Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

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Cinema e Agitprop do Sistema (parte 2)

Filme racista de 1915, apoiado pelo exército Norte Americano.

Quando ocorrido o 11 de Setembro, imediatamente o governo americano se reuniu com diretores de cinema em Hollywood para determinar o que fazer, que “bons caminhos” tomar para a produção cultural norte-americana (1). A ousadia e o espetáculo das ações do 11 de Setembro, não só o plano em si, mas o misancene que foi retratado pela TV, roupeu a tênue fronteira entre a ficção e a realidade, entre o documentário e fantasia, entre propaganda e enredo.

Não é nenhum grande mistério que a indústria do cinema sofre pressões ou busca financiamento público para suas obras culturais, até nos EUA – terra que se prega a supremacia do dinheiro privado. Durante a Primeira Grande Guerra, os EUA criaram o Comitê para Informação Pública (2), dedicado a fazer propaganda pró-governo e anti-alemã, durante todo o período da Guerra. Seu papel, além de fazer diretamente peças artísticas falando bem das causa governistas, era viabilizar que filmes pró-americanos tivessem a maior repercussão e financiamento possível.

Nessa mesma época, em 1915 surgiu um pioneiro filme de guerra chamado O nascimento de uma Nação, dirigido por D. W Grifith. A obra foi um sucesso estrondoso de bilheteria, apesar de usar atores brancos pintados de preto para o papel de negros e uma evidente apologia à Ku Klux Klan. No entanto, muito interessante do filme é seu pioneirismo em outra área: foi o primeiro filme a ter consultoria e apoio do West Point, também conhecida como Academia Militar dos Estados Unidos. O exército não só forneceu artilharia, mas deu consultoria para as cenas de guerra, emprestou canhões e soldados e, dada a recepção do filme, não teve nenhum problema com o conteúdo racista e apoio da KKK. Este filme financiou a KKK por muitos anos (3).

Desde então, a colaboração do exército e órgãos governamentais no cinema americano foi enorme. Pautando filmes, utilizando o cinema como potente arma de propaganda das idéias e políticas do governo. O objetivo principal é o uso da credibilidade e “isenção” do cinema e mídia privados para fomentar propagandas pró-sistema,  tentando criar novos conceitos, arraigar existentes, demolir opositores políticos e “subversivos”, criar consensos favoráveis à classe dominante do período, sem no entanto parecer usar a “máquina estatal” para tal, sem dar muito na cara, como falamos dos regimes ditatoriais no post anterior.

A Segunda Guerra reforçou essa aliança. A série de documentários Why We Fight (1942-1945), foi comissionada diretamente pelo governo, usando nada menos que um laureado com o Oscar Frank Capra para dirigi-la, numa tentativa de documentário que ficasse à altura dos de Leni Riefenstahl (4) para a Alemanha Nazista. A série também foi um sucesso.

Num lado mais lúdico, Walt Disney e sua corporação formaram um grande veículo privado para propaganda governamental, desde o Pato Donald explicando a importância de pagar impostos, até o mesmo pato  ridicularizando o nazismo. Num lance mais “sério” temos o Education for Death (Disney, 1943), animação sobre uma criança no regime nazista, de 1943, ambos desenhos bem sombrios para crianças segundo os padrões de hoje.

Junto com Mickey Mouse, Donald é o personagem mais popular da Disney, talvez por isso seja exatamente o desenho que revela um discurso ideológico muito mais marcante, uma representação – as vezes muito clara – da ideologia pró-sistema que quero enfatizar aqui:

Donald trabalha feito um condenado mas está sempre em dívida com o seu Tio, que frequentemente usa este argumento para forçá-lo (chantageá-lo) em alguma aventura de pilhagem e enriquecimento (do Patinhas é claro). Por mais que Donald trabalhe, jamais fica rico, se considera azarado ou não esforçado o suficiente, invejando seu rival Gastão, rico e “sortudo” sobrinho puxa-saco de Patinhas. Há até um clássico underground feito no Chile de Allende, explorando em mais detalhes as sutilezas (ou não) das histórias de Pato Donald e Tio Patinhas na América Latina. Para Ler Pato Donald (1972), ainda que dotado de exageros – um pouco – paranóicos (5), a obra mostra outras nuances profundas do discurso pró-sistema e elitista e vale ser lida.

