Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

10 anos do 11 de Setembro

War is Peace

Guerra é Paz!

É um lugar comum falar do 11 de Setembro neste momento em que lembramos dez anos do ocorrido. As mais diversas opiniões já foram dadas sobre o tema, desde americanos ingênuos ou cínicos se perguntando “por que?” ou radicais anti-norte-americanos cegos dizendo que mereceram o que ocorreu. Há ainda os dados comparativos evidenciando o fato que os quase 200 mil mortos no Iraque, Afeganistão e agora, na Líbia, além dos milhares e milhares de desabrigados em países já maltratados pelas agruras terceiro-mundistas, especialmente o Afeganistão, são uma reação extremamente exagerada para o ataque às Torres Gêmeas. Na lógica da destruição e da opressão seria correto, mas não satisfatório ou mesmo digno, pois reduz os ataques e a resposta a eles a mera contagem de corpos comum à qualquer guerra. Não. A Guerra ao Terror não é uma guerra comum.

As evidentes consequências materiais oriundas das retaliações sistemáticas ao 11 de Setembro são, ao menos em curto prazo, irremediáveis, especialmente em Bagdá e, agora, em menor escala, Trípoli, para não falar de Kabul. Três cidades que recuaram pelo menos 30 anos em organização, estrutura e, de maneira geral, progresso, além da incontestável tragédia humana. Kabul em todo caso, já era uma sombra do que fora nos anos 60. Um belo entreposto progressista, tolerante e amigável, com jardins e casas de fumo adoradas por hippies que faziam a “trilha mágica” até Goa na Índia em ônibus e vãs psicodélicas. Mas ela se tornou esta ruína assombrada e grosseira justamente no cego e interesseiro patrocínio dos EUA às forças mais retrógradas do Afeganistão para combater o imperialismo soviético na região, levando o país a décadas de trevas sob o obscurantismo fundamentalista. Tudo em nome da luta contra o “comunismo”. Um enorme esqueleto no armário pra política externa americana.

Porém, as consequências ideológicas do 11 de Setembro são hoje são mais nítidas e assustadoras. Como diria Zizek em “Bem Vindo ao Deserto do Real”, ao invés de acordar os EUA de sua alienação primeiro-mundista, os ataques às Torres ao contrário, mergulharam os EUA no mais alto delírio ideológico imaginado. Reforçou-se como nunca, o antigo “Destino Manifesto” dos EUA, colocando lenha na fogueira que minguava da Missão Civilizatória do Homem Branco e seu papel no mundo. Argumento que no final dos anos 90 se mostrava cada vez mais cínico e evidentemente fora de contexto, especialmente depois que concluiu-se com extrema obviedade, que a história não tinha chegado ao fim (para citar Fukuyama), que a luta de oprimidos e opressores ainda continuava firme e forte, apenas um opressor ambíguo, URSS, havia desaparecido. Vale lembrar que “o povo de Seattle” crescia ano a ano com mega demonstrações nos centros do mundo, nos chamados – pejorativamente – movimentos anti-globalização.

O ‘delírio ideológico’ que os EUA passaram a defender como política e filosofia de Estado é justamente na sua vitimização, no discurso de sua fragilidade e impotência e portanto, na justeza de suas ações pelo mundo, transformadas em ‘reações’ aos inimigos que insistem em não aceitar a (sic) “democracia e os valores universais americanos”. A distorção chega a tal ponto que tudo ganha eufemismos épicos de uma luta justa. Tortura vira ‘interrogatório especial’; invasão de nações soberanas vira “Defesa Preventiva”; contestadores do poder, mesmo pacíficos, viram terroristas e anti-patrióticos. De Julian Assange, uma versão moderna e ‘anabolizada’ de Daniel Elsberg (o militar americano que, do mesmo modo que Assange, vazou à jornais inúmeros documentos secretos evidenciando crimes norte-americanos na Guerra do Vietnã), às ocupações de prefeituras pelo interior dos EUA contra o esmagamento dos sindicatos, ou os recentes “Occupy Wall Street”  (Ocupar Wall Street). Todos são terroristas, todos são inimigos do Estado.

A justeza das ações duras do Estado contra seus inimigos é incontestável, é como se dada por Deus. Alegoria aliás que o ex-presidente estadunidense George W. Bush repetiu dezenas de vezes. Justifica-se a criminalização de movimentos sociais, de contestadores “anti-patrióticos” que se recusam à apoiar a guerra, a tortura e o massacre de nações atrasadas e primitivas. Vale lembrar que este sentimentos de fundamentalismo ocidental, contra todos os dissidentes e esmagamento da esquerda radical em nome de patriotismo, não foram exclusivos dos EUA, mas de todos que abraçam o que se entende por “civilização ocidental”. De Berlusconi à Putim, passando por lideranças belgas, alemãs e francesas, ocorreram variações análogas repetidas na direita e extrema direita européias. Esses sentimentos foram recentemente canalizados nas ações do fundamentalista cristão Brevik contra a esquerda de seu país, ao qual dedicamos um texto semanas atrás.

