Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: novembro 2010

Um Dia Insólito

Quinta-feira, 25 de novembro de 2010.

Dia de guerra civil no Rio de Janeiro.

 

De frente para a TV por alguns breves minutos, entre uma atividade e outra, este que vos escreve presencia a seguinte cena – insólita, bizarra.

Na imagem, uma coluna de carros blindados (vulgos tanques de guerra) da Marinha do Brasil dirige-se para a Penha, zona norte da cidade, junto a grupos da PM e do BOPE.

O alvo, a Vila Cruzeiro (a favela do Adriano).

Eis então que, diante daquela cena, que poderia ter sido extraída de qualquer front mundo afora – Afeganistão, Iraque, Sudão, Somália, o mundo está cheio deles -, o narrador burguês da Rede Globo pronuncia-se, decretando solenemente:

“Neste momento, o clima na cidade é de tranquilidade. As pessoas deslocam-se e trabalham normalmente”.

Hmm.

Logo me vem a cabeça, a absoluta contradição entre o que se via na imagem, e o que se ouvia pela voz do apaniguado.

Tento, então, num esforço desesperado, compreender o que se passa, desvendar o que poderia estar por trás daquele “raciocínio”.

Pois bem. Se vejo uma coluna de tanques de guerra marchando para o front e o narrador diz que a cidade está tranquila e as pessoas deslocam-se e trabalham normalmente, pelo menos uma das opções abaixo tem de ser válidas.

1 – O bairro da Penha não se localiza na cidade do Rio de Janeiro.

2 – No bairro da Penha não residem pessoas mas, sim, seres dignos de um outro nome.

3 – Supondo que lá vivam pessoas, não se deslocam e, muito menos, trabalham.

Pelo menos no meu entender, todas estas opções são falsas.

O que poderia estar, portanto, por trás de tal colocação?

Para nós do Rio Revolta a coisa parece clara, e torna-se absolutamente fundamental uma análise deste histórico momento, para tentarmos entender o porque disso tudo que hoje nos aflinge.

Quando disse que a cidade estava tranquila e as pessoas deslocavam-se e trabalham normalmente, o narrador evidentemente havia excluído aquela região da cidade de sua argumentação. E a razão é óbvia.

Aquela é a (uma das) parte do lixo, do esgoto, da favela (para os politicamente corretos: comunidade), da pobreza, da miséria, do crime, da bandidagem, do tráfico, do sei lá mais o que.

Portanto, não é mesmo, no nosso imaginário mé(r)dio-classista, parte da cidade. É uma outra coisa, que infelizmente está lá, da qual nos envergonhamos e com a qual não temos nada a ver.

Daí compreendemos, também, para quem, inconscientemente (ou seria mesmo explícita e reconhecidamente?) falava o narrador burguês da Rede Globo.

Ele não fala aos moradoras da Penha. Ele fala aos da Zona Sul, Barra, Tijuca, Méier e onde mais se localizem as “pessoas de bem” (a classe mé(r)dia).

Portanto, realmente, para nós, as “pessoas de bem” (a classe mé(r)dia), a cidade estava tranquila e nós nos movimentávamos e trabalhávamos normalmente.

Por sinal, nem isso aconteceu. Carros incendiados hoje em Botafogo, Copacabana, Avenida Presidente Vargas, bem no meio de “nós” (como eles puderam! Quanta audácia! Caveira neles!).

Mas vamos lá, ao que interessa.

Reações ao fato, as mesmas de sempre. Choque, horror, exigências variadas da máxima repressão possível, em tons de vermelho.

Cheque em branco dado às forças repressivas – tanto estatais quanto privadas – para exterminar como bem entenderem, por tempo indeterminado.

Até que a sanha de vingança dos formadores de opinião se aplaque.

Afluem para os corredores da grande mídia elitista (o PiG, Partido da Imprensa Golpista) “especialistas” variados – criminólogos, economistas, sociólogos, antropólogos.

