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Uma auto-proclamada “esquerda revolucionária”

Yoga Revolucionária?

Yoga Revolucionária?

A imagem que vai em anexo a este curto texto, ou melhor dizendo, a este breve lamento, é sintomática do tipo de organização ou movimento – porque nem todos, de fato, se “organizam” politicamente e parecem desejar continuar assim – que, no Brasil, atribui a si próprio anseios ou faculdades revolucionárias.

A proposta do “yoga revolucionário” é, no mínimo, curiosíssima.

Que prática do yoga seria essa capaz de transformar a sociedade, abalando os alicerces da ordem burguesa, promovendo a reforma agrária, redistribuindo a renda e a riqueza e por aí vai?

Sem que, evidentemente, para isso, tenha que confrontar ninguém.

Com certeza não se pode deixar de atribuir a seus proponentes uma confiança fantástica nas capacidades transformadoras e nos poderes da mente.

Está também assegurada a participação de performáticos artistas, que quem sabe poderão encontrar seus espaços, ou talvez até seus nichos de mercado, entre os revolucionários ocupantes da Câmara…

É claro que estamos, com as provocações acima, propositalmente, cometendo um ato de flagrante e injusto reducionismo.

Movimentos como o “Ocupa Câmara” não se limitam, absolutamente, a apenas a isso, e tem sua importância e validade no mínimo como demonstrativo de quem nem toda a juventude está apática e também, para exercer clara pressão sobre os digníssimos “representantes populares” que, por mandato eletivo, lá se encontram.

Embora, é claro, os movimentos Ocupa jamais serão capazes de substituir o peso da maciça presença da população que, lamentavelmente, não vem se verificando mais nas manifestações.

Todavia, o destaque específico daqueles pontos sui generis no meio da programação do “Ocupa Câmara” tem como objetivo, apenas, ressaltar certos aspectos que ficam absolutamente evidenciados a partir desse tipo proposta. Um tipo de posicionamento que expõe traços muito claros dessa “esquerda” existente no Brasil que, afirmando-se politicamente revolucionária, não consegue ser mais do que multiculturalista.

Uma “esquerda revolucionária” sem foco, sem objetivos políticos efetivamente revolucionários muito bem definidos, se é que os definiu em algum momento.

Que dirá praticante de estratégias políticas objetivas, pragmáticas, para alcançá-los.

Uma “esquerda revolucionária” festeira, afeita às grandes celebrações culturais – fato positivo, embora em nada surpreendente -, mas que se mostra politicamente inócua, pois carece de objetivos claros e de estratégia minimamente eficiente.

Uma “esquerda revolucionária” que anda pouco ambiciosa, mais restrita às “pequenas revoluções”.

Por exemplo, contra o sexismo e contra a homofobia, questões, sem dúvida, relevantes, importantes, fundamentais, porém não substitutivas de uma luta efetiva contra uma ordem liberal burguesa que, organizada como ela só, ainda transforma demandas e símbolos feministas e homossexuais, entre muitos outros, em interessantíssimas fontes de lucro.

Pode-se também argumentar que é uma “esquerda”, além disso, diminuta em termos de adesão popular, pequenez essa que pode ser, ela própria, efeito, e não causa, da sua falta de preparo.

Vale lembrarmos, por outro lado – fora o simbolismo de ocupar uma Câmara legislativa, demonstrando que nem todos estão totalmente dominados pela apatia: o que há de revolucionário em exigir dos mandatários dos cargos eletivos que cumpram com seus deveres legais?

Nada, absolutamente nada.

E isso demonstra que, apesar de todos os pesares, apesar de todos os abusos, ainda temos uma população, incluindo os que se dizem “revolucionários”, legitimando esses poderes que aí estão constituídos, que de alguma forma ainda deles espera alguma coisa, que neles ainda confia o suficiente para deles exigir soluções. “Revolucionários”, enfim, que talvez não se sintam capazes, ou nem sequer tenham contemplado a hipótese de se transformarem, eles mesmos, no poder constituído.

O “yoga revolucionário”, por curioso que o termo seja, expõe inequivocamente o ideal dessa “esquerda revolucionária”, multiculturalista, talvez realmente muito bem intencionada mas, acima de tudo, pacifista, e que por isso se mostra incapaz, por princípios, de admitir que não há nem pode haver ação revolucionária eficaz que despreze o uso, mais ou menos explícito e indiscriminado, da violência.

Violência que é, goste-se ou não disso, o fator de decisão de última instância da política. E cujo uso não estamos defendendo nem propagando, mas apenas, constatando sua natureza essencial nas relações políticas, tema por nós já amplamente tratado em outros textos por aqui.

Que essa “esquerda” se julgue, sem nenhum problema e ao seu bel prazer, de esquerda, mas que, em nome da coerência, descarte o “revolucionária” e encontre um outro qualificativo para acompanhar o primeiro termo. “Esquerda eleitoral”, “esquerda cultural”, “esquerda pacifista”, e por aí vai. Ou tudo isso junto. Ou como é típico dos ideais da pós-modernidade que permeiam seus integrantes: uma esquerda “que não precisa se definir”, porque afinal definições são discriminativas, limitadoras e excludentes.

O que seja.

Pelo menos, assim agindo, essa “esquerda” desfaz a confusão de atribuir revolucionarismo a grupos efetivamente incapazes disso, por princípios e por falta de meios, abrindo com isso, quem sabe, as portas para o surgimento de uma outra esquerda que, de fato, possa e queira assumir esse papel.

Pois uma “esquerda revolucionária” dessas, cujas únicas armas que se sente capaz de empunhar sejam o poder transformador do yoga e das artes é, sem dúvidas, aquela esquerda que e a ordem liberal burguesa e a direita sempre pediram a Deus.

Daniel Kosinski

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A democracia e o mito da sua representação pacífica

A Paz no Alemão

As manifestações ocorridas no Brasil nas últimas semanas, resultando quase sempre em confrontos localizados com as forças de segurança do Estado, trazem uma vez mais para a ordem do dia as representações dos fatos veiculadas pelos grandes grupos de comunicação hoje existentes no Brasil.

Essas representações são invariavelmente parciais ou, simplesmente, flagrantemente deturpadas.

Via de regra, elas exploram alguns episódios limitados de danos ou destruição de propriedades e bens públicos e privados para disseminar a idéia da existência do “vandalismo” nas manifestações, ou seja, em última instância, criminalizando toda e qualquer demonstração ou emprego de violência por parte da reduzida parcela dos manifestantes que apresentam disposição e coragem para tal.

Conceituou-se, nesses discursos, uma distinção clara entre “manifestantes” – pacíficos – e “vândalos”, “arruaceiros” ou “baderneiros” – violentos -, nos quais os primeiros são aceitos ou até mesmo comemorados, enquanto que os últimos são denunciados e rechaçados com veemência.

Tudo se passa como se a eventual violência dos manifestantes fosse uma ilegitimidade numa sociedade em si mesma pacífica e que aquela violência, quando presente, deva ser a priori condenada.

Subjaz a esse discurso o ideal de que a chamada “democracia” seria uma forma em si pacífica, não-violenta, de organização política e que permite, sim, a livre manifestação dos insatisfeitos, desde que essa expressão se dê de forma ordeira, pacífica, não confrontadora, sem danos ao patrimônio.

Por razões óbvias, além da mídia, esse também é o próprio discurso oficial das figuras representantes das autoridades constituídas, tais como prefeitos, governadores e a própria presidente da República.

Finalmente, trata-se de um discurso de fácil aceitação e grande reverberação por amplas parcelas da população, conforme temos percebido ao observar as chamadas “redes sociais”.

Contudo trata-se de um discurso distorcido, não sendo muito difícil percebermos o porque.

Ordem política é violência

Max Weber, em que pesem todos os seus esforços para conceituar as formas típico-ideais do exercício consensual do domínio político, ou seja, com o consentimentos dos dominados – tradicional, carismático e racional-legal -, nunca negou o fato de que o poder último, decisório e definitivo que sustenta essa relação é o emprego da violência.

Por isso, naquela que provavelmente é, na sociologia, a definição não-marxista mais corrente do Estado, Weber definiu a sua principal característica como a de ser o detentor do monopólio do uso legítimo da violência.

No Brasil contemporâneo, a julgar pela representação dos fatos veiculada pela mídia e exercitada nos discursos dos representantes dos poderes constituídos, tudo se passa como se a ordem política atualmente vigente entre nós, dita “democrática”, não fosse, ela própria, assegurada pelo emprego rotineiro da violência em larga escala, de forma mais ou menos explícita.

É uma ordem representada como, em si mesma, pacífica, livre do uso e do exercício da violência, fundamentada, em última instância, no típico ideal liberal de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, através de seus representantes escolhidos em eleições livres.

Todavia, é evidente que as coisas não se passam dessa maneira, e nem poderiam se passar, particularmente, numa sociedade como a brasileira, caracterizada por níveis impressionantes de desigualdade na apropriação da renda, da riqueza, no acesso aos serviços públicos e aparelhos midiáticos.

Uma sociedade, portanto, cujo controle social de amplas camadas de sua população, marginalizadas, requer o exercício permanente, diário, da violência em suas formas mais explícitas, conforme se pode verificar nas ações de repressão das forças estatais nas favelas e nas áreas periféricas das cidades brasileiras, no campo ou em demarcações indígenas.

Portanto, é necessário contrapor àquele discurso um fato óbvio e inegável: a ordem dita “democrática” por ele defendida é, sim, violenta, e por sinal, violenta numa escala incrivelmente superior, em duração e intensidade, à violência praticada em qualquer das manifestações já ocorridas na história desse país.

Vamos, considerar, portanto, o problema em termos distintos dos contidos naquele discurso: não se trata de denunciar a violência como produto da ação de “vândalos”, mas sim, de distinguir a prática da “violência oficial”, ou estatal, da “violência não-oficial”, ou paraestatal.

Não há “democracia” pacífica

Uma ordem política, seja qual for e até que se prove o contrário, se fundamenta na imposição, ou na capacidade dos agentes dominantes em impor seu domínio sobre uma determinada população, dominada.

As formas de estabelecer, assegurar e exercer esse domínio fazendo o menor uso possível da violência, ou pelo menos, reconhecendo a necessidade de seu emprego de maneira contida, pontual, é um problema que vem ocupando muitos dos principais filósofos políticos da história, a começar, pelo menos, por Maquiavel, considerado o fundador da ciência política.

Daí também todo o apelo, de natureza moral, oriundos de fontes tão distintas como os ideais religiosos, liberais, socialistas e muitos outros mais, para o exercício mais consensual possível da política, fazendo, com isso, o uso mais limitado possível da violência, jamais a descartando, contudo.

Todavia, em que pesem os interesses e as pressões dos valores éticos e morais contra o uso da violência na política, deve-se reconhecer na história que a imposição do domínio sobre os dominados é, sempre, em última instância, garantida pela violência, que é o recurso último, decisivo e definivo da política, não importando sob quais formas institucionais, ditas “democráticas” ou não, essa esteja sendo praticada.

Isso não implica defender o uso indiscriminado ou arbitrário da violência como forma de exercício legítimo da política, nem de naturalizar esse uso, aceitando-o.

Mas se trata de reconhecer que, pelo menos até o presente estágio da história humana, sem esse recurso, não foi possível o estabelecimento de relações de domínio nem, consequentemente, de Estado.

A fraude da criminalização do “vandalismo” e o mito da natureza pacífica da “democracia”

Concluindo, o discurso midiático e governamental do caráter pacífico, não violento, da dita “democracia” é, portanto, enviesado, pois só reconhece como prática da violência a violência não-oficial, paraestatal, não admitindo que a ordem política estabelecida é, também ela – ou melhor, primordialmente ela – fundamentada na prática diária da violência.

Sendo a violência um componente fundamental da manutenção da ordem política dita “democrática” sob a qual hoje se encontra o Brasil, não há nenhuma contradição em questionar se é moralmente condenável o emprego da violência por parte dos “vândalos”.

Não se trata, também, de enaltecê-los ou de julgar justas as suas ações, mas de questionar porque deve-se negar o uso da violência pela população se esse é um recurso ostenstivamente utilizado contra ela própria pela ordem estabelecida, “democrática”, que a domina.