Ao falar de Disney, não podemos esquecer a enorme presença do discurso conservador típico da direita  WASP (6) norte-americana, a ideologia dominante da produção cultural americana do seu tempo. À exceção de Mulan (1998), todas as princesas/protagonistas Disney são mulheres submissas, dependentes, passivas e alienadas, a espera de um príncipe encantado para mudar de vida, algumas até com Síndrome de Estocolmo, reproduzindo o que há de mais conservador em discurso sobre o papel da mulher na sociedade.

Corações e Mentes

Na história recente, apenas na minha geração, a profusão de filmes com larga presença militar e ideologia pró-americana é tão grande que fica difícil listar todos os filmes, vou colocar apenas alguns mais relevantes na minha lista.

Em Rambo 3 (1988), o exército americano usa um mercenário (Silvester Stallone) para ajudar mujahedins afegãos, conhecidos como Talibãs, retratados no filme como “defensores da liberdade”, para expulsar o imperialismo soviético. O filme faz uso maciço de bases militares, aviões, helicópteros e armamento americano. Lembrando que Bin Laden nesta época, era fiel aliado ocidental. É importante notar que, apesar de ser prática comum na época, o uso de mercernários privados em ações militares “extra-oficiais” era algo ainda mal visto (7).

Top Gun (1986) retrata toda a evolução de dois jovens nas fileiras da Marinha americana, da melhor maneira que Hollywood sabe fazer. É difícil não ver este filme como uma obra de propaganda militar, seu sucesso foi tão grande que a Marinha colocava bancadas de recrutamento na porta do cinema, com grande sucesso (ver documentário Hollywood and The Pentagon: A dangerous Liaison, de 2003).

Independence Day (1996) é um filme sobre invasão alienígena, mas seu discurso e ideologia é extremamente terrestre e não ficcional. É outra obra com largo uso de recursos, consultoria e equipamento militar. Retrata a invasão dos EUA por aliens que querem exterminar a humanidade. O próprio presidente dos EUA é voluntário para entrar num avião e lutar alienígenas, após longo e patriótico discurso. O interessante lembrar é que este é um daqueles filmes onde a bomba atômica salva a humanidade: é um míssil atômico, carregado por um suicida (“mártir”), que termina por destruir a super nave alienígena e salva a América. Guerreiros suicidas ainda não estavam em baixa como nos dias de hoje.

Impacto Profundo (1998), Armaggedon (1998), O núcleo (2003) e Sunshine: Alerta Solar (2007), são filmes, assim como Independence Day, onde a bomba atômica salva a humanidade da aniquilação. Vale lembrar que o produtor de Armaggedon é o mesmo de Top Gun e de Falcão Negro em Perigo (2001), e é o mais propagandístico destes filmes que pervertem o uso da bomba atômica.

Essa inversão do objetivo das coisas, servindo para o seu exato oposto me lembra de Slavoj Zizek e seus argumentos da falta de substância das coisas na pós-modernidade. Café sem cafeína, açúcar light, “invasão de defesa” (só para lembrar de Israel no presente momento), guerra sem vítimas e assim, o uso da maior arma de aniquilação humana já inventada – A bomba atômica – é transformada em sua salvação única, desprovida de seu caráter destruidor, se torna a ponta da lança que aniquila o dragão, a única esperança de defesa e resistência. Qualquer semelhança com George Orwell é mera coincidência. Aniquilação é Salvação.

Em Falcão Negro em Perigo, a resistência somali contra a invasão dos EUA (exército americano sob farda da ONU) durante a sua guerra civil em 1993, é vilanizada e o sangrento massacre em Mogadishiu, transformado num heróico épico de resgate paladínico, com direito a helicóptero tocando “Hell’s Bells” do ACDC. Nada é problematizado, nem o papel dos EUA, nem as intenções dos inimigos, os somalis são todos os bestializados, sem nome e sem importância.

