Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Porque é importante derrotar a direita domingo

Desde que o Rio Revolta saiu em defesa da esquerda eleitoral, largando nossa posição anti-democracia-liberal e pelo voto nulo, fazem 31 dias. O post em que fizemos isso foi o “Deformadores de Opinião” para quem quiser saber. Neste tempo que passou, o segundo turno veio, para alguns pareceu derrota petista no jogo político a ida para o segundo turno, mas somente com ele a direita reacionária  pôde mostrar todas as suas caras. Com o segundo turno vimos escancaradamente a Globo tomar partido com a montagem do Atentado da Bolinha de papel e, consequentemente um futuro clássico do samba ser criado; com ele vimos até o Integralismo sair do armário e dar as caras (como já dissêmos nos últimos posts); vimos o Índio da Costa e sua posição contra homossexuais e seu rechaçamento da Rocinha; vimos Serra virar pastor com aquele santinho que postamos semana passada… Mas especialmente, o segundo turno deu uma politizada generalizada na população, levou a política para as ruas, a discussão eleitoral para qualquer roda de pessoas em qualquer cidade. Talvez pela fraqueza de ambos os candidatos, do PSDB e do PT, a discussão tenha sido muito mais ideológica do que antes, não sei, talvez.

Mas o que isso tem a ver com a importância de derrotar a direita no domingo?

Para responder essa pergunta, como historiador, farei uma volta no tempo. Quem leu meu último post já terá alguma idéia do que eu vou falar.

A nossa direita nunca foi de fato derrotada. Desde os tempos da nobreza é apenas continuidade ou continuismo. O Brasil moderniza suas estruturas, mas o fantasma de suas idéias arcaicas persiste. Parafraseando aquele barbudo alemão. Só para constar: nossa independência foi fundada pelos nobres portugueses que até aquele momento eram a metrópole. Em fins práticos, nossa elite não foi derrotada para dar lugar a uma independência, teoricamente nacionalista, ela foi absorvida pela nobreza portuguesa que fugia exatamente da modernização liberal napoleônica na europa. A metrópole veio para o Rio de Janeiro e de Vice-Reino, viramos Reino. 81 anos depois, nossa república foi feita por militares, barões, condes e outros nobres. Para quem não estuda feudalismo e Antigo Regime: os militares são por excelência a classe feudal, a nobreza feudal é militar e consequentemente a elite militar é de antigo regime, mesmo quando não parece, assim, apesar de um ou outro ímpeto repúblicano, em termos práticos, a nossa nobreza também fez a nossa república. É como dizia o ditado da Primeira República: “Nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder” (luzias e saquaremas eram “liberais” e “conservadores” naquela época, ou será o contrário?!).

Prosseguindo… Nossa elite nunca foi derrotada, por isso é arcaica. Em todos os conflitos que entrou venceu. Ainda na colônia venceu os franceses e os holandeses. Saiu politicamente vitoriosa mesmo quando os espanhóis engoliram Portugal, pois a União Ibérica só veio a favorecer a elite brasileira que se expandiu américa a dentro. No “Império” brasileiro, nossa elite venceu contra o republicano Paraguai e interiorizou o reino por todo o território. Pouco depois imperializou a Bolívia (“compra” do Acre) e venceu contra a monarquia utópica de Canudos. Já no século XX, a elite esmagou – com muito sufoco é verdade – as greves gerais de 1917 e 18 que pararam Rio e São Paulo em nome de anarquistas, socialistas e trabalhadores.

Na verdade, para não dizer que nunca perderam. A derrota da “Revolução Constitucionalista” para o Governo Federal foi uma forte derrota da elite, ainda que exclusivamente paulista. Vargas fundou a república moderna. Não é a toa que chamam a república até 1930-32, de “república velha”. Mas sob o prisma de décadas de distância, podemos ver o Golpe de 1964 como uma “contra-revolução conservadora”, em nome dos “derrotados de 30” e todos aqueles poderes oligarcas regionais que se sentiram preteridos pelo poder central federal varguista.

No longo prazo, considerando a contra-revolução de 64, as elites sempre venceram. E daqui parto o meu argumento.

Mas porque de fato, seria uma derrota da elite a vitória do PT nestas eleições?

Oras, existem N motivos para se rejeitar o PT como liderança em prol do poder dos trabalhadores. Nas palavras de Lula mesmo: nunca antes ouve uma união entre capital e trabalho como em seu governo (disse isso aqui). Se há união entre desiguais como capital e trabalho, o mais forte de fato está vencendo. Mas esta não é a discussão aqui.

