público para correios, polícia, bombeiros, demanda para certo planejamento central, organização estatal, impostos e criação de empresas estatais para suprir fraquezas do setor privado. Para não falar na expansão militar que visa dar benefícios gordos ao empresariado nacional, como Cecil Rhodes ou a Cia. Das Índias Orientais bem sabem. É curioso o anti-estatismo seletivo: exército e polícia não parecem importar muito os liberais anti-socialistas. Imagino que considerem, olhando Mises, que caso as decisões importantes do Estado estiverem motivadas pelo lucro privado e sejam feitas pelo comando de capitalistas e empreendedores, talvez este Estado não seja tão autoritário e ruim pro capitalismo assim, por mais que fossem brutais contra os trabalhadores. Só desta maneira para entender como “campeões da liberdade” como Mises ou Hayek e Friedman, deram apoio ao fascismo austríaco e à ditadura de Pinochet respectivamente.

Assim, para não estender o que já está bem extenso, podemos concluir que, como diversos líderes com a mínima preocupação com a realidade econômica e social de seus países, Hitler tomou uma série de medidas socialistas. Diante de uma enorme crise financeira ele estatizou setores da economia da mesma maneira que recentemente, na crise de 2008, vários empreendimentos capitalistas foram salvos pelo Estado nos EUA e Europa e nos primeiros até mesmo estatizou-se temporariamente a Ford Motors para salvá-la da falência.

Hitler também estatizou alguns bancos para favorecer seus interesses, outros sua política favoreceu largamente seu grande aliado privado o Deutsche Bank. Além disso, no que posteriormente chamou-se de ‘keynesianismo de guerra’, incrementou a demanda militar para movimentar a industria e o emprego nacional, aumentando consideravelmente o papel do Estado na economia. Porém fez isso fortalecendo os principais fornecedores privados nacionais e internacionais: Krupp, Bayer, IBM, Ford, até mesmo a Renault, a serviço do governo fascista de Vichy, sob ocupação nazista, capturou seus lucros privados com a política socialista dos nazistas. Sobre o caso, Strasser, nazista rival de Hiler escreve:

“Eu nunca disse que toda a propriedade deva ser socializada. Ao contrário, eu sustentei que devemos socializar as propriedades que se mostram prejudiciais ao interesse nacional. Se não forem tão culpadas, eu deveria considerar um crime destruir elementos essenciais de nossa vida econômica. Pegue o fascismo italiano. Nosso estado nacional socialista, como o estado fascista, irá proteger tanto o interesse dos empregadores como o dos trabalhadores e se reservar ao direito de arbitrar em caso de disputa”. (atribuído a Hitler, IN: Strasser: Hitler and I, pag 112)

Além disso, no campo social, Hitler fortaleceu os centros comunitários, grupos mirins e sedes sindicais, agora sob bandeira nazista, com atividades que estimulassem a integração e participação popular. Claro, isto se você não fosse judeu, comunista, cigano, socialista (do tipo social-democrata), católico não submisso, qualquer um considerado “degenerado”. Enfim, pegando a lógica de grupos como os escoteiros, associações cristãs e etc, embebidas da ideologia nazista, estavam agora a serviço da integração social germanizante. Até mesmo pensou num imenso hotel de lazer coletivo na praia de Prora, para uso dos trabalhadores, porém, como o “carro do povo” (volkswagen), jamais foi usado pelo povo e ficou abandonado.

Assim, embora bastante questionável o teor desse estímulo ao coletivo, é inegável que esse aspecto fosse importante aos nazistas. Mas estas perspectivas não são invenções nazistas, são comuns no mundo todo nas mais diversas vertentes ideológicas e não tem um aspecto positivo ou negativo a priori. A organização comunitária para fins coletivos pode ter os mais variados aspectos, uns belos, outros terríveis. Dos exercícios coletivos em fábricas, tão populares no Japão e Coréia do Sul; dos “community centers” fundamentais na organização de pequenas cidades norte-americana; a cultura do “retribuir” o que a sociedade lhe deu, levando ao trabalho voluntário, tão comum em culturas protestantes. O aspecto social da política só é ignorado por gente desonesta ou ignorante, desde de Aristóteles sabemos que “o homem é um ser social”. Por outro lado, temos a Klu Klux Klan como exemplo negativo evidente; os grupos que se reúnem para espancar homossexuais ou, para citar um exemplo do cinema, a comunidade no filme “A Praia”, que vendo seu “paraíso” ameaçado, em nome do coletivo, exclui os indivíduos indesejáveis.

Enfim, o socialismo de Hitler não tinha absolutamente nada de marxista. Era o socialismo da “gemeinschaft” alemã, da comunidade alemã, em torno dos interesses nacionais alemães, seja de Estado, seja do capitalismo alemão, seja do que os nazistas atribuíssem como interesse coletivo. O socialismo dos nazistas era o socialismo das tropas, o socialismo militar, das trincheiras da Primeira Guerra, onde todos os homens eram iguais na sua imensa possibilidade de morrer. Sua intenção não era resolver a alienação do trabalho e do homem, excluído de sua essência pela exploração do sua mão de obra por terceiros, massacrado por jornadas estafantes para a nova aristocracia burguesa. Não, a sociedade que os nazistas queriam formar, mesmo se – num esforço quase impossível – esquecermos a sua imensa brutalidade com o “outro”, era ainda hierárquica, reacionária, extremamente alienada e injusta, onde somente os considerados fortes e capazes sobrevivem, o triunfo vil do darwinismo social, uma distopia do ideal iluminista que inspirou Marx e tantos outros socialistas do século XIX.

Leandro Dias

Referências:

HAYEK, Friedrich: O Caminho da Servidão. Rio de Janeiro, Bibliex, 1994.

HITLER, Adolf: Mein Kampf: Minha Luta. São Paulo, Centauro, 2001.

LUCAKS, John: O Hitler da História. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

MARX, Karl: O Manifesto Comunista; Ebooks Brasil, 1999 (link)

MARX, Karl: O 18 Brumário de Bonaparte, São Paulo, Boitempo 2011.

MISES, Ludwig von: Crique of Interventionism; mises.org (link)

NARLOCH, Leandro: Guia Politicamente Incorreto do Mundo; São Paulo, Leya, 2013

SHIRER, William: Ascensão e Queda do III Reich (vol. I), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962.

SMITH, Adam: A Riqueza das Nações, São Paulo, Nova Cultural, 1996

STRASSER, Otto: Hitler and I; Boston, Mifflin, 1940

TOLAND, John: Adolf Hitler; Garden City, NY; Doubleday, 1976

VOLNHALS, Clemens von (org): “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933″; Saur, 1992

De derrota em derrota até a vitória final

"Todo poder aos black blocs?"

“Todo poder aos black blocs?”

50 mil pessoas defendendo a educação no Rio e só se fala de quebra-quebra, destruição, “porrada, tiro e bomba”.

Pelo que lutavam mesmo? Irrelevante.

Não interessa que o prefeito ignorou por completo as demandas e ainda disse que os “professores não sabem sabem fazer contas“, o importante é o ônibus incendiado, os prédios destruídos e a manifestação-espetáculo dos denominados blocos de preto.

Não interessa que uns dias antes, a polícia sob o comando estadual, fez o que mais sabe e reprimiu duramente os professores, sem que qualquer “baderneiro” tivesse iniciado o confronto.

Quem eram mesmo? Irrelevante.

Não interessa que não só professores estavam lá, que haviam bancários, bombeiros, estudantes, universitários e muitos simpatizantes. Até bandas musicais vieram enriquecer a manifestação, o foco é exibir o ônibus em chama na capa do jornal.

Qual era a pauta dessa greve mesmo? Irrelevante.

No velho roteiro do poder constituído, a velha e parte da nova mídia, quando não ficam no mais completo silêncio, trazem sempre o mesmo enredo: arruaceiros, vândalos e marginais estragaram uma manifestação legítima, a festa democrática. Ninguém lembra do que a imprensa dizia dos grevistas, “agitadores”, sindicalistas – os “comunalhas” de sempre – a destruir a Rio Branco depois da escandalosa privatização da Vale do Rio Doce em 1997? Não foi o MST taxado em capa de revista como baderneiro, raivoso ou coisa pior? Não chamaram o estancieiro latifundiário João Goulart de “comunista” e “subversivo”?

Nos jornais e na boca do poder constituído, qualquer ato político que venha a incomodar o seu poder será desqualificado. São vândalos, irresponsáveis e desordeiros.

Sempre foi assim.

Se há greve nos ônibus vão mostrar o coitado que não pode chegar no trabalho por causa de uns “sindicalistas egoístas”; se é greve de professor, a manchete é sobre alunos prejudicados por aproveitadores cooptados por sindicatos partidários e tendenciosos; se é pela descriminalização das drogas,  o tom é de “maconheiros filhos de papai que só querem fumar sua erva em Ipanema sem ser incomodado”; se são camponeses lutando por pequeno espaço no campo no país com colossal concentração de terras, não passam de “vagabundos ocupantes”, terroristas invasores; se a manifestação fecha uma rua vão indubitavelmente enfatizar o “direito de ir e vir” dos outros e que é que ditatorial fechar ruas. Enfim, o posterior “avacalhamento” público, distorção e “manipulação” das manifestações pela mídia (incluindo governo) é, certamente, a única regra que se deve tomar como verdadeira ao se expressar nas ruas. A desqualificação de greves, ocupações, manifestos, e claro, protestos violentos ou não, é a principal e mais eficaz arma de desmobilização e desarticulação de qualquer manifestação que toma as ruas, independente do número de manifestantes.

Portanto, se a regra é a desqualificação posterior em massa, algumas considerações fundamentais devem ser feitas.

Muitos concordaram que nos idos de junho, houve de fato a necessidade simbólica de “quebrar tudo” como demonstração clara e evidente de descontentamento com a ordem vigente. Como colocamos neste blog  anteriormente:

O vandalismo [de junho] representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica.

Então, na ocasião, quase que todos os lados apoiaram e exaltaram as manifestações espontâneas pelo país todo, culminando nos atos de destruição de 17 e 20 de junho. Seja a esquerda jovem vislumbrada com o gostinho de revolução deixado no ar enfumaçado, seja a direita oportunistas de plantão querendo usar o momento para derrubar o atual poder que detesta, passando pelos “coxinhas” e apolíticos em geral, inconscientemente nas ruas “contra tudo que está aí” sem saber exatamente o que exatamente defende.

Enfim veio Outubro e apresentou fatos diferentes.

Dando sequência ao violento “despejo” dos professores manifestantes que ocupavam a Câmara do Rio, uma grande manifestação de professores no Dia 1 de Outubro foi também seguida por ação violentíssima dos policiais. No esquema do “foi mal fessor“, a polícia desavergonhada de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, perdeu o pudor e reprimiu como nunca uma das categorias mais sofridas do país, causando indignação nacional e alimentando o fogo da grande manifestação do Dia 7 de Outubro. Situação semelhante ao estopim de junho, por muitos considerado a excessiva repressão da PM paulista no Movimento Passe-Livre.

O fato novo apresentado por essa manifestação do dia 1 de Outubro foi a atuação expressiva do bloco negro (black bloc). Como muitos presenciaram, foram fundamentais para segurar e desviar a atenção da violenta polícia cabralina, dando tempo para que as inúmeras senhorinhas e “tias”, componentes numerosos e mais frágeis presentes entre os professores manifestantes, fugissem dos cassetetes, nuvens de gás e pólvora causadas – neste dia – exclusivamente pela ação policial. Foi a primeira vez que visivelmente, o black bloc remontou sua origem alemã e colaborou efetivamente com outros núcleos políticos, no caso, o sindicato dos professores, fortalecendo todo o movimento. Não foi por acaso que entre o dia 1 e o dia 7 de Outubro, os professores e boa parte da esquerda, os defenderam ardentemente. “Black bloc é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo” era um grito que se houvia no dia 7.

50 mil pessoas na rua e só se fala em destruição.

Dia 7 de outubro, segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro.

Relembrando...

Nem a pusilanimidade da Dilma foi esquecida.

A manifestação foi incrível. A pauta específica era o repúdio ao plano de carreira da educação do Eduardo Paes, mas a pauta geral era pela melhoria da educação brasileira. Milhares de pessoas, professores, bombeiros, bandinhas, bancários, universitários, secundaristas, alunos e simpatizantes. Milhares de mensagens, faixas, cartazes, gritos e cantoria em protestos variados em torno da educação. Até mesmo a UNE-UBES e o PCdoB superaram sua agorafobia adquirida nos últimos anos e estavam lá com suas solitárias bandeiras a engrossar o caldo.

