Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

A candidatura Freixo: esperança, inviabilidade e decepção

Veloso, Freixo e Chico

Toda eleição no Rio de Janeiro é a mesma coisa: a classe média dita politizada carioca se une, esperançosa, em torno de algum candidato, um novo e fabuloso messias moralizador que tudo resolverá, a começar, e principalmente, pelo combate à corrupção. Chama a nossa atenção como a classe média se encanta com promessas de combater aquilo que ela própria, sob as mais diversas formas, mais pratica.

Qual vem sendo o comportamento eleitoral recente desta tal classe média?

Passemos a alguns fatos. Não custa lembrarmos das últimas eleições, em 2010.

O referido estamento adotou como candidata Marina Silva, do PV, cuja monotemática campanha tinha como companheiro de chapa a vice-presidência o empresário paulista Guilherme Leal, presidente da Natura e dono de uma sustentável fortuna de aproximadamente um bilhão e meio de dólares, segundo a Revista Forbes. [1]
Sui generis combinação, numa mesma chapa, de uma plataforma política que conciliava um discurso ambientalista com a prática da mais voraz acumulação capitalista, resultando numa quimera chama desenvolvimento sustentável.
Como se o capitalismo pudesse ser outra coisa que não o avanço constante e irrefreável sobre todos os recursos humanos e naturais disponíveis.

Já no que dizia respeito às eleições para o governo do estado, a referida classe média adotou a candidatura Fernando Gabeira que, para antagonizar seu adversário Sergio Cabral, candidato do Governo Federal petista, terminou por apoiar a candidatura “progressista de esquerda” de José Serra, do PSDB, no plano nacional, no 2° turno [2].

Um candidato a vice-presidente sustentavelmente multi-bilionário e um candidato progressista ao governo estadual que apoiou José Serra no 2° turno das eleições presidenciais: fatos que, evidentemente, não foram suficientes para saltar aos olhos da intelligentsia [3] do Partido Socialista da Vieira Souto e adjacências.

Eis que se aproximam perigosamente as eleições municipais de 2012 e o fenômeno, mais uma vez, vem se repetindo, atendendo desta vez pelo nome de Marcelo Freixo, candidato do PSOL à Prefeitura carioca.

A primeira pergunta que faço a respeito é: porque Freixo resolveu concorrer no Rio de Janeiro, e não em sua base eleitoral, Niterói, onde suas possibilidades de vitória eram infinitamente superiores, até pelo próprio perfil pequeno-burguês da maior parte de seu eleitorado? [4]

O perfil de Marcelo Freixo, defensor de determinadas plataformas progressistas, aponta claramente para um candidato viável para cargos legislativos, de eleições proporcionais, porém de viabilidade eleitoral muito reduzida para cargos executivos, de eleições majoritárias, pois trata-se de questões que passam longe das preocupações diárias de subsistência da maior parte da população, mesmo num estado rico – para os medíocres padrões brasileiros – como o Rio de Janeiro.

Suas possibilidades se deterioram ainda mais fora de sua cidade, que dirá concorrendo contra Eduardo Paes, apoiado pelo trágico governador Sergio Cabral e também, trágica e desastrosamente, pela presidente Dilma e pelo ex-presidente Lula.

Uma combinação de forças que tornam sua candidatura uma mera formalidade. O prognóstico é simples: só um milagre ou uma catástrofe total e aparentemente impossível para tirar a vitória de Eduardo Paes, ainda no 1° turno.

Essas questões a parte, a candidatura Marcelo Freixo vem recorrendo aos velhos artifícios das candidaturas que se fundamentam na classe média politizada carioca.

Embora inclinada à esquerda, às plataformas políticas progressistas, é uma classe média incapaz de se desvencilhar de suas origens pequeno-burguesas e dos privilégios de classe de que desfruta. Daí praticar um “esquerdismo” light, muito mais ligado às manifestações culturais das elites cosmopolitas bem educadas do que ao ativismo político junto aos partidos políticos, aos sindicatos e às classes trabalhadoras dominadas – coisas que ela, por sinal, rejeita. [5]

Em suma, um “esquerdismo” inócuo e politicamente neutro, como bem convém à ordem liberal burguesa.