Isso tudo fica ainda mais cínico quando as próprias lideranças americanas admitem, dez anos depois, que sempre souberam que o Iraque e o Afeganistão nada tinham a ver com os acontecimentos do 11 de Setembro. Assim, posso esticar minha análise da “Doutrina Bush”, esta mudança de paradigma na política norte-americana, para a conclusão que a mesma não passa de uma atualização grosseira do “Destino Manifesto” estadunidense, pensamento fundamental para entender o nacionalismo ianque. Citando a mais banal fonte da internet, o Destino Manifesto poderia ser resumido assim:

“Todo o continente Norte Americano parece estar destinado pela Divina Providência à ser povoado por uma única nação, falando uma única linguagem, professando um sistema religioso e político geral e acostumado a um caráter geral de usos e costumes. Para a alegria comum de todos eles, pela paz e prosperidade, eu creio que é indispensável que eles sejam associados a uma única união federal.” (palavras de John Quincy Adams IN: wikipedia, verbete Manifest Destiny, tradução minha)

Se pudéssemos atualizar as palavras de Adams para a Doutrina Bush e seu bojo ideológico, ficaria mais ou menos assim:

“Todo o planeta parece estar destinado pela Divina Providência a ser povoado pelas ideias de uma única civilização [a ocidental capitalista], falando uma linguagem universal [dinheiro], professando um sistema religioso e político universal [a democracia parlamentar liberal, de preferência judaico-cristã], acostumado a um valor universal de usos e costumes [o consumista american way of life]. Eu acredito que é indispensável que eles sejam associados a um única união federal [os EUA]”

O delírio reside no fato dos EUA e muitos dos seus intelectuais e importantes figuras públicas falarem abertamente em variações destes termos, acreditando piamente ou cinicamente na justeza e no caráter especial da “América” (sic) e no seu papel do mundo como juíz, policial e legislador. Seus porta-vozes oficiais como Donald Rumsfeld, Robert Gates ou Sarah Palin, para citar apenas alguns dos mais cínicos, repetem mentiras, no melhor estilo Goebbels ou no melhor estilo Grande Irmão (Guerra é Paz), como foi o caso das armas de destruição em massa no Iraque.

Além disso, seus arautos não abertamente oficiais, os veículos pára-estatais de propaganda da Doutrina Bush, como a indústria do cinema de Hollywood e a grande mídia americana, em particular a FOXNews, trabalharam incansavelmente para transformar qualquer contestação, por mais insignificante que seja, num ataque direto à civilização americana e seus valores, vitimados por vis assassinos em terrível data. E pior, enobreceram o invasor como um altruísta, exatamente no espírito missionário colonialista europeu na ocupação das américas. Aliás, o 11 de Setembro deixou evidente, em mais de uma dezena de vezes, que Hollywood e a grande mídia americana, ambos agentes privados, são de fato, no termo gramsciano, “aparelhos ideológicos de estado”, seguidamente financiados por dinheiro público, criando pérolas belicistas como Transformers e Guerra ao Terror (este último ganhou Oscar), ambos com largo financiamento do exército norte-americano, repetem incansavelmente a ideologia do Estado reforçando as idéias que este quer passar e conduzir. Sem contar o embedded jornalism dos grandes veículos jornalísticos, brilhantemente denunciado pelo britânico John Pilger no filme “The War You Don’t See” (ainda não traduzido para o português).

A onda ideológica é tão forte no ocidente, que chega ao ponto de levar o presidente Barack Obama, que enviou mais tropas ao Afeganistão, que ordenou assassinatos sem julgamento pela CIA, que bombardeou a Líbia e continuou a destruição do Iraque, a ser premiado com o Nobel da Paz! Guerra é Paz, literalmente. Quando isso ocorreu, imediatamente me lembrei do sanguinário Czar russo Nicolau II, que foi beatificado pela Igreja Ortodoxa Russa como santo, mesmo tendo ordenado pogroms contra judeus, massacrado grevistas, centenas de trabalhadores (Domingo Sangrento) e rivais do seu regime. O criminoso fundamentalista Bin Laden acertou em alguns poucos pontos em seu “Carta à América”, mas esta frase ele pisou na ferida: “Se Sharon é um homem de paz aos olhos de Bush, então nós somos também, homens de paz!!!”. Ariel Sharon é o Carniceiro de Qybia, general de longa data do exército israelense, transformado em Primeiro Ministro nos anos 2000, e homem de confiança de Bush no Oriente Médio, chamado por este de honrado lutador pela paz no oriente médio. A história se repte como farsa.

