Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: outubro 2010

Porque é importante derrotar a direita domingo

Desde que o Rio Revolta saiu em defesa da esquerda eleitoral, largando nossa posição anti-democracia-liberal e pelo voto nulo, fazem 31 dias. O post em que fizemos isso foi o “Deformadores de Opinião” para quem quiser saber. Neste tempo que passou, o segundo turno veio, para alguns pareceu derrota petista no jogo político a ida para o segundo turno, mas somente com ele a direita reacionária  pôde mostrar todas as suas caras. Com o segundo turno vimos escancaradamente a Globo tomar partido com a montagem do Atentado da Bolinha de papel e, consequentemente um futuro clássico do samba ser criado; com ele vimos até o Integralismo sair do armário e dar as caras (como já dissêmos nos últimos posts); vimos o Índio da Costa e sua posição contra homossexuais e seu rechaçamento da Rocinha; vimos Serra virar pastor com aquele santinho que postamos semana passada… Mas especialmente, o segundo turno deu uma politizada generalizada na população, levou a política para as ruas, a discussão eleitoral para qualquer roda de pessoas em qualquer cidade. Talvez pela fraqueza de ambos os candidatos, do PSDB e do PT, a discussão tenha sido muito mais ideológica do que antes, não sei, talvez.

Mas o que isso tem a ver com a importância de derrotar a direita no domingo?

Para responder essa pergunta, como historiador, farei uma volta no tempo. Quem leu meu último post já terá alguma idéia do que eu vou falar.

A nossa direita nunca foi de fato derrotada. Desde os tempos da nobreza é apenas continuidade ou continuismo. O Brasil moderniza suas estruturas, mas o fantasma de suas idéias arcaicas persiste. Parafraseando aquele barbudo alemão. Só para constar: nossa independência foi fundada pelos nobres portugueses que até aquele momento eram a metrópole. Em fins práticos, nossa elite não foi derrotada para dar lugar a uma independência, teoricamente nacionalista, ela foi absorvida pela nobreza portuguesa que fugia exatamente da modernização liberal napoleônica na europa. A metrópole veio para o Rio de Janeiro e de Vice-Reino, viramos Reino. 81 anos depois, nossa república foi feita por militares, barões, condes e outros nobres. Para quem não estuda feudalismo e Antigo Regime: os militares são por excelência a classe feudal, a nobreza feudal é militar e consequentemente a elite militar é de antigo regime, mesmo quando não parece, assim, apesar de um ou outro ímpeto repúblicano, em termos práticos, a nossa nobreza também fez a nossa república. É como dizia o ditado da Primeira República: “Nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder” (luzias e saquaremas eram “liberais” e “conservadores” naquela época, ou será o contrário?!).

Prosseguindo… Nossa elite nunca foi derrotada, por isso é arcaica. Em todos os conflitos que entrou venceu. Ainda na colônia venceu os franceses e os holandeses. Saiu politicamente vitoriosa mesmo quando os espanhóis engoliram Portugal, pois a União Ibérica só veio a favorecer a elite brasileira que se expandiu américa a dentro. No “Império” brasileiro, nossa elite venceu contra o republicano Paraguai e interiorizou o reino por todo o território. Pouco depois imperializou a Bolívia (“compra” do Acre) e venceu contra a monarquia utópica de Canudos. Já no século XX, a elite esmagou – com muito sufoco é verdade – as greves gerais de 1917 e 18 que pararam Rio e São Paulo em nome de anarquistas, socialistas e trabalhadores.

Na verdade, para não dizer que nunca perderam. A derrota da “Revolução Constitucionalista” para o Governo Federal foi uma forte derrota da elite, ainda que exclusivamente paulista. Vargas fundou a república moderna. Não é a toa que chamam a república até 1930-32, de “república velha”. Mas sob o prisma de décadas de distância, podemos ver o Golpe de 1964 como uma “contra-revolução conservadora”, em nome dos “derrotados de 30” e todos aqueles poderes oligarcas regionais que se sentiram preteridos pelo poder central federal varguista.

No longo prazo, considerando a contra-revolução de 64, as elites sempre venceram. E daqui parto o meu argumento.

Mas porque de fato, seria uma derrota da elite a vitória do PT nestas eleições?

Oras, existem N motivos para se rejeitar o PT como liderança em prol do poder dos trabalhadores. Nas palavras de Lula mesmo: nunca antes ouve uma união entre capital e trabalho como em seu governo (disse isso aqui). Se há união entre desiguais como capital e trabalho, o mais forte de fato está vencendo. Mas esta não é a discussão aqui.

O que ocorre no país é uma substituição das elites. Uma elite arcaica, ruralista, semi-feudal, elitista, que sempre se acostumou a vencer e estar por cima, vem conhecer – talvez – sua mais importante derrota cultural. Serra usou todos os argumentos clássicos da direita para tentar se eleger: tenta o moralismo cristão (evangélico particularmente), tenta apelar para o perigo comunista inimigo, para a falta de “valor a vida” do adversário, para questões morais como o aborto, direito dos homossexuais e outras questões relevantes à direita. Todos estes argumentos ele usou, mostrou “o que importa” para a população de direita. Estes argumentos, aparentemente, até domingo, se mostram derrotados. Nossa população, talvez por uma mudança genuína em seu pensamento, cansado de tanta “mesmice” de direita, talvez vislumbrados com o que apenas 8 anos de trabalhismo nacionalista faça com um país capitalista com forte potencial como nosso, talvez iludidos por perspectivas melhores ainda com um governo mais radical a esquerda… Enfim, o fato é que a população conheceu claramente os argumentos arcaicos da direite, e parece rejeita-los. Saberemos melhor na segunda-feira dia 1 de novembro.

A importância de derrotar a direita neste pleito está exatamente em mostrar que a cultura política do povo evoluiu mais rápido do que a cultura política da elite de pelo menos 200 anos. E é somente com derrotas que as elites se enxergam em seu atraso e tentam se modernizar. O pragmatismo oriental mostrou isso. Primeiro o Japão, militarmente derrotado pelo “ocidente inferior”, viu-se obrigado – ideologicamente – a se modernizar, por isso em 50 anos, o mesmo partido – com ajuda do dinheiro americano – trouxe o país do fascismo semi-medieval para o ultra-capitalismo atual; logo depois veio a Coréia do Sul, por razões semelhantes, mas não oriundas da guerra – talvez, opinião minha – de uma visível inferioridade ao inimigo histórico, o Japão -, se modernizou em 20 ou 25 anos. Pouco depois a China também. Face a um capitalismo pujante, a China observou que poderia ser humilhada novamente como no século XIX e início do XX, desta forma as elites locais, cartelizaram-se dentro do Partidão chinês e decidiram se modernizar. O despero sempre une os donos do poder. Melhor perder os anéis do que os dedos.

