Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: abril 2011

A Arma das Drogas não supera a Droga das Armas.

Direitos Humanos enlatado

Direitos Humanos enlatado

O Dinheiro da Droga ou a Droga do Dinheiro.

A grande maioria das vezes que se discute drogas temos um forte viés moralista na questão, geralmente resumidos em: “drogas são ruins e precisam ser controladas” ou “usa drogas quem quer e por isso devem ser liberadas”. A razão moral para rejeitá-las ou tolerá-las é por vezes ideológica, religiosa ou política. É frequente figuras públicas negarem ou admitirem o uso de drogas para se enquadrar em determinados nichos culturais que querem atingir, exemplos clássicos: Bill Clinton, Gabeira e FHC, ou Bolsonaro num outro extremo.

Por outro lado, há os críticos das políticas anti-drogas que tomam o viés econômico, afirmando que os custos da guerra anti-drogas são muito altos e que seguir irrestritamente a agenda norte-americana na questão pode ser um problema maior que a solução. Por agenda norte-americana leia-se combate irrestrito ao usuário e aos traficantes, aplicação da agenda anti-terror aos traficantes e produtores de drogas (as leis californianas seriam uma exceção aqui). Apesar do argumento econômico já ser um caminho um pouco melhor na compreensão da questão do combate ou não às drogas, ainda é insuficiente, pois não abraça toda lógica por trás da agenda da guerra às drogas.

A Guerra Contra as Drogas é uma política antiga do governo Norte Americano. Interessante que ela começou antes mesmo do boom de usuários nos EUA, do meio pro final dos anos 70 e seu ápice atual de uso per capita de drogas ilícitas. Só aí reforça o argumento que faremos a seguir, o uso de drogas não era nem de perto um problema sério de Estado como se tornou nos anos 80 e 90, mas já em 1970 ela toma forma de Guerra mesmo, com várias intervenções desde então: Panamá, El Salvador, Granada, Colombia… Intervenções e influência em políticas internas de praticamente todos os países latino-americanos, em especial no México, maior entreposto de drogas para os EUA. Diga-se de passagem os EUA são o maior consumidor do mundo de todas as drogas ‘tradicionais’, em 2004 cálculos oficiais mostraram mais de 15% da população americana já havia usado cocaína e 2.7% usava regularmente.

Assim, do ponto de vista da retórica moralista anti-drogas dos EUA, esta guerra teria algum sentido. É compreensível que uma bancada evangélica fortíssima, WASP, queira acabar com as mazelas do mundo, fazendo valer o destino manifesto de todo ultra-religioso e em particular, destino manifesto ‘civilizador’ muito comum na retórica norte-americana. O porém é que no mundo em que vivemos, nós já estamos carecas de saber que a moral não é parâmetro para política de estado, vivemos na era do “dinheiro über Alles” e nele, a moral está submetida ao poder do dinheiro. Exemplos não faltam, só de lembrar que a CIA já foi – e talvez ainda seja – um dos maiores atravessadores e facilitadores do tráfico de drogas internacional, sem falar. A partir deste fato temos de reanalisar a política de drogas no mundo e, em particular no Brasil.

No médio-longo prazo, a grande parte das leis no Estado capitalista seguem a seguinte lógica: se os custos para fazer valer a lei são muito maiores que os gastos com os reparos dos problemas que sua falta provoca, a lei é inviável. Esta é a pura lógica do mercado aplicada ao Estado, principalmente nesta última fase de 30 anos para cá, no bojo do ideário neoliberal, que enfraqueceu o viés ideológico do Estado, nos EUA principalmente e no Brasil em particular. Não se esqueça da retórica pós-soviética de que o político – o representante – se apresentou no discurso anti-estatal dos neoliberais como mero administrador do Estado, este se tornou algo altamente instrumentalizado, o político como um financista controlando o Estado de maneira apolítica e descarregado de moral e ideologia. A retórica é que “a política é ruim”, “o fim das ideologias”, “não existe esquerda e direita”, esse tipo de coisa que procura despolitizar e alienar as decisões do Estado, camuflando os reais interesses – altamente políticos e econômicos – presentes no fundo deste discurso.

