Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Política norte-americana para chinês ver

Segue-se abaixo uma das coisas mais relevantes publicadas pela mídia nacional nos últimos tempos. Trata-se de um trecho de uma reportagem:

“Fora do clube do “AAA” (nota máxima), a reação ao rebaixamento americano também foi forte. A China, principal credor dos títulos soberanos americanos – com US$ 1,15 trilhão – subiu o tom e acusou os Estados Unidos de serem “viciados em dívida” e palco de lutas políticas “míopes”. O governo de Pequim, de acordo com a agência Xinhua, defendeu que o mundo precisa de uma nova moeda estável para suas reservas e exigiu garantia para os ativos chineses em dólar.” (site O Globo, 07/08/2011).

Isso aí pode parecer uma grande bobagem ao leitor mais desavisado, mas estas curtas frases merecem cuidadosa análise.

Segundo a reportagem, o governo chinês teria aproveitado o rebaixamento da nota da Standard & Poors aos títulos da dívida norte-americanos para dar um aviso claro ao governo dos Estados Unidos em três pontos cruciais:

1 – Advertiu para o aprofundamento aparentemente irreversível do já gigantesco déficit das contas externas dos EUA;

2 – Acusou a política norte-americana de obstaculizar soluções para este problema;

3 – Sugeriu pela primeira vez a substituição do dólar como a moeda fundamental das transações internacionais.

 

Alguns dias mais tarde, autoridades chinesas atribuíram a escalada deficitária norte-americana às suas “aventuras militares” após os atentados do 11 de setembro.

As implicações destas três afirmações são, cada uma a seu modo, bastante profundas. É bom que se diga que, para Rio Revolta, estas colocações chinesas não se constituem em ameaças – são avisos ou, no máximo, blefes. Explicaremos mais a frente porque.

 

Analisemos tópico a tópico. Mas antes, uma pergunta: que tipo de poder é esse que faz de uma agenciazinha qualquer que responde sabe-se lá a que interesses um núcleo decisório capaz de estabelecer qual o valor ou a validade dos títulos de dívida pública de Estados nacionais constituídos, até mesmo do mais poderoso do mundo?

 

1 – Já desde os anos 80, os Estados Unidos vêm, praticamente sem exceção, operando com déficits externos crescentes em suas contas nacionais.

As razões destes déficits e o que eles realmente significam são temas de aberto e amplo debate na economia política até hoje. Para uma visão que Rio Revolta considera a mais completa – mas de bastante difícil compreensão -, recomendamos ao leitor interessado que leia o capítulo II do livro “O Mito do Colapso do Poder Americano”, organizado por José Luis Fiori.

Não nos interessa entrar nesta discussão. Nos interessa apenas marcar que estes déficits surgiram principalmente na esteira da desregulamentação financeira e da intensa elevação dos gastos militares promovidas pelo governo de Ronald Reagan nos anos 80 – “curiosamente”, eleito com a plataforma de enxugar o Estado… E nos interessa também colocarmos que, excetuando-se um pequeno período no governo Clinton, estes déficits aumentam desde então, tendo-se aprofundado violentamente no governo Baby Bush – mais uma vez em função dos tresloucados orçamentos militares pós-11 de setembro.

Os EUA vem financiando estes déficits crescentes e gigantescos através de vários instrumentos – investimento estrangeiro direto (do qual é o maior receptor mundial), petrodólares (que não deixam de ser, é claro, uma forma de IED) etc., mas o principal vem a ser seus títulos de dívida pública. E o principal comprador destes títulos tem sido, já há algum tempo, a China, o que significa dizer que este país vem sendo o principal financiador daqueles déficits.

Mas isto significa dizer também que a China tem um enorme montante de suas reservas denominado em dólares norte-americanos, a partir destes títulos da dívida norte-americana que possui. Isso quer dizer que a China exigirá dos EUA garantias de pagamento destas obrigações.

