Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Hitler e o Socialismo

Hitler socializando com companheiros.

Em um dos mais repercutidos textos aqui do Rio Revolta, levantamos uma coleção de citações de Adolf Hitler sobre o marxismo. A finalidade, mais uma vez, era traçar um fundamental corte na posição que tenta colocar o nazismo como uma vertente do marxismo. As citações de Hitler naquele texto vieram ilustrar, com as palavras do referido, como o líder nazista tinha profundo asco da ideologia e visão de mundo marxista.

Porém, se esse asco de Hitler por Marx é inegável da a infinidade de citações no tema, ainda reside uma questão fundamental no caso. Afinal, se certamente Hitler odiava o marxismo, por que então ele regularmente se afirmava um socialista?

Para responder esta questão precisamos reafirmar o óbvio: o marxismo é uma tradição socialista, mas não é a única. Precisamos sair da dicotomia primária e inútil – “socialismo x capitalismo” – que corrói tanto a esquerda quanto a direita, e afirmar, com base no estudo histórico e econômico, que assim como Hitler, o próprio Marx identificou uma série de tipos de socialismo no seu tempo. O terceiro capítulo inteiro do Manifesto Comunista, chamado Literatura Socialista e Comunista, é dedicado a identificação dos outros tipos de socialismo e porque, segundo ele, estes modelos de socialismo estão condenados ao fracasso. Esta parte do seu livro-panfleto parece até hoje não ter entrado na cabeça de muitos dos seus leitores, na esquerda ou na direita.

Assim, para identificarmos os diversos tipos de socialismos existentes, faz-se importante dar uma rápida passada neste capítulo do Manifesto Comunista e acrescentar o que for relevante aos dias de hoje. Assim temos como tipos identificáveis de socialismo:

1. O socialismo feudal: é o socialismo que pretende voltar as relações sociais pré-capitalistas, buscando superar os problemas sociais gerados pelo mundo burguês, retornando à sociedade patriarcal e hierárquica do Ancien Regime. Caminhando junto com o socialismo cristão, superaria através da caridade e relações entre senhor, vassalo e camponês uma sociedade harmoniosa onde todos têm o seu lugar divinamente estabelecidos, não havendo espaço para o individualismo burguês e proletário. Ainda hoje o Socialismo Cristão tem importantes núcleos pelo mundo, tentando superar as agruras capitalistas através da solidariedade, trabalho voluntário e políticas estatais assistencialistas. O Papa Francisco poderia ser considerado um proeminente membro do Socialismo Cristão.

2. O socialismo pequeno-burguês: formado por pequenos proprietários urbanos (pequeno-burgueses), artesãos e pequenos camponeses. Ora ameaçados de proletarização pela concorrência com a grande indústria e esmagados pelos grandes proprietários rurais, estes socialistas reconheceram os problemas da sociedade burguesa e do feudalismo anterior, mas sua solução era simplesmente criar meios para evitar o inevitável: seu negócio/propriedade ser destruído pela concorrência com os grandes capitalistas e proprietários. “Para a manufatura, o regime corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal [familiar]”. Essa vertente socialista existe até os dias de hoje em alguns lugares do mundo e, com menor ou maior grau, consegue proteger a pequena propriedade urbana e rural da concorrência do grande capital através de impostos, taxações diferenciadas, regimes especiais (métodos inexistentes na época de Marx) e medidas muitas delas elaboradas por não socialistas como Otto Von Bismarck (criador das pensões públicas de aposentadoria) e John Maynard Keynes. Com Keynes, nos anos 1920 e 30, esta vertente ganhou importante embasamento teórico e aplicação econômica, permanecendo até hoje como alternativa capitalista ao liberalismo selvagem. Porém, com o imenso poder adquirido pelo grande capitalismo e subsequente concentração de propriedade e renda nos últimos 30 anos, essa vertente, como solução sistêmica, apesar de nos presentear com figuras incríveis como Pepe Mujica, cada vez mais, beira a utopia.

3. O socialismo Alemão ou o “verdadeiro” socialismo”. Essa é a mais importante passagem para nossa comparação com Hitler e o nazismo, pois toca em pontos fundamentais da seperação entre o “socialismo alemão” (que se auto-proclamava “socialismo verdadeiro”) e o socialismo de Marx (chamado hoje de marxismo). Para este, o “socialismo alemão” era uma versão do socialismo pequeno burguês, mas mais radical. Para estes socialistas, dizia o autor: “a supremacia industrial e apolítica da burguesia ameaça a pequena burguesia de destruição certa, de um lado, pela concentração de capitais, de outro, pelo desenvolvimento de um proletariado revolucionário. O verdadeiro socialismo pareceu aos pequenos burgues como uma arma capaz de aniquilar esses dois inimigos. Propagou-se como uma epidemia”. (MC, cap. III, pág. 54).

Marx prossegue em trecho ainda mais importante:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes. Com poucas exceções, todas as pretensas publicações socialistas ou comunistas que circulavam na Alemanha pertencem a esta imunda e enervante literatura.” (MC, cap III, pag 54-55, grifo nosso).

Voltaremos neste ponto mais adiante.

4. O socialismo conservador ou burguês: “uma parte da burguesia procura remediar os males sociais com o fim de consolidar a sociedade burguesa” (MC, cap III, pag 55). Com esta frase Marx abre o trecho sobre o socialismo conservador. Para Marx, “os socialistas burgueses querem as condições de vida da sociedade moderna, sem as lutas e os perigos que dela decorrem”. É ao mesmo tempo o socialismo reformista e o social-liberalismo, que buscam transformar as condições de vida material dos trabalhadores, sem no entanto mexer nas relações burguesas de produção.

No fundo, querem apenas reformas administrativas que acabam por fim, aprofundando o domínio burguês da sociedade. “Livre câmbio, no interesse da classe operária! Tarifas protetoras, no interesse da classe operária! Prisões celulares no interesse da classe operária!”. Enfim, “os burgueses são burgueses – no interesse da classe operária” (MC, cap III, pag 57). Soa quase como anedota, mas hoje ainda vemos isso de maneira evidente no Brasil: “Subsídios às montadoras, no interesse dos trabalhadores”. “Desoneração de grandes fortunas, no interesse dos trabalhadores!”. Afinal, é preciso crescer o bolo para depois reparti-lo ou dar migalhas para os trabalhadores. Usando o critério de Marx seria a vertente mais comum do socialismo hoje e de tão cretina que nos soa hoje, poucos que usam deste colorário têm a cara de pau de se intitularem socialistas.

5. O socialismo utópico: Marx coloca nesta categoria todos os socialistas que se atém mais a escrever sobre uma sociedade futura ideal perfeita, do que a pensar a analisar as reais condições que geraram a sociedade presente e como não reproduzi-las novamente. Ele diz:

“[sonham] com a realização experimental de suas utopias sociais: estabelecimento de falanstérios isolados, criação de colônias no interior, fundação de uma pequena Icária, edição de uma nova Jerusalém e, para dar realidade a todos esses castelos de ar, vêem-se obrigados a apelar para os bons sentimentos e os cofres dos filantropos burgueses”.

Nesta categoria, atualmente entrariam desde os que pensam em refundar uma sociedade hippie isolada, ou nos que vêem idilicamente uma sociedade tribal emulando uma sociedade indígena idealizada ou em alguns com pretensões mais elaboradas, o movimento Zeitgeist todo.

6. Por fim, apesar de Marx colocar o socialismo libertário pejorativamente como socialismo utópico, a tradição socialista libertária, também conhecida como “anarquismo”, ainda é bem representativa e foi responsável por grandes momentos da história dos trabalhadores brasileiros. As greves de 1917 (São Paulo)1918 (Rio de Janeiro), conseguiu feitos sem precedentes no país, sendo pouco depois esmagada com violência. E ainda, vários anarquistas participaram da fundação do Partido Comunista Brasileiro, apesar das fortes divergências que as duas correntes sempre tiveram (para curiosos, vale ler os debates entre Marx e Bakunin). Além disso, há uma forte influência anarquista na fundação da cultura cooperativista também no Brasil, mas fundamentalmente na Espanha, Itália e Alemanha.