A troca é conveniente a todos. A mídia consegue as falas dos portadores dos diplomas, que referendam suas opiniões abissais junto à “exigente” opinião pública de classe mé(r)dia.

Os portadores dos diplomas, por sua vez, dão a chancela “técnica” e “especialista” às opiniões genocidas da grande mídia, ganham nome e visibilidade nacional e – claro – $$$ no bolso.

Surgem, também, os presidentes de ONGs – das quais a VivaRio (VivaRico?) faz-se vanguarda e ponta de lança. Todos tem a resposta na ponta da língua:

POLÍCIA, POLÍCIA E POLÍCIA!

BOPE, BOPE E BOPE!

E se necessário:

FORÇAS ARMADAS!

EXÉRCITO!

MARINHA!

(Ninguém ainda aventou SERIAMENTE a hipótese de bombardear os morros, daí, não invocarmos a Aeronáutica).

Deixe-me ver se Rio Revolta conseguiu, finalmente, entender.

A coisa é mais ou menos assim.

O Estado sobe o morro, seja lá qual for a corporação específica que o esteja representado.

Lá em cima, faz-se sentir pelo matraquear de suas armas.

Mata os 10, 20, 50, 200, 500 “bandidos” que lá em cima estiverem, não importa o número.

Como efeito colateral, mata mais uns 10, 20, 50, 200, 500 moradores, também não importando o número.

Limpo o terreno, desce o morro.

Tudo se acalma.

A cidade volta a ficar tranquila e as pessoas voltam a se deslocar e trabalhar normalmente.

Até que o ciclo recomece e surja uma nova safra de “bandidos”.

E em algum momento eles “saem do controle” e tudo se faz necessário novamente.

Genial.

Agora compreendo tudo.

E compreendo, também:

Porque somos incapazes de simplesmente FALAR A RESPEITO do que realmente mudaria essa situação, no longo prazo:

1 – Porque a elite que invoca a repressão, ufana-se do BOPE e defende o genocídio é a mesma que não quer pagar um centavo além do salário mínimo para seus empregados.

2 – Porque tanto a elite quanto a classe mé(r)dia jamais cogitaram uma redistribuição de renda nesta cidade e neste país que permita às favelas tornarem-se bairros e aos seus moradores tornarem-se cidadãos com emprego regular, nível decente de escolaridade, assistência médica e o mínimo de serviços do Estado.

3 – Porque esta elite e a classe mé(r)dia acham mesmo que pobre é pobre porque quer ou porque merece ser, já que, afinal, moramos num país dotado de iniciativa privada pujante e de visão de longo prazo, interessadíssima em criar muitos empregos com altos salários que permitam um mercado interno forte para que ela própria venda cada vez mais e assim por diante.

4 – Porque você, se fosse morador de um morro, talvez se sentisse muito tentado a tentar a vida como “bandido” ao invés de ser humilhado, se matando de trabalhar por um riquinho do asfalto, ganhando 500 reais e se sentindo um OTÁRIO?

Mas afinal de conta, caros amigos, essa situação toda é só um problema do Estado, a elite e nós da classe mé(r)dia não temos nada a ver com ele, não é mesmo?

Arnaldo Gordo

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O Estado e a Violência Urbana: Rio

Como sempre estou sem tempo de atualizar o Rio Revolta. Senti que as críticas são tantas, mas com razões e origens tão semelhantes que eu estava ficando repetitivo. No entanto, agora um ‘novo’ tema, bem carioca, surgiu para que eu possa dar minha humilde opinião, é sobre a violência no Rio. O péssimo é que vou ter que passar batido num assunto nteressantíssimo desta semana que foi o Confecom (evento sobre a Imprensa no Brasil que envolveu várias personalidades internacionais notórias a respeito), completamente ignorado pela grande mídia e importantíssimo para o futuro democrático do país. Mas o “novo” me é mais interessante pois remonta comentários que tinha para fazer sobre as UPPs, drogas e etc no Rio… Sem mais delongas, prossigamos.

