Rio Revolta

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De derrota em derrota até a vitória final

"Todo poder aos black blocs?"

“Todo poder aos black blocs?”

50 mil pessoas defendendo a educação no Rio e só se fala de quebra-quebra, destruição, “porrada, tiro e bomba”.

Pelo que lutavam mesmo? Irrelevante.

Não interessa que o prefeito ignorou por completo as demandas e ainda disse que os “professores não sabem sabem fazer contas“, o importante é o ônibus incendiado, os prédios destruídos e a manifestação-espetáculo dos denominados blocos de preto.

Não interessa que uns dias antes, a polícia sob o comando estadual, fez o que mais sabe e reprimiu duramente os professores, sem que qualquer “baderneiro” tivesse iniciado o confronto.

Quem eram mesmo? Irrelevante.

Não interessa que não só professores estavam lá, que haviam bancários, bombeiros, estudantes, universitários e muitos simpatizantes. Até bandas musicais vieram enriquecer a manifestação, o foco é exibir o ônibus em chama na capa do jornal.

Qual era a pauta dessa greve mesmo? Irrelevante.

No velho roteiro do poder constituído, a velha e parte da nova mídia, quando não ficam no mais completo silêncio, trazem sempre o mesmo enredo: arruaceiros, vândalos e marginais estragaram uma manifestação legítima, a festa democrática. Ninguém lembra do que a imprensa dizia dos grevistas, “agitadores”, sindicalistas – os “comunalhas” de sempre – a destruir a Rio Branco depois da escandalosa privatização da Vale do Rio Doce em 1997? Não foi o MST taxado em capa de revista como baderneiro, raivoso ou coisa pior? Não chamaram o estancieiro latifundiário João Goulart de “comunista” e “subversivo”?

Nos jornais e na boca do poder constituído, qualquer ato político que venha a incomodar o seu poder será desqualificado. São vândalos, irresponsáveis e desordeiros.

Sempre foi assim.

Se há greve nos ônibus vão mostrar o coitado que não pode chegar no trabalho por causa de uns “sindicalistas egoístas”; se é greve de professor, a manchete é sobre alunos prejudicados por aproveitadores cooptados por sindicatos partidários e tendenciosos; se é pela descriminalização das drogas,  o tom é de “maconheiros filhos de papai que só querem fumar sua erva em Ipanema sem ser incomodado”; se são camponeses lutando por pequeno espaço no campo no país com colossal concentração de terras, não passam de “vagabundos ocupantes”, terroristas invasores; se a manifestação fecha uma rua vão indubitavelmente enfatizar o “direito de ir e vir” dos outros e que é que ditatorial fechar ruas. Enfim, o posterior “avacalhamento” público, distorção e “manipulação” das manifestações pela mídia (incluindo governo) é, certamente, a única regra que se deve tomar como verdadeira ao se expressar nas ruas. A desqualificação de greves, ocupações, manifestos, e claro, protestos violentos ou não, é a principal e mais eficaz arma de desmobilização e desarticulação de qualquer manifestação que toma as ruas, independente do número de manifestantes.

Portanto, se a regra é a desqualificação posterior em massa, algumas considerações fundamentais devem ser feitas.

Muitos concordaram que nos idos de junho, houve de fato a necessidade simbólica de “quebrar tudo” como demonstração clara e evidente de descontentamento com a ordem vigente. Como colocamos neste blog  anteriormente:

O vandalismo [de junho] representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica.

Então, na ocasião, quase que todos os lados apoiaram e exaltaram as manifestações espontâneas pelo país todo, culminando nos atos de destruição de 17 e 20 de junho. Seja a esquerda jovem vislumbrada com o gostinho de revolução deixado no ar enfumaçado, seja a direita oportunistas de plantão querendo usar o momento para derrubar o atual poder que detesta, passando pelos “coxinhas” e apolíticos em geral, inconscientemente nas ruas “contra tudo que está aí” sem saber exatamente o que exatamente defende.

Enfim veio Outubro e apresentou fatos diferentes.

Dando sequência ao violento “despejo” dos professores manifestantes que ocupavam a Câmara do Rio, uma grande manifestação de professores no Dia 1 de Outubro foi também seguida por ação violentíssima dos policiais. No esquema do “foi mal fessor“, a polícia desavergonhada de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, perdeu o pudor e reprimiu como nunca uma das categorias mais sofridas do país, causando indignação nacional e alimentando o fogo da grande manifestação do Dia 7 de Outubro. Situação semelhante ao estopim de junho, por muitos considerado a excessiva repressão da PM paulista no Movimento Passe-Livre.

O fato novo apresentado por essa manifestação do dia 1 de Outubro foi a atuação expressiva do bloco negro (black bloc). Como muitos presenciaram, foram fundamentais para segurar e desviar a atenção da violenta polícia cabralina, dando tempo para que as inúmeras senhorinhas e “tias”, componentes numerosos e mais frágeis presentes entre os professores manifestantes, fugissem dos cassetetes, nuvens de gás e pólvora causadas – neste dia – exclusivamente pela ação policial. Foi a primeira vez que visivelmente, o black bloc remontou sua origem alemã e colaborou efetivamente com outros núcleos políticos, no caso, o sindicato dos professores, fortalecendo todo o movimento. Não foi por acaso que entre o dia 1 e o dia 7 de Outubro, os professores e boa parte da esquerda, os defenderam ardentemente. “Black bloc é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo” era um grito que se houvia no dia 7.

50 mil pessoas na rua e só se fala em destruição.

Dia 7 de outubro, segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro.

Relembrando...

Nem a pusilanimidade da Dilma foi esquecida.

A manifestação foi incrível. A pauta específica era o repúdio ao plano de carreira da educação do Eduardo Paes, mas a pauta geral era pela melhoria da educação brasileira. Milhares de pessoas, professores, bombeiros, bandinhas, bancários, universitários, secundaristas, alunos e simpatizantes. Milhares de mensagens, faixas, cartazes, gritos e cantoria em protestos variados em torno da educação. Até mesmo a UNE-UBES e o PCdoB superaram sua agorafobia adquirida nos últimos anos e estavam lá com suas solitárias bandeiras a engrossar o caldo.

E então, após belíssima marcha pela Rio Branco, chega-se à Cinelândia. Certo tempo de gritaria e protesto na frente da Casa do Povo e começa o ritual destrutivo do fronte juvenil. Rojões e malvinas contra bancos e claro, contra a própria Câmara. Lembrando muito o dia 17 de Junho, a ausência de policiamento efetivo para uma manifestação daquele tamanho, só fez crescer a confiança da linha de frente e a suspeita da tática “terra arrasada”. Fogos de artifício e molotovs iluminaram a noite chuvosa.

No fundo não importa muito quem começou, pois o enredo seria como o descrito no início do texto.

Que tenha sido um revide, um ataque preemptivo ou uma reação espontânea, a linha de frente das manifestações de sua parte, fez chover rojões, malvinas, pedras, bombas caseiras, molotovs e tudo mais que a ritualística de confronto com a polícia tem apresentado. Os dois lados, cedo ou tarde, estavam bem agressivos e não demorou para a polícia, mesmo em baixo número avançasse gradativamente na “retomada do território”. Então, em meia hora, a grande manifestação foi dispersada em pequenos focos resistentes e radicais espalhados pelo Centro e adjacências. O grosso restante voltava para casa sob fortíssima chuva.

Porém, independente dos sentimentos sobre o bloco negro ou até mesmo da justeza de algumas suas práticas – parafraseando Brecht O que é uma vidraça de banco diante da criação de um banco? –, é difícil negar que o “ritual destrutivo” ofensivo, como apresentado no dia 7 de Outubro, esteja claramente servindo mais para reforçar o esvaziamento completo das manifestações, especialmente no sentido ideológico-propagandístico, do que para qualquer apelo por mudanças ou mesmo para angariar mais simpatizantes. A julgar pela capa da maioria dos jornais, editoriais, opiniões propagadas e repercutidas aos montes nas ruas e redes sociais, a velha fórmula de desqualificação já está em pleno vapor.

50 mil na rua e só se fala em “vandalismo e depredação”.

Desta forma, seja por muitas testemunhas que viram – na ocasião – a ação direta dos black blocs mais como “ataque” do que como “revide” contra a repressão da polícia ou, ainda mais importante, seja pelo evidente enfoque que todo o aparato midiático e governista já está dando na desqualificação em “vandalismo”, buscando uma vitimização da polícia e do governo local, o resultado será fatalmente o enredo tradicional de esvaziamento das pautas e a criminalização das manifestações radicais. E seria bastante ingênuo subestimar o poder de formação de consenso do aparelho estatal aliado do aparelho midiático.

Assim, é fundamental lembrar que tão ou mais importante que o fato em si, é como o mesmo é interpretado e é respondido pelos agentes do seu tempo.

Sem uma base ideológica, propagandística e objetivos claros, a violência simbólica da destruição disruptiva, será capturada por quem bem conseguir, positiva ou negativamente. E, em geral, infelizmente é usada para os fins mais retrógrados possíveis. Enquanto voam pedras e foguetinhos contra a polícia, retornam porrada, tiro e bomba. Se vão ao chão agências bancárias, pontos de ônibus e latas de lixo, o que retorna são leis anti-terrorismo, prisões arbitrárias, presunção de culpa e Lei de Segurança Nacional. Sem saber exatamente o que se pretende construir, a destruição pode apenas abrir caminho para outros que sabem exatamente o que querem e não terão escrúpulos em usar todos os agentes possíveis para seu fim.

Além disso, do ponto de vista do confronto em si, é importante lembrar o estrategista Sun Tsu, se nossos adversários e inimigos vêm com verdadeiros exércitos armados, cães e bombas, enquanto nós só temos palavras de ordem, fogos de artifício e muita disposição, é triste, mas nós já perdemos essa batalha. A arma da crítica não supera a crítica das armas, diria outro. Dado este cenário, é impossível tomar à força a Câmara ou a ALERJ, quiçá o Palácio do Planalto ou qualquer símbolo de comando do governo. Não há a remota possibilidade no contexto atual. Isso porque nem tem sido necessário ao Estado usar bala de verdade como ocorreu na Turquia e ocorre no Egito.

No contexto atual, a única possibilidade de vitória é a simbólica.

Por vitória simbólica compreende-se principalmente, o constrangimento público e desmoralização das “verdades do poder constituído” como parte de um processo de conscientização e educação política da população, envergonhando sua passividade e abalando o consenso e legitimidade do poder que a domina. O “constrangimento educativo” e desmoralização aparecem ao tornar evidentes algumas grandes contradições inerentes ao sistema capitalista que se pretende democrático e plural, forçando-o a tomar medidas claramente antagônicas à sua imagem pública. Isto é, o conduz a medidas claramente anti-constitucionais, a rudezas jurídicas, a apologia à repressão excessiva em plena democracia, ao autoritarismo praticado em nome da “liberdade” e claro, levá-o a escancarar a promiscuidade entre poder político e poder econômico que o constituí, como ficou evidente no alinhamento da grande mídia com o governo Cabral-Paes e, claro, no vergonhoso desfecho da CPI dos Ônibus, mostrando que realmente o  Estado não passa de um comitê de negócios da classe dominante.

Por fim, se bater em professores indefesos é um desastre político como foi e ninguém em sã consciência política apoiaria a prática, bater em professores que dão suporte a “vândalos e baderneiros” é uma história completamente diferente. A deslegitimação específica  dos black blocs busca na verdade, esvaziar o geral das manifestações, criando legitimidade na repressão indiscriminada, de “pacíficos ou não”. Assim, é fundamental que a posição violenta das manifestações surja como revide, como resposta e, jamais, como ataque, como assalto e afronta planejada ao poder constituído. Desta maneira, as táticas ofensivas dos black blocs, levando aos montes rojões, malvinas e fogos de artifício, parece servir apenas para legitimar uma repressão generalizada e esvaziar a manifestação em questão, escondendo as reivindicações e as pautas em fumaça e fogo. Elas não parecem constranger o real agressor, ao contrário, lhe dá motivos públicos o suficiente para justificar a repressão que o poder queria desde o início.

No nosso contexto portanto, a vitória simbólica é erguida em geral a partir de uma derrota física; se constrói ao fazer com que o poder constituído atue contra a opinião consensual da população e contra sua própria opinião como poder representativo do povo, gerando mais e mais insatisfação e escancarando mais e mais contradições inerentes ao “capitalismo democrático”. O constrangimento público enfim, deslegitima o poder constituído e fortalece os seus antagonistas, reforça o ímpeto dos radicais, radicaliza os moderados e os “simpáticos à causa”, por fim, força a todos à politização, incluindo os “indiferentes” e “alienados”, passo fundamental para a conscientização de classe e posição social no conflito. Relembrando o velho chinês: “De derrota em derrota até a vitória final”.

Leandro Dias

Eike Batista e Visconde de Mauá: burgueses e burgueses

Eike Batista Bilionário na Veja.

