Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: outubro 2011

Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

De uns meses para cá voltou com força às manchetes o dragão da corrupção. Enxurrada de capas bombásticas em vários jornais, denúncias retumbantes, espionagem em hotéis, todo o tipo de acusação. As vassourinhas voltaram às manchetes. Em geral, e era de se esperar, as denúncias se focam no governo e seus aliados.Não é novidade, lembrando dos massacres públicos nos diários e semanários em 2004, que quase derrubaram o ex-presidente Lula, denúncias que até hoje não foram muito adiante por falta de provas, além da baixaria das últimas eleições (tópico abordado aqui em vários posts), a grande imprensa em uníssono espanca diariamente o governo e seus aliados.

Na grande mídia a exceção é a Record que, apesar de implicitamente apoiar o governo, agregou jornalistas um pouco mais sérios e menos elitistas nos últimos tempos, criando reportagens investigativas com o mínimo teor republicano e equilíbrio, variando entre crítica e defesa do governo. Seu principal mérito é ser o único agente grande da imprensa, sistematicamente atacando a FIFA e a CBF, ambos envolvidos em falcatruas esportivas muito maiores que o ministério do PseudoB, PCdoB quero dizer. Embora deixe de lado as falcatruas da Universal… coisa para outro post.

Mas se estamos falando de como a corrupção aparece na mídia, estamos falando do jogo das elites. É exatamente disso que se trata na verdade toda a discussão sobre a corrupção na imprensa. O Brasil vive um momento de transição de elites, para o bem ou para o mal. O PT nos últimos dez anos se consolidou como uma nova elite política, apoiada por novos setores da elite econômica brasileira, além das tradicionais bases urbanas médio-classistas que já o acompanhavam desde os anos 90.

O capitalismo industrial nacional esmagado pelo fundamentalismo liberal de mercado do PSDB-PFL acabou por abandonar o ‘projeto‘ de país que os demotucanos queriam, embarcando no projeto mais ‘nacionalista’ do PT. Arriscada de ser quase destruída durante 1994-2002, com a abertura escancarada do nosso mercado sem qualquer política de estruturação e competitividade real para a pequena e média empresa nacional, esse setor importante, que emprega a maior parte da mão de obra, passou a apoiar os petistas. A aliança de Lula com o falecido industrial Alencar, apenas evidenciava esse fato.

Do outro lado, o PT teve a genial iniciativa de fazer a expansão econômica brasileira baseada no crédito bancário. O partido compreendeu exatamente o que fizeram os norte-americanos depois de sua crise econômica de 1979 e trataram de expandir a renda através da garantia de crédito – relativamente – barato aos trabalhadores e não no aumento real dos salários, como o keynesianismo tradicional pregaria. Nesse sentido, o setor financeiro brasileiro adorou a idéia, e foi algo que os demotucanos jamais conseguiram executar, pois estavam muito mais voltados para o setor financeiro especulativo e de commodities exportadores do que o de crédito popular e formação de mercado interno. Não é por acaso que Lula chamou seus amigos banqueiros e empresários, patrocinadores de campanha, de ‘camaradas’ em ocasião de um evento da Fiesp. A expansão do crédito e consequentemente de bancos como Itaú e Bradesco no país foi impressionante. Não há camarada melhor [para eles]!

Além disso, soma-se que as medidas anticíclicas do governo, citadas pelo Rio Revolta aqui, seguraram a crise financeira nacional e permitiram a expansão do emprego e da renda média nacional, levando mais setores das classes baixas à apoiar o PT. Sem contar os pequenos incentivos paliativos tipo Bolsa Família (o nosso food-stamp) e Minha Casa Minha Vida, ambos dando sólidas bases de eleitorado baixa renda ao PT. País abandonado de tal forma que a mera inserção econômica de um auxílio-alimentação irrisório (especialmente em relação ao PIB) eleva em médio prazo toda a renda das classes mais baixas e consequentemente de toda a economia.

Por outro lado, já era evidente para qualquer um mais atento, que o PSDB estava mais interessado na velha elite industrial paulista e na elite agro-exportadora, latifundiária, ambos largamente baseados no setor de commodities e mercado financeiro especulativo, setores que sempre os apoiaram e que podemos chamar de ‘velha elite’ nacional. Não foi a toa que partidos que sempre caminharam do lado dele foram PFL-DEM, herdeiro dos latifundiários e da velha burguesia sulista (como Bornhausen) e o PPB (hoje PP), da tradicional burguesia, como Maluf e Amin em Santa Catarina. Além, é claro, do PMDB, eterno partido do poder, fisiologismo no seu mais alto grau. Assim, o PSDB nunca teve preocupação real com o desenvolvimento do capitalismo nacional ou com a expansão do mercado interno. Algo fatal, especialmente em momentos de crise mundial.

Então, voltando ao tema do presente texto.