Estado vs. Estado paralelo

A onda recente de incêndio a automóveis, ônibus e vãs pela baixada Fluminense, Zona Norte do Rio e Niterói, além dos seguidos arrastões nestas regiões e também na Zona Sul, nos leva a refletir sobre todos os problemas oriundos da violência.

Como diria Jack Estripador: vamos por partes.

UPPS e a Ocupação das Favelas

As UPPs são a ponta de lança de entrada do Estado nas comunidades, favelas historicamente à margem do mínimo de governo e Estado. Como dizia Lima Barreto, pro pobre o Estado só aparecia para reprimir, nada mais. São regiões que nunca pagaram impostos e – pela lógica do nosso Estado – nunca receberam qualquer coisa do Estado. Nunca pagaram impostos pois certamente nunca tiveram dinheiro suficiente para pagá-lo. Lembrando que no Brasil, o Estado é o maior agente capitalista de nossa história, então, só para lembrar, ele só não entrou lá antes pois nunca houve interesse econômico para tal.

Agora os tempos são outros, queiram ou não, a renda da população brasileira aumentou muito e as classes C e B compram bastante, somadas são um mercado maior que a Classe A e B. “Culpem” o Lula, distribuição de renda, políticas estatais, o Diabo, mas o fato é que agora, citando o infame protofascista Luis Carlos Prates: “qualquer miserável tem um carro”. O que isso quer dizer? Agora o “favelado” compra mais gás, telefone, luz, televisores, gasta mais na venda da esquina, no bar, gato-net e uma série de serviços que antes eram negados a ele. Um médio-classista típico pensaria “meu deus, um favelado agora não é mais um cidadão de segunda classe, que absurdo!”. É já dizia o lema capitalista: “Compro, logo existo”. E eles passaram a existir.

As milícias,  representação do poder paralelo destas regiões historicamente abandonadas pelo Estado de Direito, agem muito mais rápido do que qualquer governo e logo passaram a ganhar rios de dinheiro acharcando moradores. É taxa do botijão de gás, taxa para morar, taxa para o gato-net, taxa para ter água, taxa para manter um comércio, taxa para o moto-taxi, chegaram até previdência!!! Imaginem, até os traficantes hoje têm que pagar a milícia para vender drogas, como ilustrou muito bem o Tropa 2. Isso parece até… um Governo.

O fato evidente e que é difícil de admitir: décadas de exclusão e marginalidade criaram um Estado paralelo de facto, lutando contra um Estado de direito, algo que não era consolidado nos anos 90. É o maior exemplo das “leis de mercado”, na ausência completa de quem atendesse a demanda, a milícia foi lá e supriu o que o Estado deveria ter feito. Vende uma proto-segurança, garante o gato-net, o iptu para “manter a região”… Na prática é uma máfia muito bem organizada, como diria Marcelo Freixo, o que chamam de “intelectual de esquerda que vive defendendo vagabundo” (para citar a frase protofascista do Capitão Nascismentoi).

Voltando ao subtópico: as UPPs são, portanto, a demostração de que o Estado de Direito quer o seu território legítimo. Agora que podem pagar, agora que a ‘cidadania chegou na periferia’, o Estado quer expulsar o poder paralelo, ele quer o monopólio da arrecadação e da violência, o que o legitima como Estado.

A questão central é esta.

Historicamente, a única entidade com o direito de acharcar a população é o Estado, pois – teoricamente – faz em nome de todos os cidadãos.

O monopólio da polícia, da cobrança de impostos, da taxação, da moradia…

A UPP é o “Império da Lei” chegando onde jamais esteve, para citar meus posts anteriores. Talvez por terem entendido isso que as elites começaram a esboçar o seu receio com as UPPs, elas odeiam o Império da Lei.

