Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Manifesto*

Caros amigos*,
Escrevemo-lhes porque algo sinistro desenha-se no 2o turno das eleições, a acontecer dentro de 2 semanas. Nos referimos à vitória, em nossa sociedade, de um obscurantismo que remonta aos tempos pré-republicanos, ao Antigo Regime, à idade média.

Refiro-me, mais precisamente, à vitória de José Serra.

Não consideramos Serra, por si, um agente das trevas, nem do obscurantismo medieval; não dizemos que ele o seja. Porém, infeliz e inaceitavelmente, está se fazendo passar por tal.

Pedimos que acompanhem nosso raciocínio para que possamos nos explicar.

Estamos assistindo, até o momento, a campanha eleitoral de nível mais baixo desde as eleições de Collor em 1989. Naquele ano, pelo menos, muito se discutiu sobre política, dado o grande número de projetos de país e de candidatos, muitos dos quais figuras históricas (para o bem ou para o mal) da política nacional. O baixo nível daquela campanha consistiu na enorme manipulação midiática da imagem dos dois candidatos no 2o turno, Collor (positiva) e Lula (negativa); com direito à famosa edição do debate, realizada pela Rede Globo. O final desta brincadeira, todos já sabemos. O caçador de marajás foi eleito e nosso país pagou muito caro. E tampouco alguém foi preso. Nem no governo, nem na mídia que o havia apoiado.

Foi uma campanha de baixo nível, certamente; discutiu-se, ao menos, política.

Nesta presente campanha eleitoral de 2010, nem sequer política se discute. Nenhum candidato apresentou qualquer plano consistente de governo, qualquer projeto de país. Marina Silva, a boa moça, limitou-se a falar em “desenvolvimento sustentável”, como se o caráter inerentemente maximizador-utilistarista predatório do capitalismo fosse compatível com preservação ambiental. Chegou aos 20% dos votos mais pelo voto evangélico do que pela adesão consciente da classe média urbana. Dilma Rousseff, a (na nossa opinião muito mal escolhida) candidata do Lula, cozinhou a campanha em banho maria, mais preocupada em não errar do que em propor. Tampouco propôs alguma coisa o candidato José Serra, ciente de que seria eleitoralmente massacrado se pretendesse discutir política e economia com a candidata de um governo cujo presidente deixará o cargo para virar mito, entregando o país com 80% de popularidade, 8% de crescimento do PIB e criação recorde de empregos. Queiram ou não admitir, mito, diga-se de passagem, reconhecido por Barack Obama, em sua curta frase, “this is the guy”.

Derrotado de antemão na política e na economia, Serra nada apresentou; sua campanha partiu direto para a boataria, a calúnia, o denuncismo e a difamação; em suma, apelou para a moralidade esotérico-cristã do povo e para a moralidade hipócrita da classe média – aquela mesma que condena nos outros a corrupção que pratica em seu dia a dia, subornando um PM pra não pagar multas, parando na calçada, avançando sinais, que usa drogas recreativamente, não pagando os impostos devidos… etc etc etc. Para não dizer que não apresentou nada: diz que vai aumentar o salário mínimo para 600 reais. Se a proposta fosse da Dilma, seria populismo e irresponsabilidade fiscal.

O apelo de Serra à moralidade do povo vem, até o momento, funcionando. Associou Dilma à corrupção e ao aborto. Na internet, a boataria contra a candidata não tem limites. Assassina de crianças, lésbica, satanista, Dilma já foi tudo.
Diante da fraqueza de seu candidato não-oficial, a grande mídia golpista conseguiu suficientemente inflar a candidatura
Marina para forçar o 2o turno. Tenta, agora, terminar seu trabalho.

A campanha de Serra vem conseguindo, pelos meios mais baixos, mobilizar uma massa difusa de eleitores, composta por gente das origens sociais mais diversas, em nome de um único e vago interesse comum, impedir a vitória de Dilma e do PT.

Como se o governo Lula não tivesse sido um dos economicamente mais conservadores da história desse país, a despeito das piores “previsões” dos apocalípticos profetas da direita conservadora. Para infelicidade de nós socialistas, com Lula, o capitalismo no Brasil parece estar mais próspero e legitimado do que jamais foi. Além de tudo, a burguesia brasileira é mal agradecida.

O fato é que há, no momento, 3 aparelhos de hegemonia profundamente engajados pela campanha de Serra: mídia, elites, Igrejas (no plural, católica + evangélicas). Daí já se desenha a massa difusa que, como afirmamos acima, aglutina-se como provável eleitorado de Serra.

Que a mídia e as elites sejam pró-Serra, não surpreende. Sempre foi assim.

Isso expressa o nojo do povão que sente a burguesia brasileira, das mais exploradoras do mundo – acumula capitais na base do salário mínimo; já o agrobusiness chega mesmo às raias do trabalho escravo. Sua mentalidade de futuro é o país agro-exportador desindustrializado que sempre fomos.

Surpreende, entretanto, que as Igrejas tenham entrado pesadamente nesta disputa eleitoral. O que significa isto para o Brasil?

Dados preliminares do censo 2010 vem indicando que a população que se declara evangélica encontra-se em aproximadamente 25% do total da população brasileira.

Ou seja, tudo indica que 1 a cada 4 brasileiros atualmente é evangélico. Isto num cenário de uma Igreja Católica flagrantemente declinante em número de fiéis, posto que visceralmente aferrada a uma moralidade que se distancia, cada vez mais, dos valores da modernidade liberal (no sentido liberal francês, de costumes).

