Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Fascistização à Brasileira

Carros esperando por miseráveis.

Carros esperando por miseráveis.

Historicamente a adesão ao fascismo sempre foi um fenômeno das classes médias empobrecidas, em maior ou menor grau. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha, dos camisas-negras na Itália, os integralistas brasileiros dos anos 30, dos nacionalistas (caudilhistas) espanhóis seguidores de Franco, as classes médias empobrecidas descontentes com os rumos de suas vidas e governo, adentravam as fileiras extremistas do fascismo.

Na primeira onda fascista, a roda extremista era empurrada pelo contexto de crise extrema gerada pela Crash de 1929, que empobreceu todos os setores da sociedade, deixando os governos liberais reféns de sua ortodoxia. As crises são sempre berçários de extremismos. Assim, faz muito mais sentido a força que ganhou o neofascismo russo (Nacional Bolchevismo e a liga Outra Rússia) depois da queda da URSS durante a esmagadora crise econômica que o país viveu nos anos 90 e só foi se recuperar nos últimos anos. Para estas populações médio-classistas, o medo do empobrecimento, da consequente perda de sua posição social, levava as pessoas a decisões mais radicais. Ressalto que nas eleições de Hitler em 1932, somados Socialistas (naquela época eram bem mais radicais), Comunistas e os Nacional Socialistas, tiveram quase 85% dos votos dos eleitores alemães. Os conservadores, ortodoxos, estavam perdidos em seu continuísmo e pusilanimidade, sem saber o que fazer da economia.

Este sentimento, este medo de empobrecimento e da perda de situação social, foi chamado por inúmeros estudiosos do assunto de “declassemént” ou ‘declassê” no aportuguesado, algo como ‘deixar de ser alguém de classe”. Era o medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente estavam associados a este sentimento, o medo do prestígio social ou do reconhecimento social por sua posição econômica; havia também uma rejeição conservadora ao comunismo ateu; uma rejeição da política tradicional, num certo sentido, uma apolitização; um nacionalismo radical em nações que recentemente passaram por processos de reestruturação de poder que, em decorrência disso, gerou uma certa rejeição republicana, uma reação conservadora à consolidação dos ideais liberais na estrutura social e de poder, especialmente por parte dos setores que tradicionalmente tinham poderes, privilégios e certa posição social na sociedade antes desta onda liberal. E estes sentimentos juntos consolidaram o grande número de simpatizantes do fascismo por todo o mundo.

Sim, é fato que as massas aderiram ao fascismo, especialmente na Alemanha, mas seu núcleo, seu ethos cultural e uma proporção enorme dos seus seguidores eram profissionais liberais, trabalhadores do colarinho-branco, funcionários médio e superiores da indústria, não o esquétipo do “trabalhador”. O pobre, proletário, trabalhador comum era sindicalizado, ligado aos comunistas, anarquistas ou socialistas.

Mas porque estou falando disso?

Observo hoje no Brasil um interessante fenômeno de fascistização das classes médias e procuro entender as razões.

Que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carregam fortes sentimentos anti-republicanos, herdados da nossa completa falta de revoluções conflituosas na história, eu já falei várias vezes neste blog (aqui, aqui e aqui); que as classes médias e a elite tem um ódio encarnado de “comunista” nossa história recente dá mais e mais provas disso, como o ódio elitista ao Lula (haha que comunista…) ou ao MST (aliás, muitos acham que Reforma Agrária é coisa de comunista – outra piada) também não é novidade; que cresce mais e mais um sentimento apolitizante nas classes médias também não é mistério nenhum (falei rapidamente disso aqui).

Porém, nossa sociedade não parece estar em crise econômica grave que justifique esta radicalização à direita recente. E não está de fato, pela primeira vez em décadas, o país vive um certo otimismo econômico e enquanto no final dos anos 90 1 em cada 5 brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é 1 para 10. No entanto, as classes médias tradicionais e as elites continuam se radicalizando e dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, aversão a esquerda, suporte a medidas extremadas do estado, aplausos à repressão e aquela saudade explícita da ditadura.

Vamos citar uns breves exemplos para clarificar o que digo:

– seguidas manifestações explícitas contra nordestinos, homossexuais, negros e ‘gente diferenciada’ (especialmente em São Paulo, nata da velha classe média e elite conservadora);

– frequente apoio às políticas de repressão contra sindicatos, professores, manifestantes e etc. Apoio este evidente em jornalões de grande circulação.

– exaltação do Caveirão do Bope, a Gestapo do Sérgio Cabral.

– bombardeio severo às políticas de inclusão social rápida e paleativa (Bolsa Família, política de cotas sócio-raciais…);

– exaltação frequente de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro. As próprias declarações preconceituosas de Bolsonaro ganham ecos que anteriormente não tinham.

– as seguidas manifestações em redes sociais e correntes de email contra pobres, com Mayara como figurinha da vez… As próprias defesas dela em blogs e jornalões apenas aumentam o bojo desta radicalização à direita da classe média e média alta.

Enfim, há uma série de fatores que mostram uma radicalização política à direita das classes médias e elites brasileiras. Vale lembrar também que estes setores conservadores elitistas e médio-classistas sempre fazem suas defesas em nome da nação, numa concepção de nação hoje degenerada mas que um dia foi linda e bela, onde seus poderes eram intocados. Neste sentido o nacionalismo de nossas elites é muito mais vil do que o dos fascismos dos anos 30. Ele é cínico e conservador, é o ‘nacionalismo’ dos ditadores de 64 (“O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”).

Mas no entanto isto tudo não me deixa satisfeito na explicação desta radicalização das classes médias e elite. Acredito que as forças materiais é que no fundo, movem o mundo de fato. Penso que as pessoas tendem a se radicalizar muito mais quando a situação é de crise econômica do que em qualquer outra situação. Não há o evidente declassment, o empobrecimento econômico, ou o medo do mesmo, desta forma, não acho que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o elitismo de nossas classes médias (sonhando com palácios de princesas em apartamentos de dois quartos de condomínios fechados) sejam suficiente para esta radicalização recente destes setores sociais.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão mais e mais se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato. Esta sensação vêm não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas.

Nossa elite e classe média cultivou por tanto tempo a sua superioridade cultural e econômica, seu sangue-azul, sua nobreza histórica, a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo no mais desigual país do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares que ela, gera um asco e uma rejeição tremenda à atual sociedade. A frase do Luís Carlos Prates, ‘jornalista’ catarinense resume bem esta idéia: “por causa deste governo espúrio… agora qualquer miserável pode ter um carro”. Qualquer miserável agora tem celular mp7, smartphone; qualquer miserável pode ir aos shoppings, lotar os aeroportos; votar em interesse próprio…

Estes setores tradicionais, tão conservadoras que são, tão elitistas e mal acostumadas que são, rejeitam a tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada”, que a ascensão dos ‘diferenciados’ faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia culto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares antigos. Não há mais máscara, a elite e classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social.

Temem concluir o que sempre foi óbvio: somos todos proletários.

José Livramento

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2 Respostas para “Fascistização à Brasileira

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