***

Enfim, para qualquer olhar mais atento é óbvio que existem várias vertentes de socialismo não marxistas. Marx dedicou bastante do seu tempo a criticar estes socialismos que via como fadados ao fracasso ou ao embuste e enganação dos trabalhadores, causa que ele defendia. Qual causa exatamente? Acabar com a alienação do trabalhador provocada pelo regime assalariado, no qual o trabalhador vê horas de seu tempo e trabalho roubados (mais-valia) para gerar lucros para a classe parasítica, o burguês.

Mas voltemos então a questão do socialismo de Hitler.

O socialismo em Hitler

É incrível notarmos como Marx consegue descrever muito bem o tipo do socialismo reacionário dos fascistas e apontar com antescedência em torno de 70 anos, o cerne e o embuste do socialismo dos fascistas. Repetirei sua citação para entendermos melhor:

“[o socialismo alemão] proclamou que a nação alemã era a nação tipo, e o filisteu alemão, o homem tipo. A todas as infâmias desse homem tipo deu um sentido oculto, um sentido superior e socialista, que as tornava exatamente o contrário do que eram. Foi consequente até o fim, levantando-se contra a tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, declarando que pairava imparcialmente acima de todas as lutas de classes.” (MC, cap III, pag 55)

 Ora, não era exatamente este o discurso fascista? A causa nacional está acima das mesquinhas lutas de classe e interesses individualistas dos burgueses e dos trabalhadores. “Alemanha acima de tudo”. O alemão é o filisteu ideal, a nação alemã a ideal e superior. Portanto, não é preciso fazer qualquer “rocambole explicativo”, usar fontes duvidosas ou falaciosas de fanáticos marxistas, ou usar retórica escapista para encontrar o distanciamento evidente entre nazismo e marxismo. Antes mesmo do fascismo existir per se, Marx já repudiava a base teórica e cultural do socialismo pequeno-burguês radical e nacionalista de onde o fascismo alemão surgiu e que, na visão dele, era uma “imunda e enervante literatura”. Hitler não poderia resumir melhor esse argumento:

“Quem quer que esteja preparado para fazer da causa nacional a sua própria, em tal extensão que saiba não haver maior ideal que a prosperidade de sua pátria; quem quer que haja compreendido nosso estupendo hino nacional, “Deustchland über Alles”, para significar que nada neste vasto mundo ultrapassa, a seus olhos, a Alemanha, povo e terra – esse homem é um socialista” (HITLER, Adolf IN: Hitler Reden, citado por William Shirer, opus cit. pg. 139)

O historiador Peter Gay vai buscar lá no século XVIII as origens deste socialismo autoritário alemão, típico do fascismo e nos revela com mais clareza quais as características deste socialismo:

“A luta de classes é tolice, e a Revolução Alemã, produto da teoria, é tolice também. O instinto alemão, que, arraigado no sangue é verídico, vê as coisas diferente: ‘O poder pertence a todos. O indivíduo o serve. O todo é soberano. O rei é apenas o primeiro servo de seu estado. (Frederico, o Grande) -. Todos têm o seu lugar. Existem comandos e obediência. Assim, desde o século XVIII, vinha sendo o socialismo autoritário – autoritativer – em essência antiliberal e antidemocrático – isto é, se pensarmos no liberalismo inglês ou na democracia francesa”. O alemão verdadeiro deve reconhecer as necessidades do momento e a, submisso a elas, deve transformar o socialismo do século XVIII em socialismo autoritário do século XX. ‘Juntos, prussianos e socialistas erguem-se contra o inglês dentro de nós contra a visão do mundo que penetrou em toda a existência de nosso povo, paralisou-o, e roubou-lhe a alma’. A única salvação está no ‘socialismo prussiano’; aí estão a busca […] pela comunidade e a liderança, na linguagem dos acampamentos dos oficiais”. (Gay, 1978, pg. 103).

Podemos ainda, voltando em Marx, buscar sua contundente crítica ao populismo bonapartista, típico de ditadores bem posteriores, do discurso que viria a ser largamente utilizado por fascistas no mundo inteiro para movimentar sociedades contra o comunismo (marxismo). No 18 Brumário de Bonaparte, Marx escreve:

“Durante o mês de junho todas as classes e partidos se haviam congregado no partido da ordem, contra a classe proletária, considerada como o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Tinham “salvo” a sociedade dos “inimigos da sociedade”. Tinham dado como senhas a seu exércitos as palavras de ordem da velha sociedade – “propriedade, família, religião, ordem – e proclamado aos cruzados da contra-revolução: “Sob este signo Vencerás”. A partir desse instante, tão logo um dos numerosos partidos que se haviam congregado sob esse signo contra os insurretos de junho tenta assenhorear-se do campo de batalha revolucionário em seu próprio interesse de classe, sucumbe ante o grito: “Propriedade, família religião, ordem.” A sociedade é salva tantas vezes quantas se contrai o círculo de seus dominadores e um interesse mais exclusivo se impõe ao mais amplo. Toda reivindicação ainda que da mais elementar reforma financeira burguesa, do liberalismo mais corriqueiro, do republicanismo mais formal, da democracia mais superficial, é simultaneamente castigada como um “atentado à sociedade” e estigmatizada como “socialismo”. E, finalmente, os próprios pontífices da “religião e da ordem” são derrubados a pontapés de seus trípodes píticos, arrancados de seus leitos na calada da noite, atirados em carros celulares, lançados em masmorras ou mandados para o exílio; seu templo é totalmente arrasado, suas bocas trançadas, suas penas quebradas, sua lei reduzida a frangalhos em nome da religião, da propriedade, da família e da ordem. Os burgueses fanáticos pela ordem são mortos a tiros nas sacadas de suas janelas por bandos de soldados embriagados, a santidade dos seu lares é profanada, e suas casas são bombardeadas como diversão em nome da propriedade, da família, da religião e da ordem.” (18 Brumário, pág. 36 e 37)

Ainda poderíamos usar este exemplo do 18 Brumário para a própria trajetória dos nazistas. Que com apoio de variados setores sociais, de burgueses e pequeno-burgueses, em nome dos principais valores tradicionais reacionários, da “verdadeira” família alemã, contra o “comunismo”, obteve apoio de vários setores sociais para depois, após a Noite das Facas Longas, esmagar industriais não alinhados (principalmente os que estavam envolvidos com a prisão de Hitler 12 anos antes), esmagar comunistas, socialistas (social-democratas da época) e condenar milhares de alemães à ruína em nome da Alemanha “ideal”.

Porém, isso tudo não parece suficiente para os que associam marxismo e nazismo. Entre vários outras tentativas superficiais, uma que parece recorrente é a utilização de uma citação de Hitler, encontrada na sua enorme biografia escrita por John Toland. A citação seria supostamente retirada de um discurso de 1 de Maio de 1927 e segue assim:

“Nos somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista de exploração dos economicamente fracos, com salários injustos, com a inadequada avaliação do ser humano de acordo com sua riqueza e propriedade ao invés da responsabilidade e da performance, e nós todos estamos determinados a destruir este sistema sob todas as condições” (John Toland, Hitler, p 224 – em inglês).

No entanto, se formos no original alemão, encontrado na compilação de discursos “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933“, onde temos mais de 10 fontes primárias (jornais da época) para o referido discurso, não encontraremos qualquer passagem semelhante a esta. E é incrível como Toland, jornalista prêmio Pullitzer, pôde ter errado essa importante citação. Se tivesse sido atribuída a nazistas anti-hitleristas como Otto Strasser, seria mais compreensível, ainda mais pela época (1927). Mas Hitler jamais diria algo assim. John Lucaks, autor conservador e anti-marxista do livro “O Hitler da História” (1997) afirma que John Toland inventou muitos trechos de seu livro, talvez este seja um dos casos. Enfim, para nossa argumentação aqui é apenas mais um reforço.

Além disso é comum aos associadores do nazismo com o marxismo, demonstrarem com a moeda comemorativa do Dia do Trabalho de 1934, onde figura uma água nazista com a foice e o martelo em cada lado, inegável associação do nazismo com o comunismo. Oras, uma águia com uma foice e um martelo é exatamente a cota de armas da Áustria (Primeira República 1919), e o país era alvo de intensa propaganda pró-nazista em 34 e Hitler já planejava o golpe naquela país, mas seu líder, o austrofascista Dollfuss era absolutamente anti-nazista. A comparação entre os dois está na foto abaixo:

Moeda do Trabalho e heráldica nazista.