O que ocorre no país é uma substituição das elites. Uma elite arcaica, ruralista, semi-feudal, elitista, que sempre se acostumou a vencer e estar por cima, vem conhecer – talvez – sua mais importante derrota cultural. Serra usou todos os argumentos clássicos da direita para tentar se eleger: tenta o moralismo cristão (evangélico particularmente), tenta apelar para o perigo comunista inimigo, para a falta de “valor a vida” do adversário, para questões morais como o aborto, direito dos homossexuais e outras questões relevantes à direita. Todos estes argumentos ele usou, mostrou “o que importa” para a população de direita. Estes argumentos, aparentemente, até domingo, se mostram derrotados. Nossa população, talvez por uma mudança genuína em seu pensamento, cansado de tanta “mesmice” de direita, talvez vislumbrados com o que apenas 8 anos de trabalhismo nacionalista faça com um país capitalista com forte potencial como nosso, talvez iludidos por perspectivas melhores ainda com um governo mais radical a esquerda… Enfim, o fato é que a população conheceu claramente os argumentos arcaicos da direite, e parece rejeita-los. Saberemos melhor na segunda-feira dia 1 de novembro.

A importância de derrotar a direita neste pleito está exatamente em mostrar que a cultura política do povo evoluiu mais rápido do que a cultura política da elite de pelo menos 200 anos. E é somente com derrotas que as elites se enxergam em seu atraso e tentam se modernizar. O pragmatismo oriental mostrou isso. Primeiro o Japão, militarmente derrotado pelo “ocidente inferior”, viu-se obrigado – ideologicamente – a se modernizar, por isso em 50 anos, o mesmo partido – com ajuda do dinheiro americano – trouxe o país do fascismo semi-medieval para o ultra-capitalismo atual; logo depois veio a Coréia do Sul, por razões semelhantes, mas não oriundas da guerra – talvez, opinião minha – de uma visível inferioridade ao inimigo histórico, o Japão -, se modernizou em 20 ou 25 anos. Pouco depois a China também. Face a um capitalismo pujante, a China observou que poderia ser humilhada novamente como no século XIX e início do XX, desta forma as elites locais, cartelizaram-se dentro do Partidão chinês e decidiram se modernizar. O despero sempre une os donos do poder. Melhor perder os anéis do que os dedos.

No caso brasileiro, diga-se de passagem, que não espero este pragmatismo oriental ou a revolução educacional coreana, ou mesmo uma tentativa de competir industrialmente com a China. Seria covardia, 1 em cada 6 habidantes do Planeta, são chineses. Mas o PT de fato está subsituindo as elites mandantes por elites que agrada seu jogo de poder. Não são “iluministas” como a revolução francesa ou americana colocou, mas são novas elites, oriundas do profissionalismo liberal, do sindicalismo e do carreirismo estatal. São fruto de um incipiente “império da lei” (que falei em outro post) e portanto, muito mais modernos que o jogo elitista do DEM e do PSDB, filhos do elitismo ruralista e paulista respectivamente. Ainda que, é facilmente identificável no PT resquícios do Antigo Regime: o nepotismo, o clientelismo, o favorecimento de cumprades. Mas o próprio fortalecimento da polícia federal, do CGU, do parlamento e de forças republicanas, levam a esta conclusão. Alguns teóricos, sem esboçar isto que eu coloco afirmam que Lula é o “mais repúblicano presidente da história”.

Enfim, a importância de derrotar a direita no domingo é muito mais do que derrotar o PSDB e as forças conservadoras. É uma importantíssima derrota da elite histórica deste país. Uma vitória do Império da Lei republicano contra o “compadrinhamento” anterior. É uma derrota do regionalismo anti-republicano e anti-governo federal que sempre assolou a elite e enfraqueceu projetos nacionalistas. Na prática, em médio prazo, é a derrota das oligarquias regionais em favorecimento de um Estado forte e dominante, base para qualquer mudança social radical. Ainda que esta mudança venha  a fortalecer uma nova elite – a ser questionada e debatida -, é uma evolução tremenda à cultura semi-feudal e coronelista do Antigo Regime.  O império da lei ainda há de triunfar no Brasil.

Então, neste domingo, vamos mostrar que mesmo que não gostemos do PT, como eu, nós sabemos que o PSDB/DEM são um retrocesso colossal em nossa galopante republicanização, em nosso constante progresso em direção à consolidação da democracia – ainda que liberal – e da república. Não dá para modernizar o país trazendo ruralistas, o Papa semi-fascista e seus movimentos nacionais (TFP, integralismo) e os “internacionalista”s que querem ver o país exportador de commodities para sempre, como uma colônia modernizada exportando gado, soja e ferro. Não, domingo vamos mostrar que, por mais que achemos o PT uma via ruim, é a única via possível da modernização.

Contra o atraso e subserviência. Contra a “prática da dependência” e “falar grosso com Washington”, vamos extirpar a direita arcaica de nossa elite política. Domingo votaremos na Dilma, domingo esperamos ser o início de uma mudança há muito postergada. A vitória da república contra o Antigo Regime.

José Livramento

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