No caso brasileiro, diga-se de passagem, que não espero este pragmatismo oriental ou a revolução educacional coreana, ou mesmo uma tentativa de competir industrialmente com a China. Seria covardia, 1 em cada 6 habidantes do Planeta, são chineses. Mas o PT de fato está subsituindo as elites mandantes por elites que agrada seu jogo de poder. Não são “iluministas” como a revolução francesa ou americana colocou, mas são novas elites, oriundas do profissionalismo liberal, do sindicalismo e do carreirismo estatal. São fruto de um incipiente “império da lei” (que falei em outro post) e portanto, muito mais modernos que o jogo elitista do DEM e do PSDB, filhos do elitismo ruralista e paulista respectivamente. Ainda que, é facilmente identificável no PT resquícios do Antigo Regime: o nepotismo, o clientelismo, o favorecimento de cumprades. Mas o próprio fortalecimento da polícia federal, do CGU, do parlamento e de forças republicanas, levam a esta conclusão. Alguns teóricos, sem esboçar isto que eu coloco afirmam que Lula é o “mais repúblicano presidente da história”.

Enfim, a importância de derrotar a direita no domingo é muito mais do que derrotar o PSDB e as forças conservadoras. É uma importantíssima derrota da elite histórica deste país. Uma vitória do Império da Lei republicano contra o “compadrinhamento” anterior. É uma derrota do regionalismo anti-republicano e anti-governo federal que sempre assolou a elite e enfraqueceu projetos nacionalistas. Na prática, em médio prazo, é a derrota das oligarquias regionais em favorecimento de um Estado forte e dominante, base para qualquer mudança social radical. Ainda que esta mudança venha  a fortalecer uma nova elite – a ser questionada e debatida -, é uma evolução tremenda à cultura semi-feudal e coronelista do Antigo Regime.  O império da lei ainda há de triunfar no Brasil.

Então, neste domingo, vamos mostrar que mesmo que não gostemos do PT, como eu, nós sabemos que o PSDB/DEM são um retrocesso colossal em nossa galopante republicanização, em nosso constante progresso em direção à consolidação da democracia – ainda que liberal – e da república. Não dá para modernizar o país trazendo ruralistas, o Papa semi-fascista e seus movimentos nacionais (TFP, integralismo) e os “internacionalista”s que querem ver o país exportador de commodities para sempre, como uma colônia modernizada exportando gado, soja e ferro. Não, domingo vamos mostrar que, por mais que achemos o PT uma via ruim, é a única via possível da modernização.

Contra o atraso e subserviência. Contra a “prática da dependência” e “falar grosso com Washington”, vamos extirpar a direita arcaica de nossa elite política. Domingo votaremos na Dilma, domingo esperamos ser o início de uma mudança há muito postergada. A vitória da república contra o Antigo Regime.

José Livramento

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Manifesto por Tiririca

 

 

Tiririca: um brasileiro como outro qualquer

 

Caros amigos,

Nos manifestamos mais uma vez, e pedimos momento de sua reflexão.

Há uma vergonhosa campanha pequeno-burguesa em curso que visa impedir a posse de Tiririca para o cargo ELETIVO para o qual foi ELEITO.

Pois bem, não bastasse tudo, agora a burguesia e a mídia golpista querem dizer ao povo que o voto é livre, desde que elejam alguem que eles considerem dignos. Aí entende-se quando Gilberto Kassab, ex PFL, governador de São Paulo, novamente vem desqualificar o voto do povo: “o povo errou ao eleger Tiririca”.

Ou seja, o voto é livre mas o povo não pode sequer votar em quem quiser.

A classe média lamentavelmente é seduzida por este discurso, que tenda representar o candidato Tiririca como um incapaz, um indigno e um desqualificado.

Mas ele se candidatou e foi eleito.

 

Além de tudo, seu slogan identifica-se claramente com os sentimentos populares

 

Pois eu lhes pergunto: A vergonha é do povo, que o elegeu?

Ou a vergonha é dos “políticos sérios”, que não conseguem parecer mais confiáveis ao povo do que um PALHAÇO?

Se analfabetos podem votar, porque não podem ser eleitos?

Um analfabeto pode eleger um sociólogo para a Presidência, mas não pode eleger um outro analfabeto para o Congresso?

Não basta o fardo social gigantesco de não poder sequer ler e escrever, não pode também ser eleito. É mais do que um cidadão de segunda classe.

Conscientizem-se. Não se entreguem ao falso moralismo da classe média que norteou a educação de todos nós.

É isso que se espera do Brasil, que uns sejam mais cidadãos do que outros?

Vai ver é por isso que continuamos vivendo num país de analfabetos. Porque só os alfabetizados são eleitos.

Que se mudem as leis que permitem um candidato de fachada ser eleito para alavancar um partido (o tal do coeficiente eleitoral); que se faça o que for.

Mas que não se permita que impeçam um brasileiro, seja ele quem for, de TOMAR POSSE DO MANDATO PARA O QUAL FOI ELEITO PELO POVO.

Se permitirmos que esse nível de elitismo prevaleça, palhaço não será o povo, nem o Tiririca.

PALHAÇOS SEREMOS TODOS NÓS.