A esse respeito devemos lembrar, inclusive, que filósofos políticos liberais, como por exemplo John Locke, defenderam não somente o direito, mas também o dever, de uma população recorrer às armas para derrubar governos que não estivessem cumprindo adequadamente suas responsabilidades.

Por isso, aqueles que rejeitam o “vandalismo” sem se dar conta, ou sem reconhecer, que ele significa uma violência de escala e intensidade mínima se comparada à violência da ordem estabelecida, estão, por ingenuidade ou má intenção, se colocando como porta-vozes de uma ordem que se sustenta na violência como fator decisório último, mas que nega a sua prática aos que reagem ao seu domínio.

Há, portanto, um discurso claro em curso que visa criar, na sociedade brasileira, um clima de censura ou coerção moral contra o exercício não-oficial ou paraestatal da violência, sem reconhecer a natureza cotidiana e abertamente violenta das práticas políticas de suas próprias instituições.

Um discurso pretensamente pacifista mas, na prática, profundamente conservador e legitimador de uma ordem política explicitamente violenta e que precisa sê-lo, posto que garantidora de desigualdades sócio-econômicas brutais.

Não há, a esse respeito, outro caminho: ou se rejeita a violência como um todo, criminalizando-a seja quais forem suas fontes ou os agentes que a praticam, ou se aceita, sem criminalizar, a violência de ambas as partes como um dado concreto, por desagradável que seja, do exercício da política.

Daniel Kosinski

Será mesmo que só agora o fascismo acordou?

Revista Veja, 20 de Maio de 1970.

Como muitos leitores aqui do blog já puderam notar, o tema fascismo nos é bastante constante. Falamos dele frequentemente sob alguns prismas diferentes e em várias ocasiões, de seu ideário no Brasil. Escrevemos há exatos dois anos atrás, por ocasião dos “fantasmas” que foram bastante visíveis com a eleição de 2010, fantasmas que muitos parecem ter esquecido, que parte do ethos cultural da elite e classe média carrega um forte quesito proto-fascista e anti-republicano, filhos de um gigante que jamais dormiu, a ditadura; que por sua vez é filha de outro gigante que jamais morreu: o estado organizado sob uma lógica absolutista, coronelista, nobiliárquico e aristocrático. São temas recorrentes aqui o blog.

Neste sentido, com simples observação da história recente podemos afirmar com certa precisão que não há absolutamente nada de novo no dragão fascista mostrando a sua cara nas ruas da cidade. Façamos um pouquinho de força e lembremos dos homossexuais foram espancados por “carecas”; do esquerdista que foi espancado por proteger um mendigo em 2012; dos membros do movimento LGBT que foram abertamente hostilizados não só pelos “nazi” de sempre, mas por “gente de bem” em vários momentos ao longo dos últimos anos. Não tem muito tempo que os anarquistas do Rio não podiam sair sozinhos pelos arredores da Lapa ou Praça da Bandeira sem temer alguma violência de neonazistas de todo o tipo; não vimos seguidamente mendigos, negros e nordestinos espancados por filhinhos da classe média em várias outras capitais?

Esquecemos disso tudo?

Como dissemos semana passada, ainda na tarde da histórica manifestação de segunda-feira dia 17, aqui no Rio:

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários […]?

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Oras, a repressão à esquerda e a vários dos movimentos a ela ligados não é novidade alguma. Militantes de esquerda apanharem nas ruas e serem hostilizados por radicais nacionalistas é algo até bastante comum no cenário de confrontos políticos pelo país a fora. A criminalização dos movimentos sociais, atitudes históricas dos governos proto-fascistas, nos é alguma novidade?! Não foram há anos massacrados pela mídia, enquadrados como “quadrilha”, baderneiros e vândalos?! Em quantas capas da grande mídia foi o MST chamado de terrorista? Quantas vezes o PSTU ou o PCB foram achincalhados pelos “pensadores” da extrema direita? Quantas vezes a repressão forte da polícia foi justificada por razões puramente ideológicas? O caso recente da USP foi um dos mais marcantes, mas poderia ter sido qualquer outra greve de professores “aparelhada pelos partidos de esquerda”. Nem mesmo a esquerda light petista foi poupada, acusada de fazer “revolução gramsciana” ou qualquer semelhante impropério encontrado em blogs da extrema direita da grande mídia como Reinaldo Azevedo. Não foi o Jabor até “ontem” a vincular o Movimento Passe Livre ao PCC?!

Ninguém lembra da Opus Dei, a mais retrógrada das forças dentro da Igreja Católica, e sua ligação com membros dos partidos de direita, especialmente o PSDB de Alckmin, o Gauleiter Paulista??! Ou das ligações da TFP e neointegralismo com a campanha do Serra de 2010?! Aliás, de que serviu a campanha do Serra em 2010 se não mostrar claramente que a extrema-direita estava bem viva, ativa e “tentaculosa”?

Esquecemos disso tudo? Ou isso não foi fascista o suficiente?

O que temos de lembrar portanto é que não é absolutamente novidade nenhuma a repressão e hostilização vinda da extrema direita. Ela não está maior do que estava uns anos atrás, só porque agora alguns a enxergam mais nitidamente quer dizer que ela esteja maior ou mais influente.

A única novidade é a confiança aparente que a extrema direita ganhou num momento de claro vácuo de poder público e fragmentação da esquerda diante de tantas pautas trazidas para o debate a medida que o movimento cresceu. Não houve qualquer hostilização a esquerda que não existisse antes, até o momento que toda a ordem foi temporariamente ao chão. Da mesma forma que não houve qualquer onda significativa de saques e violência disruptiva antes do desmoronamento temporário da ordem estabelecida. Isso é bem nítido.

Há uma boa parcela dos militares anti-esquerda?! Sempre houve. Esse núcleo já pedia a volta da ditadura? Sempre pediram. Isso não é novidade alguma. Bolsonaro ainda ganha votos suficiente para se eleger em TODA eleição. Feliciano não comprou seu cargo parlamentar. Alckmin não comanda seu feudo de violência sem agradar uma boa parte do seu público. Pinheirinho foi “anteontem”.

E nem é preciso entrar muito no mérito da relação das polícias militares com os movimentos de esquerda que já sabemos como sempre foi o seu papel. Se ela fez um “sentasso” com os manifestantes  de SP não deve ser lido se não como estratégia de um já queimado Alckmin. Quando a poeira baixar, vai ser difícil esquecer que sua repressão foi a centelha a inflamar o resto do país.

Portanto, a presença da extrema-direita como agente político é tão óbvio em nossa sociedade, que debater sua “novidade” parece ser chover no molhado e de um derrotismo, isso sim, preocupante.

Então, o que temos de refletir não é em como lidar com esta onda, não é o temor de um golpe de extrema direita. O golpe não virá porque o dinheiro está no “extremo centro”, não precisa dar golpe algum da extrema direita para continuar no poder. Nem mesmo o Partido Integralista, com tamanho proporcional maior que o PMDB hoje, conseguiu dar um golpe em 1937. A onda de extrema-direita já está aí há tempos e a esquerda tem crescido apesar dela.

O que temos de observar é a real novidade que o movimento das ruas trás. Algumas boas, outras nem tanto.

Quem viu as manifestações crescerem, do seu extremo foco nas passagens e mobilidade urbana ao aparente vazio do  “twitter analógico” que se tornou na última quinta dia 20, deveria ter observado dentr
o do festival de pautas aleatórias dos “apartidários”, “apolíticos” e mesmo dos “anti-partidários” algumas “bandeiras” que sempre foram historicamente ligadas à esquerda.

Primeiramente em termos de contexto, me refiro à revolta popular ao constatar sua real “falta de representatividade” no interior das democracias estáveis ocidentais,  dos Indignados espanhóis aos acampamentos do Occupy Wall Street nos EUA, passando agora, é lógico, pelo Brasil. Esse tema tem sido debatido por tantos pensadores que entrar nesta questão aqui seria um exercício longo e desnecessário (por enquanto) para nosso argumento. O fato evidente é que observamos nas ruas que boa parte da população de fato não se vê representada no parlamento democrático-liberal. Não ficou comum dizer “Fulano não me representa”?

E em termos práticos, a invasão das casas representativas, de Brasília ao Rio, não foi amorfa, disruptiva e de objetivos pouco claros para todos?

Se não podemos definir o que exatamente elas defendem, podemos no entanto ter certeza que a única coisa significativa que esse movimento representa é o sentimento nítido de “falta de representatividade” no interior das democracias liberais.

Por mais que muitos, especialmente no fronte disruptivo e caótico, não soubessem o que queriam, a maioria sabia exatamente o que não queria: o jogo político atual representado na câmara.

Oras, não é dos mais antigos esforços da esquerda o de afirmar que o parlamento na democracia liberal não passa de uma bancada de negócios das grandes corporações? Não afirmamos há quase 150 anos, que nada ali é para representar a população de fato, mas sim os lobbies corporativos dos aristocratas do momento? Aqui no blog dedicamos alguns posts ao tema, primeiro em “O Mercado Eleitoral e a Democracia Liberal” e mais recentemente em “Capitalismo e Democracia“.

Assim, no oceano de cartazes inúteis que mais parecem slogans ufanistas vazios, particularistas e improdutivos, como se ao invés de saírem do facebook, as pessoas tivessem o levado para as ruas [nota], temos que observar o mar de bandeiras que foram comuns à esquerda por décadas.

Não foram poucos os cartazes e opiniões não ligadas à partidos e a movimentos organizados que, em alternativa real “a tudo que está aí”, mencionavam idéias como a democracia direta, a democracia plebiscitária, a gestão participativa. Em entrevistas e opiniões, mesmo dos grandes jornais, blogs e nas redes sociais, não foram poucas as vezes que se observou um evidente clamor por real participação da população na decisão das prioridades econômicas do país, real participação no processo decisório, passando por cima de “políticos corruptos” para atender reais demandas da população. Não foi praticamente em uníssono o coro contra Sérgio Cabral justamente pelo sua evidente ligação com empresários do ramo de transportes?!

Não são estas algumas das bandeiras históricas de  boa parte da esquerda?!

Se de fato havia uma série de pautas da esquerda entre os “apolíticos” e os não ligados à partidos, muitos que, assim como parte da esquerda, se quer perceberam isso, não deveríamos estar desapontados com a derrota que foi o aparente “esvaziamento de nossas pautas”, com a “revolta dos coxinhas”, nem mesmo alarmados com a violência visível dos fascistas e suas opiniões aqui e acolá.  Isso sempre esteve presente, desde a mídia nos generalizando como vândalos durante greves, mesmo quando fascistas, legalizados ou não, nos reprimem com violência.

Até o momento, para quem não tivesse certo discernimento ideológico, a violência fascista, seja dos brutamontes que atacaram manifestantes de esquerda, seja da Polícia Militar em várias cidades do país, era “politicamente invisível” e “ideologicamente neutra”. Não era se quer cogitado quais seus interesses e idéias. Depois de atacar o movimento negro, o movimento homossexual, a esquerda radical – inclusive no interior do próprio PT – que estava lá desde o início de tudo, os fascistas mostraram claramente a todos a sua vilania, muitos que não faziam estão parando e refletindo. Com a poeira baixando, a recriminação à ambas truculências anti-democráticas está nítida em vários portais, progressistas ou não, até nas páginas do Globo. É justamente agora, quando o fascismo está nítido para vários setores progressistas da sociedade, que a esquerda, como natural e histórico inimigo deles, pode se fazer mais forte. Não deixaremos as pessoas, apolíticas ou não, esquecerem quem sempre esteve contra as forças mais reacionárias e violentas da sociedade.

Nas sabias palavras do blog Passa Palavra:

“Cremos que o momento agora é de concentrar nossos esforços […] onde os “coxinhas” não estão, onde as pautas populares encontram sua base real (e que por isso está sendo sistematicamente minimizado nos grandes meios de comunicação ou apresentado apenas como distúrbio social violento). Mas é claro que essa responsabilidade já não cabe exclusivamente ao MPL, e sim a um conjunto de forças da esquerda; sem desprezar, é claro, os muitos obstáculos e conservadorismo que decorrem dessa posição.”