Moeda do Trabalho e heráldica austríaca de 1919.

Vale lembrar, até para melhor entender o próprio símbolo da Áustria fora de qualquer contexto comunista, que a foice e o martelo já eram símbolos representando o trabalho do campo e a cidade há certo tempo. Essa é a mesma república austríaca que tinha Ludwig von Mises como principal conselheiro econômico do austrofascismo (1932-34). Assim para longe do simplismo panfletário anti-comunista, a foice para representar o campo está presente em diversos brasões europeus ainda na Idade Média. O martelo como símbolo do trabalho também já era mais do que popular e também podia se encontrar isolado ou combinado com a picareta. Talvez assim se explique o uso do símbolo pela Áustria e também pelos nazistas, já que nem todos os partidos comunistas usavam a foice e o martelo como símbolo. Além disso, vale lembrar também a célebre passagem de Hitler sobre a simbologia adotada:

Só a cor vermelha de nossos cartazes fazia com que afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu que, nas nossas assembleias tínhamos por princípio não usar os termos ‘Senhores e Senhoras’, mas ‘Companheiros e Companheiras’, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade.

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente. (HITLER, Minha Luta, pag. 361)

Como mestre da propaganda e da oratória, as referências que Hitler faz tinham finalidade explícita: confundir e induzir ingênuos e curiosos de esquerda a frequentar as assembleias e eventos nazistas. Neste sentido, Hitler foi um dos pioneiros do marketing político e do discurso populista moderno. Assim, como Marx já denunciava em 1848, muitos alemães caíram no embuste do socialismo fascista e apoiaram com vigor o projeto nazista, uma “epidemia” (nas palavras de marx).

Mas enfim, o que de socialismo tinha Hitler?

Existem muitas formas de socialismo. Por exemplo, as pensões públicas por velhice (aposentadorias) foram inventadas por Otto von Bismarck nos anos de 1870. Assim como outras seguridades sociais para cidadãos alemães foram inauguradas em seu governo, resolutamente anti-marxista (inclusive com leis específicas contra os comunistas). As empresas estatais modernas, com dinheiro público de impostos, foram largamente inspiradas em socialistas não marxistas como Louis Blanchi e Charles Fourrier, a serviço do Estado Frances. Até mesmo clássicos liberais como Adam Smith, poderiam hoje, sob os critérios que se utiliza vulgarmente no discurso anti-comunista, ser classificado como “socialista”, ele escreve entre vários outros trechos:

“Os sujeitos de cada estado devem contribuir para o sustento do governo, o máximo que puderem, em proporção às suas respectivas habilidades, ou seja, em proporção à renda que eles possuem sob proteção do Estado”. (Riqueza das Nações, Livro V, capítulo II)

“Tudo para nós mesmos e nada para outras pessoas, parece, em qualquer era do mundo, a máxima vil dos mestres da humanidade”. (Riqueza das Nações, Livro III, capítulo IV)

Se formos mais longe, podemos observar a lógica de Ludwig von Mises, exposto em “Critique of Interventionism”:

“O Intervencionismo busca reter a propriedade privada dos meios de produção, mas comandos autoritários, proibições em especial, são criadas para restringir as ações de proprietários privados. Se estas restrições atingem o ponto em que todas as decisões importantes são feitas através de comandos autoritários, se não é mais o motivo do lucro de proprietários, capitalistas e empreendedores, mas razões de estado que decidem o que deve ser produzido e como deve ser produzido, então, nós temos socialismo, mesmo que retendo o selo de propriedade privada” (Mises, Critic to Inverventionism, página 15-16)

Sob este critério, praticamente todos os países capitalistas dos últimos 200 anos foram socialistas. A necessidade de alimentar, armar e financiar exércitos, funcionalismo público para correios, polícia, bombeiros, demanda para certo planejamento central, organização estatal, impostos e criação de empresas estatais para suprir fraquezas do setor privado. Para não falar na expansão militar que visa dar benefícios gordos ao empresariado nacional, como Cecil Rhodes ou a Cia. Das Índias Orientais bem sabem. É curioso o anti-estatismo seletivo: exército e polícia não parecem importar muito os liberais anti-socialistas. Imagino que considerem, olhando Mises, que caso as decisões importantes do Estado estiverem motivadas pelo lucro privado e sejam feitas pelo comando de capitalistas e empreendedores, talvez este Estado não seja tão autoritário e ruim pro capitalismo assim, por mais que fossem brutais contra os trabalhadores. Só desta maneira para entender como “campeões da liberdade” como Mises ou Hayek e Friedman, deram apoio ao fascismo austríaco e à ditadura de Pinochet respectivamente.

Assim, para não estender o que já está bem extenso, podemos concluir que, como diversos líderes com a mínima preocupação com a realidade econômica e social de seus países, Hitler tomou uma série de medidas socialistas. Diante de uma enorme crise financeira ele estatizou setores da economia da mesma maneira que recentemente, na crise de 2008, vários empreendimentos capitalistas foram salvos pelo Estado nos EUA e Europa e nos primeiros até mesmo estatizou-se temporariamente a Ford Motors para salvá-la da falência.

Hitler também estatizou alguns bancos para favorecer seus interesses, outros sua política favoreceu largamente seu grande aliado privado o Deutsche Bank. Além disso, no que posteriormente chamou-se de ‘keynesianismo de guerra’, incrementou a demanda militar para movimentar a industria e o emprego nacional, aumentando consideravelmente o papel do Estado na economia. Porém fez isso fortalecendo os principais fornecedores privados nacionais e internacionais: Krupp, Bayer, IBM, Ford, até mesmo a Renault, a serviço do governo fascista de Vichy, sob ocupação nazista, capturou seus lucros privados com a política socialista dos nazistas. Sobre o caso, Strasser, nazista rival de Hiler escreve:

“Eu nunca disse que toda a propriedade deva ser socializada. Ao contrário, eu sustentei que devemos socializar as propriedades que se mostram prejudiciais ao interesse nacional. Se não forem tão culpadas, eu deveria considerar um crime destruir elementos essenciais de nossa vida econômica. Pegue o fascismo italiano. Nosso estado nacional socialista, como o estado fascista, irá proteger tanto o interesse dos empregadores como o dos trabalhadores e se reservar ao direito de arbitrar em caso de disputa”. (atribuído a Hitler, IN: Strasser: Hitler and I, pag 112)

Além disso, no campo social, Hitler fortaleceu os centros comunitários, grupos mirins e sedes sindicais, agora sob bandeira nazista, com atividades que estimulassem a integração e participação popular. Claro, isto se você não fosse judeu, comunista, cigano, socialista (do tipo social-democrata), católico não submisso, qualquer um considerado “degenerado”. Enfim, pegando a lógica de grupos como os escoteiros, associações cristãs e etc, embebidas da ideologia nazista, estavam agora a serviço da integração social germanizante. Até mesmo pensou num imenso hotel de lazer coletivo na praia de Prora, para uso dos trabalhadores, porém, como o “carro do povo” (volkswagen), jamais foi usado pelo povo e ficou abandonado.

Assim, embora bastante questionável o teor desse estímulo ao coletivo, é inegável que esse aspecto fosse importante aos nazistas. Mas estas perspectivas não são invenções nazistas, são comuns no mundo todo nas mais diversas vertentes ideológicas e não tem um aspecto positivo ou negativo a priori. A organização comunitária para fins coletivos pode ter os mais variados aspectos, uns belos, outros terríveis. Dos exercícios coletivos em fábricas, tão populares no Japão e Coréia do Sul; dos “community centers” fundamentais na organização de pequenas cidades norte-americana; a cultura do “retribuir” o que a sociedade lhe deu, levando ao trabalho voluntário, tão comum em culturas protestantes. O aspecto social da política só é ignorado por gente desonesta ou ignorante, desde de Aristóteles sabemos que “o homem é um ser social”. Por outro lado, temos a Klu Klux Klan como exemplo negativo evidente; os grupos que se reúnem para espancar homossexuais ou, para citar um exemplo do cinema, a comunidade no filme “A Praia”, que vendo seu “paraíso” ameaçado, em nome do coletivo, exclui os indivíduos indesejáveis.