Equipe Rio Revolta

http://coletivoac.wordpress.com/

Elite Arcaica e o Capitalismo

Já disse anteriormente no texto Brasília, Versalhes Tupiniquim que o Brasil tem sérios traços retrógrados e anti-republicanos.  Recentemente ouvi o atual presidente do Brasil falando a grandes empresários nacionais e ele tocou num assunto que é pouquíssimo falado em nosso país e ele usa a seguinte frase:  “Se nós éramos um país de economia capitalista por que que a gente não adotava uma política capitalista para este país?” Pois bém, vou prosseguir com uma afirmação categórica, onde aprofundo esta citação de Lula: a elite brasileira é tão retrógrada que rejeita o próprio capitalismo e muitos dos pilares que o sustentam. Vou explicar por que:

1. A elite brasileira não gosta do “Império da Lei”.

O princípio básico da revolução burguesa, exemplificada pela Revolução Americana 1776 e a Revolução Francesa de 1789 era de que a Lei era universal e aplicável a todos os cidadãos: todos são iguais perante a lei. Esse discurso era fundamental porque se chocava radicalmente contra a lei personalista, variável e de relações pessoais do Antigo Regime. Em regimes nobiliárquicos, tipo feudal (Antigo Regime) as relações pessoais e de parentesco, quem você conhece e qual sua relação com o nobre poderoso local, são peça fundamental no funcionamento do Estado e da Sociedade. Se você é ‘amigo do Rei’, você está feito.

1808: a elite foge da cultura liberalNão é preciso ser clarividente para ver que no Brasil, até os dias de hoje, as relações pessoais são mais importantes que as relações legais. A frase eternizada pelo Tropa de Elite: “Quem quer rir, tem que fazer rir”. A troca de favores “entre iguais” é fundamental para o “funcionamento da máquina”. Conhecemos outros termos ainda, como o QI, “quem indica”, o jabá da indústria musical, os favorecimentos, nepotismo e etc. É quase certeza científica que se você for parado numa blitz e por um acaso conhecer o tenente responsável, você sairá apenas com um aviso. Isso quando não precisa fazê-lo rir. Aliás, propina era parte da remuneração dos fiscais do rei durante o tempo colonial, estabelecido por lei real. O monarca pagava um salário baixo mas autorizava o fiscal a cobrar do fiscalizado uma bonificação. O fiscalizado por sua vez poderia recorrer ao rei caso fosse abusiva a taxa, mas o costume, a grosso modo, vem do Antigo Regime português, por intermédio da nossa colônia e da família real que para cá veio em 1808, justamente fugindo da cultura liberal-burguesa francesa.

O “Império da Lei” foi fundamental para o triunfo da cultura ocidental moderna e destruição da cultura feudal. Selou a tomada de poder pelos empresários, industriais e jogou os nobres senhores de terra, para escanteio. Sem “igualdade de todos perante a lei” seria impossível instituir o capitalismo moderno, enterrando as relações pessoais com a terra, o poder hereditário e o trabalho servil.

No entanto, como socialista, faço a nota de lembrar da Lei da Ponte: “é proibido tanto para ricos como para pobres, dormir em baixo da ponte”, vale também a sua releitura espetacular por Mano Brown, no vídeo abaixo. Ele fala de José Serra, mas na prática está falando do liberal-burguês clássico:

Mesmo com o evidente problema social da “igualdade para todos” quando na realidade uns são ricos e outros pobres, é inegável que o lema é progressista e enterra o regime feudal no passado. Não há poder legitimado por Deus, exceto para a Marina Silva ou George Bush, talvez.

Neste mesmo sentido, nossa elite rejeita também outro preceito pautado no Império da Lei burguês-liberal, uma das bases primordiais do mundo moderno: todos são inocentes até que se prove o contrário. Aqui se acusa em capa de revista mas se desculpa em nota de rodapé. A palavra da grande mídia, arauto já tradicional do pensamento elitista, vale mais do que a palavra do acusado. Da mesma forma que, no Antigo Regime, a palavra de um nobre valia mais do que de um servo. Um nobre sempre está certo, mesmo quando está errado.

Este tema ainda tem uma série de reveses, vou elaborar mais isso em outro artigo.

2. A elite brasileira rejeita o nacionalismo

Bandeira MonarquistaO nacionalismo, enquanto momento cultural, é da mesma época do triunfo do Império da Lei (quem tiver tempo, vale leitura do “Nações e Nacionalismo” de Eric Hobsbawn). Nasceu após a queda do Antigo Regime. É até meio lógico: com a unificação da Lei, ocorreu a universalização da mesma (dentro das fronteiras já existente dos países) e dela veio a educação universal e a identificação de todos os cidadãos de mesma língua tanto com um poder central, como com uma identidade nacional, a pessoa se reconhece na medida que identifica a qual idioma não pertence.

Porém, o nacionalismo cultural só triunfa quando caminha com o nacionalismo industrial, capitalista. Quando o Estado, agora aberto aos industriais, empresários e profissionais liberais por causa do Triunfo da Lei, decide fortalecer a indústria nacional, criar escolas públicas e técnicas, universidades nacionais, barrar a entrada de dinheiro e até trabalhadores estrangeiros, procura instaurar pedágios unificados de fronteira exterior, força a  proteção do comerciante nacional. O nacionalismo torna-se desta maneira, o caminho natural do capitalismo nacional. O nacionalismo é protecionista, falaremos disso adiante.

A elite brasileira não é nacionalista, ela é provinciana. Exemplos evidentes temos parte da elite gaúcha que sonha em ser independente, temos a elite paulista que sonha com o reino mágico do Tietê isolado, até parte da elite catarinense entra na onda também. É separatista. Mas mais do que isso: em todas as tentativas de fortalecimento do poder centralizador do Estado Republicano brasileiro as elites foram contra.  O medo de perder o poder local para um agente forte centralizador e universalizador da Lei, torna as oligarquias locais renitentes ao aceitar o poder central. O fato de termos criado uma federação em 1889 é apenas exemplo. O Antigo Regime, feudal, é mister em oligarquias e poderes locais coronelescos, que muitas vezes ignoram o poder central. A república foi fundada neste espírito.

Nosso subdesenvolvimento associou quase que irremediavelmente as elites locais às estrangeiras. As elites nacionais sempre ganharam muito com relações econômicas com estrangeiros, nunca com as nacionais. A base exportadora, agrícola e importadora de bens manufaturados associou como unha e carne o latifúndio-exportador com o capitalismo inglês, francês e depois, americano. É natural portanto, que elas “olhem para fora” e não sejam nacionalistas e tentem, sistematicamente, lutar contra políticas nacionalistas.