Outra grande questão seria debater “por que do nada resolveram levar “a Lei” para áreas do Estado Paralelo? Isso dá um outro post grande no RR, mas posso resumir que o ônus de ter vastas regiões da cidade do Rio – a mais importante cidade do Brasil, para os padrões internacionais – fora de controle, é economicamente terrível e politicamente desastroso, principalmente devido ao fato de que nos próximos 5 anos sediaremos: Olimpíadas Militares (um evento quase do tamanho do PAN-2007); Copa das Confederações; Copa do Mundo e Olimpíadas Mundiais, além de 3 Rock in Rios e o crescimento enorme de turistas nacionais devido a melhores condições de renda geral da população.

A UPP é parte da solução e não do problema

Não tem sido raro ver algum biltre falando que o problema são as UPPs, que expulsaram os bandidos do morro sem prendê-los e que agora eles foram roubar os coitadinhos e imaculados moradores da Zona Sul. Não por acaso, é uma opinião difundida nos grandes jornais, especialmente em um que associa um roubo de dinamite em Porto Alegre e no interior de São Paulo ao crime organizado do RJ sem qualquer preocupação com fontes. Não vou citar nomes mas é como se todos os crimes do Globo terrestre fossem culpa do RJ. Não basta os nossos crimes, os do RS e de SP também são culpa nossa. Daqui a pouco pipocarão fortes evidências da Al Qaeda financiando o terrorismo no mundo com dinheiro do tráfico no Rio.

Por que a UPP é parte da solução? Como falei acima, ela é a ponta de lança da entrada do Estado em regiões que nunca esteve antes. Mas quando falo do Estado não falo da Polícia. Favela é Questão Social, não é Questão de Polícia. Favelado não é e nunca foi cidadão de segunda classe, embora a “massa cheirosa” ache isso. Como diria mestre Bezerra:

“A favela nunca foi reduto de marginal
Lá só tem gente humilde marginalizada
E essa verdade não sai no jornal”

(Bezerra da Silva – Eu Sou Favela)

A UPP sozinha é ineficaz. Ela precisa fundamentalmente estabelecer o Estado como um todo, ao se instalar. Ela precisa  legalizar propriedades, facilitar a circulação livre de pessoas, levar correspondências, luz, água encanada, saneamento (bem… isso várias partes do asfalto não têm), telefone, internet, enfim, diversos direitos que qualquer cidadão teria. Porém, a UPP só terá sentido se voltarmos a um tema que falamos aqui toda hora: distribuição de renda. O Estado só será estabelecido e estabilizado dentro destas regiões anteriormente abandonadas se o emprego e a distribuição de renda continuarem a crescer, a melhorar. Se isso retroceder, as ‘comunidades’ voltarão a ficar abandonadas, a mercê das vontades das milícias, do Estado Paralelo.

A Questão das Drogas e o Poder Paralelo

As drogas são importante fonte de renda do Estado Paralelo que as UPPs combatem, mas não são fundamentalmente as mais importantes. Levando-se em conta as estatísticas oficiais de que 20 a 25% da população da cidade do Rio vivem em comunidades, praticamente a mercê do Estado, temos que 1/5 da arrecadação de impostos diretos e indiretos são perdidos pelo governo Estadual e Municipal. Mas esse dinheiro não é perdido. Hoje “qualquer miserável tem carro”, net, internet, luz e água. Para desgosto do Prates, os miseráveis não são mais miseráveis (que absurdo! ele diria). Sabendo disso que existe ‘abundância de dinheiro’  nas comunidades, isto é, uma fortíssima demanda reprimida, a milícia acharca os moradores das comunidades justamente para ter este dinheiro que normalmente iria para o Estado de Direito, oferecendo os serviços que o Estado de Direito não consegue permitir acesso.

Pense na matemática:

– existem mais pessoas consumindo drogas regularmente ou pagando água, luz, telefone, net, previdência, moradia e taxas comerciais?

A resposta é tão óbvia que chega a ser ofensiva. E o pior, só para confirmar a resposta certa: usuários regulares de drogas ainda têm de pagar estas mesmas contas e nem o mais inveterado dos drogados gasta mais com drogas ilícitas do que com despesas cotidianas para viver (talvez os drogados suicídas o façam, mas são exceção). No Brasil, a banca sempre leva, a fatia do Estado é sempre maior que a do ‘lazer’.