 

Por Leandro Dias

[nota] – adicionado dia 26/06 ao texto, após revisão.

Panela de Pressão

Flores de uma futura primavera?

Um espectro ronda o Brasil. O conformismo e resignação começaram a ranger suas engrenagens. Desmancham-se as teias de aranha, levanta-se a poeira e uma movimentação assustadora, não vista há muitos anos, sacode a inércia que parecia marcar “geneticamente”. Assustadora não pelo que propõe ou apresentam agora, mas pela possibilidade que demonstra, pelos preconceitos que quebra e, principalmente, pelo medo que exalta nos encastelados de nosso país.

Parece que não seremos mais os filhos do meio da história.

A “histórica” passividade, quietude e pacatez do brasileiro, fabricados por 25 anos de ditadura militar e 50 anos de monopólio midiático, mais uma vez não se mostra “natural” e fatídico. Para crer neste “conformismo natural” que o nosso ethos elitista-colonial tentou encucar temos de ignorar praticamente todas as décadas entre 1890 a 1960, de Canudos e Revolta da Vacina aos grandes comícios do Trabalhismo, passando por dois grandes levantes que pararam São Paulo e Rio (1917 e 18), uma grande marcha de insurgentes militares no Tenentismo (1922); um importante e brigado golpe de Estado em 1930; duas Intentonas, uma comunista e uma fascista (1935 e 1937);  inúmeros levantes das camponeses e quilombolas; uma guerra civil insurgente contra uma elite local que não queria se submeter ao poder republicanismo federal e é claro, os 5 anos ininterruptos de manifestações contra a própria ditadura, reprimidas como conhecemos já.

Se de um lado a ditadura batia e calava seus oponentes à força, o monopólio da mídia, fiel representante do ethos subserviente, formado numa incestuosa relação com o poder político, com os mesmos comandando emissoras, rádios e jornais, num aparelhamento tal da mídia pela classe dominante e suas idéias que faz Cuba parecer brincadeira em termos de controle, partia para refundar e reinventar a “candura” como marca do povo brasileiro. Deslegitimar e apagar os anos de rebeldia, proclame o fim do brasileiro que se reconhece como agente político, declare o Fim da Era Vargas, “o brasileiro é naturalmente pacífico e cândido”. Não é extremamente cretino chamar de “pacífico” um povo com uma das mais altas taxas de homicídio do mundo, com a polícia entre as mais violentas e dos mais indiferentes governantes que temos conhecimento?

Mas não podemos cair no clichê de culpar apenas a mídia e os resquícios da ditadura, como numa espécie de inimigo fantasma e intransponível e assim esvaziar os 25 anos subsequentes de história. Os anos de redemocratização foram de muitos conflitos e muita repressão. Lembrem de Eldorado dos Carajás, da movimentação para remoção do Collor, das grandes manifestações contra a privataria de FHC, sem contar os corriqueiros “choques de ordem”, amaciando as populações nos subúrbios e periferias e é claro, como no caso atual, as inúmeras lutas por transporte digno. Nas nossas periferias, com maquiagem UPP ou não, ainda hoje, as coisas ainda são mais ou menos como Lima Barreto colocou mais de 100 anos atrás: o Estado só aparece para cobrar imposto e para reprimir.

Não sejamos ingênuos ou desonestos. Sim, estas forças, muito bem articuladas (sem “sanhas conspiratórias”) são responsáveis também pelo construção do “pacatismo” de nossa população. Sim, todas as forças da ditadura continuam por aqui, os generais de pijama, a mídia das mais atrasadas do planeta, o semanário fascista-bacana, a classe média mais corrupta e anti-republicana que podemos imaginar e uma classe dominante ainda anti-desenvolvimentista, exportadora, aristocrática e anti-popular, eles fazem parte desta onda conservadora que cresceu como tsunami no Brasil.

Mas lembremos que a esquerda brasileira, como em quase toda parte do globo, aceitou o lema anti-radical, do “fim da história”, da “via eleitoral” e de que “nas ruas não conseguiriam nada”. A aceitação desta idéia e a meteórica ascensão do Partido dos Trabalhadores nos quadros eleitorais nos anos 90 e 2000, somada à proliferação de partidos minúsculos disputando migalhas nas eleições liberais, apenas reforçam o argumento de que uma parte da esquerda aceitou e se “deu muito bem” no abrandamento de suas posições.

“Lula Paz e Amor” veio e de fato fez um ótimo governo, especialmente se comparado com as décadas anteriores, no entanto, a ascensão da esquerda amansada ao poder nacional serviu como válvula de escape das imensas pressões sociais que existiam e existem no Brasil. Sem ter de fato resolvido a questão agrária, o MST e os conflitos agrários ficaram bastante calmos por quase 10 anos, para não prejudicar o PT. Sem ter resolvido as questões da ocupação urbana e moradia, da favelização das capitais, o PT conseguiu apaziguar os movimentos urbanos; sem ter resolvido grandes questões do vilipêndio das privatizações as manifestações a respeito foram amansadas (trambiqueiragens tão descaradas que finalmente a maior delas está sendo questionada pela Justiça), o PT conseguiu acalmar o funcionalismo mais radical.

Assim, sem ter de fato apresentado soluções consistentes e duradouras para os graves problemas históricos brasileiros, o PT conseguiu amansar os sindicatos e a militância radical do seu partido, que não é pequena nem menos importante. E conseguiu isso não com participação efetiva e real dos sindicatos e movimentos sociais no processo decisório e produtivo do país, nem mesmo fez isso com o Bolsa Família ou o aparelhamento político dos sindicatos e movimentos sociais como afirmam os anti-petistas, mas conquistou no bolso, com aumento real de salário e com crédito farto para que a população compre o seu carrinho e sua tv de plasma, enfim, se inclua na sociedade de consumo.

E pior, sem o prestígio de Lula e o impacto positivo inegável de seu governo, Dilma se transparece como uma Tony Blair de saias, na definitiva “New-Labourização” do Partido dos Trabalhadores, frequentemente acenando com a esquerda e assinando com a direita. A aliança com a “real política” do PMDB, o mais orgânico e menos ideológico dos partidos brasileiros, deu um ar fetichista à política do PT: “Eu sei muito bem que estas atitudes não são o que nós queremos e que vocês esperam, mas é um passo importante para a grande mudança que planejamos”. Um simulacro da política do “passo atrás para dar dois à frente de Lenin”. Em nome da governabilidade, os pontos nevrálgicos do atraso brasileiro foram sempre postergados e as (contra)reformas que os neoliberais querem, sempre contra os trabalhadores, vão se firmando, uma a uma, executadas pelo seu antigo inimigo, assim dando uma legitimidade que o Capital jamais teve no Brasil.

Neste ponto que lembro com temor de uma verdade inconveniente: o fascismo é filho de revoluções derrotadas. Para cada investida progressista que falha e não cumpre com as expectativas, uma onda de conservadorismo e retrocesso se segue, algumas com difícil recuperação.

E nós, aparentemente, falhamos em acabar com o ranço colonial-escravocrata-exportador, atualizado na mentalidade da ditadura e seus filhotes.

Não é por acaso que podemos facilmente notar que boa parte de nossa sociedade, aprova e ressalta costumes e comportamentos claramente autoritários, aplaudindo massacres, esculachos e classificando – até anteontem – toda e qualquer tipo de movimentação popular como baderna e vandalismo, seja em violência disruptiva tacando fogo em trens e ônibus, como em estudantes pedindo diminuição da passagem ou escolha democrática de seu reitor universitário. Desde que haja uma justificativa “aceita como verdade” por parte da “opinião consentida”, o Estado tem carta verde para reprimir a vontade e, sob o auspício de um legalismo seletivo, “Estado de Direito” quando é conveniente, a regra se transparece na criminalização de todo tipo de “não-alinhado” com a “política real”. Não é coincidência que no mundo – e no Brasil – vemos uma tendência de transformar juridicamente movimentos sociais em terroristas, legitimando assim, sua aniquilação como Inimigos do Estado.

A onda de retrocesso trás todo tipo de lixo com ela.

Quando vimos a população, muitas vezes seguindo o coro dos “formadores de opinião”,  a exaltar o filme Tropa de Elite, enraizar seus jargões e algumas de suas idéias, transformando a polícia mais assassina do mundo em uma espécie cínica de paladino da ordem e da justiça, há toda uma falência dos ideais progressistas por trás.

Me lembro dos aplausos ao Bope no desfile de 7 de Setembro pouco depois do filme e dos inúmeros episódios do jornal local exaltando a polícia e sua violência e associo com as bandeirinhas francesas saudando a invasão nazista de Paris. Me marcou a  “normalidade” que foi tratada a fileira de tanques subindo a Vila Cruzeiro e “piadas” online brincando com “Tropa de Elite III” durante a instalação de alguma UPPs; Ou aquele helicóptero da PM julgando e executando suspeitos como se fosse um videogame, numa versão de baixo orçamento do “Collateral Murder” norte-americano.

Basta o moto “bandido bom é bandido morto” como casus belli  para todo tipo de barbárie contra indesejáveis ser validada, com direito a vários programas de TV dando ares de “vontade popular” à brutalidade, amaciando a população, normalizando o terrorismo corporativo e estatal. Não foi o próprio Alckmin, governador de São Paulo, como um Gauleiter Nazista, que afirmou após um novo massacre da PM contra criminosos suspeitos, que “quem não reagiu está vivo”? Glorificando uma polícia que, como várias outras do país, trás sua versão da Totenkopf nazista no emblema ou escudo.

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários, evidenciando a clara incapacidade ou, porque não, falta de interesse das autoridades na autonomia real das universidades?

Quando grandes veículos da imprensa classificavam a luta pela reforma agrária como terrorista, não vi muitos levantarem assustados contra tamanha cretinice. É incrível encontrarmos opiniões sérias de que “invasor de terra tem que morrer” e que “reforma agrária é coisa de comunista”, em pleno século XXI. O Brasil é o único país “capitalista” que não só não fez reforma agrária, como mantém aquela mentalidade agro-exportadora muito viva, largamente representada no governo, pautando além da própria política de terras do Brasil, a maior sorte de conservadorismos semi-feudais que caminham ao lado dela. Não é coincidência que  seja comum encontrarmos muitos bóias-frias em condições análogas da escravidão e que o Bolsa Família, uma importante arma pela libertação do campo e da servidão por dívida, seja execrado pelos ruralistas e seus aliados.

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Alguém fora dos ciclos da esquerda mais radical foi sistematicamente contra isso?

Não podemos passar 20 anos tolerando e ignorando esta escalada conservadora, dignas de uma ditadura e posar de “surpreso” quando a polícia vem descer a porrada em nós por simplesmente querermos exercer um direito constitucional. A constituição não vale nada quando o dinheiro manda. Não podemos honestamente pensar que é novidade quando “descobrimos” que todos os políticos prestam mais contas a seus patrocinadores do que à própria população e que esta é a lógica do capitalismo “livre” (1). Não podemos honestamente aceitar tudo isso e se surpreender quando, em um momento de fricção, o Estado vêm de fato mostrar o que sempre foi: protetor da classe dominante, protetor das grandes corporações e dos financiadores de sua própria existência. O cachorro que nos morde hoje, é o que demos comida e vimos crescer ontem. Corruptos e autoritários… somos nós.

E agora, que aparentemente estamos saindo da inércia e que a onda conservadora está ganhando uma contra resposta, que a tampa da panela de pressão que a ascensão do PT colocou nos movimentos sociais está a ponto de estourar, vemos os velhos oportunistas de sempre, os fascistas saindo do armário e os pelegos pusilânimes perdendo as estribeiras.

De um lado o PT, cínico e envergonhado, claramente desviado de sua posição histórica de defesa popular, prefere ficar calado ou tímido, vendo a história se desenvolver em sua frente, talvez incrédulo ou temeroso, se recolhe na mediocridade da governabilidade e estabilização (2). Não quer fazer mais feio na sua Copa. Mas não me refiro às vaias da Dilma na abertura da Copa das Confederações: alguém que pode pagar no mínimo R$300 para ver um jogo semi-amistoso da seleção brasileira pertence a uma classe social que nunca gostou da Dilma ou do PT, naturais as vaias portanto. Não. Me refiro a Haddad diminuído à sua insignificância em SP, que até “anteontem” estaria na rua contra o PSDB e depois de muita relutância, quer negociar com os “baderneiros”. Me refiro também à Agnello, o petista que manda a PM caçar manifestantes em casa, coisas de deixar Alckimin com inveja; Me refiro à galopante diluição do PT em “partido do possível” num pragmatismo tolo e subserviente, lampeduziano, mudando as coisas para que elas continuem as mesmas.

