Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Quem tem medo do Lobo Mal

O comunismo de Lula.

A radicalização desta eleição parece ter criado um fenômeno muito interessante: a direita brasileira voltou a mostrar todo o seu ranço colonial, obscurantista, retrógrado e conservador. O lobo mal saiu da toca para caçar novamente.

Voltaram discussões sobre a inteligência do povo ao votar, procurando evidentemente invalidar o seu voto; buscaram burocratizar a escolha popular através dos multiplos documentos para votar (algo que claramente tende a prejudicar os mais humildes, que hoje não votam em uníssono com a direita). Resgataram a TFP (Tradição Família e Propriedade) do seu ostracismo e irrelevância de décadas; a “Marcha pela Família” também voltou à moda, a mesma que levou mães conservadoras a combater o “comunismo” do rico fazendeiro João Goulart em passeatas nas ruas também. Também surgiram pérolas de líderes da direita contra os homossexuais e por fim, o impensável surgiu numa discussão de debate sobre o país: politizaram a questão do aborto. Novamente, me sinto em 1954, só que desta vez os militares não foram convidados para a “festa da democracia”, ou assim esperamos. Quanta relevância para o destino econômico-político do país de 190 milhões de pessoas.

O PSDB que já foi um partido progressista e de quadros importantes na redemocratização de nossa terra parece ter sido engolido pelo ranço colonial do “Democratas” (sic). Seu discurso saiu da centro-direita ultra-liberal, para a extrema-direita ultra-conservadora em um piscar de olhos. Enterraram seus pensadores Hayek, Friedman, Roberto Campos e o próprio FHC, num obscuro discurso de ataques ao “perigo vermelho” e exaltação de valores familiares irrelevantes para política de estado. Depois alguns acharam que estávamos exagerando ao chamar isso de neo-udenismo. UDN tá aí, firme e forte.

Parece que a direita brasileira, de tão retrógrada, não aprendeu a perder na democracia. Ela é, como dissemos e reafirmamos: golpista. Depois de perder pro Jango, perder pro Lula e agora parece perder para a Dilma, todos trabalhistas de centro-esquerda, apelam para os mais baixos e superficiais argumentos para a discussão política, incitando inclusive argumentos beirando o golpe. Transformam o debate eleitoral numa conversa de esquina entre a donas-de-casa dos anos 50. Partem, apoiados por setores comprados da mídia [parece que só o Rio Revolta está surpreso que o grupo midiático da Veja recebeu 36 milhões de reais do governo Serra nos últimos dois anos??], a direita partiu para ataques pessoais e morais em questões completamente irrelevantes para o destino do país. Já dizia um professor meu: quanto mais irrelevante o assunto para o país, mais atenção terá na mídia… Talvez agora tenham exagerado, aborto se tornou uma questão de Estado. Reflete bem nosso nível cultural.

O mais incrível é ver a classe média embarcar nesta onda. Cometem o mesmo erro que fizeram contra Vargas. Se este foi o “Pai dos Pobres”, também foi, como disseram, a “Mãe dos Ricos”. Por mais que o PT tenha desmantelado a esquerda brasileira, cooptado sindicatos, esvaziado a discussão por reformas mais radicais, o seu governo foi ótimo para a classe média e ricos, só não agradou muito ricos, que se fosse por eles, a escravidão seria o tipo ideal de economia e o parlamentarismo dinástico o tipo ideal de governo, com voto censitário claro. Reiterando, por mais que tenha feito tudo isso, é inegável e os números de DIEESE, IBGE, FGV e todos os centros de estatística nacionais e internacionais mostraram, há uma evidente melhora em todos os nívels econômicos brasileiros. Assim, gostaria de saber do que tem medo a classe média? Quem tem medo do Lobo Mal?

Lula não fez reforma agrária, não estatizou empresas – até privatizou algumas rodoviais -, não fechou igrejas, não taxou remessa de lucros,  não diminuiu os juros, se quer teve algum programa político de viéis socialista. No entanto, a classe média adorou rejeitá-lo em apoio ao PSDB. Aquele partido que prega a desintegração do Estado, quase que num anarco-capitalismo brasileiro. Talvez a classe média esqueça isso na hora de fazer todos os concursos públicos possíveis e exaltar – na prática e não no discurso – os milhares de empregos públicos e isenções fiscais que o governo Lula criou, ou ainda as vagas universitárias públicas que sempre domina. O Estado no deles é refresco, e muito. É amor/ódio, ataca o Estado sempre que pode, mas adora um emprego público e uma vaga federal.