Além disso, a nossa elite foi sistematicamente e culturalmente contra os nacionalistas de sua época. Floriano Peixoto é diminuído por vastos setores da elite “liberal” brasileira, não é raro ser chamado de vil ditador (numa época em que só existiam ditaduras no mundo); Getúlio Vargas então, apedrejado e execrado, tentou ser enterrado por FHC que chegou a proclamar “O fim da Era Vargas”; João Goulart, outro pró-capitalismo nacionalista, foi derrubado. Seu maior pecado, dizem, foi querer taxar remessa de lucros e movimentação financeira de estrangeiros no país. Não foi a toa que o Império Americano apoiou largamente sua derrubada.

Aliás, nossa ditadura atacou o “comunismo” do rico fazendeiro João Goulart em nome do “nacionalismo” dela. Na prática atacavam o nacionalismo econômico de Jango em prol de um nacionalismo político e entrega econômica aos desígnios do grande capitalismo internacional, americano em particular. Veio defender o latifundio agro-pecuário exportador contra a nascente burguesia brasileira, numa releitura das contra-revoluções oitocentistas na França. A ditadura veio destruir a estabilidade trabalhista, do pleno emprego em construção – hoje chamam este crime de “flexibilização do mercado de trabalho”; os militares logo atacaram os subsídios as ferrovias, aos trens e ao ônibus, o que agradou as montadoras internacionais e criou esse caos no transporte público; atacaram os financiadores de crédito ao empresariado nacional entre outras medidas “nacionalistas”, enfraquecendo bancos, abandonaram medidas desenvolvimentistas para adotar o monetarismo liberal. Essa prática levou a falência diversos setores do capitalismo nacional, até mesmo, os que produziam tanques para ela, como a Engesa. Não foi um militar, dois meses depois do Golpe de 64 que cunhou a célebre frase: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”? Resume bem o nacionalismo deles.

Assim é compreensível a  prática comum entre a elite brasileira de atribuir tudo de qualidade ao que é estrangeiro e tudo de ruim ao que é nacional. A rejeição é quase cega e se estende aos mais diversos setores, da música e tv, a política e economia. Do estrangeiro querem os bens de consumo e a esperança de um civilizador branco europeu, messiâniaco trazendo um pouco de cultura a nossa barbárie subdesenvolvida, para que possamos fazer passeios-safari em nossa savana urbana. Como seu método é falho, se contenta em importar um monte de coisas e viajar para a Europa civilizada como sempre fez durante todo o período colonial.

3. A elite brasileira rejeita o protecionismo

Qualquer estudante de história econômica sabe que um dos pilares fundamentais para a consolidação do capitalismo nos países centrais foi o protecionismo de sua indústria, de seu mercado. Livre Mercado só favorece quem é mais forte, é a lei da selva aplicada ao mercado. Omni bellum omni hobbesiano. Quando a indústria é pequena, inexistente, ou em fase de crescimento, o Livre Mercado a destrói.  Historicamente todos os países capitalistas viveram fazes longas de protecionismo e proteção ao capitalismo nacional. Como disse o economista sul-coreano Ha-Joon Chang: “No século 19 e nas primeiras décadas do século 20, os EUA foram o país mais protecionista do mundo. E uma vez que desenvolveram plenamente sua indústria, exigiram do resto que se convertesse ao livre comércio.”

Nossa elite está sempre em consonância com o capitalismo internacionalista “livre” dos países ricos. Livre Mercado isso, livre mercado aquilo, “excesso de proteção”, “excesso de Estado” são mazelas que temos de combater… Enquanto isso toda a Europa, que a classe média e a elite tupiniquins adoram visitar, é o centro mundial do protecionismo e do Estado Máximo.

A rejeição ao protecionismo é, reiterando, uma rejeição ao capitalismo nacional. Pois a única forma do capitalismo nacional se construir é com protecionismo contra forças superiores estrangeiras. Tem sido assim desde sempre. A rejeição a este princípio básico de economia nacional só fortalece quem sempre teve poder e o erdou da época pré-republicana, do Antigo Regime: ruralistas exportadores e uma pequena parte que se convertou em nobre-industrial (que são raríssimos). Seja representado pelo agro-negócio da soja, da pecuária de exportação, do frango de exportação (complexo Sadia-Perdigão), do minério de ferro da Vale. Isso não é indústria, no sentido capitalista do termo, é quase extrativismo exportador. Emprega pouco, não fortalece o mercado interno e torna o país escravo do mercado externo e do preço internacional das commodities. Exportação destes bens primários ou secundários, de pouquíssimo valor agregado é a base de economias subdesenvolvidas.

Nossa elite diz aceitar a competitividade, pois o dela está garantido, ela é a mais forte em nossa selva. Ela diz que protecionismo é assistencialismo, é sustentar a vagabundagem ou empresas falidas, é como o vídeo do Mano Brown lá em cima. São sempre os mesmos argumentos, há mais de 100 anos…

4. Nossa elite rejeita a educação como direito do cidadão

A universalização da educação pública e de qualidade é um pilar da civilização ocidental. Primeiro porque qualifica a mão-de-obra dos trabalhadores para a indústria nacional, segundo porque torna os cidadãos conscientes dos seus direitos e o adequa ao Império da Lei, o faz rejeitar na lei baseada nos costumes. Somente cidadãos educados podem ser instruídos numa constituição.

O uso utilitário e mercadológico da escola e universidade, consolidados a partir dos anos 90 é um forte exemplo disso. Quem nunca ouviu “Eu pago esta escola, eu quero isso e quero aquilo pro meu filho”. A educação deixa de ser um direito universal, para se tornar um privilégio e relação de consumo (serviço). Nunca houve um movimento partindo da elite e da classe média contra o sucateamento da Escola Pública. Enquanto ela pode pagar a escola, tá tranquilo… A geração de nossos pais, entre 40 e 70 anos, com raras exceções, estudou em colégio público. A privatização da educação enfraqueceu nossa cidadania, repito, transforma o direito a uma boa escola num privilégio de quem tem dinheiro. É a justiça e neutralidade que Mano Brown falou acima.

Todos os países ricos sem exceção tem ensino público de qualidade. Escolas públicas boas inclusive são disputadas por celebridades em cidades mais ricas como Nova Iorque, Paris e Berlim. Universidades públicas também. FHC, representante emblemático das elites estrangerizadoras, estudou em Sorbonne, uma universidade Pública. Enquanto isso, a UFRJ e os professores brasileiros, ele deixou sem aumento e jogada às moscas, sem aumento e com instalações caindo aos pedaços.

