Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Eike Batista e Visconde de Mauá: burgueses e burgueses

Eike Batista Bilionário na Veja.

Eike Batista Bilionário na Veja.

A quebra de Eike Batista, finalmente, chegou.

Fato óbvio e incontornável, a falência de OGX e OSX, as duas principais empresas de seu conglomerado, será oficializada na Justiça em questão de poucas semanas, ou mesmo dias.

Partindo das informações privilegiadas recebidas do pai, Eliezer Batista, presidente da Vale do Rio Doce nos governos Goulart e Figueiredo, Eike foi considerado pela mídia especializada, há apenas dois anos atrás, o sétimo homem mais rico do mundo, momento no qual sua fortuna foi calculada, no auge, em pouco mais de US$ 34,5 bilhões1.

Naquele momento, Eike detinha estoque de riqueza superior ao PIB de mais de 100 nações, ou mais da metade dos países do planeta.

Ou, ainda, se tomarmos uma cotação aproximada de um dólar valendo dois reais, uma riqueza superior à produção, em 2012, de 14 dos 27 estados brasileiros.

Nas revistas daqui, é claro, Eike foi representado, como o empresário-símbolo do capitalismo brasileiro, pois afinal de contas, segundo as mesmas, “enriquecer é glorioso”.

Orgulhosamente anunciaram que nascia “o mais novo bilionário brasileiro”, como se isso fosse sinal do nosso sucesso enquanto sociedade e nação.

Por conta e obra dessa mídia foi criado um ídolo com pretensões a ser verdadeiro herói nacional, tal qual há tempos no Brasil se deseja fazer crer dos empresários.

Heróis nacionais que “trabalham muito e competem honestamente”, geram empregos, renda; que produzem e nos abastecem.

Só “esqueceram” de dizer: “correm riscos” – com dinheiro público.

Lula e Eike

Com efeito, fato significativo foi que não era só a mídia a interessada em criar esse super-herói empresário, mas também ninguém menos que o então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.

Pois também Lula, cujo governo talvez tenha feito mais para consolidar e legitimar o capitalismo no Brasil do que qualquer outro em nossa história, desejava a construção de alguma figura pública representativa desse capitalismo brasileiro em rápida expansão que era, na segunda metade dos anos 2000, sucesso de crítica aqui e no exterior.

Não por acaso, tal qual fariam outros governos ainda mais conservadores, em seu governo, dito por muitos socialista, o BNDES concedeu seguidos empréstimos às empresas de Eike, cujo valor monta, segundo a própria instituição, à módica soma de 6 bilhões de reais2.

E como é típico das práticas neocorporativistas, esse festival de expansão de interesses privados financiado pelo dinheiro público foi representado pelo discurso oficial governista e pela sua militância como a defesa dos empregos da classe trabalhadora brasileira.

Talvez por força da relação entre o crescimento exponencial dos negócios de Eike e o dinheiro público que a ele foi fartamente concedido pelos governos petistas, agora que a casa caiu, temos agora que presenciar o discurso bizarro de certos militantes do referido partido que hoje atribuem a derrocada do “pobre Eike” a um “violento ataque especulativo”.

Esses “analistas”, ou talvez possamos chamá-los mais apropriadamente de torcedores de partidos políticos, mostram-se incapazes de perceber o óbvio: Eike não está sendo vítima de ataque especulativo algum – ele próprio era o ataque especulativo.

A não ser que se queira acreditar que é um fato normal e corriqueiro do capitalismo o salto da riqueza de Eike de pouco mais de sete para para US$ 27,7 bilhões em menos de um ano3.

Pois bem, nesta semana, o “ataque especulativo” reduziu o estoque de riqueza do injustiçado empreendedor para “irrisórios” US$ 73,7 milhões4, uma avassaladora perda de mais de 99% de “sua” riqueza em apenas um ano.

Eike Batista Glorioso

Eike Batista Glorioso

A “perda” da riqueza que nunca existiu

A explicação desses fatos é evidente: a “riqueza” perdida por Eike nunca realmente existiu.

O que vitimou Eike não foi ataque especulativo algum, mas sim, a ambição desmesurada que o caracteriza, por alguns louvada como exemplo do “espírito animal do empresariado”.

Tal qual a confiança exacerbada que Eike tem em si mesmo e que nunca fez nenhuma questão de esconder, demonstrada nas suas reiteradas afirmações, no auge do seu “sucesso”, que se tornaria, brevemente, o homem mais rico do mundo.

É significativo que Eike, louvado como o símbolo máximo do empreendedorismo brasileiro, tenha cometido erros da mais absoluta trivialidade que qualquer aluno de princípios de graduação em administração de empresas ou economia já seria capaz de apontar, tais como:

  1. Diversificou excessivamente seus negócios, perdendo foco;

  2. Expandiu seus negócios de forma temerariamente acelerada, criando uma multiplicidade de novos empreendimentos embora não tivesse praticamente nenhum negócio já consolidado;

  3. Criou empresas cujo único objetivo era fornecer produtos e serviços para outras empresas dele próprio, como o caso da OSX, estaleiro criado para servir à OGX.

Com poucos negócios de fato – concentrados na mineração e geração de energia elétrica – a estratosférica “riqueza” de Eike era bursátil, inflada pela confiança que nele depositavam os principais agentes dos chamados “mercados financeiros”.

Mercados onde circulam, praticamente sem amarras, monumentais volumes de capitais absolutamente incompatíveis e desconectados das relações produtivas da chamada economia real.

Portanto, a “riqueza” acumulada, e hoje perdida, por Eike foi muito menos obra de seu “empreendedorismo” do que da eficácia das suas relações públicas.

Visconde de Mauá: de fato, um burguês

Vale lembrarmos, a título de comparação com a quebra relâmpago e espetacular de Eike, a história do Visconde de Mauá, ainda no século XIX, de repercussões muito mais significativas para a história do Brasil.

Isso porque, ao contrário de Eike Batista, Mauá demonstrou ser um burguês de fato, e a isso foi forçado pelas condições dadas por seu meio ambiente.

Não havia, no Brasil da época de Mauá, praticamente coisa alguma que remetesse a uma sociedade capitalista moderna, coisa que de fato não éramos e nem poderíamos ser, a começar pela existência aqui de uma das mais espúrias das práticas: a escravidão.

Fundamentado naquela instituição, o país resumia-se a ser agrário-exportador5, e suas elites dirigentes, a começar pelos imperadores, desejavam que tudo continuasse como estava.

Para isso contribuía, também, a crença das principais cabeças pensantes brasileiras nos ideais liberais de livre-comércio internacional, num momento em que aqueles desfrutavam de ampla hegemonia.

Acreditavam aqueles homens que, de acordo com aqueles princípios, o Brasil deveria se especializar no que fazia de melhor, ou seja, vender ao exterior produtos primários e dele obter os produtos industrializados que não era capaz de produzir.

Como se não bastasse, o Brasil, ainda na condição de colônia portuguesa, foi forçado, por obra de tratado celebrado pelo rei português D. João VI com a Inglaterra, a abrir mão de praticamente todas as barreiras alfandegárias sobre as manufaturas inglesas, medidas de efeito devastador para a incipiente manufatura nacional.

Por todas essas razões, a indústria virtualmente inexistia no Brasil, até porque na existência da escravidão a introdução do chamado “trabalho livre”, assalariado – condição necessária para o surgimento de mercados consumidores para produtos industriais – era muito lenta e esporádica.

Inexistia também qualquer coisa semelhante a uma rede de meios de transporte no Brasil, cujo comércio entre as distantes regiões era realizado através de precária navegação de cabotagem e “estradas” sobrepostas, em geral, às antigas trilhas indígenas.

Um cenário, sem dúvidas, absolutamente desfavorável à industrialização e ao chamado “empreendedorismo” de eventuais capitalistas, sob quaisquer aspectos que se queira considerar: infra-estrutural, institucional e cultural.

Mauá, porém, fascinado com o que vira em visita à Inglaterra antes mesmo de ter trinta anos de idade, decidiu-se a reunir, como fosse possível, todos os meios técnicos e financeiros para empreender ampla diversidade de atividades produtivas.

E na sua indisponibilidade, criá-los.

Sendo muito ampla e significativa a lista de empresas e ramos nos quais atuou, citaremos aqui os seus empreendimentos que consideramos mais relevantes: o estaleiro naval Mauá, em Niterói, também uma fábrica de ferramentas, instrumentos de metal e máquinas; redes de iluminação pública e bondes urbanos no Rio de Janeiro; cabo telegráfico ligando o Brasil à Europa e aos Estados Unidos; ferrovias diversas, em todas as regiões do Brasil, exceto o Norte; Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas; e o Banco Mauá, que reunia as funções de banco comercial e de fomento de seus próprios negócios, tendo chegado a ser um dos maiores bancos do mundo.

Em muitos desses negócios, na virtual inexistência de outros burgueses no Brasil, Mauá teve como sócios capitais estrangeiros, majoritariamente ingleses.

E foi principalmente por uma fraude praticada por um grupo de engenheiros e contadores ingleses por ele contratados para construir uma ferrovia na província de São Paulo que Mauá, desprotegido pela Justiça brasileira, viu-se obrigado a arcar com dívidas gigantescas denominadas em libras esterlinas que resultaram na sua falência.

Ruiu então o império de Mauá, muito embora ele tenha, apesar disso, acumulado riqueza suficiente para viver seus últimos anos em condições confortáveis.

Vale lembrarmos, ainda, a elaboração da economia política de Mauá que, embora se reconhecesse como um liberal, clamou, em seu O Meio Circulante do Brasil, pela expansão dos meios de pagamento como forma de promover o desenvolvimento industrial no Brasil.

Questionou, portanto, a validade universal das teses liberais, propondo sua adaptação às condições brasileiras.

Estado e burgueses

Na inexistência do Estado empresário, ou garantidor dos empresários que fosse, teve o próprio Mauá, basicamente, que desempenhar as funções de um.

Mais do que isso, seguidas vezes sabotado por ações governamentais contraditórias e repentinas, Mauá não pôde, absolutamente, contar com qualquer tipo de apoio governamental, até por se tratar de governos que não queriam a industrialização do Brasil.

Foi, assim, presa fácil para o imperialismo inglês, e seu fracasso, apesar do surto de industrialização provocado por seus negócios6, significou, sem dúvidas, décadas de atraso no desenvolvimento industrial do Brasil.

Esse tema, interessantíssimo, é demasiado abrangente e complexo para ser tratado aqui, e por isso, nos limitaremos a indicar aos eventuais interessados alguma literatura pertinente7.

E concluímos dizendo que, ao contrário – muito ao contrário – de Mauá, Eike Batista teve tudo a seu favor, inclusive e principalmente o Estado.

Ser “herói empreendedor” tendo o Estado como sócio, “correr riscos” com cobertura de dinheiro público, tudo isso é muito fácil.

E mesmo assim, terminou quebrado.

Por estranho que possa parecer, em pleno 2013, no Brasil, não se fazem mais burgueses dignos desse nome como antigamente.

Daniel Kosinski

 5 Embora existissem atividades manufatureiras esparsas em algumas províncias como Minas Gerais, São Paulo e Bahia, além da capital. Já existia também, fundada em 1828 no Rio de Janeiro, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, a primeira entidade criada para pensar o desenvolvimento da indústria que se tem notícia no Brasil. A este respeito, ver: LIMA, H.F., 3 Industriais Brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Simonsen; e também SIMONSEN, R., Evolução Industrial do Brasil e outros ensaios.

 6 Prado Jr. apud Lima, H.F., já citado.

 7 Além dos livros já citados, vale conferir As Raízes do Pensamento Industrial Brasileiro, editado pela FIESP; e a Exposição de Motivos aos Credores, do próprio Mauá.

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