Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Terror e cinismo

A balela do choque de civilizações foi mais uma vez desmentida pela realidade. Não bastou  livros e mais livros das mais variadas correntes ideológicas das tradições da esquerda, acabassem com o argumento hungtingtoniano por escrito, que desmistificassem as bases do status quo neoliberal, da farsa ideológica que é a globalização ocidental e sua resistência… Foi preciso que mais um ato bárbaro perpetrado pela extrema-direita no coração da “civilização” ocidental, para que caísse a ficha da mentalidade mediana midiática sobre a realidade político-social do mundo.

Repetidas vezes ao longo dos últimos anos, religião islâmica e terrorismo eram associados indiscriminadamente, uma fortíssima agenda norte-americana, repetida há mil pela direita do mundo todo, inclusive a brasileira. Descaradamente agora nos atos do neonazista Andrew Breivik, quando antes de saber do acontecido, associaram imediatamente o ataque na Noruega ao islamismo, com sucessivas declarações resgatando o Choque das Civilzações de Huntington. Não é preciso  dizer que poucos pediram desculpas às comunidades islâmicas depois de comprovado que o ato era de um neonazista.

Desde o 11 de Setembro e até um pouco antes,  são frequentes os comentários, posts, artigos e declarações – inclusive oficiais –  tentando associar a mentalidade islâmica e o Corão ao terrorismo, como se o Corão fosse o novo Protocolo dos Sábios do Sião. Foi Berlusconi mesmo – tido há anos como neofascista pela esquerda -, que disse que o Ocidente teria de retomar uma Cruzada. Seguidas vezes vimos exercícios de retórica, logo desmascarados como não científicos, muito menos éticos, de partir de um pressuposto “islamismo é vil” e procurar em todas as fontes possíveis dados que corroborem este argumento. Esta, diga-se de passagem é a definição típica da pseudo-ciência: partir de um pressuposto e procurar acontecimentos que a corroborem, ignorando uma maciça ordem de argumentos e acontecimentos que desmentem a teoria inicial. É a pseudo-ciência incrivelmente popular na direita e aqui incluo o stalinismo nas mais altas tradições da direita pseudo-científica (vale ler o lyssenkantismo).  Não é suficiente desmacará-la como pseudo-ciência seguidas vezes, pois a sua lógica é a da soberba, do preconceito, da superioridade, da infalibilidade inexorável de uma raça, líder ou idéia.

Breivik é o estereótipo do extrema direita, mas seu discurso percorre vários elementos comuns à direita. Acredita que antes houve uma era de ouro na Europa, que a sociedade está contaminada, que ele traz a cura e precisa divulgá-la para uma população cegada pela agenda liberal e marxista. Seu discurso é tão semelhante ao do Mein Kampf de Adolf Hitler, que sua tentativa de usar o julgamento como palanque foi exatamente o que Hitler fez quando condenado à prisão pelo Putsch da Cervejaria, por isso, jamais Breivik teve intenção de se matar e sempre procurou manter a calma e a “sobriedade”. Essa é a parte radical do seu discurso, que dá as mãos ao nazismo. Hitler dizia que o marxismo e o liberalismo eram duas faces da mesma moeda.

Porém quando você avança para outros argumentos fundamentais da crença de Breivik e de grande parte da extrema-direita, se encontra uma consonância assustadora com elementos tidos como moderados e “coerentes”. Bravatas como crer que a ONU é um agente da dominação marxista mundial; que Clinton (e os democratas mais liberais nos EUA) são agentes de Pequim em Washington; mais recentemente que Obama é um socialista, são argumentos comuns na direita liberal radical por aqui no Brasil. Aliás, a expressão “marxismo cultural” Breivik usa frequentemente em seus textos é lugar comum em anti-comunistas radicais como Olavo de Carvalho e sua versão vaselinada Arnaldo Jabor. Para não falar em “sovietização do Brasil” e “ditadura socialista petista”, outras expressões frequentes em veículos “liberais” altamente anti-esquerda, como Veja e Estadão. Inclusive Breivik usa a expressão “Revolução Marxista Brasileira”, para falar da degeneração que se vive em nossa terra.