Eike Batista Bilionário na Veja.

A quebra de Eike Batista, finalmente, chegou.

Fato óbvio e incontornável, a falência de OGX e OSX, as duas principais empresas de seu conglomerado, será oficializada na Justiça em questão de poucas semanas, ou mesmo dias.

Partindo das informações privilegiadas recebidas do pai, Eliezer Batista, presidente da Vale do Rio Doce nos governos Goulart e Figueiredo, Eike foi considerado pela mídia especializada, há apenas dois anos atrás, o sétimo homem mais rico do mundo, momento no qual sua fortuna foi calculada, no auge, em pouco mais de US$ 34,5 bilhões1.

Naquele momento, Eike detinha estoque de riqueza superior ao PIB de mais de 100 nações, ou mais da metade dos países do planeta.

Ou, ainda, se tomarmos uma cotação aproximada de um dólar valendo dois reais, uma riqueza superior à produção, em 2012, de 14 dos 27 estados brasileiros.

Nas revistas daqui, é claro, Eike foi representado, como o empresário-símbolo do capitalismo brasileiro, pois afinal de contas, segundo as mesmas, “enriquecer é glorioso”.

Orgulhosamente anunciaram que nascia “o mais novo bilionário brasileiro”, como se isso fosse sinal do nosso sucesso enquanto sociedade e nação.

Por conta e obra dessa mídia foi criado um ídolo com pretensões a ser verdadeiro herói nacional, tal qual há tempos no Brasil se deseja fazer crer dos empresários.

Heróis nacionais que “trabalham muito e competem honestamente”, geram empregos, renda; que produzem e nos abastecem.

Só “esqueceram” de dizer: “correm riscos” – com dinheiro público.

Lula e Eike

Com efeito, fato significativo foi que não era só a mídia a interessada em criar esse super-herói empresário, mas também ninguém menos que o então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.

Pois também Lula, cujo governo talvez tenha feito mais para consolidar e legitimar o capitalismo no Brasil do que qualquer outro em nossa história, desejava a construção de alguma figura pública representativa desse capitalismo brasileiro em rápida expansão que era, na segunda metade dos anos 2000, sucesso de crítica aqui e no exterior.

Não por acaso, tal qual fariam outros governos ainda mais conservadores, em seu governo, dito por muitos socialista, o BNDES concedeu seguidos empréstimos às empresas de Eike, cujo valor monta, segundo a própria instituição, à módica soma de 6 bilhões de reais2.

E como é típico das práticas neocorporativistas, esse festival de expansão de interesses privados financiado pelo dinheiro público foi representado pelo discurso oficial governista e pela sua militância como a defesa dos empregos da classe trabalhadora brasileira.

Talvez por força da relação entre o crescimento exponencial dos negócios de Eike e o dinheiro público que a ele foi fartamente concedido pelos governos petistas, agora que a casa caiu, temos agora que presenciar o discurso bizarro de certos militantes do referido partido que hoje atribuem a derrocada do “pobre Eike” a um “violento ataque especulativo”.

Esses “analistas”, ou talvez possamos chamá-los mais apropriadamente de torcedores de partidos políticos, mostram-se incapazes de perceber o óbvio: Eike não está sendo vítima de ataque especulativo algum – ele próprio era o ataque especulativo.

A não ser que se queira acreditar que é um fato normal e corriqueiro do capitalismo o salto da riqueza de Eike de pouco mais de sete para para US$ 27,7 bilhões em menos de um ano3.

Pois bem, nesta semana, o “ataque especulativo” reduziu o estoque de riqueza do injustiçado empreendedor para “irrisórios” US$ 73,7 milhões4, uma avassaladora perda de mais de 99% de “sua” riqueza em apenas um ano.

Eike Batista Glorioso

Eike Batista Glorioso

A “perda” da riqueza que nunca existiu

A explicação desses fatos é evidente: a “riqueza” perdida por Eike nunca realmente existiu.

O que vitimou Eike não foi ataque especulativo algum, mas sim, a ambição desmesurada que o caracteriza, por alguns louvada como exemplo do “espírito animal do empresariado”.

Tal qual a confiança exacerbada que Eike tem em si mesmo e que nunca fez nenhuma questão de esconder, demonstrada nas suas reiteradas afirmações, no auge do seu “sucesso”, que se tornaria, brevemente, o homem mais rico do mundo.

É significativo que Eike, louvado como o símbolo máximo do empreendedorismo brasileiro, tenha cometido erros da mais absoluta trivialidade que qualquer aluno de princípios de graduação em administração de empresas ou economia já seria capaz de apontar, tais como:

  1. Diversificou excessivamente seus negócios, perdendo foco;

  2. Expandiu seus negócios de forma temerariamente acelerada, criando uma multiplicidade de novos empreendimentos embora não tivesse praticamente nenhum negócio já consolidado;

  3. Criou empresas cujo único objetivo era fornecer produtos e serviços para outras empresas dele próprio, como o caso da OSX, estaleiro criado para servir à OGX.

Com poucos negócios de fato – concentrados na mineração e geração de energia elétrica – a estratosférica “riqueza” de Eike era bursátil, inflada pela confiança que nele depositavam os principais agentes dos chamados “mercados financeiros”.

Mercados onde circulam, praticamente sem amarras, monumentais volumes de capitais absolutamente incompatíveis e desconectados das relações produtivas da chamada economia real.

Portanto, a “riqueza” acumulada, e hoje perdida, por Eike foi muito menos obra de seu “empreendedorismo” do que da eficácia das suas relações públicas.

Visconde de Mauá: de fato, um burguês

Vale lembrarmos, a título de comparação com a quebra relâmpago e espetacular de Eike, a história do Visconde de Mauá, ainda no século XIX, de repercussões muito mais significativas para a história do Brasil.

Isso porque, ao contrário de Eike Batista, Mauá demonstrou ser um burguês de fato, e a isso foi forçado pelas condições dadas por seu meio ambiente.

Não havia, no Brasil da época de Mauá, praticamente coisa alguma que remetesse a uma sociedade capitalista moderna, coisa que de fato não éramos e nem poderíamos ser, a começar pela existência aqui de uma das mais espúrias das práticas: a escravidão.

Fundamentado naquela instituição, o país resumia-se a ser agrário-exportador5, e suas elites dirigentes, a começar pelos imperadores, desejavam que tudo continuasse como estava.

Para isso contribuía, também, a crença das principais cabeças pensantes brasileiras nos ideais liberais de livre-comércio internacional, num momento em que aqueles desfrutavam de ampla hegemonia.

Acreditavam aqueles homens que, de acordo com aqueles princípios, o Brasil deveria se especializar no que fazia de melhor, ou seja, vender ao exterior produtos primários e dele obter os produtos industrializados que não era capaz de produzir.

Como se não bastasse, o Brasil, ainda na condição de colônia portuguesa, foi forçado, por obra de tratado celebrado pelo rei português D. João VI com a Inglaterra, a abrir mão de praticamente todas as barreiras alfandegárias sobre as manufaturas inglesas, medidas de efeito devastador para a incipiente manufatura nacional.

Por todas essas razões, a indústria virtualmente inexistia no Brasil, até porque na existência da escravidão a introdução do chamado “trabalho livre”, assalariado – condição necessária para o surgimento de mercados consumidores para produtos industriais – era muito lenta e esporádica.

Inexistia também qualquer coisa semelhante a uma rede de meios de transporte no Brasil, cujo comércio entre as distantes regiões era realizado através de precária navegação de cabotagem e “estradas” sobrepostas, em geral, às antigas trilhas indígenas.

Um cenário, sem dúvidas, absolutamente desfavorável à industrialização e ao chamado “empreendedorismo” de eventuais capitalistas, sob quaisquer aspectos que se queira considerar: infra-estrutural, institucional e cultural.

Mauá, porém, fascinado com o que vira em visita à Inglaterra antes mesmo de ter trinta anos de idade, decidiu-se a reunir, como fosse possível, todos os meios técnicos e financeiros para empreender ampla diversidade de atividades produtivas.

E na sua indisponibilidade, criá-los.

Sendo muito ampla e significativa a lista de empresas e ramos nos quais atuou, citaremos aqui os seus empreendimentos que consideramos mais relevantes: o estaleiro naval Mauá, em Niterói, também uma fábrica de ferramentas, instrumentos de metal e máquinas; redes de iluminação pública e bondes urbanos no Rio de Janeiro; cabo telegráfico ligando o Brasil à Europa e aos Estados Unidos; ferrovias diversas, em todas as regiões do Brasil, exceto o Norte; Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas; e o Banco Mauá, que reunia as funções de banco comercial e de fomento de seus próprios negócios, tendo chegado a ser um dos maiores bancos do mundo.

Em muitos desses negócios, na virtual inexistência de outros burgueses no Brasil, Mauá teve como sócios capitais estrangeiros, majoritariamente ingleses.

E foi principalmente por uma fraude praticada por um grupo de engenheiros e contadores ingleses por ele contratados para construir uma ferrovia na província de São Paulo que Mauá, desprotegido pela Justiça brasileira, viu-se obrigado a arcar com dívidas gigantescas denominadas em libras esterlinas que resultaram na sua falência.

Ruiu então o império de Mauá, muito embora ele tenha, apesar disso, acumulado riqueza suficiente para viver seus últimos anos em condições confortáveis.

Vale lembrarmos, ainda, a elaboração da economia política de Mauá que, embora se reconhecesse como um liberal, clamou, em seu O Meio Circulante do Brasil, pela expansão dos meios de pagamento como forma de promover o desenvolvimento industrial no Brasil.

Questionou, portanto, a validade universal das teses liberais, propondo sua adaptação às condições brasileiras.

Estado e burgueses

Na inexistência do Estado empresário, ou garantidor dos empresários que fosse, teve o próprio Mauá, basicamente, que desempenhar as funções de um.

Mais do que isso, seguidas vezes sabotado por ações governamentais contraditórias e repentinas, Mauá não pôde, absolutamente, contar com qualquer tipo de apoio governamental, até por se tratar de governos que não queriam a industrialização do Brasil.

Foi, assim, presa fácil para o imperialismo inglês, e seu fracasso, apesar do surto de industrialização provocado por seus negócios6, significou, sem dúvidas, décadas de atraso no desenvolvimento industrial do Brasil.

Esse tema, interessantíssimo, é demasiado abrangente e complexo para ser tratado aqui, e por isso, nos limitaremos a indicar aos eventuais interessados alguma literatura pertinente7.

E concluímos dizendo que, ao contrário – muito ao contrário – de Mauá, Eike Batista teve tudo a seu favor, inclusive e principalmente o Estado.

Ser “herói empreendedor” tendo o Estado como sócio, “correr riscos” com cobertura de dinheiro público, tudo isso é muito fácil.

E mesmo assim, terminou quebrado.

Por estranho que possa parecer, em pleno 2013, no Brasil, não se fazem mais burgueses dignos desse nome como antigamente.

Daniel Kosinski

 5 Embora existissem atividades manufatureiras esparsas em algumas províncias como Minas Gerais, São Paulo e Bahia, além da capital. Já existia também, fundada em 1828 no Rio de Janeiro, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, a primeira entidade criada para pensar o desenvolvimento da indústria que se tem notícia no Brasil. A este respeito, ver: LIMA, H.F., 3 Industriais Brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Simonsen; e também SIMONSEN, R., Evolução Industrial do Brasil e outros ensaios.

 6 Prado Jr. apud Lima, H.F., já citado.

 7 Além dos livros já citados, vale conferir As Raízes do Pensamento Industrial Brasileiro, editado pela FIESP; e a Exposição de Motivos aos Credores, do próprio Mauá.

Uma auto-proclamada “esquerda revolucionária”

Yoga Revolucionária?

Yoga Revolucionária?

A imagem que vai em anexo a este curto texto, ou melhor dizendo, a este breve lamento, é sintomática do tipo de organização ou movimento – porque nem todos, de fato, se “organizam” politicamente e parecem desejar continuar assim – que, no Brasil, atribui a si próprio anseios ou faculdades revolucionárias.

A proposta do “yoga revolucionário” é, no mínimo, curiosíssima.

Que prática do yoga seria essa capaz de transformar a sociedade, abalando os alicerces da ordem burguesa, promovendo a reforma agrária, redistribuindo a renda e a riqueza e por aí vai?

Sem que, evidentemente, para isso, tenha que confrontar ninguém.

Com certeza não se pode deixar de atribuir a seus proponentes uma confiança fantástica nas capacidades transformadoras e nos poderes da mente.

Está também assegurada a participação de performáticos artistas, que quem sabe poderão encontrar seus espaços, ou talvez até seus nichos de mercado, entre os revolucionários ocupantes da Câmara…

É claro que estamos, com as provocações acima, propositalmente, cometendo um ato de flagrante e injusto reducionismo.