E então, após belíssima marcha pela Rio Branco, chega-se à Cinelândia. Certo tempo de gritaria e protesto na frente da Casa do Povo e começa o ritual destrutivo do fronte juvenil. Rojões e malvinas contra bancos e claro, contra a própria Câmara. Lembrando muito o dia 17 de Junho, a ausência de policiamento efetivo para uma manifestação daquele tamanho, só fez crescer a confiança da linha de frente e a suspeita da tática “terra arrasada”. Fogos de artifício e molotovs iluminaram a noite chuvosa.

No fundo não importa muito quem começou, pois o enredo seria como o descrito no início do texto.

Que tenha sido um revide, um ataque preemptivo ou uma reação espontânea, a linha de frente das manifestações de sua parte, fez chover rojões, malvinas, pedras, bombas caseiras, molotovs e tudo mais que a ritualística de confronto com a polícia tem apresentado. Os dois lados, cedo ou tarde, estavam bem agressivos e não demorou para a polícia, mesmo em baixo número avançasse gradativamente na “retomada do território”. Então, em meia hora, a grande manifestação foi dispersada em pequenos focos resistentes e radicais espalhados pelo Centro e adjacências. O grosso restante voltava para casa sob fortíssima chuva.

Porém, independente dos sentimentos sobre o bloco negro ou até mesmo da justeza de algumas suas práticas – parafraseando Brecht O que é uma vidraça de banco diante da criação de um banco? –, é difícil negar que o “ritual destrutivo” ofensivo, como apresentado no dia 7 de Outubro, esteja claramente servindo mais para reforçar o esvaziamento completo das manifestações, especialmente no sentido ideológico-propagandístico, do que para qualquer apelo por mudanças ou mesmo para angariar mais simpatizantes. A julgar pela capa da maioria dos jornais, editoriais, opiniões propagadas e repercutidas aos montes nas ruas e redes sociais, a velha fórmula de desqualificação já está em pleno vapor.

50 mil na rua e só se fala em “vandalismo e depredação”.

Desta forma, seja por muitas testemunhas que viram – na ocasião – a ação direta dos black blocs mais como “ataque” do que como “revide” contra a repressão da polícia ou, ainda mais importante, seja pelo evidente enfoque que todo o aparato midiático e governista já está dando na desqualificação em “vandalismo”, buscando uma vitimização da polícia e do governo local, o resultado será fatalmente o enredo tradicional de esvaziamento das pautas e a criminalização das manifestações radicais. E seria bastante ingênuo subestimar o poder de formação de consenso do aparelho estatal aliado do aparelho midiático.

Assim, é fundamental lembrar que tão ou mais importante que o fato em si, é como o mesmo é interpretado e é respondido pelos agentes do seu tempo.

Sem uma base ideológica, propagandística e objetivos claros, a violência simbólica da destruição disruptiva, será capturada por quem bem conseguir, positiva ou negativamente. E, em geral, infelizmente é usada para os fins mais retrógrados possíveis. Enquanto voam pedras e foguetinhos contra a polícia, retornam porrada, tiro e bomba. Se vão ao chão agências bancárias, pontos de ônibus e latas de lixo, o que retorna são leis anti-terrorismo, prisões arbitrárias, presunção de culpa e Lei de Segurança Nacional. Sem saber exatamente o que se pretende construir, a destruição pode apenas abrir caminho para outros que sabem exatamente o que querem e não terão escrúpulos em usar todos os agentes possíveis para seu fim.

Além disso, do ponto de vista do confronto em si, é importante lembrar o estrategista Sun Tsu, se nossos adversários e inimigos vêm com verdadeiros exércitos armados, cães e bombas, enquanto nós só temos palavras de ordem, fogos de artifício e muita disposição, é triste, mas nós já perdemos essa batalha. A arma da crítica não supera a crítica das armas, diria outro. Dado este cenário, é impossível tomar à força a Câmara ou a ALERJ, quiçá o Palácio do Planalto ou qualquer símbolo de comando do governo. Não há a remota possibilidade no contexto atual. Isso porque nem tem sido necessário ao Estado usar bala de verdade como ocorreu na Turquia e ocorre no Egito.

No contexto atual, a única possibilidade de vitória é a simbólica.

Por vitória simbólica compreende-se principalmente, o constrangimento público e desmoralização das “verdades do poder constituído” como parte de um processo de conscientização e educação política da população, envergonhando sua passividade e abalando o consenso e legitimidade do poder que a domina. O “constrangimento educativo” e desmoralização aparecem ao tornar evidentes algumas grandes contradições inerentes ao sistema capitalista que se pretende democrático e plural, forçando-o a tomar medidas claramente antagônicas à sua imagem pública. Isto é, o conduz a medidas claramente anti-constitucionais, a rudezas jurídicas, a apologia à repressão excessiva em plena democracia, ao autoritarismo praticado em nome da “liberdade” e claro, levá-o a escancarar a promiscuidade entre poder político e poder econômico que o constituí, como ficou evidente no alinhamento da grande mídia com o governo Cabral-Paes e, claro, no vergonhoso desfecho da CPI dos Ônibus, mostrando que realmente o  Estado não passa de um comitê de negócios da classe dominante.

Por fim, se bater em professores indefesos é um desastre político como foi e ninguém em sã consciência política apoiaria a prática, bater em professores que dão suporte a “vândalos e baderneiros” é uma história completamente diferente. A deslegitimação específica  dos black blocs busca na verdade, esvaziar o geral das manifestações, criando legitimidade na repressão indiscriminada, de “pacíficos ou não”. Assim, é fundamental que a posição violenta das manifestações surja como revide, como resposta e, jamais, como ataque, como assalto e afronta planejada ao poder constituído. Desta maneira, as táticas ofensivas dos black blocs, levando aos montes rojões, malvinas e fogos de artifício, parece servir apenas para legitimar uma repressão generalizada e esvaziar a manifestação em questão, escondendo as reivindicações e as pautas em fumaça e fogo. Elas não parecem constranger o real agressor, ao contrário, lhe dá motivos públicos o suficiente para justificar a repressão que o poder queria desde o início.

No nosso contexto portanto, a vitória simbólica é erguida em geral a partir de uma derrota física; se constrói ao fazer com que o poder constituído atue contra a opinião consensual da população e contra sua própria opinião como poder representativo do povo, gerando mais e mais insatisfação e escancarando mais e mais contradições inerentes ao “capitalismo democrático”. O constrangimento público enfim, deslegitima o poder constituído e fortalece os seus antagonistas, reforça o ímpeto dos radicais, radicaliza os moderados e os “simpáticos à causa”, por fim, força a todos à politização, incluindo os “indiferentes” e “alienados”, passo fundamental para a conscientização de classe e posição social no conflito. Relembrando o velho chinês: “De derrota em derrota até a vitória final”.

Leandro Dias

Uma auto-proclamada “esquerda revolucionária”

Yoga Revolucionária?

Yoga Revolucionária?

A imagem que vai em anexo a este curto texto, ou melhor dizendo, a este breve lamento, é sintomática do tipo de organização ou movimento – porque nem todos, de fato, se “organizam” politicamente e parecem desejar continuar assim – que, no Brasil, atribui a si próprio anseios ou faculdades revolucionárias.

A proposta do “yoga revolucionário” é, no mínimo, curiosíssima.

Que prática do yoga seria essa capaz de transformar a sociedade, abalando os alicerces da ordem burguesa, promovendo a reforma agrária, redistribuindo a renda e a riqueza e por aí vai?

Sem que, evidentemente, para isso, tenha que confrontar ninguém.

Com certeza não se pode deixar de atribuir a seus proponentes uma confiança fantástica nas capacidades transformadoras e nos poderes da mente.

Está também assegurada a participação de performáticos artistas, que quem sabe poderão encontrar seus espaços, ou talvez até seus nichos de mercado, entre os revolucionários ocupantes da Câmara…

É claro que estamos, com as provocações acima, propositalmente, cometendo um ato de flagrante e injusto reducionismo.

Movimentos como o “Ocupa Câmara” não se limitam, absolutamente, a apenas a isso, e tem sua importância e validade no mínimo como demonstrativo de quem nem toda a juventude está apática e também, para exercer clara pressão sobre os digníssimos “representantes populares” que, por mandato eletivo, lá se encontram.

Embora, é claro, os movimentos Ocupa jamais serão capazes de substituir o peso da maciça presença da população que, lamentavelmente, não vem se verificando mais nas manifestações.

Todavia, o destaque específico daqueles pontos sui generis no meio da programação do “Ocupa Câmara” tem como objetivo, apenas, ressaltar certos aspectos que ficam absolutamente evidenciados a partir desse tipo proposta. Um tipo de posicionamento que expõe traços muito claros dessa “esquerda” existente no Brasil que, afirmando-se politicamente revolucionária, não consegue ser mais do que multiculturalista.

Uma “esquerda revolucionária” sem foco, sem objetivos políticos efetivamente revolucionários muito bem definidos, se é que os definiu em algum momento.

Que dirá praticante de estratégias políticas objetivas, pragmáticas, para alcançá-los.

Uma “esquerda revolucionária” festeira, afeita às grandes celebrações culturais – fato positivo, embora em nada surpreendente -, mas que se mostra politicamente inócua, pois carece de objetivos claros e de estratégia minimamente eficiente.

Uma “esquerda revolucionária” que anda pouco ambiciosa, mais restrita às “pequenas revoluções”.

Por exemplo, contra o sexismo e contra a homofobia, questões, sem dúvida, relevantes, importantes, fundamentais, porém não substitutivas de uma luta efetiva contra uma ordem liberal burguesa que, organizada como ela só, ainda transforma demandas e símbolos feministas e homossexuais, entre muitos outros, em interessantíssimas fontes de lucro.

Pode-se também argumentar que é uma “esquerda”, além disso, diminuta em termos de adesão popular, pequenez essa que pode ser, ela própria, efeito, e não causa, da sua falta de preparo.

Vale lembrarmos, por outro lado – fora o simbolismo de ocupar uma Câmara legislativa, demonstrando que nem todos estão totalmente dominados pela apatia: o que há de revolucionário em exigir dos mandatários dos cargos eletivos que cumpram com seus deveres legais?

Nada, absolutamente nada.

E isso demonstra que, apesar de todos os pesares, apesar de todos os abusos, ainda temos uma população, incluindo os que se dizem “revolucionários”, legitimando esses poderes que aí estão constituídos, que de alguma forma ainda deles espera alguma coisa, que neles ainda confia o suficiente para deles exigir soluções. “Revolucionários”, enfim, que talvez não se sintam capazes, ou nem sequer tenham contemplado a hipótese de se transformarem, eles mesmos, no poder constituído.

O “yoga revolucionário”, por curioso que o termo seja, expõe inequivocamente o ideal dessa “esquerda revolucionária”, multiculturalista, talvez realmente muito bem intencionada mas, acima de tudo, pacifista, e que por isso se mostra incapaz, por princípios, de admitir que não há nem pode haver ação revolucionária eficaz que despreze o uso, mais ou menos explícito e indiscriminado, da violência.

Violência que é, goste-se ou não disso, o fator de decisão de última instância da política. E cujo uso não estamos defendendo nem propagando, mas apenas, constatando sua natureza essencial nas relações políticas, tema por nós já amplamente tratado em outros textos por aqui.

Que essa “esquerda” se julgue, sem nenhum problema e ao seu bel prazer, de esquerda, mas que, em nome da coerência, descarte o “revolucionária” e encontre um outro qualificativo para acompanhar o primeiro termo. “Esquerda eleitoral”, “esquerda cultural”, “esquerda pacifista”, e por aí vai. Ou tudo isso junto. Ou como é típico dos ideais da pós-modernidade que permeiam seus integrantes: uma esquerda “que não precisa se definir”, porque afinal definições são discriminativas, limitadoras e excludentes.

O que seja.

Pelo menos, assim agindo, essa “esquerda” desfaz a confusão de atribuir revolucionarismo a grupos efetivamente incapazes disso, por princípios e por falta de meios, abrindo com isso, quem sabe, as portas para o surgimento de uma outra esquerda que, de fato, possa e queira assumir esse papel.

Pois uma “esquerda revolucionária” dessas, cujas únicas armas que se sente capaz de empunhar sejam o poder transformador do yoga e das artes é, sem dúvidas, aquela esquerda que e a ordem liberal burguesa e a direita sempre pediram a Deus.

