Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Antigos Espíritos do Mal

O Serra invocou os Antigos Espíritos do Mal numa última tentativa de se eleger.

Primeiro invocou o grande aparelho midiático, simbolizado pelo espírito de Roberto Marinho. Aquela capa da Veja cantando vitória antes do tempo (já publicamos duas vezes ela, do Serra sorrindo alegremente) também deu o sinal, fazendo valer os 36 milhões que o PSDB-SP paga ao grupo Abril. Também como em 89, a Globo saiu em defesa velada dele (vídeo já clássico) e fez coro nas frequentes referências à “liberdade de imprensa” ameaçada que pipocam em todos os outros jornais. Lula aliás, rei das frases ruins, também fez o favor de botar lenha na própria fogueira, quando disse, durante um comício que “a opinião pública somos nós”. Se ele quis dizer que é o “povo nas ruas, num comício, é a opinião pública” é até compreensível, mas foi muito mal formulado e imperdoável no momento em que vivemos. O Espírito do Mal agradece.

Depois, nessa mesma onda, Serra invocou o Lacerda. O lacerdismo udenista voltou e a mídia ressucitou jargões mortos desde 54 como “perigo vermelho”, “soviéticos”, “aparelhamento do estado”, “ditadura de partido-único”, tudo resumindo o lema: “Ela não pode ser candidata. Se o for, não pode vencer as eleições. Se as vencer, não pode tomar posse no cargo. Se tomar, não pode governar!”. Parece que o próprio Prestes estava concorrendo contra o PSDB. Em 89 isso aconteceu também, mas foi um pouco diferente, o PT era um partido “desconhecido intelectualmente”, radical, fruto do ativismo sindical, a URSS não tinha caído ainda, o discurso anti-comunista era natural. E o final também não foi bom.

 

Serra aceitou Jesus.

Serra aceitou Jesus.

 

Então, na última esperança de fortalecer sua candidatura decadente, Serra acometeu-se do mais rasteiro oportunismo e abraçou a posição cristã, fundamentalizou-se e esvaziou o já esvaziado discurso político destas eleições. Invocou a moralidade e os bons costumes. Esse Antigo Espírito do Mal, veio representado nos bispos da CNBB paulistana, no TFP (Tradição, Família e Propriedade), como disse em outro texto: aqueles fascistas que inspirados em Franco, generalíssimo espanhol, apoiaram a nossa ditadura e benzeram os generais diversas vezes. Por fim, mas não menos importante, o bolo da cereja religiosa que Serra invocou: Pastor Silas Malafaias, da Assembléia de Deus. Para o qual Serra é “ungido por Deus e acima dos partidos e das disputas políticas, que deve governar com pulso forte e salvar o Brasil do mal”. Qualquer um que pegar um livro de história sabe que este foi exatamente o discurso da Igreja Católica para apoiar o fascismo de Mussolini, Franco, Salazar e até de Hitler no seu tempo.

[Adendo]

Hoje (dia 18 de Outubro), descobri que outro Espírito do Mal foi invocado em defesa do Serra: Plínio Salgado. Para quem não conhece, Plínio Salgado foi o presidente e fundador do Integralismo brasileiro, literalmente, o fascismo brasileiro, aqueles caras que erguiam o braço ‘a lá’ nazistas e diziam “Anauê”. Esta nobre (no sentido mais pejorativo possível) entidade, imprimiu panfletos apócrifos, se passando pela Igreja Católica, difamando a candidata do PT, gastaram fortunas (foram mais de 2 milhões de panfletos) e rapidamente foram desmascarados. Mentira tem perna curta e o negócio pegou mal demais.

[fim do Adendo: dia 18/10, 12:01]

Este eixo ultra-conservador só poderia se aliar ao único Espírito do Mal ainda vivo: o feudalismo -ops- ruralismo do Democratas (sic), o antigo PFL, o partido da “situação” da Ditadura. Dos barões que dominam o agro-negócio, outro  eufemismo para latifúndio agro-exportador (segundo muitos “economistas”: exportação deste tipo é a “vocação natural brasileira”, leia-se: subserviência às metrópoles). Os ruralistas através de seu forte patrocínio ao aparato midiático arraigou a idéia na classe média “pensante” de que “Reforma agrária é coisa de comunista”. Qualquer livro de história vai dizer que Inglaterra fez reforma agrária, EUA fizeram reforma agrária (aliás, nasceram fruto dela), Japão fez reforma agrária – aliás, quem fez a reforma agrária japonesa foram os EUA e nos anos 50! -; França fez reforma agrária, Alemanha fez reforma agrária. Como podem ver, só países comunistas subdesenvolvidos fizeram reforma agrária… Já disse isso antes: nossa elite é tão retrógrada que rejeita o próprio capitalismo, vivemos no Antigo Regime. Viva Brasília, Versalhes Tupiniquim. Não é a toa que Serra teve vitória expressiva onde o agro-negócio flui, os coronéis modernos mudaram de lugar, como disse alguém um tempo atrás: “mudam-se as estruturas, mas o fantasma das idéias persiste”.

Divaguei um pouco, mas volto ao assunto.

É sabido que políticos são demagogos, falam isso e ‘desfalam’ aquilo, fazem alianças mil para se candidatar. Oportunismo é comum e sempre será. No entanto, é a primeira vez que vejo no Brasil um candidato a presidência “aceitar Jesus” para ganhar votos, mudando toda a sua campanha para uma posição perigosa. Serra se converteu em Anthony Garotinho. Antes fosse um cristão sincero que o último parece ser, pois nunca escondeu que era evangélico e sempre dos evangélicos dependeram seus votos (tanto que se elegeu aqui no Rio, mesmo com a sabida Ficha Suja). Mas Serra foi muito baixo neste golpe e, pode ter dado um tiro no pé.

Há uns meses atrás, aqui neste mesmo blog, disse que o fascismo estava ganhando uma nova cara, mas errei em uma consideração, falei que “o discurso anti-comunista explícito, […]defesa da ordem e de uma família ideal, idílica, que jamais existiu ou existirá […] estava acabado. Parece que não. Pouco depois que disse isso os neofascistas do Tea Party americano deram as caras contra Obama e o ‘perigo socialista’ nos EUA (risadas ao fundo). E por aqui, Serra foi convertido em paladino evangelizador a erguer sua espada Moralidade contra o perigo vermelho. O próprio Cavaleiro Andante.

 

Bush: Verdadeiramente Pro-Vida

 

Nesse sentido, nossa campanha deste ano foi semelhante em muitos aspectos à de Obama. De um lado o canditado “pro-vida”, do outro o “socialista” Obama. Por lá a campanha difamação do atual presidente foi tão grande que 20% dos americanos acham que ele é muçulmano, muitos outros acham que ele ele é comunista, chegaram a fazer montagens insinuando que Obama era Osama bin Laden e etc… Até nisso estamos nos americanizando, importamos o obscurantismo evangélico americano. Aquele que divulga proíbe Darwin e rejeita o sexo com camisinha (“anti-natural”). As Américas estão querendo buscar a Idade Média que nunca tiveram.

Ao desenterrar estes Antigos Espíritos do Mal, Serra se tornou uma espécie de Mumm-Ra. “Transformem esta forma decadente em…”

Mumm-Ra queria vida eterna. Mas o que quer e acredita José Serra? Eu não sei por que seu partido sequer entregou um programa para o Tribunal Superior Eleitoral. Mas disse outro sujeito muito tempo atrás: “Diga-me com quem andas que te direi quem és”.

José Livramento

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