Movimentos como o “Ocupa Câmara” não se limitam, absolutamente, a apenas a isso, e tem sua importância e validade no mínimo como demonstrativo de quem nem toda a juventude está apática e também, para exercer clara pressão sobre os digníssimos “representantes populares” que, por mandato eletivo, lá se encontram.

Embora, é claro, os movimentos Ocupa jamais serão capazes de substituir o peso da maciça presença da população que, lamentavelmente, não vem se verificando mais nas manifestações.

Todavia, o destaque específico daqueles pontos sui generis no meio da programação do “Ocupa Câmara” tem como objetivo, apenas, ressaltar certos aspectos que ficam absolutamente evidenciados a partir desse tipo proposta. Um tipo de posicionamento que expõe traços muito claros dessa “esquerda” existente no Brasil que, afirmando-se politicamente revolucionária, não consegue ser mais do que multiculturalista.

Uma “esquerda revolucionária” sem foco, sem objetivos políticos efetivamente revolucionários muito bem definidos, se é que os definiu em algum momento.

Que dirá praticante de estratégias políticas objetivas, pragmáticas, para alcançá-los.

Uma “esquerda revolucionária” festeira, afeita às grandes celebrações culturais – fato positivo, embora em nada surpreendente -, mas que se mostra politicamente inócua, pois carece de objetivos claros e de estratégia minimamente eficiente.

Uma “esquerda revolucionária” que anda pouco ambiciosa, mais restrita às “pequenas revoluções”.

Por exemplo, contra o sexismo e contra a homofobia, questões, sem dúvida, relevantes, importantes, fundamentais, porém não substitutivas de uma luta efetiva contra uma ordem liberal burguesa que, organizada como ela só, ainda transforma demandas e símbolos feministas e homossexuais, entre muitos outros, em interessantíssimas fontes de lucro.

Pode-se também argumentar que é uma “esquerda”, além disso, diminuta em termos de adesão popular, pequenez essa que pode ser, ela própria, efeito, e não causa, da sua falta de preparo.

Vale lembrarmos, por outro lado – fora o simbolismo de ocupar uma Câmara legislativa, demonstrando que nem todos estão totalmente dominados pela apatia: o que há de revolucionário em exigir dos mandatários dos cargos eletivos que cumpram com seus deveres legais?

Nada, absolutamente nada.

E isso demonstra que, apesar de todos os pesares, apesar de todos os abusos, ainda temos uma população, incluindo os que se dizem “revolucionários”, legitimando esses poderes que aí estão constituídos, que de alguma forma ainda deles espera alguma coisa, que neles ainda confia o suficiente para deles exigir soluções. “Revolucionários”, enfim, que talvez não se sintam capazes, ou nem sequer tenham contemplado a hipótese de se transformarem, eles mesmos, no poder constituído.

O “yoga revolucionário”, por curioso que o termo seja, expõe inequivocamente o ideal dessa “esquerda revolucionária”, multiculturalista, talvez realmente muito bem intencionada mas, acima de tudo, pacifista, e que por isso se mostra incapaz, por princípios, de admitir que não há nem pode haver ação revolucionária eficaz que despreze o uso, mais ou menos explícito e indiscriminado, da violência.

Violência que é, goste-se ou não disso, o fator de decisão de última instância da política. E cujo uso não estamos defendendo nem propagando, mas apenas, constatando sua natureza essencial nas relações políticas, tema por nós já amplamente tratado em outros textos por aqui.

Que essa “esquerda” se julgue, sem nenhum problema e ao seu bel prazer, de esquerda, mas que, em nome da coerência, descarte o “revolucionária” e encontre um outro qualificativo para acompanhar o primeiro termo. “Esquerda eleitoral”, “esquerda cultural”, “esquerda pacifista”, e por aí vai. Ou tudo isso junto. Ou como é típico dos ideais da pós-modernidade que permeiam seus integrantes: uma esquerda “que não precisa se definir”, porque afinal definições são discriminativas, limitadoras e excludentes.

O que seja.

Pelo menos, assim agindo, essa “esquerda” desfaz a confusão de atribuir revolucionarismo a grupos efetivamente incapazes disso, por princípios e por falta de meios, abrindo com isso, quem sabe, as portas para o surgimento de uma outra esquerda que, de fato, possa e queira assumir esse papel.

Pois uma “esquerda revolucionária” dessas, cujas únicas armas que se sente capaz de empunhar sejam o poder transformador do yoga e das artes é, sem dúvidas, aquela esquerda que e a ordem liberal burguesa e a direita sempre pediram a Deus.

Daniel Kosinski

A democracia e o mito da sua representação pacífica

A Paz no Alemão

As manifestações ocorridas no Brasil nas últimas semanas, resultando quase sempre em confrontos localizados com as forças de segurança do Estado, trazem uma vez mais para a ordem do dia as representações dos fatos veiculadas pelos grandes grupos de comunicação hoje existentes no Brasil.

Essas representações são invariavelmente parciais ou, simplesmente, flagrantemente deturpadas.

Via de regra, elas exploram alguns episódios limitados de danos ou destruição de propriedades e bens públicos e privados para disseminar a idéia da existência do “vandalismo” nas manifestações, ou seja, em última instância, criminalizando toda e qualquer demonstração ou emprego de violência por parte da reduzida parcela dos manifestantes que apresentam disposição e coragem para tal.

Conceituou-se, nesses discursos, uma distinção clara entre “manifestantes” – pacíficos – e “vândalos”, “arruaceiros” ou “baderneiros” – violentos -, nos quais os primeiros são aceitos ou até mesmo comemorados, enquanto que os últimos são denunciados e rechaçados com veemência.

Tudo se passa como se a eventual violência dos manifestantes fosse uma ilegitimidade numa sociedade em si mesma pacífica e que aquela violência, quando presente, deva ser a priori condenada.

Subjaz a esse discurso o ideal de que a chamada “democracia” seria uma forma em si pacífica, não-violenta, de organização política e que permite, sim, a livre manifestação dos insatisfeitos, desde que essa expressão se dê de forma ordeira, pacífica, não confrontadora, sem danos ao patrimônio.

Por razões óbvias, além da mídia, esse também é o próprio discurso oficial das figuras representantes das autoridades constituídas, tais como prefeitos, governadores e a própria presidente da República.

Finalmente, trata-se de um discurso de fácil aceitação e grande reverberação por amplas parcelas da população, conforme temos percebido ao observar as chamadas “redes sociais”.

Contudo trata-se de um discurso distorcido, não sendo muito difícil percebermos o porque.

Ordem política é violência

Max Weber, em que pesem todos os seus esforços para conceituar as formas típico-ideais do exercício consensual do domínio político, ou seja, com o consentimentos dos dominados – tradicional, carismático e racional-legal -, nunca negou o fato de que o poder último, decisório e definitivo que sustenta essa relação é o emprego da violência.

Por isso, naquela que provavelmente é, na sociologia, a definição não-marxista mais corrente do Estado, Weber definiu a sua principal característica como a de ser o detentor do monopólio do uso legítimo da violência.

No Brasil contemporâneo, a julgar pela representação dos fatos veiculada pela mídia e exercitada nos discursos dos representantes dos poderes constituídos, tudo se passa como se a ordem política atualmente vigente entre nós, dita “democrática”, não fosse, ela própria, assegurada pelo emprego rotineiro da violência em larga escala, de forma mais ou menos explícita.

É uma ordem representada como, em si mesma, pacífica, livre do uso e do exercício da violência, fundamentada, em última instância, no típico ideal liberal de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, através de seus representantes escolhidos em eleições livres.

Todavia, é evidente que as coisas não se passam dessa maneira, e nem poderiam se passar, particularmente, numa sociedade como a brasileira, caracterizada por níveis impressionantes de desigualdade na apropriação da renda, da riqueza, no acesso aos serviços públicos e aparelhos midiáticos.

Uma sociedade, portanto, cujo controle social de amplas camadas de sua população, marginalizadas, requer o exercício permanente, diário, da violência em suas formas mais explícitas, conforme se pode verificar nas ações de repressão das forças estatais nas favelas e nas áreas periféricas das cidades brasileiras, no campo ou em demarcações indígenas.

Portanto, é necessário contrapor àquele discurso um fato óbvio e inegável: a ordem dita “democrática” por ele defendida é, sim, violenta, e por sinal, violenta numa escala incrivelmente superior, em duração e intensidade, à violência praticada em qualquer das manifestações já ocorridas na história desse país.

Vamos, considerar, portanto, o problema em termos distintos dos contidos naquele discurso: não se trata de denunciar a violência como produto da ação de “vândalos”, mas sim, de distinguir a prática da “violência oficial”, ou estatal, da “violência não-oficial”, ou paraestatal.

Não há “democracia” pacífica

Uma ordem política, seja qual for e até que se prove o contrário, se fundamenta na imposição, ou na capacidade dos agentes dominantes em impor seu domínio sobre uma determinada população, dominada.

As formas de estabelecer, assegurar e exercer esse domínio fazendo o menor uso possível da violência, ou pelo menos, reconhecendo a necessidade de seu emprego de maneira contida, pontual, é um problema que vem ocupando muitos dos principais filósofos políticos da história, a começar, pelo menos, por Maquiavel, considerado o fundador da ciência política.

Daí também todo o apelo, de natureza moral, oriundos de fontes tão distintas como os ideais religiosos, liberais, socialistas e muitos outros mais, para o exercício mais consensual possível da política, fazendo, com isso, o uso mais limitado possível da violência, jamais a descartando, contudo.

Todavia, em que pesem os interesses e as pressões dos valores éticos e morais contra o uso da violência na política, deve-se reconhecer na história que a imposição do domínio sobre os dominados é, sempre, em última instância, garantida pela violência, que é o recurso último, decisivo e definivo da política, não importando sob quais formas institucionais, ditas “democráticas” ou não, essa esteja sendo praticada.

Isso não implica defender o uso indiscriminado ou arbitrário da violência como forma de exercício legítimo da política, nem de naturalizar esse uso, aceitando-o.

Mas se trata de reconhecer que, pelo menos até o presente estágio da história humana, sem esse recurso, não foi possível o estabelecimento de relações de domínio nem, consequentemente, de Estado.

A fraude da criminalização do “vandalismo” e o mito da natureza pacífica da “democracia”

Concluindo, o discurso midiático e governamental do caráter pacífico, não violento, da dita “democracia” é, portanto, enviesado, pois só reconhece como prática da violência a violência não-oficial, paraestatal, não admitindo que a ordem política estabelecida é, também ela – ou melhor, primordialmente ela – fundamentada na prática diária da violência.

Sendo a violência um componente fundamental da manutenção da ordem política dita “democrática” sob a qual hoje se encontra o Brasil, não há nenhuma contradição em questionar se é moralmente condenável o emprego da violência por parte dos “vândalos”.

Não se trata, também, de enaltecê-los ou de julgar justas as suas ações, mas de questionar porque deve-se negar o uso da violência pela população se esse é um recurso ostenstivamente utilizado contra ela própria pela ordem estabelecida, “democrática”, que a domina.

A esse respeito devemos lembrar, inclusive, que filósofos políticos liberais, como por exemplo John Locke, defenderam não somente o direito, mas também o dever, de uma população recorrer às armas para derrubar governos que não estivessem cumprindo adequadamente suas responsabilidades.

Por isso, aqueles que rejeitam o “vandalismo” sem se dar conta, ou sem reconhecer, que ele significa uma violência de escala e intensidade mínima se comparada à violência da ordem estabelecida, estão, por ingenuidade ou má intenção, se colocando como porta-vozes de uma ordem que se sustenta na violência como fator decisório último, mas que nega a sua prática aos que reagem ao seu domínio.

Há, portanto, um discurso claro em curso que visa criar, na sociedade brasileira, um clima de censura ou coerção moral contra o exercício não-oficial ou paraestatal da violência, sem reconhecer a natureza cotidiana e abertamente violenta das práticas políticas de suas próprias instituições.

Um discurso pretensamente pacifista mas, na prática, profundamente conservador e legitimador de uma ordem política explicitamente violenta e que precisa sê-lo, posto que garantidora de desigualdades sócio-econômicas brutais.

Não há, a esse respeito, outro caminho: ou se rejeita a violência como um todo, criminalizando-a seja quais forem suas fontes ou os agentes que a praticam, ou se aceita, sem criminalizar, a violência de ambas as partes como um dado concreto, por desagradável que seja, do exercício da política.

Daniel Kosinski

Vandalismo e Ruptura

Poder Popular

Quando o carro velho do trabalhador da rádio Tupi foi incendiado na histórica manifestação da Alerj dia 17 de Junho, foi impossível não sentir sincera pena do sujeito. Apesar do emblemático nome, o Versalles(1) do radialista não deveria ser um alvo de manifestantes enfurecidos com as agruras do sistema, numa das cidades mais desiguais do mundo. Não há significado algum em queimar um veículo velho de um trabalhador. Aquele automóvel não representa “opressão” nenhuma, ao contrário, pode-se até, num toque de humor, considerar um carro 1993 ainda em uso como “resistência ao consumismo”, oposto do fetiche consumista automobilístico baseado em endividamento no crediário, fenômeno típico da atualidade, “ou você tem ou você não tem”.