Daniel Kosinski

A democracia e o mito da sua representação pacífica

A Paz no Alemão

As manifestações ocorridas no Brasil nas últimas semanas, resultando quase sempre em confrontos localizados com as forças de segurança do Estado, trazem uma vez mais para a ordem do dia as representações dos fatos veiculadas pelos grandes grupos de comunicação hoje existentes no Brasil.

Essas representações são invariavelmente parciais ou, simplesmente, flagrantemente deturpadas.

Via de regra, elas exploram alguns episódios limitados de danos ou destruição de propriedades e bens públicos e privados para disseminar a idéia da existência do “vandalismo” nas manifestações, ou seja, em última instância, criminalizando toda e qualquer demonstração ou emprego de violência por parte da reduzida parcela dos manifestantes que apresentam disposição e coragem para tal.

Conceituou-se, nesses discursos, uma distinção clara entre “manifestantes” – pacíficos – e “vândalos”, “arruaceiros” ou “baderneiros” – violentos -, nos quais os primeiros são aceitos ou até mesmo comemorados, enquanto que os últimos são denunciados e rechaçados com veemência.

Tudo se passa como se a eventual violência dos manifestantes fosse uma ilegitimidade numa sociedade em si mesma pacífica e que aquela violência, quando presente, deva ser a priori condenada.

Subjaz a esse discurso o ideal de que a chamada “democracia” seria uma forma em si pacífica, não-violenta, de organização política e que permite, sim, a livre manifestação dos insatisfeitos, desde que essa expressão se dê de forma ordeira, pacífica, não confrontadora, sem danos ao patrimônio.

Por razões óbvias, além da mídia, esse também é o próprio discurso oficial das figuras representantes das autoridades constituídas, tais como prefeitos, governadores e a própria presidente da República.

Finalmente, trata-se de um discurso de fácil aceitação e grande reverberação por amplas parcelas da população, conforme temos percebido ao observar as chamadas “redes sociais”.

Contudo trata-se de um discurso distorcido, não sendo muito difícil percebermos o porque.

Ordem política é violência

Max Weber, em que pesem todos os seus esforços para conceituar as formas típico-ideais do exercício consensual do domínio político, ou seja, com o consentimentos dos dominados – tradicional, carismático e racional-legal -, nunca negou o fato de que o poder último, decisório e definitivo que sustenta essa relação é o emprego da violência.

Por isso, naquela que provavelmente é, na sociologia, a definição não-marxista mais corrente do Estado, Weber definiu a sua principal característica como a de ser o detentor do monopólio do uso legítimo da violência.

No Brasil contemporâneo, a julgar pela representação dos fatos veiculada pela mídia e exercitada nos discursos dos representantes dos poderes constituídos, tudo se passa como se a ordem política atualmente vigente entre nós, dita “democrática”, não fosse, ela própria, assegurada pelo emprego rotineiro da violência em larga escala, de forma mais ou menos explícita.

É uma ordem representada como, em si mesma, pacífica, livre do uso e do exercício da violência, fundamentada, em última instância, no típico ideal liberal de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, através de seus representantes escolhidos em eleições livres.

Todavia, é evidente que as coisas não se passam dessa maneira, e nem poderiam se passar, particularmente, numa sociedade como a brasileira, caracterizada por níveis impressionantes de desigualdade na apropriação da renda, da riqueza, no acesso aos serviços públicos e aparelhos midiáticos.

Uma sociedade, portanto, cujo controle social de amplas camadas de sua população, marginalizadas, requer o exercício permanente, diário, da violência em suas formas mais explícitas, conforme se pode verificar nas ações de repressão das forças estatais nas favelas e nas áreas periféricas das cidades brasileiras, no campo ou em demarcações indígenas.

Portanto, é necessário contrapor àquele discurso um fato óbvio e inegável: a ordem dita “democrática” por ele defendida é, sim, violenta, e por sinal, violenta numa escala incrivelmente superior, em duração e intensidade, à violência praticada em qualquer das manifestações já ocorridas na história desse país.

Vamos, considerar, portanto, o problema em termos distintos dos contidos naquele discurso: não se trata de denunciar a violência como produto da ação de “vândalos”, mas sim, de distinguir a prática da “violência oficial”, ou estatal, da “violência não-oficial”, ou paraestatal.

Não há “democracia” pacífica

Uma ordem política, seja qual for e até que se prove o contrário, se fundamenta na imposição, ou na capacidade dos agentes dominantes em impor seu domínio sobre uma determinada população, dominada.

As formas de estabelecer, assegurar e exercer esse domínio fazendo o menor uso possível da violência, ou pelo menos, reconhecendo a necessidade de seu emprego de maneira contida, pontual, é um problema que vem ocupando muitos dos principais filósofos políticos da história, a começar, pelo menos, por Maquiavel, considerado o fundador da ciência política.

Daí também todo o apelo, de natureza moral, oriundos de fontes tão distintas como os ideais religiosos, liberais, socialistas e muitos outros mais, para o exercício mais consensual possível da política, fazendo, com isso, o uso mais limitado possível da violência, jamais a descartando, contudo.

Todavia, em que pesem os interesses e as pressões dos valores éticos e morais contra o uso da violência na política, deve-se reconhecer na história que a imposição do domínio sobre os dominados é, sempre, em última instância, garantida pela violência, que é o recurso último, decisivo e definivo da política, não importando sob quais formas institucionais, ditas “democráticas” ou não, essa esteja sendo praticada.

Isso não implica defender o uso indiscriminado ou arbitrário da violência como forma de exercício legítimo da política, nem de naturalizar esse uso, aceitando-o.

Mas se trata de reconhecer que, pelo menos até o presente estágio da história humana, sem esse recurso, não foi possível o estabelecimento de relações de domínio nem, consequentemente, de Estado.

A fraude da criminalização do “vandalismo” e o mito da natureza pacífica da “democracia”

Concluindo, o discurso midiático e governamental do caráter pacífico, não violento, da dita “democracia” é, portanto, enviesado, pois só reconhece como prática da violência a violência não-oficial, paraestatal, não admitindo que a ordem política estabelecida é, também ela – ou melhor, primordialmente ela – fundamentada na prática diária da violência.

Sendo a violência um componente fundamental da manutenção da ordem política dita “democrática” sob a qual hoje se encontra o Brasil, não há nenhuma contradição em questionar se é moralmente condenável o emprego da violência por parte dos “vândalos”.

Não se trata, também, de enaltecê-los ou de julgar justas as suas ações, mas de questionar porque deve-se negar o uso da violência pela população se esse é um recurso ostenstivamente utilizado contra ela própria pela ordem estabelecida, “democrática”, que a domina.

A esse respeito devemos lembrar, inclusive, que filósofos políticos liberais, como por exemplo John Locke, defenderam não somente o direito, mas também o dever, de uma população recorrer às armas para derrubar governos que não estivessem cumprindo adequadamente suas responsabilidades.

Por isso, aqueles que rejeitam o “vandalismo” sem se dar conta, ou sem reconhecer, que ele significa uma violência de escala e intensidade mínima se comparada à violência da ordem estabelecida, estão, por ingenuidade ou má intenção, se colocando como porta-vozes de uma ordem que se sustenta na violência como fator decisório último, mas que nega a sua prática aos que reagem ao seu domínio.

Há, portanto, um discurso claro em curso que visa criar, na sociedade brasileira, um clima de censura ou coerção moral contra o exercício não-oficial ou paraestatal da violência, sem reconhecer a natureza cotidiana e abertamente violenta das práticas políticas de suas próprias instituições.

Um discurso pretensamente pacifista mas, na prática, profundamente conservador e legitimador de uma ordem política explicitamente violenta e que precisa sê-lo, posto que garantidora de desigualdades sócio-econômicas brutais.

Não há, a esse respeito, outro caminho: ou se rejeita a violência como um todo, criminalizando-a seja quais forem suas fontes ou os agentes que a praticam, ou se aceita, sem criminalizar, a violência de ambas as partes como um dado concreto, por desagradável que seja, do exercício da política.

Daniel Kosinski

Será mesmo que só agora o fascismo acordou?

Revista Veja, 20 de Maio de 1970.

Como muitos leitores aqui do blog já puderam notar, o tema fascismo nos é bastante constante. Falamos dele frequentemente sob alguns prismas diferentes e em várias ocasiões, de seu ideário no Brasil. Escrevemos há exatos dois anos atrás, por ocasião dos “fantasmas” que foram bastante visíveis com a eleição de 2010, fantasmas que muitos parecem ter esquecido, que parte do ethos cultural da elite e classe média carrega um forte quesito proto-fascista e anti-republicano, filhos de um gigante que jamais dormiu, a ditadura; que por sua vez é filha de outro gigante que jamais morreu: o estado organizado sob uma lógica absolutista, coronelista, nobiliárquico e aristocrático. São temas recorrentes aqui o blog.

Neste sentido, com simples observação da história recente podemos afirmar com certa precisão que não há absolutamente nada de novo no dragão fascista mostrando a sua cara nas ruas da cidade. Façamos um pouquinho de força e lembremos dos homossexuais foram espancados por “carecas”; do esquerdista que foi espancado por proteger um mendigo em 2012; dos membros do movimento LGBT que foram abertamente hostilizados não só pelos “nazi” de sempre, mas por “gente de bem” em vários momentos ao longo dos últimos anos. Não tem muito tempo que os anarquistas do Rio não podiam sair sozinhos pelos arredores da Lapa ou Praça da Bandeira sem temer alguma violência de neonazistas de todo o tipo; não vimos seguidamente mendigos, negros e nordestinos espancados por filhinhos da classe média em várias outras capitais?

Esquecemos disso tudo?

Como dissemos semana passada, ainda na tarde da histórica manifestação de segunda-feira dia 17, aqui no Rio:

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários […]?

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Oras, a repressão à esquerda e a vários dos movimentos a ela ligados não é novidade alguma. Militantes de esquerda apanharem nas ruas e serem hostilizados por radicais nacionalistas é algo até bastante comum no cenário de confrontos políticos pelo país a fora. A criminalização dos movimentos sociais, atitudes históricas dos governos proto-fascistas, nos é alguma novidade?! Não foram há anos massacrados pela mídia, enquadrados como “quadrilha”, baderneiros e vândalos?! Em quantas capas da grande mídia foi o MST chamado de terrorista? Quantas vezes o PSTU ou o PCB foram achincalhados pelos “pensadores” da extrema direita? Quantas vezes a repressão forte da polícia foi justificada por razões puramente ideológicas? O caso recente da USP foi um dos mais marcantes, mas poderia ter sido qualquer outra greve de professores “aparelhada pelos partidos de esquerda”. Nem mesmo a esquerda light petista foi poupada, acusada de fazer “revolução gramsciana” ou qualquer semelhante impropério encontrado em blogs da extrema direita da grande mídia como Reinaldo Azevedo. Não foi o Jabor até “ontem” a vincular o Movimento Passe Livre ao PCC?!

Ninguém lembra da Opus Dei, a mais retrógrada das forças dentro da Igreja Católica, e sua ligação com membros dos partidos de direita, especialmente o PSDB de Alckmin, o Gauleiter Paulista??! Ou das ligações da TFP e neointegralismo com a campanha do Serra de 2010?! Aliás, de que serviu a campanha do Serra em 2010 se não mostrar claramente que a extrema-direita estava bem viva, ativa e “tentaculosa”?

Esquecemos disso tudo? Ou isso não foi fascista o suficiente?

O que temos de lembrar portanto é que não é absolutamente novidade nenhuma a repressão e hostilização vinda da extrema direita. Ela não está maior do que estava uns anos atrás, só porque agora alguns a enxergam mais nitidamente quer dizer que ela esteja maior ou mais influente.

A única novidade é a confiança aparente que a extrema direita ganhou num momento de claro vácuo de poder público e fragmentação da esquerda diante de tantas pautas trazidas para o debate a medida que o movimento cresceu. Não houve qualquer hostilização a esquerda que não existisse antes, até o momento que toda a ordem foi temporariamente ao chão. Da mesma forma que não houve qualquer onda significativa de saques e violência disruptiva antes do desmoronamento temporário da ordem estabelecida. Isso é bem nítido.

