Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

A velha cara do fascismo

Em maio escrevi sobre a Nova cara do Fascismo, foi pouco antes do “Tea Party” americano aparecer nos noticiários brasileiros e um bocado antes do fascismo brasileiro dar as caras novamente, surpreendentemente – para alguns – apoiando o candidato de centro-direita José Serra, do PSDB, partido ultra-liberal brasileiro. Surpreendente porque a campanha baixou a níveis de 89, mas isso já falei em posts anteriores. Prossigamos.

Chamei daVelha Cara do Fascismo, pois as coisas não poderiam ser mais claras do que aparecerão agora e mais arcaicas também. Como registrado em vários blogs, a onda de xenofobia, racismo e preconceito explícito que se viu logo após a confirmação de Dilma eleita, só veio completar a onda de mentiras, preconceito, conservadorismo e anti-progressismo que marcaram a campanha do PSDB este ano. Não canso de repetir: a campanha serrista veio desenterrar coisas como “Tradição, Família e Propriedade” (entidade sempre ligada aos setores fascistas da sociedade, apoiadora inconteste da ditadura militar); reviveu por breves momentos o movimento Integralista, com ligações monetárias inclusive; trouxeram para o debate político os fundamentalistas evangélicos, através de seu arauto Silas Malafaya; trazidos ao primeiro plano também, foram os bispos ultra-conservadores da CNBB paulista – aquela mesma que abençoava a ditadura -, convocaram até o Papa Ratzinger para o pleito. Ele, o Inquisitor de Leonardo Boff (Teologia da Libertação), que quando teve 16 e 17 anos foi obrigado a servir o exército nazista, enquanto vários outros de sua idade procuraram resistir. Curiosamente, é de similar idade dos jovens serristas que vomitaram todo o seu racismo no twitter e facebook desde o domingo último, como o vídeo abaixo mostra:

A onda neofascista, preconceituosa e elitista, que se consolidou claramente nos últimos dois meses, facilmente detectável até às pessoas menos politizadas, tem uma raíz muito maior do que se pensa. A tendência de nossas classes médias e elites ao fascismo é histórica. Como disse sobre a rejeição ao capitalismo de nossa elite, é uma rejeição maior ainda: rejeição à própria modernidade, uma rejeição centenária ao iluminismo. Como vários teóricos do fascismo afirmaram nos mais variados livros, de Leandro Konder, a Hobsbawn, de Arendt à Norbert Elias, todos atestam que o fascismo foi principalmente uma reação à modernidade, uma resposta tardia ao liberalismo. Veio principalmente de uma ala conservadora, de mentalidade nobiliárquica, “amigos do rei”, descontentes com os evidentes fracassos que seus países viviam face a fragilidade econômica das políticas liberalizantes de seus países (muito agravadas também pela Crise de 1929). Não é por acaso que ocorreu com força somente em países de república e unificação republicana muito tardia. Itália, Alemanha, Espanha e Portugal.

Estes são países que só vieram a ter o “Império da Lei” (que eu dizia no texto citado acima) muito depois de outros países europeus também afetados pelas mesmas crises, mas onde a lei burguesa, moderna, anti-feudal já havia triunfado. Alemanha só veio a ter a primeira república ao final da 1ª Guerra, a Itália só ao final da 2ª, Portugal só após a Revolução dos Cravos em 1974! Lembrando que em Portugal, a ditadura fascista de Salazar veio numa espécie de “restauração tradicional” contra a Revolução Republicana de 1910, genuinamente liberal e anti-clerical. Por fim, na Espanha também, o fascismo veio como um movimento anti-republicano, expulsando o governo republicano proclamado pelo próprio rei Afonso, sucedeu-se então a infame Guerra Civil Espanhola, onde nazistas e fascistas italianos e os fascistas espanhóis lutaram contra as forças democráticas e a única coisa boa que ficou dela foi a música e o Guernica de Picasso.

Na Alemanha, o nazismo foi uma contra-revolução conservadora, contra a República de Weimar, nascida num país sem tradição republicana. O Império da Lei só triunfou com a aniquilação – física – dos nazistas, acabando de vez com os resquícios anti-liberais e personalistas, de origem nobre.

E o Brasil? Coincidência ou não, o Integralismo – fascismo brasileiro -, que erguia os braços e dizia “Anauê” (o nosso Heil), com toda mística, uniforme e etc, propagandoa pérolas como “a raça cósmica” brasileira, trazendo a inteligência do branco, a força do negro e a candura do índio, foi um movimento enorme, disparado o maior partido do Brasil nos anos 1930. Se fosse transposta sua proporção para os dias de hoje teria duas vezes o tamanho do PMDB. Mas o Integralismo de ontem ainda tinha uma pitada abrasileirada, via os negros e índios com algum papel na nova sociedade que pretendiam formar, mas era abertamente anti-liberal, anti-republicano e anti-comunista. Não é a toa que os integralistas de hoje são monarquistas.