Naquele emblemático dia também foi atacado e saqueado um pequeno comércio local: uma farmácia familiar, uma loja de sandálias, revenda de chocolates e um restaurante. Mesmo na grande mídia, diante do imenso impacto que teve a tentativa de tomar a Alerj por parte dos manifestantes e a profusão de protestos grandes pelo país, a ênfase na destruição foi moderada e focou-se mais em compreender a natureza, reivindicações e as pautas (ou ausência delas). O foco não estava na violência, certamente maior que a violência recente no bairro nobre onde mora Sérgio Cabral. A pequena farmácia na rua da Assembléia não tem o mesmo valor das vitrines da Toulon no Leblon. Existem proprietários e Proprietários. “Ou você tem ou você não tem”.

Então, em meio ao desnorteio generalizado, seja da mídia, partidos ou maioria das entidades que se dispuseram a entender o assunto, não foram incomuns as apologias ao vandalismo, como forma legítima de expressão revoltosa de uma população dando um “basta” de verdade, não aquele abracinho bonito na Lagoa. Alguns levantaram o argumento que a “violência contra a propriedade” é um meio legítimo de ataque contra a ordem estabelecida, que a destruição de lojas e carros aleatórios se inserem numa lógica de resistência e combate anti-capitalistas, do povo oprimido revidando como pode a opressão do dia a dia, evocando superficialmente aquela velha máxima: “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”, tanto parafraseada aqui no blog. Alguns como Boechat, colocaram o vandalismo como posicionamento radical diante da completa desconexão do poder constituído da população. Outros evocaram essa violência como forma de oposição concreta a qualquer tipo de autoridade, numa espécie “orgânica” do anarquismo destrutivo, não ligado profundamente à qualquer corrente libertária identificável no Brasil ou mesmo consciente de sua própria anarquia, lembrando mais a violência do anarco-ilegalismo do que qualquer outra coisa.

Por mais que haja uma certa coerência na maioria destes pensamentos, como se os pequenos proprietários atingidos fossem mais um “dano colateral” de um processo muito maior. Apesar de seu caráter aparentemente ruim, haveria uma validade intrínseca no “ataque direto a qualquer  propriedade como forma de luta anti-capitalista”, mesmo nos pequenos proprietários. Porém, tem ficado claro atualmente o diagnóstico que Marx fez sobre o movimento Luddita: “deu ao governo anti-Jacobino […] o pretexto para as mais reacionárias e violentas medidas” (O Capital, pg. 554, citado aqui) e que, assim, o que ficará num futuro próximo é – novamente – a forte criminalização das manifestações e possivelmente, a aprovação da lei anti-terrorismo no Brasil, à maneira como foi feita nos EUA (2). Por isso, vale uma relida no famoso panfleto de 1848, onde podemos encontrar:

“[…] Censuram-nos […] por querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que declaram ser a base de toda liberdade, de toda independência individual. A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito!

Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, formas de propriedades anteriores à propriedade burguesa?

Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já as aboliu e continua a aboli-las diariamente.

Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa?” (Manifesto Comunista, Cap II, página 30)

Sob a mais simplista observação, há uma evidente diferença entre a Bayer e a “farmácia do Seu João” destruída na manifestação, ou entre a Monsanto ou agro-indústria latifundiária e o “Seu Severino” cultivador de aipim no interior do Rio; há uma diferença clara entre a Bolacha Discos e a Sony Music; é como comparar a Fifa à associação de jogadores do Aterro do Flamengo. É, portanto, difícil não notar que mais e mais farmácias pequenas (“do Seu João”), são repostas por redes nacionais e internacionais de farmácia, em fusões e aquisições (caso exemplar da Pacheco fundida com a Drogaria São Paulo) ou que o comércio local vai gradativamente sendo reposto por Walmart, Pão-de-Açúcar, Carrefour e Lojas Americanas entre outros.

O resultado lógico da concorrência capitalista é a concentração, formando monopólios e oligopólios – “só pode haver um” – e, desta maneira, o pequeno comércio familiar local é também, um tipo de resistência ao grande capitalismo predatório, que domina e corrói o Estado por dentro. O “Seu João” não financia campanhas políticas, não influencia processos decisórios públicos através de lobbies que favorecem os seus, ao contrário das corporações. Especialmente num país como o Brasil, onde o pequeno proprietário paga proporcionalmente muito mais impostos que os grandes empresários; onde a família dona de “biroscas”, “padocas”, vendinhas e armarinhos, faz jornadas de trabalho estafantes e dificilmente tem liquidez maior do que 4 ou 5 vezes a remuneração média de seus funcionários (uma distribuição de renda semelhante à Noruega), é difícil  no momento justificar a destruição destes estabelecimentos sob bases “revolucionárias” coerentes. No Brasil, existem proprietários e Proprietários.

Porém, uma das questões fundamentais levantadas pelo vandalismo é no campo político, representou algo há algumas décadas esquecida por nossa população: a quebra real do paradigma da “inviolabilidade” do Estado e da – ainda que temporária – quebra do seu monopólio do uso da violência legítima. Quebrou o monopólio da violência de forma política, muito diferente dos Estado Paralelos, formados por traficantes em regiões de fronteira, dentro das grandes cidades que não tem pretensão política e ideológica. Assim, quando os quebra-quebras surgiram como revolta disruptiva, parte significativa da população apoiou os meios usados pelos manifestantes, foi até constrangimento no show reacionário do Datena, quando numa votação ao vivo, os telespectadores deram 70% dos votos “a favor da baderna” e violência dos manifestantes.

Não foi notável, fato perceptível até aos mais leigos dos observadores, como a grande imprensa mudou de opinião temporariamente sobre a violência das manifestações?! Entre o dia 17 e o dia 20, quinta-feira também histórica, a grande imprensa que, a exemplo do Jabor (entre os mais cretinos que mudaram de opinião “do nada”), em oposição ao que sempre fez em relação a qualquer manifestação popular, resolveu insuflar mais ainda os ânimos, clamando que o povo continuasse nas ruas numa esperança de desestabilizar o governo que abomina, tentando de todo jeito pautar as manifestações num vazio “anti-corrupção lampedusiano”, levando às ruas todo tipo de gente, de coxinhas à nazistas. E oras, qualquer um com o mínimo de consciência, dado os nervos à flor da pele como estavam aqui no Rio, tinha certeza que as grandes manifestações pós-17 de junho acabariam em violência destrutiva, seja contra o Estado ou propriedades adjacentes. E, lógico, a grande repressão policial serviu – e serve – como ponto catalizador de revolta pois não foram poucos os que decidiram sair quebrando tudo após a repressão policial começar “do nada”, quando as manifestações seguiam pacíficas.

E, quando num intervalo de poucos dias, a mesma imprensa (especialmente a televisiva), voltou ao seu padrão normal, inicialmente durante a primeira manifestação contra o Cabral no Leblon, que os jornais ficaram “horrorizados” porque a polícia tinha ido longe demais pois tinha criança do Leblon tossindo por causa das bombas de gás (3) e na mais absoluta normalidade ignorou completamente a chacina de moradores da Maré, mesmo com a polícia admitindo que alguns “não eram bandidos” (4). Depois além de ainda prosseguir ignorando os mortos da Maré, também ignoraram o sumiço do trabalhador da Rocinha Amarildo, para dar ênfase a uma vitrine da loja Toulon, com direito ao burguês Ballesteros (5) chorando na TV pela “maldade praticada” e moradores do Leblon colando flores para manequins e vidros quebrados“, numa nova e vergonhosa demonstração das prioridades da classe alta carioca. Nova porque a brutal repressão policial durante a festa privada dos Barata no Copacabana Palace foi acompanhada de um clima de Bastilha, mostrando a completa desconexão com a realidade da alta burguesia brasileira.

Desta forma, o vandalismo serviu a um segundo propósito, desnudou completamente o oportunismo e desfaçatez da grande mídia brasileira. Não foi por acaso que sistematicamente os jornalistas da Globo foram expulsos das manifestações, um carro do SBT foi queimado e logo depois que a “poeira baixou”, uma dezena de manifestações contra a Rede Globo ocorreram, algumas bastante expressivas (em São Paulo por exemplo). Conhecendo nossa mídia, não seria forçado crer que não fosse o vandalismo e claro, a excessiva violência da polícia, independente da cidade, mas em especial no Rio, São Paulo e Minas Gerais, os protestos no geral não seriam mais do que nota de rodapé dos grandes meios de comunicação. Pois agora que eles têm pautas mais nítidas e a oposição ao monopólio da mídia é recorrente, as manifestações somem dos holofotes e focam, em parceria com o cretino governo do Cabral, no vandalismo e nas depredações.

Num terceiro ponto, o vandalismo contra agencias bancárias (Itaú foi um foco principal aqui no Rio) e contra órgãos do governo é auto-explicativo. No Brasil cada R$1,00 arrecadado em impostos pelo governo, 42 centavos vão diretamente para o setor bancário para pagar uma dívida pública que não é auditada desde 1931. Itaú e Bradesco estão entre os maiores credores da nossa dívida pública e os escorchantes juros cobrados aqui, o sexto maior juros real do mundo, são largamente influenciados pelo mesmo setor financeiro que se beneficia deles (6). Assim, não é “surpreendente” ou mesmo “desproposital” o vandalismo contra os bancos, em termos monetários é pouquíssimo diante do imenso roubo que nos fazem diuturnamente. Já dizia o baixinho russo: “o que é um assalto a banco diante da criação de um banco”. E foram realmente raros os depoimentos populares contra a depredação de agências bancárias.

Quanto aos órgãos públicos, a revolta é evidente e demonstrou fisicamente e seguidas vezes, uma revolta contra contra o que o poder constituído tem feito, tema que abordamos há algumas semanas. É importante notar esta diferença, as pautas têm se mostrado contra o que o poder constituído tem feito e não contra o poder constituído em si. Essa segunda vertente tem se mostrado bastante minoritária e é por isso, que agora que as pautas são mais identificáveis, é possível notar um evidente enquadramento das manifestações dentro do sistema, como aquela oposição que apenas reforça a ordem estabelecida, ajusta a máquina. Numa hora pedem o fim de uma PEC ou validação de uma outra; depois pedem mais verbas para educação; pedem mais transparência ao governo; maior participação no processo decisório; frequente a ordem é para trocar os líderes, mas em raros momentos questionam a estrutura que levou estes líderes ao poder. Pautas opositoras à Rede Globo, à privatização do Maracanã, contra  a truculência policial e a cartelização do transporte coletivo, se somadas à pauta pela educação de qualidade, são marcas clássicas do Brizolismo Carioca. Nada de revolucionário, apenas progressista.

Assim, podemos resumir que o vandalismo serviu a alguns propósitos importantes. Primeiro quebrou o paradigma da inviolabilidade do Estado, quebrou de maneira pólitica, ainda que temporariamente, o seu monopólio da violência. Segundo, ele escancarou o posicionamento ideológico da mídia, o que para muitos “que dormiam” era o da mais absoluta neutralidade, agora já não é tão inquestionável assim, passo importante para a completa politização da questão. Terceiro a destruição frequente de agências bancárias demonstrou que, mesmo disruptivamente, os revoltosos sabem que muito do podre que criticam no poder público reside no sistema financeiro. E mesmo que tomemos a perspectiva de alguém externo aos protestos, o que fica é a emblemática destruição de um banco, e com a máscara da mídia começando a ser desvendada, o questionamento de “por que atacar um banco?” pode não ser respondido pelos mesmos agentes que os querem lá e assim, tornar-se uma pauta real na cabeça da população.

O vandalismo por fim, mostrou de maneira clara que o brasileiro têm o ímpeto necessário para uma quebra violenta de paradigma. A politização excessiva que os protestos suscitaram, exatamente por serem violentos, deixou mais claras as contradições evidentes em nossa sociedade, tornando mais visíveis o engendramento econômico no poder político constituído e na vida cotidiana, onde lojas são mais importantes que vidas humanas. É difícil que os que anteriormente viam com passividade ou desdém os desmandos do sistema e a violência necessária da PM para mantê-lo inquestionável, continuem neutros diante de tamanhos disparates.

Assim, principalmente se o vandalismo deixar de lado uma parte que ainda é um hooliganismo barato que mais parece saída de jogo no (antigo) Maracanã do que protesto, e for sistematicamente adotado como prática disciplinada, anti-corporativa e anti-sistêmica, confrontando bancos, lobistas e grandes corporações que sustentam o corrupto sistema político eleitoral, seu sentido pedagógico será bastante relevante, e justificará retroativamente todos os excessos como necessidades históricas momentâneas de um processo maior de ruptura.