No bojo desta troca de elites no poder brasileiro que vivemos, vemos a velha elite exportadora, em franca decadência, vociferar através dos principais aparelhos midiáticos que ainda controla, contra o novo poder constituído. Isso também não é novidade. Quando esta mesma elite foi preterida pelo trabalhismo na Era Vargas e depois no seu ápice com Jango, ela vociferou tanto que botou os tanques na rua contra o governo. Mas antes dos tanques vieram as marchas da família e as vassourinhas contra a corrupção. Por isso que citamos o lacerdismo com frequência, especialmente quando se fala de José Serra.

Essa elite arcaica, atrasada e acostumada a estar eternamente com o poder absoluto do país, tão falada em nosso blog (aquiaqui e aqui), não tem um projeto nacional definido, nada substancial, especialmente agora em crise agonizante do neoliberalismo em sua própria matriz. Nela o oportunismo reina. Assim, a única bandeira que a restou foi a do combate à corrupção, da moralidade e da acusação do ‘mar-de-lama’ que vivemos, não importa que quase a metade dos que estão no poder agora, são exatamente as mesmas forças que estavam quando o poder era o ‘tradicional’. A moralidade, muitas vezes, dá as mãos ao fascismo nacional, como denunciamos aqui, e o ‘combate’ a corrupção atende perfeitamente a agenda de qualquer elite que não esteja no poder. “A corrupção é sempre maior agora do que era quando nós governávamos”. Lema elitista por excelência, cansei de ouvir isso em relação aos anos militares e os anos de ‘privataria’ de FHC.

Mas não nos enganemos, a corrupção é sim um evidente problema. Ninguém pode negar isso. Porém, a raiz de nossa corrupção não é de uma fraca moralidade do PT ou de maneira filosófica, de como o ‘poder corrompe’ quem chega lá em cima. Outra frase que ouvimos por aí com frequência. Nosso problema de corrupção é histórico e altamente arraigado em todos os setores da sociedade, do empresário que dá propina pro fiscal até o assessor preso com dinheiro na cueca. A corrupção estava aí bem antes do PT, aliás, por mais que pareça absurdo, é o governo que tem mais combatido a corrupção em décadas. A Polícia Federal nunca prendeu tanto e pela primeira vez na história, um banqueiro foi preso e algemado por corrupção. Embora o judiciário tenha decidido ser “republicano” num momento tão conveniente e embarreirou os ‘excessos’ da ABIN e PF, soltando Daniel Dantas pouco depois. Além de que, se formos friamente nos números, DEM (PFL) e PSDB lideram absolutos no ranking de cassados pela Ficha Limpa. O mar-de-lama mais grosso que a mídia mostra agora, é apenas rebuliço dos arautos do conservadorismo brasileiro.

A origem da corrupção brasileira é uma fraca república. E ela é fraca pois jamais eliminou sua elite tradicional, agro-exportadora, vinculada ao capital estrangeiro. Uma elite que olha para fora, manda os filhos para Europa e EUA para estudar e passar férias; que acha tudo maravilhoso no Primeiro Mundo, admira ricos sendo presos na Alemanha e EUA,  mas esquece como e o que foi fundamental para o consolidá-lo como tal: completa eliminação da mentalidade do Antigo Regime. Seja em repúblicas como França, EUA e Alemanha, ou reinos como Inglaterra, Japão e Dinamarca. O Antigo Regime e sua mentalidade só foram destruídos à força, com muita prisão, morte, deportação e em muitos casos, com guerra. Como um profundo ‘aggiornamento’ das elites à nova mentalidade. No Brasil, jamais expulsamos, matamos e prendemos os bandidos nobiliárquicos do nosso passado. Nossa república foi fundada pelos mesmos nobres e militares que estavam no Império e na Colônia, com os mesmos costumes. Nosso absolutismo nobiliárquico foi suplantado pela república nobiliárquica. Mudaram as estruturas, mas o fantasma das idéias persistiu. Já dissemos isso milhões de vezes aqui no blog.

Então, clamar por combate a corrupção sem entrar neste mérito fundamental é ser usado pelo oportunista de plantão para atuar politicamente contra a elite que atualmente manda.

Além disso, temos outra questão fundamental. Mesmo que peguemos como verdadeiro o dado da última edição da revista Veja – porta-voz das elites tradicionais e conservadoras -, em que quase 3% do nosso PIB é perdido para a corrupção e que esta é a razão primordial para o nosso subdesenvolvimento e atraso, chegamos a um evidente problema: 97% do nosso PIB é ‘bem utilizado’ e ainda assim vivemos nesta estagnação estrutural e subdesenvolvida.
É claro então, que esse argumento é de uma falácea impressionante. Se agora vivemos no nosso ‘pior momento de corrupção da história’ e ainda assim, utilizamos 97% do nosso PIB sem roubos, o problema do nosso subdesenvolvimento não é a corrupção. Ela é um problema sério do ponto de vista do valor bruto perdido, mas marginal em nossa estrutura econômica e desenvolvimento. Se é para falar de percentagens, a grande mídia não toca no assunto de que amortização de dívida e juros comem mais de 30% do nosso PIB. TRINTA POR CENTO. Pelo menos 10 vezes mais dinheiro escorre pelo ralo financeirista do que perdidos na corrupção. E em termos de impostos, 44% do que pagamos, vai direto para pagamento destes juros e amortização de dívidas antigas, algumas muitas vezes pagas em relação ao montante emprestado. Como dizem: “juros compostos são a maior arma de destruição em massa já inventada”. E, para citar jargões do conservadorismo anti-imposto: se nós trabalhamos 147 dias por ano apenas para pagar impostos ao Estado, 64 são dias inteiros que trabalhamos para pagar os bancos dívidas que já pagamos. Isso sim é que é um crime.