Porém, voltando especificamente para os EUA e os defensores de sua nova doutrina de dominação mundial, as mudanças ideológicas causadas pelo 11 de Setembro são fundamentais para entender o futuro do mundo. O brilhante – no mais perverso sentido da palavra –  da Guerra ao Terror e da Doutrina Bush é que o Inimigo foi completamente virtualizado, foi transformado numa entidade amorfa. Não existe mais uma nação, uma sede, uma entidade nítida e clara, portanto ele se enquadra no arquétipo ideal do Outro. Todos são culpados até que provem o contrário. Mesmo que um racista, pejorativamente reduza à uma guerra aos islâmicos, o universo de 1.5 bilhões de pessoas é tão grande que se pode-se dizer que ele é virtual, não possui face. E oficialmente nenhuma autoridade – sensata – vai declarar abertamente e honestamente este caráter de sua luta, mesmo que alguns tenham feito isso (Geert Wilders na Holanda por exemplo, líder do – sic – Partido da Liberdade). Se o Inimigo não possui face pode ser adaptado a qualquer um, como for conveniente. É o Outro primordial. Qualquer um que não aceita a imposição, que não aceita o sistema, os mandos do Estado e da Doutrina, será massacrado, eliminado como uma doença, aniquilado fisicamente, como o ditador Saddam, ou aniquilado socialmente, como Bradley Manning.

A analogia da Doutrina Bush com um perigosíssimo neofascismo é evidente. O fato dos EUA usarem Guantánamo – uma colônia militar em território cubano – como sua base para torturas e “interrogatórios especiais” de terroristas é emblemático, lembra automaticamente o fato de que não havia campos de concentração na Alemanha, só nos países vizinhos; como na URSS onde se praticavam as barbáries na Sibéria, onde ninguém estava lá para testemunhar. O “Ato Patriótico” de 2001 é uma afronta à constituição americana e pode ser considerada uma Lei Marcial, similar à que Hitler passou para atacar os comunistas e dissidentes depois do Incêndio do Reichstag, mas graças a campanha de medo na grande mídia, passou batida por 10 anos, nem Obama o revogou. Em defesa da “liberdade” faremos tudo, até acabar com o Estado de Direito.

Mais problemático ainda é constatar que o fascismo clássico também buscava incessantemente se legitimar, diferente por exemplo das ditaduras latino-americanas ou soviéticas, onde não era “necessário” buscar seguidamente a aprovação popular para se manter no poder. O nazismo seguidamente se aclamava como verdadeiramente democrático e o “princípio da aclamação”, onde a população em massa é convocada para aclamar pessoalmente o führer, é uma sofisticação teórica deste elemento, visto que uma vez eleito, o NSDAP não fez outras eleições, botou a constituição em “lei marcial” temporariamente por 13 anos. Em seus livros, Mussolini pregava que a democracia fascista (sic) era muito mais profunda e igualitária que a “farsa liberal” e que o ultrapassado assembleísmo pusilânime dos comunistas. O fascismo clássico nunca deixou de repetir que estava defendendo a maioria, protegendo a população da invasão de elementos que só queriam o mal da comunidade nacional, que conspiravam contra a ‘saúde’ da pura e ingênua sociedade ocidental, oprimida por um poderoso inimigo externo cosmopolita, invisível mas poderoso.

A analogia com o antissemitismo de livros como o apócrifo “Protocolos dos Sábios do Sião” é evidente e quanto mais se nega a conspiração da Al Qaeda e de inimigos dos EUA mas ela se torna forte e é necessária o endurecimento do Estado. Também para o fascismo clássico a idéia do inimigo é essencial. A importância de um inimigo incansável e fortemente interiorizado na sociedade, corrompendo-a e ameaçando-a frequentemente é um traço, se não uma condição sine qua non, da doutrina do medo do fascismo. A grande diferença é que o fascismo atual consegue ser ainda mais cínico e potencialmente muito mais destrutivo, apoiado por aparelho ideológico muito mais sofisticado. Afinal, se a nação mais rica e com o maior exército do mundo cair definitivamente num obscurantismo fundamentalista, militarizado e  com a brutalidade típica do fascismo clássico, teremos a maior tirania já imaginada.

José Livramento

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