Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

A previsível reeleição de Barack Obama

Obituário Tea Party

“Obituário da América” que Tea Party proclamou após a derrota.

Nas eleições recentes, dia 6.11.2012, os eleitores norte-americanos reelegeram Barack Obama como presidente daquele país, para mais quatro anos de mandato. Para nós do Rio Revolta, o resultado não causa a menor surpresa.

Vejamos porque.

O governo Obama

O fator crucial para este resultado não foi a relativamente baixa aprovação da administração Obama (1), que em seu primeiro mandado foi, para dizer o mínimo, decepcionante. A economia norte-americana continuou por todo o período em estado letárgico, embora em lenta recuperação. Por sua vez, o desemprego (oficial), embora com tendência declinante (2), permanece elevado – 7,9% da força de trabalho em outubro de 2012. Dito dessa forma, parece pouco. Mas percentuais são números, e não pessoas, e o número delas que se encontra atualmente sem emprego nos EUA é de 12,3 milhões.

Tudo isso, em boa parte, porque os Estados Unidos não se permitem criar um banco estatal de desenvolvimento, como o BNDES brasileiro.

Para os americanos, bancos estatais, mesmo os que só financiam os negócios burgueses, caracterizam socialismo.
O máximo que a histeria ideológica dos americanos pelo que chamam (embora não pratiquem) de livre-mercado lhes permitiu conceber contra a crise financeira foram pacotes trilionários de resgate para setores considerados absolutamente essenciais à sobrevivência de seu capitalismo, como os bancos e a indústria automobilística.
Em resumo, transferiram uma montanha incalculável de dinheiro para as mãos dos mesmos banqueiros que emprestaram e especularam tão ostensivamente, e de forma tão temerária, que criaram uma bolha de endividamento cujo estouro levou o sistema ao colapso.

Colapso que só não se concretizou, de fato, devido à intervenção estatal nos chamados mercados.

Os governos Bush e Obama também salvaram suas indústrias automobilísticas nacionais como a GM, Ford e Chrysler, embora elas tenham se tornado muito menos eficientes que as indústrias japonesas – Toyota e Honda -, que já dominam boa parte do mercado consumidor do país (3).

Fossem seguir à risca o livre-mercado que pregam, os norte-americanos teriam deixado suas fábricas nacionais morrerem. Afinal, é natural do pleno funcionamento do livre-mercado a eliminação dos menos eficientes…

Em suma, os pacotões trilionários foram uma criação de Bush endossada por Obama, verdadeiro prêmio à eficiência de seus banqueiros e industriais, no melhor estilo da meritocracia americana. Tudo para garantir que a ciranda financeira prossiga normalmente. A única coisa de maior interesse que Obama criou em seu 1° mandato foi, incontestavelmente, o Patient Protection and Affordable Care Act – também conhecido como Obamacare (4).

Trata-se de um sistema público de cobertura médica para boa parte da população do país que, até então, não possuía recursos para ter acesso aos serviços de assistência médica privados. Um número estimado em 50 milhões de pessoas (5), no país mais rico do mundo.  Desnecessário dizer que, por isso, Obama foi logo taxado de socialista. Sim porque, sem dúvidas, a existência de um sistema público de saúde compromete irreversivelmente a liberdade de escolha do indivíduo…

Não pretendemos nem lembrar a política externa, na qual Obama – Prêmio Nobel da Paz em 2009 (6) -, como todo presidente norte-americano, teve atuação criminosa. Promoveu ou foi, no mínimo, conivente com o golpe de Estado em Honduras; apoiou política e materialmente a invasão ocidental da Líbia; encerrou a ocupação no Iraque é verdade (nota do editor n°1), mas a mantém no Afeganistão; violou a soberania (?) nacional do Paquistão para – assim se acredita – eliminar Osama bin Laden; reforçou a Quarta Frota Americana para o Atlântico Sul, (re)criação de Bush filho em abril de 2008 (nota do editor n°2); além de apoiar o golpe branco do Paraguai, levando a cabo as claras intenções de criação de uma base militar no país (nota do editor n°3).

Enfim, pode-se argumentar, como atenuante para sua performance decepcionante, que Obama teve que lidar, na segunda metade do seu mandato, com um legislativo que lhe era francamente hostil. Particularmente, estamos falando da Câmara dos Representantes, de maioria amplamente republicana a partir da metade de seu mandato – no Senado, a maioria era, e continuará sendo, democrata (53 senadores contra 47 republicanos) (7).

Uma maioria republicana que, por sinal, foi renovada nestas eleições: agora serão 240 republicanos (em 2010 eram 242) contra 190 democratas (em 2010 eram 193) (8). Vale lembrar que, em 2008, na esteira da vitória de Obama nas eleições presidenciais, os democratas tinham 257 congressistas e os republicanos, 178, momento em que Obama desfrutou, portanto, de ampla maioria nas duas casas do Congresso. De qualquer maneira, não foi um grande governo. De estadista, Obama pode até ter a pose e o carisma, mas careceu de grandes feitos e idéias.

