Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

A miséria da educação

Educação pelo ralo

Em praticamente todo discurso político e toda propaganda eleitoral é a mesma coisa: a educação é um problema sério no Brasil. O tema da educação é o mais repetido e de tão constante pode parecer muitas vezes, vazio de significado. Vazio pois parece descolado da realidade, surgindo apenas como uma “expressão”, um slogan de campanha, uma menção obrigatória na pauta de políticos e especialistas. Para evitar este vazio, começaremos dando uma dimensão real do problema:

Segundo os dados da UNESCO (1) e pesquisa Ibope (2), o Brasil possui 75% de analfabetos funcionais, isto é, 3 em 4 quatro pessoas mal sabem ler, escrever ou calcular. Se considerarmos este método um tanto “subjetivo”, especialmente constatando que variam bastante de acordo com o método utilizado (chegando a apenas 25% segundo o IBGE), podemos então, partir objetivamente para utilização dos parâmetros que muitos países do primeiro mundo usam: considerar analfabeto funcional quem não tem ensino fundamental completo (menos de 9 anos de estudo). Desta maneira, veremos que 50,5% da população brasileira não completou o ensino fundamental (3), isto é, tem menos de 8ª série. Se, sob mesmo critério, extendermos para ensino médio completo, tempos que 64,2% não terminou o segundo grau (3).

E pior, levando em conta o sabido “sol tapado com a peneira” que se mostrou a famigerada aprovação automática (e suas variantes retóricas), um método abominado pela imensa maioria de professores e pedagogos, inventado nos idos neoliberais de Paulo Renato, FHC e cia, com o intuito exclusivo de melhorar as estatísticas brasileiras da educação para a apreciação do FMI e Banco Mundial (4) já que os mesmos exigem metas e modelos educacionais como condicionantes de empréstimos e “boa avaliação” econômica dos países que atuam (naquela balela de Risco Brasil). Isso mesmo, nosso novo sistema educacional foi criado a partir de exigências do mercado financeiro, buscando lastrear a capacidade de pagamento do Estado brasileiro. Assim, é compreensível o dado do INAF 2011-12 (4) que considera que apenas 35% das pessoas com ensino médio completo são plenamente alfabetizadas. Não esqueçamos que isso pode ter até ter sido inventado pelos neobobos nos anos 90, mas em 2010 o MEC ainda dava lenha nesta fogueira de cérebros (5).

Ainda a somar a este hecatombe educacional, temos que menos de 14% dos que cursam o ensino médio estão no técnico (6), pouco mais de 1 milhão por ano, um número ridículo para um país industrial. Este número deveria ser perto de 30-40% (6). No ensino superior podemos ainda ficar pior, encontrando números não muito surpreendentes diante do quadro traçado: calculou-se que 38% de nossos universitários sejam analfabetos funcionais (7) e que a população formada (ensino superior completo) não passe de 8% da população (8), em qualquer idade.

E não! Antes que “os reaça pirem”, o sistema de cotas não tem nada a ver com este quadro. As cotas são assumidamente um sistema paliativo e extremamente necessário para começar a diminuir a incrível desigualdade social e racial deste país e em estudo de 2010 (9), a UERJ demonstrou sua enorme eficácia em quebrar estas barreiras, derrubando preconceito e estigmas. A única ressalva é que se não fizermos nada para mudar a estrutura social deste país, pobre vai continuar pobre, mas com diploma.

Algumas idéias fora de lugar

A questão educacional passa por uma série de fatores não exatamente ligados à metodologia. Aqui faço uma crítica recorrente entre alunos de licenciatura nas mais variadas faculdades: as faculdades de educação parecem ligadas à discutir o sexo dos anjos, ou melhor, “métodos para o professor melhorar o ensino dentro da sala de aula”. A discussão econômico-política, fundamentalmente ligadas à educação brasileira, passam ao largo e são até massacradas como tecnocráticas, stalinistas e etc. Não sejamos radicais economicistas e é óbvio que Piaget, Vigotsky e Freire são leituras fundamentais para um professor, mas que metodologia um professor que ganha equivalente a um operador de xerox (nada pessoal contra operadores de xerox) vai precisar para dominar uma turma numa periferia violenta onde só do aluno estar na escola já é um marco? O que uma educação libertadora fará numa comunidade sem saneamento básico, emprego digno e renda abaixo da linha da miséria? Discutir educação sem discutir distribuição de renda, economia e política é inútil para nossa presente situação.

