Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Kadafi está morto

Kadafi e antigos amigos (2009).

Kadafi está morto. Parabens aos Líbios!

O lado positivo de eventos históricos excepcionais como o que o mundo presenciou no último dia 20 de Outubro, é que eles expõem com toda a clareza e sem rodeios as grosseiras fraudes e contradições do lamentável e vergonhoso discurso político hegemônico que correntemente domina o imaginário das sociedades ocidentais e daquelas que, como a brasileira, lhe são periféricas.

Neste dia, Muammar Kadafi, líder líbio, foi assassinado (pelos vídeos, foi executado mesmo). Não importa, e jamais saberemos ao certo, quem apertou o gatilho. Para todos os fins, foi assassinado por uma coalizão de potências interventoras estrangeiras ocidentais com elementos internos da sociedade líbia.

O que Rio Revolta pensa deste assassinato? Não nos interessa fazer qualquer juízo de valor a respeito de sua morte. Simplesmente aconteceu e, como dado da realidade, requer nossa análise fria.

Tampouco nos importa saber se Kadafi era ou não um líder legítimo para os líbios. Rio Revolta não acredita minimamente que as falidas instituições liberais burguesas (especialmente em países que se quer tiveram revoluções constitucionalistas significativas), baseadas em idealismos superficiais como “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido” e o “voto” como genuína expressão da vontade popular, sejam ponto irrefutável de defesa. Portanto, para nós, nada significa que ele não tenha sido eleito por esse sistema.

Poder legítimo é aquele que detém o monopólio do uso consentido da violência física numa dada sociedade por longos períodos de tempo. Repito, USO CONSENTIDO. Portanto, da nossa perspectiva, Kadafi era o líder legítimo da Líbia até o início da revolta, quando deixou de ser, porque a partir de então nem detinha mais o monopólio nem era consentido como seu detentor. Não é por acaso que na Líbia, assim como no Egito, os ‘governos de transição’ são compostos fundamentalmente por elites militares e políticas que já estavam no poder anteriormente, algumas fiéis escudeiras de seus recém-depostos líderes. O consentimento de seus pares acabou.

Vale notar, portanto, que nossa concepção de “legitimidade” não se inclina para juízos de valor idealistas, mas apenas para dados que por ventura possam ser apreendidos da realidade.

Tampouco acreditamos neste discurso fácil e falacioso que vê no “desejo de democracia e liberdade” dos povos árabes a motivação final para a rebelião contra seus poderes constituídos. Para começar, não sabemos o que estas idéias significam na cabeça de um líbio ou egípcio contemporâneo. Além do que, é difícil acreditar que um dos principais núcleos rebeldes anti-Kadafi, descendentes e seguidores de Idris Sinnassi, o monarca absolutista pan-islâmico, deposto ainda em 1959 por republicanos liderados pelo então ‘progressista’ e nacionalista Kadafi, sejam defensores da liberdade e da democracia.

A realidade é por demais complexa para ser simplificada em dicotomias bom x mal, liberdade x tirania. Rio Revolta acredita piamente que estas rebeliões tem fundamentos multicausais, e muitas, se não a maioria destas causas, são e permanecerão sendo intangíveis. O que é possível fazer é traçar cenários aqui e acolá, considerando questões de teoria política geral e da história daqueles povos. Portanto, quanto a este patético discurso enlatado, otimista e autorreferenciado, com requintes fukuyamistas de “fim da história”, o deixamos para “cientistas políticos” como William Waack ou, ainda “cineastas” como Arnaldo Jabor.

O que interessa para nós é colocar as brutais contradições que emergem deste fato já neste exato momento, e as que emergirão no futuro.

Kadafi e Tony Blair em 2007, na "African Farewell" tour do inglês.

Primeiramente, não podemos enxergar o mundo sob o prisma de filmes de velho oeste hollywoodianos. Não cremos na existência de mocinhos no filme da história da humanidade. Cabe, portanto, distinguir entre os bandidos e, arbitrariamente, escolher o seu preferido. Ou não.