Do outro lado, os abutres de sempre, parasitas e oportunistas eternos, falam através dos barões da mídia, porta-vozes da antiga classe dominante – aqueles que restauraram seu poder com a ditadura militar. Num esforço cínico tentam mudar o discurso que sempre fizeram, não é por acaso que a inversão que a imprensa vez tratou, desde o início desvincular a repressão da polícia de Alckmin e do PSDB, a mesma do Pinheirinho, dos protestos atuais. Se até ontem mandavam descer a porrada em baderneiros, reprimir a população,  enfatizando “a normalidade dos tanques na rua”, agora, como no patético mea culpa do Jabor após o seu vexaminoso discurso dos 20 centavos, procuram canalizar os descontentes para velhos motos conservadores e anti-governistas, erguendo o genérico “contra a corrupção”, capas de inúmeras Veja e Folha, como se tentando pautar as manifestações com a “não-pauta” da corrupção, do anti-lulismo e por extensão, anti-esquerda, tirando todo o caráter e raiz progressista e radical do próprio movimento.

Ao ver uma parte já importante dos “distúrbios civis” já clamando por “apartidarismo” e genérico “luta contra a corrupção”, além da preocupante tentativa de proibição da bandeira de partidos nas reuniões, clamor visto com frequência nas redes sociais, afetando especialmente os partidos da esquerda radical, únicas bandeiras presentes de fato nos movimentos, não posso deixar de lembrar das palavras de Slavoj Zizek ao Occupy Wall Street, no auge do movimento:

“Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo.”

Assim, enquanto o movimento permanecer definindo metas claras e objetivas, separando críticas sinceras à de um anti-esquerdismo barato, poderemos ver florescer algo novo e incrível em nosso país. Não, ainda não vejo algo que se possa chamar de Primavera Brasileira, são apenas os primeiros ventos que carregam as sementes da próxima flora. A água está quente mas ainda há mais pressão a ser feita até explodir a panela. Encerro com o mesmo texto de Zizek:

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS.”

Leandro Dias

Colaboração de José Livramento

*****

NOTAS:

1 – Já falamos dezenas de vezes por aqui, este é o normal do funcionamento da Democracia Liberal, que nada mais é que o nome bonito da Ditadura do Dinheiro, cito um comentário que fizemos aqui no blog meses atrás:

Se nossa sociedade […] é regida pela lei do mercado onde “uma mão lava a outra” e toda troca pressupõe um retorno utilitário, onde toda escolha é uma relação de consumo, o que esperar da democracia fundada sobre esta lógica?

Os mensalões não são uma disfunção corrupta da democracia liberal praticada por imorais aproveitadores, mensalões SÃO a democracia liberal.

2 – A exceção talvez de tímidas manifestações dos diretórios regionais e um ou outro político isolado, mais colado à militância do que a “real política” do núcleo do partido.

O “marxismo” citado no Mein Kampf de Adolf Hitler.

 

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Lustige Blätter, revista nazista associando judeus, comunistas, americanos e ingleses.

Resolvi reunir aqui uma lista enorme de citações de Hitler sobre o marxismo, comunismo, bolchevismo e URSS. É um exercício acadêmico, como fonte de referências futuras. Este texto servirá de apêndice de um outro texto que estou escrevendo. É uma compilação de afirmações ipsis literis de Adolf Hitler a cerca do tema.

Procurei citar os parágrafos e frases importantes para a compreensão da relação (ou falta dela) de Hitler com o marxismo, e, como o autor mesmo fazia, não vai ser difícil observar o evidente antissemitismo associado com o tema. Por incrível que pareça, não estão todas as citações de Hitler sobre o tema em seu livro de 500 e poucas páginas.

O conteúdo é muitas vezes chocante ou contraditório, mas sempre que possível procurei citar o contexto, daí a grande extensão deste texto. Inicialmente começarei com a palavra escrita do próprio autor, retirada de seu livro, o Mein Kampf, na tradução de Klaus Von Puschen, publicada pela editora Centauro em 2001.

Assim, aqui vai:

Página 22: “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”

Página 43: “Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos  o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo”

Página 51:  No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”

Página 53:”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.

Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”

Página 63: “A democracia do ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível. Ela oferece um terreno propício, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua expressão externa – o parlamentarismo – apareceu como um monstrengo de “lama e de fogo”, no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. ”

Página 116: “Pela segunda vez na minha vida, analisei profundamente essa doutrina de destruição [o marxismo] – desta vez, porém, não mais guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela observação dos acontecimentos gerais da vida política.  […]

Comecei a considerar, pela primeira vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência mundial. Estudei os móveis, as lutas e os sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também estudo profundo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Página 116: “No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao meu pequeno círculo de meus conhecidos, bem como a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época – o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos – tendo-se em vista a intenção do marxismo – tinham de ser um dia terríveis.

Página 116: “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo”

Página 127: “O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.’

[…]

Tinha chegado agora o momento oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo. Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem considerações para com as lamentações que provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as bênçãos fraternais de bombas americanas. Teria sido dever de um governo cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os operários alemães se tinham integrado de novo a Pátria.

“Que se deveria fazer? Por os dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação. Ter-se-ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria de ser chamado à razão pela força convincente das baionetas.”

Página 160: “Foi assim que os dogmas de Gottfried Feder me incitaram a me ocupar de maneira decidida com esses assuntos que eu pouco conhecia. Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital’ – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.”

Página 176: “Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.”

Página 181: “Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores os judeus”

Página 192: O bolchevismo da arte é a única forma cultural possível da exteriorização do marxismo.

Quando essa coisa estranha aparece, a arte dos Estados bolchevizados só pode contar com produtos doentios de loucos ou degenerados, que desde o século passado, conhecemos sob forma de dadaísmo e cubismo, como arte oficialmente reconhecida e admirada.”

Página 236: “O processo aí emprego pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

[…]

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e loucura, mas tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores. Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que pode se dar a esse aborto de um cérebro criminoso a denominação de “doutrina’. ”

Página 237: “De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas mas, em verdade, constituem um único bloco: o movimento dos políticos e dos sindicatos.”

Página 243:  “Mesmo as eleições de representantes ao “Reichstag” anunciavam, com o seu acréscimo patente de votos marxistas, o desmoronamento  interno cada vez mais próximo e a todos manifesto. Todos os sucessos dos denominados partidos políticos não tinham mais valor, não só por não poderem fazer parar a ascensão da onda marxista, mesmo nas chamadas vitórias eleitorais burguesas, como também pelo fato de já trazerem dentro de si os fermentos da decomposição. Inconscientemente, o mundo burguês já se achava contaminado pelo veneno mortal do marxismo”.

Página 287: “E se uma parte do marxismo, por vezes, tenta, com muita prudência, aparentar indissolúvel união com os princípios democráticos, convém não esquecer, que esses senhores, nas horas críticas, não deram a menor importância a uma decisão por maioria, à maneira democrática ocidental. Isso foi quando os parlamentares burgueses viam a segurança do Reich garantida pela monumental parvoíce de uma grande maioria, enquanto o marxismo com uma multidão de vagabundos, desertores, pulhas partidários e literatos judeus, em pouco tempo, arrebatava o poder para si, aplicando, assim, ruidosa bofetada à democracia. Por isso, só ao espírito crédulo dos magros parlamentares da burguesia democrática cabe supor que, agora ou no futuro, os interessados pela universal peste marxistíca e seus defensores possam ser banidos com as fórmulas de exorcismo do parlamentarismo ocidental”.

Página 288: “Mas, numa época em que uma parte, aparelhada com todas as armas de uma nova doutrina [o marxismo], embora mil vezes criminosa,  se prepara para o ataque a uma ordem existente, a outra parte só pode resistir-lhe sempre se adotar fórmulas de uma nova fé política; em nosso caso, se trocar a senha de uma defesa fraca e covarde pelo grito de guerra de um ataque animoso e brutal.”

Página 291: “À nossa concepção política usual repousa geralmente sobre a idéia de que ao Estado, em si, se pode atribuir força criadora e cultural, mas que ele nada tem a ver com a questão racial; e que ele é, antes de mais nada, um produto das necessidades econômicas ou, no melhor dos casos, o resultante natural da competição política pelo poder. Essa concepção fundamental, em seu lógico e consequente desenvolvimento progressivo, leva não só ao desconhecimento das forças primordiais da raça como à desvalorização do indivíduo. Porque a negação da diferença entre as raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver a relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. A aceitação da identidade das raças viria a ser o fundamento de um semelhante modo de ver em relação aos povos e depois em relação aos homens individualmente. Por isso, o marxismo internacional é simplesmente  a versão aceita pelo judeu Karl Marx de idéias e conceitos já há muito existentes de fato sob a forma de aceitação de uma determinada fé política. Sem o alicerce de uma semelhante intoxicação geral já existente, jamais teria sido possível o espantoso êxito político dessa doutrina. Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um feiticeiro, com ela aniquilar rapidamente a vida das nações livres da terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça.

Página 291: “O mundo burguês é marxistísco, mas acredita na possibilidade de domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus”.

Página 335: ” Se o programa social do novo movimento consistisse em suprimir a personalidade e por em seu lugar a autoridade das massas, o Nacional-Socialismo já ao nascer, estaria contaminado pelo veneno do marxismo, como é o caso dos partidos burgueses.”

Página 342: “O que nossa burguesia sempre olhou com indiferença, isto é, a verdade segundo a qual ao marxismo só se ligam as classes iletradas era, na realidade, a condição sine qua non para o êxito do mesmo. Enquanto os partidos burgueses, na sua intelectualidade superficial, nada mais representavam do que um bando incapaz e indisciplinado, o marxismo, com um material humano intelectualmente inferior, formou um exército de soldados partidários que obedeciam tão cegamente aos seus dirigentes judeus como outrora aos seus oficiais alemães.”

Página 353: “A força que deu ao marxismo sua espantosa influência sobre as massas não foi a obra intelectual preparada pelos judeus, mas sim a formidável propaganda oral que inundou a nação, acabando pela dominação das camadas populares. De cem mil proletários alemães não se tiram talvez cem que conheçam a obra de Marx, que era estudada, mil vezes mais, pelos intelectuais, especialmente os judeus, do que por genuínos adeptos do movimento nas classes inferiores.

Esse livro não foi escrito para o povo, mas exclusivamente para os líderes intelectuais da máquina que os judeus montaram para a conquista do mundo. ”

Página 361: Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias  tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos  cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Página 368-369: “É a essa idéia que a bandeira preta, branca e vermelha, do antigo Reich, deve a sua ressurreição como emblema dos partidos nacionais-burgueses.

É evidente que o símbolo de uma crise que podia ser vencida pelo marxismo, em circunstâncias pouco honrosas, pouco se presta a servir de emblema sob o qual esse mesmo marxismo tem que ser novamente aniquilado. Por mais santas e caras que possam ser essas antigas e belíssimas cores aos olhos de todo alemão bem intencionado, que tenha combatido na Guerra e assistido ao sacrifício de tantos compatriotas, debaixo dessas cores, não pode essa bandeira simbolizar uma luta no futuro.”

Página 384-385: “Ninguém deve esquecer que tudo que há de verdadeiramente grande neste mundo não foi jamais alcançado pelas lutas de ligas, mas representa o triunfo de um vencedor único. O êxito de coalizões já traz na sua origem o germe da corrupção futura. Na realidade só se concebem grandes revoluções suscetíveis de causar verdadeiras mutações de ordem espiritual, quando arrebentam sob a forma de combates titânicos  de elementos isolados, nunca porém, como empreendimentos de combinação de grupos.”

Página 446: “Não o sindicato em si é que é “lutador de classe’, mas o marxismo é que o fez dele um instrumento para a luta de classes. Ele criou as armas econômicas dos Estados nacionais livres, independentes, para aniquilamento da sua indústria nacional e do seu comércio nacional e por consequência para a escravização de povos livres ao serviço do judaísmo financeiro universal super-estatal.”