A bestialização do inimigo lembra ainda de outro blockbuster apoiado/financiado pelo exército americano: Invasão do Mundo: A Batalha de Los Angeles (2011). Um filme que se você lembrar que a palavra ALIEN em inglês também se refere à imigrante ilegal, você têm um dos mais conservadores – para não dizer nazistas – filmes norte-americanos. Os inimigos quase invisíveis e indestrutíveis, bestas que vêm de todas as partes, sem valores ou origens identificáveis (como “chicanos” que podem ser desda Bolívia até o México), seu objetivo é apenas destruir a América. Os diálogos do filme são quase de manuais militares e junto Top Gun e Transformers (Michael Bay, 2007), considero os filmes mais apologéticos do exército que tenho notícia.

Nessa discussão toda vale citar primeiro 300 (Zack Snyder, 2006), inspirado no quadrinho de Frank Miller e Transformers (Michael Bay, 2007), baseado no desenho de mesmo nome dos anos 80, brilhantemente analisado por Slavoj Zizek.  Ele inverte a noção comum de que 300 é um filme apologético pró-americano, anti-islâmico (iraniano), militarístico, retratando a supremacia da guerra frente à diplomacia, num heroísmo americano contra a invasão de estrangeiros.

Este filme, para o filósofo, é um filme que retrata uma rica superpotência imperial (Pérsia), com um exército indestrutível, tentando invadir uma pobre região montanhosa habitada por fanáticos. Seus métodos são a intimidação, compra de políticos e figurões e a contratação de mercenários de todas as partes do mundo para formar um exército invasor em terras distantes da sua. A cultura persa é retratada em mostruosidades exóticas, festas promíscuas, com marcante falta de valores e uma moralidade comprável com dinheiro.

Esparta por sua vez é uma nação pequena, com um rei idealista, avesso às politicagens corruptas de interesseiros nobres, ou o misticismo pessimista dos oráculos. Dotado de um pequeno exército, o que lhe resta é a disciplina e a  crença fanática em seus valores e idéias.

Para Zizek a Pérsia É o Imperialismo americano, Xerxes tentando seduzir e corromper os gregos é como um Ronald Reagan tentando seduzir e corromper Sandinistas ou lideranças sauditas. Esparta promete acabar com o misticismo, defendendo um reinado de razão e democracia, no melhor estilo iluminista, contra a barbáries sem valores do mundo Persa. Não foi a toa que os revolucionários comunistas alemães se proclamaram “Liga Espartaquista“, diz.

Apesar de concordar com todos os pontos de Zizek, o filme não foi feito para acadêmicos e pessoas mais interessadas em tramas complexas e reflexão profunda. É um blockbuster de verão. A mensagem que fica para o menos atento, interessado apenas num pipocão de fim de semana para entreter sua monótona vida proletária, é a versão superficial do filme: a supremacia ocidental frente ao barbarismo oriental.

Os inimigos usam turbantes e aparatos exóticos, falam com sotaque ou são ininteligíveis, são infinitos e estão em todo lugar (clássica paranóia direitista contra imigrantes); a política e a diplomacia são corruptas (de ambos os lados), só o exército é virtuoso e dotado de uma verdade que faça sentido. Tanto que o filme repercutiu muito mal no Oriente Médio, com declarações públicas de Ahmadinejad inclusive (9).

Porém, essa clara ambiguidade do filme, talvez demonstre a sutileza apologética do cinema ideológico que eu esteja tentando mostrar, dando razão à narrativa de Zizek: na superfície faz um discurso enquanto a substância do filme é completamente diferente, muitas vezes até oposta à superfície. Algo que torna o filme brilhante.

Prosseguindo.