Não nos posicionamos contra as Igrejas evangélicas pelo fato de serem evangélicas, por sua essência, ainda que, para nós, as religiões constituam, sem dúvida, uma poderosa forma de manipulação político-ideológica, o que não exclui, por outro lado, o desenvolvimento da espiritualidade e mesmo seguir religiões tradicionais).

Julgamos, entretanto, que certas coisas tem que ser ditas. Uma coisa é o evangelismo histórico das Igrejas protestantes com uma proposta de religiosidade e sua visão de mundo correlata – metodismo, batismo, calvinismo, luteranismo etc etc etc. Podemos discordar delas, e discordamos; mas são Igrejas sérias, e tem de ser respeitadas.

Outra coisa é o evangelismo (neo)pentecostal ou, como preferimos dizer, a venda de milagres: Universal, Assembléia de Deus, Renascer em Cristo etc etc etc. Esse evangelismo que avoluma-se na esteira do desamparo sócio-econômico das populações de baixa renda; que avoluma-se na esteira de uma Igreja Católica que parece preferir seu próprio desaparecimento à adaptação de seus dogmas à modernidade liberal burguesa. Esse evangelismo que avoluma-se irresistivelmente e arrasta toda a sociedade para uma onda de conservadorismo de consequências imprevisíveis.
Esse evangelismo que, para nossa grande infelicidade, foi alimentado pelo Presidente Lula, que dele fez poderoso aliado.

Muitos já afirmaram ser impossível uma “ditadura evangélica”, pois acreditam que jamais serão maioria da população.
Também achamos que não serão. Mas não precisam ser.

Que candidato à Presidência da República poderá ser efetivamente eleito dispensando a priori 25% do eleitorado?

Isso traz para a nossa política consequências graves como: a virtual impossibilidade de quaisquer propostas concretas no que tange a questõe sérias como o aborto,o casamento civil entre homossexuais e mesmo a completa libertação da mulher.

Como é típico do pensamento cristão, profundamente idealista, o mundo como ele se apresenta é rejeitado; que todos se moldem às vontades (intangíveis) do Senhor, segundo Seu livro, escrito – por seres humanos – há 2000 anos.

Temos então que assistir ao Estado que se diz liberal democrático vetar o pleno exercício da cidadania a certos indivíduos em função de sua opção sexual.  Ou então, criminalizar a mulher que decide os rumos de sua própria vida, muitas vezes com pesada carga de sofrimento físico e emocional.

Isso porque o Estado é laico. Em que medida pode o Estado ser laico quando o eleitorado não o é?

Como consequência, temos essa política cimentada, na qual o candidato não possui convicções; molda-se ao gosto do cliente.

Por isso defendemos que as instituições liberais em que vivemos são e só podem ser, em última instância, um mercado de voto.

A isto os teóricos liberais elitistas chamam “democracia”.

Da mesma forma que nomeia “imprensa livre” a liberdade de tornar público o que lhe interessa e ocultar o resto.

A possível vitória de José Serra anuncia a vitória dos conservadorismos de todas as espécies. Conservadorismos que são, em certos aspectos, até conflitantes.

Enquanto conservadorismos ambos são, entretanto, extremistas.

Um representa o extremismo do indivíduo egoísta, dos mercados impessoais, maximizadores-utilitaristas.

O outro representa o extremismo dos dogmas supostamente divinos.

No primeiro, nos submetemos à liberdade do rico; no segundo, à palavra do pastor.

Em nenhum deles somos plenos enquanto seres humanos.

Caso ocorra, a vitória de Serra será a vitória do conservadorismo neo-liberal anti-popular das elites que se enojam com a mínima perspectiva de um poder voltado às classes baixas, mesmo que suas finanças e negócios tenham prosperado como nunca.

Será a vitória do conservadorismo anti-modernidade do dogmatismo religioso, que pretende lançar o país – e todos nós, se um dia tiverem poder para tal – numa onda de obscurantismo que remonta a tempos medievais. Os mesmos que em alguns estados dos EUA, conseguiu implantar o criacionismo e jogar a ciência pelo buraco.

Na sanha do poder a qualquer custo, o candidato Serra surfa nesta onda, fazendo-se passar pelo cristão que nunca foi, tornando-se o incorruptível baluarte da moralidade, da ética e dos bons costumes. Este indivíduo não tem o direito de fazer o que está fazendo. Nem consigo próprio, pela rica história que tem; nem com o Brasil.

Por esta razão, defendemos o voto em Dilma Rousseff. Apesar de todos os pesares, a despeito de todos os problemas da candidata e do PT – um partido tão corrupto quanto todos os outros – consideramos que é a única forma de impedir, mais uma vez, que todas essas forças consigam fazer a roda do nosso Brasil andar para trás.

O nacionalismo deles é o do consumo e dos seus interesses privados; o nacionalismo deles é o da Igreja cheia de fiéis.

O nosso nacionalismo é o do progresso do país que amamos.

Pedimos a vocês que reflitam e que votem pelo mal menor.

Agradecemos a paciência e a atenção.

Equipe Rio Revolta

Arnaldo Gordo; José Livramento; Tila Borges

* Este Manifesto é uma reprodução do email que montamos para nossa lista de contatos.

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