No entanto, é essa a regra mercadológica que rege por exemplo, legislação do trânsito. O governo brasileiro notou que o custo econômico em hospitais, tratamento, recuperação de estradas, indenização de vítimas, infraestrutura de resgate, médicos e etc, educação no trânsito, é um bocado maior do que aplicar leis mais rígidas de radares e de álcool ao dirigir. Além é claro, da indústria das multas, caça-níquel fácil, num páis que as leis não pegam e quebrar leis é quase obrigatório. A redução no custo hospitalar e reativo (de reação ao problema) foi enorme. Obviamente, o lado humano em reduzir em até 25% o número de mortes no trânsito vem a calhar politicamente para os realizadores da empreitada e, de fato, para a sociedade em geral. Mas é como disse em outro texto:

Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínio público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.”

No caso do cigarro, essa lógica foi largamente documentada nos últimos 20 anos. Os governos pelo mundo notaram que fazer campanhas anti-tabagismo e proibir fumo em locais públicos reduzia drasticamente os gastos hospitalares a médio-longo prazo, nas doenças ligadas ao cigarro, fumaça e etc. O nome bonito disso é prevenção, o nome feio é “planejamento de custos”. Planejamento de saúde aliás que faz Cuba, a ilha maldita, ter a melhor relação saúde-custos per capita do mundo, já dizia o ditado: prevenir é melhor que remediar.

Mas o que isso tem a ver com o nosso texto? A lógica do combate ou liberação das drogas como política de Estado segue este raciocínio. Porém, é ainda mais complexo.

Na questão das drogas temos de levar em conta este tipo de planejamento do governo, mas temos de levar em conta que o principal Estado engajado na Guerra Contra as Drogas é os EUA. Nós não vemos outras potências como Alemanha, França, Japão e mesmo Espanha, tradicional aliado norte-americano, tão engajados em combater as drogas pelo mundo como os EUA. Será mesmo uma cruzada religiosa contra esta imoralidade da droga?! Dificilmente.

A Guerra Contra as Drogas envolve um titã econômico pouco falado nas discussões sobre os entorpecentes: as armas. Adicione este poderoso elemento na equação acima e temos uma bombástica política infinita de produção e destruição capitalista.

Alguém já se perguntou porque armamento é algo tão fundamental para a indústria capitalista?

Pense num AR-15 (também conhecido como M-16) ou num AK-47… Estas duas armas consistem em produtos que de tão eficazes são praticamente idêntico ao modelo criado em 1964 e 1947 respectivamente, inclusive com pentes facilmente adaptados entre todas as versões produzidas há décadas… Como um produto capitalista que, por natureza, tem obsolescência programada, poderia sobreviver ao longo destes anos, praticamente inalterado? Aliás, de tão bem feitos, em ambos os modelos existem peças em funcionamento há mais de 30 anos. A indústria de armamento ganha muito mais na munição (no projétil) do que na arma que a atira. Pense que produto magnífico pro ciclo mercadológico capitalista: uma vez usado, ele não só se autodestrói como destrói alguma coisa no caminho… E tudo isso feito majoritariamente com dinheiro público transferido para a iniciativa privada! Maravilha. E sim, usei o exemplo do soviético AK-47 de propósito, para demonstrar como a lógica capitalista nunca foi derrubada na URSS, como já demonstrou Istvan Meszaros e outros intelectuais críticos soviéticos.

Sob esta lógica a política anti-drogas norte-americana é muito mais compreensível. A moralidade passa longe e do fundo do discurso humanitário, preocupado com o bem comum, novamente surge o que sempre foi o interesse: o dinheiro. Assim, fica claro porque a defesa econômica da liberalização das drogas também é falha. Por mais que a legalização das drogas traga colossais dividendos em termos de impostos e vantagens comerciais a países pequenos e economicamente inexpressivos, primário-exportadores; e que reduza o tamanho necessário de forças policiais e de fiscais de fronteiras, além de fundamentalmente diminuir a violência, como as experiências portuguesas e espanholas dos últimos 10 anos mostraram. Essa economia jamais será superior ao montante garantido da venda de armas, amortização das dívidas geradas em países pequenos que não têm dinheiro para as armas, nem para os hospitais, nem para a fiscalização de fronteiras. Sim, países expressivos como Espanha e Holanda conseguem quebrar o esquema que praticamente só favorece a indústria americana, mas o que dirá de Guatemala, Honduras, El Salvador, Colômbia, Equador, países primário-exportadores com históricas elites cooptadas, a serviço do dinheiro estrangeiro para se perpetuar no poder… Até o México, um país rico economicamente é refém da política anti-drogas e da violência degeneradora que ela causa. Além do que, a vista grossa implícita na política americana anti-drogas é evidente. Cada ano que passa os EUA consomem mais drogas e de maior qualidade, apesar de ter mais e mais gastos com o combate a elas.