Há uma boa parcela dos militares anti-esquerda?! Sempre houve. Esse núcleo já pedia a volta da ditadura? Sempre pediram. Isso não é novidade alguma. Bolsonaro ainda ganha votos suficiente para se eleger em TODA eleição. Feliciano não comprou seu cargo parlamentar. Alckmin não comanda seu feudo de violência sem agradar uma boa parte do seu público. Pinheirinho foi “anteontem”.

E nem é preciso entrar muito no mérito da relação das polícias militares com os movimentos de esquerda que já sabemos como sempre foi o seu papel. Se ela fez um “sentasso” com os manifestantes  de SP não deve ser lido se não como estratégia de um já queimado Alckmin. Quando a poeira baixar, vai ser difícil esquecer que sua repressão foi a centelha a inflamar o resto do país.

Portanto, a presença da extrema-direita como agente político é tão óbvio em nossa sociedade, que debater sua “novidade” parece ser chover no molhado e de um derrotismo, isso sim, preocupante.

Então, o que temos de refletir não é em como lidar com esta onda, não é o temor de um golpe de extrema direita. O golpe não virá porque o dinheiro está no “extremo centro”, não precisa dar golpe algum da extrema direita para continuar no poder. Nem mesmo o Partido Integralista, com tamanho proporcional maior que o PMDB hoje, conseguiu dar um golpe em 1937. A onda de extrema-direita já está aí há tempos e a esquerda tem crescido apesar dela.

O que temos de observar é a real novidade que o movimento das ruas trás. Algumas boas, outras nem tanto.

Quem viu as manifestações crescerem, do seu extremo foco nas passagens e mobilidade urbana ao aparente vazio do  “twitter analógico” que se tornou na última quinta dia 20, deveria ter observado dentr
o do festival de pautas aleatórias dos “apartidários”, “apolíticos” e mesmo dos “anti-partidários” algumas “bandeiras” que sempre foram historicamente ligadas à esquerda.

Primeiramente em termos de contexto, me refiro à revolta popular ao constatar sua real “falta de representatividade” no interior das democracias estáveis ocidentais,  dos Indignados espanhóis aos acampamentos do Occupy Wall Street nos EUA, passando agora, é lógico, pelo Brasil. Esse tema tem sido debatido por tantos pensadores que entrar nesta questão aqui seria um exercício longo e desnecessário (por enquanto) para nosso argumento. O fato evidente é que observamos nas ruas que boa parte da população de fato não se vê representada no parlamento democrático-liberal. Não ficou comum dizer “Fulano não me representa”?

E em termos práticos, a invasão das casas representativas, de Brasília ao Rio, não foi amorfa, disruptiva e de objetivos pouco claros para todos?

Se não podemos definir o que exatamente elas defendem, podemos no entanto ter certeza que a única coisa significativa que esse movimento representa é o sentimento nítido de “falta de representatividade” no interior das democracias liberais.

Por mais que muitos, especialmente no fronte disruptivo e caótico, não soubessem o que queriam, a maioria sabia exatamente o que não queria: o jogo político atual representado na câmara.

Oras, não é dos mais antigos esforços da esquerda o de afirmar que o parlamento na democracia liberal não passa de uma bancada de negócios das grandes corporações? Não afirmamos há quase 150 anos, que nada ali é para representar a população de fato, mas sim os lobbies corporativos dos aristocratas do momento? Aqui no blog dedicamos alguns posts ao tema, primeiro em “O Mercado Eleitoral e a Democracia Liberal” e mais recentemente em “Capitalismo e Democracia“.

Assim, no oceano de cartazes inúteis que mais parecem slogans ufanistas vazios, particularistas e improdutivos, como se ao invés de saírem do facebook, as pessoas tivessem o levado para as ruas [nota], temos que observar o mar de bandeiras que foram comuns à esquerda por décadas.

Não foram poucos os cartazes e opiniões não ligadas à partidos e a movimentos organizados que, em alternativa real “a tudo que está aí”, mencionavam idéias como a democracia direta, a democracia plebiscitária, a gestão participativa. Em entrevistas e opiniões, mesmo dos grandes jornais, blogs e nas redes sociais, não foram poucas as vezes que se observou um evidente clamor por real participação da população na decisão das prioridades econômicas do país, real participação no processo decisório, passando por cima de “políticos corruptos” para atender reais demandas da população. Não foi praticamente em uníssono o coro contra Sérgio Cabral justamente pelo sua evidente ligação com empresários do ramo de transportes?!

Não são estas algumas das bandeiras históricas de  boa parte da esquerda?!

Se de fato havia uma série de pautas da esquerda entre os “apolíticos” e os não ligados à partidos, muitos que, assim como parte da esquerda, se quer perceberam isso, não deveríamos estar desapontados com a derrota que foi o aparente “esvaziamento de nossas pautas”, com a “revolta dos coxinhas”, nem mesmo alarmados com a violência visível dos fascistas e suas opiniões aqui e acolá.  Isso sempre esteve presente, desde a mídia nos generalizando como vândalos durante greves, mesmo quando fascistas, legalizados ou não, nos reprimem com violência.

Até o momento, para quem não tivesse certo discernimento ideológico, a violência fascista, seja dos brutamontes que atacaram manifestantes de esquerda, seja da Polícia Militar em várias cidades do país, era “politicamente invisível” e “ideologicamente neutra”. Não era se quer cogitado quais seus interesses e idéias. Depois de atacar o movimento negro, o movimento homossexual, a esquerda radical – inclusive no interior do próprio PT – que estava lá desde o início de tudo, os fascistas mostraram claramente a todos a sua vilania, muitos que não faziam estão parando e refletindo. Com a poeira baixando, a recriminação à ambas truculências anti-democráticas está nítida em vários portais, progressistas ou não, até nas páginas do Globo. É justamente agora, quando o fascismo está nítido para vários setores progressistas da sociedade, que a esquerda, como natural e histórico inimigo deles, pode se fazer mais forte. Não deixaremos as pessoas, apolíticas ou não, esquecerem quem sempre esteve contra as forças mais reacionárias e violentas da sociedade.

Nas sabias palavras do blog Passa Palavra:

“Cremos que o momento agora é de concentrar nossos esforços […] onde os “coxinhas” não estão, onde as pautas populares encontram sua base real (e que por isso está sendo sistematicamente minimizado nos grandes meios de comunicação ou apresentado apenas como distúrbio social violento). Mas é claro que essa responsabilidade já não cabe exclusivamente ao MPL, e sim a um conjunto de forças da esquerda; sem desprezar, é claro, os muitos obstáculos e conservadorismo que decorrem dessa posição.”

 

Por Leandro Dias

[nota] – adicionado dia 26/06 ao texto, após revisão.

Panela de Pressão

Flores de uma futura primavera?

Um espectro ronda o Brasil. O conformismo e resignação começaram a ranger suas engrenagens. Desmancham-se as teias de aranha, levanta-se a poeira e uma movimentação assustadora, não vista há muitos anos, sacode a inércia que parecia marcar “geneticamente”. Assustadora não pelo que propõe ou apresentam agora, mas pela possibilidade que demonstra, pelos preconceitos que quebra e, principalmente, pelo medo que exalta nos encastelados de nosso país.

Parece que não seremos mais os filhos do meio da história.

A “histórica” passividade, quietude e pacatez do brasileiro, fabricados por 25 anos de ditadura militar e 50 anos de monopólio midiático, mais uma vez não se mostra “natural” e fatídico. Para crer neste “conformismo natural” que o nosso ethos elitista-colonial tentou encucar temos de ignorar praticamente todas as décadas entre 1890 a 1960, de Canudos e Revolta da Vacina aos grandes comícios do Trabalhismo, passando por dois grandes levantes que pararam São Paulo e Rio (1917 e 18), uma grande marcha de insurgentes militares no Tenentismo (1922); um importante e brigado golpe de Estado em 1930; duas Intentonas, uma comunista e uma fascista (1935 e 1937);  inúmeros levantes das camponeses e quilombolas; uma guerra civil insurgente contra uma elite local que não queria se submeter ao poder republicanismo federal e é claro, os 5 anos ininterruptos de manifestações contra a própria ditadura, reprimidas como conhecemos já.

Se de um lado a ditadura batia e calava seus oponentes à força, o monopólio da mídia, fiel representante do ethos subserviente, formado numa incestuosa relação com o poder político, com os mesmos comandando emissoras, rádios e jornais, num aparelhamento tal da mídia pela classe dominante e suas idéias que faz Cuba parecer brincadeira em termos de controle, partia para refundar e reinventar a “candura” como marca do povo brasileiro. Deslegitimar e apagar os anos de rebeldia, proclame o fim do brasileiro que se reconhece como agente político, declare o Fim da Era Vargas, “o brasileiro é naturalmente pacífico e cândido”. Não é extremamente cretino chamar de “pacífico” um povo com uma das mais altas taxas de homicídio do mundo, com a polícia entre as mais violentas e dos mais indiferentes governantes que temos conhecimento?

Mas não podemos cair no clichê de culpar apenas a mídia e os resquícios da ditadura, como numa espécie de inimigo fantasma e intransponível e assim esvaziar os 25 anos subsequentes de história. Os anos de redemocratização foram de muitos conflitos e muita repressão. Lembrem de Eldorado dos Carajás, da movimentação para remoção do Collor, das grandes manifestações contra a privataria de FHC, sem contar os corriqueiros “choques de ordem”, amaciando as populações nos subúrbios e periferias e é claro, como no caso atual, as inúmeras lutas por transporte digno. Nas nossas periferias, com maquiagem UPP ou não, ainda hoje, as coisas ainda são mais ou menos como Lima Barreto colocou mais de 100 anos atrás: o Estado só aparece para cobrar imposto e para reprimir.

Não sejamos ingênuos ou desonestos. Sim, estas forças, muito bem articuladas (sem “sanhas conspiratórias”) são responsáveis também pelo construção do “pacatismo” de nossa população. Sim, todas as forças da ditadura continuam por aqui, os generais de pijama, a mídia das mais atrasadas do planeta, o semanário fascista-bacana, a classe média mais corrupta e anti-republicana que podemos imaginar e uma classe dominante ainda anti-desenvolvimentista, exportadora, aristocrática e anti-popular, eles fazem parte desta onda conservadora que cresceu como tsunami no Brasil.

Mas lembremos que a esquerda brasileira, como em quase toda parte do globo, aceitou o lema anti-radical, do “fim da história”, da “via eleitoral” e de que “nas ruas não conseguiriam nada”. A aceitação desta idéia e a meteórica ascensão do Partido dos Trabalhadores nos quadros eleitorais nos anos 90 e 2000, somada à proliferação de partidos minúsculos disputando migalhas nas eleições liberais, apenas reforçam o argumento de que uma parte da esquerda aceitou e se “deu muito bem” no abrandamento de suas posições.

“Lula Paz e Amor” veio e de fato fez um ótimo governo, especialmente se comparado com as décadas anteriores, no entanto, a ascensão da esquerda amansada ao poder nacional serviu como válvula de escape das imensas pressões sociais que existiam e existem no Brasil. Sem ter de fato resolvido a questão agrária, o MST e os conflitos agrários ficaram bastante calmos por quase 10 anos, para não prejudicar o PT. Sem ter resolvido as questões da ocupação urbana e moradia, da favelização das capitais, o PT conseguiu apaziguar os movimentos urbanos; sem ter resolvido grandes questões do vilipêndio das privatizações as manifestações a respeito foram amansadas (trambiqueiragens tão descaradas que finalmente a maior delas está sendo questionada pela Justiça), o PT conseguiu acalmar o funcionalismo mais radical.

Assim, sem ter de fato apresentado soluções consistentes e duradouras para os graves problemas históricos brasileiros, o PT conseguiu amansar os sindicatos e a militância radical do seu partido, que não é pequena nem menos importante. E conseguiu isso não com participação efetiva e real dos sindicatos e movimentos sociais no processo decisório e produtivo do país, nem mesmo fez isso com o Bolsa Família ou o aparelhamento político dos sindicatos e movimentos sociais como afirmam os anti-petistas, mas conquistou no bolso, com aumento real de salário e com crédito farto para que a população compre o seu carrinho e sua tv de plasma, enfim, se inclua na sociedade de consumo.