O problema muito menos é o chamado ‘excesso de Estado’ que o establishment neoliberal costuma insistir e, frequentemente, associando excesso de estado à corrupção. Este jargão ultra neoliberal ainda é insistente por aqui, mas agora vai contra a maré keynesiana que parece pegar os conservadores do mundo neste momento. Ele ignora completamente que foi justamente o oba-oba do setor privado norte-americano, altamente corrupto, que destruiu o mercado imobiliário e foi estopim da última crise, num país altamente desregulamentado como os EUA.

E ainda vale lembrar que foi precisamente a ação anti-cíclica estatal do governo Lula, absurdamente criticada por ‘gênios’ como Miriam Leitão, que salvou o Brasil do completo desastre econômico que o resto do mundo viveu a partir da Crise de 2008. “Excesso de Estado” que recentemente elevou a taxa de importação de automóveis, sob protestos retumbantes dos jornalões e do DEM, levando a Hyundai a anunciar a abertura de uma montadora aqui no Brasil. Aula primária de protecionismo que muitos neobobos parecem ter faltado.
Voltando novamente ao ponto. A corrupção brasileira é estrutural e arraigada na sociedade justamente porque confrontamos um ideário relativamente republicano (constitucional) – ainda que muito superficial -, com uma realidade estrutural de relações de poder altamente clientelista, coronelista, enfim, de Antigo Regime. Na história do ‘constitucionalismo’ (Revolução Francesa), as críticas burguesas (no sentido clássico) ao Antigo Regime eram absurdamente focadas neste clientelismo, favoritismo, personalismo e privilégios de classe (nobiliárquica). Para a burguesia em ascensão, o sistema nobiliárquico era corrupto e destrutivo.

Desta maneira que no Brasil, assumindo o fato de que nossa estrutura de estado é de Antigo Regime, nobiliárquica, temos a preocupante constatação de que a corrupção brasileira está engendrada em lei. Ela não é uma ‘simples’ falcatrua de roubar aqui é ali, estimulada pela falta de punição. A própria falta de punição é legalmente estabelecida e organicamente construída dentro das relações entre os poderes estatais para que não ataque e afete as elites estabelecidas, os ‘nobres’.

A corrupção brasileira é uma canetada de um prefeito criando uma estrada pública no meio do terreno de um ‘camarada’ seu; é a relação de troca de favores econômicos entre lobistas e senadores; é a escolha de certas empresas para execução de tais obras (as cartas marcadas tão corriqueiras em contratos públicos); é a escolha de uma matriz de transporte como o automóvel em detrimento do trem; é a escolha de uma política de juros que favorece uma pequena elite financeira, botando imensos contingentes de capital público sob controle direto do setor privado; é a reestruturação e atualização tecnológica de uma estatal com dinheiro público, para pouco tempo depois ser privatizada como ‘ineficaz’, ou pior, o sucateamento deliberado de setores anteriormente eficazes, justificando assim sua venda; é a concessão à indústria pesada em locais anteriormente proibidos; é a construção de açudes ‘públicos’ em terrenos de amigos de um deputado ou prefeito qualquer do interior do nordeste; a assinatura em massa de certas revistas em detrimento de outras com dinheiro público; é a remoção de famílias pobres inteiras para construção de condomínios de luxo; é a escolha deliberada de um prefeito de não fortalecer a escola pública em favorecimento do setor particular; são empreiteiras bancando políticos para que os favoreçam quando eleitos… Enfim, poderia me estender indefinidade com exemplos de práticas legalizadas que são altamente anti-republicanas.

Estas formas legalizadas, institucionalizadas, são representações muito mais sérias e acachapantes de corrupção do que qualquer desvio, roubo ou enriquecimento ilícito. De pequena canetada em pequena canetada, nosso desenvolvimento inteiro é engessado pelo funcionamento nobiliárquico elitista de nossa democracia. Roubar e desviar dinheiro é crime, escravizar uma nação inteira, é lei!

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Kadafi está morto

Kadafi e antigos amigos (2009).

Kadafi está morto. Parabens aos Líbios!

O lado positivo de eventos históricos excepcionais como o que o mundo presenciou no último dia 20 de Outubro, é que eles expõem com toda a clareza e sem rodeios as grosseiras fraudes e contradições do lamentável e vergonhoso discurso político hegemônico que correntemente domina o imaginário das sociedades ocidentais e daquelas que, como a brasileira, lhe são periféricas.