Educação é um direito do cidadão, deve ser pública e de qualidade. Pagamos impostos para isso.

5. Nossa Elite rejeita a Democracia Liberal

Folha de São Paulo e a “Ditabranda”

Basta ler nas entrelinhas para entender essa afirmação. Em todos o momentos que a democracia nacional deixou de seguir os interesses oligárquicos e internacionalizantes, a elite se mostrou golpista. Em 1932 foi assim quando São Paulo se rebelou contra o Estado centralizado; em 1951-54 também, contra Vargas, democraticamente eleito e reeleito; em 1964 foi assim contra João Goulart. Até Marechal Lott, um militar republicano, teve de conter os abusos anti-constitucionais da elite. Em vão. Em 1989 foi assim, todo tipo de mentira foi falado contra Lula, preferiram colocar o “caçador de Marajás” a aceitar outra derrota na democracia. Agora em 2010 também está sendo assim, prestes a amargar outra derrota nas urnas a direita elitista incita o ódio, seus arautos proclamam que a democracia está ameaçada e que o monstro PT-PMDB vai dominar a tudo e a todos. Stalin de saias ressurgirá em Dilma. Protejam suas crianças.

A “imparcialidade” dos veículos elitizantes nacionais são constatáveis em casos de clara afronta democrática praticados por ela, dentro da democracia. É sabido que FHC, desde que era ministro de Itamar, utilizou-se da Medida Provisória para governar. As MPs na prática eram decretos reeditáveis, não tão fortes quanto Decretos-Lei da ditadura mas extremamente fortes para o padrão democrático internacional. Esse oba-oba do executivo só acabou quando FHC saiu do poder e tornou a MP fraca e submetida de fato ao congresso, como sempre deveria ter sido. Nesse tempo não teve um só órgão da Impresa elitizante que questionou esse atentado a democracia.

Em outro caso, é explícito o caso do Engavetador Geral de República, Geraldo Brindeiro. A nomeação do Procurador Geral de República deveria ter por base a escolha democrática da Associação Nacional de Procuradores de República, que entrega os 3 mais votados para o cargo, como sugestão ao Presidente. Brindeiro foi nomeado por FHC sucessivas vezes a revelia desta votação. O caso porém, nunca pegou mal para FHC durante seu governo. Arquivar corrupção pode, isso nunca foi chamado de aparelhamento do Estado.

ACM, político da velha guarda.

Nossa elite parlamentar deu outra amostra de sua rejeição a democracia liberal recentemente. Obrigou todos a levarem dois documentos para votar: “é proibido tanto para ricos instruídos quanto para pobres sem instrução levar dois documentos para votar”. A Lei Da Ponte de volta… E outra, mesmo assim, quando o pobre votou em massa na esquerda, no PT e PSB principalmente, a elite desclassificou com argumentos como “está votando em interesse próprio e não em interesse nacional”. Mas vejam, não é o próprio preceito liberal de que “a soma dos interesses individuais vai gerar o bem coletivo”, portanto, votar por interesse próprio é um argumento ideológico liberal-burguês. E nossa elite rejeita.

6. Nossa elite rejeita o Self-made-Man

Parece mentira, mas não é. O próprio cerne do capitalismo moderno é rejeitado em nossa cultura elitizante. Como pode-se afirmar isso? Basta analisar o comportamento das pessoas quando alguém obtém sucesso profissional. É muito comum ouvirmos “é indicação”, “fulano só está ali porque é filho de ciclano”, “ele é apadrinhado de fulano”. Enfim, nepotismo, apadrinhamento, indicação pessoal e laços de proximidade é que fomentam o mercado de trabalho da elite e classe média. Quando alguém consegue um negócio de sucesso é atribuído ou mesmo é fato, que o sucesso foi herdado de uma figura mais poderosa anterior, a hereditariadade. E isso é mais verdade ainda na política, raríssimos são os políticos proeminentes que não herdaram seu legado de uma figura anterior, pai, avô e etc. Aliás, o principal self made-man nacional, atualmente é execrado pela cultura elitizante nacional. Não estou falando de Eike Batista, que enriqueceu graças aos contatos do pai e se tornou um multi-bilionário, estou falando do nosso atual presidente.

Posso estar exagerando, mas Lula é dos mais importantes Self Made-man brasileiros e talvez do mundo contemporâneo. Começou como pobre, analfabeto, torneiro mecânico, virou administrador do sindicato e militante profissional do PT, sendo pouco depois eleito deputado federal por São Paulo, dali amargou 3 derrotas para presidente, sem desistir – marca clássica do Self made-man – até que se tornou presidente da república. Não é a toa que foi dezenas de vezes exaltado no exterior, possui inúmeros admiradores no “velho continente” e nos EUA. Ele fez um governo com boa aprovação, é extremamente respeitado lá fora até o próprio presidente Barack Obama afirmou: “esse é ‘o’ cara”. Sua ascensão e respeito exterior é indiscutível. Porém, nossa elite o execra como o Satanás disfarçado.

São raros os “self made-man” brasileiros, especialmente os exaltados pela mídia elitizante. Não obstante a cultura de tradição é quase onipresente, a capa da Veja acima, não nega.

Breve Conclusão

Se verificarmos que a nossa elite e todos que seguem sua mentalidade (vastos setores da “antiga classe média”), rejeitam “O Império da Lei”, o nacionalismo, o protecionismo, a educação universal, rejeita a democracia liberal pois não sabe perder, rejeita o self made-man, o Estado como consolidador da república e da Lei, enfim, todos os pilares políticos e culturais, fundamentais para o capitalismo. Podemos concluir que nossa elite rejeita o próprio capitalismo, pois não quer ter que pagar o ‘ônus’ de ter abandonado o escravismo de antigo regime e ter entrado no mundo moderno.

A elite brasileira quer ser eternamente subdesenvolvida e concentradora de renda, exatamente como sempre foi. Quer viajar a Paris e a Nova Iorque para estudar e voltar e ter cargo público ou político para mandar neste bando de incivilizados que temos aqui. Prefere servir o primeiro e reinar o terceiro do que aceitar o desenvolvimento.

A elite é de mentalidade nobre, nunca vai aceitar o capitalismo e o desenvolvimento nacional.

Nunca serão!

Manifesto*

Caros amigos*,
Escrevemo-lhes porque algo sinistro desenha-se no 2o turno das eleições, a acontecer dentro de 2 semanas. Nos referimos à vitória, em nossa sociedade, de um obscurantismo que remonta aos tempos pré-republicanos, ao Antigo Regime, à idade média.

Refiro-me, mais precisamente, à vitória de José Serra.

Não consideramos Serra, por si, um agente das trevas, nem do obscurantismo medieval; não dizemos que ele o seja. Porém, infeliz e inaceitavelmente, está se fazendo passar por tal.

Pedimos que acompanhem nosso raciocínio para que possamos nos explicar.

Estamos assistindo, até o momento, a campanha eleitoral de nível mais baixo desde as eleições de Collor em 1989. Naquele ano, pelo menos, muito se discutiu sobre política, dado o grande número de projetos de país e de candidatos, muitos dos quais figuras históricas (para o bem ou para o mal) da política nacional. O baixo nível daquela campanha consistiu na enorme manipulação midiática da imagem dos dois candidatos no 2o turno, Collor (positiva) e Lula (negativa); com direito à famosa edição do debate, realizada pela Rede Globo. O final desta brincadeira, todos já sabemos. O caçador de marajás foi eleito e nosso país pagou muito caro. E tampouco alguém foi preso. Nem no governo, nem na mídia que o havia apoiado.

Foi uma campanha de baixo nível, certamente; discutiu-se, ao menos, política.

Nesta presente campanha eleitoral de 2010, nem sequer política se discute. Nenhum candidato apresentou qualquer plano consistente de governo, qualquer projeto de país. Marina Silva, a boa moça, limitou-se a falar em “desenvolvimento sustentável”, como se o caráter inerentemente maximizador-utilistarista predatório do capitalismo fosse compatível com preservação ambiental. Chegou aos 20% dos votos mais pelo voto evangélico do que pela adesão consciente da classe média urbana. Dilma Rousseff, a (na nossa opinião muito mal escolhida) candidata do Lula, cozinhou a campanha em banho maria, mais preocupada em não errar do que em propor. Tampouco propôs alguma coisa o candidato José Serra, ciente de que seria eleitoralmente massacrado se pretendesse discutir política e economia com a candidata de um governo cujo presidente deixará o cargo para virar mito, entregando o país com 80% de popularidade, 8% de crescimento do PIB e criação recorde de empregos. Queiram ou não admitir, mito, diga-se de passagem, reconhecido por Barack Obama, em sua curta frase, “this is the guy”.

Derrotado de antemão na política e na economia, Serra nada apresentou; sua campanha partiu direto para a boataria, a calúnia, o denuncismo e a difamação; em suma, apelou para a moralidade esotérico-cristã do povo e para a moralidade hipócrita da classe média – aquela mesma que condena nos outros a corrupção que pratica em seu dia a dia, subornando um PM pra não pagar multas, parando na calçada, avançando sinais, que usa drogas recreativamente, não pagando os impostos devidos… etc etc etc. Para não dizer que não apresentou nada: diz que vai aumentar o salário mínimo para 600 reais. Se a proposta fosse da Dilma, seria populismo e irresponsabilidade fiscal.

O apelo de Serra à moralidade do povo vem, até o momento, funcionando. Associou Dilma à corrupção e ao aborto. Na internet, a boataria contra a candidata não tem limites. Assassina de crianças, lésbica, satanista, Dilma já foi tudo.
Diante da fraqueza de seu candidato não-oficial, a grande mídia golpista conseguiu suficientemente inflar a candidatura
Marina para forçar o 2o turno. Tenta, agora, terminar seu trabalho.

A campanha de Serra vem conseguindo, pelos meios mais baixos, mobilizar uma massa difusa de eleitores, composta por gente das origens sociais mais diversas, em nome de um único e vago interesse comum, impedir a vitória de Dilma e do PT.

Como se o governo Lula não tivesse sido um dos economicamente mais conservadores da história desse país, a despeito das piores “previsões” dos apocalípticos profetas da direita conservadora. Para infelicidade de nós socialistas, com Lula, o capitalismo no Brasil parece estar mais próspero e legitimado do que jamais foi. Além de tudo, a burguesia brasileira é mal agradecida.

O fato é que há, no momento, 3 aparelhos de hegemonia profundamente engajados pela campanha de Serra: mídia, elites, Igrejas (no plural, católica + evangélicas). Daí já se desenha a massa difusa que, como afirmamos acima, aglutina-se como provável eleitorado de Serra.

Que a mídia e as elites sejam pró-Serra, não surpreende. Sempre foi assim.

Isso expressa o nojo do povão que sente a burguesia brasileira, das mais exploradoras do mundo – acumula capitais na base do salário mínimo; já o agrobusiness chega mesmo às raias do trabalho escravo. Sua mentalidade de futuro é o país agro-exportador desindustrializado que sempre fomos.

Surpreende, entretanto, que as Igrejas tenham entrado pesadamente nesta disputa eleitoral. O que significa isto para o Brasil?

Dados preliminares do censo 2010 vem indicando que a população que se declara evangélica encontra-se em aproximadamente 25% do total da população brasileira.

Ou seja, tudo indica que 1 a cada 4 brasileiros atualmente é evangélico. Isto num cenário de uma Igreja Católica flagrantemente declinante em número de fiéis, posto que visceralmente aferrada a uma moralidade que se distancia, cada vez mais, dos valores da modernidade liberal (no sentido liberal francês, de costumes).

Não nos posicionamos contra as Igrejas evangélicas pelo fato de serem evangélicas, por sua essência, ainda que, para nós, as religiões constituam, sem dúvida, uma poderosa forma de manipulação político-ideológica, o que não exclui, por outro lado, o desenvolvimento da espiritualidade e mesmo seguir religiões tradicionais).

Julgamos, entretanto, que certas coisas tem que ser ditas. Uma coisa é o evangelismo histórico das Igrejas protestantes com uma proposta de religiosidade e sua visão de mundo correlata – metodismo, batismo, calvinismo, luteranismo etc etc etc. Podemos discordar delas, e discordamos; mas são Igrejas sérias, e tem de ser respeitadas.