O terrorista norueguês é um fundamentalista cristão, racista e social-darwinista. Este elemento-chave de seu pensamento é altamente coerente segundo a lógica da extrema-direita, social-darwinista e da superioridade cultural branca ocidental. Sua lógica é similar a que levou Huntington a nomear o Choque das Civilizações entre o ocidente civilizado e o oriente bárbaro.  Huntington e seu ethos neoliberal, cultuador do Livre Mercado, são apenas demonstrações moderadas do darwinismo-social que se baseia a economia néo-clássica, cerne do culto neoliberal. Enquanto Breivik é a linha de frente deste novo tipo de fascismo, a verdade nua e crua do mesmo bojo cultural que a civilização huntingtoniana toma como ideal.

O ato de Breivik não veio apenas revelar o quão perigoso e visível está a extrema-direita na Europa, isso para a esquerda atenta, já era visível há um bocado de tempo e, muito por isso, que constantemente escrevo sobre o fascismo neste blog. Como Hobsbawn disse: o nacionalismo ainda é uma força política incrivelmente potente, que não pode ser subestimada. Mas acima da evidente desumanidade que o radicalismo pode levar, o terrorismo deste neonazista veio revelar a mais clara perspectiva sobre o chamado terrorismo islâmico.

Há pelo menos 15 anos que Edwar Said e Tariq Ali, para citar apenas dois intelectuais, dizem que as raízes do extremismo árabe são da extrema-direita nacionalista. Que a esmagadora maioria dos grupos extremistas islâmicos tem demandas nacionalistas: querem a fundação de um estado; querem sua terra desocupada por forças estrangeiras; querem ter autonomia para tomar suas decisões; querem independência econômica; direito de escolher a própria política nacional. Em nenhum momento foi colocado pela mídia tradicional, pelos intelectuais tradicionais do centro e da direita que estes terroristas islâmicos, assim como Breivik, eram fanáticos nacionalistas, acima de qualquer retórica e público religioso que possam discursar. Lembrando Zizek, para cada região afundada em extremismo e obscurantismo há uma esquerda esmagada e humilhada alguns anos antes, do Kansas ao Afeganistão.

Ignorar que os valores claramente defendidos por radicais monstruosos como Breivik são bandeiras comuns à direita é puro exercício de cinismo. A exaltação de superioridade da civilização ocidental, simbolizada no seu apogeu sob o livre mercado e no capitalismo identitário,  a noção de que “os outros” (islâmicos, latinos, africanos) são incapazes de absorver os valores que esta civilização tem e portanto precisam ser forçadamente integrados a ela, não faz senão dar novos nomes à missão civilizatória do homem branco, ponto nevrálgico das teorias raciais e darwinistas sociais. Há pouco tempo vários líderes europeus “moderados” declararam o fim do multiculturalismo, arrochavam seguidamente suas políticas anti-imigrantes, transbordavam seu antes escondido senso de superioridade em medidas altamente racistas e anti-iluministas.

Acreditar que estes pilares fundamentais do radicalismo de Breivik são meras idéias confinadas na extrema direita e não a raiz por trás de todo o discurso que procura declarar o capitalismo ocidental como o fim da história, é um forte exercício de cinismo. Brevik simboliza a definitiva união do antigo fascismo com o novo.

José Livramento

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3 Respostas para “Terror e cinismo

  1. JOSÉ MARCIO TAVARES 27 de julho de 2011 às 5:01

    Os islâmicos são pacíficos. Amantes da paz. Islâmicos pregam a igualdade entre homens e mulheres. Os islâmicos são progressistas e de esquerda, pois são contra o atraso da Civilização Ocidental. A Civilização Ocidental nos deu amantes da opressão como Voltaire, Darwin, Jefferson e Einstein. Os preceitos do Islã devem ser seguidos pela esquerda (pela esquerda burra!).

    • riorevolta 27 de julho de 2011 às 21:50

      Bem, não pode-se generalizar desta maneira, muito menos tão ingenuamente. Assim como qualquer religião humana, o Islão cometeu e comete uma série de barbáries pelo mundo, da destruição da Biblioteca de Alexandria à opressão das Burkas. Os preceitos islâmicos dos seus principais livros, assim como a Bíblia, que os islâmicos reconhecem como livro sagrado, podem ser usados para coisas fantásticas e poderosa fonte de inspiração nas artes, culturas e ciências, como foi a Era de Ouro Islâmica. Porém, não posso aceitar que todos os islâmicos são de esquerda, isso é completamente ingênuo, para não dizer falacioso.

      Grato pelo comentário,

      José Livramento

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