Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Um Dia Insólito

Quinta-feira, 25 de novembro de 2010.

Dia de guerra civil no Rio de Janeiro.

 

De frente para a TV por alguns breves minutos, entre uma atividade e outra, este que vos escreve presencia a seguinte cena – insólita, bizarra.

Na imagem, uma coluna de carros blindados (vulgos tanques de guerra) da Marinha do Brasil dirige-se para a Penha, zona norte da cidade, junto a grupos da PM e do BOPE.

O alvo, a Vila Cruzeiro (a favela do Adriano).

Eis então que, diante daquela cena, que poderia ter sido extraída de qualquer front mundo afora – Afeganistão, Iraque, Sudão, Somália, o mundo está cheio deles -, o narrador burguês da Rede Globo pronuncia-se, decretando solenemente:

“Neste momento, o clima na cidade é de tranquilidade. As pessoas deslocam-se e trabalham normalmente”.

Hmm.

Logo me vem a cabeça, a absoluta contradição entre o que se via na imagem, e o que se ouvia pela voz do apaniguado.

Tento, então, num esforço desesperado, compreender o que se passa, desvendar o que poderia estar por trás daquele “raciocínio”.

Pois bem. Se vejo uma coluna de tanques de guerra marchando para o front e o narrador diz que a cidade está tranquila e as pessoas deslocam-se e trabalham normalmente, pelo menos uma das opções abaixo tem de ser válidas.

1 – O bairro da Penha não se localiza na cidade do Rio de Janeiro.

2 – No bairro da Penha não residem pessoas mas, sim, seres dignos de um outro nome.

3 – Supondo que lá vivam pessoas, não se deslocam e, muito menos, trabalham.

Pelo menos no meu entender, todas estas opções são falsas.

O que poderia estar, portanto, por trás de tal colocação?

Para nós do Rio Revolta a coisa parece clara, e torna-se absolutamente fundamental uma análise deste histórico momento, para tentarmos entender o porque disso tudo que hoje nos aflinge.

Quando disse que a cidade estava tranquila e as pessoas deslocavam-se e trabalham normalmente, o narrador evidentemente havia excluído aquela região da cidade de sua argumentação. E a razão é óbvia.

Aquela é a (uma das) parte do lixo, do esgoto, da favela (para os politicamente corretos: comunidade), da pobreza, da miséria, do crime, da bandidagem, do tráfico, do sei lá mais o que.

Portanto, não é mesmo, no nosso imaginário mé(r)dio-classista, parte da cidade. É uma outra coisa, que infelizmente está lá, da qual nos envergonhamos e com a qual não temos nada a ver.

Daí compreendemos, também, para quem, inconscientemente (ou seria mesmo explícita e reconhecidamente?) falava o narrador burguês da Rede Globo.

Ele não fala aos moradoras da Penha. Ele fala aos da Zona Sul, Barra, Tijuca, Méier e onde mais se localizem as “pessoas de bem” (a classe mé(r)dia).

Portanto, realmente, para nós, as “pessoas de bem” (a classe mé(r)dia), a cidade estava tranquila e nós nos movimentávamos e trabalhávamos normalmente.

Por sinal, nem isso aconteceu. Carros incendiados hoje em Botafogo, Copacabana, Avenida Presidente Vargas, bem no meio de “nós” (como eles puderam! Quanta audácia! Caveira neles!).

Mas vamos lá, ao que interessa.

Reações ao fato, as mesmas de sempre. Choque, horror, exigências variadas da máxima repressão possível, em tons de vermelho.

Cheque em branco dado às forças repressivas – tanto estatais quanto privadas – para exterminar como bem entenderem, por tempo indeterminado.

Até que a sanha de vingança dos formadores de opinião se aplaque.

Afluem para os corredores da grande mídia elitista (o PiG, Partido da Imprensa Golpista) “especialistas” variados – criminólogos, economistas, sociólogos, antropólogos.

A troca é conveniente a todos. A mídia consegue as falas dos portadores dos diplomas, que referendam suas opiniões abissais junto à “exigente” opinião pública de classe mé(r)dia.

Os portadores dos diplomas, por sua vez, dão a chancela “técnica” e “especialista” às opiniões genocidas da grande mídia, ganham nome e visibilidade nacional e – claro – $$$ no bolso.

Surgem, também, os presidentes de ONGs – das quais a VivaRio (VivaRico?) faz-se vanguarda e ponta de lança. Todos tem a resposta na ponta da língua:

POLÍCIA, POLÍCIA E POLÍCIA!

BOPE, BOPE E BOPE!

E se necessário:

FORÇAS ARMADAS!

EXÉRCITO!

MARINHA!

(Ninguém ainda aventou SERIAMENTE a hipótese de bombardear os morros, daí, não invocarmos a Aeronáutica).

Deixe-me ver se Rio Revolta conseguiu, finalmente, entender.

A coisa é mais ou menos assim.

O Estado sobe o morro, seja lá qual for a corporação específica que o esteja representado.

Lá em cima, faz-se sentir pelo matraquear de suas armas.

Mata os 10, 20, 50, 200, 500 “bandidos” que lá em cima estiverem, não importa o número.

Como efeito colateral, mata mais uns 10, 20, 50, 200, 500 moradores, também não importando o número.

Limpo o terreno, desce o morro.

Tudo se acalma.

A cidade volta a ficar tranquila e as pessoas voltam a se deslocar e trabalhar normalmente.

Até que o ciclo recomece e surja uma nova safra de “bandidos”.

E em algum momento eles “saem do controle” e tudo se faz necessário novamente.

Genial.

Agora compreendo tudo.

E compreendo, também:

Porque somos incapazes de simplesmente FALAR A RESPEITO do que realmente mudaria essa situação, no longo prazo:

1 – Porque a elite que invoca a repressão, ufana-se do BOPE e defende o genocídio é a mesma que não quer pagar um centavo além do salário mínimo para seus empregados.

2 – Porque tanto a elite quanto a classe mé(r)dia jamais cogitaram uma redistribuição de renda nesta cidade e neste país que permita às favelas tornarem-se bairros e aos seus moradores tornarem-se cidadãos com emprego regular, nível decente de escolaridade, assistência médica e o mínimo de serviços do Estado.

3 – Porque esta elite e a classe mé(r)dia acham mesmo que pobre é pobre porque quer ou porque merece ser, já que, afinal, moramos num país dotado de iniciativa privada pujante e de visão de longo prazo, interessadíssima em criar muitos empregos com altos salários que permitam um mercado interno forte para que ela própria venda cada vez mais e assim por diante.

4 – Porque você, se fosse morador de um morro, talvez se sentisse muito tentado a tentar a vida como “bandido” ao invés de ser humilhado, se matando de trabalhar por um riquinho do asfalto, ganhando 500 reais e se sentindo um OTÁRIO?

Mas afinal de conta, caros amigos, essa situação toda é só um problema do Estado, a elite e nós da classe mé(r)dia não temos nada a ver com ele, não é mesmo?

Arnaldo Gordo

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Uma resposta para “Um Dia Insólito

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