O que pode fazer um professor esmagado por um sistema que praticamente não o quer ali?

Pressionado por diretores e autoridades a aprovar alunos fracos pois além de boa parte das verbas das escolas estarem condicionadas ao índice de aprovação do Ideb (10), os números precisam ser maquiados para serem usados como palanque de políticos locais e regionais, deixando ao professor uma margem muito restrita para realmente trazer alguma mudança na comunidade onde está inserido. A lógica utilitarista dos idos (ultra)neoliberais se perpetua, onde o mais importante é gerar números do que alterar realmente alguma coisa. Para que mudar a realidade se podemos simplesmente mudar os números?

A carência do sistema educacional brasileiro não é questão de metodologia do professor e é até curioso que muitas faculdades de educação insitam em jogar esta carga toda em cima deste profissional, parecem reforçar opiniões reacionárias de que o ensino é fraco porque os professores são ruins, preguiçosos e que não tem amor pela profissão, como o biltre do governador do Ceará Cid Gomes comentou não tem muito tempo (11).

Se o problema fosse método e técnica dos professores seria facilmente resolvido, pois o que mais tem é gente competente e dedicada nas escolas deste país. O que não falta ao professor brasileiro é amor e superação. Ganhando a miséria que ganham, merecem mesmo é um pedestal (ou será uma cruz?). Não dá para fundar um sistema educacional com professor estadual e municipal ganhando 40% menos que a média nacional para a mesma escolaridade (16).

E em se tratando de alunos, vale lembrar a completa falta de perspectiva e pouca ascensão social que estudar mostrou neste país nas últimas décadas, com leve alteração recente (ainda não solidificada). Não sejamos ingênuos, não é coincidência que 8% da população seja universitária e apenas 22% tenha concluído o ensino médio. A nossa classe A e topo da Classe B correspondem a menos de 10% da população do país e 20% é o tamanho da classe B “média” (13) e (14). E esta relação é sólida há décadas, basta cruzar os índices de analfabetismo com distribuição de renda e veremos a regularidade (15). Além disso, é difícil manter um quadro consistente entre estudantes que precisam também trabalhar desde muito cedo ou cuidar de outros familiares para que irmãos mais velhos e pais trabalhem em tempo integral para sustentar. Nem vale a pena bater no sistema de creches brasileiro, pois ele praticamente inexiste (12). É extremamente difícil para uma família de classe C, D e E manter um aluno no ensino médio exclusivamente estudando.

A renda está fundamentalmente ligada ao nível educacional e não o contrário.

Por muitos anos vivemos com a máxima “a educação é o caminho para uma melhor renda familiar”, mas no Brasil o inverso é muito mais verdadeiro: “a renda familiar é o caminho para uma melhor educação”. Apenas com um esforço pessoal e familiar enorme é que as classes baixas conseguem romper esta barreira e alterar pontualmente este quadro. Ninguém é cretino o suficiente para achar que a competição é igual entre ricos e pobres no sistema educacional.

Mas vamos a mais números.

Se cruzarmos os gastos anuais com educação pública (~162 bilhões anuais, nota 17) e privada (~40 bilhões, nota 18) com a população de jovens entre zero e 25 anos (80 milhões de pessoas, nota 19) temos que o gasto anual por estudante em todos os níveis (creche, fundamental, médio e universitário) é de R$2.525 reais por ano, ou aproximadamente R$210 por mês.

Isto é, por volta de 2010 gastamos em média 1/3 do salário mínimo por mês com nossos estudantes. No mesmo período a média anual européia foi de aproximadamente U$6.500 (R$13.000 anuais, nota 20) ou R$1080 por aluno por mês. Esse é o tamanho da diferença. Não é preciso ser um gênio em políticas educacionais para saber que o problema real está aqui. Não há metodologia revolucionária que tape este buraco; não há financiamento cretino de laptop obsoleto ao professor que tape este buraco (21); não há Stakhanov (23) do ensino ou amor pela profissão que supere isso. É como colocar uma BMW 2012 para correr com um Gol 87 e esperar que o talento do piloto resolva.