O recado chinês neste caso foi, portanto, muito claro. Os chineses queixam-se do “vício em dívida” dos Estados Unidos e afirmam que, se as garantias não forem totais, deixarão de financiar este déficit.

 

2 – A segunda afirmação é a que, particularmente, mais agradou a nós do Rio Revolta. Os chineses basicamente se referem à completa irresponsabilidade política que ficou abertamente demonstrada nas negociações da ampliação do limite da dívida entre o “governo” Obama e a oposição republicana.

O estado atual de coisas é, aqui, extremamente claro. O Partido Republicano deliberadamente obstaculizou qualquer plano consistente de administração desta crescente dívida pública com o único e evidente objetivo de desgastar politicamente o governo Obama.

Em outras palavras, seus congressistas levaram conscientemente o país praticamente ao limite da insolvência afim de extrair ganhos políticos para si, independentemente das consequências materiais deste seu ato para seu país e para o resto do mundo. Isso dá uma boa amostra do impressionante grau de fundamentalismo conservador e neoliberal que atualmente domina seus dirigentes.

Conseguiram, por fim, um pacote que prolonga de forma bastante tímida o limite do endividamento norte-americano em troca de um pacote fiscal baseado num amplo e grosseiro corte de gastos públicos pelos próximos anos.

Justamente num momento em que a economia norte-americana dá claros sinais de incapacidade de reagir à crise financeira de 2007-2011(?) com base somente nas atividades privadas. Este é justamente o momento em que o ciclo recessivo mais necessita de uma elevação dos gastos autônomos do governo para ser revertido, e esta elevação é justamente o que este pacote inviabiliza.

O resultado desta combinação de recessão prolongada com redução drástica dos gastos do governo dificilmente deixará de ser um aprofundamento da recessão nos próximos semestres ou anos. Um excepcional golpe dos republicanos e uma estranha rendição do governo Obama, que na visão de Rio Revolta com isso complica substancialmente seu cenário de reeleição.

E os chineses a ver com isso tudo? Eis que afirmam que os EUA tornaram-se “palco de lutas políticas míopes”.

O que significa dizer que estão afirmando que as instituições políticas representativas liberais burguesas dos quais os norte-americanos e mais um punhado de elites mundo afora tanto se orgulham constituem-se em cenários de lutas mesquinhas nas quais o que menos importa é o destino e o desenvolvimento de seus países e o que mais importa são os ganhos políticos imediatistas que os atores envolvidos puderem auferir – ainda que para isso necessitem lançar seu país ou mesmo boa parte do planeta em violentas crises.

Quem diria, um regime de partido único dito ditatorial e totalitário criticando a ineficácia e a mesquinhez das tão maravilhosas e perfeitas instituições representativas liberais dos povos livres e esclarecidos… É um ótimo ponto de partida para outro texto do Riorevolta.

 

3 – Talvez esta seja a mais interessante e, ao mesmo tempo, importante mensagem contida nas críticas dos chineses.

John Maynard Keynes já sabia desde antes dos acordos de Bretton Woods no pós-Segunda Guerra Mundial que a moeda de denominação das transações comerciais e financeiras internacionais deveria ser uma moeda internacional diretamente desvinculada de qualquer autoridade estatal em particular, dada a gigantesca possibilidade de comando político em escala mundial que um tal país se tornaria capaz de exercer.

Não foi por outra razão que, naquelas negociações, propôs e insistiu através da delegação britânica que se criasse uma moeda internacional supra-nacional chamada Bancor afim de desempenhar este papel.

Mas os norte-americanos, é claro, não eram bobos, e sabiam muito bem dos poderes que tal moeda internacional seria capaz de conferir ao seu dono. Dispunham, por sua vez, do poder material e bélico capaz de impor suas vontades goela abaixo de uma Europa economicamente devastada e transformada eu seu protetorado militar. O resto da história, todos hoje conhecemos.