Enfim, o socialismo de Hitler não tinha absolutamente nada de marxista. Era o socialismo da “gemeinschaft” alemã, da comunidade alemã, em torno dos interesses nacionais alemães, seja de Estado, seja do capitalismo alemão, seja do que os nazistas atribuíssem como interesse coletivo. O socialismo dos nazistas era o socialismo das tropas, o socialismo militar, das trincheiras da Primeira Guerra, onde todos os homens eram iguais na sua imensa possibilidade de morrer. Sua intenção não era resolver a alienação do trabalho e do homem, excluído de sua essência pela exploração do sua mão de obra por terceiros, massacrado por jornadas estafantes para a nova aristocracia burguesa. Não, a sociedade que os nazistas queriam formar, mesmo se – num esforço quase impossível – esquecermos a sua imensa brutalidade com o “outro”, era ainda hierárquica, reacionária, extremamente alienada e injusta, onde somente os considerados fortes e capazes sobrevivem, o triunfo vil do darwinismo social, uma distopia do ideal iluminista que inspirou Marx e tantos outros socialistas do século XIX.

Leandro Dias

Referências:

HAYEK, Friedrich: O Caminho da Servidão. Rio de Janeiro, Bibliex, 1994.

HITLER, Adolf: Mein Kampf: Minha Luta. São Paulo, Centauro, 2001.

LUCAKS, John: O Hitler da História. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

MARX, Karl: O Manifesto Comunista; Ebooks Brasil, 1999 (link)

MARX, Karl: O 18 Brumário de Bonaparte, São Paulo, Boitempo 2011.

MISES, Ludwig von: Crique of Interventionism; mises.org (link)

NARLOCH, Leandro: Guia Politicamente Incorreto do Mundo; São Paulo, Leya, 2013

SHIRER, William: Ascensão e Queda do III Reich (vol. I), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962.

SMITH, Adam: A Riqueza das Nações, São Paulo, Nova Cultural, 1996

STRASSER, Otto: Hitler and I; Boston, Mifflin, 1940

TOLAND, John: Adolf Hitler; Garden City, NY; Doubleday, 1976

VOLNHALS, Clemens von (org): “Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen, Februar 1925 bis Januar 1933″; Saur, 1992

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7 Respostas para “Hitler e o Socialismo

  1. Manuel Detoni Flores 3 de setembro de 2014 às 23:32

    Excelente texto

  2. Alcleir 16 de setembro de 2014 às 16:32

    Leandro Dias, seu artigo termina concluindo que o “socialismo” de Hitler seria muito diferente do “ideal iluminista que inspirou Karl Marx”. Como leitor interessado no temo, procurei pesquisar um pouco mais sobre o assunto. Penso que sua análise é superficial e não tem imparcialidade. Há mesmo acadêmicos como a Prof. Françoise Thom da Sorbonne que demostram a grande semelhança entre nazismo e socialismo: o primeiro prega o extermínio das raças inferiores em favor da raça escolhida (a ariana); o segundo prega o extermínio de todas as classes sociais em favor da única classe digna: a operária. Você, por sua vez, parece analisar somente parte da realidade do nacional-socialismo sem integrá-lo ao contexto. Penso que uma análise mais honesta não deveria se limitar somente ao discurso teórico, limitado ao Mein Kempf, mas também às declarações públicas feitas por Marx, Engels, Hitler e Goelbels. E mais ainda às aplicações práticas da teoria marxista na ação político / revolucionário a partir de Lenin, Stálin e Trotski.
    A ideia de genocídio como etapa de “limpeza” da sociedade é um denominador comum entre nazismo e comunismo. Hoje é conhecida a “solução final” de Hitler contra os judeus, mas o historiador literário George Watson da Universidade de Cambridge revela que Engels, por exemplo, escreveu a um jornal marxista em 1849 sobre a necessidade do extermínio das raças eslavas. Segundo Engels, quando a guerra de classes acontecer, invariavelmente, as raças mais fracas perecerão. Algumas sociedades dentro da Europa seriam mais primitivas do que outras, pois estariam dois períodos atrás na escala evolutiva porque nem capitalistas elas seriam ainda (os bascos, bretões, escoceses e sérvios) e na publicação Engels os classifica de “lixo racial” e deveriam ser destruídos porque estando dois períodos atrasados na luta histórica, seria impossível trazê-los à escala revolucionária. Fala também da imundície do povo eslavo, e prega o desaparecimento da Polônia.
    Deixo abaixo trechos do artigo FILHOS DO MARXISMO de autoria de Felipe Melo que considerei bastante interessante na medida em que, embora não sendo imparcial, trás elementos novos ao debate:
    Há pouco tempo, recebi comentários de um certoMarcus Valerio XR (Xavier Reis), mestre em Filosofia pela Universidade de Brasília. Seus comentários apontavam uma série de “incongruências” em meus textos, e, para elucidá-los e refutá-los efetivamente, citava textos de sua própria autoria. Como alguém que aprecia um debate sério e bem fundamentado, achei por bem ler os textos indicados pelo Sr. XR e, assim, verificar em que medida eu estava equivocado. O presente texto é bem longo, de modo que recomendo paciência àqueles que queiram compreender a questão.
    O texto Comunismo x Nazismo x Fascismo x Socialismo procura mostrar que Socialismo, Comunismo, Fascismo e Nazismo são ideologias que, apesar de algumas semelhanças, são diametralmente distintas. De acordo com o Sr. XR:
    Trivial que militantes de certas posições ainda defensáveis acusem as posições adversárias de se relacionarem a posições já indefensáveis, por isso, esquerdistas e direitistas tem trocado acusações que visam confundir a posição ideológica adversária com posições quase consensualmente rejeitadas, no caso, o Nazismo e o Fascismo, que tem sido frequentemente associados tanto ao Capitalismo quanto ao Socialismo e Comunismo, bem como a governos que muitas vezes são praticamente sua antítese.
    […]

    Penso que se apelarmos para suas definições tradicionais, quer sejam tiradas de dicionários léxicos, políticos ou filosóficos, quer sejam pelas definições de seus mais conhecidos ideólogos ou opositores, praticamente não há discussão, visto que SOCIALISMO é classicamente definido como um sistema onde os meios de produção são desapropriados e gradualmente revertidos ao controle estatal, e consequentemente público, num processo de transição que levaria ao COMUNISMO, onde ocorreria a abolição do estado, num sistema social onde todas as decisões seriam tomadas coletivamente pela população, sem intermediários. Situação essa que, no entanto, jamais ocorreu.

    Por outro lado, tanto NAZISMO quanto FASCISMO são ideologias que visam o exato oposto, isso é, o engrandecimento do Estado, transformando praticamente em objeto de culto e subordinando toda a sociedade à uma auto idolatria por meio do símbolo maior da auto imagem nacional. [sic]

    Creio que o Sr. XR não tenha tido a oportunidade de analisar pormenorizadamente os meandros das doutrinas socialista, comunista, nazista e fascista. A despeito de suas diferenças pontuais – que certamente existem, pois, do contrário, essas quatro ideologias seriam uma única –, a raiz de todos esses ideários é a mesma: o ódio coletivista. Para o Socialismo e o Comunismo, o sentimento que orienta as forças revolucionárias e o próprio Estado é o sentimento de classe (proletários); para o Fascismo, tal sentimento é o sentimento nacional (italianos); para o Nazismo, tal sentimento é o sentimento racial (arianos). O ódio classista, o ódio nacional e o ódio racial possuem exatamente as mesmas estruturas, os mesmos meandros, a mesma lógica: a redução das singularidades e das particularidades individuais a traços coletivistas que transformam os indivíduos em uma massa amorfa determinada por esses mesmos traços. Assim como há um ódio coletivista, há um determinismo coletivista. A diferença entre essas ideologias é o objeto ao qual se atêm.

    É necessário também dizer que o termo Capitalismo não se refere a uma ideologia, ao contrário de Socialismo, Comunismo, Nazismo e Fascismo. Capitalismo é um termo frequentemente utilizado para se referir ao atual estágio de desenvolvimento do sistema econômico. Transformar o Capitalismo em uma ideologia seria o mesmo que falar na existência de uma ideologia feudal, o que seria um tremendo despropósito.

