Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

De uns meses para cá voltou com força às manchetes o dragão da corrupção. Enxurrada de capas bombásticas em vários jornais, denúncias retumbantes, espionagem em hotéis, todo o tipo de acusação. As vassourinhas voltaram às manchetes. Em geral, e era de se esperar, as denúncias se focam no governo e seus aliados.Não é novidade, lembrando dos massacres públicos nos diários e semanários em 2004, que quase derrubaram o ex-presidente Lula, denúncias que até hoje não foram muito adiante por falta de provas, além da baixaria das últimas eleições (tópico abordado aqui em vários posts), a grande imprensa em uníssono espanca diariamente o governo e seus aliados.

Na grande mídia a exceção é a Record que, apesar de implicitamente apoiar o governo, agregou jornalistas um pouco mais sérios e menos elitistas nos últimos tempos, criando reportagens investigativas com o mínimo teor republicano e equilíbrio, variando entre crítica e defesa do governo. Seu principal mérito é ser o único agente grande da imprensa, sistematicamente atacando a FIFA e a CBF, ambos envolvidos em falcatruas esportivas muito maiores que o ministério do PseudoB, PCdoB quero dizer. Embora deixe de lado as falcatruas da Universal… coisa para outro post.

Mas se estamos falando de como a corrupção aparece na mídia, estamos falando do jogo das elites. É exatamente disso que se trata na verdade toda a discussão sobre a corrupção na imprensa. O Brasil vive um momento de transição de elites, para o bem ou para o mal. O PT nos últimos dez anos se consolidou como uma nova elite política, apoiada por novos setores da elite econômica brasileira, além das tradicionais bases urbanas médio-classistas que já o acompanhavam desde os anos 90.

O capitalismo industrial nacional esmagado pelo fundamentalismo liberal de mercado do PSDB-PFL acabou por abandonar o ‘projeto‘ de país que os demotucanos queriam, embarcando no projeto mais ‘nacionalista’ do PT. Arriscada de ser quase destruída durante 1994-2002, com a abertura escancarada do nosso mercado sem qualquer política de estruturação e competitividade real para a pequena e média empresa nacional, esse setor importante, que emprega a maior parte da mão de obra, passou a apoiar os petistas. A aliança de Lula com o falecido industrial Alencar, apenas evidenciava esse fato.

Do outro lado, o PT teve a genial iniciativa de fazer a expansão econômica brasileira baseada no crédito bancário. O partido compreendeu exatamente o que fizeram os norte-americanos depois de sua crise econômica de 1979 e trataram de expandir a renda através da garantia de crédito – relativamente – barato aos trabalhadores e não no aumento real dos salários, como o keynesianismo tradicional pregaria. Nesse sentido, o setor financeiro brasileiro adorou a idéia, e foi algo que os demotucanos jamais conseguiram executar, pois estavam muito mais voltados para o setor financeiro especulativo e de commodities exportadores do que o de crédito popular e formação de mercado interno. Não é por acaso que Lula chamou seus amigos banqueiros e empresários, patrocinadores de campanha, de ‘camaradas’ em ocasião de um evento da Fiesp. A expansão do crédito e consequentemente de bancos como Itaú e Bradesco no país foi impressionante. Não há camarada melhor [para eles]!

Além disso, soma-se que as medidas anticíclicas do governo, citadas pelo Rio Revolta aqui, seguraram a crise financeira nacional e permitiram a expansão do emprego e da renda média nacional, levando mais setores das classes baixas à apoiar o PT. Sem contar os pequenos incentivos paliativos tipo Bolsa Família (o nosso food-stamp) e Minha Casa Minha Vida, ambos dando sólidas bases de eleitorado baixa renda ao PT. País abandonado de tal forma que a mera inserção econômica de um auxílio-alimentação irrisório (especialmente em relação ao PIB) eleva em médio prazo toda a renda das classes mais baixas e consequentemente de toda a economia.

Por outro lado, já era evidente para qualquer um mais atento, que o PSDB estava mais interessado na velha elite industrial paulista e na elite agro-exportadora, latifundiária, ambos largamente baseados no setor de commodities e mercado financeiro especulativo, setores que sempre os apoiaram e que podemos chamar de ‘velha elite’ nacional. Não foi a toa que partidos que sempre caminharam do lado dele foram PFL-DEM, herdeiro dos latifundiários e da velha burguesia sulista (como Bornhausen) e o PPB (hoje PP), da tradicional burguesia, como Maluf e Amin em Santa Catarina. Além, é claro, do PMDB, eterno partido do poder, fisiologismo no seu mais alto grau. Assim, o PSDB nunca teve preocupação real com o desenvolvimento do capitalismo nacional ou com a expansão do mercado interno. Algo fatal, especialmente em momentos de crise mundial.

Então, voltando ao tema do presente texto.