Neste dia, Muammar Kadafi, líder líbio, foi assassinado (pelos vídeos, foi executado mesmo). Não importa, e jamais saberemos ao certo, quem apertou o gatilho. Para todos os fins, foi assassinado por uma coalizão de potências interventoras estrangeiras ocidentais com elementos internos da sociedade líbia.

O que Rio Revolta pensa deste assassinato? Não nos interessa fazer qualquer juízo de valor a respeito de sua morte. Simplesmente aconteceu e, como dado da realidade, requer nossa análise fria.

Tampouco nos importa saber se Kadafi era ou não um líder legítimo para os líbios. Rio Revolta não acredita minimamente que as falidas instituições liberais burguesas (especialmente em países que se quer tiveram revoluções constitucionalistas significativas), baseadas em idealismos superficiais como “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido” e o “voto” como genuína expressão da vontade popular, sejam ponto irrefutável de defesa. Portanto, para nós, nada significa que ele não tenha sido eleito por esse sistema.

Poder legítimo é aquele que detém o monopólio do uso consentido da violência física numa dada sociedade por longos períodos de tempo. Repito, USO CONSENTIDO. Portanto, da nossa perspectiva, Kadafi era o líder legítimo da Líbia até o início da revolta, quando deixou de ser, porque a partir de então nem detinha mais o monopólio nem era consentido como seu detentor. Não é por acaso que na Líbia, assim como no Egito, os ‘governos de transição’ são compostos fundamentalmente por elites militares e políticas que já estavam no poder anteriormente, algumas fiéis escudeiras de seus recém-depostos líderes. O consentimento de seus pares acabou.

Vale notar, portanto, que nossa concepção de “legitimidade” não se inclina para juízos de valor idealistas, mas apenas para dados que por ventura possam ser apreendidos da realidade.

Tampouco acreditamos neste discurso fácil e falacioso que vê no “desejo de democracia e liberdade” dos povos árabes a motivação final para a rebelião contra seus poderes constituídos. Para começar, não sabemos o que estas idéias significam na cabeça de um líbio ou egípcio contemporâneo. Além do que, é difícil acreditar que um dos principais núcleos rebeldes anti-Kadafi, descendentes e seguidores de Idris Sinnassi, o monarca absolutista pan-islâmico, deposto ainda em 1959 por republicanos liderados pelo então ‘progressista’ e nacionalista Kadafi, sejam defensores da liberdade e da democracia.

A realidade é por demais complexa para ser simplificada em dicotomias bom x mal, liberdade x tirania. Rio Revolta acredita piamente que estas rebeliões tem fundamentos multicausais, e muitas, se não a maioria destas causas, são e permanecerão sendo intangíveis. O que é possível fazer é traçar cenários aqui e acolá, considerando questões de teoria política geral e da história daqueles povos. Portanto, quanto a este patético discurso enlatado, otimista e autorreferenciado, com requintes fukuyamistas de “fim da história”, o deixamos para “cientistas políticos” como William Waack ou, ainda “cineastas” como Arnaldo Jabor.

O que interessa para nós é colocar as brutais contradições que emergem deste fato já neste exato momento, e as que emergirão no futuro.

Kadafi e Tony Blair em 2007, na "African Farewell" tour do inglês.

Primeiramente, não podemos enxergar o mundo sob o prisma de filmes de velho oeste hollywoodianos. Não cremos na existência de mocinhos no filme da história da humanidade. Cabe, portanto, distinguir entre os bandidos e, arbitrariamente, escolher o seu preferido. Ou não.

Segundo, Kadafi parece ter tido um destino, de certa forma, merecido. Para dizer isso, pensamos em quantos milhares devem ter sofrido mortes igualmente sórdidas e humilhantes por sua pura e simples vontade e caprichos. Mas isto não resolve absolutamente o problema, ao contrário, o aprofunda. Porque sua morte não foi um ato de “justiça”, mas sim, de vingança dos vitoriosos. Vale relembrar que das principais forças rebeldes são herdeiras de forças que Kadafi depôs, 40 anos atrás.

Não adianta Kadafi ir embora enquanto Bush (pai e filho), Clinton, Obama, Blair, Brown, Cameron, Chirac, Sarkozy etc etc etc etc continuam circulando por aí. Isso para ficar apenas nas três potências que, efetivamente, invadiram a Líbia: EUA, Inglaterra e França (sempre eles, sempre eles….).

Não é só porque Kadafi perdeu que se transformou num criminoso de guerra contra a humanidade. Isto ele já era, de longa data. Mas os outros também são, e infelizmente continuarão por ai. E o pior, representados midiática e socialmente como os defensores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Mais impressionante ainda, um deles, o Sr. Barack “Hope” Obama, ganhou um Nobel da Paz… Especializando-se em “assassinatos seletivos”: Bin Laden, Al-Alawiki (este um cidadão americano, trazendo à lembrança os assassinatos igualmente ‘seletivos’ da CIA contra dissidentes internos norte- americanos nos anos 50 e 60). E agora, Kadafi. Mas quem será o próximo?