Os chineses foram, neste ponto, direto na mosca. Deixaram muito claro que, sem garantias políticas substanciais por parte do governo dos Estados Unidos frente a seus títulos, balançam os alicerces do prédio que sustenta a confiança no dólar como a moeda por excelência de denominação das transações internacionais.

Neste cenário caberia, então, uma substituição de tal moeda por uma outra, de caráter não especificado pela reportagem. Pode ser uma espécie de Bancor, ou uma cesta com as moedas das principais economias mundiais, ou quem sabe uma moeda nacional de uma nova potência hegemônica.

Boa parte do poder norte-americano no pós-Segunda Guerra fundamenta-se na sua posição de emissor e garantidor desta moeda internacional. Esta posição lhe dá vantagens absolutamente incomparáveis nas suas relações políticas e econômicas com o resto do mundo. Não nos interessa aqui enumerá-las mas, entre várias, podemos citar a sua capacidade única de simplesmente emitir papel-moeda para financiar seus déficits externos e sua capacidade, também única, de afetar todos os preços relativos das centenas de moedas nacionais existentes com uma simples alteração da sua taxa básica de juros.

 

Agora, a realidade.

 

Rio Revolta, como já disse, não vê nestas palavras um aberto desafio mas, no máximo, um blefe, e mais provavelmente, apenas um aviso um pouco mais enérgico. Não há qualquer razão para crermos num conflito ou tentativa de ruptura chinesa com relação aos Estados Unidos, a despeito dos vários profetas do apocalipse que, confundindo análise com expectativas pessoais, desejam ver na China uma nova potência hegemônica capaz e desejosa de derrotar os EUA, libertando o mundo de seu terrível jugo imperialista.

(Como se uma outra hegemonia fosse mais benevolente, chinesa ou de quem quer que seja…)

A complementaridade econômica atual entre China e EUA é gigantesca. Transnacionais norte-americanas tem hoje enorme parte de sua capacidade de produção instalada na China. A China atrai IED (investimento estrangeiro direto) norte-americano em larga escala, desejosa de incorporar suas tecnologias, produtos e processos. Os EUA ainda tem – e acreditamos que continuará tendo – na China o principal financiador de seus déficits. A China, por sua vez, tem boa parte de suas reservas denominada em títulos e moeda norte-americana.

Não seria minimamente inteligente, portanto, que os chineses trabalhassem pela derrocada do dólar, com o que teriam também eles enormes prejuízos.

Todos esses motivos nos fazem crer que a irritação dos chineses apenas ao se deve ao que percebem como uma falta de controle e racionalidade dos processos institucionais na política e economia norte-americana. Parece muito mais um chamado à coerência e uma vontade de prosseguir esta virtuosa (para ambos) cooperação do que uma vontade de ruptura.

Rio Revolta não vê no momento, nem mesmo no médio ou longo prazo, nenhuma ruptura ou escalada de conflito entre China e EUA – e acredita piamente que, caso se dê, virá da parte dos norte-americanos. O histórico pragmatismo chinês os impedirá, ainda por muito tempo, de desafiar abertamente os norte-americanos ou de trabalhar pelo acirramento de seus antagonismos – que sem dúvida, existem. A China com certeza só caminhará nesta direção no dia que seus dirigentes tiverem a mais absoluta certeza de que seu país está preparado o suficiente para extrair deste cenário muito mais ganhos do que prejuízos.

Hoje a China, a despeito de todos os incríveis avanços que vem obtendo, ainda corresponde a uma pequena fração do poderio econômico, tecnológico, culturalideológico e, principalmente, militar, dos Estados Unidos.

O dia do conflito aberto – se chegar – ainda tarda, e muito.

Rio Revolta recomenda, apenas, atenção ao tema.

Como simbolismo, fica o que pode ter sido a primeira demonstração chinesa de confiança para dialogar com a superpotência hegemônica de igual para igual.

 

Arnaldo Gordo

 

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