No bojo desta troca de elites no poder brasileiro que vivemos, vemos a velha elite exportadora, em franca decadência, vociferar através dos principais aparelhos midiáticos que ainda controla, contra o novo poder constituído. Isso também não é novidade. Quando esta mesma elite foi preterida pelo trabalhismo na Era Vargas e depois no seu ápice com Jango, ela vociferou tanto que botou os tanques na rua contra o governo. Mas antes dos tanques vieram as marchas da família e as vassourinhas contra a corrupção. Por isso que citamos o lacerdismo com frequência, especialmente quando se fala de José Serra.

Essa elite arcaica, atrasada e acostumada a estar eternamente com o poder absoluto do país, tão falada em nosso blog (aquiaqui e aqui), não tem um projeto nacional definido, nada substancial, especialmente agora em crise agonizante do neoliberalismo em sua própria matriz. Nela o oportunismo reina. Assim, a única bandeira que a restou foi a do combate à corrupção, da moralidade e da acusação do ‘mar-de-lama’ que vivemos, não importa que quase a metade dos que estão no poder agora, são exatamente as mesmas forças que estavam quando o poder era o ‘tradicional’. A moralidade, muitas vezes, dá as mãos ao fascismo nacional, como denunciamos aqui, e o ‘combate’ a corrupção atende perfeitamente a agenda de qualquer elite que não esteja no poder. “A corrupção é sempre maior agora do que era quando nós governávamos”. Lema elitista por excelência, cansei de ouvir isso em relação aos anos militares e os anos de ‘privataria’ de FHC.

Mas não nos enganemos, a corrupção é sim um evidente problema. Ninguém pode negar isso. Porém, a raiz de nossa corrupção não é de uma fraca moralidade do PT ou de maneira filosófica, de como o ‘poder corrompe’ quem chega lá em cima. Outra frase que ouvimos por aí com frequência. Nosso problema de corrupção é histórico e altamente arraigado em todos os setores da sociedade, do empresário que dá propina pro fiscal até o assessor preso com dinheiro na cueca. A corrupção estava aí bem antes do PT, aliás, por mais que pareça absurdo, é o governo que tem mais combatido a corrupção em décadas. A Polícia Federal nunca prendeu tanto e pela primeira vez na história, um banqueiro foi preso e algemado por corrupção. Embora o judiciário tenha decidido ser “republicano” num momento tão conveniente e embarreirou os ‘excessos’ da ABIN e PF, soltando Daniel Dantas pouco depois. Além de que, se formos friamente nos números, DEM (PFL) e PSDB lideram absolutos no ranking de cassados pela Ficha Limpa. O mar-de-lama mais grosso que a mídia mostra agora, é apenas rebuliço dos arautos do conservadorismo brasileiro.

A origem da corrupção brasileira é uma fraca república. E ela é fraca pois jamais eliminou sua elite tradicional, agro-exportadora, vinculada ao capital estrangeiro. Uma elite que olha para fora, manda os filhos para Europa e EUA para estudar e passar férias; que acha tudo maravilhoso no Primeiro Mundo, admira ricos sendo presos na Alemanha e EUA,  mas esquece como e o que foi fundamental para o consolidá-lo como tal: completa eliminação da mentalidade do Antigo Regime. Seja em repúblicas como França, EUA e Alemanha, ou reinos como Inglaterra, Japão e Dinamarca. O Antigo Regime e sua mentalidade só foram destruídos à força, com muita prisão, morte, deportação e em muitos casos, com guerra. Como um profundo ‘aggiornamento’ das elites à nova mentalidade. No Brasil, jamais expulsamos, matamos e prendemos os bandidos nobiliárquicos do nosso passado. Nossa república foi fundada pelos mesmos nobres e militares que estavam no Império e na Colônia, com os mesmos costumes. Nosso absolutismo nobiliárquico foi suplantado pela república nobiliárquica. Mudaram as estruturas, mas o fantasma das idéias persistiu. Já dissemos isso milhões de vezes aqui no blog.

Então, clamar por combate a corrupção sem entrar neste mérito fundamental é ser usado pelo oportunista de plantão para atuar politicamente contra a elite que atualmente manda.