Mas Obama, no fundo, é um ‘nice guy’. Ele mata para que acabem as mortes. Faz a guerra para que acabem as guerras. Guerra é Paz, dissemos no nosso último post. Ah, bom!

Enquanto isso, não cria um mísero emprego para o proletário norte-americano. A idéia de torcer para que perca a reeleição em 2012 bem que seduziria Rio Revolta, não fosse a disputa contra um candidato qualquer do Tea Party republicano… Neste caso, já que é seis por meia dúzia, melhor que tudo continue como está. É como dizem da diferença do republicano pros democratas: os últimos pelo menos usam vaselina. “Quer me foder, me beija porra”.

Terceiro, apesar dos pesares – da ‘tirania’, ‘falta de democracia’ e toda a lenga-lenga hipócrita midiática – a Líbia era, até poucos meses atrás, de certo, o país de maior qualidade de vida da África e do mundo islâmico. Dados do IDH da ONU. Aliás, tomado por este mesmo índice, era um país em torno de 30 anos mais avançado que o livre e democrático Brasil, para não falar das outras 150 ‘democracias’ do mundo em completa miséria. Juscelino Kubitschek – o conservador Seu Nonô – uma vez, sabiamente, disse: “Liberdade não é mais do que uma palavra vazia para os que vivem na miséria”…

O segredo para o relativo sucesso da Líbia, isto era relativamente simples. Um país posicionado sobre um enorme lago de petróleo, com uma população bastante reduzida e dotado de indústria petrolífera consideravelmente, mas não de todo, nacionalizada. O regime socialista (não confundir com comunista ou bolchevique) de Kadafi fornecia gratuitamente à população serviços de educação, saúde, alimentação e moradia.

Vale para Kadafi o mesmo raciocínio que para Fidel. OK, pode ser ruim ou bem ruim com ele. Mas o que teria sido sem? Cuba era o cassino-puteiro da elite norte-americana. A Líbia era o poço de petróleo fácil e barato do Mediterrâneo e, na ausência de Kadafi, seria o que? Uma Nigéria com seus estupros coletivos e barbáries tribais? O Sudão da fome e concentração de renda? Mereceria outro ditador menos ‘ilustrado’ como Mubarak? Estagnando o Egito por 30 anos. Para não falar de outras ‘democracias’ africanas que fazem Cuba e a Líbia parecerem a Noruega. Triste mesmo é constatar que estes países caminham a passos largos para ser o que talvez tenham chegado perto de evitar: colonia econômica da barbárie sem fronteira capitalista. É a História andando, para trás.

Vamos ver daqui há 10 anos, quiçá, o que vai achar o cidadão líbio médio que hoje se sente libertado, da perspectiva de obtenção desta mesma saúde, educação e alimentação através das forças automáticas e impessoais dos ‘perfeitos mercados’… E sem dúvida, dada a correlação de forças recém estabelecida na Líbia – a vitória de uma guerrilha “libertadora” comprometida até sua última gota de sangue com os interesses corporativos estrangeiros -, será este o fabuloso do país: a ‘democracia liberal burguesa de mercado’, e nenhum outro.

Quarto. Claro está que a questão humanitária foi a última razão da intervenção ocidental na Líbia e a execução filmada de Khadafi veio coroar esta mentira. O mesmo pode ser dito da defesa dos valores ideológicos ocidentais. Mas é evidente que a representação social vem sendo esta, soa muito mais bonito e agradável, especialmente em países que vivem o simulacro de escolha do mercado eleitoral. E o mais impressionante é que não faltam ingênuos e otários acreditando.

Nunca vi o Jornal Nacional chamando de tirano ditador sanguinário o Rei Saudita – aquele mesmo cujo regime impõe uma versão radical da lei islâmica que impede até mesmo as mulheres de dirigir. O mesmo rei que mandou, não tem dois meses, tropas para ajudar na dura repressão da população do Bahrein que tentava fazer a sua ‘primavera’; que enviou tropas para reprimir rebeldes em 2009 no Iemen. Parece que uns são mais tirânicos e ditadores do que outros. Para não dizer das inúmeras ‘boas’ reuniões de líderes ‘democráticos’ ocidentais com Kadafi nos últimos 5 ou 6 anos. Bem, talvez os direitos humanos dos líbios subitamente se tornaram mais importantes que o das mulheres sauditas ou de agitadores do Bahrein ou Iêmen. Curiosa maneira de ver o mundo.

Estamos assistindo ao recrudescimento do imperialismo ou, se preferem, uma nova (a terceira?) onda imperialista. E ela está recomeçando precisamente pela interseção de seus elos mais frágeis, a África e o mundo islâmico.

A razão para isto é simples. O Ocidente em geral e os Estados Unidos em particular continuam drogados-viciados-doentes terminais em petróleo e seu ‘capitalismo liberal’ cada vez mais dependente de ações concretas do Estado para se expandir (Irônico, não?)

Só que necessitam do petróleo alheio, e há um novo monstro geopolítico em aberta ofensiva expansionista: a China. É necessário, portanto, reafirmar o controle ocidentalnorte-americano direto sobre as fontes energéticas, quem sabe mesmo, se preciso for, com o restabelecimento de colônias. Sinal de tempos difíceis à frente.

