Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Revoltas Árabes e o Ocidente

Confronto de Civilizações ou Encontro de Mafiosos?

Confronto de Civilizações ou Encontro de Mafiosos?

As sucessivas rebeliões que explodiram em variados países do mundo árabe desde janeiro de 2011 vem chamando a atenção de todo o mundo nestas últimas semanas.

Começando pela Tunísia, logo se espalharam por vários outros países. Egito, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Argélia, Líbia parecem ser os principais epicentros da convulsão.

Nos chama a atenção, entretanto, a ‘inexistência’ deste movimento na Arábia Saudita. Já escrevemos aqui neste blog sobre este país. Sua monarquia se trata do mais longevo, severo e repressor de todos estes regimes, e as mulheres, por exemplo, sequer são consideradas capazes de dirigir e também não constumam ser alfabetizadas. Com tudo isso, aparentemente nada acontece lá.

‘Coincidentemente’, os sauditas são os maiores fornecedores de petróleo aos EUA, ao passo que são um dos principais compradores de suas armas.

Será que a Arábia Saudita também está em chamas, mas não sai na TV?

Em todo caso, tunisianos e egípcios já tiveram, inclusive, mudança de governo – ainda que, não necessariamente, de regime.

No caso do Egito, derrubou-se Hosni Mubarak, chefe da aeronáutica do país, e o país encontra-se no momento sob comando de uma junta militar, o que significa trocar seis por meia dúzia.

Existe uma vaga promessa de nova constituição e de eleições dentro de alguns meses. A conferir.

Rio Revolta não pretende entrar na problemática das revoltas propriamente ditas.

Primeiro porque o que sabemos delas nos vem pela grande mídia burguesa ocidental, o que torna tudo mais complicado e menos confiável. Exceto – quando temos acesso – as transmissões da Al Jazeera e pequenas mídias independentes, mas em geral, raras.

Segundo porque, a princípio, parece sempre ser legítimo que um povo se organize para derrubar seu líder, o que parece ter sido o caso do Egito, a menos que se queira negar o caráter de multidão das imagens.

A questão do que estaria nas mentes e corações daqueles manifestantes é uma outra história.

Podem sim ter sido motivados por uma forte dose de ‘propaganda ocidental’, e provavelmente o foram de alguma maneira.

Mas é difícil reconhecer mérito em governos que se perpetuam décadas sem que o país e seu povo logrem reverter minimamente que seja sua posição periférica e subdesenvolvida, ainda que certa parte do ‘esquerdismo’ sempre consiga meios de fazê-lo.

Nosso objetivo aqui é discutir a reação ocidental (leia-se: norte-americana) às rebeliões árabes e, particularmente, à egípcia.

O Egito é um país singular dentro do mundo árabe. Tem a maior população dentre todos eles (mas não do mundo islâmico, cuja maior população é a da Indonésia), sua posição geográfica é particularmente estratégica, conectando África e Ásia, Ocidente e Oriente. Por lá passa o canal de Suez.

Para seu grande azar, o Egito é um país com escassas reservas de petróleo, e justamente numa área em que este abunda. Vários de seus vizinhos mais imediatos são grandes produtores, como Líbia, Sudão e o maior deles, a Arábia Saudita.

Por essa e por várias outras razões, é um país muito pobre. Entretanto, tem uma posição extremamente representativa no imaginário do mundo árabe. Diz-se que o que acontece por lá influencia profundamente toda a região.

O Egito teve apenas três líderes no último meio século. Nasser, Sadat e Mubarak.

No geral, não havia grandes semelhanças entre eles. O primeiro era anti-ocidental, nacionalizou o canal de Suez (pelo que foi invadido por franceses e ingleses), alinhou-se com a União Soviética e atacou Israel na guerra dos Seis Dias em 1967, sendo derrotado.

Engajava-se na política internacional como um pan-arabista e tomava parte do bloco dos países não-alinhados, do qual era um dos grandes líderes. Influenciou e inspirou a tal ponto o mundo árabe que Egito e Síria uniram-se num país chamado República Árabe Unida, que durou apenas três anos.

Nasser morreu em 1970 e foi substituido por Sadat, que tomou algumas direções francamente divergentes de seu antecessor, de quem havia sido um dos principais colaboradores.