A série de filmes Transformers por sua vez, é tão propagandística e apologética que faz Alexander Nevsky de Eisenstein parecer uma obra de ficção completamente sem relação com o stalinismo. É um festival de recursos, aparato, discursos e argumentos pró-americanos, de um militarismo gritante. Como Top Gun (10), é  praticamente um vídeo de recrutamento, com direito a um jovem conhecendo uma bela moça enquanto se torna um “soldado a serviço dos Transformers”. Mesmo porque os vídeos oficiais de recrutamento não estão tão longe de um filme hollywoodiano:

Já que estamos falando de super heróis vejamos a – nada subliminar – situação de Homem de Ferro (2008) e a nova série de filmes do Batman (2005-2012). Ambos bilionários enriquecidos com dinheiro da fabricação de armamentos para o Complexo Industrial-Militar norte-americano e ambos auto-proclamados defensores da justiça. A não problematização da sua maneira de enriquecer, ignorando o fato de que qualquer um que saiba minimamente de como se faz dinheiro na indústria de armamentos (11) sabe que não há nada de nobre ou heróico em vender armamentos militares. No pano de fundo é algo como enfatizar a “riqueza é uma virtude por si só” (ver este meme), independente de onde veio o dinheiro.

O Homem de Ferro, no filme Vingadores (2012) ainda reforça a noção que mencionei acima de que a bomba-atômica é a única salvação da humanidade. Quando os heróis e os mercenários pára-estatais da S.H.I.E.L.D falham para conter a invasão alienígena,  Homem de Ferro conduz um míssil atômico até o coração do portal invasor, destruindo-o. Novamente a Bomba Atômica salva a humanidade (ou os EUA).

Já em Batman, especialmente no último filme da série, surge outra pérola de discurso pró-sistema. Batman é um agente pára-militar perseguindo um vilão, líder de excluídos que vivem em esgotos e que querem destruir a ordem vigente. Bane começa tentando destruir a fonte de riqueza dos seus inimigos explodindo a Bolsa de Valores e falindo o Batman. Vale lembrar o diálogo logo no início do filme entre o vilão e um funcionário da Bolsa (12):

Comerciante da Bolsa: “Isso é uma bolsa de valores, não há nada o que roubar”

Bane: “É mesmo?! E o que vocês fazem aqui diariamente?!”

Depois Bane quer destruir uma prisão repleta de “suspeitos” de atos ilícitos contra o regime, presos após o endurecimento de leis especiais “anti-terror”, numa conservadora visão da Queda da Bastilha. Se somarmos com a ridicularização e satanização dos Tribunais de Sentença contra “agentes do sistema” e a liderança de um implacável, incorruptível e “sanguinário” líder, temos já três importantes referências à Revolução Francesa. Bane ainda chama os habitantes de Gotham para tomar as ruas, “cuidar do que lhes pertence”, sem qualquer desmando ou interferência sua, apenas convoca os cidadãos após destruir a força repressiva do Estado (a polícia), numa inspiração “Occupy Wall Street”.

Ao fim, Batman, o bilionário acima da lei, que sempre age quando julga que a lei ou a polícia não estão sendo eficientes,  utilizando todo aparato militar que seu dinheiro pôde comprar, marcha para derrotar Bane e sua revolução. No caminho ainda coopta a Mulher Gato, uma bela ladra e alienada, se junta ao bilionário para destruir a ideologia louca de Bane. O dinheiro sempre vence.

***

Assim, por mais que não seja tão claro como nas ditaduras citadas no post anterior, fica difícil não ver em Hollywood um fundamental braço propagandístico da ideologia do sistema. A sutileza e a máscara de isenção que carrega o torna o mais eficaz instrumento de divulgação da ideologia americana, uma fábrica de influência de corações e mentes em defesa daquilo que querem que seja verdade. Seja nos filmes blockbusters, seja nos jogos de videogame super-vendidos (13), também feitos sob ideologia da Califórnia, Hollywood é a própria expressão do Agitprop do sistema, é a perfeita exemplificação do “Aparelho Ideológico do Estado”. É difícil lembrar de um único blockbuster sem fundamental influência do pensamento hegemônico norte-americano, é a realização elegante do Ministério da Verdade. Aniquilação é Salvação.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/1586468.stm

2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Committee_on_Public_Information

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_birth_of_a_nation

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Why_We_Fight

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/White_Anglo-Saxon_Protestant

6 – No nosso post Wikileaks: eu já sabia evidenciamos que a esquerda paranóica não era tão paranóica assim e que muitos dos crimes revelados documentalmente pela Wikileaks e outros vazamentos, como o recente da taxa Libor e do preço do combustível pautado por corporações, revelado pelo Guardian, já eram pregados por quase toda a direita séria há muitos anos, da imensa cartelização até os acordões das classes dominantes econômicas.