Assim temos que a Guerra contra as Drogas não é sobre drogas, é sobre guerra, ou a manutenção da guerra. Seguindo a lógica da Guerra ao Terror – ou melhor, cronologicamente falando, esta segue a lógica da Guerra às Drogas -. Ela é criada para não acabar, apenas se expandir e ficar mais violenta e no maior número de estados satélites possível. O governo dos EUA faz lobby em países com elites fracas e facilmente cooptáveis, suscetíveis ao seu imenso poder de “barganha”, como a maioria dos países da América Central, como o México, uma colônia americana de fato mas não de direito, Guatemala e Colômbia para aplicarem leis anti-drogas mais fortes. Desta maneira estes governos compram mais armas dos fabricantes norte-americanos, consequentemente os traficantes compram mais armas dos EUA para se defender de uma força repressora mais forte. Há dados de que perto de 10% do PIB da Guatemala sejam de armas e drogas (viomundo.com.br). Da mesma forma que pegam mais dinheiro emprestado para financiar seu aparato de fiscalização, seus hospitais para tratar os feridos nas altíssimas taxas de criminalidade destes países.

Um exemplo claro desta ação é que as FARC estão praticamente controladas, reduzidas a uma ínfima parcela do que já foram e no entanto as drogas colombianas continuam a entrar nos EUA normalmente, indicando um fato importante: ou as FARC nunca foram responsáveis pelo montante de fabricação de drogas que sempre lhe foi atribuída, ou forças “governistas” na Colômbia continuam a produzir para os EUA, no vácuo das FARC. Em qualquer das alternativas, a retórica da invasão e semi-colonização da Colômbia cai por terra.

Assim, reitero que discutir a política de combate as drogas sem mencionar a indústria de armamentos, de endividamento, de controle político e social (nem entrei nesta parte porque Hélio Luz já disse tudo no outro post) e sustentação de governos faroáveis em países ricos mas politicamente fracos, da América Latina e Oriente Médio por exemplo, não falar disso tudo ao discutir a questão das drogas é continuar com o discurso vazio e inócuo que jamais terá algumsucesso. A economia move o mundo.

José Livramento

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As Relações Brasil-China: mais um erro em nossa história

As Relações Brasil-China: mais um erro em nossa história

A presidente Dilma Rouseff realizou recentemente viagem à China, muito alardeada pela imprensa brasileira, ainda que seus resultados sejam discutíveis, sob qualquer perspectiva. Logo de início, é interessante notar a direção “pragmática” da política externa de seu governo, quando comparada à de Lula, que era mais “idealista” ou “ideologizada”. Dilma tratou logo de agendar, para seus primeiros meses de governo, encontro com os líderes dos dois maiores parceiros comerciais do país, Estados Unidos e China. Lula jamais negligenciou os principais parceiros comerciais do país, mas gostava também de fazer suas bravatas anti-imperialistas pra lá de hipócritas com Chávez, Zelayas e etc.

Mas paramos por aqui nesta direção analítica, posto que não é nosso interesse abordar este tema.

O que chama a atenção de Rio Revolta nesta temática é a delicadíssima posição econômica e política em que o Brasil se encontra frente à China, e as consequências potencialmente nefastas desse cenário para o desenvolvimento futuro do país. Não somos com certeza a única sociedade que se defronta, neste início de século XXI, com o “desafio chinês”. O fato inequívoco é que, queiram ou não, todos os países do mundo contemporâneo tem que lidar com a emergência deste colosso.

Alguns dados o demonstram, sejam eles demográficos, econômicos, comerciais etc. Maior população do planeta, onde vivem aproximadamente um em cada quatro seres humanos; segundo maior parque industrial contemporaneo (atrás dos EUA em valor produzido, mas já superior em volume); maior reserva em moeda estrangeira (mais de 3 trilhões US$), o que o faz maior credor dos EUA; e poderiamos citar muitos outros.