O regime de Kadafi vinha sendo recebido de braços abertos pelo Ocidente nos últimos anos, como o demonstra as várias fotos que postamos neste artigo.

Mutassim Kadafi (filho) e Hillary Clinton (2009)

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

E então, repentinamente, um levante popular ganha o apoio de todos os que se reaproximavam do “sanguinário ditador” até anteontem. E claro está que sem a intervenção da OTAN, os rebeldes teriam sido rapidamente esmagados. O Ocidente foi, portanto, o fiel da balança e principal responsável pelo resultado. Levando ao poder, curiosamente, vários fiéis seguidores e colaboradores de Kadafi, mas que não são tão nacionalistas ou socialistas como era Kadafi. Porque o problema do Ocidente não é ditadura ou democracia, mas sim, a confiabilidade do ditador, a garantia de seu domínio.

Disto fica, então, a nossa quinta e última contradição. O destino de Kadafi é o dos “amigos” do Ocidente. Porque este só tem, mesmo, um amigo único: $$$

Arnaldo Gordo
Pequena colaboração de José Livramento.

Nenhuma imagem pertence ao Rio Revolta, para saber as fontes consulte  http://www.tineye.com/

10 anos do 11 de Setembro

War is Peace

Guerra é Paz!

É um lugar comum falar do 11 de Setembro neste momento em que lembramos dez anos do ocorrido. As mais diversas opiniões já foram dadas sobre o tema, desde americanos ingênuos ou cínicos se perguntando “por que?” ou radicais anti-norte-americanos cegos dizendo que mereceram o que ocorreu. Há ainda os dados comparativos evidenciando o fato que os quase 200 mil mortos no Iraque, Afeganistão e agora, na Líbia, além dos milhares e milhares de desabrigados em países já maltratados pelas agruras terceiro-mundistas, especialmente o Afeganistão, são uma reação extremamente exagerada para o ataque às Torres Gêmeas. Na lógica da destruição e da opressão seria correto, mas não satisfatório ou mesmo digno, pois reduz os ataques e a resposta a eles a mera contagem de corpos comum à qualquer guerra. Não. A Guerra ao Terror não é uma guerra comum.

As evidentes consequências materiais oriundas das retaliações sistemáticas ao 11 de Setembro são, ao menos em curto prazo, irremediáveis, especialmente em Bagdá e, agora, em menor escala, Trípoli, para não falar de Kabul. Três cidades que recuaram pelo menos 30 anos em organização, estrutura e, de maneira geral, progresso, além da incontestável tragédia humana. Kabul em todo caso, já era uma sombra do que fora nos anos 60. Um belo entreposto progressista, tolerante e amigável, com jardins e casas de fumo adoradas por hippies que faziam a “trilha mágica” até Goa na Índia em ônibus e vãs psicodélicas. Mas ela se tornou esta ruína assombrada e grosseira justamente no cego e interesseiro patrocínio dos EUA às forças mais retrógradas do Afeganistão para combater o imperialismo soviético na região, levando o país a décadas de trevas sob o obscurantismo fundamentalista. Tudo em nome da luta contra o “comunismo”. Um enorme esqueleto no armário pra política externa americana.

Porém, as consequências ideológicas do 11 de Setembro são hoje são mais nítidas e assustadoras. Como diria Zizek em “Bem Vindo ao Deserto do Real”, ao invés de acordar os EUA de sua alienação primeiro-mundista, os ataques às Torres ao contrário, mergulharam os EUA no mais alto delírio ideológico imaginado. Reforçou-se como nunca, o antigo “Destino Manifesto” dos EUA, colocando lenha na fogueira que minguava da Missão Civilizatória do Homem Branco e seu papel no mundo. Argumento que no final dos anos 90 se mostrava cada vez mais cínico e evidentemente fora de contexto, especialmente depois que concluiu-se com extrema obviedade, que a história não tinha chegado ao fim (para citar Fukuyama), que a luta de oprimidos e opressores ainda continuava firme e forte, apenas um opressor ambíguo, URSS, havia desaparecido. Vale lembrar que “o povo de Seattle” crescia ano a ano com mega demonstrações nos centros do mundo, nos chamados – pejorativamente – movimentos anti-globalização.

O ‘delírio ideológico’ que os EUA passaram a defender como política e filosofia de Estado é justamente na sua vitimização, no discurso de sua fragilidade e impotência e portanto, na justeza de suas ações pelo mundo, transformadas em ‘reações’ aos inimigos que insistem em não aceitar a (sic) “democracia e os valores universais americanos”. A distorção chega a tal ponto que tudo ganha eufemismos épicos de uma luta justa. Tortura vira ‘interrogatório especial’; invasão de nações soberanas vira “Defesa Preventiva”; contestadores do poder, mesmo pacíficos, viram terroristas e anti-patrióticos. De Julian Assange, uma versão moderna e ‘anabolizada’ de Daniel Elsberg (o militar americano que, do mesmo modo que Assange, vazou à jornais inúmeros documentos secretos evidenciando crimes norte-americanos na Guerra do Vietnã), às ocupações de prefeituras pelo interior dos EUA contra o esmagamento dos sindicatos, ou os recentes “Occupy Wall Street”  (Ocupar Wall Street). Todos são terroristas, todos são inimigos do Estado.