E ainda há fatores mais graves e que aprofundam o anti-republicanismo em nosso país. Os cinco principais imigrantes que compuseram a “elite branca” brasileira são todos oriundos de países que não tinham o “Império da Lei” quando estes saíram de suas terras: portugueses, espanhóis, alemães, italianos e japoneses. Todos países que tiveram governos fascistas de rejeição ao liberalismo, todas as levas destes imigrantes chegaram ao Brasil antes das suas respectivas revoluções republicanas. O “culto ao rei”, o direito divino ainda era altamente arraigado nestas culturas, quando estes povos vieram a compor o que seria a nossa “moderna” elite. Vieram ter no Brasil, a sua rejeição ao liberalismo, ao “Império da Lei”.

O anti-iluminismo é – na opinião deste que vos escreve – a principal característica dos fascismos. Mais do que o anti-comunismo. O marxismo e liberalismo para eles, são duas faces da mesma moeda. O que ficou, no longo prazo, foi a rejeição à modernidade liberal, ao “Império da Lei”. Especialmente: ao fim do privilégio de nascença, da herança nobiliárquica, da posição social. O fascismo é por definição elitista, prega abertamente a existência de uma elite que deve ser o “Farol”  para o resto da nação decadente e corrupta. A república é sempre corrupta para o fascista, deve ser purificada. Não é por acaso que este é eternamente o lema de campanha de seus governos, não importa se o fascismo italiano, o nazismo, o salazarismo, a ditadura militar brasileira, tenham sido governos incrivelmente corruptos e obscurantistas. Para os neofascistas a república é sempre pior.

Esta elite que me refiro encontra na classe média vasto campo de proliferação de seu conservadorismo e reação contra o fim dos privilégios que a República – em princípio – denota. A classe média é a infantaria dos generais – com trocadilho – do conservadorismo neo-fascista. A classe média é por excelente a linha de frente do fascismo. Vou utilizar um parágrafo do Norbert Elias inteiro para exprimir uma das principais razões disso. Ele, muito mais sábio do que eu, soube se expressar melhor:

[…] quando, em um país europeu após outro, homens oriundos da classe média, ascenderam ao poder e cada vez mais repartiram com as tradicionais classes aristocráticas dominantes, ou pura e simplesmente tomaram delas, as rédeas do governo em suas sociedades, e quando os principais setores da classe média se estabeleceram progressivamente como os grupos mais poderosos de suas respectivas sociedades, as crenças e os ideais orientados para o futuro – a esperança de um futuro melhor – perderam para eles seu anterior significado.

No seu lugar, uma imagem idealizada de sua nação passou a ocupar o centro de sua auto-imagem [da classe média], de suas crenças sociais e de sua escala de valores. Durante o período de sua ascensão, as classes médias […] tinham sido orientadas para o futuro. Uma vez elevadas à posição de classes dominantes, suas seções de liderança e suas elites intelectuais, à semelhança de outros grupos dirigentes, trocaram o futuro pelo passado a fim de basear neste sua imagem ideal delas próprias. […] O cerne da ‘nós-imagem’ e do ‘nós-ideal’ delas foi formado por uma imagem de sua tradição e herança nacionais. […] Uma imagem ideal de si mesmas como nação transferiu-se para o lugar supremo em sua escala de valores públicos; ganhou precedência sobre os mais antigos ideais humanistas e moralistas, triunfando sobre eles em caso de conflito, e, impregnada de fortes sentimentos positivos, converteu-se na peça central de seu sistema de crenças sociais. (Elias, pg. 128-130, 1997).

O que isto quer dizer de fato? Resumidamente poderia se dizer que as classes médias, os profissionais liberais, industriais, empresários, enfim, burgueses em geral, se “nobiliarquizaram”, isto é, tornaram-se nobres, ao entrar para os comandos do Estado, para cargos públicos influentes, compraram títulos de nobreza, elas não queriam derrubar a nobreza e instalar uma república de iguais perante a lei. Nunca contestaram o direito dos nobres. Não queriam acabar com os privilégios, ao contrário, queria recebê-los também. É como imbecis nada raros que pregam o Estado Mínimo e forte posição contra o Bolsa Família mas disputam a tapa cargos públicos, vagas universitárias públicas e todo tipo de maneiras de – perdoem a expressão – “mamar nas tetas do governo”. O Estado é só para eles, por isso – em parte – aceitam o liberalismo econômico enquanto rejeitam o liberalismo político. O Estado pode ser mínimo, pois não em nenhum momento isso contestará o privilégio estabelecido pela nossa herança colonial, quase divina.

Nossa burguesia não é republicana, nossa burguesia é nobiliárquica, ela reproduz os Orleans e Bragança na capa da Caras, ou o Rei português na capa da Veja (que citei neste post). Nossa elite gosta de Paris, gosta da Alemanha, dos EUA, mas não gosta justamente do que os tornou o que são: o Império da Lei.

Por isso, diferentemente da Nova Cara do Fascismo que no outro texto (lá em cima), que é republicano, modernizado, mas igualmente preconceituoso e hediondo, o fascismo brasileiro ainda mostra aquela “velha cara do Fascismo”.

José Livramento

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