É impressionante, diga-se de passagem, a ofensiva política, econômica e diplomática chinesa sobre a África, onde seus capitais investem maciçamente – tornando o eternamente esquecido continente um território praticamente livre para a expansão de sua acumulação capitalista.

Há uma realidade inequívoca nas relações atuais entre Brasil e China. Este país já se tornou nosso maior parceiro comercial, e tudo indica que nada será capaz, no curto prazo, de alterar este quadro. E nos arriscamos a dizer, tampouco no médio e no longo prazos, salvo eventos muito surpreendentes.

Entramos, então, em nosso problema. De que maneira se dá esse aprofundamento das relações comerciais, ocorrido praticamente a partir da virada do século XX para o XXI?

O Brasil se caracteriza por uma economia de grau relativamente elevado de industrialização, esta sendo, porém, caracterizada pela predominância de indústrias de baixa ou média exigência tecnológica – as indústrias high tech rareiam. Para complicar ainda mais, trata-se de uma industrialização com elevado grau de desnacionalização, caracterizando um parque industrial em grande parte sob controle de capitais estrangeiros e, por conseguinte, dependente do influxo de suas tecnologias.

No mais, é um país com “vocação” agro-pecuária, posto tratar-se de uma sociedade historicamente delineada nesta direção, enquanto periferia primário-exportadora voltada aos centros capitalistas europeus (Portugal era, neste sentido, pouco mais do que um mero intermediário a separar o Brasil da Inglaterra). E não vale dizer que esta “vocação” é natural, porque até a criação e o desenvolvimento das pesquisas agro-pecuárias da Embrapa, já no final dos anos 70, o solo e o clima brasileiros eram considerados, em sua maioria, bem pobres para as práticas agro-pecuárias adequadas… É uma “vocação”, portanto, condicionada historicamente mais do que qualquer outra coisa.

Situação esta reforçada pela posição periférica do país na divisão internacional do trabalho – posição que esteve em vias de ser revertida nos anos 70-80, quando o país esboçou tornar-se um exportador majoritário de produtos industrializados, desde carros até armamento pesado. Nada que uma década de desastrada e indiscriminada abertura comercial promovida pelo tucanato neoliberal não pudesse resolver, devolvendo-nos ao status de exportadores majoritários de grãos, carne e minérios e importadores de produtos industriais e serviços.

A China, por sua vez, é um país de área continental como o Brasil, porém habitado por uma população aproximadamente 6,5 a 7 vezes superior à brasileira. Portanto, a despeito de possuir, como o Brasil, um território extremamente rico em recursos naturais, estes são insuficientes para atender à demanda de uma população tão gigantesca. Demanda esta que encontra-se, pelo menos desde o final dos anos 70 e início dos 80, impulsionada por taxas de crescimento econômico da ordem de 10% – ao ano, pelos últimos 30 ou 35 anos. Ou seja, trata-se de um verdadeiro poço sem fundo no que diz respeito aos recursos naturais, demandando-os sem parar em quantidades cada vez maiores. E isto é exatamente o que o Brasil mais tem a oferecer, uma vez dotado de “vantagens comparativas” no comércio internacional justamente em seu setor primário (agropecuária, mineração).

Portanto, descobrimos assim qual a inserção da economia brasileira no que tange às importações chinesas: minério de ferro, grãos, celulose e papel, carnes, petróleo etc. Ou seja, todos produtos de baixo valor agregado e de uso pouco ou mesmo nada intensivo de tecnologias modernas. Em suma, atividades que não geram fluxos de renda muito substanciais em nossa economia, nem apresentam acelerado ritmo de inovação tecnológica ou produtiva.

Por outro lado, a China é uma potência industrial em franca evolução. Faz muito tempo ficou para trás a tragédia e o amadorismo das tentativas industrializantes de Mao-Tse Tung no início dos anos 70, implantando “siderúrgicas” praticamente artesanais pelo país afora. Já a partir do final daquela década as novas lideranças chinesas tomaram a decisão política de reabrir seu país ao capitalismo internacional, ainda que de forma controlada, “ordeira” – ou seja, sob a égide política do Partido Comunista; ou, ainda, propuseram ao mundo um capitalismo sob o comando político do Estado chinês.