A justeza das ações duras do Estado contra seus inimigos é incontestável, é como se dada por Deus. Alegoria aliás que o ex-presidente estadunidense George W. Bush repetiu dezenas de vezes. Justifica-se a criminalização de movimentos sociais, de contestadores “anti-patrióticos” que se recusam à apoiar a guerra, a tortura e o massacre de nações atrasadas e primitivas. Vale lembrar que este sentimentos de fundamentalismo ocidental, contra todos os dissidentes e esmagamento da esquerda radical em nome de patriotismo, não foram exclusivos dos EUA, mas de todos que abraçam o que se entende por “civilização ocidental”. De Berlusconi à Putim, passando por lideranças belgas, alemãs e francesas, ocorreram variações análogas repetidas na direita e extrema direita européias. Esses sentimentos foram recentemente canalizados nas ações do fundamentalista cristão Brevik contra a esquerda de seu país, ao qual dedicamos um texto semanas atrás.

Isso tudo fica ainda mais cínico quando as próprias lideranças americanas admitem, dez anos depois, que sempre souberam que o Iraque e o Afeganistão nada tinham a ver com os acontecimentos do 11 de Setembro. Assim, posso esticar minha análise da “Doutrina Bush”, esta mudança de paradigma na política norte-americana, para a conclusão que a mesma não passa de uma atualização grosseira do “Destino Manifesto” estadunidense, pensamento fundamental para entender o nacionalismo ianque. Citando a mais banal fonte da internet, o Destino Manifesto poderia ser resumido assim:

“Todo o continente Norte Americano parece estar destinado pela Divina Providência à ser povoado por uma única nação, falando uma única linguagem, professando um sistema religioso e político geral e acostumado a um caráter geral de usos e costumes. Para a alegria comum de todos eles, pela paz e prosperidade, eu creio que é indispensável que eles sejam associados a uma única união federal.” (palavras de John Quincy Adams IN: wikipedia, verbete Manifest Destiny, tradução minha)

Se pudéssemos atualizar as palavras de Adams para a Doutrina Bush e seu bojo ideológico, ficaria mais ou menos assim:

“Todo o planeta parece estar destinado pela Divina Providência a ser povoado pelas ideias de uma única civilização [a ocidental capitalista], falando uma linguagem universal [dinheiro], professando um sistema religioso e político universal [a democracia parlamentar liberal, de preferência judaico-cristã], acostumado a um valor universal de usos e costumes [o consumista american way of life]. Eu acredito que é indispensável que eles sejam associados a um única união federal [os EUA]”

O delírio reside no fato dos EUA e muitos dos seus intelectuais e importantes figuras públicas falarem abertamente em variações destes termos, acreditando piamente ou cinicamente na justeza e no caráter especial da “América” (sic) e no seu papel do mundo como juíz, policial e legislador. Seus porta-vozes oficiais como Donald Rumsfeld, Robert Gates ou Sarah Palin, para citar apenas alguns dos mais cínicos, repetem mentiras, no melhor estilo Goebbels ou no melhor estilo Grande Irmão (Guerra é Paz), como foi o caso das armas de destruição em massa no Iraque.

Além disso, seus arautos não abertamente oficiais, os veículos pára-estatais de propaganda da Doutrina Bush, como a indústria do cinema de Hollywood e a grande mídia americana, em particular a FOXNews, trabalharam incansavelmente para transformar qualquer contestação, por mais insignificante que seja, num ataque direto à civilização americana e seus valores, vitimados por vis assassinos em terrível data. E pior, enobreceram o invasor como um altruísta, exatamente no espírito missionário colonialista europeu na ocupação das américas. Aliás, o 11 de Setembro deixou evidente, em mais de uma dezena de vezes, que Hollywood e a grande mídia americana, ambos agentes privados, são de fato, no termo gramsciano, “aparelhos ideológicos de estado”, seguidamente financiados por dinheiro público, criando pérolas belicistas como Transformers e Guerra ao Terror (este último ganhou Oscar), ambos com largo financiamento do exército norte-americano, repetem incansavelmente a ideologia do Estado reforçando as idéias que este quer passar e conduzir. Sem contar o embedded jornalism dos grandes veículos jornalísticos, brilhantemente denunciado pelo britânico John Pilger no filme “The War You Don’t See” (ainda não traduzido para o português).