Outra coisa é o evangelismo (neo)pentecostal ou, como preferimos dizer, a venda de milagres: Universal, Assembléia de Deus, Renascer em Cristo etc etc etc. Esse evangelismo que avoluma-se na esteira do desamparo sócio-econômico das populações de baixa renda; que avoluma-se na esteira de uma Igreja Católica que parece preferir seu próprio desaparecimento à adaptação de seus dogmas à modernidade liberal burguesa. Esse evangelismo que avoluma-se irresistivelmente e arrasta toda a sociedade para uma onda de conservadorismo de consequências imprevisíveis.
Esse evangelismo que, para nossa grande infelicidade, foi alimentado pelo Presidente Lula, que dele fez poderoso aliado.

Muitos já afirmaram ser impossível uma “ditadura evangélica”, pois acreditam que jamais serão maioria da população.
Também achamos que não serão. Mas não precisam ser.

Que candidato à Presidência da República poderá ser efetivamente eleito dispensando a priori 25% do eleitorado?

Isso traz para a nossa política consequências graves como: a virtual impossibilidade de quaisquer propostas concretas no que tange a questõe sérias como o aborto,o casamento civil entre homossexuais e mesmo a completa libertação da mulher.

Como é típico do pensamento cristão, profundamente idealista, o mundo como ele se apresenta é rejeitado; que todos se moldem às vontades (intangíveis) do Senhor, segundo Seu livro, escrito – por seres humanos – há 2000 anos.

Temos então que assistir ao Estado que se diz liberal democrático vetar o pleno exercício da cidadania a certos indivíduos em função de sua opção sexual.  Ou então, criminalizar a mulher que decide os rumos de sua própria vida, muitas vezes com pesada carga de sofrimento físico e emocional.

Isso porque o Estado é laico. Em que medida pode o Estado ser laico quando o eleitorado não o é?

Como consequência, temos essa política cimentada, na qual o candidato não possui convicções; molda-se ao gosto do cliente.

Por isso defendemos que as instituições liberais em que vivemos são e só podem ser, em última instância, um mercado de voto.

A isto os teóricos liberais elitistas chamam “democracia”.

Da mesma forma que nomeia “imprensa livre” a liberdade de tornar público o que lhe interessa e ocultar o resto.

A possível vitória de José Serra anuncia a vitória dos conservadorismos de todas as espécies. Conservadorismos que são, em certos aspectos, até conflitantes.

Enquanto conservadorismos ambos são, entretanto, extremistas.

Um representa o extremismo do indivíduo egoísta, dos mercados impessoais, maximizadores-utilitaristas.

O outro representa o extremismo dos dogmas supostamente divinos.

No primeiro, nos submetemos à liberdade do rico; no segundo, à palavra do pastor.

Em nenhum deles somos plenos enquanto seres humanos.

Caso ocorra, a vitória de Serra será a vitória do conservadorismo neo-liberal anti-popular das elites que se enojam com a mínima perspectiva de um poder voltado às classes baixas, mesmo que suas finanças e negócios tenham prosperado como nunca.

Será a vitória do conservadorismo anti-modernidade do dogmatismo religioso, que pretende lançar o país – e todos nós, se um dia tiverem poder para tal – numa onda de obscurantismo que remonta a tempos medievais. Os mesmos que em alguns estados dos EUA, conseguiu implantar o criacionismo e jogar a ciência pelo buraco.

Na sanha do poder a qualquer custo, o candidato Serra surfa nesta onda, fazendo-se passar pelo cristão que nunca foi, tornando-se o incorruptível baluarte da moralidade, da ética e dos bons costumes. Este indivíduo não tem o direito de fazer o que está fazendo. Nem consigo próprio, pela rica história que tem; nem com o Brasil.

Por esta razão, defendemos o voto em Dilma Rousseff. Apesar de todos os pesares, a despeito de todos os problemas da candidata e do PT – um partido tão corrupto quanto todos os outros – consideramos que é a única forma de impedir, mais uma vez, que todas essas forças consigam fazer a roda do nosso Brasil andar para trás.

O nacionalismo deles é o do consumo e dos seus interesses privados; o nacionalismo deles é o da Igreja cheia de fiéis.

O nosso nacionalismo é o do progresso do país que amamos.

Pedimos a vocês que reflitam e que votem pelo mal menor.

Agradecemos a paciência e a atenção.

Equipe Rio Revolta

Arnaldo Gordo; José Livramento; Tila Borges

* Este Manifesto é uma reprodução do email que montamos para nossa lista de contatos.

Antigos Espíritos do Mal

O Serra invocou os Antigos Espíritos do Mal numa última tentativa de se eleger.

Primeiro invocou o grande aparelho midiático, simbolizado pelo espírito de Roberto Marinho. Aquela capa da Veja cantando vitória antes do tempo (já publicamos duas vezes ela, do Serra sorrindo alegremente) também deu o sinal, fazendo valer os 36 milhões que o PSDB-SP paga ao grupo Abril. Também como em 89, a Globo saiu em defesa velada dele (vídeo já clássico) e fez coro nas frequentes referências à “liberdade de imprensa” ameaçada que pipocam em todos os outros jornais. Lula aliás, rei das frases ruins, também fez o favor de botar lenha na própria fogueira, quando disse, durante um comício que “a opinião pública somos nós”. Se ele quis dizer que é o “povo nas ruas, num comício, é a opinião pública” é até compreensível, mas foi muito mal formulado e imperdoável no momento em que vivemos. O Espírito do Mal agradece.

Depois, nessa mesma onda, Serra invocou o Lacerda. O lacerdismo udenista voltou e a mídia ressucitou jargões mortos desde 54 como “perigo vermelho”, “soviéticos”, “aparelhamento do estado”, “ditadura de partido-único”, tudo resumindo o lema: “Ela não pode ser candidata. Se o for, não pode vencer as eleições. Se as vencer, não pode tomar posse no cargo. Se tomar, não pode governar!”. Parece que o próprio Prestes estava concorrendo contra o PSDB. Em 89 isso aconteceu também, mas foi um pouco diferente, o PT era um partido “desconhecido intelectualmente”, radical, fruto do ativismo sindical, a URSS não tinha caído ainda, o discurso anti-comunista era natural. E o final também não foi bom.

 

Serra aceitou Jesus.

Serra aceitou Jesus.