    Continuemos:
    Karl Marx não acreditava em revoluções armadas, ele teorizou que as sociedades Capitalistas, quando estivessem nos limites de seu desenvolvimento global, seriam gradualmente convertidas em sociedades Socialistas, devido as forças históricas impessoais da luta de classes, de modo que podia-se esperar no máximo escaramuças locais. [sic]
    Não sei em que escritos de Marx o Sr. XR baseia suas afirmações, uma vez que não há referência disso em seu texto, mas creio que ele não teve a oportunidade de conhecer profundamente a obra de Marx.
    Eis algumas defesas de Marx em suas obras (grifos nossos):
    Entretanto, o antagonismo entre o proletariado e a burguesia é uma luta de uma classe contra outra, luta que, levada à sua expressão mais alta, é uma revolução total. […] Não se diga que o movimento social exclui o movimento político. Não há, jamais, movimento político que não seja, ao mesmo tempo, social.

    Somente numa ordem de coisas em que não existam mais classes e antagonismos entre classes as evoluções sociais deixarão de ser revoluções políticas. Até lá, às vésperas de cada reorganização geral da sociedade, a última palavra da ciência social será sempre: “O combate ou a morte: a luta sanguinária ou nada. É assim que a questão está irresistivelmente posta”. (Karl Marx, “Luta de Classes e Luta Política”, 1847)
    ~||~
    O movimento proletário é o movimento autônomo da maioria imensa no interesse da maioria imensa. O proletariado, a camada mais baixa da sociedade atual, não pode elevar-se, não pode endireitar-se, sem fazer ir pelos ares toda a superstrutura [Überbau] das camadas que formam a sociedade oficial. Pela forma, embora não pelo conteúdo, a luta do proletariado contra a burguesia começa por ser uma luta nacional. O proletariado de cada um dos países tem naturalmente de começar por resolver os problemas com a sua própria burguesia.

    Ao traçarmos as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos oculta no seio da sociedade existente até ao ponto em que rebenta numa revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a sua dominação.

    […]

    Em sentido próprio, o poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra. Se o proletariado na luta contra a burguesia necessariamente se unifica em classe, por uma revolução se faz classe dominante e como classe dominante suprime violentamente as velhas relações de produção, então suprime juntamente com estas relações de produção as condições de existência da oposição de classes, as classes em geral, e, com isto, a sua própria dominação como classe.

    […]

    Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento de toda a ordem social até aqui. Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista!
    (Karl Marx & Friedrich Engels, “O Manifesto Comunista”, 1848)
    Podemos adicionar também algumas considerações de Friedrich Engels, que, junto com Marx, desenvolveu o que veio a se chamar Socialismo Científico (grifos nossos):
    Os comunistas sabem muitíssimo bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, como mesmo prejudiciais. Eles sabem muitíssimo bem que as revoluções não são feitas propositada nem arbitrariamente, mas que, em qualquer tempo e em qualquer lugar, elas foram a consequência necessária de circunstâncias inteiramente independentes da vontade e da direcção deste ou daquele partido e de classes inteiras. Mas eles também vêem que o desenvolvimento do proletariado em quase todos os países civilizados é violentamente reprimido e que, deste modo, os adversários dos comunistas estão a contribuir com toda a força para uma revolução. Acabando assim o proletariado oprimido por ser empurrado para uma revolução, nós, os comunistas, defenderemos nos actos, tão bem como agora com as palavras, a causa dos proletários.
    (Friedrich Engels, “Princípios Básicos do Comunismo”, 1847)
    ~||~
    Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação.
    (Friedrich Engels, “Sobre a Autoridade”, 1873)
    As evidências estão aí, visíveis a qualquer um. Não é verdade que Marx pensava que “revolução não seria uma guerra, mas movimentos proletários como greves, paralisações e apropriações promovidas pelos trabalhadores”: a sublevação violenta da classe proletária, com a conquista do poder e a perseguição à burguesia, era o que se almejava com uma revolução socialista.
    Além do ódio coletivista, há outro ponto que une o Socialismo, o Comunismo, o Nazismo e o Fascismo: o Marxismo. No capítulo 2 do opúsculo “O Manifesto Comunista”, Marx e Engels listam as medidas a serem tomadas pela ditadura do proletariado:
    1. Expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesas do Estado.

    2. Pesado imposto progressivo.

    3. Abolição do direito de herança.

    4. Confiscação da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes.

    5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo.

    6. Centralização do sistema de transportes nas mãos do Estado.

    7. Multiplicação das fábricas nacionais, dos instrumentos de produção, arroteamento e melhoramento dos terrenos de acordo com um plano comunitário.

    8. Obrigatoriedade do trabalho para todos, instituição de exércitos industriais, em especial para a agricultura.

    9. Unificação da exploração da agricultura e da indústria, atuação com vista à eliminação gradual da diferença entre cidade e campo.

    10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas na sua forma hodierna. Unificação da educação com a produção material, etc.

    Comparemos essas medidas com o Programa do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, de 24 de fevereiro de 1920:

    1. Nós exigimos a união de todos os alemães numa Grande Alemanha com base no princípio da auto-determinação de todos os povos.
    2. Nós exigimos que o povo alemão tenha direitos iguais àqueles de outras nações; e que os Tratados de Paz de Versalhes e St. Germain sejam abolidas.

    3. Nós exigimos terra e território (colônias) para a manutenção do nosso povo e o assentamento de nossa população excedente.

    4. Somente aqueles que são nossos compatriotas podem se tornar cidadãos. Somente aqueles que têm sangue alemão, independente do credo, podem ser nossos compatriotas. Por esta razão, nenhum judeu pode ser um compatriota.

    5. Aqueles que não são cidadãos devem viver na Alemanha como estrangeiros e devem estar sujeitos à lei de estrangeiros.

    6. O direito de escolher o governo e determinar as leis do Estado pertencerá somente aos cidadãos. Nós portanto exigimos que nenhuma repartição pública, de qualquer natureza, seja no governo central, na província, ou na municipalidade, seja ocupada por qualquer um que não seja um cidadão.

    Nós combatemos a administração parlamentar corrupta pela qual homens são indicados para vagas por favor do partido, não importando caráter e aptidão.

    7. Nós exigimos que o Estado especialmente se encarregará de garantir que todos os cidadãos tenham a possibilidade de viver decentemente e recebam um sustento. Se não puder ser possível alimentar toda a população, então os estrangeiros (não-cidadãos) devem ser expulsos do Reich.

    8. Qualquer imigração adicional de não-alemães deve ser prevenida. Nós exigimos que todos os não-alemães que entraram no país desde 2 de Agosto de 1914 sejam forçados a deixar o Reich imediatamente.

    9. Todos os cidadãos devem possuir iguais direitos e deveres.

    10. O primeiro dever de todo cidadão deve ser trabalhar mental ou fisicamente. Nenhum indivíduo fará qualquer trabalho que atente contra o interesse da comunidade para o benefício de todos.

    Portanto, nós exigimos:

    11. Que toda renda não merecida, e toda renda que não venha de trabalho, seja abolida.

    12. Como cada guerra impõe sobre o povo sacrifícios em sangue e bens valiosos, todo lucro pessoal proveniente da guerra deve ser tratado como traição ao povo. Nós portanto exigimos o confisco total de todos os lucros de guerra.

    13. Nós exigimos a nacionalização de todos os grupos investidores.

    14. Nós exigimos participação dos lucros em grandes indústrias.

    15. Nós exigimos um aumento generoso em pensões para idade avançada.

    16. Nós exigimos a criação e manutenção de uma classe média sadia, a imediata socialização de grandes depósitos que serão vendidos a baixo custo para pequenos varejistas, e a consideração mais forte deve ser dada para assegurar que pequenos vendedores entreguem os suprimentos necessários ao Estado, às províncias e municipalidades.

    17. Nós exigimos uma reforma agrária de acordo com nossas necessidades nacionais, e a oficialização de uma lei para expropriar os proprietários sem compensação de quaisquer terras necessárias para propósito comum. A abolição de arrendamentos de terra, e a proibição de toda especulação na terra.

    18. Nós exigimos que uma guerra dura seja travada contra aqueles que trabalham para o prejuízo do bem-estar comum. Traidores, usurários, aproveitadores, etc., serão punidos com morte, independente de credo ou raça.

    19. Nós exigimos que a lei romana, que serve a um arranjo materialista do mundo, seja substituída pela lei comum alemã.

    20. A fim de tornar possível para todos os alemães capazes e industriosos obter educação mais elevada, e assim a oportunidade de alcançar posições de liderança, o Estado deve assumir a responsabilidade de organizar completamente todo o sistema cultural do povo. Os currículos de todos os estabelecimentos educacionais serão adaptados para a vida prática. A concepção da idéia do Estado (ciência de cidadania) deve ser ensinada nas escolas desde o início. Nós exigimos que crianças especialmente talentosas de pais pobres, quaisquer que sejam suas classes sociais ou ocupações, sejam educadas às custas do Estado.

    21. O Estado tem o dever de ajudar a elevar o padrão de saúde nacional fornecendo centros de bem-estar maternal, proibindo trabalho infantil, aumentando aptidão física através da introdução de jogos compulsórios e ginástica, e pelo maior encorajamento possível de associações relacionadas com a educação física do jovem.

    22. Nós exigimos a abolição do exército regular e a criação de um exército nacional (popular).

    23. Nós exigimos que haja uma campanha legal contra aqueles que propaguem mentiras políticas deliberadas e disseminem-nas através da imprensa. A fim de tornar possível a criação de uma imprensa alemã, nós exigimos:

    (a) Todos os editores e seus assistentes em jornais publicados na língua alemã deverão ser cidadãos alemães.

    (b) Jornais não-alemães deverão somente ser publicados com a permissão expressa do Estado. Eles não deverão ser publicados na língua alemã.

    (c) Todos os interesses financeiros em, ou de qualquer forma afetando jornais alemães serão proibidos a não-alemães por lei, e nós exigimos que a punição por transgredir esta lei seja a imediata supressão do jornal e a expulsão dos não-alemães do Reich.

    Jornais que transgridam o bem-estar comum serão suprimidos. Nós exigimos ação legal contra aquelas tendências na arte e literatura que tenham influência ruidosa sobre a vida do nosso povo, e que quaisquer organizações que atentem contra as exigências agora mencionadas sejam dissolvidas.

    24. Nós exigimos liberdade para todos os credos religiosos no Estado, à medida que eles não coloquem em risco a existência ou ofendam a moral e senso ético da raça germânica.

    O Partido como tal representa o ponto-de-vista de um cristianismo positivo sem ligar-se a qualquer credo particular. Ele luta contra o espírito judaico materialista internamente e externamente, e está convencido de que uma recuperação duradoura do nosso povo só pode vir de dentro, sob o princípio:

    BEM COMUM ANTES DO BEM INDIVIDUAL

    25. A fim de executar este programa, nós exigimos: a criação de uma autoridade central forte no Estado, a autoridade incondicional pelo parlamento político central de todo o Estado e todas as suas organizações.

    A formação de comitês profissionais e de comitês representando os vários estados do país, para assegurar que as leis promulgadas pela autoridade central sejam executadas pelos estados federais.

    Os líderes do partido assumem a responsabilidade de promover a execução dos pontos agora mencionados a todo custo, se necessário com o sacrifício de suas próprias vidas.

    A evidente relação entre os programas é tão clara quanto água cristalina. Em ambos os programas vemos a obrigatoriedade do trabalho para todos, a expropriação da propriedade privada dos meios de produção e sua transferência para o Estado, a primazia do coletivo sobre o individual, a categorização coletiva de indivíduos, educação pública e gratuita sob a égide do Estado, dentre outras coisas. Os mesmos traços podem ser vistos no documento “Il Manifesto dei Fasci Italiani di Combattimento”, o manifesto fascista. Para além dessa evidência explícita, é necessário dizer que os grandes nomes do nazifascismo – Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Benito Mussolini et caterva – possuíam formação política marxista. O próprio termo Nacional-Socialismo não é, ao contrário do que advoga o Sr. XR, “praticamente uma contradição”, uma vez que o Socialismo não é exclusivamente internacionalista.
    Além das convergências programáticas, há que se apontar para questões de ordem factual. A despeito do suposto caráter exclusivamente internacionalista das ideologias socialista e comunista, a prática mostrou não apenas características nacionalistas, mas também raciais. A partir de 1917, com o êxito da Revolução Bolchevique, o governo revolucionário russo iniciou uma perseguição sistemática contra os cossacos – não por motivos sociais ou políticos, mas por motivos étnicos. Entre 1917 e 1921, cerca de 300 mil cossacos foram mortos pelo governo, e outros 300 mil, deportados (vide Shane O’Rourke, “The Cossacks”). E essa foi apenas uma das medidas de limpeza étnica promovidas pelo governo soviético: sob o comando de Stálin, a URSS perseguiu sistematicamente as populações nativas do Cáucaso (karachays, karapapaks, tártaros, meskhetis, cazaques, inguches, chechenos, etc.), forçando-as a um processo de russialização através de prisões, deportações e execuções – o que foi, aliás, um dos motivos pelos quais boa parte desses povos uniu-se aos alemães quando da invasão nazista à URSS, havendo a formação de milícias regionais que foram integradas às Waffen-SS. O governo soviético também perseguiu colonos estrangeiros em seu território (como os alemães da região do Volga, os gregos da Criméia e os coreanos do extremo-leste russo), bem como povos de territórios invadidos – poloneses, romenos, ucranianos (o Holodomor provocou a morte de 5 milhões de ucranianos no inverno de 1932-1933), letões, lituanos e estonianos (Otto Pohl, “Ethnic Cleansing in the USSR, 1937–1949”). Recomendo a leitura das obras de Richard Pipes, um dos maiores especialistas em história russa do século XX, sobre as políticas raciais do governo soviético.

    • riorevolta 22 de setembro de 2014 às 23:55

      Ola amigo,

      Obrigado pela resposta. Apesar de longa, não me surpreende o teor da crítica. Agradeço pelo menos o tom respeitoso que levanta questões importantes que são pouco entendidas inclusive no interior das esquerdas, costumo deixar sem respostas textos que apesar de ter questões e acusações semelhantes as suas, são carregados de impropérios impublicáveis.

      Enfim, vou tentar ser sucinto na resposta.

      1. Não neguei que o socialismo de Hitler seja, de fato, socialismo. Como eu mesmo apontei em Marx, há uma enorme tradição de socialismos, alguns muito anteriores ao colocado pelo filósofo Karl Marx. Inclusive apontei próprios textos do autor para indicar que ele mesmo reconhece isso, portanto, a construção do marxismo como “único socialismo existe” só pode ser construção a posteriori, tanto dos que o denigrem, como que os defendem. Há a famosa anedota de Marx, ao chegar na França e ver o que os socialistas locais defendendo algumas barbaridades: “Não sou marxista”.

      2. É evidente que qualquer programa que se pretende socialista que venha após o marxismo, após a Comuna de Paris e os inúmeros debates marxistas, vai se alimentar entre várias outras fontes, de colocações do próprio marxismo. É um tanto ad hominem comparar pontos do program de Hitler que estavam no programa dos comunistas quase 100 anos antes. Poderíamos fazer isso com vários países. Hoje as grandes democracias adotam metade dos pontos do Manifesto Comunista, a saber: imposto progressivo (ponto 2, presente em todas as democracias européias, algumas taxando em 55-65% a renda dos mais ricos); transporte público estatal (ponto 6, como em Nova Iorque, Paris dos dias de hoje); fim da diferença de salários/posição social entre escravos, servos e trabalhadores da cidade (ponto 8, inclusive os socialistas em suas várias vertentes foram pioneiros no abolicionismo, Abraham Lincoln foi inclusive leitor de Karl Marx no jornal de seu amigo em Nova Iorque); abolição do trabalho infantil e educação universal e gratuita (ponto 10) e banco central monopolizando o controle da moeda e economia (ponto 5). Aliás, não sei de onde tirou esta tradução, mas há erros em relação ao ingles e as versões que tenho aqui do Manifesto. No ponto 6 está faltando a controversa monopolização pública-estatal dos meios de comunicação (como a BBC foi na tv inglesa por quase todo o século XX e a RAI na Itália). Além disso o ponto 8 no artigo que voce citou está incompleto ou errado mesmo, no original em ingles e alemão é: “equal liability”, isto é, igualdade jurídica entre todos os trabalhadores, portanto, extinção do servo e do escravo onde ele ainda existisse (e em 1848 era em boa parte do mundo “civilizado”).

      Além disso, como cito no texto, os nazistas não copiaram apenas dos marxistas seus pontos, eles se alimentaram de todas as fontes que pudessem atrair pessoas e embora alguns genuinamente acreditassem naquele modelo de socialismo (como me parece Strasser por exemplo), essas fontes eram as mais variadas e historicamente bem populares na Alemanha (recomendo ler Os Alemães de Norbert Elias). Pensões e seguridade social inclusive tiveram de ser demandas sociais atendidas por Bismarck 1870 e seus sucessores no governo alemão para evitar um caos maior ainda. Eles não eram marxistas, mas faziam parte da tradição socialista-feudal que o próprio Marx cita também no seu citado Panfleto. A estatização já era uma realidade antes mesmo do Manifesto Comunista… ora, até hoje todas as terras na Inglaterra pertencem em ultima instancia jurídica, a Rainha ELizabeth!! Fourier e Owen, pejorativamente taxados de “utopicos” pelo proprio Marx, ja vinham de uma tradição socialista assistencialista muito anterior. O socialismo cristão, conciliador de classes, portanto fortemente anti-marxista, já teve o seu documento chave publicado em 1898, na Inciclica Rerum Novarum, onde os fascistas italianos se inspiraram claramente para a sua concepção de justiça social e economica. O que me parece, infelizmente, o seu argumento tenta novamente atribuir ao marxismo a invenção e dominação exclusiva do que é socialismo, como se antes dele ou mesmo depois dele, tudo que envolvesse socialismo, fosse obrigatoriamente marxista.

      3. Quanto as mortes atribuídas ao socialismo me parece haver uma série de problemas nas suas colocações. O clássico argumento do Holodromor parece esquecer que Russia e suas periferias sempre foram conflituosas, parece esquecer que a fome generalizada tambem afetou os próprios russos “bolcheviques”, parece esquecer a cretina combinação de imperialismo russo, guerra civil entre campo e cidade e sim, de fato uma política economica que se provou desastrosa. Esquece todo o contexto em que ocorre, para culpá-la exclusivamente ao socialismo. Como se os czares anteriores nunca tivessem feito expurgos, pogrons e massacres camponeses durante períodos de guerra, foi claro – uma invenção socialista. Sem contar que os próprios dados sobre o caso são altamente controversos e embora eu acredite que tenha sido feito de propósito por Stalin, até hoje não se encontrou qualquer documento cabal indicando que a fome foi feita de propósito. O Holodromor não foi muito diferente da Fome da Batata na Irlanda, propositadamente exagerada e “negligenciada” pela Rainha Vitória, mas essa não figura entre assassinos do naipe de Stalin, como deveria. Atribuir a Marx as mortes do Holodromor seria como atribuir o Holocausto a Herbert Spencer e Nietzche, é altamente leviano e academicamente risível. O spencerismo inclusive influenciou “gente boa” liberal como Murray Rothbar entre tantos outros darwinistas sociais daquela época (como Hitler). Além disso, não apontar o que o marxismo-leninismo (termo inventado por Stalin em 1930 e propagado pelas cartilhas comunistas pelo mundo) fez com o próprio conceito socialista, é como estudar liberalismo sem ler tudo que foi escrito de importante no tema por todo século XIX e XX. Francamente, não é sério.

      4. E sim, assim como Adam Smith, conselheiro público (estatal), os fascistas também estava pensando no bem comum acima do bem individual ao pensar em suas teorias. Isso é um crime grave mesmo? O fascismo de fato foi um movimento de massa e que muito se inspirou no que os socialistas vinham fazendo e ora, era de fato socialista, e acho que apontei isso no texto sem meias palavras. Repito, Marx não inventou o socialismo, tampouco este se encerra apenas dentro do socialismo. Negar isso é negar o óbvio, nos olhos de alguns anti-comunistas de hoje, Adam Smith é um cripto-comunista e Bismarck um populista socialista, quase um Chavista do século XIX. Os fascistas, que crime, ao ver os inúmeros problemas vis que o capitalismo gerava em seus países, tentavam pensar em uma solução para o mundo: maior espírito comunitário, mais pensamento coletivo e menos individualismo e materialismo… que crime terrível, eram Hippies em plena década de 20… Tenho profunda rejeição aos fascistas, mas o crime deles não foi “pensar no coletivo acima do individual”, certamente não foi. Procure ler sobre a Lei de Jante, tradicional “espírito” socialista escandinávo e entenda porque aquela região sempre figura entre as mais desenvolvidas do mundo; leia sobre os Wandervogel alemães e suas comunidades hippies em 1900-1920, muitos foram parar nas fileiras dos nazistas. As coisas são muito mais complexas do que o que os manuais anti-comunistas ensinam.

      Enfim, espero ter respondido as questões. E cansa ter que responder sempre os mesmos questionamentos, sempre as mesmas coisas. Espero que tenha contribuído. Há muito no tema ainda a se discutir.

      Atenciosamente,

      Leandro Dias

  3. clcipanema@yahoo.com.br 18 de março de 2015 às 11:10

    Única moeda – moeda? – Única Moeda no Mundo e justamente que só aparece aqui nos liberecos brasileiros, logo, os nazistas são na verdade os que se classificam como liberais, pois esta moeda jamais exitiu em tempo algum nazista e não é encontrado em lugar algum a não ser na forma fake.

    NAzismofoi , é e sempre será de Extrema direita. Todos os fundamentos do nazism o são de direita e inversos ao comunismo igualitário, sem empresa privada e religião. Nazismo era separação de classes com individualismo e Hitler defendeu a Aristocracia em seu livro. O Nazismo foi financiado pelas empresas privdas Bayer, Basf, AGFA, Porsche, Siemens, Hugo Boss, Hoestch e tpdos, todos os magnatas alemães da siderurgia e metalurgia. Fora os financiamentos do exterior como Ford, IBM, GE e ate o Banco do patriarca da família Busch.
    Até na questão religiosa eram diferentes com o Comunismo adoatnaod o Estado ATEU, perseguidno religiões e explodindo a Catedral Cristã Ortodoxa russa – enquanto isto o NAzismo criavaa Igreja Alemã Protestante liderada pela Igreja Luterana e comandada por Ludwing Muller.

    NAZISMO é de EXTREMA DIREITA. Um regime Fascista como foi o Italiano e Espanhol que a Alemanha lutou junto.

  4. Vedita 20 de março de 2015 às 12:53

    você é um socialista?

    • riorevolta 21 de agosto de 2015 às 18:18

      Se pudesse resumir em uma simples expressão: sou Socialista cooperativista, mas antes de tudo um realista. Acredito em soluções que já funcionaram e funcionam: Estado de Bem Estar social estilo Noruega, baseado em impostos progressivos e redistributivos estilo Holanda, Suécia ou Finlandia. Somados a um cooperativismo privado para médias e grandes empresas (estilo Mondragon por exemplo) somado a pequena propriedade (especialmente a familiar) em qualquer área. Caminhando ao lado de uma democracia consultiva e plebiscitária como em alguns cantões da Suiça, mas especialmetne como a Islandia mostrou recentemente ser possível redesenhar e referendar toda uma constituição nacional. Não há soluções de manual, o que não pode é reinar a utopia irrealista da fé do mercado ou da fé bolchevique. A estupidez da praxeologia ou dos manuais marxistas-leninistas (termo inventado por Stalin) é tudo que não precisamos.

      Grato. Leandro.