Segundo, Kadafi parece ter tido um destino, de certa forma, merecido. Para dizer isso, pensamos em quantos milhares devem ter sofrido mortes igualmente sórdidas e humilhantes por sua pura e simples vontade e caprichos. Mas isto não resolve absolutamente o problema, ao contrário, o aprofunda. Porque sua morte não foi um ato de “justiça”, mas sim, de vingança dos vitoriosos. Vale relembrar que das principais forças rebeldes são herdeiras de forças que Kadafi depôs, 40 anos atrás.

Não adianta Kadafi ir embora enquanto Bush (pai e filho), Clinton, Obama, Blair, Brown, Cameron, Chirac, Sarkozy etc etc etc etc continuam circulando por aí. Isso para ficar apenas nas três potências que, efetivamente, invadiram a Líbia: EUA, Inglaterra e França (sempre eles, sempre eles….).

Não é só porque Kadafi perdeu que se transformou num criminoso de guerra contra a humanidade. Isto ele já era, de longa data. Mas os outros também são, e infelizmente continuarão por ai. E o pior, representados midiática e socialmente como os defensores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Mais impressionante ainda, um deles, o Sr. Barack “Hope” Obama, ganhou um Nobel da Paz… Especializando-se em “assassinatos seletivos”: Bin Laden, Al-Alawiki (este um cidadão americano, trazendo à lembrança os assassinatos igualmente ‘seletivos’ da CIA contra dissidentes internos norte- americanos nos anos 50 e 60). E agora, Kadafi. Mas quem será o próximo?

Mas Obama, no fundo, é um ‘nice guy’. Ele mata para que acabem as mortes. Faz a guerra para que acabem as guerras. Guerra é Paz, dissemos no nosso último post. Ah, bom!

Enquanto isso, não cria um mísero emprego para o proletário norte-americano. A idéia de torcer para que perca a reeleição em 2012 bem que seduziria Rio Revolta, não fosse a disputa contra um candidato qualquer do Tea Party republicano… Neste caso, já que é seis por meia dúzia, melhor que tudo continue como está. É como dizem da diferença do republicano pros democratas: os últimos pelo menos usam vaselina. “Quer me foder, me beija porra”.

Terceiro, apesar dos pesares – da ‘tirania’, ‘falta de democracia’ e toda a lenga-lenga hipócrita midiática – a Líbia era, até poucos meses atrás, de certo, o país de maior qualidade de vida da África e do mundo islâmico. Dados do IDH da ONU. Aliás, tomado por este mesmo índice, era um país em torno de 30 anos mais avançado que o livre e democrático Brasil, para não falar das outras 150 ‘democracias’ do mundo em completa miséria. Juscelino Kubitschek – o conservador Seu Nonô – uma vez, sabiamente, disse: “Liberdade não é mais do que uma palavra vazia para os que vivem na miséria”…

O segredo para o relativo sucesso da Líbia, isto era relativamente simples. Um país posicionado sobre um enorme lago de petróleo, com uma população bastante reduzida e dotado de indústria petrolífera consideravelmente, mas não de todo, nacionalizada. O regime socialista (não confundir com comunista ou bolchevique) de Kadafi fornecia gratuitamente à população serviços de educação, saúde, alimentação e moradia.

Vale para Kadafi o mesmo raciocínio que para Fidel. OK, pode ser ruim ou bem ruim com ele. Mas o que teria sido sem? Cuba era o cassino-puteiro da elite norte-americana. A Líbia era o poço de petróleo fácil e barato do Mediterrâneo e, na ausência de Kadafi, seria o que? Uma Nigéria com seus estupros coletivos e barbáries tribais? O Sudão da fome e concentração de renda? Mereceria outro ditador menos ‘ilustrado’ como Mubarak? Estagnando o Egito por 30 anos. Para não falar de outras ‘democracias’ africanas que fazem Cuba e a Líbia parecerem a Noruega. Triste mesmo é constatar que estes países caminham a passos largos para ser o que talvez tenham chegado perto de evitar: colonia econômica da barbárie sem fronteira capitalista. É a História andando, para trás.