Além disso, temos outra questão fundamental. Mesmo que peguemos como verdadeiro o dado da última edição da revista Veja – porta-voz das elites tradicionais e conservadoras -, em que quase 3% do nosso PIB é perdido para a corrupção e que esta é a razão primordial para o nosso subdesenvolvimento e atraso, chegamos a um evidente problema: 97% do nosso PIB é ‘bem utilizado’ e ainda assim vivemos nesta estagnação estrutural e subdesenvolvida.
É claro então, que esse argumento é de uma falácea impressionante. Se agora vivemos no nosso ‘pior momento de corrupção da história’ e ainda assim, utilizamos 97% do nosso PIB sem roubos, o problema do nosso subdesenvolvimento não é a corrupção. Ela é um problema sério do ponto de vista do valor bruto perdido, mas marginal em nossa estrutura econômica e desenvolvimento. Se é para falar de percentagens, a grande mídia não toca no assunto de que amortização de dívida e juros comem mais de 30% do nosso PIB. TRINTA POR CENTO. Pelo menos 10 vezes mais dinheiro escorre pelo ralo financeirista do que perdidos na corrupção. E em termos de impostos, 44% do que pagamos, vai direto para pagamento destes juros e amortização de dívidas antigas, algumas muitas vezes pagas em relação ao montante emprestado. Como dizem: “juros compostos são a maior arma de destruição em massa já inventada”. E, para citar jargões do conservadorismo anti-imposto: se nós trabalhamos 147 dias por ano apenas para pagar impostos ao Estado, 64 são dias inteiros que trabalhamos para pagar os bancos dívidas que já pagamos. Isso sim é que é um crime.

O problema muito menos é o chamado ‘excesso de Estado’ que o establishment neoliberal costuma insistir e, frequentemente, associando excesso de estado à corrupção. Este jargão ultra neoliberal ainda é insistente por aqui, mas agora vai contra a maré keynesiana que parece pegar os conservadores do mundo neste momento. Ele ignora completamente que foi justamente o oba-oba do setor privado norte-americano, altamente corrupto, que destruiu o mercado imobiliário e foi estopim da última crise, num país altamente desregulamentado como os EUA.

E ainda vale lembrar que foi precisamente a ação anti-cíclica estatal do governo Lula, absurdamente criticada por ‘gênios’ como Miriam Leitão, que salvou o Brasil do completo desastre econômico que o resto do mundo viveu a partir da Crise de 2008. “Excesso de Estado” que recentemente elevou a taxa de importação de automóveis, sob protestos retumbantes dos jornalões e do DEM, levando a Hyundai a anunciar a abertura de uma montadora aqui no Brasil. Aula primária de protecionismo que muitos neobobos parecem ter faltado.
Voltando novamente ao ponto. A corrupção brasileira é estrutural e arraigada na sociedade justamente porque confrontamos um ideário relativamente republicano (constitucional) – ainda que muito superficial -, com uma realidade estrutural de relações de poder altamente clientelista, coronelista, enfim, de Antigo Regime. Na história do ‘constitucionalismo’ (Revolução Francesa), as críticas burguesas (no sentido clássico) ao Antigo Regime eram absurdamente focadas neste clientelismo, favoritismo, personalismo e privilégios de classe (nobiliárquica). Para a burguesia em ascensão, o sistema nobiliárquico era corrupto e destrutivo.

Desta maneira que no Brasil, assumindo o fato de que nossa estrutura de estado é de Antigo Regime, nobiliárquica, temos a preocupante constatação de que a corrupção brasileira está engendrada em lei. Ela não é uma ‘simples’ falcatrua de roubar aqui é ali, estimulada pela falta de punição. A própria falta de punição é legalmente estabelecida e organicamente construída dentro das relações entre os poderes estatais para que não ataque e afete as elites estabelecidas, os ‘nobres’.

A corrupção brasileira é uma canetada de um prefeito criando uma estrada pública no meio do terreno de um ‘camarada’ seu; é a relação de troca de favores econômicos entre lobistas e senadores; é a escolha de certas empresas para execução de tais obras (as cartas marcadas tão corriqueiras em contratos públicos); é a escolha de uma matriz de transporte como o automóvel em detrimento do trem; é a escolha de uma política de juros que favorece uma pequena elite financeira, botando imensos contingentes de capital público sob controle direto do setor privado; é a reestruturação e atualização tecnológica de uma estatal com dinheiro público, para pouco tempo depois ser privatizada como ‘ineficaz’, ou pior, o sucateamento deliberado de setores anteriormente eficazes, justificando assim sua venda; é a concessão à indústria pesada em locais anteriormente proibidos; é a construção de açudes ‘públicos’ em terrenos de amigos de um deputado ou prefeito qualquer do interior do nordeste; a assinatura em massa de certas revistas em detrimento de outras com dinheiro público; é a remoção de famílias pobres inteiras para construção de condomínios de luxo; é a escolha deliberada de um prefeito de não fortalecer a escola pública em favorecimento do setor particular; são empreiteiras bancando políticos para que os favoreçam quando eleitos… Enfim, poderia me estender indefinidade com exemplos de práticas legalizadas que são altamente anti-republicanas.

Estas formas legalizadas, institucionalizadas, são representações muito mais sérias e acachapantes de corrupção do que qualquer desvio, roubo ou enriquecimento ilícito. De pequena canetada em pequena canetada, nosso desenvolvimento inteiro é engessado pelo funcionamento nobiliárquico elitista de nossa democracia. Roubar e desviar dinheiro é crime, escravizar uma nação inteira, é lei!

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