7 – Nos anos 90 haviam 50 militares para cada mercenário privado, agora a proporção é 1 para 10 (Peter Singer  IN: http://en.wikipedia.org/wiki/Private_military_company )

8 – In the 1990s there used to be 50 military personnel for every 1 contractor, now the ratio is 10 to 1 (Singer).

9 – http://voices.yahoo.com/iran-condemns-blockbuster-movie-300-as-american-psychological-249323.html?cat=40

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Top_Gun#Involvement_of_the_U.S._military

11 – Um míssil, uma munição ou uma granada, são dos melhores produtos capitalistas. No momento em que são usados não só são consumidos, como destroem coisas que estão no seu caminho. É a obsolência capitalista no seu mais alto grau.

12 – http://www.imdb.com/title/tt1345836/quotes

13 – Em reportagem da Al Jazeera recente, além da promíscua relação cinema-exército, se menciona ainda o universo dos videogames, que vale lembrar apenas o que considero um dos ápices da relação: America’s Army (2007), um jogo totalmente financiado pelo exército americano, sendo um dos primeiros com grande qualidade gráfica totalmente gratuito. Seu objetivo, segundo seu próprio criador era “utilizar da tecnologia computacional para prover ao público uma experiência virtual de um Soldado que fosse envolvente, informativa e divertida” ( http://en.wikipedia.org/wiki/America’s_Army). Vale analisar também a série Call of Duty e Medal of Honour para reforçar o argumento acima.

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Cinema e Agitprop do Sistema (parte 1)

Alexander Nevsky (1938, Sergei Eisenstein)

É lugar comum nas análises dos regimes fascistas e bolcheviques, a ênfase em seus respectivos aparatos de propaganda. Natural, é difícil falar da Alemanha nazista sem falar de Göebbels ou ignorar a relevância que a propaganda ideológica tem  para Adolf Hitler no seu livro Mein Kampf (Minha Luta), e mais ainda, como estas idéias se traduziram ao propagarem-se através de aparelhos estatais com sua posterior subida ao poder. No caso bolchevique, é difícil não enxergar o exagerado culto à personalidade ou o alinhamento até da própria ciência com a “verdade” do partido, como foi o caso do Lissenkismo (em inglês). Ou mesmo na Coréia do Norte onde o próprio culto à personalidade e à classe dominante suprimiram até mesmo as menções ideológicas marxistas ainda nos 70 (curioso é chamar aquilo de ditadura bolchevique).

Em ditaduras não há mistério em identificar a vontade do governo em seus projetos de propaganda explícitos, sejam filmes, livros ou arte em geral.  No caso do regime nazista, elas eram feitas exclusivamente por agência central do governo, especialmente depois de 1934 quando ocorreu um sanguinário realinhamento dos membros e ideologia do partido, levando a execução e prisão de política de inúmeros elementos “subversivos” dentro do partido.

Assim, a dificuldade não é perceber o que é óbvio, que o governo nazista e o sistema de poder que o sustentava, faziam propagandas que lhe eram favoráveis o tempo todo e em todas as mídias possíveis. o Mein Kampf está repleto destas intenções, tendo dois capítulos inteiros sobre o tema.  Se não é difícil notar as obras claramente de propaganda, o mais interessante portanto, é notar a propaganda do sistema em obras que não eram produzidas diretamente pelo aparato estatal, burôs de propaganda ou Ministérios da Verdade (1).

Os Caminhos da Força e da Beleza (1925)

Leni Riefenstahl, atriz e talentosa cineasta, favorita do regime nazista, produziu importantes obras exaltando o partido e seus líderes. O interessante porém, além da relevância histórica de seus documentários apologéticos do regime, é observar dois filmes que ela atuou e co-produziu antes dos documentários pró-regime, são eles Wege zu Kraft und Schönheit  (1925, Os caminhos da força e da beleza) e Das blaue Licht (A luz azul).