Por sua vez, a indústria nacional, o que teme em Dilma? O PT tem apoio de grandes industriais (o próprio vice de Lula). O PT criou estaleiros que estavam fechados há décadas para fortalecer a indústria nacional; reduziu IPI e fortaleceu fortemente o setor automobilístico e de construção civil. Nunca se construiu tanto quanto nestes últimos cinco ou seis anos. Não sei que perigo eles vêem. Trabalhismo sempre foi bom para o setor industrial. Roosevelt salvou a economia dos EUA assim, a Coréia do Sul se tornou o que é por forte política nacionalista e trabalhista. O índices econômicos da indústria são os melhores desde o Milagre econômico da ditadura. E ainda assim, há uma rejeição ao PT.

E o pior, o setor financeiro também vai muito bem obrigado, a Bolsa de São Paulo bate recorde atrás de recorde, e a capitalização da Petrobrás foi um sucesso, apesar dos boicotes internacionais. Especulação e juros altos continuam numa boa. Lula não taxou movimentações financeiras, não taxou remessa de lucros ao exterior (o que dizem derrubou Goulart). Muitos do setor financeiro aliás, vêem no PT a certeza da continuação deste oba oba.

E mais curioso ainda é ver os militares se posicionarem anti-Dilma e PT, favorecendo Serra. Quem desmantelou o nosso exército, achatou seus salários e esvaziou qualquer poder que eles tinham foi exatamente o PSDB, no governo FHC. O exército nunca foi tão fraco quanto do meio pro final de FHC. O PT por sua vez fortaleceu a aviação com novos caças, aumentou o orçamento e estabeleceu metas de reconstrução para o exército, ainda que na defensiva. E, como disse, ainda assim o rejeitam maciçamente.

Por fim, qualquer estatística econômica, social e política – coisas que os neoliberais economicistas adoram usar – está ao lado do PT em seus oito anos de governo. Todos os setores da sociedade viram evidentes melhoras em sua qualidade de vida. Nossa população pobre estava tão largada que uma mera ajuda de custo de R$200 reais – algo que não faz ninguém abandonar o emprego – tirou 28 milhões de pessoas da miséria completa. Porra… perdoe a palavra. R$200 reais! Esse é o salário que a classe média sonha em pagar a sua ‘empregada’.

Sem qualquer embasamento em números e constatações da realidade para atacar o atual governo, é natural então que – exatamente como nos anos 50 – a direita se refugie no discurso da corrupção e da moralidade. Chamem as Mães Conservadoras pois não terão outra forma de atacar o governo. Invoquem o aborto, o perigo vermelho, filhos fora do casamento, lésbicas, gays e afins… Os vermelhos não podem governar!

Nós do Rio Revolta temos certeza de que Lula e o PT não fazem uma “revolução branca”, uma guerra de posição ao estilo gramsciano, como muitos na esquerda acreditam. Não nos iludimos, PT não é revolucionário, é um partido trabalhista, pelego em muitos aspectos, mas ainda assim nacionalista e não-entreguista, não é palanque de venda de nosso patrimônio. A única coisa que Rio Revolta concorda com Veja foi quando esta disse que o “PT é Cor de Rosa”, na ocasião se referindo a Marta Suplicy… O PT não é vermelho, é rosa. Trabalhismo pelego e muito superficial, mas ainda assim trabalhismo, algo que este país precisa e muito.

Apesar de todos os dados estatísticos e práticos ao seu lado o PT ainda é rejeitado pela classe média e elite. A classe média que circula correntes reclamando que o povo não sabe votar não conseguiu gerar uma explicação embasada para votar a favor daqueles que achataram a classe média, arroxaram os salários, estagnaram a economia e venderam metade do país. As principais justificativas derivam de acusações personalistas e julgamentos morais de valor, isto é, preconceito. Isso vindo de pessoas que até ontem diziam que o pobre votava mal pois era personalista e não interessado em projetos de governo e dados econômicos e sociais. Como disse, Hayek, Campos e FHC foram enterrados em preconceito e ranço anti-popular.

Como dissemos antes, RR vota com o PT nesta eleição. Muito mais como um voto anti-neoliberal do que por qualquer alinhamento ou crença ideológica com os Petistas. Derrotar a direita é muito mais importante do que nossas sérias e profundas divergências com o trabalhismo petista. Basta olhar para o outro lado, vender tudo que levamos 500 anos para construir não é projeto de governo. Não se pode escolher líderes que tenham por princípio de governo sua própria ausência da sociedade e mercado. Governar é intervir.

José Livramento

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: