Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: fevereiro 2011

Revoltas Árabes e o Ocidente

Confronto de Civilizações ou Encontro de Mafiosos?

Confronto de Civilizações ou Encontro de Mafiosos?

As sucessivas rebeliões que explodiram em variados países do mundo árabe desde janeiro de 2011 vem chamando a atenção de todo o mundo nestas últimas semanas.

Começando pela Tunísia, logo se espalharam por vários outros países. Egito, Jordânia, Bahrein, Marrocos, Argélia, Líbia parecem ser os principais epicentros da convulsão.

Nos chama a atenção, entretanto, a ‘inexistência’ deste movimento na Arábia Saudita. Já escrevemos aqui neste blog sobre este país. Sua monarquia se trata do mais longevo, severo e repressor de todos estes regimes, e as mulheres, por exemplo, sequer são consideradas capazes de dirigir e também não constumam ser alfabetizadas. Com tudo isso, aparentemente nada acontece lá.

‘Coincidentemente’, os sauditas são os maiores fornecedores de petróleo aos EUA, ao passo que são um dos principais compradores de suas armas.

Será que a Arábia Saudita também está em chamas, mas não sai na TV?

Em todo caso, tunisianos e egípcios já tiveram, inclusive, mudança de governo – ainda que, não necessariamente, de regime.

No caso do Egito, derrubou-se Hosni Mubarak, chefe da aeronáutica do país, e o país encontra-se no momento sob comando de uma junta militar, o que significa trocar seis por meia dúzia.

Existe uma vaga promessa de nova constituição e de eleições dentro de alguns meses. A conferir.

Rio Revolta não pretende entrar na problemática das revoltas propriamente ditas.

Primeiro porque o que sabemos delas nos vem pela grande mídia burguesa ocidental, o que torna tudo mais complicado e menos confiável. Exceto – quando temos acesso – as transmissões da Al Jazeera e pequenas mídias independentes, mas em geral, raras.

Segundo porque, a princípio, parece sempre ser legítimo que um povo se organize para derrubar seu líder, o que parece ter sido o caso do Egito, a menos que se queira negar o caráter de multidão das imagens.

A questão do que estaria nas mentes e corações daqueles manifestantes é uma outra história.

Podem sim ter sido motivados por uma forte dose de ‘propaganda ocidental’, e provavelmente o foram de alguma maneira.

Mas é difícil reconhecer mérito em governos que se perpetuam décadas sem que o país e seu povo logrem reverter minimamente que seja sua posição periférica e subdesenvolvida, ainda que certa parte do ‘esquerdismo’ sempre consiga meios de fazê-lo.

Nosso objetivo aqui é discutir a reação ocidental (leia-se: norte-americana) às rebeliões árabes e, particularmente, à egípcia.

O Egito é um país singular dentro do mundo árabe. Tem a maior população dentre todos eles (mas não do mundo islâmico, cuja maior população é a da Indonésia), sua posição geográfica é particularmente estratégica, conectando África e Ásia, Ocidente e Oriente. Por lá passa o canal de Suez.

Para seu grande azar, o Egito é um país com escassas reservas de petróleo, e justamente numa área em que este abunda. Vários de seus vizinhos mais imediatos são grandes produtores, como Líbia, Sudão e o maior deles, a Arábia Saudita.

Por essa e por várias outras razões, é um país muito pobre. Entretanto, tem uma posição extremamente representativa no imaginário do mundo árabe. Diz-se que o que acontece por lá influencia profundamente toda a região.

O Egito teve apenas três líderes no último meio século. Nasser, Sadat e Mubarak.

No geral, não havia grandes semelhanças entre eles. O primeiro era anti-ocidental, nacionalizou o canal de Suez (pelo que foi invadido por franceses e ingleses), alinhou-se com a União Soviética e atacou Israel na guerra dos Seis Dias em 1967, sendo derrotado.

Engajava-se na política internacional como um pan-arabista e tomava parte do bloco dos países não-alinhados, do qual era um dos grandes líderes. Influenciou e inspirou a tal ponto o mundo árabe que Egito e Síria uniram-se num país chamado República Árabe Unida, que durou apenas três anos.

Nasser morreu em 1970 e foi substituido por Sadat, que tomou algumas direções francamente divergentes de seu antecessor, de quem havia sido um dos principais colaboradores.

Atacou Israel na guerra do Yom Kippur em 1973, da qual também saiu derrotado. Após este fato, aceitou acordo de paz com aquele país, reconhecendo e admitindo sua existência – fato que atraiu a ira de boa parte do mundo árabe e pelo qual pagaria com sua vida em 1981, morto por (supostos) fundamentalistas islâmicos, militares do próprio exército egípcio.