E pior, sem o prestígio de Lula e o impacto positivo inegável de seu governo, Dilma se transparece como uma Tony Blair de saias, na definitiva “New-Labourização” do Partido dos Trabalhadores, frequentemente acenando com a esquerda e assinando com a direita. A aliança com a “real política” do PMDB, o mais orgânico e menos ideológico dos partidos brasileiros, deu um ar fetichista à política do PT: “Eu sei muito bem que estas atitudes não são o que nós queremos e que vocês esperam, mas é um passo importante para a grande mudança que planejamos”. Um simulacro da política do “passo atrás para dar dois à frente de Lenin”. Em nome da governabilidade, os pontos nevrálgicos do atraso brasileiro foram sempre postergados e as (contra)reformas que os neoliberais querem, sempre contra os trabalhadores, vão se firmando, uma a uma, executadas pelo seu antigo inimigo, assim dando uma legitimidade que o Capital jamais teve no Brasil.

Neste ponto que lembro com temor de uma verdade inconveniente: o fascismo é filho de revoluções derrotadas. Para cada investida progressista que falha e não cumpre com as expectativas, uma onda de conservadorismo e retrocesso se segue, algumas com difícil recuperação.

E nós, aparentemente, falhamos em acabar com o ranço colonial-escravocrata-exportador, atualizado na mentalidade da ditadura e seus filhotes.

Não é por acaso que podemos facilmente notar que boa parte de nossa sociedade, aprova e ressalta costumes e comportamentos claramente autoritários, aplaudindo massacres, esculachos e classificando – até anteontem – toda e qualquer tipo de movimentação popular como baderna e vandalismo, seja em violência disruptiva tacando fogo em trens e ônibus, como em estudantes pedindo diminuição da passagem ou escolha democrática de seu reitor universitário. Desde que haja uma justificativa “aceita como verdade” por parte da “opinião consentida”, o Estado tem carta verde para reprimir a vontade e, sob o auspício de um legalismo seletivo, “Estado de Direito” quando é conveniente, a regra se transparece na criminalização de todo tipo de “não-alinhado” com a “política real”. Não é coincidência que no mundo – e no Brasil – vemos uma tendência de transformar juridicamente movimentos sociais em terroristas, legitimando assim, sua aniquilação como Inimigos do Estado.

A onda de retrocesso trás todo tipo de lixo com ela.

Quando vimos a população, muitas vezes seguindo o coro dos “formadores de opinião”,  a exaltar o filme Tropa de Elite, enraizar seus jargões e algumas de suas idéias, transformando a polícia mais assassina do mundo em uma espécie cínica de paladino da ordem e da justiça, há toda uma falência dos ideais progressistas por trás.

Me lembro dos aplausos ao Bope no desfile de 7 de Setembro pouco depois do filme e dos inúmeros episódios do jornal local exaltando a polícia e sua violência e associo com as bandeirinhas francesas saudando a invasão nazista de Paris. Me marcou a  “normalidade” que foi tratada a fileira de tanques subindo a Vila Cruzeiro e “piadas” online brincando com “Tropa de Elite III” durante a instalação de alguma UPPs; Ou aquele helicóptero da PM julgando e executando suspeitos como se fosse um videogame, numa versão de baixo orçamento do “Collateral Murder” norte-americano.

Basta o moto “bandido bom é bandido morto” como casus belli  para todo tipo de barbárie contra indesejáveis ser validada, com direito a vários programas de TV dando ares de “vontade popular” à brutalidade, amaciando a população, normalizando o terrorismo corporativo e estatal. Não foi o próprio Alckmin, governador de São Paulo, como um Gauleiter Nazista, que afirmou após um novo massacre da PM contra criminosos suspeitos, que “quem não reagiu está vivo”? Glorificando uma polícia que, como várias outras do país, trás sua versão da Totenkopf nazista no emblema ou escudo.

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários, evidenciando a clara incapacidade ou, porque não, falta de interesse das autoridades na autonomia real das universidades?

Quando grandes veículos da imprensa classificavam a luta pela reforma agrária como terrorista, não vi muitos levantarem assustados contra tamanha cretinice. É incrível encontrarmos opiniões sérias de que “invasor de terra tem que morrer” e que “reforma agrária é coisa de comunista”, em pleno século XXI. O Brasil é o único país “capitalista” que não só não fez reforma agrária, como mantém aquela mentalidade agro-exportadora muito viva, largamente representada no governo, pautando além da própria política de terras do Brasil, a maior sorte de conservadorismos semi-feudais que caminham ao lado dela. Não é coincidência que  seja comum encontrarmos muitos bóias-frias em condições análogas da escravidão e que o Bolsa Família, uma importante arma pela libertação do campo e da servidão por dívida, seja execrado pelos ruralistas e seus aliados.

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Alguém fora dos ciclos da esquerda mais radical foi sistematicamente contra isso?

Não podemos passar 20 anos tolerando e ignorando esta escalada conservadora, dignas de uma ditadura e posar de “surpreso” quando a polícia vem descer a porrada em nós por simplesmente querermos exercer um direito constitucional. A constituição não vale nada quando o dinheiro manda. Não podemos honestamente pensar que é novidade quando “descobrimos” que todos os políticos prestam mais contas a seus patrocinadores do que à própria população e que esta é a lógica do capitalismo “livre” (1). Não podemos honestamente aceitar tudo isso e se surpreender quando, em um momento de fricção, o Estado vêm de fato mostrar o que sempre foi: protetor da classe dominante, protetor das grandes corporações e dos financiadores de sua própria existência. O cachorro que nos morde hoje, é o que demos comida e vimos crescer ontem. Corruptos e autoritários… somos nós.

E agora, que aparentemente estamos saindo da inércia e que a onda conservadora está ganhando uma contra resposta, que a tampa da panela de pressão que a ascensão do PT colocou nos movimentos sociais está a ponto de estourar, vemos os velhos oportunistas de sempre, os fascistas saindo do armário e os pelegos pusilânimes perdendo as estribeiras.

De um lado o PT, cínico e envergonhado, claramente desviado de sua posição histórica de defesa popular, prefere ficar calado ou tímido, vendo a história se desenvolver em sua frente, talvez incrédulo ou temeroso, se recolhe na mediocridade da governabilidade e estabilização (2). Não quer fazer mais feio na sua Copa. Mas não me refiro às vaias da Dilma na abertura da Copa das Confederações: alguém que pode pagar no mínimo R$300 para ver um jogo semi-amistoso da seleção brasileira pertence a uma classe social que nunca gostou da Dilma ou do PT, naturais as vaias portanto. Não. Me refiro a Haddad diminuído à sua insignificância em SP, que até “anteontem” estaria na rua contra o PSDB e depois de muita relutância, quer negociar com os “baderneiros”. Me refiro também à Agnello, o petista que manda a PM caçar manifestantes em casa, coisas de deixar Alckimin com inveja; Me refiro à galopante diluição do PT em “partido do possível” num pragmatismo tolo e subserviente, lampeduziano, mudando as coisas para que elas continuem as mesmas.

Do outro lado, os abutres de sempre, parasitas e oportunistas eternos, falam através dos barões da mídia, porta-vozes da antiga classe dominante – aqueles que restauraram seu poder com a ditadura militar. Num esforço cínico tentam mudar o discurso que sempre fizeram, não é por acaso que a inversão que a imprensa vez tratou, desde o início desvincular a repressão da polícia de Alckmin e do PSDB, a mesma do Pinheirinho, dos protestos atuais. Se até ontem mandavam descer a porrada em baderneiros, reprimir a população,  enfatizando “a normalidade dos tanques na rua”, agora, como no patético mea culpa do Jabor após o seu vexaminoso discurso dos 20 centavos, procuram canalizar os descontentes para velhos motos conservadores e anti-governistas, erguendo o genérico “contra a corrupção”, capas de inúmeras Veja e Folha, como se tentando pautar as manifestações com a “não-pauta” da corrupção, do anti-lulismo e por extensão, anti-esquerda, tirando todo o caráter e raiz progressista e radical do próprio movimento.

Ao ver uma parte já importante dos “distúrbios civis” já clamando por “apartidarismo” e genérico “luta contra a corrupção”, além da preocupante tentativa de proibição da bandeira de partidos nas reuniões, clamor visto com frequência nas redes sociais, afetando especialmente os partidos da esquerda radical, únicas bandeiras presentes de fato nos movimentos, não posso deixar de lembrar das palavras de Slavoj Zizek ao Occupy Wall Street, no auge do movimento:

“Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo.”

Assim, enquanto o movimento permanecer definindo metas claras e objetivas, separando críticas sinceras à de um anti-esquerdismo barato, poderemos ver florescer algo novo e incrível em nosso país. Não, ainda não vejo algo que se possa chamar de Primavera Brasileira, são apenas os primeiros ventos que carregam as sementes da próxima flora. A água está quente mas ainda há mais pressão a ser feita até explodir a panela. Encerro com o mesmo texto de Zizek:

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS.”

Leandro Dias

Colaboração de José Livramento

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NOTAS:

1 – Já falamos dezenas de vezes por aqui, este é o normal do funcionamento da Democracia Liberal, que nada mais é que o nome bonito da Ditadura do Dinheiro, cito um comentário que fizemos aqui no blog meses atrás:

Se nossa sociedade […] é regida pela lei do mercado onde “uma mão lava a outra” e toda troca pressupõe um retorno utilitário, onde toda escolha é uma relação de consumo, o que esperar da democracia fundada sobre esta lógica?

Os mensalões não são uma disfunção corrupta da democracia liberal praticada por imorais aproveitadores, mensalões SÃO a democracia liberal.

2 – A exceção talvez de tímidas manifestações dos diretórios regionais e um ou outro político isolado, mais colado à militância do que a “real política” do núcleo do partido.

Capitalismo e Democracia

Protesto

“Eu não acredito que ainda tenho que protestar por esta merda”

O Estado Moderno, capitalista e pró lucro surgiu antes da democracia como a conhecemos ou pensamos hoje. De uma maneira resumida poderíamos dizer que o poder político deste Estado originou-se como força resultante dos acertos da classe dominante de uma determinada sociedade, ora se mostrou como um mediador de conflitos entre poderosas famílias de nobres e de burgueses, que através de negociações e acordos entre seus membros, chegavam a conclusões de interesse mútuo, e ora como a representação da supremacia de um grupo unificador se impondo contra menores, seja pela força econômica ou força militar (1).

A representatividade dos grupos sociais e econômicos de um país, isto é, o acesso ao seu Estado e portanto ao “poder legítimo”, surgiu sempre de maneira classista, explicitamente destinando-se a representar a classe que dominava de fato o Estado. O voto no Estado Moderno sempre foi censitário, por renda, por impostos ou posse de terras (2). O voto censitário era justificado como um avaliador simples da capacidade, estabilidade e qualidade do indivíduo, uma expressão meritocrática da sua posição na sociedade, um reflexo “lógico” da ideologia liberal-capitalista. “No taxation without representation”, lema clássico do movimento independentista norte-americano, uma vez realizada a independência que queriam, se tornou “no representation without taxation”, isto é, somente quem pagava impostos de propriedade é que poderiam se fazer representados dentro do Estado, excluindo a esmagadora maioria da população.

Hobsbawn escreve em “A Era das Revoluções” (pg. 106-107):

[…] No geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata, mas sim um devoto do constitucionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários.

Em alguns casos, já no final do século XIX, depois de décadas de luta popular, quando a elite estava um tanto “envergonhada” destas práticas descaradas de cerceamento político de partes expressivas de sua população pelo simples fatos de serem despossuídos, passaram a adotar eufemismos “liberais e progressistas” como a escolaridade como critério de votação, numa releitura da clássica frase de Anatole de France: “É proibido tanto a ricos analfabetos quanto a pobres analfabetos votar em seus representantes”. Isso para sociedades que não possuíam escolas públicas.

A Inglaterra, emblemático exemplo de “democracia ocidental”, só deu plenos direitos à sua população masculina toda votar em 1918, até então o voto destinava-se apenas, em maior ou menor grau, proprietários homens (mulheres só foram poder votar em 1928). Por lá, o voto secreto só entrou de fato em vigor em 1872 e o fim oficial da compra de votos apenas em 1884 (3). Neste processo, através de uma série de demandas populares foram diminuídas as restrições de propriedade, e a classe operária pôde começar a votar de fato em 1867 e mesmo assim, apenas 32% da população masculina na idade adequada, estava apta para tal nesta época (4).