Entre aqueles artifícios, destaco um marketing – sim, porque lembraremos sempre que eleição não é política, é comércio, mercado – que faz vasto uso de artistas populares de nome como Caetano Veloso e Chico Buarque, apelando para a fina sensibilidade artística de seu potencial eleitorado. Não custa lembrarmos que Chico Buarque é um dos mais notórios intelectuais orgânicos do comunismo parisiense. Não a toa, promoveram um show de arrecadação de fundos para a Primavera Carioca de Freixo, a preços módicos e bem populares, como é típico dessa classe artística engajada de esquerda: R$ 360 [6]. Mais da metade do valor do salário mínimo nacional, R$ 620 [7]. Tudo bem, shows para arrecadar fundos são extremamente comuns nas democracias do mundo, e normal ele querer fazer um show para obter grana da classe média alta, o ruim é ele não ter feito nada semelhante para captar grana ou apoio dos trabalhadores de baixa renda. Pelo menos não fez pior, os famigerados showmícios, shows pagos com grana do partido ou grana pública [8]para agregar pessoas para um candidato sem prestígio.

Diálogo com a classe trabalhadora é isso aí.

Para disputar e vencer eleições (burguesas) é necessário dinheiro – muito dinheiro. A candidatura Freixo não dispõe, nem remotamente, dos vastos recursos à disposição de seu principal rival, Eduardo Paes. Torna-se necessário buscar os recursos que viabilizem a vitória em algum lugar.

Para Paes, é simples: sem nenhum tipo de compromisso ou constrangimento de ordem ideológica, se apóia nas empreiteiras, que serão recompensadas depois com vitórias em “licitações” multi-milionárias.  Para Freixo, ideologicamente comprometido com uma plataforma de moralização da política, e eleitoralmente comprometido em ser oposição à candidatura Paes, não se trata de recurso cabível. Tem de recorrer a alternativas como, por exemplo, os artistas.  Muitos pensarão que esse fato absolve a candidatura Freixo, e torna imperativo realizar esse tipo de espetáculo com vistas a obter recursos que, quem sabe, viabilizem a improvável vitória. Mas devemos lembrar que trata-se de fato que, sem dúvidas, não impede a corrupção: basta, por exemplo, recompensar tais artistas com fantásticos cachês para shows no Réveillon carioca ou outros eventos. Lembrando o link acima do Paes, onde os artistas populares que o “seguem” são frequentemente pagos com dinheiro da prefeitura). [8]

Coloca-se, então, para Freixo e para candidaturas com o seu perfil, um paradoxo insolúvel.

Ou se mantém fiel ao seu programa progressista, e inviabiliza-se eleitoralmente; ou viabiliza-se entrando no jogo (sujo) da política eleitoral, corrompendo seu programa.

Nestes casos, só dois caminhos são possíveis: a derrota eleitoral, ou uma vitória de Pirro, que é seguida pela decepção de seus eleitores.

Tudo isso apenas expõe um fato muito, muito claro: socialismo e eleições (burguesas) não combinam, pois as instituições liberais burguesas que hoje se convencionou chamar de “democracia” não foram, é claro, pensadas para dar este tipo de resultado eleitoral. São instituições conservadoras, produto da ordem vigente, para a ordem vigente. A contradição, é insolúvel, é insuperável. Não se deve ter falsas esperanças: só mesmo a superação desta ordem pode solucioná-la.