O gasto com educação no Brasil é proporcional à necessidade do sistema de castas em que vivemos se manter funcionando.

Um equilíbrio nefasto determinado pelos agentes mais interessados em sua estagnação, numa balança criminosa e destrutiva. O número de universitários e qualificados é apenas o suficiente para construir uma elite dirigente do Estado e dos setores capitalistas que o cercam, para manter o país exatamente nos moldes em que sempre foi: ignorante, extremamente desigual e com um enorme exército de reserva (21) em todas as áreas possíveis. Se um sistema é algo que produz efeitos sistematicamente, o nosso sistema educacional é uma máquina de formação de mão-de-obra pouco qualificada, pouco instruída, subalterna e submissa, pronta para trabalhar por qualquer miséria que seja “o padrão do mercado”.

Não é coincidência que o comando da educação fundamental e média esteja a cargo de municípios e estados, como foi escrito em nossa Constituição. São as elites locais e regionais que dominam econômica e politicamente a educação deste país, elas determinam a eficácia da principal ferramenta para questioná-las politicamente. Não há grandes mistérios e métodos para solucionar o sistema educacional brasileiro. Retire o controle econômico e político da educação das pequenas elites locais, federalizando e unificando todo o sistema educacional nacional, deixando apenas a decisão curricular para cada organização regional de professores e educadores. Para acabar com a Casa Grande, só tirando a chave da biblioteca das mãos dela.

Leandro Dias

Notas:

(1) http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=700

(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Analfabetismo_funcional

(3) http://noticias.r7.com/educacao/noticias/metade-da-populacao-nunca-estudou-ou-tem-ensino-fundamental-incompleto-no-brasil-20120427.html

(4) http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-07-17/menos-de-30-dos-brasileiros-sao-plenamente-alfabetizados-diz-pesquisa

(5) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,aprovacao-automatica,558494,0.htm

(6) http://www.ifb.edu.br/planaltina/noticias/3792-ensino-tecnico-desperta-interesse-de-alunos-e-qualifica-mao-de-obra

(7) http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=444534

(8) http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1082213-aumenta-o-numero-de-brasileiros-com-ensino-superior-completo.shtml

(9) http://oglobo.globo.com/educacao/primeiro-grande-estudo-sobre-sistema-de-acoes-afirmativas-da-uerj-pioneiro-no-pais-mostra-2997559

(10) http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/23710/educacao-no-pais-avanca-mas-aluno-aprende-pouco/

(11)  http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/ce/professor+deve+trabalhar+por+amor+nao+por+dinheiro+diz+cid/n1597184673225.html

(12) http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/12891/brasil-deve-triplicar-numero-de-matriculas-em-creches-para-atingir-meta-do-pne

(13) http://www1.folha.uol.com.br/poder/935502-classe-c-e-a-unica-que-continua-a-crescer-aponta-fgv.shtml

(14) http://www.abep.org/novo/Utils/FileGenerate.ashx?id=197

(15) http://www.ufjf.br/ladem/2012/02/24/analfabetismo-no-brasil-evidencia-desigualdades-sociais-historicas/

(16) http://educacao.uol.com.br/noticias/2010/12/15/professor-ganha-40-menos-que-media-do-trabalhador-brasileiro-com-mesma-escolaridade.htm

(17) http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,-gastos-do-brasil-com-educacao-nao-sao-suficientes-para-atingir-metas-diz-ipea-,810843,0.htm

(18) http://www.sinpro-rs.org.br/idiomas/noticias.asp?id_noticia=831&key_noticia=5Z47JCPF74hTY8Fjq4SI

(19) http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=12&uf=00

(20) http://epp.eurostat.ec.europa.eu/statistics_explained/index.php?title=File:Expenditure_on_educational_institutions,_2004_and_2009_(1).png

(21) http://governo-sp.jusbrasil.com.br/noticias/145629/financiamento-de-laptop-a-professor-comeca-na-segunda

(22) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ex%C3%A9rcito_industrial_de_reserva

(23) http://pt.wikipedia.org/wiki/Stakhanovismo

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