Vale lembrar que até 1949 proprietários de empresas e comércio, podiam votar mais de uma vez em determinadas eleições, claramente uma medida para enfraquecer o poder popular organizado dos despossuídos. E, se lembrarmos que até 1910 parlamentares não recebiam salário naquele país, tínhamos uma seríssima restrição de acesso da massa de trabalhadores ao parlamento que não tinham tempo hábil para exercer o cargo e trabalhar em fábricas por exemplo, não tendo como financiar sua carreira parlamentar, a não ser quando um ou outro sindicato podia bancar os seus representantes. E mais, desde que parte da classe operária pôde começar a votar em 1867, apenas quem fosse proprietário e acima de 30 anos poderia concorrer a algum cargo, sendo que a expectativa de vida para um trabalhador inglês no meio do século XIX não passava de 40 anos (5).

Então, mesmo se forçarmos a barra e esquecermos todo o império colonial criado pelos britânicos, ainda temos que a toda a formação e consolidação do capitalismo inglês se deu fundamentalmente em bases não democráticas, semi-servil ou escrava (6).

Nos EUA, a auto-proclamada Terra da Liberdade, os direitos plenos a voto nacionais só foram instaurados em inacreditáveis 1964-1965, com a 24ª emenda e o Ato dos Direitos Civis. Até então os estados decidiam a questão e, embora a constituição nacional permitisse voto de ex-escravos desde 1869 (15ª emenda), os estados da federação trataram de passar, já naquela época, leis que na prática impediam os negros de votar (7). Os artifícios eram os mais variado, como testes de alfabetização (sendo que negros eram proibidos em escolas públicas), histórico de impostos (poll tax), inúmeros documentos e atestados de propriedades. Além disso, a proibição de votar a presos por certos crimes proliferou o número de pequenas prisões de negros e pobres em época de eleição para evitar que fossem votar, fato ainda controverso até hoje (8).

E mais, o voto só se tornou secreto nos EUA após 1884 (9), até então o nosso conhecido voto de cabresto, reforçado por poderosas elites e grupos paramilitares como a Klu Klux Kan e os Camisas Vermelhas (10) impediam ou intimidavam negros e minorias de votar como queriam. Assim, depois de muita luta, estado por estado, o voto universal de fato, só foi lei nacional nos EUA em 1965, isso se desconsiderarmos as implicações conservadoras que o voto colegiado (indireto) ainda fazem hoje, papo para outro post. Quanto pioneirismo da Terra da Liberdade.

Na França, o voto universal não restringido por renda ou posição social, só foi instaurado em 1875, após intenso combate popular desde as revoluções populares de 1848 e quatro anos depois da Comuna de Paris de 1871, a mais libertária das Revoluções, em que o voto universal foi uma das principais bandeiras (11). Porém, nem tudo são flores na República Francesa, apenas em 1913 o voto secreto foi estabelecido, mais de 120 anos desde a Revolução Francesa (12). E, em termos de igualdade de gênero, a França está atrás até mesmo do Brasil, as mulheres na França só passaram a votar em tardios 1945 (13)

Enfim, citando alguns outros exemplos, temos a Suíça  outro bastião da civilização, com uma democracia direta (plebiscitária) das mais antigas e sólidas, cunhada após intensos conflitos populares liderados por fortes correntes radicais contra resquícios do Antigo Regime (ainda em 1848). A Suiça só deu voto universal às mulheres em 1971 (14), isto é, este país, exemplo de democracia ocidental, só deu direito a voto a outra metade de sua população 41 anos atrás. Ali do lado, na Alemanha o voto universal masculino só chegou em 1918, isso com a derrota na Grande Guerra, até então havia um sistema censitário e nobiliárquico (1871-1918),  isso sem esquecer o período nazista que revogou a democracia alemã entre 1935 e 1945, mas não vêm ao caso.

Os exemplos poderiam prosseguir ainda com os vários países independentes das colônias inglesas, que só deram direito a todos os seus cidadãos a votar entre 1880 e 1920, sendo que a Austrália só deu direito a voto às minorias aborígenes em 1962. No caso europeu, não podemos esquecer que Espanha e Portugal só deram direito pleno de voto à sua população, respectivamente em 1978 e 1975 (15). No Brasil só para mencionar, fomos acabar com o voto censitário e vinculado à propriedade com a constituição de 1934, embora analfabetos, metade da população brasileira, só tenham obtido direito de votar com a constituição de 1988, com o final da ditadura militar. Até então eram – oficialmente – cidadãos de segunda classe.

E ainda que vivamos numa era de maior fiscalização e voto secreto, o famigerado voto de cabresto ainda está presente em várias eleições pelo mundo. Se antigamente era vinculado à coronéis e industriais “linha dura”, hoje são os chefes de milícia no Brasil (16) ou donos de empresa “respeitáveis” nos EUA (17) que forçam seus candidatos preferidos.

Porém, o que toda essa informação significa?

O capitalismo e o Estado Moderno como o conhecemos se estabeleceram na maioria dos países analisados muito antes da universalização de suas democracias. E sempre, sem exceção, o establishment capitalista evitou ao máximo que o direito pleno que tanto pregavam fossem de fato universalizados. A liberdade era apenas para quem tinha renda ou “capacidade”, nada para o homem comum e pobre das fábricas, campos e usinas. Foi com extrema luta de trabalhadores, liderados – é importante frisar – por comunistas, socialistas, anarquistas e sindicalistas em geral, é que o voto, entre tantos outros direitos sociais hoje “comuns”, foi conquistado contra o poder capitalista dominante, fundando a democracia mais ou menos plena.

A hegemonia da “busca pelo lucro” veio muito antes da democracia se tornar hegemônica (e a hegemonia da última ainda é bastante contestável). O ideal da democracia capitalista não era muito diferente da democracia grega antiga, onde um punhado de aristocratas e oligarcas tinham direito a comandar o Estado, deixando uma massa de escravos e semi-escravos sem direito a escolha, condenados à sua própria origem de nascença. E hoje ainda, é mais do que comum encontrarmos países capitalistas sem democracia, poderíamos dizer até que uma democracia transparente e estável é uma exceção e não uma regra nos países capitalistas.

Democracia jamais foi condição sine qua non para o capitalismo. Não foram os capitalistas radicais friedmanianos que instauraram o “livre mercado” na mais assassina das ditaduras da América do Sul, com mais de 30.000 mortos no Chile? (17). Não é Singapura uma rígida ditadura capitalista de Estado, tida como exemplar pelo “ocidente”? Ou o que foi o Egito e é a Arábia Saudita, se não brutais ditaduras aliadas do ocidente democrático-capitalista, produzindo petróleo para o “libertário” capitalismo euro-americano? Não é a China, o mais brutal regime capitalista já pensado: um Estado aristocrático, super-poderoso, que do comunismo só absorveu o que tinha de pior – a estrutura de poder bolchevique -, enquadrando infindável contingente de pessoas em trabalhos semi-escravos a serviço das mega-corporações mundiais? A prova final de que o namoro entre capitalismo e democracia não passa de retórica.

Então hoje, não é surpresa que em sinal de mais uma crise econômica, o capitalismo ganhe nova força solapando a democracia como nos acostumamos a conhecer, marchando abertamente para Estados onde proprietários e plutocratas detém de juri e de fato todo o poder político. A criminalização de movimentos sociais e sindicatos, ridicularização e esvaziamento de protestos, brutalidade policial em níveis ditatoriais no coração de todas as democracias ocidentais, esmagamento de direitos trabalhistas históricos, corporações e sistema financeiro fazendo rodízio entre os seus líderes favoritos, seja nos EUA ou no México; latifundiários derrubando governos eleitos no Paraguai e em Honduras, criando verdadeiras cidades privadas na última (17), tudo com auspícios das lideranças ocidentais; a Alemanha aplicando uma dieta econômica tirânica e colonial no seio da Europa, escravizando a Grécia de uma maneira sem precedentes; tudo em nome da “liberdade e da saúde da economia”. E poderíamos ainda incluir a promiscuidade entre o sistema carcerário, judiciário e corporações criando uma verdadeira “indústria do crime e punição” por toda parte (em especial nos EUA), exemplificada muito bem por Michael Moore no filme, “Capitalismo uma História de Amor”.

Falando deste filme, ao contrário do que prega Michael Moore, não foi o capitalismo, suas mega-corporações e interesses privados representados dentro do Estado, que atropelaram a democracia. Numa perspectiva histórica, foi a democracia – a busca por igualdade social e econômica além da meramente jurídica -, é que tentou, por um breve momento da história, em certos cantos do mundo, atropelar o capitalismo. O Estado capitalista sempre foi abertamente feito para proprietários, para corporações e seus interesses privados, o interesse da massa de trabalhadores foi sempre visto como um mal que “desordena a economia e o mercado”. Então, é natural dentro desta lógica, que esses direitos sociais e trabalhistas históricos, conquistados à duras penas, sejam “revisados” e excluídos da estrutura do Estado em todas as oportunidades que aparecem, em nome da economia e da “austeridade”. O acirramento do conflito entre trabalhadores, Estado e corporações que vemos hoje é na verdade um retorno nítido às disputas do final do século XIX. A breve história do Estado de Bem Estar Social e da democracia popular, mal completaram algumas décadas e já aparecem seriamente questionadas e ameaçadas, se mostrando inviáveis dentro da lógica do sistema. Seu ápice não passou de mera exceção na história do capitalismo.

“Eu não acredito que estamos lutando por estes direitos novamente”.

LEANDRO DIAS

Notas:

1 – A dicotomia entre Estado e Capitalismo, tão enfatizada por liberais, não passa de um mito ideológico de reinvenção do passado. O Estado sempre foi o principal fomentador do capitalismo privado na imensa maioria das nações, foi através deles que os interesses privados dominantes se fizeram ainda mais dominantes e se expandiram. Seja o exército inglês protegendo a expansão da empresa privada Companhia das Índias Orientais no processo de colonização indiano ou na Rodésia e em tantas outras nações africanas, ou as indústrias petroleiras e armamentista sendo os principais lobistas e beneficiários da expansão belicosa norte-americana no Oriente Médio. Não será preciso ir muito a fundo, pois já tocamos neste assunto aqui aqui.

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Suffrage

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/Parliamentary_Franchise_in_the_United_Kingdom_1885%E2%80%931918 ; e também aqui http://en.wikipedia.org/wiki/Elections_in_the_United_Kingdom#History

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Representation_of_the_People_Act_1884

5 – http://www.census-helper.co.uk/victorian-life/

6 – Ver Hobsbawn, Eric “A Era das Revoluções” e Engels, Friedrich “As Condições da Classe Operária Inglesa” (pdf).

7 – http://en.wikipedia.org/wiki/Voting_rights_in_the_United_States

8 – http://jacobinmag.com/2012/05/the-political-economy-of-mass-incarceration/

9 – http://en.wikipedia.org/wiki/Secret_ballot

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Red_Shirts_(Southern_United_States)

11 – http://en.wikipedia.org/wiki/Paris_Commune

12 – http://www.assemblee-nationale.fr/histoire/suffrage_universel/suffrage-1870.asp#gauche

13 – http://en.wikipedia.org/wiki/Women’s_suffrage

14 – http://history-switzerland.geschichte-schweiz.ch/chronology-womens-right-vote-switzerland.html

15 – http://en.wikipedia.org/wiki/Universal_suffrage

16 – http://www.cartacapital.com.br/politica/paes-ganharia-eleicao-no-primeiro-turno-diz-ibope/

17 – http://www.nytimes.com/2012/10/27/us/politics/bosses-offering-timely-advice-how-to-vote.html

18  – http://en.wikipedia.org/wiki/Chicago_Boys

19 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120909_honduras_cidade_modelo_lgb.shtml

A previsível reeleição de Barack Obama

Obituário Tea Party

“Obituário da América” que Tea Party proclamou após a derrota.

Nas eleições recentes, dia 6.11.2012, os eleitores norte-americanos reelegeram Barack Obama como presidente daquele país, para mais quatro anos de mandato. Para nós do Rio Revolta, o resultado não causa a menor surpresa.

Vejamos porque.

O governo Obama

O fator crucial para este resultado não foi a relativamente baixa aprovação da administração Obama (1), que em seu primeiro mandado foi, para dizer o mínimo, decepcionante. A economia norte-americana continuou por todo o período em estado letárgico, embora em lenta recuperação. Por sua vez, o desemprego (oficial), embora com tendência declinante (2), permanece elevado – 7,9% da força de trabalho em outubro de 2012. Dito dessa forma, parece pouco. Mas percentuais são números, e não pessoas, e o número delas que se encontra atualmente sem emprego nos EUA é de 12,3 milhões.

Tudo isso, em boa parte, porque os Estados Unidos não se permitem criar um banco estatal de desenvolvimento, como o BNDES brasileiro.

