Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Breves Notas sobre o Mensalão

“A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão.” – Anatole de France

Breve nota sobre o “Mensalão”  I

A respeito disso que a mídia chamou de “mensalão”, e que vem de forma suspeitíssima veiculando com uma insistência jamais vista e “coincidentemente” casando com o cronograma eleitoral, é necessário dizer algumas palavras.

Ingênuo ou mal-intencionado aquele que acredita piamente que o tal crime de fato aconteceu, tanto quanto aquele que o nega veementemente; isso é coisa que jamais saberemos, porque a única fonte das informações é a própria mídia, escancaradamente interessada – por razões políticas – na condenação dos réus.

É preciso ficar claro que não está em questão atualmente no STF o julgamento de um crime ou mais crimes, nem tampouco a busca por fundamentações jurídicas, mas sim, um embate político duríssimo.

O STF, atendendo aos interesses da mídia e da classe política como um todo, muito malandramente, condenou aqueles que a mídia convenceu a sociedade que são os principais envolvidos na coisa toda (e uma vez mais, jamais saberemos se foram mesmo).

E a razão é muito simples: trata-se de uma incrível oportunidade de limpar a imagem dos políticos, dos partidos e, em último caso, da própria ordem vigente, a saber, uma democracia liberal burguesa.

Tudo isso não passa de um circo, um teatro, para aplacar a fúria da classe média, que clama por punições, pelo fim da “impunidade”.

Eu também quero o fim da impunidade neste país; e por isso, defendo que o próximo julgamento do STF seja contra Fernando Henrique Cardoso, que cuspiu na sagrada Constituição ao comprar sua reeleição no Congresso Nacional, sucateou este país e doou patrimônio público a preço de banana.

Acontece que isso não vai acontecer, e porque será?

Eis o que se chama de liberdade de imprensa: a liberdade da mídia de apontar os ladrões alheios, enquanto encoberta os seus.

Não sejamos tolos. Esse julgamento não marca o início de mudança alguma; pelo contrário, seu propósito é garantir que tudo ficará como está. No fundo, é o que merece uma classe média hipócrita, porque condena lá em cima a corrupção que cotidianamente pratica aqui embaixo; e também imbecilizada e preguiçosa, porque delega ao aparelho de TV a formação de sua própria opinião, ao invés de estudar para criá-la ela mesma.

E pra concluir, o povo, que penso eu não merece mesmo esse tipo de coisa, é sempre a maior vítima disso tudo; e dele eu não falo, porque é mantido na ignorância, sacaneado por tudo e por todos.

Daniel Kosinski

***

Breve Nota sobre o Mensalão II

Como falei num post algumas semanas atrás, mensalão é o padrão de funcionamento da democracia liberal. Para os surpresos e “indignados”, há uma série de textos e artigos que apenas comprovam isso. O lobby é uma instituição na maioria das democracias do mundo e, citando novamente o artigo anterior:

Se nossa sociedade […] é regida pela lei do mercado onde “uma mão lava a outra” e toda troca pressupõe um retorno utilitário, onde toda escolha é uma relação de consumo, o que esperar da democracia fundada sobre esta lógica?

Os mensalões não são uma disfunção corrupta da democracia liberal praticada por imorais aproveitadores, mensalões SÃO a democracia liberal.

Só para fins ilustrativos, vale ler a tradução deste artigo do NY Times, com destaque para o trabalho da mídia de fazer parecer que os interesses exclusivamente egoísta das corporações se traduzam em desejos coletivos. Da mesma forma que fez parecer que os interesses exclusivos de uma certa elite brasileira fossem um clamor nacional contra determinado partido.

Importante leitura também, é do jornal inglês The Guardian, sobre o poder das corporações na democracia, mensalões privados comprando o parlamento. E ainda neste tópico, o jornalista Rui Martins lembrou bem como as empresas tem o seu mensalão regular para parlamentares, comprando a sua presença no parlamento.

Democracia, assim como tudo que existe no capitalismo, é monetizado e colocado como troca mercantil. Esse é o objetivo e o método sistemático do capitalismo. O Sapo Barbudo (original) já disse isso nos idos de 1850, comitê de negócios do capitalismo. Alguns setores importantes são cínicos demais para admitir isso ou ingênuos demais para perceber, enquanto outros, como a OAB, simplesmente não entenderam o que é democracia liberal capitalista (a OAB quer impedir que empresas privadas doem para campanhas políticas, algo sem precedente no mundo capitalista).

Lembrando que todos os partidos estão envolvidos em mensalões e trocas de favores com empresas privadas, desde a relação de Collor-Zélia com a Vasp, passando pelo mensalão da reeleição e da dilapidação pirata de nosso patrimônio do FHC, à troca de cargos e dinheiro em acordos eleitorais, não só do PT, mas também o do caso PTN-PMDB no Rio (devidamente abafado), entre outros tantos que poderíamos citar o dia inteiro.

Porém, o caso do Mensalão do PT foi excepcional entre todos estes citados. Emblemático por que algo fundamental na análise de qualquer crime passou batido dos debates sobre o mesmo: motivação. Ninguém do partido foi acusado de apropriação indébita ou enriquecimento ilícito no caso, inclusive a parte de envio de dinheiro para paraíso fiscal não foi cogitada como criminosa.  O roubo perpetrado pelos acusados, se considerarmos a posição midiática e da acusação, foi para o governo petista aprovar principalmente a Reforma da Providência e a Reforma Tributária.

Ninguém quer lembrar que a Reforma Da Providência foi aprovada com muitos votos da oposição, foi uma reforma neoliberal que por conta disso gerou um racha incrível dentro do PT, dando origem ao PSOL em 2003-04. Ou lembrar que a Reforma Tributária também foi apoiada por vastos setores da oposição e Dilma é celebrada pela direita com seu “choque de capitalismo“, justamente por mexer na parte tributária.

No entanto, verdade ou não, se considerarmos a decisão final do STF, o Caso Mensalão tem uma outra excepcionalidade: foi a primeira vez que um político roubou para fazer política e não para ter ganhos pessoais, mas ter ganhos políticos para o que ele supostamente acreditava ser o melhor para o país. Isto considerando que os políticos agem ideologicamente e não financeiramente.

Portanto, para concluir a não-tão-breve nota, o Caso Mensalão não passou de teatro político, representação eleitoreira e autoritária do momento em que vivemos de conflito entre dois projetos políticos que querem ser hegemônicos, um conflito pesado entre uma antiga elite econômica (exportadora, estrangeirista e rentista), contra uma nova elite (profissionais liberais e capitalistas voltados ao mercado interno). Assim, não levemos facas a tiroteio pois acabaremos mal.

José Livramento

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