A partir da metade dos anos 70, abandonou a proximidade com a URSS, da qual exigiu a retirada de todo seu pessoal, e aproximou-se dos Estados Unidos. Data portanto deste período a transformação do Egito em principal aliado norte-americano e israelense na região.

Então veio Mubarak. Foi sem dúvida, de todos os três, o mais simpático aos interesses ocidentais. Diferentemente de Nasser (que assumiu como o próprio inimigo encarnado do ‘imperialismo ocidental’ e assim morreu) e de Sadat (que assumiu como inimigo mas depois se tornou seu aliado), Mubarak já assumiu o poder por intermédio dos interesses ocidentais, dos quais fez-se representante.

Manteve e na realidade aprofundou a aliança egípcia com EUA e Israel, mantendo inclusive posição muito cautelosa quanto a questão palestina, da qual nunca se fez aberto defensor.

Mubarak esteve no palácio presidencial de 1981 até a semana passada. Para a grande mídia ocidental burguesa, nunca havia sido ditador. Então, o que aconteceu?

Barack Obama parece ser daqueles presidentes norte-americanos que acreditam no destino manifesto de sua nação, absolutamente convencidos da superioridade de seus valores e do dever de expandi-los pelo mundo – pelo bem deste último, é claro!

Ou então tem absoluta certeza de que a introdução das instituições liberais burguesas no Egito dará os resultados eleitorais esperados pelos interesses ocidentais.

Ou ambos.

Porque só assim para entender seu irrestrito apoio aos protestos contra o governo Mubarak desde que eles começaram. E se a explicação for apenas a primeira, corre o risco de ver sua ingenuidade resultar em tragédia.

O que Nasser, Sadat e Mubarak tinham em comum?

O que Mubarak, Saddam Hussein, Muamar Kadafi, Ben Ali, Bouteflika e vários desses líderes árabes que há algumas semanas ‘viraram’ sanguinários ditadores tem em comum?

A resposta é: são líderes laicos em sociedades islãmicas. Em todos estes regimes os movimentos islâmicos fundamentalistas foram reprimidos e postos fora da lei.

Qual resultado eleitoral apresentou o Iraque depois da introdução pela força militar norte-americana das instituições liberais burguesas? Vitória do partido xiita pró-Irã e anti-EUA e guerra civil no país.

Retornemos ao caso egípcio. E que tal se o principal motivo para a inconformidade dos egípcios com Mubarak tiver sido a percepção popular de sua subserviência aos interesses norte-americanos e sua política de paz com Israel?

E se o fundamentalismo islãmico, sem o peso da repressão do regime de Mubarak e autorizado a criar seu partido político, lograr vitória nas eleições prometidas para o próximo ano? O que será dos interesses norte-americanos na região, e o que será da paz israelense?

Nota-se que os israelenses, na linha direta de tiro e sem aquelas alucinações idealistas dos norte-americanos ‘progressistas’ como Barack Obama, não se entusiasmaram nem um pouco com todo aquele tumulto.

O máximo que seu primeiro-ministro Netanyahu e que se chanceler (por sinal outro fundamentalista tresloucado, porém do lado de lá) Lieberman se limitaram a dizer foi que ‘o novo governo egípcio deve respeitar suas obrigações internacionais’.

As revoltas árabes ainda estão em curso, na maioria dos países. Outros ainda podem vir. O próximo a cair parece ser Kadafi, para a alegria do Ocidente, mesmo que seu ‘fracassado’ regime proto-socialista de inspiração islâmica tenha feito da Líbia o país mais rico (maior renda per capita) e próspero (maior IDH) da África.

E antes que você pense “ah, da África!”, sim, tanto o IDH quanto a renda per capita líbia são bastante superiores aos do Brasil (confira na Wikipedia em inglês, se tiver duvidas).

E se Kadafi infla seus dados, pelo menos o faz melhor que nossos presidentes democratas.

O que não quer dizer que o defendemos ou que dele gostamos, quando o próprio admitiu ter sido mandante do autor de barbáries tais como o atentado de Lockerbie, quando mandou explodir avião com quase 300 civis, o que o coloca lado a lado com todos os grandes criminosos da história da humanidade.

Mesmo que certo ‘esquerdismo’ se esforce para fazer dele um grande herói, porque é inimigo do Ocidente e portanto o ‘inimigo do meu inimigo é meu amigo’.

O ‘esquerdismo’ não consegue assistir filmes sem encontrar um herói; para Rio Revolta, a história da humanidade é um filme de dois bandidos, sem mocinho.