Página 449: “Quem […] tivesse realmente arruinado sindicatos marxistas a fim de, em lugar dessa instituição da luta de classes aniquiladora, colocar a idéia do sindicato nacional-socialista e contribuir para a sua vitória, esse pertence ao número dos verdadeiros grandes homens de nosso povo e seu busto deverá, um dia, ser dedicado à posteridade, no Walhalla de Regensburg”.

Página 450: Utilidade real para o movimento [sindical], como para nosso povo em geral […] só pode surgir de um movimento sindical nacional-socialista, se esse já estiver tão fortemente embebido das nossas idéias nacional-socialistas que ele não corra mais perigo de seguir as pegadas marxistas. Pois um sindicato nacional-socialista, que visse como sua missão apenas a concorrência aos marxistas, seria pior que nenhum. Ele tem de declarar a sua luta ao sindicato marxista, não apenas como organização, mas antes de tudo, como idéia. Ele deve encontrar nele o pregoeiro da luta de classes e da idéia de luta de classes e deve se tornar, em lugar deles, o guardião dos interesses profissionais dos cidadãos alemães.

Página 488: “Uma aliança, cujo o objetivo não compreenda a hipótese de uma guerra, não tem sentido nem valor. Alianças só fazem para luta. Embora, no momento de ser realizado um tratado de aliança, esteja muito afastada a idéia de guerra, a probabilidade de uma complicação bélica é, não obstante, a verdadeira causa.

[…]

Assim pois, o simples fato de uma aliança com a Rússia é uma indicação da próxima guerra. O seu desenlace seria o fim da Alemanha.

[…]

Os atuais detentores do poder na Rússia, não pensam absolutamente em fazer uma aliança honesta ou de mantê-la.

É preciso não esquecer nunca que os dirigente da Rússia atual são sanguinários criminosos vulgares e que se trta, no caso, da borra da sociedade, que, favorecida pelas circunstâncias, em uma hora trágica, derrubou um grande Estado e, na fúria do massacre, estrangulou  e destruiu milhões dos mais inteligentes de seus compatriotas e agora, há dez anos, dirige o mais tirânico regime de todos os tempos. Não devemos esquecer que muitos deles pertencem a uma raça que combina uma rara mistura de crueldade bestial e grande habilidade em mentir e que se julga especialmente chamada, agora, a submeter o mundo todo à sua sangrenta opressão.”

Página 488: Não devemos esquecer que o judeu internacional, que continua a dominar na Rússia, não olha a Alemanha como um aliado, mas como um Estado destinado à mesma sorte. Não se conclui, porém, nenhum tratado com uma parte, cujo único interesse está no aniquilamento da outra.”

Página 489: “Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaismo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo”.

Página 489: “A luta contra a bolchevização mundial exige uma atitude clara com relação à Russia soviética. Não se pode afugentar o Diabo com Belzebu.”

Página 502: “Qualquer idéia de resistência contra a França seria rematada loucura, se não se declarasse guerra de morte aos elementos marxistas que, cinco anos antes, impediram que a Alemanha continuasse a luta nas linhas de frente.”

Página 503: “O fato de ter o nosso soldado outrora lutado com ardor é a prova mais evidente de que não estava ainda contaminado pela loucura marxista. À proporção, porém, que o soldado e o operário alemão, com o decorrer da Guerra, iam caindo nas garras do marxismo, eram elementos perdidos para a Pátria.”

Página 503: “No ano de 1923 estávamos em face de uma situação idêntica à de 1918. QUalquer que fosse a maneira de resistir que se escolhesse, a condição indispensável seria livrar primeiro, o nosso povo do marxismo corruptor.”

Página 505: “No dia em que, na Alemanha, for destruído o marxismo, romper-se-ão, na verdade, para sempre, os nossos grilhões”.

*************

Futuramente pretendo compilar mais citações de Hitler sobre o tema, focando em discursos e documentos oficiais do partido. O objetivo inicial é demonstrar o ódio visceral de Hitler ao marxismo e o incrível rocambole ideológico capaz de fazer o marxismo estar submetido ao capitalismo internacional numa conspiração judaica para dominar o mundo.

Depois destas, alguém ainda tem a desonestidade intelectual de associar marxismo e nazismo?

***

Leandro Dias

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 2)

Filme racista de 1915, apoiado pelo exército Norte Americano.

Quando ocorrido o 11 de Setembro, imediatamente o governo americano se reuniu com diretores de cinema em Hollywood para determinar o que fazer, que “bons caminhos” tomar para a produção cultural norte-americana (1). A ousadia e o espetáculo das ações do 11 de Setembro, não só o plano em si, mas o misancene que foi retratado pela TV, roupeu a tênue fronteira entre a ficção e a realidade, entre o documentário e fantasia, entre propaganda e enredo.

Não é nenhum grande mistério que a indústria do cinema sofre pressões ou busca financiamento público para suas obras culturais, até nos EUA – terra que se prega a supremacia do dinheiro privado. Durante a Primeira Grande Guerra, os EUA criaram o Comitê para Informação Pública (2), dedicado a fazer propaganda pró-governo e anti-alemã, durante todo o período da Guerra. Seu papel, além de fazer diretamente peças artísticas falando bem das causa governistas, era viabilizar que filmes pró-americanos tivessem a maior repercussão e financiamento possível.

Nessa mesma época, em 1915 surgiu um pioneiro filme de guerra chamado O nascimento de uma Nação, dirigido por D. W Grifith. A obra foi um sucesso estrondoso de bilheteria, apesar de usar atores brancos pintados de preto para o papel de negros e uma evidente apologia à Ku Klux Klan. No entanto, muito interessante do filme é seu pioneirismo em outra área: foi o primeiro filme a ter consultoria e apoio do West Point, também conhecida como Academia Militar dos Estados Unidos. O exército não só forneceu artilharia, mas deu consultoria para as cenas de guerra, emprestou canhões e soldados e, dada a recepção do filme, não teve nenhum problema com o conteúdo racista e apoio da KKK. Este filme financiou a KKK por muitos anos (3).

Desde então, a colaboração do exército e órgãos governamentais no cinema americano foi enorme. Pautando filmes, utilizando o cinema como potente arma de propaganda das idéias e políticas do governo. O objetivo principal é o uso da credibilidade e “isenção” do cinema e mídia privados para fomentar propagandas pró-sistema,  tentando criar novos conceitos, arraigar existentes, demolir opositores políticos e “subversivos”, criar consensos favoráveis à classe dominante do período, sem no entanto parecer usar a “máquina estatal” para tal, sem dar muito na cara, como falamos dos regimes ditatoriais no post anterior.

A Segunda Guerra reforçou essa aliança. A série de documentários Why We Fight (1942-1945), foi comissionada diretamente pelo governo, usando nada menos que um laureado com o Oscar Frank Capra para dirigi-la, numa tentativa de documentário que ficasse à altura dos de Leni Riefenstahl (4) para a Alemanha Nazista. A série também foi um sucesso.

Num lado mais lúdico, Walt Disney e sua corporação formaram um grande veículo privado para propaganda governamental, desde o Pato Donald explicando a importância de pagar impostos, até o mesmo pato  ridicularizando o nazismo. Num lance mais “sério” temos o Education for Death (Disney, 1943), animação sobre uma criança no regime nazista, de 1943, ambos desenhos bem sombrios para crianças segundo os padrões de hoje.

Junto com Mickey Mouse, Donald é o personagem mais popular da Disney, talvez por isso seja exatamente o desenho que revela um discurso ideológico muito mais marcante, uma representação – as vezes muito clara – da ideologia pró-sistema que quero enfatizar aqui:

Donald trabalha feito um condenado mas está sempre em dívida com o seu Tio, que frequentemente usa este argumento para forçá-lo (chantageá-lo) em alguma aventura de pilhagem e enriquecimento (do Patinhas é claro). Por mais que Donald trabalhe, jamais fica rico, se considera azarado ou não esforçado o suficiente, invejando seu rival Gastão, rico e “sortudo” sobrinho puxa-saco de Patinhas. Há até um clássico underground feito no Chile de Allende, explorando em mais detalhes as sutilezas (ou não) das histórias de Pato Donald e Tio Patinhas na América Latina. Para Ler Pato Donald (1972), ainda que dotado de exageros – um pouco – paranóicos (5), a obra mostra outras nuances profundas do discurso pró-sistema e elitista e vale ser lida.

Ao falar de Disney, não podemos esquecer a enorme presença do discurso conservador típico da direita  WASP (6) norte-americana, a ideologia dominante da produção cultural americana do seu tempo. À exceção de Mulan (1998), todas as princesas/protagonistas Disney são mulheres submissas, dependentes, passivas e alienadas, a espera de um príncipe encantado para mudar de vida, algumas até com Síndrome de Estocolmo, reproduzindo o que há de mais conservador em discurso sobre o papel da mulher na sociedade.

Corações e Mentes

Na história recente, apenas na minha geração, a profusão de filmes com larga presença militar e ideologia pró-americana é tão grande que fica difícil listar todos os filmes, vou colocar apenas alguns mais relevantes na minha lista.

Em Rambo 3 (1988), o exército americano usa um mercenário (Silvester Stallone) para ajudar mujahedins afegãos, conhecidos como Talibãs, retratados no filme como “defensores da liberdade”, para expulsar o imperialismo soviético. O filme faz uso maciço de bases militares, aviões, helicópteros e armamento americano. Lembrando que Bin Laden nesta época, era fiel aliado ocidental. É importante notar que, apesar de ser prática comum na época, o uso de mercernários privados em ações militares “extra-oficiais” era algo ainda mal visto (7).

Top Gun (1986) retrata toda a evolução de dois jovens nas fileiras da Marinha americana, da melhor maneira que Hollywood sabe fazer. É difícil não ver este filme como uma obra de propaganda militar, seu sucesso foi tão grande que a Marinha colocava bancadas de recrutamento na porta do cinema, com grande sucesso (ver documentário Hollywood and The Pentagon: A dangerous Liaison, de 2003).

Independence Day (1996) é um filme sobre invasão alienígena, mas seu discurso e ideologia é extremamente terrestre e não ficcional. É outra obra com largo uso de recursos, consultoria e equipamento militar. Retrata a invasão dos EUA por aliens que querem exterminar a humanidade. O próprio presidente dos EUA é voluntário para entrar num avião e lutar alienígenas, após longo e patriótico discurso. O interessante lembrar é que este é um daqueles filmes onde a bomba atômica salva a humanidade: é um míssil atômico, carregado por um suicida (“mártir”), que termina por destruir a super nave alienígena e salva a América. Guerreiros suicidas ainda não estavam em baixa como nos dias de hoje.

Impacto Profundo (1998), Armaggedon (1998), O núcleo (2003) e Sunshine: Alerta Solar (2007), são filmes, assim como Independence Day, onde a bomba atômica salva a humanidade da aniquilação. Vale lembrar que o produtor de Armaggedon é o mesmo de Top Gun e de Falcão Negro em Perigo (2001), e é o mais propagandístico destes filmes que pervertem o uso da bomba atômica.

Essa inversão do objetivo das coisas, servindo para o seu exato oposto me lembra de Slavoj Zizek e seus argumentos da falta de substância das coisas na pós-modernidade. Café sem cafeína, açúcar light, “invasão de defesa” (só para lembrar de Israel no presente momento), guerra sem vítimas e assim, o uso da maior arma de aniquilação humana já inventada – A bomba atômica – é transformada em sua salvação única, desprovida de seu caráter destruidor, se torna a ponta da lança que aniquila o dragão, a única esperança de defesa e resistência. Qualquer semelhança com George Orwell é mera coincidência. Aniquilação é Salvação.

Em Falcão Negro em Perigo, a resistência somali contra a invasão dos EUA (exército americano sob farda da ONU) durante a sua guerra civil em 1993, é vilanizada e o sangrento massacre em Mogadishiu, transformado num heróico épico de resgate paladínico, com direito a helicóptero tocando “Hell’s Bells” do ACDC. Nada é problematizado, nem o papel dos EUA, nem as intenções dos inimigos, os somalis são todos os bestializados, sem nome e sem importância.