Vamos ver daqui há 10 anos, quiçá, o que vai achar o cidadão líbio médio que hoje se sente libertado, da perspectiva de obtenção desta mesma saúde, educação e alimentação através das forças automáticas e impessoais dos ‘perfeitos mercados’… E sem dúvida, dada a correlação de forças recém estabelecida na Líbia – a vitória de uma guerrilha “libertadora” comprometida até sua última gota de sangue com os interesses corporativos estrangeiros -, será este o fabuloso do país: a ‘democracia liberal burguesa de mercado’, e nenhum outro.

Quarto. Claro está que a questão humanitária foi a última razão da intervenção ocidental na Líbia e a execução filmada de Khadafi veio coroar esta mentira. O mesmo pode ser dito da defesa dos valores ideológicos ocidentais. Mas é evidente que a representação social vem sendo esta, soa muito mais bonito e agradável, especialmente em países que vivem o simulacro de escolha do mercado eleitoral. E o mais impressionante é que não faltam ingênuos e otários acreditando.

Nunca vi o Jornal Nacional chamando de tirano ditador sanguinário o Rei Saudita – aquele mesmo cujo regime impõe uma versão radical da lei islâmica que impede até mesmo as mulheres de dirigir. O mesmo rei que mandou, não tem dois meses, tropas para ajudar na dura repressão da população do Bahrein que tentava fazer a sua ‘primavera’; que enviou tropas para reprimir rebeldes em 2009 no Iemen. Parece que uns são mais tirânicos e ditadores do que outros. Para não dizer das inúmeras ‘boas’ reuniões de líderes ‘democráticos’ ocidentais com Kadafi nos últimos 5 ou 6 anos. Bem, talvez os direitos humanos dos líbios subitamente se tornaram mais importantes que o das mulheres sauditas ou de agitadores do Bahrein ou Iêmen. Curiosa maneira de ver o mundo.

Estamos assistindo ao recrudescimento do imperialismo ou, se preferem, uma nova (a terceira?) onda imperialista. E ela está recomeçando precisamente pela interseção de seus elos mais frágeis, a África e o mundo islâmico.

A razão para isto é simples. O Ocidente em geral e os Estados Unidos em particular continuam drogados-viciados-doentes terminais em petróleo e seu ‘capitalismo liberal’ cada vez mais dependente de ações concretas do Estado para se expandir (Irônico, não?)

Só que necessitam do petróleo alheio, e há um novo monstro geopolítico em aberta ofensiva expansionista: a China. É necessário, portanto, reafirmar o controle ocidentalnorte-americano direto sobre as fontes energéticas, quem sabe mesmo, se preciso for, com o restabelecimento de colônias. Sinal de tempos difíceis à frente.

O regime de Kadafi vinha sendo recebido de braços abertos pelo Ocidente nos últimos anos, como o demonstra as várias fotos que postamos neste artigo.

Mutassim Kadafi (filho) e Hillary Clinton (2009)

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

E então, repentinamente, um levante popular ganha o apoio de todos os que se reaproximavam do “sanguinário ditador” até anteontem. E claro está que sem a intervenção da OTAN, os rebeldes teriam sido rapidamente esmagados. O Ocidente foi, portanto, o fiel da balança e principal responsável pelo resultado. Levando ao poder, curiosamente, vários fiéis seguidores e colaboradores de Kadafi, mas que não são tão nacionalistas ou socialistas como era Kadafi. Porque o problema do Ocidente não é ditadura ou democracia, mas sim, a confiabilidade do ditador, a garantia de seu domínio.

Disto fica, então, a nossa quinta e última contradição. O destino de Kadafi é o dos “amigos” do Ocidente. Porque este só tem, mesmo, um amigo único: $$$

Arnaldo Gordo
Pequena colaboração de José Livramento.

Nenhuma imagem pertence ao Rio Revolta, para saber as fontes consulte  http://www.tineye.com/

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