Não, não há idealismo no mundo. O ‘idealismo progressista’ de Obama e de certos setores norte-americanos é apenas uma estratégia, mais convincente do que bélica, de alcançar seus mesmos objetivos políticos e econômicos de sempre. O império será sempre imperial.

Entre um concerto de saxofone e um contato inapropriado com Monica Lewinsky e outro no salão oval da Casa Branca, nosso gentleman bon-vivant Bill Clinton bombardeou quase que diariamente o Iraque, usou ‘smart bombs’ para destruir farmácias no Sudão e humilhou a Europa bombardeando a Sérvia sob a farda da OTAN, acertando ‘por acaso’ a embaixada chinesa em Belgrado.

Tudo isso não impede Obama de acreditar sinceramente em tudo aquilo que diz, afinal o ingênuo tem como se absolver de suas barbáries, ao passo que o realista desde o início sabe bem o que faz.

O Ocidente parece se comportar como se a introdução de suas instituições ditas ‘democráticas’ nestas sociedades fosse por si só garantir a manutenção de seus interesses.

Por outro lado, o discurso da democracia soa mesmo muito bonito e promissor para povos sob péssimas condições materiais de existência e submetidos a estritos controle e repressão por orgãos governamentais.

Não cairemos no típico discurso do ‘esquerdismo’ e sem dúvida preferimos viver sob um regime político que nos permita escrever o que bem entendermos sem nos prender por tal, mesmo que sob certas condições – que só uns gatos pingados leiam e que jamais ouse se concretizar num movimento político anti-ordem.

Mas as vantagens deste regime não passam dessas, e suas desvantagens são inúmeras. Poucos são os que se dão conta de que a grande artimanha das instituições liberais burguesas é justamente sua capacidade de promover a igualdade onde ela menos importa para a burguesia, na política, para assegurar sua impossibilidade onde ela realmente lhe importa, na economia. As ‘cartas marcadas’ que falamos aqui. O regime burguês dá ao povo sua igualdade política para impedir sua igualdade econômica, isso vários críticos do liberalismo e da filosofia do direito já falaram. Pouca novidade.

Vai ser curioso e trágico se daqui há alguns meses ou anos, no lugar dos dóceis ditadores pró-ocidente cuja derrubada vem sendo comemorada pelos ocidentais, tomarem o governo, DEMOCRATICAMENTE ELEITOS pelos povos árabes, regimes fundamentalistas islâmicos cuja principal proposta seja transformar boa parte de seus povos em mártires da jihad ao imperialismo ocidental e ao sionismo israelense.

A conferir.

Arnaldo Gordo

Anúncios

Governo Dilma: começou muito mal

O Governo Dilma começou muito mal. Logo de cara, elevou os juros em 0,5% ao ano. Agora há pouco, na quarta-feira, dia 9 de fevereiro, acaba de anunciar um corte orçamentário de singelos 50 (cinquenta) bilhões de reais – montante superior ao PIB de quase metade dos estados da Federação – mais precisamente, de doze deles. É uma quantia colossal de dinheiro que deixará de circular pela economia do país.

Feita esta breve apresentação, passemos aos fatos.

Como é sabido de todos os leitores de ‘Rio Revolta’ – são muitos, nós temos certeza -, nos empenhamos, na mais recente eleição presidencial, na campanha pela vitória de Dilma Roussef. As razões foram então por nós muito comentadas, e não cabe retornar ao tema. Para resumir em uma única frase, diríamos que nosso desejo de vitória de Dilma devia-se muito menos a quaisquer méritos dela ou de governos petistas do que ao temor da catástrofe sócio-econômica que se abateria sobre este país em caso de retorno dos fundamentalistas de mercado aglutinados na coligação PSDB-PFL(DEM), que se apresentou encarnada na candidatura de José Serra. Votamos em Dilma, portanto, apenas para evitar um mal maior.

Dito isto, também nunca foi mistério para nós que, a despeito do que muitos pensam, o Governo Lula foi, no que teve de mais fundamental, um governo plena e incondicionalmente adesista às condições e interesses macroeconômicos dos mercados financeiros. Isto pode parecer estranho especialmente para determinados setores da ‘esquerda’ que acreditam piamente, sabe-se lá porque, que o Governo Lula iniciou uma espécie de ‘revolução ocidental’ do tipo gramsciano, começando pela elaboração de uma ‘contra-ideologia’ àquela que se faz hegemônica etc etc etc. São muitos os que caem neste conto, para nós, um erro absolutamente flagrante: nada fez mais para legitimar o capitalismo em terras brasileiras do que a figura de um operário encarnando seu comando político.