No entanto você vê seguidamente nos jornais a agenda conservadora: a culpa do tráfico e das milícias é do usuário que compra. Até o Tropa de Elite, que citei acima, reforça este argumento. Ignorar o fato de que a humanidade – comprovadamente – consome drogas há 5 mil anos é uma mera licença poética. A demanda persistiu apesar da moralidade cristã milenar. Aliás, o ópio era bastante tolerado no século XVIII e XIX pelos cristãos ocidentais… essa onda moralista é de 60, 70 anos para cá. E se a demanda existe, tem gente vendendo. As pessoas precisam absorver o fato de que: as drogas ilícitas são tão corriqueiras quanto as drogas lícitas, é uma natureza humana a fuga da realidade propiciada pelas drogas, desde o álcool até o LSD. E, vale lembrar, se a realidade vai sistemática e prolongadamente contra a Lei vigente, o que você acha que está errado?

Conclusão

No final das contas a conclusão é tão curta quanto complexa: a criminalidade crônica e o Estado Paralelo originam-se de uma total e prolongada ausência do Estado de Direito, da total exclusão social a que vastas regiões ficaram relegadas, da completa exclusão econômica e até política que imensa parcela da população do Rio (outros grandes centros estão inclusos aqui) tiveram de aceitar. No entanto, a força econômica  mais uma vez reafirmou que “se a pessoa compra, ela existe” e – agora, eu completo – o Estado se importa com elas. Logo ele vai chegar nos antigo grotões substituindo os milicianos pelos cobradores de impostos e agentes da Cedae. O enfrentamento violento que estamos vendo do Estado de Direito com o – breve defunto – Estado Paralelo é temporário, apesar de aterrorizante e intimidador.

Não temam, de 2011 a 2016 as coisas ficarão controladas. “Bota na conta da elite”

José Livramento

A velha cara do fascismo

Em maio escrevi sobre a Nova cara do Fascismo, foi pouco antes do “Tea Party” americano aparecer nos noticiários brasileiros e um bocado antes do fascismo brasileiro dar as caras novamente, surpreendentemente – para alguns – apoiando o candidato de centro-direita José Serra, do PSDB, partido ultra-liberal brasileiro. Surpreendente porque a campanha baixou a níveis de 89, mas isso já falei em posts anteriores. Prossigamos.

Chamei daVelha Cara do Fascismo, pois as coisas não poderiam ser mais claras do que aparecerão agora e mais arcaicas também. Como registrado em vários blogs, a onda de xenofobia, racismo e preconceito explícito que se viu logo após a confirmação de Dilma eleita, só veio completar a onda de mentiras, preconceito, conservadorismo e anti-progressismo que marcaram a campanha do PSDB este ano. Não canso de repetir: a campanha serrista veio desenterrar coisas como “Tradição, Família e Propriedade” (entidade sempre ligada aos setores fascistas da sociedade, apoiadora inconteste da ditadura militar); reviveu por breves momentos o movimento Integralista, com ligações monetárias inclusive; trouxeram para o debate político os fundamentalistas evangélicos, através de seu arauto Silas Malafaya; trazidos ao primeiro plano também, foram os bispos ultra-conservadores da CNBB paulista – aquela mesma que abençoava a ditadura -, convocaram até o Papa Ratzinger para o pleito. Ele, o Inquisitor de Leonardo Boff (Teologia da Libertação), que quando teve 16 e 17 anos foi obrigado a servir o exército nazista, enquanto vários outros de sua idade procuraram resistir. Curiosamente, é de similar idade dos jovens serristas que vomitaram todo o seu racismo no twitter e facebook desde o domingo último, como o vídeo abaixo mostra:

A onda neofascista, preconceituosa e elitista, que se consolidou claramente nos últimos dois meses, facilmente detectável até às pessoas menos politizadas, tem uma raíz muito maior do que se pensa. A tendência de nossas classes médias e elites ao fascismo é histórica. Como disse sobre a rejeição ao capitalismo de nossa elite, é uma rejeição maior ainda: rejeição à própria modernidade, uma rejeição centenária ao iluminismo. Como vários teóricos do fascismo afirmaram nos mais variados livros, de Leandro Konder, a Hobsbawn, de Arendt à Norbert Elias, todos atestam que o fascismo foi principalmente uma reação à modernidade, uma resposta tardia ao liberalismo. Veio principalmente de uma ala conservadora, de mentalidade nobiliárquica, “amigos do rei”, descontentes com os evidentes fracassos que seus países viviam face a fragilidade econômica das políticas liberalizantes de seus países (muito agravadas também pela Crise de 1929). Não é por acaso que ocorreu com força somente em países de república e unificação republicana muito tardia. Itália, Alemanha, Espanha e Portugal.

Estes são países que só vieram a ter o “Império da Lei” (que eu dizia no texto citado acima) muito depois de outros países europeus também afetados pelas mesmas crises, mas onde a lei burguesa, moderna, anti-feudal já havia triunfado. Alemanha só veio a ter a primeira república ao final da 1ª Guerra, a Itália só ao final da 2ª, Portugal só após a Revolução dos Cravos em 1974! Lembrando que em Portugal, a ditadura fascista de Salazar veio numa espécie de “restauração tradicional” contra a Revolução Republicana de 1910, genuinamente liberal e anti-clerical. Por fim, na Espanha também, o fascismo veio como um movimento anti-republicano, expulsando o governo republicano proclamado pelo próprio rei Afonso, sucedeu-se então a infame Guerra Civil Espanhola, onde nazistas e fascistas italianos e os fascistas espanhóis lutaram contra as forças democráticas e a única coisa boa que ficou dela foi a música e o Guernica de Picasso.

Na Alemanha, o nazismo foi uma contra-revolução conservadora, contra a República de Weimar, nascida num país sem tradição republicana. O Império da Lei só triunfou com a aniquilação – física – dos nazistas, acabando de vez com os resquícios anti-liberais e personalistas, de origem nobre.

E o Brasil? Coincidência ou não, o Integralismo – fascismo brasileiro -, que erguia os braços e dizia “Anauê” (o nosso Heil), com toda mística, uniforme e etc, propagandoa pérolas como “a raça cósmica” brasileira, trazendo a inteligência do branco, a força do negro e a candura do índio, foi um movimento enorme, disparado o maior partido do Brasil nos anos 1930. Se fosse transposta sua proporção para os dias de hoje teria duas vezes o tamanho do PMDB. Mas o Integralismo de ontem ainda tinha uma pitada abrasileirada, via os negros e índios com algum papel na nova sociedade que pretendiam formar, mas era abertamente anti-liberal, anti-republicano e anti-comunista. Não é a toa que os integralistas de hoje são monarquistas.

E ainda há fatores mais graves e que aprofundam o anti-republicanismo em nosso país. Os cinco principais imigrantes que compuseram a “elite branca” brasileira são todos oriundos de países que não tinham o “Império da Lei” quando estes saíram de suas terras: portugueses, espanhóis, alemães, italianos e japoneses. Todos países que tiveram governos fascistas de rejeição ao liberalismo, todas as levas destes imigrantes chegaram ao Brasil antes das suas respectivas revoluções republicanas. O “culto ao rei”, o direito divino ainda era altamente arraigado nestas culturas, quando estes povos vieram a compor o que seria a nossa “moderna” elite. Vieram ter no Brasil, a sua rejeição ao liberalismo, ao “Império da Lei”.

O anti-iluminismo é – na opinião deste que vos escreve – a principal característica dos fascismos. Mais do que o anti-comunismo. O marxismo e liberalismo para eles, são duas faces da mesma moeda. O que ficou, no longo prazo, foi a rejeição à modernidade liberal, ao “Império da Lei”. Especialmente: ao fim do privilégio de nascença, da herança nobiliárquica, da posição social. O fascismo é por definição elitista, prega abertamente a existência de uma elite que deve ser o “Farol”  para o resto da nação decadente e corrupta. A república é sempre corrupta para o fascista, deve ser purificada. Não é por acaso que este é eternamente o lema de campanha de seus governos, não importa se o fascismo italiano, o nazismo, o salazarismo, a ditadura militar brasileira, tenham sido governos incrivelmente corruptos e obscurantistas. Para os neofascistas a república é sempre pior.