José Livramento

Notas:

1 – Palácio de Versalles foi tomado por revolucionários durante a revolução francesa.

2 – Após o 11 de Setembro, os EUA chegaram a considerar o Greenpeace um grupo terrorista, da mesma forma que a direita tentava enquadrar o MST aqui.

3 – Nesse momento já haviam matado 10 pessoas na Maré.

4 – Não entrarei no mérito da polícia “Lei e Ordem” que mata antes e pergunta depois, comum às nossas metrópoles, matando indiscriminadamente bandidos em região de fronteira, num cenário que mais parece guerra do que qualquer outra coisa.

5 – A Família Ballesteros é dona da Aymoré Biscoitos, da Toulon e da Elmo Calçados. Altíssima burguesia de MG, com todos os problemas típicos da nossa alta burguesia.

6 – Até recentemente, o ex-presidente do Bank Boston, Henrique Meirelles, era o presidente do Banco Central!

*editado posteriormente para corrigir erros gramaticais.

Panela de Pressão

Flores de uma futura primavera?

Um espectro ronda o Brasil. O conformismo e resignação começaram a ranger suas engrenagens. Desmancham-se as teias de aranha, levanta-se a poeira e uma movimentação assustadora, não vista há muitos anos, sacode a inércia que parecia marcar “geneticamente”. Assustadora não pelo que propõe ou apresentam agora, mas pela possibilidade que demonstra, pelos preconceitos que quebra e, principalmente, pelo medo que exalta nos encastelados de nosso país.

Parece que não seremos mais os filhos do meio da história.

A “histórica” passividade, quietude e pacatez do brasileiro, fabricados por 25 anos de ditadura militar e 50 anos de monopólio midiático, mais uma vez não se mostra “natural” e fatídico. Para crer neste “conformismo natural” que o nosso ethos elitista-colonial tentou encucar temos de ignorar praticamente todas as décadas entre 1890 a 1960, de Canudos e Revolta da Vacina aos grandes comícios do Trabalhismo, passando por dois grandes levantes que pararam São Paulo e Rio (1917 e 18), uma grande marcha de insurgentes militares no Tenentismo (1922); um importante e brigado golpe de Estado em 1930; duas Intentonas, uma comunista e uma fascista (1935 e 1937);  inúmeros levantes das camponeses e quilombolas; uma guerra civil insurgente contra uma elite local que não queria se submeter ao poder republicanismo federal e é claro, os 5 anos ininterruptos de manifestações contra a própria ditadura, reprimidas como conhecemos já.

Se de um lado a ditadura batia e calava seus oponentes à força, o monopólio da mídia, fiel representante do ethos subserviente, formado numa incestuosa relação com o poder político, com os mesmos comandando emissoras, rádios e jornais, num aparelhamento tal da mídia pela classe dominante e suas idéias que faz Cuba parecer brincadeira em termos de controle, partia para refundar e reinventar a “candura” como marca do povo brasileiro. Deslegitimar e apagar os anos de rebeldia, proclame o fim do brasileiro que se reconhece como agente político, declare o Fim da Era Vargas, “o brasileiro é naturalmente pacífico e cândido”. Não é extremamente cretino chamar de “pacífico” um povo com uma das mais altas taxas de homicídio do mundo, com a polícia entre as mais violentas e dos mais indiferentes governantes que temos conhecimento?

Mas não podemos cair no clichê de culpar apenas a mídia e os resquícios da ditadura, como numa espécie de inimigo fantasma e intransponível e assim esvaziar os 25 anos subsequentes de história. Os anos de redemocratização foram de muitos conflitos e muita repressão. Lembrem de Eldorado dos Carajás, da movimentação para remoção do Collor, das grandes manifestações contra a privataria de FHC, sem contar os corriqueiros “choques de ordem”, amaciando as populações nos subúrbios e periferias e é claro, como no caso atual, as inúmeras lutas por transporte digno. Nas nossas periferias, com maquiagem UPP ou não, ainda hoje, as coisas ainda são mais ou menos como Lima Barreto colocou mais de 100 anos atrás: o Estado só aparece para cobrar imposto e para reprimir.

Não sejamos ingênuos ou desonestos. Sim, estas forças, muito bem articuladas (sem “sanhas conspiratórias”) são responsáveis também pelo construção do “pacatismo” de nossa população. Sim, todas as forças da ditadura continuam por aqui, os generais de pijama, a mídia das mais atrasadas do planeta, o semanário fascista-bacana, a classe média mais corrupta e anti-republicana que podemos imaginar e uma classe dominante ainda anti-desenvolvimentista, exportadora, aristocrática e anti-popular, eles fazem parte desta onda conservadora que cresceu como tsunami no Brasil.

Mas lembremos que a esquerda brasileira, como em quase toda parte do globo, aceitou o lema anti-radical, do “fim da história”, da “via eleitoral” e de que “nas ruas não conseguiriam nada”. A aceitação desta idéia e a meteórica ascensão do Partido dos Trabalhadores nos quadros eleitorais nos anos 90 e 2000, somada à proliferação de partidos minúsculos disputando migalhas nas eleições liberais, apenas reforçam o argumento de que uma parte da esquerda aceitou e se “deu muito bem” no abrandamento de suas posições.

“Lula Paz e Amor” veio e de fato fez um ótimo governo, especialmente se comparado com as décadas anteriores, no entanto, a ascensão da esquerda amansada ao poder nacional serviu como válvula de escape das imensas pressões sociais que existiam e existem no Brasil. Sem ter de fato resolvido a questão agrária, o MST e os conflitos agrários ficaram bastante calmos por quase 10 anos, para não prejudicar o PT. Sem ter resolvido as questões da ocupação urbana e moradia, da favelização das capitais, o PT conseguiu apaziguar os movimentos urbanos; sem ter resolvido grandes questões do vilipêndio das privatizações as manifestações a respeito foram amansadas (trambiqueiragens tão descaradas que finalmente a maior delas está sendo questionada pela Justiça), o PT conseguiu acalmar o funcionalismo mais radical.

Assim, sem ter de fato apresentado soluções consistentes e duradouras para os graves problemas históricos brasileiros, o PT conseguiu amansar os sindicatos e a militância radical do seu partido, que não é pequena nem menos importante. E conseguiu isso não com participação efetiva e real dos sindicatos e movimentos sociais no processo decisório e produtivo do país, nem mesmo fez isso com o Bolsa Família ou o aparelhamento político dos sindicatos e movimentos sociais como afirmam os anti-petistas, mas conquistou no bolso, com aumento real de salário e com crédito farto para que a população compre o seu carrinho e sua tv de plasma, enfim, se inclua na sociedade de consumo.

E pior, sem o prestígio de Lula e o impacto positivo inegável de seu governo, Dilma se transparece como uma Tony Blair de saias, na definitiva “New-Labourização” do Partido dos Trabalhadores, frequentemente acenando com a esquerda e assinando com a direita. A aliança com a “real política” do PMDB, o mais orgânico e menos ideológico dos partidos brasileiros, deu um ar fetichista à política do PT: “Eu sei muito bem que estas atitudes não são o que nós queremos e que vocês esperam, mas é um passo importante para a grande mudança que planejamos”. Um simulacro da política do “passo atrás para dar dois à frente de Lenin”. Em nome da governabilidade, os pontos nevrálgicos do atraso brasileiro foram sempre postergados e as (contra)reformas que os neoliberais querem, sempre contra os trabalhadores, vão se firmando, uma a uma, executadas pelo seu antigo inimigo, assim dando uma legitimidade que o Capital jamais teve no Brasil.

Neste ponto que lembro com temor de uma verdade inconveniente: o fascismo é filho de revoluções derrotadas. Para cada investida progressista que falha e não cumpre com as expectativas, uma onda de conservadorismo e retrocesso se segue, algumas com difícil recuperação.

E nós, aparentemente, falhamos em acabar com o ranço colonial-escravocrata-exportador, atualizado na mentalidade da ditadura e seus filhotes.

Não é por acaso que podemos facilmente notar que boa parte de nossa sociedade, aprova e ressalta costumes e comportamentos claramente autoritários, aplaudindo massacres, esculachos e classificando – até anteontem – toda e qualquer tipo de movimentação popular como baderna e vandalismo, seja em violência disruptiva tacando fogo em trens e ônibus, como em estudantes pedindo diminuição da passagem ou escolha democrática de seu reitor universitário. Desde que haja uma justificativa “aceita como verdade” por parte da “opinião consentida”, o Estado tem carta verde para reprimir a vontade e, sob o auspício de um legalismo seletivo, “Estado de Direito” quando é conveniente, a regra se transparece na criminalização de todo tipo de “não-alinhado” com a “política real”. Não é coincidência que no mundo – e no Brasil – vemos uma tendência de transformar juridicamente movimentos sociais em terroristas, legitimando assim, sua aniquilação como Inimigos do Estado.

A onda de retrocesso trás todo tipo de lixo com ela.

Quando vimos a população, muitas vezes seguindo o coro dos “formadores de opinião”,  a exaltar o filme Tropa de Elite, enraizar seus jargões e algumas de suas idéias, transformando a polícia mais assassina do mundo em uma espécie cínica de paladino da ordem e da justiça, há toda uma falência dos ideais progressistas por trás.

Me lembro dos aplausos ao Bope no desfile de 7 de Setembro pouco depois do filme e dos inúmeros episódios do jornal local exaltando a polícia e sua violência e associo com as bandeirinhas francesas saudando a invasão nazista de Paris. Me marcou a  “normalidade” que foi tratada a fileira de tanques subindo a Vila Cruzeiro e “piadas” online brincando com “Tropa de Elite III” durante a instalação de alguma UPPs; Ou aquele helicóptero da PM julgando e executando suspeitos como se fosse um videogame, numa versão de baixo orçamento do “Collateral Murder” norte-americano.

Basta o moto “bandido bom é bandido morto” como casus belli  para todo tipo de barbárie contra indesejáveis ser validada, com direito a vários programas de TV dando ares de “vontade popular” à brutalidade, amaciando a população, normalizando o terrorismo corporativo e estatal. Não foi o próprio Alckmin, governador de São Paulo, como um Gauleiter Nazista, que afirmou após um novo massacre da PM contra criminosos suspeitos, que “quem não reagiu está vivo”? Glorificando uma polícia que, como várias outras do país, trás sua versão da Totenkopf nazista no emblema ou escudo.

Antes das manifestações recentes, antes de começar a sobrar para jornalistas, donas de casa e transeuntes “inocentes”, os editoriais dos grandes jornais e os “importantes” comentaristas da TV faziam coro para a repressão fascista em Pinheirinho, alguns chamavam a Comissão da Verdade de “Comissão da Vingança”, outros endossavam a coluna de militares repressiva fechando preemptivamente avenidas para evitar que os manifestantes o fizessem, numa readaptação da bem humorada tira do André Dahmer: “São assassinos! Mate todos eles”. Não se observou recorrente apoio à PM em várias partes do país ao brutalizar manifestantes na USP, sob o lema “restauração da ordem” batendo e prendendo ilegalmente dentro dos campi universitários, evidenciando a clara incapacidade ou, porque não, falta de interesse das autoridades na autonomia real das universidades?

Quando grandes veículos da imprensa classificavam a luta pela reforma agrária como terrorista, não vi muitos levantarem assustados contra tamanha cretinice. É incrível encontrarmos opiniões sérias de que “invasor de terra tem que morrer” e que “reforma agrária é coisa de comunista”, em pleno século XXI. O Brasil é o único país “capitalista” que não só não fez reforma agrária, como mantém aquela mentalidade agro-exportadora muito viva, largamente representada no governo, pautando além da própria política de terras do Brasil, a maior sorte de conservadorismos semi-feudais que caminham ao lado dela. Não é coincidência que  seja comum encontrarmos muitos bóias-frias em condições análogas da escravidão e que o Bolsa Família, uma importante arma pela libertação do campo e da servidão por dívida, seja execrado pelos ruralistas e seus aliados.

Quando há anos atrás César Maia sugeriu sem nenhum constrangimento que se jogasse creolina nas calçadas para afastar mendigos e, mais recentemente, Eduardo Paes, “limpando” a cidade dos mendigos, novamente flertando com um higienismo proto-nazista, não passaram incólumes por tais impropérios? Wilson Leite Passos, um nazista não muito enrustido, não encontra espaço ainda no terceiro maior partido da nação?

Alguém fora dos ciclos da esquerda mais radical foi sistematicamente contra isso?

Não podemos passar 20 anos tolerando e ignorando esta escalada conservadora, dignas de uma ditadura e posar de “surpreso” quando a polícia vem descer a porrada em nós por simplesmente querermos exercer um direito constitucional. A constituição não vale nada quando o dinheiro manda. Não podemos honestamente pensar que é novidade quando “descobrimos” que todos os políticos prestam mais contas a seus patrocinadores do que à própria população e que esta é a lógica do capitalismo “livre” (1). Não podemos honestamente aceitar tudo isso e se surpreender quando, em um momento de fricção, o Estado vêm de fato mostrar o que sempre foi: protetor da classe dominante, protetor das grandes corporações e dos financiadores de sua própria existência. O cachorro que nos morde hoje, é o que demos comida e vimos crescer ontem. Corruptos e autoritários… somos nós.