Atacou Israel na guerra do Yom Kippur em 1973, da qual também saiu derrotado. Após este fato, aceitou acordo de paz com aquele país, reconhecendo e admitindo sua existência – fato que atraiu a ira de boa parte do mundo árabe e pelo qual pagaria com sua vida em 1981, morto por (supostos) fundamentalistas islâmicos, militares do próprio exército egípcio.

A partir da metade dos anos 70, abandonou a proximidade com a URSS, da qual exigiu a retirada de todo seu pessoal, e aproximou-se dos Estados Unidos. Data portanto deste período a transformação do Egito em principal aliado norte-americano e israelense na região.

Então veio Mubarak. Foi sem dúvida, de todos os três, o mais simpático aos interesses ocidentais. Diferentemente de Nasser (que assumiu como o próprio inimigo encarnado do ‘imperialismo ocidental’ e assim morreu) e de Sadat (que assumiu como inimigo mas depois se tornou seu aliado), Mubarak já assumiu o poder por intermédio dos interesses ocidentais, dos quais fez-se representante.

Manteve e na realidade aprofundou a aliança egípcia com EUA e Israel, mantendo inclusive posição muito cautelosa quanto a questão palestina, da qual nunca se fez aberto defensor.

Mubarak esteve no palácio presidencial de 1981 até a semana passada. Para a grande mídia ocidental burguesa, nunca havia sido ditador. Então, o que aconteceu?

Barack Obama parece ser daqueles presidentes norte-americanos que acreditam no destino manifesto de sua nação, absolutamente convencidos da superioridade de seus valores e do dever de expandi-los pelo mundo – pelo bem deste último, é claro!

Ou então tem absoluta certeza de que a introdução das instituições liberais burguesas no Egito dará os resultados eleitorais esperados pelos interesses ocidentais.

Ou ambos.

Porque só assim para entender seu irrestrito apoio aos protestos contra o governo Mubarak desde que eles começaram. E se a explicação for apenas a primeira, corre o risco de ver sua ingenuidade resultar em tragédia.

O que Nasser, Sadat e Mubarak tinham em comum?

O que Mubarak, Saddam Hussein, Muamar Kadafi, Ben Ali, Bouteflika e vários desses líderes árabes que há algumas semanas ‘viraram’ sanguinários ditadores tem em comum?

A resposta é: são líderes laicos em sociedades islãmicas. Em todos estes regimes os movimentos islâmicos fundamentalistas foram reprimidos e postos fora da lei.

Qual resultado eleitoral apresentou o Iraque depois da introdução pela força militar norte-americana das instituições liberais burguesas? Vitória do partido xiita pró-Irã e anti-EUA e guerra civil no país.

Retornemos ao caso egípcio. E que tal se o principal motivo para a inconformidade dos egípcios com Mubarak tiver sido a percepção popular de sua subserviência aos interesses norte-americanos e sua política de paz com Israel?

E se o fundamentalismo islãmico, sem o peso da repressão do regime de Mubarak e autorizado a criar seu partido político, lograr vitória nas eleições prometidas para o próximo ano? O que será dos interesses norte-americanos na região, e o que será da paz israelense?

Nota-se que os israelenses, na linha direta de tiro e sem aquelas alucinações idealistas dos norte-americanos ‘progressistas’ como Barack Obama, não se entusiasmaram nem um pouco com todo aquele tumulto.

O máximo que seu primeiro-ministro Netanyahu e que se chanceler (por sinal outro fundamentalista tresloucado, porém do lado de lá) Lieberman se limitaram a dizer foi que ‘o novo governo egípcio deve respeitar suas obrigações internacionais’.

As revoltas árabes ainda estão em curso, na maioria dos países. Outros ainda podem vir. O próximo a cair parece ser Kadafi, para a alegria do Ocidente, mesmo que seu ‘fracassado’ regime proto-socialista de inspiração islâmica tenha feito da Líbia o país mais rico (maior renda per capita) e próspero (maior IDH) da África.

E antes que você pense “ah, da África!”, sim, tanto o IDH quanto a renda per capita líbia são bastante superiores aos do Brasil (confira na Wikipedia em inglês, se tiver duvidas).

E se Kadafi infla seus dados, pelo menos o faz melhor que nossos presidentes democratas.

O que não quer dizer que o defendemos ou que dele gostamos, quando o próprio admitiu ter sido mandante do autor de barbáries tais como o atentado de Lockerbie, quando mandou explodir avião com quase 300 civis, o que o coloca lado a lado com todos os grandes criminosos da história da humanidade.