A onda ideológica é tão forte no ocidente, que chega ao ponto de levar o presidente Barack Obama, que enviou mais tropas ao Afeganistão, que ordenou assassinatos sem julgamento pela CIA, que bombardeou a Líbia e continuou a destruição do Iraque, a ser premiado com o Nobel da Paz! Guerra é Paz, literalmente. Quando isso ocorreu, imediatamente me lembrei do sanguinário Czar russo Nicolau II, que foi beatificado pela Igreja Ortodoxa Russa como santo, mesmo tendo ordenado pogroms contra judeus, massacrado grevistas, centenas de trabalhadores (Domingo Sangrento) e rivais do seu regime. O criminoso fundamentalista Bin Laden acertou em alguns poucos pontos em seu “Carta à América”, mas esta frase ele pisou na ferida: “Se Sharon é um homem de paz aos olhos de Bush, então nós somos também, homens de paz!!!”. Ariel Sharon é o Carniceiro de Qybia, general de longa data do exército israelense, transformado em Primeiro Ministro nos anos 2000, e homem de confiança de Bush no Oriente Médio, chamado por este de honrado lutador pela paz no oriente médio. A história se repte como farsa.

Porém, voltando especificamente para os EUA e os defensores de sua nova doutrina de dominação mundial, as mudanças ideológicas causadas pelo 11 de Setembro são fundamentais para entender o futuro do mundo. O brilhante – no mais perverso sentido da palavra –  da Guerra ao Terror e da Doutrina Bush é que o Inimigo foi completamente virtualizado, foi transformado numa entidade amorfa. Não existe mais uma nação, uma sede, uma entidade nítida e clara, portanto ele se enquadra no arquétipo ideal do Outro. Todos são culpados até que provem o contrário. Mesmo que um racista, pejorativamente reduza à uma guerra aos islâmicos, o universo de 1.5 bilhões de pessoas é tão grande que se pode-se dizer que ele é virtual, não possui face. E oficialmente nenhuma autoridade – sensata – vai declarar abertamente e honestamente este caráter de sua luta, mesmo que alguns tenham feito isso (Geert Wilders na Holanda por exemplo, líder do – sic – Partido da Liberdade). Se o Inimigo não possui face pode ser adaptado a qualquer um, como for conveniente. É o Outro primordial. Qualquer um que não aceita a imposição, que não aceita o sistema, os mandos do Estado e da Doutrina, será massacrado, eliminado como uma doença, aniquilado fisicamente, como o ditador Saddam, ou aniquilado socialmente, como Bradley Manning.

A analogia da Doutrina Bush com um perigosíssimo neofascismo é evidente. O fato dos EUA usarem Guantánamo – uma colônia militar em território cubano – como sua base para torturas e “interrogatórios especiais” de terroristas é emblemático, lembra automaticamente o fato de que não havia campos de concentração na Alemanha, só nos países vizinhos; como na URSS onde se praticavam as barbáries na Sibéria, onde ninguém estava lá para testemunhar. O “Ato Patriótico” de 2001 é uma afronta à constituição americana e pode ser considerada uma Lei Marcial, similar à que Hitler passou para atacar os comunistas e dissidentes depois do Incêndio do Reichstag, mas graças a campanha de medo na grande mídia, passou batida por 10 anos, nem Obama o revogou. Em defesa da “liberdade” faremos tudo, até acabar com o Estado de Direito.

Mais problemático ainda é constatar que o fascismo clássico também buscava incessantemente se legitimar, diferente por exemplo das ditaduras latino-americanas ou soviéticas, onde não era “necessário” buscar seguidamente a aprovação popular para se manter no poder. O nazismo seguidamente se aclamava como verdadeiramente democrático e o “princípio da aclamação”, onde a população em massa é convocada para aclamar pessoalmente o führer, é uma sofisticação teórica deste elemento, visto que uma vez eleito, o NSDAP não fez outras eleições, botou a constituição em “lei marcial” temporariamente por 13 anos. Em seus livros, Mussolini pregava que a democracia fascista (sic) era muito mais profunda e igualitária que a “farsa liberal” e que o ultrapassado assembleísmo pusilânime dos comunistas. O fascismo clássico nunca deixou de repetir que estava defendendo a maioria, protegendo a população da invasão de elementos que só queriam o mal da comunidade nacional, que conspiravam contra a ‘saúde’ da pura e ingênua sociedade ocidental, oprimida por um poderoso inimigo externo cosmopolita, invisível mas poderoso.

A analogia com o antissemitismo de livros como o apócrifo “Protocolos dos Sábios do Sião” é evidente e quanto mais se nega a conspiração da Al Qaeda e de inimigos dos EUA mas ela se torna forte e é necessária o endurecimento do Estado. Também para o fascismo clássico a idéia do inimigo é essencial. A importância de um inimigo incansável e fortemente interiorizado na sociedade, corrompendo-a e ameaçando-a frequentemente é um traço, se não uma condição sine qua non, da doutrina do medo do fascismo. A grande diferença é que o fascismo atual consegue ser ainda mais cínico e potencialmente muito mais destrutivo, apoiado por aparelho ideológico muito mais sofisticado. Afinal, se a nação mais rica e com o maior exército do mundo cair definitivamente num obscurantismo fundamentalista, militarizado e  com a brutalidade típica do fascismo clássico, teremos a maior tirania já imaginada.

José Livramento