Para os americanos, bancos estatais, mesmo os que só financiam os negócios burgueses, caracterizam socialismo.
O máximo que a histeria ideológica dos americanos pelo que chamam (embora não pratiquem) de livre-mercado lhes permitiu conceber contra a crise financeira foram pacotes trilionários de resgate para setores considerados absolutamente essenciais à sobrevivência de seu capitalismo, como os bancos e a indústria automobilística.
Em resumo, transferiram uma montanha incalculável de dinheiro para as mãos dos mesmos banqueiros que emprestaram e especularam tão ostensivamente, e de forma tão temerária, que criaram uma bolha de endividamento cujo estouro levou o sistema ao colapso.

Colapso que só não se concretizou, de fato, devido à intervenção estatal nos chamados mercados.

Os governos Bush e Obama também salvaram suas indústrias automobilísticas nacionais como a GM, Ford e Chrysler, embora elas tenham se tornado muito menos eficientes que as indústrias japonesas – Toyota e Honda -, que já dominam boa parte do mercado consumidor do país (3).

Fossem seguir à risca o livre-mercado que pregam, os norte-americanos teriam deixado suas fábricas nacionais morrerem. Afinal, é natural do pleno funcionamento do livre-mercado a eliminação dos menos eficientes…

Em suma, os pacotões trilionários foram uma criação de Bush endossada por Obama, verdadeiro prêmio à eficiência de seus banqueiros e industriais, no melhor estilo da meritocracia americana. Tudo para garantir que a ciranda financeira prossiga normalmente. A única coisa de maior interesse que Obama criou em seu 1° mandato foi, incontestavelmente, o Patient Protection and Affordable Care Act – também conhecido como Obamacare (4).

Trata-se de um sistema público de cobertura médica para boa parte da população do país que, até então, não possuía recursos para ter acesso aos serviços de assistência médica privados. Um número estimado em 50 milhões de pessoas (5), no país mais rico do mundo.  Desnecessário dizer que, por isso, Obama foi logo taxado de socialista. Sim porque, sem dúvidas, a existência de um sistema público de saúde compromete irreversivelmente a liberdade de escolha do indivíduo…

Não pretendemos nem lembrar a política externa, na qual Obama – Prêmio Nobel da Paz em 2009 (6) -, como todo presidente norte-americano, teve atuação criminosa. Promoveu ou foi, no mínimo, conivente com o golpe de Estado em Honduras; apoiou política e materialmente a invasão ocidental da Líbia; encerrou a ocupação no Iraque é verdade (nota do editor n°1), mas a mantém no Afeganistão; violou a soberania (?) nacional do Paquistão para – assim se acredita – eliminar Osama bin Laden; reforçou a Quarta Frota Americana para o Atlântico Sul, (re)criação de Bush filho em abril de 2008 (nota do editor n°2); além de apoiar o golpe branco do Paraguai, levando a cabo as claras intenções de criação de uma base militar no país (nota do editor n°3).

Enfim, pode-se argumentar, como atenuante para sua performance decepcionante, que Obama teve que lidar, na segunda metade do seu mandato, com um legislativo que lhe era francamente hostil. Particularmente, estamos falando da Câmara dos Representantes, de maioria amplamente republicana a partir da metade de seu mandato – no Senado, a maioria era, e continuará sendo, democrata (53 senadores contra 47 republicanos) (7).

Uma maioria republicana que, por sinal, foi renovada nestas eleições: agora serão 240 republicanos (em 2010 eram 242) contra 190 democratas (em 2010 eram 193) (8). Vale lembrar que, em 2008, na esteira da vitória de Obama nas eleições presidenciais, os democratas tinham 257 congressistas e os republicanos, 178, momento em que Obama desfrutou, portanto, de ampla maioria nas duas casas do Congresso. De qualquer maneira, não foi um grande governo. De estadista, Obama pode até ter a pose e o carisma, mas careceu de grandes feitos e idéias.

Porque então, apesar disso tudo, Obama foi reeleito?

O Partido Republicano e o Tea Party: um circo dos horrores

Obama teve seu trabalho para a reeleição enormemente facilitado por um simples fato: a impressionante desconexão entre o pensamento (?) atual dos republicanos e a realidade. O fato é que o Partido Republicano encontra-se hoje refém de uma ala, e precisamente da mais radical, o chamado Tea Party (9).

Um grupo composto em sua maioria por fundamentalistas religiosos e econômicos dos estados do sul e do meio-oeste dos Estados Unidos e que acreditam em ou defendem fervorosamente coisas como:

– o ideal de governo mínimo e um rigoroso e inflexível equilíbrio fiscal;
– o livre funcionamento do que chamam de mercados;
– o que consideram ser o empreendedorismo individual;
– políticas ferrenhamente anti-imigratórias;
– o ensino do criacionismo nas escolas;
– o excepcionalismo histórico dos EUA e o cumprimento de sua missão civilizatória no mundo;
– e a superioridade de seus valores culturais e de suas instituições políticas.

Por outro lado, os membros do Tea Party se opõem visceralmente a:

– impostos em geral;
– expansão dos gastos governamentais, do endividamento e do déficit público;
– prestação de serviços públicos à sociedade, coisa que consideram ser socialismo;
– a atuação dos EUA enquanto polícia internacional; defendem um retorno ao tradicional isolacionismo anterior ao século XX;
– facilitação de concessão de cidadania ou visto de permanência aos imigrantes;
– liberação do aborto em qualquer caso; entre outros.

Em resumo, trata-se de uma reação conservadora extremamente exacerbada ao caminhar da sociedade norte-americana para os valores do liberalismo e do multiculturalismo, tal qual à expansão das funções governamentais do Estado norte-americano.

Embora isoladamente muitos desses valores sejam, sem dúvidas, ideais tradicionais na cultura política norte-americana, sua sistematização enquanto doutrina (10) e a inflexibilidade com que são defendidos caracterizam o Tea Party. E não necessariamente todos os demais eleitores nem mesmo republicanos, que dirá de todo o país.

Posto isso, podemos dizer que as falhas de estratégia política da campanha republicana para 2012 foram clamorosas.
Por curioso que pareça, os republicanos começaram até relativamente bem ao escolher nas primárias Mitt Romney, ex-governador de Massachussets, um estado de forte tendência democrática e liberal.  Uma opção, a princípio, menos ortodoxa do que o libertário Ron Paul, a tea-partier Michelle Bachmann e o fanfarrão Newt Gingrich.

Romney, um mórmon, fez um governo considerado moderado em seu estado, no qual aprovou uma legislação de seguridade social em muito semelhante ao Obamacare que viria futuramente a criticar. Ryan, católico e, por contraditório que possa parecer, objetivista (11), foi escolhido por Romney para ser seu companheiro de chapa por se aproximar do extremismo do Tea Party em questões como a defesa das liberdades individuais e do governo mínimo (12).
Embora já apontasse para uma acomodação com os ideais extremistas do Tea Party, a chapa Romney-Ryan ainda não era, dentro do que se poderia esperar dos republicanos, das mais ortodoxas. Estava mais próxima do centro político do que a grande maioria dos outros potenciais candidatos republicanos. Todavia, como se não bastasse esse gesto, falas terríveis e desastradas de Romney fizeram lembrar os mais belos ideais do Tea Party.  Senão, vejamos alguns exemplos:

– Gravado por câmera escondida, Romney diz, em jantar privado de arrecadação de fundos, que 47% do eleitorado não pagam imposto e dependem do governo e, por isso, não deveria perder seu tempo com eles, pois automaticamente votariam em Obama (13). Com isso ele hostilizou e se afastou do que ele próprio percebeu como quase a metade do eleitorado do país;

– Criticando o Obamacare, Romney diz, num país atualmente com 12,3 milhões de desempregados: “[…] eu gosto de poder demitir pessoas que trabalham para mim” (14);

– Romney, empresário multi-milionário, não se dispôs a abrir suas declarações de imposto de renda, apesar das enormes pressões que sofreu para tal. Pairam sobre ele suspeitas de uso de artifícios para driblar o fisco dos EUA;

– Romney retoma um velho tema da cultura política norte-americana ao dizer que “Deus fez a América para dominar o mundo” (15).

Como se não bastasse, seus companheiros republicanos não se sairam muito melhor:

– Todd Akin, candidato do Partido Republicano ao Senado pelo Estado americano de Missouri e (acredite) membro do Comitê de Ciência da Câmara dos Deputados, diz: “[…] no caso de um estupro legítimo (sic), o corpo feminino tem maneiras de bloquear essa coisa toda” (16);

– Richard Mourdock, candidato ao senado por Indiana, diz que “[…] gravidez após um estupro é a vontade de Deus” (17).

Não deve nos causar nenhuma surpresa que, mesmo num país repleto de fanáticos e fundamentalistas como os EUA, nenhum desses indivíduos tenha sido eleito. Preço justo a se pagar para um partido cujos sensíveis candidatos descartaram a priori: 47% do eleitorado; imigrantes; desempregados; e mulheres.

Rumo à renovação (?) republicana

Rio Revolta credita este tipo de crenças à sandice, à ignorância, à pura e simples cegueira. Porque é difícil crer que tenha se tratado de uma estratégia (?) eleitoral. Se foi, foi das mais estúpidas. Porque os fundamentalistas do Tea Party não votariam, com a mais absoluta certeza, num liberal negro com possíveis raízes familiares islâmicas como Barack Hussein Obama.

Romney e seus comparsas fizeram, portanto, campanha para seus mais-do-que-prováveis-eleitores, ao passo que, distanciando-se do centro político – dos independentes, dos conservadores que, apesar disso, são democratas (coisa que existe) e dos republicanos mais liberais (coisa que também existe) – os entregaram todos de presente nas mãos de Barack Obama.

Em suma, o pensamento (?) atual do Tea Party que dominou a retórica dos republicanos não permite adequar o partido, suas figuras e seus ideais à atual realidade demográfica e sócio-cultural dos Estados Unidos. Pelo contrário, cada vez mais fundamentalista, anti-social, xenófobo e rancoroso, o Tea Party pretende que o país se adeque às suas idéias. Parecem incapazes de compreender que o domínio atual dos EUA sobre o planeta requer, entre outras coisas, a difusão de seus valores e instituições liberais, a aceitação da imigração em grande escala e um Estado grande, poderoso e comandante.

Como bons fanáticos que são, pensam (?) que a realidade é que deve se adequar às suas teses, e não essas que deveriam explicar aquela. Para o Partido Republicano, a mensagem das eleições de 2012 deve ser clara. Sua viabilidade eleitoral requer que se adeque aos novos tempos, ao invés de fazer concessões a um grupo que permanece pregando uma América majoritariamente branca, conservadora, profundamente religiosa e pura e superior em seus valores e suas ações.

Uma América, em suma, que não existe mais.

E só mesmo o alucinado Tea Party para criar uma figura como essa que ilustra esse texto (18), sem perceber que a “morte” decretada ontém não foi da América mas, possivelmente, de si mesmo.

Daniel Kosinski

Notas

1 – http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_presidential_approval_rating

2 – http://data.bls.gov/pdq/SurveyOutputServlet?request_action=wh&graph_name=LN_cpsbref3

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/Effects_of_the_2008%E2%80%932010_automotive_industry_crisis_on_the_United_States

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Patient_Protection_and_Affordable_Care_Act

5 – http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2012/10/04/obama-revogacao-do-obamacare-deixaria-50-milhoes-sem-cobertura.htm

6 – http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/

7 – http://en.wikipedia.org/wiki/2012_senate_elections

8 – http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_House_of_Representatives_elections,_2012

9 – http://en.wikipedia.org/wiki/Tea_Party_movement

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Pledge_to_America

11 – Trata-se de uma filosofia política, muito contestada na academia, elaborada por uma pensadora de origem russa chamada Ayn Rand. É uma visão de mundo radicalmente racional e ateísta. Por ocasião das eleições 2012, pressionado pelos tea-partiers, Ryan negou ligação com essa doutrina.