A bestialização do inimigo lembra ainda de outro blockbuster apoiado/financiado pelo exército americano: Invasão do Mundo: A Batalha de Los Angeles (2011). Um filme que se você lembrar que a palavra ALIEN em inglês também se refere à imigrante ilegal, você têm um dos mais conservadores – para não dizer nazistas – filmes norte-americanos. Os inimigos quase invisíveis e indestrutíveis, bestas que vêm de todas as partes, sem valores ou origens identificáveis (como “chicanos” que podem ser desda Bolívia até o México), seu objetivo é apenas destruir a América. Os diálogos do filme são quase de manuais militares e junto Top Gun e Transformers (Michael Bay, 2007), considero os filmes mais apologéticos do exército que tenho notícia.

Nessa discussão toda vale citar primeiro 300 (Zack Snyder, 2006), inspirado no quadrinho de Frank Miller e Transformers (Michael Bay, 2007), baseado no desenho de mesmo nome dos anos 80, brilhantemente analisado por Slavoj Zizek.  Ele inverte a noção comum de que 300 é um filme apologético pró-americano, anti-islâmico (iraniano), militarístico, retratando a supremacia da guerra frente à diplomacia, num heroísmo americano contra a invasão de estrangeiros.

Este filme, para o filósofo, é um filme que retrata uma rica superpotência imperial (Pérsia), com um exército indestrutível, tentando invadir uma pobre região montanhosa habitada por fanáticos. Seus métodos são a intimidação, compra de políticos e figurões e a contratação de mercenários de todas as partes do mundo para formar um exército invasor em terras distantes da sua. A cultura persa é retratada em mostruosidades exóticas, festas promíscuas, com marcante falta de valores e uma moralidade comprável com dinheiro.

Esparta por sua vez é uma nação pequena, com um rei idealista, avesso às politicagens corruptas de interesseiros nobres, ou o misticismo pessimista dos oráculos. Dotado de um pequeno exército, o que lhe resta é a disciplina e a  crença fanática em seus valores e idéias.

Para Zizek a Pérsia É o Imperialismo americano, Xerxes tentando seduzir e corromper os gregos é como um Ronald Reagan tentando seduzir e corromper Sandinistas ou lideranças sauditas. Esparta promete acabar com o misticismo, defendendo um reinado de razão e democracia, no melhor estilo iluminista, contra a barbáries sem valores do mundo Persa. Não foi a toa que os revolucionários comunistas alemães se proclamaram “Liga Espartaquista“, diz.

Apesar de concordar com todos os pontos de Zizek, o filme não foi feito para acadêmicos e pessoas mais interessadas em tramas complexas e reflexão profunda. É um blockbuster de verão. A mensagem que fica para o menos atento, interessado apenas num pipocão de fim de semana para entreter sua monótona vida proletária, é a versão superficial do filme: a supremacia ocidental frente ao barbarismo oriental.

Os inimigos usam turbantes e aparatos exóticos, falam com sotaque ou são ininteligíveis, são infinitos e estão em todo lugar (clássica paranóia direitista contra imigrantes); a política e a diplomacia são corruptas (de ambos os lados), só o exército é virtuoso e dotado de uma verdade que faça sentido. Tanto que o filme repercutiu muito mal no Oriente Médio, com declarações públicas de Ahmadinejad inclusive (9).

Porém, essa clara ambiguidade do filme, talvez demonstre a sutileza apologética do cinema ideológico que eu esteja tentando mostrar, dando razão à narrativa de Zizek: na superfície faz um discurso enquanto a substância do filme é completamente diferente, muitas vezes até oposta à superfície. Algo que torna o filme brilhante.

Prosseguindo.

A série de filmes Transformers por sua vez, é tão propagandística e apologética que faz Alexander Nevsky de Eisenstein parecer uma obra de ficção completamente sem relação com o stalinismo. É um festival de recursos, aparato, discursos e argumentos pró-americanos, de um militarismo gritante. Como Top Gun (10), é  praticamente um vídeo de recrutamento, com direito a um jovem conhecendo uma bela moça enquanto se torna um “soldado a serviço dos Transformers”. Mesmo porque os vídeos oficiais de recrutamento não estão tão longe de um filme hollywoodiano:

Já que estamos falando de super heróis vejamos a – nada subliminar – situação de Homem de Ferro (2008) e a nova série de filmes do Batman (2005-2012). Ambos bilionários enriquecidos com dinheiro da fabricação de armamentos para o Complexo Industrial-Militar norte-americano e ambos auto-proclamados defensores da justiça. A não problematização da sua maneira de enriquecer, ignorando o fato de que qualquer um que saiba minimamente de como se faz dinheiro na indústria de armamentos (11) sabe que não há nada de nobre ou heróico em vender armamentos militares. No pano de fundo é algo como enfatizar a “riqueza é uma virtude por si só” (ver este meme), independente de onde veio o dinheiro.

O Homem de Ferro, no filme Vingadores (2012) ainda reforça a noção que mencionei acima de que a bomba-atômica é a única salvação da humanidade. Quando os heróis e os mercenários pára-estatais da S.H.I.E.L.D falham para conter a invasão alienígena,  Homem de Ferro conduz um míssil atômico até o coração do portal invasor, destruindo-o. Novamente a Bomba Atômica salva a humanidade (ou os EUA).

Já em Batman, especialmente no último filme da série, surge outra pérola de discurso pró-sistema. Batman é um agente pára-militar perseguindo um vilão, líder de excluídos que vivem em esgotos e que querem destruir a ordem vigente. Bane começa tentando destruir a fonte de riqueza dos seus inimigos explodindo a Bolsa de Valores e falindo o Batman. Vale lembrar o diálogo logo no início do filme entre o vilão e um funcionário da Bolsa (12):

Comerciante da Bolsa: “Isso é uma bolsa de valores, não há nada o que roubar”

Bane: “É mesmo?! E o que vocês fazem aqui diariamente?!”

Depois Bane quer destruir uma prisão repleta de “suspeitos” de atos ilícitos contra o regime, presos após o endurecimento de leis especiais “anti-terror”, numa conservadora visão da Queda da Bastilha. Se somarmos com a ridicularização e satanização dos Tribunais de Sentença contra “agentes do sistema” e a liderança de um implacável, incorruptível e “sanguinário” líder, temos já três importantes referências à Revolução Francesa. Bane ainda chama os habitantes de Gotham para tomar as ruas, “cuidar do que lhes pertence”, sem qualquer desmando ou interferência sua, apenas convoca os cidadãos após destruir a força repressiva do Estado (a polícia), numa inspiração “Occupy Wall Street”.

Ao fim, Batman, o bilionário acima da lei, que sempre age quando julga que a lei ou a polícia não estão sendo eficientes,  utilizando todo aparato militar que seu dinheiro pôde comprar, marcha para derrotar Bane e sua revolução. No caminho ainda coopta a Mulher Gato, uma bela ladra e alienada, se junta ao bilionário para destruir a ideologia louca de Bane. O dinheiro sempre vence.

***

Assim, por mais que não seja tão claro como nas ditaduras citadas no post anterior, fica difícil não ver em Hollywood um fundamental braço propagandístico da ideologia do sistema. A sutileza e a máscara de isenção que carrega o torna o mais eficaz instrumento de divulgação da ideologia americana, uma fábrica de influência de corações e mentes em defesa daquilo que querem que seja verdade. Seja nos filmes blockbusters, seja nos jogos de videogame super-vendidos (13), também feitos sob ideologia da Califórnia, Hollywood é a própria expressão do Agitprop do sistema, é a perfeita exemplificação do “Aparelho Ideológico do Estado”. É difícil lembrar de um único blockbuster sem fundamental influência do pensamento hegemônico norte-americano, é a realização elegante do Ministério da Verdade. Aniquilação é Salvação.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/1586468.stm

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Committee_on_Public_Information

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_birth_of_a_nation

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Why_We_Fight

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/White_Anglo-Saxon_Protestant

6 – No nosso post Wikileaks: eu já sabia evidenciamos que a esquerda paranóica não era tão paranóica assim e que muitos dos crimes revelados documentalmente pela Wikileaks e outros vazamentos, como o recente da taxa Libor e do preço do combustível pautado por corporações, revelado pelo Guardian, já eram pregados por quase toda a direita séria há muitos anos, da imensa cartelização até os acordões das classes dominantes econômicas.

7 – Nos anos 90 haviam 50 militares para cada mercenário privado, agora a proporção é 1 para 10 (Peter Singer  IN: http://en.wikipedia.org/wiki/Private_military_company )

8 – In the 1990s there used to be 50 military personnel for every 1 contractor, now the ratio is 10 to 1 (Singer).

9 – http://voices.yahoo.com/iran-condemns-blockbuster-movie-300-as-american-psychological-249323.html?cat=40

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Top_Gun#Involvement_of_the_U.S._military

11 – Um míssil, uma munição ou uma granada, são dos melhores produtos capitalistas. No momento em que são usados não só são consumidos, como destroem coisas que estão no seu caminho. É a obsolência capitalista no seu mais alto grau.

12 – http://www.imdb.com/title/tt1345836/quotes

13 – Em reportagem da Al Jazeera recente, além da promíscua relação cinema-exército, se menciona ainda o universo dos videogames, que vale lembrar apenas o que considero um dos ápices da relação: America’s Army (2007), um jogo totalmente financiado pelo exército americano, sendo um dos primeiros com grande qualidade gráfica totalmente gratuito. Seu objetivo, segundo seu próprio criador era “utilizar da tecnologia computacional para prover ao público uma experiência virtual de um Soldado que fosse envolvente, informativa e divertida” ( http://en.wikipedia.org/wiki/America’s_Army). Vale analisar também a série Call of Duty e Medal of Honour para reforçar o argumento acima.

Cinema e Agitprop do Sistema (parte 1)

Alexander Nevsky (1938, Sergei Eisenstein)

É lugar comum nas análises dos regimes fascistas e bolcheviques, a ênfase em seus respectivos aparatos de propaganda. Natural, é difícil falar da Alemanha nazista sem falar de Göebbels ou ignorar a relevância que a propaganda ideológica tem  para Adolf Hitler no seu livro Mein Kampf (Minha Luta), e mais ainda, como estas idéias se traduziram ao propagarem-se através de aparelhos estatais com sua posterior subida ao poder. No caso bolchevique, é difícil não enxergar o exagerado culto à personalidade ou o alinhamento até da própria ciência com a “verdade” do partido, como foi o caso do Lissenkismo (em inglês). Ou mesmo na Coréia do Norte onde o próprio culto à personalidade e à classe dominante suprimiram até mesmo as menções ideológicas marxistas ainda nos 70 (curioso é chamar aquilo de ditadura bolchevique).

Em ditaduras não há mistério em identificar a vontade do governo em seus projetos de propaganda explícitos, sejam filmes, livros ou arte em geral.  No caso do regime nazista, elas eram feitas exclusivamente por agência central do governo, especialmente depois de 1934 quando ocorreu um sanguinário realinhamento dos membros e ideologia do partido, levando a execução e prisão de política de inúmeros elementos “subversivos” dentro do partido.

Assim, a dificuldade não é perceber o que é óbvio, que o governo nazista e o sistema de poder que o sustentava, faziam propagandas que lhe eram favoráveis o tempo todo e em todas as mídias possíveis. o Mein Kampf está repleto destas intenções, tendo dois capítulos inteiros sobre o tema.  Se não é difícil notar as obras claramente de propaganda, o mais interessante portanto, é notar a propaganda do sistema em obras que não eram produzidas diretamente pelo aparato estatal, burôs de propaganda ou Ministérios da Verdade (1).

Os Caminhos da Força e da Beleza (1925)

Leni Riefenstahl, atriz e talentosa cineasta, favorita do regime nazista, produziu importantes obras exaltando o partido e seus líderes. O interessante porém, além da relevância histórica de seus documentários apologéticos do regime, é observar dois filmes que ela atuou e co-produziu antes dos documentários pró-regime, são eles Wege zu Kraft und Schönheit  (1925, Os caminhos da força e da beleza) e Das blaue Licht (A luz azul).