E agora, que aparentemente estamos saindo da inércia e que a onda conservadora está ganhando uma contra resposta, que a tampa da panela de pressão que a ascensão do PT colocou nos movimentos sociais está a ponto de estourar, vemos os velhos oportunistas de sempre, os fascistas saindo do armário e os pelegos pusilânimes perdendo as estribeiras.

De um lado o PT, cínico e envergonhado, claramente desviado de sua posição histórica de defesa popular, prefere ficar calado ou tímido, vendo a história se desenvolver em sua frente, talvez incrédulo ou temeroso, se recolhe na mediocridade da governabilidade e estabilização (2). Não quer fazer mais feio na sua Copa. Mas não me refiro às vaias da Dilma na abertura da Copa das Confederações: alguém que pode pagar no mínimo R$300 para ver um jogo semi-amistoso da seleção brasileira pertence a uma classe social que nunca gostou da Dilma ou do PT, naturais as vaias portanto. Não. Me refiro a Haddad diminuído à sua insignificância em SP, que até “anteontem” estaria na rua contra o PSDB e depois de muita relutância, quer negociar com os “baderneiros”. Me refiro também à Agnello, o petista que manda a PM caçar manifestantes em casa, coisas de deixar Alckimin com inveja; Me refiro à galopante diluição do PT em “partido do possível” num pragmatismo tolo e subserviente, lampeduziano, mudando as coisas para que elas continuem as mesmas.

Do outro lado, os abutres de sempre, parasitas e oportunistas eternos, falam através dos barões da mídia, porta-vozes da antiga classe dominante – aqueles que restauraram seu poder com a ditadura militar. Num esforço cínico tentam mudar o discurso que sempre fizeram, não é por acaso que a inversão que a imprensa vez tratou, desde o início desvincular a repressão da polícia de Alckmin e do PSDB, a mesma do Pinheirinho, dos protestos atuais. Se até ontem mandavam descer a porrada em baderneiros, reprimir a população,  enfatizando “a normalidade dos tanques na rua”, agora, como no patético mea culpa do Jabor após o seu vexaminoso discurso dos 20 centavos, procuram canalizar os descontentes para velhos motos conservadores e anti-governistas, erguendo o genérico “contra a corrupção”, capas de inúmeras Veja e Folha, como se tentando pautar as manifestações com a “não-pauta” da corrupção, do anti-lulismo e por extensão, anti-esquerda, tirando todo o caráter e raiz progressista e radical do próprio movimento.

Ao ver uma parte já importante dos “distúrbios civis” já clamando por “apartidarismo” e genérico “luta contra a corrupção”, além da preocupante tentativa de proibição da bandeira de partidos nas reuniões, clamor visto com frequência nas redes sociais, afetando especialmente os partidos da esquerda radical, únicas bandeiras presentes de fato nos movimentos, não posso deixar de lembrar das palavras de Slavoj Zizek ao Occupy Wall Street, no auge do movimento:

“Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo.”

Assim, enquanto o movimento permanecer definindo metas claras e objetivas, separando críticas sinceras à de um anti-esquerdismo barato, poderemos ver florescer algo novo e incrível em nosso país. Não, ainda não vejo algo que se possa chamar de Primavera Brasileira, são apenas os primeiros ventos que carregam as sementes da próxima flora. A água está quente mas ainda há mais pressão a ser feita até explodir a panela. Encerro com o mesmo texto de Zizek:

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS.”

Leandro Dias

Colaboração de José Livramento

*****

NOTAS:

1 – Já falamos dezenas de vezes por aqui, este é o normal do funcionamento da Democracia Liberal, que nada mais é que o nome bonito da Ditadura do Dinheiro, cito um comentário que fizemos aqui no blog meses atrás:

Se nossa sociedade […] é regida pela lei do mercado onde “uma mão lava a outra” e toda troca pressupõe um retorno utilitário, onde toda escolha é uma relação de consumo, o que esperar da democracia fundada sobre esta lógica?

Os mensalões não são uma disfunção corrupta da democracia liberal praticada por imorais aproveitadores, mensalões SÃO a democracia liberal.

2 – A exceção talvez de tímidas manifestações dos diretórios regionais e um ou outro político isolado, mais colado à militância do que a “real política” do núcleo do partido.

O Voto Inútil ou como levar as contradições aos seus limites

Desperdice o seu voto, vote com consciência!

Em algumas horas muitos de nós vamos votar para prefeitos e vereadores em nossas cidades, a “festa” da democracia está começando e vamos compulsoriamente exercer nosso direito de escolha e votar em um candidato do nosso agrado (ou não). No circo montando de dois em dois anos, vestimos nossa máscara de palhaço e vamos fazer parte deste lindo circo político. Palhaço não porque fazer política é uma palhaçada ou inútil, mas exatamente por nos fazer crer que ao participar do jogo democrático-liberal estamos fazendo política, que é assim que o sistema “funciona” ou, pior, assim que as coisas mudam e que é nosso papel como cidadãos.

 

Não, não temos que crer nisso.

 

Como já dissemos aqui várias vezes, “muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar decisões tomadas fora do domínio público” (1) e é isso que temos que ter em mente quando observamos qualquer pleito democrático-liberal em nossas terras. Uma mistura de circo com puteiro, onde troca de favores monetários, mensalões, lobbies, favorecimentos ilícitos, lícitos e interesses escusos são os meios normais de funcionamento, e onde não há espaços para ideologias anti-sistema funcionando dentro dele mesmo. A história enterrou a ideia da social-democracia européia (eurocomunismo) de se atingir o socialismo através da democracia liberal, foi um fracasso retumbante, exceto – talvez – se ignorarmos as multinacionais finlandesas e norueguesas (2) e pensarmos nestes países como o mais próximo de socialismo e igualdade que o mundo já conheceu.

 

Em artigos anteriores foi comentado no blog (3) como é inviável uma candidatura de mudança social efetiva, mesmo que não revolucionária (4) e baseada em anseios de uma classe pouco ideologizada como é a classe média carioca – tão sem substância que penso seriamente o que ela defenderá quando o voto for facultativo e a maconha for legalizada. A inviabilidade não reside numa falha da esquerda sectária e desunida, mas no próprio jogo feito para que sua vitória sempre seja de pirro. Não foi o sistema que foi alterado pela chegada dos socialistas ao poder no Brasil ou na Europa, mas os socialistas que mudaram profundamente ao chegar ao poder.

 

No jogo político eleitoral em que estamos inseridos podemos participar como jogadores, bolas ou torcedores, jamais como donos de estádios ou de equipes, o máximo que podemos tentar é ser juíz, reforçando todo o sistema que supostamente temos que modificar. Essa mediação e tentativa de mudança “por dentro” do sistema por alguns foi chamada de pragmatismo político, por outros de política de resultados, eu chamo apenas de democracia liberal. Não é por acaso que os partidos “socialistas” europeus (e o PT no Brasil) em substância, são bastante parecidos com seus “arqui-rivais”, as diferenças são menores do que as semelhanças. Se você está jogando o jogo, é preciso colocar o uniforme e seguir as regras. “O sistema é foda parceiro”.

 

Neste domingo, ao votar, temos de ter a certeza de que não estamos fazendo nada de revolucionário ou significativo para a mudança das coisas, mesmo votando nos partidos tidos como radicais (PCB, PSTU, ou mesmo PSOL), e mais ainda votando nulo. É aqui que reside um questão fundamental para a esquerda radical no país: se reconhecemos que pouca coisa – ou nada – mudará através deste e de qualquer pleito eleitoral, qual o sentido de votar em algum partido? Este é um dos principais argumentos do voto nulo: a própria inutilidade e falta de substância das eleições democrático-liberais torna o voto nulo o único verdadeiramente real.

 

Porém, numa sociedade pouco radicalizada e apaziguada como a nossa, o voto nulo também não modificará absolutamente nada, pior: nem ao menos o seu protesto silencioso trará algum debate. Na alegoria que fiz mais atrás, o voto nulo é torcedor que não foi ao estádio e reclama que os jogos andam muito ruins. Numa situação em que nós já perdemos, o máximo que podemos fazer é levar a discussão mais adiante, para tornar tudo mais claro ou termos mais tempo e espaço para falar. Certa vez ouvi de um ativista radical que governos neoliberais eram bons para a luta revolucionária pois seu total desapego ao trato da questão social era combustível ideal para as contradições de classe, fomentando o caminho perfeito para uma atuação dos partidos revolucionários nas classes oprimidas. Portanto, nada melhor para um movimento revolucionário do que um governo neoliberal.

 

Nada mais errado.

 

Ignorando o fato da direita dominar por completo todo aparato ideológico substancial, seja a mídia ou a igreja, ainda temos que lembrar das pequenas lutas dialéticas, onde cada contradição do sistema aparece em uma forma específica e determinada de acordo com a situação e como tal deve ser combatida naquela específica ocasião, seja em lutas de gênero, credo, região, país, classe, judicial e, para o nosso caso, discussão eleitoral. Estas pequenas lutas devem ser exploradas e vencidas, dentro de um contexto que jamais deve ser esquecido, de luta dialética maior contra as forças opressivas do capital. Desta forma, num campo político por excelência que é o debate eleitoral, que mais e mais, o próprio sistema procura tornar desideologizado, transformando-se em mercado alienado de consumidores atomizados, travestindo a Política como análise de produtos eleitorais e “gestão responsável e sem ideologia”, é fundamental a busca constante de re-ideologização das eleições, dos debates e da política como um todo, afim de esmagar de vez a falácea de Fukuyama (5).

 

Não posso deixar de lembrar porém, que num quadro como este se transparece o sectarismo típico da esquerda radical, diluindo em 3 ou 4 partidos os votos politizados que deveriam se canalizar em uma única frente, mais forte, argumentativa e combativa. PSOL, PSTU, PCB, PCO (e agora o PPL), são no geral bastante semelhantes, especialmente se considerarmos o sistema eleitoral e de forças aos quais querem se inserir. Pressunpondo que estes partidos não concordam com o funcionamento da democracia liberal (6) o objetivo destes partidos é trazer o debate e evitar a hiperexploração dos trabalhadores que sua ausência traria (7), não há sentido em dividir tanto as forças da esquerda radical em micro-partidos que no máximo elegerão um ou dois vereadores.

 

Assim, no domingo, temos de pensar nas pequenas lutas que não temos a opção de evitar e que vamos fazer sabendo que a derrota é certa, mas com a consciência que podemos prolongar o suficiente para transformar um debate inútil em uma discussão inconveniente, relevante o suficiente para incitar fagulhas em nossa população iletrada. Em tempos de hegemonia conservadora e apaziguamento da questão social, as pequenas fagulhas cotidianas criadas através de pequenas vitórias, podem alimentar uma brasa inerente a qualquer sociedade extremamente desigual como a nossa. Nosso objetivo numa eleição é alterar a frase “se votar mudasse algo, seria proibido” para “quando votar muda alguma coisa, ele se torna proibido”. Vamos levar as contradições aos seus limites!

 

José Livramento

 

  1. http://coletivoac.wordpress.com/2010/09/27/deformadores-de-opiniao/
  2. Noruega e Finlândia hoje possuem quase 40% da população ativa trabalhando pro Estado e os mais eficazes sistemas de seguridade social e distribuição de renda do mundo.
  3. http://coletivoac.wordpress.com/2012/09/22/a-candidatura-freixo-esperanca-inviabilidade-e-decepcao/
  4. Lembrando que não há nada de revolucionário numa candidatura eleitoral numa democracia liberal.
  5. Francis Fukuyama: http://en.wikipedia.org/wiki/The_End_of_History_and_the_Last_Man
  6. Ver nosso texto recente: http://coletivoac.wordpress.com/2012/09/18/o-mercado-eleitoral-e-a-democracia-liberal/
  7. Basta uma leitura rápida de história para perceber que todos os avanços progressistas em favor dos trabalhadores e dos menos favorecidos se deu por força política e protestos de partidos comunistas, frentes anarquistas e socialistas em toda parte do mundo e onde eles foram fracos ou destruídos, a direita veio esmagar tudo passível de destruição que o iluminismo criou, do Kansas ao Afeganistão.

A candidatura Freixo: esperança, inviabilidade e decepção

Veloso, Freixo e Chico

Toda eleição no Rio de Janeiro é a mesma coisa: a classe média dita politizada carioca se une, esperançosa, em torno de algum candidato, um novo e fabuloso messias moralizador que tudo resolverá, a começar, e principalmente, pelo combate à corrupção. Chama a nossa atenção como a classe média se encanta com promessas de combater aquilo que ela própria, sob as mais diversas formas, mais pratica.