Porque então, apesar disso tudo, Obama foi reeleito?

O Partido Republicano e o Tea Party: um circo dos horrores

Obama teve seu trabalho para a reeleição enormemente facilitado por um simples fato: a impressionante desconexão entre o pensamento (?) atual dos republicanos e a realidade. O fato é que o Partido Republicano encontra-se hoje refém de uma ala, e precisamente da mais radical, o chamado Tea Party (9).

Um grupo composto em sua maioria por fundamentalistas religiosos e econômicos dos estados do sul e do meio-oeste dos Estados Unidos e que acreditam em ou defendem fervorosamente coisas como:

– o ideal de governo mínimo e um rigoroso e inflexível equilíbrio fiscal;
– o livre funcionamento do que chamam de mercados;
– o que consideram ser o empreendedorismo individual;
– políticas ferrenhamente anti-imigratórias;
– o ensino do criacionismo nas escolas;
– o excepcionalismo histórico dos EUA e o cumprimento de sua missão civilizatória no mundo;
– e a superioridade de seus valores culturais e de suas instituições políticas.

Por outro lado, os membros do Tea Party se opõem visceralmente a:

– impostos em geral;
– expansão dos gastos governamentais, do endividamento e do déficit público;
– prestação de serviços públicos à sociedade, coisa que consideram ser socialismo;
– a atuação dos EUA enquanto polícia internacional; defendem um retorno ao tradicional isolacionismo anterior ao século XX;
– facilitação de concessão de cidadania ou visto de permanência aos imigrantes;
– liberação do aborto em qualquer caso; entre outros.

Em resumo, trata-se de uma reação conservadora extremamente exacerbada ao caminhar da sociedade norte-americana para os valores do liberalismo e do multiculturalismo, tal qual à expansão das funções governamentais do Estado norte-americano.

Embora isoladamente muitos desses valores sejam, sem dúvidas, ideais tradicionais na cultura política norte-americana, sua sistematização enquanto doutrina (10) e a inflexibilidade com que são defendidos caracterizam o Tea Party. E não necessariamente todos os demais eleitores nem mesmo republicanos, que dirá de todo o país.

Posto isso, podemos dizer que as falhas de estratégia política da campanha republicana para 2012 foram clamorosas.
Por curioso que pareça, os republicanos começaram até relativamente bem ao escolher nas primárias Mitt Romney, ex-governador de Massachussets, um estado de forte tendência democrática e liberal.  Uma opção, a princípio, menos ortodoxa do que o libertário Ron Paul, a tea-partier Michelle Bachmann e o fanfarrão Newt Gingrich.

Romney, um mórmon, fez um governo considerado moderado em seu estado, no qual aprovou uma legislação de seguridade social em muito semelhante ao Obamacare que viria futuramente a criticar. Ryan, católico e, por contraditório que possa parecer, objetivista (11), foi escolhido por Romney para ser seu companheiro de chapa por se aproximar do extremismo do Tea Party em questões como a defesa das liberdades individuais e do governo mínimo (12).
Embora já apontasse para uma acomodação com os ideais extremistas do Tea Party, a chapa Romney-Ryan ainda não era, dentro do que se poderia esperar dos republicanos, das mais ortodoxas. Estava mais próxima do centro político do que a grande maioria dos outros potenciais candidatos republicanos. Todavia, como se não bastasse esse gesto, falas terríveis e desastradas de Romney fizeram lembrar os mais belos ideais do Tea Party.  Senão, vejamos alguns exemplos:

– Gravado por câmera escondida, Romney diz, em jantar privado de arrecadação de fundos, que 47% do eleitorado não pagam imposto e dependem do governo e, por isso, não deveria perder seu tempo com eles, pois automaticamente votariam em Obama (13). Com isso ele hostilizou e se afastou do que ele próprio percebeu como quase a metade do eleitorado do país;

– Criticando o Obamacare, Romney diz, num país atualmente com 12,3 milhões de desempregados: “[…] eu gosto de poder demitir pessoas que trabalham para mim” (14);

– Romney, empresário multi-milionário, não se dispôs a abrir suas declarações de imposto de renda, apesar das enormes pressões que sofreu para tal. Pairam sobre ele suspeitas de uso de artifícios para driblar o fisco dos EUA;

– Romney retoma um velho tema da cultura política norte-americana ao dizer que “Deus fez a América para dominar o mundo” (15).

Como se não bastasse, seus companheiros republicanos não se sairam muito melhor:

– Todd Akin, candidato do Partido Republicano ao Senado pelo Estado americano de Missouri e (acredite) membro do Comitê de Ciência da Câmara dos Deputados, diz: “[…] no caso de um estupro legítimo (sic), o corpo feminino tem maneiras de bloquear essa coisa toda” (16);

– Richard Mourdock, candidato ao senado por Indiana, diz que “[…] gravidez após um estupro é a vontade de Deus” (17).