Arnaldo Gordo

Notas:

1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Leal
2. http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,gabeira-confirma-apoio-a-serra-no-2-turno,620075,0.htm
3. O termo vem do idioma russo, e se refere àqueles trabalhadores engajados em atividades culturais e intelectuais. Seu antônimo, muito mais comum, se denomina burritsia.
4.Niterói é uma cidade curiosa, e de certa maneira, motivo de inveja para a classe média burguesa da capital. A divisão Niterói-São Gonçalo equivaleria às zonas Sul e Centro do Rio de Janeiro formarem uma cidade independente dos subúrbios. Não é outra a razão pela qual Niterói tem um dos três mais elevados índices de desenvolvimento humano do Brasil, enquanto São Gonçalo é um município marcadamente subdesenvolvido.
5. Se os trabalhadores se emanciparem, de onde virão as faxineiras e empregadas domésticas?
6. E que ainda dá ao PIG a oportunidade de fazer gozações:
http://oglobo.globo.com/pais/ingresso-de-show-pro-marcelo-freixo-custara-360-5973854
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/show-caetano-veloso-chico-buarque-marcelo-freixo-a-noite-acanhada-da-esquerda-festiva
6. http://www.portalbrasil.net/salariominimo_2012.htm
8. http://eleicoes.uol.com.br/2012/noticias/2012/07/24/artistas-que-apoiam-eduardo-paes-fizeram-shows-pagos-pela-prefeitura-do-rio.htm

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3 Respostas para “A candidatura Freixo: esperança, inviabilidade e decepção

  1. Victor Cavalcanti 27 de setembro de 2012 às 22:56

    Arnaldo, estou fazendo campanha para Marcelo Freixo e com isso acompanho muitas das críticas à sua candidatura, devo confessar que a sua foi a melhor que eu vi até agora.

    Tendo a concordar com você em quase tudo.

    Entendo sua crítica, ocorre que a política não se resume ao processo eleitoral. É fato que as chances de vencer de Marcelo Freixo são bastante reduzidas pelos fatores que você apontou (resumidamente, vantagem econômica do candidato que recebe apoio não só das empreiteiras mas das empresas de ônibus, bancos e quem mais quiser mamar nas tetas da prefeitura depois que ele estiver eleito.). Mas discordo de você que isso não tenha solução. Ocorre que a solução não passa pela figura de Marcelo Freixo e sim por uma tomada de consciência da população. A campanha conta e deve contar apenas com a organização e mobilização daqueles que estão sendo prejudicados (imensa maioria) pela ordem política vigente. Caso a campanha saia derrotada, reconhecerá sua derrota enquanto essa mobilização não for grande o suficiente para fazê-la vencedora do pleito.

    É um caminho difícil, lento e gradual, um processo de amadurecimento político da sociedade. A efetiva participação das pessoas no processo político fará com que o político que lá estiver (seja ele quem for) seja obrigado a fazer valer o interesse da sociedade como um todo assim como hoje ele é obrigado a fazer valer os interesses da pequena parcela da sociedade que participa efetivamente do processo político.

    Não se trata de eleger este ou aquele candidato na esperança de que ele cuide dos nossos interesses, não se pode esperar por isso. Freixo resumiu essa situação com perfeição em uma frase:

    “A forma como nós vamos chegar ao poder determinará qual o poder que nós teremos.”

    Se for para chegar pelos mesmos meios que os outros chegam, só será possível trabalhar dentro da mesma lógica que eles trabalham.

    Não se trata de votar em um candidato, é um voto em uma idéia, em projeto político distinto.

    – Ah mas sem dinheiro não ganha!

    Vai ganhar o meu voto e pode ganhar o seu.

  2. Arnaldo Gordo. 2 de outubro de 2012 às 2:01

    Caro Vitor:
    Agradeço seus elogios, e os devolvo. Seu comentário é sem dúvidas muito pertinente.
    Minha divergência com relação a ele não é absolutamente teórica, apenas psicológica. Sou um pouco mais pessimista com relação às possibilidades de qualquer alteração substancial desta ordem jogando pelas suas regras.
    Em todo caso, apareça sempre e contribua para nossos debates.
    Um abraço,
    A.G.

  3. Pingback: O Voto Inútil ou como levar as contradições aos seus limites « Rio Revolta !

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