O primeiro é um filme, digamos, naturista, da aproximação entre beleza, força física e a natureza, um sempre presente culto ao corpo e à saúde. Fundamentalmente encaixado no idealismo da cultura alemã dos anos 20, da rejeição da vida urbana e cosmopolita (corrupta) e exaltação da vida simples, “natural”, fora das cidades. Não é um filme de propaganda, foi feito durante o período democrático de Weimar, mas o seu tema é recorrente na cultura nazista posterior, por isso é mais importante, revela traços da mentalidade anti-cosmopolita, proto-fascista que já permeava a Alemanha. É um filme “pró-sistema” e anti-Weimar, considerando que a direita radical alemã considerava República de Weimar  uma representação do cosmopolitismo burguês liberal, pela primeira vez elevado ao poder central naquele país. Era um filme altamente alinhado com a extrema direita, antes mesmo dela se solidificar no poder.

O segundo filme tem uma inspiração numa lenda alemã de mesmo nome, adorada pela direita nacionalista alemã de então. No caso do filme, também revela no fundo o conflito entre cidade e vida simples do interior. Junta (Riefenstahl), solitária adoradora da natureza, que se conecta com ela meditando com cristais numa caverna secreta próxima, é seduzida por Vigo, pintor da cidade grande, que depois revela o segredo dos cristais à cidade e os rouba junto com outros moradores. Reiterando o conflito entre a cidade corrupta e o interior nobre, puro e imaculado, a “verdadeira Alemanha”.

Ainda em filmes sob temática nazista, vale lembrar a apenas razoável produção recente: Um Homem Bom (dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim em 2008). Viggo Mortensen interpreta um escritor alemão no início dos anos 30 na Alemanha, ganhando prestígio acadêmico no país por ter escrito um livro cujo único mérito foi fazer apologia da eutanásia de doentes. Mesmo – no contexto do filme – o livro ter sido escrito antes do regime nazista chegar ao poder e, mesmo o autor não sendo [ainda] um nazista, o livro cai nas graças do partido e o autor virou celebridade, um intelectual nazista “orgânico”, expondo algumas idéias importantes ao sistema, antes mesmo que a própria propaganda oficial o fizesse.

A sutileza domina sem esforço, prende sem amarras, arraiga costumes e vontades de uma determinada corrente política, de uma vontade de classe, e as traveste de uma vontade universal, dando um ar de naturalidades a construções históricas, sociais e ideológicas. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, pois é a que tem mais recursos para propagar suas idéias (2), muito mais importante do que suas propagandas oficiais propriamente ditas, são as obras culturais que solidificam e reafirmam seu sistema de poder, sem no entanto parecer que o fazem.

Quanto fogo anti-semita foi atiçado pelos Protocolos dos Sábios do Sião? Uma farsa literária feita pela Okrana (Polícia Secreta da Rússia Czarista) desmascarada tantas vezes que é incrível ainda acreditarem em sua veracidade. Brilhantemente produzido como obra verídica e não como propaganda do governo, este livro caiu como uma luva na ação do Czar russo na opressão de judeus “conspiradores” (3), lembrando que os judeus, já nesta época eram associados ao marxismo e subversão comunista. O fato de na época não ter sido amplamente reconhecido como propaganda anti-semita de um governo decadente à procura de justificativas para destruir seus inimigos, mas como uma obra genuína e “isenta”, deu aos Protocolos até hoje uma aura de verdade, aparecendo vez ou outra na verborragia anti-semita, mais de 100 anos depois de sua criação.

Ainda na Rússia, mas no caso soviético, muito além do evidente culto à personalidade instaurado durante o stalinismo, perpetuado pelos seus sucessores e copiado na China e na Coréia do Norte, caracterizado pela reafirmação sistemática das idéias do partido comunista, heroísmo e genialidade de seus líderes e mentores ideológicos, temos uma produção cultural altamente pró-sistema feitos sem ser explicitamente como tal, ainda que, alguns, tivessem recebido verbas estatais para tal.

A Queda da Dinastia Romanov (Esfir Shub, 1927), Aelita (Yakov Protazanov, 1924), Mãe (Vsevolod Pudovkin, 1926), todos filmes pré-stalinistas, são muito mais sutis e, digamos elegantes, em sua apologia “aos novos tempos soviéticos”. Na época em que os vários estúdios de cinema eram independentes de controle central mas igualmente comprometidos com a revolução, vemos uma apologia ao futuro, uma rejeição à tradição czarista e reafirmação da importância de abandonar as idéias atrasadas da nobreza, da Rússia antiga e abraçar o novo caminho escolhido. Está tudo lá: a reafirmação do conflito de classes, da nobreza atrasada oprimindo a população, a importância da resiliência da população comum, glorificando o trabalho árduo com a esperança de melhorias reais ao derrubar o passado, o sacrifício na construção de algo novo, a reafirmação da resistência para aguentar os tempos difíceis que se seguiam (4) e construir um novo país.

É notável porém, em outros filmes não descaradamente pró-regime (5) de Sergei Eisenstein, como Alexander Nevsky (1938) e Ivan, o terrível (1944), perceber a mudança das diretrizes ideológico-políticas do partido central, passando a exaltar outros valores diferentes daqueles dos anos 20. Liderança dura de um chefe para o bem nacional, união do país em sacrifício para manter o que foi conquistado, vigilância contra um perigo que ameaça a ordem, uma frequente reafirmação do poder do governo através de uma releitura da tradição czarista. De uma maneira geral, enquanto nos anos 20 pregavam os tempos de mudança, rejeição ao passado feudal e corrupto, numa visão otimista e “olhando para o futuro; nos anos 30 a tendência foi de reforçar a imagem de uma liderança forte, do sacrifício em defesa do que foi construído, reinventando o passado para justificar e reafirmar o presente.

Ainda em ditaduras vermelhas, falarei rapidamente da China que tinha o padrão de permitir apenas filmes claramente pró-regime, com pouca ou nenhuma sutileza, vou lembrar apenas de um blockbuster chinês em particular, que teve grande sucesso e chegou ao ocidente como obra prima: Herói (2002) de Zhang Yimun, a reinvenção de um passado específico para afirmar o sistema presente. Herói é um épico sobre a tentativa de assassinato de um imperador que está tentando a todo custo unificar o país e quando o seu assassino percebe isso, desiste de seu plano de assassiná-lo, se tornando um mártir para a unificação e aceitação da vontade do imperador.

No geral, é bem claro em regimes autoritários a máxima de Marx (2), a força política dominante construiu e pautou todo um aparato midiático propagandístico pró-sistema, repercutiu suas idéias, consolidou e difundiu a ideologia dominante, ora explicitamente, ora implicitamente. Depois de estabilizadas, as forças dominantes não se preocuparam muito em enganar e ludibriar sua população com propagandas ardilosas e dissimuladas, no caso específico de comunistas, nunca foi este o seu método, em geral seguiram bem à risca o panfleto de Karl Marx:  “Os comunistas não se rebaixam em dissimular suas idéias e seus objetivos” (6).  Assim, é bem fácil identificar em seus regimes quando estamos vendo propaganda e quando estamos vendo “ficção”.

Mas seria esta uma exclusividade das ditaduras? Até aonde vai a propaganda do sistema no “mundo livre”?

Na parte 2, semana que vem, mostrarei que não.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – Ministério da Verdade foi um termo extraído do livro 1984, de George Orwell.

2 – Citado em A Ideologia Alemã, de Karl Marx: “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual.” (IN: http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm)

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_Protocols_of_the_Elders_of_Zion

4 – Além da Guerra Civil interna a Rússia combateu 7 nações invasoras no início dos anos 20, causando fome e escassez generalizada dada a destruição dos campos).

5 – Entende-se por não descaradamente  filmes que não falam do partido ou contenham qualquer slogan claro do partido, são obras de ficção histórica e não documentários ou filmes educativos.

6 – Manifesto Comunista, Seção IV, página 58 (Instituto José Luis e Rosa Sunderman, 2003).

A miséria da educação

Educação pelo ralo

Em praticamente todo discurso político e toda propaganda eleitoral é a mesma coisa: a educação é um problema sério no Brasil. O tema da educação é o mais repetido e de tão constante pode parecer muitas vezes, vazio de significado. Vazio pois parece descolado da realidade, surgindo apenas como uma “expressão”, um slogan de campanha, uma menção obrigatória na pauta de políticos e especialistas. Para evitar este vazio, começaremos dando uma dimensão real do problema:

Segundo os dados da UNESCO (1) e pesquisa Ibope (2), o Brasil possui 75% de analfabetos funcionais, isto é, 3 em 4 quatro pessoas mal sabem ler, escrever ou calcular. Se considerarmos este método um tanto “subjetivo”, especialmente constatando que variam bastante de acordo com o método utilizado (chegando a apenas 25% segundo o IBGE), podemos então, partir objetivamente para utilização dos parâmetros que muitos países do primeiro mundo usam: considerar analfabeto funcional quem não tem ensino fundamental completo (menos de 9 anos de estudo). Desta maneira, veremos que 50,5% da população brasileira não completou o ensino fundamental (3), isto é, tem menos de 8ª série. Se, sob mesmo critério, extendermos para ensino médio completo, tempos que 64,2% não terminou o segundo grau (3).

E pior, levando em conta o sabido “sol tapado com a peneira” que se mostrou a famigerada aprovação automática (e suas variantes retóricas), um método abominado pela imensa maioria de professores e pedagogos, inventado nos idos neoliberais de Paulo Renato, FHC e cia, com o intuito exclusivo de melhorar as estatísticas brasileiras da educação para a apreciação do FMI e Banco Mundial (4) já que os mesmos exigem metas e modelos educacionais como condicionantes de empréstimos e “boa avaliação” econômica dos países que atuam (naquela balela de Risco Brasil). Isso mesmo, nosso novo sistema educacional foi criado a partir de exigências do mercado financeiro, buscando lastrear a capacidade de pagamento do Estado brasileiro. Assim, é compreensível o dado do INAF 2011-12 (4) que considera que apenas 35% das pessoas com ensino médio completo são plenamente alfabetizadas. Não esqueçamos que isso pode ter até ter sido inventado pelos neobobos nos anos 90, mas em 2010 o MEC ainda dava lenha nesta fogueira de cérebros (5).

Ainda a somar a este hecatombe educacional, temos que menos de 14% dos que cursam o ensino médio estão no técnico (6), pouco mais de 1 milhão por ano, um número ridículo para um país industrial. Este número deveria ser perto de 30-40% (6). No ensino superior podemos ainda ficar pior, encontrando números não muito surpreendentes diante do quadro traçado: calculou-se que 38% de nossos universitários sejam analfabetos funcionais (7) e que a população formada (ensino superior completo) não passe de 8% da população (8), em qualquer idade.

E não! Antes que “os reaça pirem”, o sistema de cotas não tem nada a ver com este quadro. As cotas são assumidamente um sistema paliativo e extremamente necessário para começar a diminuir a incrível desigualdade social e racial deste país e em estudo de 2010 (9), a UERJ demonstrou sua enorme eficácia em quebrar estas barreiras, derrubando preconceito e estigmas. A única ressalva é que se não fizermos nada para mudar a estrutura social deste país, pobre vai continuar pobre, mas com diploma.

Algumas idéias fora de lugar

A questão educacional passa por uma série de fatores não exatamente ligados à metodologia. Aqui faço uma crítica recorrente entre alunos de licenciatura nas mais variadas faculdades: as faculdades de educação parecem ligadas à discutir o sexo dos anjos, ou melhor, “métodos para o professor melhorar o ensino dentro da sala de aula”. A discussão econômico-política, fundamentalmente ligadas à educação brasileira, passam ao largo e são até massacradas como tecnocráticas, stalinistas e etc. Não sejamos radicais economicistas e é óbvio que Piaget, Vigotsky e Freire são leituras fundamentais para um professor, mas que metodologia um professor que ganha equivalente a um operador de xerox (nada pessoal contra operadores de xerox) vai precisar para dominar uma turma numa periferia violenta onde só do aluno estar na escola já é um marco? O que uma educação libertadora fará numa comunidade sem saneamento básico, emprego digno e renda abaixo da linha da miséria? Discutir educação sem discutir distribuição de renda, economia e política é inútil para nossa presente situação.