O que só reforça a idéia de que, queira ou não admitir a esquerdinha de cartilhas, a “Revolução Chinesa” foi, antes de tudo, uma revolução nacional e, quem sabe, talvez, em algum dia, tenha sido uma revolução proletária. Mas se foi, esse dia já passou há tempos.

Isto porque, justamente, o que as lideranças “comunistas” chinesas mais têm tido a oferecer ao grande capital transnacional nestes 30 anos de abertura econômica é exatamente sua força de mão-de-obra que, para qualquer padrão internacional considerável, não pode ser descrita se não como escrava ou semi-escrava. Estranha ditadura do proletariado cujo maior trunfo é oferecer sua mão-de-obra a preços de banana à exploração pelo capitalismo internacional – ou melhor, a preços inferiores ao desse “produto”.

E foi com essa combinação “virtuosa” entre uma gigantesca força de mão-de-obra extremamente disciplinada e escravizada e um mercado interno colossal que o Partido Comunista Chinês logrou atrair as indústrias de baixa exigência técnica e de qualificação de mão-de-obra de todo o mundo desenvolvido para dentro de suas fronteiras. Sim, mercado interno colossal, porque a despeito da condição miserável de sua força de trabalho assalariada, a China é um mundo em si mesma. Se as lideranças políticas criarem as condições para que 20% de sua população ascenda à classe média, já teremos quase um Estados Unidos da América em termos de mercado consumidor potencial de variados produtos.

No resto, os chineses vem, ao longo deste tempo, usando as mesmas estratégias de desenvolvimento industrial que japoneses e coreanos usaram em seu tempo, com semelhante sucesso. Aceitam, sem sombra de dúvidas, a entrada do capital estrangeiro, do qual dependem tecnologicamente, tanto quanto o Brasil. Mas o fazem com visão estratégica, exigindo consórcios com empresas estatais chinesas, incluindo compartilhamento de tecnologia, tudo com vistas a capacitar as empresas locais para que, no momento oportuno, dispensem seu “colaborador”, o suplantando.

Uma mistura de protecionismo, política industrial e muita engenharia reversa – aquela magnífica arte de comprar os produtos acabados de seu rival e estuda-los exaustivamente até o ponto de ser capaz de reproduzi-los do mais básico parafuso até o produto acabado. Inicialmente, com qualidade muito inferior. Depois, com qualidade razoável; e por fim, muitas vezes, suplantando o concorrente e tomando sua dianteira tecnológica e inovativa. E por isso que “Made in Japan” era sinônimo de lixo industrial no início dos anos 60 e, hoje, equivale à sofisticação, eficiência e durabilidade. O mesmo se deu com os “Made in Korea”, e o mesmo se dará em mais alguns anos com os “Made in China”.

É por esta razão que, neste início de século XXI, a China possui um parque industrial extremamente amplo que ainda se encontra, tecnologicamente falando, numa transição entre graus baixo e médio de emprego técnico para graus mais elevados. E este é, precisamente, o estágio em que a indústria brasileira (ou o que restou dela) se encontra. O que significa dizer que, em termos de emprego tecnológico, a indústria brasileira e a chinesa encontram-se hoje mais ou menos equivalentes – a deles, porém, caminha decididamente para a frente; a nossa, estagnada, em termos relativos caminha para trás.

Sendo que a indústria chinesa logra explorar sua mão-de-obra em limites impensáveis mesmo para uma burguesia super-exploradora como a brasileira; seus mercados internos tem base muito mais ampla, mesmo que sua renda per capita seja muito inferior; sua localização geográfica próxima ao Japão e sua intensa integração com os circuitos financeiros e industriais globais a tornam uma excepcional plataforma exportadora.

Suas lideranças políticas fazem vista grossa para as regras anti-dumping e anti-protecionismo vigentes na OMC. Sua política cambial é agressivamente pró-exportação, encerrando uma violenta e artificial desvalorização do iuan afim de estimular o desenvolvimento de sua indústria. Este é o pilar atual de sua política industrial, e não há pressão no mundo, venha de onde vier, capaz de fazê-los alterar esta política, mesmo que se reconheça que não poderá durar para sempre – mas nem precisará; vai durar apenas o tempo necessário….