O primeiro é um filme, digamos, naturista, da aproximação entre beleza, força física e a natureza, um sempre presente culto ao corpo e à saúde. Fundamentalmente encaixado no idealismo da cultura alemã dos anos 20, da rejeição da vida urbana e cosmopolita (corrupta) e exaltação da vida simples, “natural”, fora das cidades. Não é um filme de propaganda, foi feito durante o período democrático de Weimar, mas o seu tema é recorrente na cultura nazista posterior, por isso é mais importante, revela traços da mentalidade anti-cosmopolita, proto-fascista que já permeava a Alemanha. É um filme “pró-sistema” e anti-Weimar, considerando que a direita radical alemã considerava República de Weimar  uma representação do cosmopolitismo burguês liberal, pela primeira vez elevado ao poder central naquele país. Era um filme altamente alinhado com a extrema direita, antes mesmo dela se solidificar no poder.

O segundo filme tem uma inspiração numa lenda alemã de mesmo nome, adorada pela direita nacionalista alemã de então. No caso do filme, também revela no fundo o conflito entre cidade e vida simples do interior. Junta (Riefenstahl), solitária adoradora da natureza, que se conecta com ela meditando com cristais numa caverna secreta próxima, é seduzida por Vigo, pintor da cidade grande, que depois revela o segredo dos cristais à cidade e os rouba junto com outros moradores. Reiterando o conflito entre a cidade corrupta e o interior nobre, puro e imaculado, a “verdadeira Alemanha”.

Ainda em filmes sob temática nazista, vale lembrar a apenas razoável produção recente: Um Homem Bom (dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim em 2008). Viggo Mortensen interpreta um escritor alemão no início dos anos 30 na Alemanha, ganhando prestígio acadêmico no país por ter escrito um livro cujo único mérito foi fazer apologia da eutanásia de doentes. Mesmo – no contexto do filme – o livro ter sido escrito antes do regime nazista chegar ao poder e, mesmo o autor não sendo [ainda] um nazista, o livro cai nas graças do partido e o autor virou celebridade, um intelectual nazista “orgânico”, expondo algumas idéias importantes ao sistema, antes mesmo que a própria propaganda oficial o fizesse.

A sutileza domina sem esforço, prende sem amarras, arraiga costumes e vontades de uma determinada corrente política, de uma vontade de classe, e as traveste de uma vontade universal, dando um ar de naturalidades a construções históricas, sociais e ideológicas. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, pois é a que tem mais recursos para propagar suas idéias (2), muito mais importante do que suas propagandas oficiais propriamente ditas, são as obras culturais que solidificam e reafirmam seu sistema de poder, sem no entanto parecer que o fazem.

Quanto fogo anti-semita foi atiçado pelos Protocolos dos Sábios do Sião? Uma farsa literária feita pela Okrana (Polícia Secreta da Rússia Czarista) desmascarada tantas vezes que é incrível ainda acreditarem em sua veracidade. Brilhantemente produzido como obra verídica e não como propaganda do governo, este livro caiu como uma luva na ação do Czar russo na opressão de judeus “conspiradores” (3), lembrando que os judeus, já nesta época eram associados ao marxismo e subversão comunista. O fato de na época não ter sido amplamente reconhecido como propaganda anti-semita de um governo decadente à procura de justificativas para destruir seus inimigos, mas como uma obra genuína e “isenta”, deu aos Protocolos até hoje uma aura de verdade, aparecendo vez ou outra na verborragia anti-semita, mais de 100 anos depois de sua criação.

Ainda na Rússia, mas no caso soviético, muito além do evidente culto à personalidade instaurado durante o stalinismo, perpetuado pelos seus sucessores e copiado na China e na Coréia do Norte, caracterizado pela reafirmação sistemática das idéias do partido comunista, heroísmo e genialidade de seus líderes e mentores ideológicos, temos uma produção cultural altamente pró-sistema feitos sem ser explicitamente como tal, ainda que, alguns, tivessem recebido verbas estatais para tal.