O que pode fazer um professor esmagado por um sistema que praticamente não o quer ali?

Pressionado por diretores e autoridades a aprovar alunos fracos pois além de boa parte das verbas das escolas estarem condicionadas ao índice de aprovação do Ideb (10), os números precisam ser maquiados para serem usados como palanque de políticos locais e regionais, deixando ao professor uma margem muito restrita para realmente trazer alguma mudança na comunidade onde está inserido. A lógica utilitarista dos idos (ultra)neoliberais se perpetua, onde o mais importante é gerar números do que alterar realmente alguma coisa. Para que mudar a realidade se podemos simplesmente mudar os números?

A carência do sistema educacional brasileiro não é questão de metodologia do professor e é até curioso que muitas faculdades de educação insitam em jogar esta carga toda em cima deste profissional, parecem reforçar opiniões reacionárias de que o ensino é fraco porque os professores são ruins, preguiçosos e que não tem amor pela profissão, como o biltre do governador do Ceará Cid Gomes comentou não tem muito tempo (11).

Se o problema fosse método e técnica dos professores seria facilmente resolvido, pois o que mais tem é gente competente e dedicada nas escolas deste país. O que não falta ao professor brasileiro é amor e superação. Ganhando a miséria que ganham, merecem mesmo é um pedestal (ou será uma cruz?). Não dá para fundar um sistema educacional com professor estadual e municipal ganhando 40% menos que a média nacional para a mesma escolaridade (16).

E em se tratando de alunos, vale lembrar a completa falta de perspectiva e pouca ascensão social que estudar mostrou neste país nas últimas décadas, com leve alteração recente (ainda não solidificada). Não sejamos ingênuos, não é coincidência que 8% da população seja universitária e apenas 22% tenha concluído o ensino médio. A nossa classe A e topo da Classe B correspondem a menos de 10% da população do país e 20% é o tamanho da classe B “média” (13) e (14). E esta relação é sólida há décadas, basta cruzar os índices de analfabetismo com distribuição de renda e veremos a regularidade (15). Além disso, é difícil manter um quadro consistente entre estudantes que precisam também trabalhar desde muito cedo ou cuidar de outros familiares para que irmãos mais velhos e pais trabalhem em tempo integral para sustentar. Nem vale a pena bater no sistema de creches brasileiro, pois ele praticamente inexiste (12). É extremamente difícil para uma família de classe C, D e E manter um aluno no ensino médio exclusivamente estudando.

A renda está fundamentalmente ligada ao nível educacional e não o contrário.

Por muitos anos vivemos com a máxima “a educação é o caminho para uma melhor renda familiar”, mas no Brasil o inverso é muito mais verdadeiro: “a renda familiar é o caminho para uma melhor educação”. Apenas com um esforço pessoal e familiar enorme é que as classes baixas conseguem romper esta barreira e alterar pontualmente este quadro. Ninguém é cretino o suficiente para achar que a competição é igual entre ricos e pobres no sistema educacional.

Mas vamos a mais números.

Se cruzarmos os gastos anuais com educação pública (~162 bilhões anuais, nota 17) e privada (~40 bilhões, nota 18) com a população de jovens entre zero e 25 anos (80 milhões de pessoas, nota 19) temos que o gasto anual por estudante em todos os níveis (creche, fundamental, médio e universitário) é de R$2.525 reais por ano, ou aproximadamente R$210 por mês.

Isto é, por volta de 2010 gastamos em média 1/3 do salário mínimo por mês com nossos estudantes. No mesmo período a média anual européia foi de aproximadamente U$6.500 (R$13.000 anuais, nota 20) ou R$1080 por aluno por mês. Esse é o tamanho da diferença. Não é preciso ser um gênio em políticas educacionais para saber que o problema real está aqui. Não há metodologia revolucionária que tape este buraco; não há financiamento cretino de laptop obsoleto ao professor que tape este buraco (21); não há Stakhanov (23) do ensino ou amor pela profissão que supere isso. É como colocar uma BMW 2012 para correr com um Gol 87 e esperar que o talento do piloto resolva.

O gasto com educação no Brasil é proporcional à necessidade do sistema de castas em que vivemos se manter funcionando.

Um equilíbrio nefasto determinado pelos agentes mais interessados em sua estagnação, numa balança criminosa e destrutiva. O número de universitários e qualificados é apenas o suficiente para construir uma elite dirigente do Estado e dos setores capitalistas que o cercam, para manter o país exatamente nos moldes em que sempre foi: ignorante, extremamente desigual e com um enorme exército de reserva (21) em todas as áreas possíveis. Se um sistema é algo que produz efeitos sistematicamente, o nosso sistema educacional é uma máquina de formação de mão-de-obra pouco qualificada, pouco instruída, subalterna e submissa, pronta para trabalhar por qualquer miséria que seja “o padrão do mercado”.

Não é coincidência que o comando da educação fundamental e média esteja a cargo de municípios e estados, como foi escrito em nossa Constituição. São as elites locais e regionais que dominam econômica e politicamente a educação deste país, elas determinam a eficácia da principal ferramenta para questioná-las politicamente. Não há grandes mistérios e métodos para solucionar o sistema educacional brasileiro. Retire o controle econômico e político da educação das pequenas elites locais, federalizando e unificando todo o sistema educacional nacional, deixando apenas a decisão curricular para cada organização regional de professores e educadores. Para acabar com a Casa Grande, só tirando a chave da biblioteca das mãos dela.

Leandro Dias

Notas:

(1) http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=700

(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Analfabetismo_funcional

(3) http://noticias.r7.com/educacao/noticias/metade-da-populacao-nunca-estudou-ou-tem-ensino-fundamental-incompleto-no-brasil-20120427.html

(4) http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-07-17/menos-de-30-dos-brasileiros-sao-plenamente-alfabetizados-diz-pesquisa

(5) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,aprovacao-automatica,558494,0.htm

(6) http://www.ifb.edu.br/planaltina/noticias/3792-ensino-tecnico-desperta-interesse-de-alunos-e-qualifica-mao-de-obra

(7) http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=444534

(8) http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1082213-aumenta-o-numero-de-brasileiros-com-ensino-superior-completo.shtml

(9) http://oglobo.globo.com/educacao/primeiro-grande-estudo-sobre-sistema-de-acoes-afirmativas-da-uerj-pioneiro-no-pais-mostra-2997559

(10) http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/23710/educacao-no-pais-avanca-mas-aluno-aprende-pouco/

(11)  http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/ce/professor+deve+trabalhar+por+amor+nao+por+dinheiro+diz+cid/n1597184673225.html

(12) http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/12891/brasil-deve-triplicar-numero-de-matriculas-em-creches-para-atingir-meta-do-pne

(13) http://www1.folha.uol.com.br/poder/935502-classe-c-e-a-unica-que-continua-a-crescer-aponta-fgv.shtml

(14) http://www.abep.org/novo/Utils/FileGenerate.ashx?id=197

(15) http://www.ufjf.br/ladem/2012/02/24/analfabetismo-no-brasil-evidencia-desigualdades-sociais-historicas/

(16) http://educacao.uol.com.br/noticias/2010/12/15/professor-ganha-40-menos-que-media-do-trabalhador-brasileiro-com-mesma-escolaridade.htm

(17) http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,-gastos-do-brasil-com-educacao-nao-sao-suficientes-para-atingir-metas-diz-ipea-,810843,0.htm

(18) http://www.sinpro-rs.org.br/idiomas/noticias.asp?id_noticia=831&key_noticia=5Z47JCPF74hTY8Fjq4SI

(19) http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=12&uf=00

(20) http://epp.eurostat.ec.europa.eu/statistics_explained/index.php?title=File:Expenditure_on_educational_institutions,_2004_and_2009_(1).png

(21) http://governo-sp.jusbrasil.com.br/noticias/145629/financiamento-de-laptop-a-professor-comeca-na-segunda

(22) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ex%C3%A9rcito_industrial_de_reserva

(23) http://pt.wikipedia.org/wiki/Stakhanovismo

“Revista” Veja, a mídia panfletária e a “liberdade de imprensa”

Curioso o discurso – repetido à exaustão – em prol da tão propagada “liberdade de imprensa”: afinal, o que é e a quem serve essa imprensa no Brasil contemporâneo?

O que podemos chamar, sem sombra de dúvidas, de uma “imprensa livre”? Livre do que? Livre para que? Livre para quem?

A edição da “Revista” Veja de 21.04.2010 é mais um claro exemplo disso: afinal, a imprensa é “livre”, “neutra” e “imparcial” para informar?

A única coisa comprovadamente neutra da qual já tomei conhecimento é sabão. Fora isso, nada nem ninguém é neutro. Mídia, escritores, políticos, jornalistas, técnicos de futebol. Nada. Onde quer que existam seres humanos envolvidos, não há nem pode haver neutralidade. A razão é muito simples: cada ser humano tem suas experiências, expectativas, desejos, repulsas, valores, sua visão de mundo; não há nada que esse ser humano possa fazer – muito menos, pensar e escrever – que não sofra, de uma forma ou de outra, influências de sua personalidade, de seus gostos e desgostos. Não existe neutralidade: tudo que é escrito tem uma visão de mundo, expressa e oculta interesses. Inclusive isso que estou escrevendo aqui. Não se trata de escolher ser neutro ou imparcial; isso não existe. É um discurso que a mídia adota para legitimar-se; para dar a aparência de “verdade” ao que não passa de opinião.

Pois bem, uma vez adotada essa percepção, dar-se-á um fantástico passo no sentido de não se deixar ludibriar por qualquer tipo de “imprensa” – desde o “Inverta” dos comunistas (“comunistas”?) até o “Mídia sem Máscara” do Sr. Olavo de Carvalho – passando, é claro, pela “Veja” de José Serra.

Se conseguirmos substituir em nossa concepção a palavra “imprensa” por “discurso”, faremos então um trabalho ainda melhor à nossa mente – pois “imprensa” não passa de um discurso que, ao invés de falado, está impresso. E por via desse fantástico recurso criado pelo alemão Gutenberg no século XV, pode atingir uma audiência de massas. Então, teremos como resultado que, ao ler, ver e ouvir qualquer veículo midiático, devemos estar conscientes de que se trata de uma mensagem concebida dentro – e a favor – de uma visão de mundo.

Pois é exatamente assim que devemos olhar para a “Veja” – não só em sua “edição José Serra”, mas cotidianamente -; não se trata de uma revista, mas sim de um discurso, um panfleto. Tão panfletária quanto o mais famoso dos panfletos, o “Manifesto do Partido Comunista”; apenas, serve à uma outra causa.

Veja: a imprensa livre de qualquer tendência.

A meiga foto da capa; a sutileza(?) do “Brasil pós-Lula”; a comovente frase – “me preparei a vida toda para ser presidente”; o conteúdo da reportagem (que poderá ser conferido no link abaixo). Compare com a edição “dedicada” à Dilma, algumas semanas antes.

Veja: a imprensa livre de qualquer tendência.

Imprensa livre?” Sim, a imprensa está livre: para escrever o que quiser, quando e como quiser; para manipular – através de palavras ou símbolos – como quiser; livre para ser tendenciosa; livre para dar por encerrados governos e eras – enquanto eles ainda estão aí; livre para decidir quais são os “candidatos importantes” nas eleições – afinal, os candidatos e seus projetos que estão na mídia lá aparecem porque são os candidatos eleitoralmente mais expressivos ou são os candidatos e projetos eleitoralmente mais expressivos porque aparecem na mídia?

Imprensa livre”? Sim, a imprensa está livre – e a consciência está presa.

Jamais devemos permitir que outros pensem por nós. Mas essa é uma tentação muito cômoda, da qual é especialmente difícil fugir, pois pensar dá trabalho e causa sofrimento.

Veja edição José Serra:

http://veja.abril.com.br/210410/com-casa-ordem-serra-vai-luta-p-062.shtml

OBS – no final do artigo, “Veja” chega a justificar – astrologicamente – a vitória de Serra. Obsceno.

Veja edição Dilma Roussef:

http://veja.abril.com.br/240210/candidata-conquista-ninho-p-050.shtml

OBS – “ Veja” “esqueceu” de publicar o horóscopo da vitória de Dilma.

A. G.