Ah, e o Brasil? O Brasil, não possui nada disso; seus governos, sejam eles abertamente entreguistas e neoliberais ou pretensamente trabalhistas e social-democratas, apoiam entusiasticamente as seguidas encenações de abertura comercial “multilaterais”, seguindo religiosamente as restrições da OMC… E ainda por cima, acredite você, estes mesmos governos vivem prometendo aos chineses reconhecê-los como uma economia de livre mercado…

E o que se ganhou em troca? Promessas de maior abertura de mercados, eventuais instalações de fábricas multi-bilionárias aqui e acolá e, de maneira geral, aprofundamento das “vantagens comparativas” de ambos os países em seu comércio. Aquelas mesmas “vantagens” que nos fazem vender grãos e minério bruto para comprar em troca micro-processadores, carros de luxo, maquinarias pesadas etc. Em resumo. O que está diante do Brasil, neste momento atual, é um problema extremamente substancial, uma questão urgente.

Nossas lideranças políticas estão, mais uma vez na história desse país, sacrificando uma perspectiva estratégica de desenvolvimento econômico efetivo de longo prazo por ganhos imediatistas. O que não surpreende, posto serem estes grupos, historicamente, os integrantes da coalizão de poder a gerir a história deste país.

Num país subdesenvolvido, cultural, política e economicamente voltado para fora, nada mais natural que os grupos sociais que realizam estes vínculos (subalternos) com o exterior mantenham-se no comando da sociedade. É uma relação que só pode ser transformada mediante mudanças radicais – revolução e ruptura – ou através de planejamentos estratégicos de longo prazo – manutenção da ordem burguesa com busca de seu pleno desenvolvimento.

Na história deste país jamais tomamos uma decisão nem numa direção, nem na outra. Tudo que fizemos foi este capitalismo pobre, associado e dependente. A economia brasileira só demonstra complementaridade com a chinesa no setor primário, aquele no qual o Brasil é internacionalmente mais competitivo. No setor industrial, nossa economia não demonstra complementaridade com a chinesa; ao contrário, lhe é concorrente. E um concorrente com severas desvantagens diante da deslealdade chinesa.

Deslealdade? Não, não há deslealdade nenhuma. Como qualquer classe política consciente e interessada em sua própria prosperidade, a chinesa apenas explora a seu favor as vantagens que ela própria construiu ou que herdou do passado. Cabe a nós parar de sermos esta eterna sociedade dos injustiçados-reclamões-conformados e passarmos a fazer o mesmo.

Aceitar o jogo como está significa, mais uma vez, nos conformar com uma posição subalterna e periférica na DIT, a posição de vendedores de matérias primas e consumidores de produtos de alto valor agregado. A esquerdinha costuma se regozijar com a perspectiva do fim do império americano e de sua substituição pelo chinês. Mas não fará a menor diferença se os compradores de nossa comida e nossos minérios são ingleses ou norte-americanos de olhos azuis ou chineses de pele amarelada. O mecanismo de nossa dependência será o mesmo, assim como as consequências desta.

Este país precisa tomar decisões concretas imediatas na direção de se tornar um país capitalista sério e desenvolvido ou então de romper definitivamente com este modo de produção. A ascensão chinesa delineia a perda de mais uma oportunidade histórica de aproveitar um poderoso impulso externo para iniciar um processo de desenvolvimento industrial e tecnológico efetivamente virtuoso para nossa sociedade.

Para isso, é necessário capacidade e interesse políticos e senso de planejamento estratégico. É possível, para o Brasil, aproveitar-se do impulso da demanda chinesa aos produtos primários brasileiros ao mesmo tempo em que se capitaliza e protege a indústria e se exige compartilhamento de tecnologias e produtos com o capital estrangeiro afim de criar em duas ou três décadas, não mais do que isso, uma indústria nacional autônoma em vários setores-chave que, a partir daí, caminhe com suas próprias pernas.

A deixar tudo como está, no sabor das regras do livre-mercado e do idealismo liberal de nossa tola diplomacia, assistiremos a mais uma oportunidade dourada escorrer por nossas mãos.

Arnaldo Gordo