Não deve nos causar nenhuma surpresa que, mesmo num país repleto de fanáticos e fundamentalistas como os EUA, nenhum desses indivíduos tenha sido eleito. Preço justo a se pagar para um partido cujos sensíveis candidatos descartaram a priori: 47% do eleitorado; imigrantes; desempregados; e mulheres.

Rumo à renovação (?) republicana

Rio Revolta credita este tipo de crenças à sandice, à ignorância, à pura e simples cegueira. Porque é difícil crer que tenha se tratado de uma estratégia (?) eleitoral. Se foi, foi das mais estúpidas. Porque os fundamentalistas do Tea Party não votariam, com a mais absoluta certeza, num liberal negro com possíveis raízes familiares islâmicas como Barack Hussein Obama.

Romney e seus comparsas fizeram, portanto, campanha para seus mais-do-que-prováveis-eleitores, ao passo que, distanciando-se do centro político – dos independentes, dos conservadores que, apesar disso, são democratas (coisa que existe) e dos republicanos mais liberais (coisa que também existe) – os entregaram todos de presente nas mãos de Barack Obama.

Em suma, o pensamento (?) atual do Tea Party que dominou a retórica dos republicanos não permite adequar o partido, suas figuras e seus ideais à atual realidade demográfica e sócio-cultural dos Estados Unidos. Pelo contrário, cada vez mais fundamentalista, anti-social, xenófobo e rancoroso, o Tea Party pretende que o país se adeque às suas idéias. Parecem incapazes de compreender que o domínio atual dos EUA sobre o planeta requer, entre outras coisas, a difusão de seus valores e instituições liberais, a aceitação da imigração em grande escala e um Estado grande, poderoso e comandante.

Como bons fanáticos que são, pensam (?) que a realidade é que deve se adequar às suas teses, e não essas que deveriam explicar aquela. Para o Partido Republicano, a mensagem das eleições de 2012 deve ser clara. Sua viabilidade eleitoral requer que se adeque aos novos tempos, ao invés de fazer concessões a um grupo que permanece pregando uma América majoritariamente branca, conservadora, profundamente religiosa e pura e superior em seus valores e suas ações.

Uma América, em suma, que não existe mais.

E só mesmo o alucinado Tea Party para criar uma figura como essa que ilustra esse texto (18), sem perceber que a “morte” decretada ontém não foi da América mas, possivelmente, de si mesmo.

Daniel Kosinski

Notas

1 – http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_presidential_approval_rating

2 – http://data.bls.gov/pdq/SurveyOutputServlet?request_action=wh&graph_name=LN_cpsbref3

3 – http://en.wikipedia.org/wiki/Effects_of_the_2008%E2%80%932010_automotive_industry_crisis_on_the_United_States

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Patient_Protection_and_Affordable_Care_Act

5 – http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2012/10/04/obama-revogacao-do-obamacare-deixaria-50-milhoes-sem-cobertura.htm

6 – http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/

7 – http://en.wikipedia.org/wiki/2012_senate_elections

8 – http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_House_of_Representatives_elections,_2012

9 – http://en.wikipedia.org/wiki/Tea_Party_movement

10 – http://en.wikipedia.org/wiki/Pledge_to_America

11 – Trata-se de uma filosofia política, muito contestada na academia, elaborada por uma pensadora de origem russa chamada Ayn Rand. É uma visão de mundo radicalmente racional e ateísta. Por ocasião das eleições 2012, pressionado pelos tea-partiers, Ryan negou ligação com essa doutrina.

12 – http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_ryan

13 – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/67020-gafes-em-serie-abalam-campanha-de-romney.shtml

14 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120110_primarias_new_hampshire_ac.shtml

15 – http://www.clicksergipe.com.br/1n_blog.asp?postagem=70856

16 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120820_estupro_deputado_ru.shtml

17 – http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-10-24/candidato-republicano-ao-senado-diz-que-gravidez-pos-estupro-e-vontade-de-deus.html

18 – http://oglobo.globo.com/topico-eleicoes-americanas/movimento-tea-party-declara-morte-dos-estados-unidos-apos-vitoria-de-obama-6664136

Notas do Editor (Leandro Dias)

1 – Obama de fato retirou formalmente as tropas oficiais do Iraque, ainda que todas as grandes corporações americanas de segurança (Private Military Contractors), dentre elas a famosa Blackwater, formem um contingente expressivo, substituindo o exército americano na maioria das tarefas. Nos primeiros 4 anos de guerra no Iraque, mesmo com maciça presença americana no país, os EUA gastaram 10 bilhões de dólares com estas empresas (http://www.thedailybeast.com/newsweek/2010/08/10/mercenaries-in-iraq-to-take-over-soldiers-jobs.html)

2 – http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u418285.shtml

3 – http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1293057&tit=Paraguai-discute-possibilidade-de-abrigar-base-militar-norte-americana

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