Para nós, a única diferença palpável entre PSDB e PT no governo foi que este último, ao menos, executou aquilo que se convencionou chamar de ‘política anti-cíclica’. Esta idéia, popularizada por Lord Keynes, versa em suas linhas mais gerais que o Governo deve agir sempre na direção contrária à do mercado. Isto significa que, quando os agentes privados estão confiantes nas perspectivas futuras e encontrando-se investindo e contratando mão-de-obra, o governo restringe seus gastos e tende a fazer poupança. Nos momentos recessivos, em que a iniciativa privada retrai seus investimentos e demite mão-de-obra, é o governo que toma a iniciativa de reativar a economia, abrindo os cofres, entrando em déficit, investindo e contratando mão-de-obra, em suma, injetando recursos para contrabalançar a retração do setor privado. Assim, acredita-se, os gastos públicos funcionarão como um ‘colchão’, amortecendo as quedas (e catalisando a retomada do crescimento) e permitindo à iniciativa privada que toque livremente o barco quando tudo vai bem.

A crise financeira do capitalismo mundial iniciada em 2007 (para alguns países como a Irlanda) e 2008 (como no Brasil) mostrou-se a oportunidade de ouro para o governo Lula executar tal política – e ele a aproveitou excepcionalmente bem, a despeito do escárnio generalizado da mídia burguesa quando este disse que a crise no Brasil ‘seria uma marolinha’. De fato, a economia brasileira teve um ano, 2009, recessivo; entretanto, retrocedeu muito menos que quase todo o planeta, e recuperou-se vigorosamente em 2010, enquanto a maior parte do mundo – principalmente os países centrais, mas também muitos periféricos como o México – ainda permanece mal das pernas. Num país cujo povo, como o brasileiro, é carente de quase tudo, esta simples benesse mostrou-se suficiente para Lula tornar-se um mito e fabricar para si uma sucessora. ‘Rio Revolta’ também embarcou neste barco, porque afinal de contas, no reinado de FHC nem sequer política anti-cíclica se esboçou. Se os automatismos de mercado não davam conta, que todos morressem de fome.

‘Rio Revolta’ também sabia que o Governo Dilma começaria com ‘medidas ortodoxas’ – leia-se, pró-mercado. Foi assim que Lula fez, em praticamente todo o seu primeiro mandato e ‘deu certo’, da perspectiva dele; logo, também seria assim que Dilma faria. O que isto quer dizer? Quer dizer que Dilma, como fez Lula, iniciará seu governo com medidas macroeconômicas de grande cautela cuja intenção será afastar qualquer perspectiva inflacionária, como que pedindo permissão aos mercados e à mídia amestrada para governar. No caso de Lula, que iniciou seu governo num cenário terrível, mais precisamente, a herança macabra e não-reconhecida de FHC – dólar a quase 4 reais, inflação de 12,5% em 2002 e PIB há anos estagnado -, a receita foi dolorosa: seguidos aumentos de juros, cortes de orçamentos, elevação do superávit primário etc. Perdeu seus três primeiros anos de governo nesta ladainha, pouco reaquecendo a economia. Mas Lula pagou o pedágio, os mercados agradeceram, desapareceu o ‘efeito Lula’ e este pode governar, fazendo as benesses populares que bem entendia – é claro, tudo na medida em que a rolagem dos títulos da dívida pública permitisse.

‘Rio Revolta’ sabia que Dilma repetiria a mesma receita. Tinha absoluta certeza que os juros seriam elevados e que apareceriam cortes orçamentários. Até aí, nenhuma surpresa. O problema é que o cenário macroeconômico em que seu governo se inicia é radicalmente diferente do que Lula conheceu – para melhor. A mídia amestrada, através de figuras como Miriam Leitão, Merval Pereira e Bóris Casoy, repete semanalmente seu mantra: ‘inflação em alta’, ‘corte nos gastos públicos’, ‘corte de impostos’, ‘diminuição de juros’ etc. Os tecnocratas da equipe econômica do governo, intensamente vinculados a esta gente, assim como aos grandes bancos ‘nacionais’ e ‘estrangeiros’ e aos órgãos financeiros internacionais, só poderão mesmo executar suas políticas. Foi assim com Lula, será assim com Dilma.

O curioso é que esta mesma gente é aquela que aparece vez ou outra na televisão olhando invejosamente para a pujança do fantástico crescimento econômico chinês e se perguntando quando o Brasil terá tal desenvolvimento – ao mesmo tempo em que pedem menos gasto público, um Estado menor e ‘mais enxuto’ etc. – ou seja, tudo o que nos impedirá de atingir aquele crescimento. Não é possível conseguir tudo; é necessário escolher de que lado do discurso se está. Não é a toa que a China cresce tanto; lá existe uma combinação virtuosa entre investimentos estatais maciços e um montante colossal de investimento estrangeiro direto, estimulado pelo gigantesco mercado consumidor (se apenas 20% da China for classe média terá um mercado praticamente do tamanho da população dos EUA) e pela mão-de-obra escrava. Mas esta parte do problema, nenhum destes ideólogos burguesóides reconhece.