Qual vem sendo o comportamento eleitoral recente desta tal classe média?

Passemos a alguns fatos. Não custa lembrarmos das últimas eleições, em 2010.

O referido estamento adotou como candidata Marina Silva, do PV, cuja monotemática campanha tinha como companheiro de chapa a vice-presidência o empresário paulista Guilherme Leal, presidente da Natura e dono de uma sustentável fortuna de aproximadamente um bilhão e meio de dólares, segundo a Revista Forbes. [1]
Sui generis combinação, numa mesma chapa, de uma plataforma política que conciliava um discurso ambientalista com a prática da mais voraz acumulação capitalista, resultando numa quimera chama desenvolvimento sustentável.
Como se o capitalismo pudesse ser outra coisa que não o avanço constante e irrefreável sobre todos os recursos humanos e naturais disponíveis.

Já no que dizia respeito às eleições para o governo do estado, a referida classe média adotou a candidatura Fernando Gabeira que, para antagonizar seu adversário Sergio Cabral, candidato do Governo Federal petista, terminou por apoiar a candidatura “progressista de esquerda” de José Serra, do PSDB, no plano nacional, no 2° turno [2].

Um candidato a vice-presidente sustentavelmente multi-bilionário e um candidato progressista ao governo estadual que apoiou José Serra no 2° turno das eleições presidenciais: fatos que, evidentemente, não foram suficientes para saltar aos olhos da intelligentsia [3] do Partido Socialista da Vieira Souto e adjacências.

Eis que se aproximam perigosamente as eleições municipais de 2012 e o fenômeno, mais uma vez, vem se repetindo, atendendo desta vez pelo nome de Marcelo Freixo, candidato do PSOL à Prefeitura carioca.

A primeira pergunta que faço a respeito é: porque Freixo resolveu concorrer no Rio de Janeiro, e não em sua base eleitoral, Niterói, onde suas possibilidades de vitória eram infinitamente superiores, até pelo próprio perfil pequeno-burguês da maior parte de seu eleitorado? [4]

O perfil de Marcelo Freixo, defensor de determinadas plataformas progressistas, aponta claramente para um candidato viável para cargos legislativos, de eleições proporcionais, porém de viabilidade eleitoral muito reduzida para cargos executivos, de eleições majoritárias, pois trata-se de questões que passam longe das preocupações diárias de subsistência da maior parte da população, mesmo num estado rico – para os medíocres padrões brasileiros – como o Rio de Janeiro.

Suas possibilidades se deterioram ainda mais fora de sua cidade, que dirá concorrendo contra Eduardo Paes, apoiado pelo trágico governador Sergio Cabral e também, trágica e desastrosamente, pela presidente Dilma e pelo ex-presidente Lula.

Uma combinação de forças que tornam sua candidatura uma mera formalidade. O prognóstico é simples: só um milagre ou uma catástrofe total e aparentemente impossível para tirar a vitória de Eduardo Paes, ainda no 1° turno.

Essas questões a parte, a candidatura Marcelo Freixo vem recorrendo aos velhos artifícios das candidaturas que se fundamentam na classe média politizada carioca.

Embora inclinada à esquerda, às plataformas políticas progressistas, é uma classe média incapaz de se desvencilhar de suas origens pequeno-burguesas e dos privilégios de classe de que desfruta. Daí praticar um “esquerdismo” light, muito mais ligado às manifestações culturais das elites cosmopolitas bem educadas do que ao ativismo político junto aos partidos políticos, aos sindicatos e às classes trabalhadoras dominadas – coisas que ela, por sinal, rejeita. [5]

Em suma, um “esquerdismo” inócuo e politicamente neutro, como bem convém à ordem liberal burguesa.

Entre aqueles artifícios, destaco um marketing – sim, porque lembraremos sempre que eleição não é política, é comércio, mercado – que faz vasto uso de artistas populares de nome como Caetano Veloso e Chico Buarque, apelando para a fina sensibilidade artística de seu potencial eleitorado. Não custa lembrarmos que Chico Buarque é um dos mais notórios intelectuais orgânicos do comunismo parisiense. Não a toa, promoveram um show de arrecadação de fundos para a Primavera Carioca de Freixo, a preços módicos e bem populares, como é típico dessa classe artística engajada de esquerda: R$ 360 [6]. Mais da metade do valor do salário mínimo nacional, R$ 620 [7]. Tudo bem, shows para arrecadar fundos são extremamente comuns nas democracias do mundo, e normal ele querer fazer um show para obter grana da classe média alta, o ruim é ele não ter feito nada semelhante para captar grana ou apoio dos trabalhadores de baixa renda. Pelo menos não fez pior, os famigerados showmícios, shows pagos com grana do partido ou grana pública [8]para agregar pessoas para um candidato sem prestígio.

Diálogo com a classe trabalhadora é isso aí.

Para disputar e vencer eleições (burguesas) é necessário dinheiro – muito dinheiro. A candidatura Freixo não dispõe, nem remotamente, dos vastos recursos à disposição de seu principal rival, Eduardo Paes. Torna-se necessário buscar os recursos que viabilizem a vitória em algum lugar.

Para Paes, é simples: sem nenhum tipo de compromisso ou constrangimento de ordem ideológica, se apóia nas empreiteiras, que serão recompensadas depois com vitórias em “licitações” multi-milionárias.  Para Freixo, ideologicamente comprometido com uma plataforma de moralização da política, e eleitoralmente comprometido em ser oposição à candidatura Paes, não se trata de recurso cabível. Tem de recorrer a alternativas como, por exemplo, os artistas.  Muitos pensarão que esse fato absolve a candidatura Freixo, e torna imperativo realizar esse tipo de espetáculo com vistas a obter recursos que, quem sabe, viabilizem a improvável vitória. Mas devemos lembrar que trata-se de fato que, sem dúvidas, não impede a corrupção: basta, por exemplo, recompensar tais artistas com fantásticos cachês para shows no Réveillon carioca ou outros eventos. Lembrando o link acima do Paes, onde os artistas populares que o “seguem” são frequentemente pagos com dinheiro da prefeitura). [8]

Coloca-se, então, para Freixo e para candidaturas com o seu perfil, um paradoxo insolúvel.

Ou se mantém fiel ao seu programa progressista, e inviabiliza-se eleitoralmente; ou viabiliza-se entrando no jogo (sujo) da política eleitoral, corrompendo seu programa.

Nestes casos, só dois caminhos são possíveis: a derrota eleitoral, ou uma vitória de Pirro, que é seguida pela decepção de seus eleitores.

Tudo isso apenas expõe um fato muito, muito claro: socialismo e eleições (burguesas) não combinam, pois as instituições liberais burguesas que hoje se convencionou chamar de “democracia” não foram, é claro, pensadas para dar este tipo de resultado eleitoral. São instituições conservadoras, produto da ordem vigente, para a ordem vigente. A contradição, é insolúvel, é insuperável. Não se deve ter falsas esperanças: só mesmo a superação desta ordem pode solucioná-la.

Arnaldo Gordo

Notas:

1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Leal
2. http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,gabeira-confirma-apoio-a-serra-no-2-turno,620075,0.htm
3. O termo vem do idioma russo, e se refere àqueles trabalhadores engajados em atividades culturais e intelectuais. Seu antônimo, muito mais comum, se denomina burritsia.
4.Niterói é uma cidade curiosa, e de certa maneira, motivo de inveja para a classe média burguesa da capital. A divisão Niterói-São Gonçalo equivaleria às zonas Sul e Centro do Rio de Janeiro formarem uma cidade independente dos subúrbios. Não é outra a razão pela qual Niterói tem um dos três mais elevados índices de desenvolvimento humano do Brasil, enquanto São Gonçalo é um município marcadamente subdesenvolvido.
5. Se os trabalhadores se emanciparem, de onde virão as faxineiras e empregadas domésticas?
6. E que ainda dá ao PIG a oportunidade de fazer gozações:
http://oglobo.globo.com/pais/ingresso-de-show-pro-marcelo-freixo-custara-360-5973854
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/show-caetano-veloso-chico-buarque-marcelo-freixo-a-noite-acanhada-da-esquerda-festiva
6. http://www.portalbrasil.net/salariominimo_2012.htm
8. http://eleicoes.uol.com.br/2012/noticias/2012/07/24/artistas-que-apoiam-eduardo-paes-fizeram-shows-pagos-pela-prefeitura-do-rio.htm

Um Dia Insólito

Quinta-feira, 25 de novembro de 2010.

Dia de guerra civil no Rio de Janeiro.

 

De frente para a TV por alguns breves minutos, entre uma atividade e outra, este que vos escreve presencia a seguinte cena – insólita, bizarra.

Na imagem, uma coluna de carros blindados (vulgos tanques de guerra) da Marinha do Brasil dirige-se para a Penha, zona norte da cidade, junto a grupos da PM e do BOPE.

O alvo, a Vila Cruzeiro (a favela do Adriano).

Eis então que, diante daquela cena, que poderia ter sido extraída de qualquer front mundo afora – Afeganistão, Iraque, Sudão, Somália, o mundo está cheio deles -, o narrador burguês da Rede Globo pronuncia-se, decretando solenemente:

“Neste momento, o clima na cidade é de tranquilidade. As pessoas deslocam-se e trabalham normalmente”.

Hmm.

Logo me vem a cabeça, a absoluta contradição entre o que se via na imagem, e o que se ouvia pela voz do apaniguado.

Tento, então, num esforço desesperado, compreender o que se passa, desvendar o que poderia estar por trás daquele “raciocínio”.

Pois bem. Se vejo uma coluna de tanques de guerra marchando para o front e o narrador diz que a cidade está tranquila e as pessoas deslocam-se e trabalham normalmente, pelo menos uma das opções abaixo tem de ser válidas.

1 – O bairro da Penha não se localiza na cidade do Rio de Janeiro.

2 – No bairro da Penha não residem pessoas mas, sim, seres dignos de um outro nome.

3 – Supondo que lá vivam pessoas, não se deslocam e, muito menos, trabalham.

Pelo menos no meu entender, todas estas opções são falsas.

O que poderia estar, portanto, por trás de tal colocação?

Para nós do Rio Revolta a coisa parece clara, e torna-se absolutamente fundamental uma análise deste histórico momento, para tentarmos entender o porque disso tudo que hoje nos aflinge.

Quando disse que a cidade estava tranquila e as pessoas deslocavam-se e trabalham normalmente, o narrador evidentemente havia excluído aquela região da cidade de sua argumentação. E a razão é óbvia.

Aquela é a (uma das) parte do lixo, do esgoto, da favela (para os politicamente corretos: comunidade), da pobreza, da miséria, do crime, da bandidagem, do tráfico, do sei lá mais o que.

Portanto, não é mesmo, no nosso imaginário mé(r)dio-classista, parte da cidade. É uma outra coisa, que infelizmente está lá, da qual nos envergonhamos e com a qual não temos nada a ver.

Daí compreendemos, também, para quem, inconscientemente (ou seria mesmo explícita e reconhecidamente?) falava o narrador burguês da Rede Globo.

Ele não fala aos moradoras da Penha. Ele fala aos da Zona Sul, Barra, Tijuca, Méier e onde mais se localizem as “pessoas de bem” (a classe mé(r)dia).

Portanto, realmente, para nós, as “pessoas de bem” (a classe mé(r)dia), a cidade estava tranquila e nós nos movimentávamos e trabalhávamos normalmente.

Por sinal, nem isso aconteceu. Carros incendiados hoje em Botafogo, Copacabana, Avenida Presidente Vargas, bem no meio de “nós” (como eles puderam! Quanta audácia! Caveira neles!).

Mas vamos lá, ao que interessa.

Reações ao fato, as mesmas de sempre. Choque, horror, exigências variadas da máxima repressão possível, em tons de vermelho.

Cheque em branco dado às forças repressivas – tanto estatais quanto privadas – para exterminar como bem entenderem, por tempo indeterminado.

Até que a sanha de vingança dos formadores de opinião se aplaque.

Afluem para os corredores da grande mídia elitista (o PiG, Partido da Imprensa Golpista) “especialistas” variados – criminólogos, economistas, sociólogos, antropólogos.

A troca é conveniente a todos. A mídia consegue as falas dos portadores dos diplomas, que referendam suas opiniões abissais junto à “exigente” opinião pública de classe mé(r)dia.

Os portadores dos diplomas, por sua vez, dão a chancela “técnica” e “especialista” às opiniões genocidas da grande mídia, ganham nome e visibilidade nacional e – claro – $$$ no bolso.

Surgem, também, os presidentes de ONGs – das quais a VivaRio (VivaRico?) faz-se vanguarda e ponta de lança. Todos tem a resposta na ponta da língua:

POLÍCIA, POLÍCIA E POLÍCIA!

BOPE, BOPE E BOPE!

E se necessário:

FORÇAS ARMADAS!