Esta elite que me refiro encontra na classe média vasto campo de proliferação de seu conservadorismo e reação contra o fim dos privilégios que a República – em princípio – denota. A classe média é a infantaria dos generais – com trocadilho – do conservadorismo neo-fascista. A classe média é por excelente a linha de frente do fascismo. Vou utilizar um parágrafo do Norbert Elias inteiro para exprimir uma das principais razões disso. Ele, muito mais sábio do que eu, soube se expressar melhor:

[…] quando, em um país europeu após outro, homens oriundos da classe média, ascenderam ao poder e cada vez mais repartiram com as tradicionais classes aristocráticas dominantes, ou pura e simplesmente tomaram delas, as rédeas do governo em suas sociedades, e quando os principais setores da classe média se estabeleceram progressivamente como os grupos mais poderosos de suas respectivas sociedades, as crenças e os ideais orientados para o futuro – a esperança de um futuro melhor – perderam para eles seu anterior significado.

No seu lugar, uma imagem idealizada de sua nação passou a ocupar o centro de sua auto-imagem [da classe média], de suas crenças sociais e de sua escala de valores. Durante o período de sua ascensão, as classes médias […] tinham sido orientadas para o futuro. Uma vez elevadas à posição de classes dominantes, suas seções de liderança e suas elites intelectuais, à semelhança de outros grupos dirigentes, trocaram o futuro pelo passado a fim de basear neste sua imagem ideal delas próprias. […] O cerne da ‘nós-imagem’ e do ‘nós-ideal’ delas foi formado por uma imagem de sua tradição e herança nacionais. […] Uma imagem ideal de si mesmas como nação transferiu-se para o lugar supremo em sua escala de valores públicos; ganhou precedência sobre os mais antigos ideais humanistas e moralistas, triunfando sobre eles em caso de conflito, e, impregnada de fortes sentimentos positivos, converteu-se na peça central de seu sistema de crenças sociais. (Elias, pg. 128-130, 1997).

O que isto quer dizer de fato? Resumidamente poderia se dizer que as classes médias, os profissionais liberais, industriais, empresários, enfim, burgueses em geral, se “nobiliarquizaram”, isto é, tornaram-se nobres, ao entrar para os comandos do Estado, para cargos públicos influentes, compraram títulos de nobreza, elas não queriam derrubar a nobreza e instalar uma república de iguais perante a lei. Nunca contestaram o direito dos nobres. Não queriam acabar com os privilégios, ao contrário, queria recebê-los também. É como imbecis nada raros que pregam o Estado Mínimo e forte posição contra o Bolsa Família mas disputam a tapa cargos públicos, vagas universitárias públicas e todo tipo de maneiras de – perdoem a expressão – “mamar nas tetas do governo”. O Estado é só para eles, por isso – em parte – aceitam o liberalismo econômico enquanto rejeitam o liberalismo político. O Estado pode ser mínimo, pois não em nenhum momento isso contestará o privilégio estabelecido pela nossa herança colonial, quase divina.

Nossa burguesia não é republicana, nossa burguesia é nobiliárquica, ela reproduz os Orleans e Bragança na capa da Caras, ou o Rei português na capa da Veja (que citei neste post). Nossa elite gosta de Paris, gosta da Alemanha, dos EUA, mas não gosta justamente do que os tornou o que são: o Império da Lei.

Por isso, diferentemente da Nova Cara do Fascismo que no outro texto (lá em cima), que é republicano, modernizado, mas igualmente preconceituoso e hediondo, o fascismo brasileiro ainda mostra aquela “velha cara do Fascismo”.

José Livramento