12 – http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_ryan

13 – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/67020-gafes-em-serie-abalam-campanha-de-romney.shtml

14 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120110_primarias_new_hampshire_ac.shtml

15 – http://www.clicksergipe.com.br/1n_blog.asp?postagem=70856

16 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120820_estupro_deputado_ru.shtml

17 – http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-10-24/candidato-republicano-ao-senado-diz-que-gravidez-pos-estupro-e-vontade-de-deus.html

18 – http://oglobo.globo.com/topico-eleicoes-americanas/movimento-tea-party-declara-morte-dos-estados-unidos-apos-vitoria-de-obama-6664136

Notas do Editor (Leandro Dias)

1 – Obama de fato retirou formalmente as tropas oficiais do Iraque, ainda que todas as grandes corporações americanas de segurança (Private Military Contractors), dentre elas a famosa Blackwater, formem um contingente expressivo, substituindo o exército americano na maioria das tarefas. Nos primeiros 4 anos de guerra no Iraque, mesmo com maciça presença americana no país, os EUA gastaram 10 bilhões de dólares com estas empresas (http://www.thedailybeast.com/newsweek/2010/08/10/mercenaries-in-iraq-to-take-over-soldiers-jobs.html)

2 – http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u418285.shtml

3 – http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1293057&tit=Paraguai-discute-possibilidade-de-abrigar-base-militar-norte-americana

Alguns comentários sobre as eleições 2012: José Serra e o PSDB

Bento Carneiro?

Rio Revolta não vê grandes fatos a serem comentados sobre o resultado das eleições municipais de 2012. Por isso, destacaremos apenas aqueles dois que consideramos de alguma relevância: a derrota de José Serra em São Paulo, e o crescimento do PSB enquanto partido, ambos fatos com repercussões certas em 2014. No post presente, abordaremos a primeira destas questões.

José Serra

Foi sem dúvidas o grande derrotado destas eleições. Confesso que sua vitória me parecia certa antes do início da campanha em si, dado o tradicional conservadorismo dos paulistanos, acostumados a passar cheques em branco para o tucanato.

Somava-se a este fato a intensa propaganda anti-petista veiculada diariamente pelos veículos de comunicação de massa, em uníssono, através da fabricação do que estão chamando de mensalão (que comentamos aqui).

Mas desta vez, nem mesmo tudo isso foi suficiente. A derrota de Serra foi acachapante, senão mesmo humilhante, considerando-se a virtual inexistência política de Fernando Haddad antes de sua empreitada à prefeitura de SP.

Por sinal, é a segunda vez que Lula inventa, do nada, um candidato vitorioso sobre José Serra. A 1ª vez foi na eleição da atual presidente do país, Dilma Roussef, em 2010.

Ganhar do Serra está mesmo muito fácil.

Rio Revolta considera excelente a derrota de José Serra. Trata-se de uma figura política deprimente; suas campanhas eleitorais são sempre baixas, apelativas (1); seus “governos”, infelizes.

Sua ambição é desmedida e muito superior às suas capacidades.

Quanto aos seus “governos” (com muitas aspas), vale lembrar que costumam durar pouco, as vezes muito pouco, leia-se, até as próximas eleições.

Prefeito eleito de São Paulo em 2004, abandonou o cargo apenas 15 meses depois, para concorrer ao governo do estado em 2006 (eleição que, apesar desta flagrante demonstração de “comprometimento” com seu eleitor, ele ganhou).

Foi quando Serra entregou a prefeitura para uma figura então obscuríssima e totalmente desconhecida que atendia pelo nome de Gilberto Kassab.

Espécie assustadora de frankenstein (2), essa “brilhante” criatura política inventada por José Serra ainda conseguiu se reeleger em 2008, embora, ao que tudo indica, tenha feito um “governo” verdadeiramente lamentável (3).

Mas a vida é mesmo muito curiosa.

Eis que anos depois, nas eleições municipais de 2014, José Serra, com mais uma derrota presidencial adicionada ao seu currículo e apostando suas últimas cartas na política, sai como candidato à Prefeitura da administração de….. Gilberto Kassab, sua criatura!

E a elevadíssima rejeição deste último, somado ao desgaste da imagem de José Serra, se materializam em sua derrota para Fernando Haddad do PT e, queremos crer, em seu definitivo enterro político (como indigente).

José Serra: ambição, traição e incompetência

A verdade é que José Serra já vinha sendo, faz tempo, uma força negativa para os resultados eleitorais nacionais do PSDB, embora tenha conquistado vitórias importantes em São Paulo e um número expressivo de votos na derrota para Dilma.

Vale lembrar de alguns fatos.

Nas eleições presidenciais de 2002, o então-PFL-atual-DEM, fiel escudeiro do PSDB durante os oito trágicos anos do reinado de Fernando Henrique Cardoso (4), propôs uma inversão de papéis. A proposta era que, ao contrário do período 1995-2002, o PFL apontaria o candidato à presidência da República e ao PSDB caberia a vice-presidência.

Uma idéia que não era, em si, nada absurda.

Vamos lembrar que, em 2002, o PFL controlava 1.028 prefeituras, contra 990 do PSDB (5); governava seis estados (AM, BA, MA, PR, RO, TO), e o PSDB, sete (CE, ES, GO, MT, PA, SP, SE) (6); possuía 105 deputados federais, contra 99 do PSDB; e 20 senadores, contra 16 do PSDB (7).

Ou seja, excetuando-se a presidência da República, o PFL, enquanto partido, era até mesmo ligeiramente maior que o PSDB.

Para aplicar seu plano, os pefelistas só não contavam com dois problemas: as enormes ambições de José Serra; e os vínculos orgânicos do PSDB com a grande mídia, também chamada de PIG (8).

De fato, o PSDB recusou a proposta e o PFL a revelia lançou a candidatura de Roseana Sarney que, tão logo ganhou alguma envergadura, chegando a quase 30% das intenções de voto segundo as pesquisas (9), foi impiedosamente torpedeada pela mídia tucana, retirando sua candidatura ainda em março de 2002.

Roseana Sarney e as ambições presidenciais pefelistas foram tão brutalmente torpedeadas como teria sido – e muitos foram – qualquer candidato do PT.

Mas vamos concordar que não era preciso grande arapongagem para descobrir as picaretagens de um Sarney…..

Assim, estava aberto o caminho do campo conservador para mais uma candidatura tucana, e o indicado, como se esperava, foi José Serra, já desde então queridinho da mídia, ministro da Saúde do “governo” FHC e a quem se atribuía a criação dos medicamentos genéricos.

Mas a resposta do PFL à tremenda ingratidão dos ambiciosos e traidores tucanos foi clara: seus figurões não participaram ativamente da campanha presidencial do PSDB e o partido não apontou um quadro seu para a vice-presidência na chapa de Serra (10).

E foi assim que as ambições de Serra, alimentadas pela mídia tucana que lhe é subserviente, puseram fim à virtuosa (para eles) coligação conservadora PSDB-PFL que havia sustentado a presidência FHC.

Sem dúvidas, valiosa contribuição de José Serra para a vitória de Lula em 2002.

Em 2006, com Serra fora do páreo na presidência – foi candidato vitorioso ao governo de SP -, Geraldo Alckmin foi o candidato tucano derrotado por Lula.

Por sinal, aquele que chegou mais próximo de derrotar o PT desde 2002, pelo menos, no 1° turno (11).

Nas eleições presidenciais de 2010, o nome mais viável eleitoralmente do PSDB já era, sem dúvidas, o de Aécio Neves, que significaria uma renovação na liderança do partido e encontrava-se muito prestigiado após seus dois mandatos como governador de Minas Gerais, o 2° maior colégio eleitoral do país.

Aécio defendia a realização de prévias dentro do partido entre ele e Serra, para definir o candidato.

Todavia, José Serra e Geraldo Alckmin, no comando do PSDB de São Paulo, impuseram a candidatura Serra ao partido.

Como Aécio Neves ainda era relativamente novo (então com 50 anos) e podia esperar, acabou lançando-se candidato ao Senado, fato que, de certa maneira, acomodou as forças, permitindo a Serra ser o candidato sem prévias num partido, teoricamente, unido.

Contudo, ao lançar-se candidato a senador, Aécio automaticamente rejeitou a possibilidade de compor chapa com Serra, no papel de vice-presidente. Esvaziava assim aquela que poderia ser, teoricamente, a chapa tucana mais forte à presidência.

É de se duvidar se até mesmo em Minas Gerais Aécio tenha se empenhado pela vitória de Serra como poderia se esperar; ou talvez, tenha mesmo apoiado, tacitamente, a sua derrota (12).

E assim José Serra, mais uma vez e como quase sempre, desagregou suas próprias forças e perdeu as eleições.

O fim (?) político de José Serra e o PSDB

O problema é que, ao contrário do que possa parecer óbvio num primeiro momento, a provável – mas nada certa (13) – morte política de José Serra pode não ser um fato a ser comemorado por aqueles que, como nós do Rio Revolta, fazemos oposição visceral às figuras e aos valores políticos do tucanato e a tudo que lhes diz respeito.

Por sinal, o invejoso Fernando Henrique Cardoso, também enterrado politicamente como indigente desde 2002, já se encontra em campanha aberta para impor seu mesmo e trágico destino ao camarada José Serra (14).

Sem dúvidas, para aqueles que, como Aécio Neves, pretendiam tomar o controle do PSDB das mãos de Serra e, de forma mais ampla, do tucanato paulista, essa é a hora.

Para um político com a visibilidade e a experiência de Serra, perder uma eleição municipal no seu quintal equivale a uma sentença de inviabilidade eleitoral.

Porém, é importante explicarmos: com inviabilidade eleitoral queremos dizer, disputar cargos majoritários, Poder Executivo.

Isso porque, apesar de tudo, não temos dúvidas de que, infelizmente, Serra permanecerá sendo um sério contendor em eleições legislativas. São Paulo o elegeria facilmente deputado federal ou senador, talvez com votação recorde.

De qualquer forma, será mesmo necessária muita lealdade de seus aliados para que não o abandonem.

Lealdade e política são duas coisas que, em geral, não combinam.

Politicamente, Serra está completamente esvaziado; mas egocêntrico e pretensioso que é, por certo, não desistirá de seus delírios de grandeza.

Está certo e nada parece convencê-lo do contrário de que, apesar dos já 70 anos de idade, de todas as derrotas sofridas, de todo o desgaste e falta de credibilidade junto ao eleitorado e da sua estética de vampiro, ainda pode ser presidente da República.

Em todo caso, para nós que nos opomos e combatemos o tucanato, seria ótimo que Serra ganhasse essa disputa e conseguisse sobreviver politicamente.

Com isso, o PSDB não se renovaria, Serra continuaria disputando eleições majoritárias e, quem sabe, até mesmo a presidência em 2014, 2018, 2030, 2050, sabe-se lá.

Seriam derrotas certas que assegurariam a este país que os tucanos jamais voltariam a administrá-lo.

Um cenário, todavia, que parece pouco provável.

Acreditamos mesmo que, desta vez, o vampiro morreu.

A conferir.

Antonio Gordo

1 – A lista é extensa, de cabeça, lembro de alguns episódios da campanha presidencial de 2010: a “agressão da bolinha de papel”; o uso manipulativo de uma filiação à Igreja Católica que nunca existiu (visita a Aparecida, por exemplo); a propaganda que tentou vincular Dilma à defesa do aborto; e etc.

2 – http://www.youtube.com/watch?v=DwZRpy1CQCg

3 – http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-08-17/avaliacao-negativa-da-gestao-kassab-e-de-43-diz-ibope.html

4 – Sim, reinado: sua coalizão tinha a maioria esmagadora da Câmara dos Deputados, do Senado e dos governos estaduais; contava com apoio irrestrito da grande mídia/PIG; ditou um número espantoso de medidas provisórias; privatizou/doou quase tudo que quis; e por fim, comprou sua própria reeleição.

5 – http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2004-10-04/pt-pl-e-pps-estao-em-ascensao-nas-prefeituras-desde-1996

6 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_gerais_no_Brasil_em_1998

7 – http://www.ipu.org/parline-e/reports/arc/2044_98.htm

8 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_da_Imprensa_Golpista

9 – http://www1.uol.com.br/fernandorodrigues/arquivos/pesquisas/eleicoes2002/pres.shl

10 – A candidata a vice-presidência na chapa de Serra foi a eleitoralmente expressiva tucana do Espírito Santo, Rita Camata. O PSDB se apresentou, portanto, como uma chapa puro-sangue.

11 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_presidencial_brasileira_de_2006

12 – O voto “Dilmécio” foi majoritário em Minas Gerais naquelas eleições.

13- http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,apos-derrota-serra-diz-a-tucanos-que-renovacao-e-coisa-do-pt,953695,0.htm

14 – http://oglobo.globo.com/topico-eleicoes-2012/serra-critica-tese-de-fh-sobre-renovacao-no-psdb-6604836