Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: fevereiro 2013

A Renúncia de Bento XVI e a Estratégia para o Futuro da Igreja

O papa e os esqueletos no armário

Neste breve texto, vamos tratar da Igreja Católica como um fenômeno com duas faces. Há, de um lado, uma doutrina religiosa, ou para usarmos um termo que preferimos, uma ideologia. De outro, existe um corpo político, uma instituição que zela pelos interesses da fé católica ou, para sermos mais francos, de suas elites dirigentes.

Nosso foco de interesse cairá sobre esse corpo político, no fundo, uma espécie de Monarquia – embora, por questões doutrinárias, despojada de uma de suas principais características, qual seja, a sucessão por laços sanguíneos – da qual o Papa, infalível, vem a ser o Rei.

Portanto, não discutiremos nesse artigo aspectos de doutrina religiosa, mas sim, seus aspectos políticos, ou melhor dizendo, a Igreja Católica enquanto corpo político.

Já de longa data vem sendo notório e evidente o declínio da influência da Igreja Católica em todo o mundo, particularmente naquelas regiões em que conheceu sua maior hegemonia.

Na Europa Ocidental, berço de seu poder político e militar, a prosperidade material alcançada por seus povos levou, progressivamente, ao esvaziamento da religiosidade. Isso porque, em regra, quem tem dinheiro não precisa de Deus.

Muito pelo contrário, para aqueles que dispõem do dinheiro, crer em Deus atrapalha, pois impõe limites morais em como usá-lo. Embora Max Weber tenha mesmo dito o contrário (1).

Vamos lembrar que a Igreja Católica condenou por muito tempo a usura – embora a praticasse. E que as doutrinas liberais não pretendiam apenas libertar os donos do dinheiro do controle pelos reis, mas também, dos papas e de Deus.

Já na América Latina, colonizada pelos mais católicos e inquisidores dos reis espanhóis e portugueses, é a emergência do evangelismo neopentecostal que vem esvaziando o Catolicismo, embora este ainda permaneça sendo, por aqui, a religião mais popular.

De fato, há uma crise de longa data na Igreja Católica, e a explicação não parece muito difícil de encontrar. Pelo menos desde o pós-Segunda Guerra Mundial, há um mundo ocidental que vem sendo cada vez mais liberalizado, e a Igreja Católica se recusa a aceitar esse fato.

Cresce desde então a liberalização nos costumes, principalmente sexuais.

Não parece mais compatível com o curso dos fatos históricos no Ocidente a cruzada levada a cabo pela Igreja Católica contra fatos sociais como o casamento (civil) entre pessoas do mesmo sexo, as relações sexuais antes do casamento, o uso de contraceptivos e, em última instância, a legalização do aborto.

Fatos que, queira a Igreja ou não, tudo nos leva a crer, serão cada vez mais comuns e socialmente aceitos.

A Igreja pode continuar se posicionando contra todos esses fatos, é claro. Mas ela se verá, cada vez mais, condenando fatos que seus fiéis praticam. Tal qual a resistência da Igreja, décadas atrás, a aceitar a idéia da solubilidade dos matrimônios. Divórcios hoje são plenamente aceitos pela sociedade, e absolutamente comuns – caminham, mesmo, para serem a regra, e não a exceção.

Todavia, a Igreja vem se comportando, nos últimos dois papados – o de João Paulo II e o de Bento XVI, que acaba de se encerrar – como se ainda tivesse a hegemonia ideológica sobre governos e indivíduos, tal qual na Idade Média. Se comporta como se estivesse ao seu alcance frear o movimento de liberalização ou mesmo revertê-lo, trazendo “mentes e corações” de volta aos seus ideais, ao seu estilo de vida.

Acontece que tal poder, explicitamente, não lhe pertence mais, mas sim, está nas mãos da mais onipresente e multifacetada das instituições modernas – por sinal, uma que é laica e completamente materialista: o capital.
A Igreja deveria, enquanto corpo político, buscar meios de compatibilizar essa enxurrada moderna de valores liberais com seus princípios doutrinários. Em caso de fracasso, crescerá ainda mais a alienação da Igreja Católica em relação ao mundo objetivamente existente ao seu redor.

O que ela pensa e prega – mas não necessariamente pratica – vai se afastar cada vez mais da vida real, cotidiana de seus fieis (ou de seus potenciais fiéis), tornando irreversível seu declínio enquanto corpo político. Isso não significa, é claro, uma liberalização repentina, radical. Mas uma indicação de flexibilidade, um processo paulatino, algum tipo de concessão.

Nesse contexto, um Papa europeu não traria nada de novo, num continente em que o declínio da religiosidade, seja de qual filiação for, parece, na atual conjuntura, um fato irreversível. Muito embora nada indique que a Europa Ocidental vá deixar de ser o centro político da Igreja.

Um Papa africano parece pouco provável, e a África não é, por certo, um continente onde o Catolicismo seja muito difundido ou onde possa se expandir, haja vista sua instabilidade política, a pobreza, a presença também marcante do Islamismo, pelo menos em sua metade norte, e a convivência, em quase todos os cantos, com as religiosidades animistas nativas do continente.

Na Ásia o Catolicismo é, exceção feita às Filipinas, esmagadoramente minoritário em todos os países, e mesmo praticamente ou de todo inexistente em muitos deles.

Sem dúvidas é na América Latina que o Catolicismo, apesar de tudo, demonstra sua maior vitalidade, sendo praticamente universalizado, apesar do avanço do protestantismo neopentecostal, conforme já citamos. Um avanço que vem sendo especialmente marcado no Brasil, o maior país católico do mundo, desde a década de 70.

Contraditoriamente, se no nosso diagnóstico foi a inflexibilidade da Igreja Católica em se liberalizar junto com o mundo ocidental, foi justamente no Brasil que a Igreja Católica apresentou uma de suas vertentes mais progressistas, que veio a ser a Teologia da Libertação. E não foi por acaso que essa interpretação foi duramente combatida pelo então Papa João Paulo II e pelo então cardeal Joseph Ratzinger, desde 1981 na qualidade de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, principal responsável por zelar pela doutrina da Igreja Católica. Em suma, do ponto de vista dos seus interesses estratégicos, muito bem faria à Igreja eleger um Papa latino-americano – ou talvez um norte-americano de origem latina – de tendências liberais, progressistas.

Um Papa popular, mais permeável ao liberalismo dos tempos modernos.
E que pusesse a Igreja em marcha, uma marcha lenta que fosse, em direção a essa contemporaneidade.

Daniel K.

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