EXÉRCITO!

MARINHA!

(Ninguém ainda aventou SERIAMENTE a hipótese de bombardear os morros, daí, não invocarmos a Aeronáutica).

Deixe-me ver se Rio Revolta conseguiu, finalmente, entender.

A coisa é mais ou menos assim.

O Estado sobe o morro, seja lá qual for a corporação específica que o esteja representado.

Lá em cima, faz-se sentir pelo matraquear de suas armas.

Mata os 10, 20, 50, 200, 500 “bandidos” que lá em cima estiverem, não importa o número.

Como efeito colateral, mata mais uns 10, 20, 50, 200, 500 moradores, também não importando o número.

Limpo o terreno, desce o morro.

Tudo se acalma.

A cidade volta a ficar tranquila e as pessoas voltam a se deslocar e trabalhar normalmente.

Até que o ciclo recomece e surja uma nova safra de “bandidos”.

E em algum momento eles “saem do controle” e tudo se faz necessário novamente.

Genial.

Agora compreendo tudo.

E compreendo, também:

Porque somos incapazes de simplesmente FALAR A RESPEITO do que realmente mudaria essa situação, no longo prazo:

1 – Porque a elite que invoca a repressão, ufana-se do BOPE e defende o genocídio é a mesma que não quer pagar um centavo além do salário mínimo para seus empregados.

2 – Porque tanto a elite quanto a classe mé(r)dia jamais cogitaram uma redistribuição de renda nesta cidade e neste país que permita às favelas tornarem-se bairros e aos seus moradores tornarem-se cidadãos com emprego regular, nível decente de escolaridade, assistência médica e o mínimo de serviços do Estado.

3 – Porque esta elite e a classe mé(r)dia acham mesmo que pobre é pobre porque quer ou porque merece ser, já que, afinal, moramos num país dotado de iniciativa privada pujante e de visão de longo prazo, interessadíssima em criar muitos empregos com altos salários que permitam um mercado interno forte para que ela própria venda cada vez mais e assim por diante.

4 – Porque você, se fosse morador de um morro, talvez se sentisse muito tentado a tentar a vida como “bandido” ao invés de ser humilhado, se matando de trabalhar por um riquinho do asfalto, ganhando 500 reais e se sentindo um OTÁRIO?

Mas afinal de conta, caros amigos, essa situação toda é só um problema do Estado, a elite e nós da classe mé(r)dia não temos nada a ver com ele, não é mesmo?

Arnaldo Gordo

O Estado e a Violência Urbana: Rio

Como sempre estou sem tempo de atualizar o Rio Revolta. Senti que as críticas são tantas, mas com razões e origens tão semelhantes que eu estava ficando repetitivo. No entanto, agora um ‘novo’ tema, bem carioca, surgiu para que eu possa dar minha humilde opinião, é sobre a violência no Rio. O péssimo é que vou ter que passar batido num assunto nteressantíssimo desta semana que foi o Confecom (evento sobre a Imprensa no Brasil que envolveu várias personalidades internacionais notórias a respeito), completamente ignorado pela grande mídia e importantíssimo para o futuro democrático do país. Mas o “novo” me é mais interessante pois remonta comentários que tinha para fazer sobre as UPPs, drogas e etc no Rio… Sem mais delongas, prossigamos.

Estado vs. Estado paralelo

A onda recente de incêndio a automóveis, ônibus e vãs pela baixada Fluminense, Zona Norte do Rio e Niterói, além dos seguidos arrastões nestas regiões e também na Zona Sul, nos leva a refletir sobre todos os problemas oriundos da violência.

Como diria Jack Estripador: vamos por partes.

UPPS e a Ocupação das Favelas

As UPPs são a ponta de lança de entrada do Estado nas comunidades, favelas historicamente à margem do mínimo de governo e Estado. Como dizia Lima Barreto, pro pobre o Estado só aparecia para reprimir, nada mais. São regiões que nunca pagaram impostos e – pela lógica do nosso Estado – nunca receberam qualquer coisa do Estado. Nunca pagaram impostos pois certamente nunca tiveram dinheiro suficiente para pagá-lo. Lembrando que no Brasil, o Estado é o maior agente capitalista de nossa história, então, só para lembrar, ele só não entrou lá antes pois nunca houve interesse econômico para tal.

Agora os tempos são outros, queiram ou não, a renda da população brasileira aumentou muito e as classes C e B compram bastante, somadas são um mercado maior que a Classe A e B. “Culpem” o Lula, distribuição de renda, políticas estatais, o Diabo, mas o fato é que agora, citando o infame protofascista Luis Carlos Prates: “qualquer miserável tem um carro”. O que isso quer dizer? Agora o “favelado” compra mais gás, telefone, luz, televisores, gasta mais na venda da esquina, no bar, gato-net e uma série de serviços que antes eram negados a ele. Um médio-classista típico pensaria “meu deus, um favelado agora não é mais um cidadão de segunda classe, que absurdo!”. É já dizia o lema capitalista: “Compro, logo existo”. E eles passaram a existir.

As milícias,  representação do poder paralelo destas regiões historicamente abandonadas pelo Estado de Direito, agem muito mais rápido do que qualquer governo e logo passaram a ganhar rios de dinheiro acharcando moradores. É taxa do botijão de gás, taxa para morar, taxa para o gato-net, taxa para ter água, taxa para manter um comércio, taxa para o moto-taxi, chegaram até previdência!!! Imaginem, até os traficantes hoje têm que pagar a milícia para vender drogas, como ilustrou muito bem o Tropa 2. Isso parece até… um Governo.

O fato evidente e que é difícil de admitir: décadas de exclusão e marginalidade criaram um Estado paralelo de facto, lutando contra um Estado de direito, algo que não era consolidado nos anos 90. É o maior exemplo das “leis de mercado”, na ausência completa de quem atendesse a demanda, a milícia foi lá e supriu o que o Estado deveria ter feito. Vende uma proto-segurança, garante o gato-net, o iptu para “manter a região”… Na prática é uma máfia muito bem organizada, como diria Marcelo Freixo, o que chamam de “intelectual de esquerda que vive defendendo vagabundo” (para citar a frase protofascista do Capitão Nascismentoi).

Voltando ao subtópico: as UPPs são, portanto, a demostração de que o Estado de Direito quer o seu território legítimo. Agora que podem pagar, agora que a ‘cidadania chegou na periferia’, o Estado quer expulsar o poder paralelo, ele quer o monopólio da arrecadação e da violência, o que o legitima como Estado.

A questão central é esta.

Historicamente, a única entidade com o direito de acharcar a população é o Estado, pois – teoricamente – faz em nome de todos os cidadãos.

O monopólio da polícia, da cobrança de impostos, da taxação, da moradia…

A UPP é o “Império da Lei” chegando onde jamais esteve, para citar meus posts anteriores. Talvez por terem entendido isso que as elites começaram a esboçar o seu receio com as UPPs, elas odeiam o Império da Lei.

Outra grande questão seria debater “por que do nada resolveram levar “a Lei” para áreas do Estado Paralelo? Isso dá um outro post grande no RR, mas posso resumir que o ônus de ter vastas regiões da cidade do Rio – a mais importante cidade do Brasil, para os padrões internacionais – fora de controle, é economicamente terrível e politicamente desastroso, principalmente devido ao fato de que nos próximos 5 anos sediaremos: Olimpíadas Militares (um evento quase do tamanho do PAN-2007); Copa das Confederações; Copa do Mundo e Olimpíadas Mundiais, além de 3 Rock in Rios e o crescimento enorme de turistas nacionais devido a melhores condições de renda geral da população.

A UPP é parte da solução e não do problema

Não tem sido raro ver algum biltre falando que o problema são as UPPs, que expulsaram os bandidos do morro sem prendê-los e que agora eles foram roubar os coitadinhos e imaculados moradores da Zona Sul. Não por acaso, é uma opinião difundida nos grandes jornais, especialmente em um que associa um roubo de dinamite em Porto Alegre e no interior de São Paulo ao crime organizado do RJ sem qualquer preocupação com fontes. Não vou citar nomes mas é como se todos os crimes do Globo terrestre fossem culpa do RJ. Não basta os nossos crimes, os do RS e de SP também são culpa nossa. Daqui a pouco pipocarão fortes evidências da Al Qaeda financiando o terrorismo no mundo com dinheiro do tráfico no Rio.

Por que a UPP é parte da solução? Como falei acima, ela é a ponta de lança da entrada do Estado em regiões que nunca esteve antes. Mas quando falo do Estado não falo da Polícia. Favela é Questão Social, não é Questão de Polícia. Favelado não é e nunca foi cidadão de segunda classe, embora a “massa cheirosa” ache isso. Como diria mestre Bezerra:

“A favela nunca foi reduto de marginal
Lá só tem gente humilde marginalizada
E essa verdade não sai no jornal”

(Bezerra da Silva – Eu Sou Favela)

A UPP sozinha é ineficaz. Ela precisa fundamentalmente estabelecer o Estado como um todo, ao se instalar. Ela precisa  legalizar propriedades, facilitar a circulação livre de pessoas, levar correspondências, luz, água encanada, saneamento (bem… isso várias partes do asfalto não têm), telefone, internet, enfim, diversos direitos que qualquer cidadão teria. Porém, a UPP só terá sentido se voltarmos a um tema que falamos aqui toda hora: distribuição de renda. O Estado só será estabelecido e estabilizado dentro destas regiões anteriormente abandonadas se o emprego e a distribuição de renda continuarem a crescer, a melhorar. Se isso retroceder, as ‘comunidades’ voltarão a ficar abandonadas, a mercê das vontades das milícias, do Estado Paralelo.

A Questão das Drogas e o Poder Paralelo

As drogas são importante fonte de renda do Estado Paralelo que as UPPs combatem, mas não são fundamentalmente as mais importantes. Levando-se em conta as estatísticas oficiais de que 20 a 25% da população da cidade do Rio vivem em comunidades, praticamente a mercê do Estado, temos que 1/5 da arrecadação de impostos diretos e indiretos são perdidos pelo governo Estadual e Municipal. Mas esse dinheiro não é perdido. Hoje “qualquer miserável tem carro”, net, internet, luz e água. Para desgosto do Prates, os miseráveis não são mais miseráveis (que absurdo! ele diria). Sabendo disso que existe ‘abundância de dinheiro’  nas comunidades, isto é, uma fortíssima demanda reprimida, a milícia acharca os moradores das comunidades justamente para ter este dinheiro que normalmente iria para o Estado de Direito, oferecendo os serviços que o Estado de Direito não consegue permitir acesso.

Pense na matemática:

– existem mais pessoas consumindo drogas regularmente ou pagando água, luz, telefone, net, previdência, moradia e taxas comerciais?

A resposta é tão óbvia que chega a ser ofensiva. E o pior, só para confirmar a resposta certa: usuários regulares de drogas ainda têm de pagar estas mesmas contas e nem o mais inveterado dos drogados gasta mais com drogas ilícitas do que com despesas cotidianas para viver (talvez os drogados suicídas o façam, mas são exceção). No Brasil, a banca sempre leva, a fatia do Estado é sempre maior que a do ‘lazer’.

No entanto você vê seguidamente nos jornais a agenda conservadora: a culpa do tráfico e das milícias é do usuário que compra. Até o Tropa de Elite, que citei acima, reforça este argumento. Ignorar o fato de que a humanidade – comprovadamente – consome drogas há 5 mil anos é uma mera licença poética. A demanda persistiu apesar da moralidade cristã milenar. Aliás, o ópio era bastante tolerado no século XVIII e XIX pelos cristãos ocidentais… essa onda moralista é de 60, 70 anos para cá. E se a demanda existe, tem gente vendendo. As pessoas precisam absorver o fato de que: as drogas ilícitas são tão corriqueiras quanto as drogas lícitas, é uma natureza humana a fuga da realidade propiciada pelas drogas, desde o álcool até o LSD. E, vale lembrar, se a realidade vai sistemática e prolongadamente contra a Lei vigente, o que você acha que está errado?

Conclusão

No final das contas a conclusão é tão curta quanto complexa: a criminalidade crônica e o Estado Paralelo originam-se de uma total e prolongada ausência do Estado de Direito, da total exclusão social a que vastas regiões ficaram relegadas, da completa exclusão econômica e até política que imensa parcela da população do Rio (outros grandes centros estão inclusos aqui) tiveram de aceitar. No entanto, a força econômica  mais uma vez reafirmou que “se a pessoa compra, ela existe” e – agora, eu completo – o Estado se importa com elas. Logo ele vai chegar nos antigo grotões substituindo os milicianos pelos cobradores de impostos e agentes da Cedae. O enfrentamento violento que estamos vendo do Estado de Direito com o – breve defunto – Estado Paralelo é temporário, apesar de aterrorizante e intimidador.

Não temam, de 2011 a 2016 as coisas ficarão controladas. “Bota na conta da elite”

José Livramento