  5. tulio 17 de agosto de 2015 às 23:09

    Gostei da resposta que você deu ao Alcleir, existe um ponto que concordo no tocante a atribuir a Marx os milhões que morreram em regimes comunistas, seria como atribuir a Mikhail Kalashnikov as mortes geradas por disparos da arma que ele criou para defender seu país, obviamente nenhum dos dois tem culpa direta.
    Por outro lado acho que de forma geral a tréplica foi fraca, principalmente na tentativa de justificar o extermínio de milhões com os atos execráveis de outros governantes, cada governo é responsável pelas atrocidades que comete, bem como na tentativa de minimizar os crimes de Josef Stalin declarando que o assunto é controverso ou que não se encontrou provas claras do grande expurgo, das depurações e deportações, se ele tentou esconder algo é por que tinha culpa além do mais os arquivos foram abertos em 1991.
    Ao tentar argumentar que no fundo as intenções do fascismo, inspiradas no socialismo, eram boas, usando da tática da equivalência moral, você faz parecer que Mussolini matou tanto quanto um Mao Tse Tung, ambos são parias, mas cada um é responsável por seus crimes.
    Vamos focar nos fatos, nas consequências nefastas dos regimes totalitários e não nas intenções de seus ideólogos e líderes. De boas intenções o inferno está cheio
    Pra finalizar deixo um artigo de autoria do Walter Williams, publicado na terça-feira, 11 de agosto de 2015 no site do instituto Ludvig Von Mises Brasil, segue o link : http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2162
    Na Europa, especialmente na Alemanha, ostentar uma suástica é um crime. Ao longo de décadas após a Segunda Guerra Mundial, pessoas têm caçado e punido os assassinos nazistas, que foram responsáveis pela chacina de cerca de 20 milhões de pessoas.
    Eis uma pergunta: por que os horrores do nazismo são tão bem conhecidos e amplamente condenados, mas não os horrores do socialismo e do comunismo? Por que se ignora — ou ainda pior: por que se esconde — que as ideias socialistas e comunistas não apenas geraram uma carnificina muito maior, como ainda representaram o que houve de pior na história da humanidade?

    Você pode dizer: “Williams, de que diabos você está falando? Socialistas, comunistas e os seus simpatizantes são uma moçada bacana, que apenas luta para que os mais pobres tenham um tratamento justo. Eles querem promover a justiça social!”.

    Então vamos dar uma rápida olhada na história do socialismo e do comunismo.

    Em primeiro lugar, o nazismo é, por definição, uma versão do socialismo. Na verdade, o termo “Nazista” é uma abreviatura para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

    [N. do E.: em sua política econômica, os nazistas praticaram controle de preços, controle de salários e arregimentaram toda a produção nacional, voltando-a para o setor militar. Nesse sociedade totalmente arregimentada, todos viviam em função de obedecer às ordens do Führer.

    A propriedade dos meios de produção continuou em mãos privadas, mas era o governo quem decidia o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem tais produtos seriam distribuídos, bem como quais preços seriam cobrados, quais salários seriam pagos, e quais dividendos ou outras rendas seriam permitidos ao proprietário privado nominal receber.

    É por isso que há o socialismo de estilo soviético (bolchevista) e o socialismo de estilo alemão (nazista). Fixar preços é uma forma de ataque à propriedade privada, pois retira dos produtores as opções que eles teriam no livre mercado para aplicar seus recursos. Fixação de preços é um decreto estatal que, na prática, proíbe os proprietários de investirem seus recursos onde bem quiserem.]

    Mas os atos inomináveis de Adolf Hitler empalidecem em comparação com os horrores cometidos pelos comunistas na antiga URSS, na República Popular da China e no Camboja, apenas para ficar entre os principais.

    Entre 1917 e 1987, Vladimir Lênin, Josef Stalin e seus sucessores assassinaram 62 milhões de pessoas do seu próprio povo. O ponto de partida foi a Ucrânia.

    [N. do E.: normalmente é dito que o número de ucranianos mortos na fome de 1932-33 foi de cinco milhões. De acordo com o historiador Robert Conquest, se acrescentarmos outras catástrofes ocorridas com camponeses entre 1930 e 1937, incluindo-se aí um enorme número de deportações de supostos “kulaks”, o grande total é elevado para entorpecentes 14,5 milhões de mortes.]

    Já entre 1949 e 1987, o comunismo da China, liderado por Mao Tsé-Tung e seus sucessores, assassinou ou de alguma maneira foi o responsável pela morte de 76 milhões de chineses.
    [N. do E.: há historiadores que dizem que o número total pode ser de 100 milhões ou mais. Somente durante o Grande Salto para Frente, de 1959 a 1961, o número de mortos varia entre 20 milhões e 75 milhões. No período anterior foi de 20 milhões. No período posterior, dezenas de milhões a mais.]

    No Camboja, o Khmer Vermelho, comandado por Pol Pot, exterminou aproximadamente 3 milhões de cambojanos, em uma população de 8 milhões.

    No total, os regimes marxistas assassinaram aproximadamente 110 milhões de pessoas de 1917 a 1987. Destes, quase 55 milhões de pessoas morreram em vários surtos de inanição e epidemias provocadas por marxistas — dentre estas, mais de 10 milhões foram intencionalmente esfaimadas até a morte, e o resto morreu como consequência não-premeditada da coletivização e das políticas agrícolas marxistas.

    Para se ter uma perspectiva deste número de vidas humanas exterminadas, vale observar que todas as guerras domésticas e estrangeiras durante o século XX mataram aproximadamente 85 milhões de civis. Ou seja, quando marxistas controlam estados, o marxismo é mais letal do que todas as guerras do século XX combinadas, inclusive a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e as Guerras da Coréia e do Vietnã.

    O regime mais autoritário e mais assassino da história está documentado no website do professor Rudolph J. Rummel, da Universidade do Havaí, no endereço http://www.hawaii.edu/powerkills, e no seu livro Death By Government.

    Estudiosos da área de homicídio em massa dizem que a maioria de nós não é capaz de imaginar 100 mortos ou 1000. E acima disso, tudo vira apenas estatística: os números passam a não ter qualquer sentido conceitual para nós, e a coisa se torna um simples jogo numérico que nos desvia do horror em si.

    Quantos desses assassinos comunistas foram caçados e punidos? Ao contrário, tornou-se aceitável em todos os países do mundo (exceto na Polônia, na Geórgia, na Hungria, na Letônia, na Lituânia, na Moldávia e na Ucrânia) marchar sob a bandeira vermelha da ex-URSS, estampada com a foice e o martelo.

    Mao Tse-Tung é amplamente admirado por acadêmicos e esquerdistas de vários países, os quais cantam louvores a Mao enquanto leem seu livrinho vermelho, “Citações do Presidente Mao Tse-Tung”.

    [N. do E.: no Brasil, o PCdoB, partido da base do atual governo, é assumidamente maoísta].

    Seja na comunidade acadêmica, na elite midiática, na elite cultural e artística, em militantes de partidos políticos, em agremiações estudantis, em movimentos ambientalistas etc., o fato é que há uma grande tolerância para com as ideias socialistas — um sistema (de governo) que causou mais mortes e miséria humana do que todos os outros sistemas combinados.

    Os esquerdistas, progressistas e socialistas de hoje se arrepiam com a simples sugestão de que sua agenda pouco difere da dos maníacos nazistas, soviéticos e maoístas. Não é necessário defender campos de concentração ou conquistas territoriais para ser um tirano. O único requisito necessário é acreditar na primazia do estado sobre os direitos individuais.

    Os inenarráveis horrores do nazismo, do stalinismo e do maoísmo não foram originalmente criados nas décadas de 1930 e 1940 pelos homens associados a tais rótulos. Aqueles horrores foram simplesmente o resultado final de uma longa evolução de ideias que levaram à consolidação do poder nas mãos de um governo central, e tudo em nome da “justiça social”. Foram alemães decentes, porém mal informados — e os quais teriam tido espasmos de horror à simples ideia de extermínio e genocídio —, que construíram o Cavalo de Tróia que levou Hitler ao poder.

    A estrada que estamos trilhando, em nome do bem comum, é muito familiar. Se você não acredita, pergunte a si mesmo: qual o caminho que estamos trilhando: para uma maior liberdade ou para um maior controle governamental sobre nossas vidas?

    Talvez pensemos que somos seres humanos melhores do que os alemães que criaram as condições que levaram Hitler ao poder. Quanto a isso, digo apenas o seguinte: não contem com isso.

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