A Queda da Dinastia Romanov (Esfir Shub, 1927), Aelita (Yakov Protazanov, 1924), Mãe (Vsevolod Pudovkin, 1926), todos filmes pré-stalinistas, são muito mais sutis e, digamos elegantes, em sua apologia “aos novos tempos soviéticos”. Na época em que os vários estúdios de cinema eram independentes de controle central mas igualmente comprometidos com a revolução, vemos uma apologia ao futuro, uma rejeição à tradição czarista e reafirmação da importância de abandonar as idéias atrasadas da nobreza, da Rússia antiga e abraçar o novo caminho escolhido. Está tudo lá: a reafirmação do conflito de classes, da nobreza atrasada oprimindo a população, a importância da resiliência da população comum, glorificando o trabalho árduo com a esperança de melhorias reais ao derrubar o passado, o sacrifício na construção de algo novo, a reafirmação da resistência para aguentar os tempos difíceis que se seguiam (4) e construir um novo país.

É notável porém, em outros filmes não descaradamente pró-regime (5) de Sergei Eisenstein, como Alexander Nevsky (1938) e Ivan, o terrível (1944), perceber a mudança das diretrizes ideológico-políticas do partido central, passando a exaltar outros valores diferentes daqueles dos anos 20. Liderança dura de um chefe para o bem nacional, união do país em sacrifício para manter o que foi conquistado, vigilância contra um perigo que ameaça a ordem, uma frequente reafirmação do poder do governo através de uma releitura da tradição czarista. De uma maneira geral, enquanto nos anos 20 pregavam os tempos de mudança, rejeição ao passado feudal e corrupto, numa visão otimista e “olhando para o futuro; nos anos 30 a tendência foi de reforçar a imagem de uma liderança forte, do sacrifício em defesa do que foi construído, reinventando o passado para justificar e reafirmar o presente.

Ainda em ditaduras vermelhas, falarei rapidamente da China que tinha o padrão de permitir apenas filmes claramente pró-regime, com pouca ou nenhuma sutileza, vou lembrar apenas de um blockbuster chinês em particular, que teve grande sucesso e chegou ao ocidente como obra prima: Herói (2002) de Zhang Yimun, a reinvenção de um passado específico para afirmar o sistema presente. Herói é um épico sobre a tentativa de assassinato de um imperador que está tentando a todo custo unificar o país e quando o seu assassino percebe isso, desiste de seu plano de assassiná-lo, se tornando um mártir para a unificação e aceitação da vontade do imperador.

No geral, é bem claro em regimes autoritários a máxima de Marx (2), a força política dominante construiu e pautou todo um aparato midiático propagandístico pró-sistema, repercutiu suas idéias, consolidou e difundiu a ideologia dominante, ora explicitamente, ora implicitamente. Depois de estabilizadas, as forças dominantes não se preocuparam muito em enganar e ludibriar sua população com propagandas ardilosas e dissimuladas, no caso específico de comunistas, nunca foi este o seu método, em geral seguiram bem à risca o panfleto de Karl Marx:  “Os comunistas não se rebaixam em dissimular suas idéias e seus objetivos” (6).  Assim, é bem fácil identificar em seus regimes quando estamos vendo propaganda e quando estamos vendo “ficção”.

Mas seria esta uma exclusividade das ditaduras? Até aonde vai a propaganda do sistema no “mundo livre”?

Na parte 2, semana que vem, mostrarei que não.

Leandro Dias

NOTAS:

1 – Ministério da Verdade foi um termo extraído do livro 1984, de George Orwell.

2 – Citado em A Ideologia Alemã, de Karl Marx: “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual.” (IN: http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm)

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/The_Protocols_of_the_Elders_of_Zion

4 – Além da Guerra Civil interna a Rússia combateu 7 nações invasoras no início dos anos 20, causando fome e escassez generalizada dada a destruição dos campos).

5 – Entende-se por não descaradamente  filmes que não falam do partido ou contenham qualquer slogan claro do partido, são obras de ficção histórica e não documentários ou filmes educativos.

6 – Manifesto Comunista, Seção IV, página 58 (Instituto José Luis e Rosa Sunderman, 2003).