Mesmo que certo ‘esquerdismo’ se esforce para fazer dele um grande herói, porque é inimigo do Ocidente e portanto o ‘inimigo do meu inimigo é meu amigo’.

O ‘esquerdismo’ não consegue assistir filmes sem encontrar um herói; para Rio Revolta, a história da humanidade é um filme de dois bandidos, sem mocinho.

Não, não há idealismo no mundo. O ‘idealismo progressista’ de Obama e de certos setores norte-americanos é apenas uma estratégia, mais convincente do que bélica, de alcançar seus mesmos objetivos políticos e econômicos de sempre. O império será sempre imperial.

Entre um concerto de saxofone e um contato inapropriado com Monica Lewinsky e outro no salão oval da Casa Branca, nosso gentleman bon-vivant Bill Clinton bombardeou quase que diariamente o Iraque, usou ‘smart bombs’ para destruir farmácias no Sudão e humilhou a Europa bombardeando a Sérvia sob a farda da OTAN, acertando ‘por acaso’ a embaixada chinesa em Belgrado.

Tudo isso não impede Obama de acreditar sinceramente em tudo aquilo que diz, afinal o ingênuo tem como se absolver de suas barbáries, ao passo que o realista desde o início sabe bem o que faz.

O Ocidente parece se comportar como se a introdução de suas instituições ditas ‘democráticas’ nestas sociedades fosse por si só garantir a manutenção de seus interesses.

Por outro lado, o discurso da democracia soa mesmo muito bonito e promissor para povos sob péssimas condições materiais de existência e submetidos a estritos controle e repressão por orgãos governamentais.

Não cairemos no típico discurso do ‘esquerdismo’ e sem dúvida preferimos viver sob um regime político que nos permita escrever o que bem entendermos sem nos prender por tal, mesmo que sob certas condições – que só uns gatos pingados leiam e que jamais ouse se concretizar num movimento político anti-ordem.

Mas as vantagens deste regime não passam dessas, e suas desvantagens são inúmeras. Poucos são os que se dão conta de que a grande artimanha das instituições liberais burguesas é justamente sua capacidade de promover a igualdade onde ela menos importa para a burguesia, na política, para assegurar sua impossibilidade onde ela realmente lhe importa, na economia. As ‘cartas marcadas’ que falamos aqui. O regime burguês dá ao povo sua igualdade política para impedir sua igualdade econômica, isso vários críticos do liberalismo e da filosofia do direito já falaram. Pouca novidade.

Vai ser curioso e trágico se daqui há alguns meses ou anos, no lugar dos dóceis ditadores pró-ocidente cuja derrubada vem sendo comemorada pelos ocidentais, tomarem o governo, DEMOCRATICAMENTE ELEITOS pelos povos árabes, regimes fundamentalistas islâmicos cuja principal proposta seja transformar boa parte de seus povos em mártires da jihad ao imperialismo ocidental e ao sionismo israelense.

A conferir.

Arnaldo Gordo

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2 Respostas para “Revoltas Árabes e o Ocidente

  1. Marcelino Writer 23 de fevereiro de 2011 às 22:27

    Diante da ausência de informações mais aprofundadas sobre o processo, podemos apenas especular possibilidades. Concordo com as variáveis descritas e realmente não sei o que esperar. Um aspecto interessante também a considerar e refletir, segundo o que li pela “imprensa ocidental”, é que a internet teve grande influência na organização desses movimentos, com forte presença da juventude.

    Já li notícias de que tais levantes estão ultrapassando as fronteiras do mundo árabe, o que me contenta ainda mais. Espero ainda que os próximos acontecimentos ultrapassem nosso horizonte de expectativas, e que deles surjam tipos de organização política realmente inovadoras.

  2. nathaniel 15 de agosto de 2011 às 13:48

    A ARÁBIA SAUDITA SEMPRE O PAÍS MAIS INFLUENTE DO ORIENTE M´DIO, E CONCERTEZA AQUELE COM MAIS PRESTIGIOS COM OS ESTADOS UNIDOS , O QUE FACILITA A “ESTABILIDADE DE SEU REGIME” E A NEGOCIAÇÃO COM PÓSSIVEIS CONFRONTOS EM SEU PAÍS.

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