O principal instrumento pelo qual o mercado financeiro e seus ideológicos atualmente submetem a soberania do Estado brasileiro é o mecanismo do ‘superávit primário’. Vamos dar uma rápida olhada no ele significa, pois o nome é técnico, fetichista, e por isto mesmo, tem de ser desmistificado, pois seu discurso é absolutamente ilusionista. ‘Superávit primário’ significa a economia que o setor público de um país faz antes do pagamento dos juros da rolagem da dívida pública. O que significa isso? Significa que sob o termo ‘economia’ devemos entender todos aqueles investimentos fundamentais em educação, saúde, trabalho, renda e infra-estrutura que o Estado brasileiro deveria anualmente fazer, mas não está fazendo. E o ‘antes do pagamento dos juros da rolagem da dívida pública’ significa que esta economia não inclui o que é gasto com a rolagem desta dívida; mais do que isso, significa que é a rolagem desta dívida o propósito final da ‘economia’ que o governo vem fazendo, pois se esta rolagem é incluída na conta, o superávit desaparece.

Então, em substituição ao ilusionismo dos termos, passemos à objetividade dos fatos. Quando o governo comprime 50 (cinquenta) bilhões de reais do orçamento público de 2011, significa que ele investirá este valor a menos nas nossas creches, escolas, faculdades técnicas, universidades, clínicas e postos de saúde, hospitais, estradas, ferrovias, portos, linhas de transmissão de energia, hidroelétricas, termoelétricas e tudo o mais que o setor público possui que quisermos incluir nesta lista. Significa que contrará menos mão-de-obra para executar obras públicas, para os hospitais, para as universidades etc. E para onde vai este dinheiro? Vai para a rolagem dos títulos da dívida pública. Quem possui estes títulos? Bancos ‘nacionais’ e ‘estrangeiros’ (sempre com aspas pois capital não tem pátria); ‘investidores’ (especuladores) privados, residentes ou no exterior; fundos de ‘investimento’ (especulativos), hedge; e mais um enorme número de agentes envolvidos com esta interminável ciranda financeira em escala global que nós meros mortais nunca tomamos conhecimento.

Em resumo, quando lemos ‘superávit primário’ devemos entender ‘programa governamental de distribuição de renda’. Mas não é uma distribuição de renda qualquer, e podemos garantir que não guarda nenhuma semelhança com qualquer ‘Bolsa Família’ e afins. É uma distribuição de renda multi-bilionária, que em 2011 ocupará, segundo o projeto do orçamento federal1 – respire fundo – a simbólica quantia de 678,5 (seissentos e setenta e oito e meio) BILHÕES de reais, ou ainda, 33% do orçamento federal para o mesmo ano. No mesmo documento podemos ver que isto significa 90 (noventa) bilhões de reais a mais do que a rolagem de 2010. Assim sendo, caros amigos, é necessário reconhecer que o Governo Dilma, assim como fez o Lula, poderá orgulhosamente ostentar a autoria de um dos mais vastos programas de distribuição de renda do mundo, no qual os pobres e a classe média deste país transferem aproximadamente 4.000 reais por ano (faça as contas e divida aquele montante pela população aproximada do país), cada um, para os necessitados agentes da burguesia financeira ‘nacional’ e ‘internacional’.

É por isto que ‘Rio Revolta’ fica especialmente revoltado ao descobrir um dia através de um jornal burguês qualquer que o orçamento dos pobres mortais do ano que vem – aqueles que comem, trabalham, estudam, adoecem etc. – ficará no mínimo 50 bilhões de reais mais escasso (na verdade será mais do que isso em função do ‘efeito multiplicador’), enquanto aquela ínfima minoria que suga – com o consentimento do Estado brasileiro e, por conseguinte, de todos nós – para dentro de seus bolsos os frutos do trabalho de todo um país terá seus privilégios integralmente respeitados. Isto é o que o ilusionismo burguês chama de ‘o governo honrará seus compromissos’.

 

Que o Governo Dilma é um governo da burguesia, nós já sabíamos. Mas não precisava ter começado tão mal.

 

A.G.

 

1http://www.senado.gov.br/noticias/verNoticia.aspx?codNoticia=105857&codAplicativo=2