 

Então, na última esperança de fortalecer sua candidatura decadente, Serra acometeu-se do mais rasteiro oportunismo e abraçou a posição cristã, fundamentalizou-se e esvaziou o já esvaziado discurso político destas eleições. Invocou a moralidade e os bons costumes. Esse Antigo Espírito do Mal, veio representado nos bispos da CNBB paulistana, no TFP (Tradição, Família e Propriedade), como disse em outro texto: aqueles fascistas que inspirados em Franco, generalíssimo espanhol, apoiaram a nossa ditadura e benzeram os generais diversas vezes. Por fim, mas não menos importante, o bolo da cereja religiosa que Serra invocou: Pastor Silas Malafaias, da Assembléia de Deus. Para o qual Serra é “ungido por Deus e acima dos partidos e das disputas políticas, que deve governar com pulso forte e salvar o Brasil do mal”. Qualquer um que pegar um livro de história sabe que este foi exatamente o discurso da Igreja Católica para apoiar o fascismo de Mussolini, Franco, Salazar e até de Hitler no seu tempo.

[Adendo]

Hoje (dia 18 de Outubro), descobri que outro Espírito do Mal foi invocado em defesa do Serra: Plínio Salgado. Para quem não conhece, Plínio Salgado foi o presidente e fundador do Integralismo brasileiro, literalmente, o fascismo brasileiro, aqueles caras que erguiam o braço ‘a lá’ nazistas e diziam “Anauê”. Esta nobre (no sentido mais pejorativo possível) entidade, imprimiu panfletos apócrifos, se passando pela Igreja Católica, difamando a candidata do PT, gastaram fortunas (foram mais de 2 milhões de panfletos) e rapidamente foram desmascarados. Mentira tem perna curta e o negócio pegou mal demais.

[fim do Adendo: dia 18/10, 12:01]

Este eixo ultra-conservador só poderia se aliar ao único Espírito do Mal ainda vivo: o feudalismo -ops- ruralismo do Democratas (sic), o antigo PFL, o partido da “situação” da Ditadura. Dos barões que dominam o agro-negócio, outro  eufemismo para latifúndio agro-exportador (segundo muitos “economistas”: exportação deste tipo é a “vocação natural brasileira”, leia-se: subserviência às metrópoles). Os ruralistas através de seu forte patrocínio ao aparato midiático arraigou a idéia na classe média “pensante” de que “Reforma agrária é coisa de comunista”. Qualquer livro de história vai dizer que Inglaterra fez reforma agrária, EUA fizeram reforma agrária (aliás, nasceram fruto dela), Japão fez reforma agrária – aliás, quem fez a reforma agrária japonesa foram os EUA e nos anos 50! -; França fez reforma agrária, Alemanha fez reforma agrária. Como podem ver, só países comunistas subdesenvolvidos fizeram reforma agrária… Já disse isso antes: nossa elite é tão retrógrada que rejeita o próprio capitalismo, vivemos no Antigo Regime. Viva Brasília, Versalhes Tupiniquim. Não é a toa que Serra teve vitória expressiva onde o agro-negócio flui, os coronéis modernos mudaram de lugar, como disse alguém um tempo atrás: “mudam-se as estruturas, mas o fantasma das idéias persiste”.

Divaguei um pouco, mas volto ao assunto.

É sabido que políticos são demagogos, falam isso e ‘desfalam’ aquilo, fazem alianças mil para se candidatar. Oportunismo é comum e sempre será. No entanto, é a primeira vez que vejo no Brasil um candidato a presidência “aceitar Jesus” para ganhar votos, mudando toda a sua campanha para uma posição perigosa. Serra se converteu em Anthony Garotinho. Antes fosse um cristão sincero que o último parece ser, pois nunca escondeu que era evangélico e sempre dos evangélicos dependeram seus votos (tanto que se elegeu aqui no Rio, mesmo com a sabida Ficha Suja). Mas Serra foi muito baixo neste golpe e, pode ter dado um tiro no pé.

Há uns meses atrás, aqui neste mesmo blog, disse que o fascismo estava ganhando uma nova cara, mas errei em uma consideração, falei que “o discurso anti-comunista explícito, […]defesa da ordem e de uma família ideal, idílica, que jamais existiu ou existirá […] estava acabado. Parece que não. Pouco depois que disse isso os neofascistas do Tea Party americano deram as caras contra Obama e o ‘perigo socialista’ nos EUA (risadas ao fundo). E por aqui, Serra foi convertido em paladino evangelizador a erguer sua espada Moralidade contra o perigo vermelho. O próprio Cavaleiro Andante.

 

Bush: Verdadeiramente Pro-Vida

 

Nesse sentido, nossa campanha deste ano foi semelhante em muitos aspectos à de Obama. De um lado o canditado “pro-vida”, do outro o “socialista” Obama. Por lá a campanha difamação do atual presidente foi tão grande que 20% dos americanos acham que ele é muçulmano, muitos outros acham que ele ele é comunista, chegaram a fazer montagens insinuando que Obama era Osama bin Laden e etc… Até nisso estamos nos americanizando, importamos o obscurantismo evangélico americano. Aquele que divulga proíbe Darwin e rejeita o sexo com camisinha (“anti-natural”). As Américas estão querendo buscar a Idade Média que nunca tiveram.

Ao desenterrar estes Antigos Espíritos do Mal, Serra se tornou uma espécie de Mumm-Ra. “Transformem esta forma decadente em…”

Mumm-Ra queria vida eterna. Mas o que quer e acredita José Serra? Eu não sei por que seu partido sequer entregou um programa para o Tribunal Superior Eleitoral. Mas disse outro sujeito muito tempo atrás: “Diga-me com quem andas que te direi quem és”.

José Livramento

Quem tem medo do Lobo Mal

O comunismo de Lula.

A radicalização desta eleição parece ter criado um fenômeno muito interessante: a direita brasileira voltou a mostrar todo o seu ranço colonial, obscurantista, retrógrado e conservador. O lobo mal saiu da toca para caçar novamente.

Voltaram discussões sobre a inteligência do povo ao votar, procurando evidentemente invalidar o seu voto; buscaram burocratizar a escolha popular através dos multiplos documentos para votar (algo que claramente tende a prejudicar os mais humildes, que hoje não votam em uníssono com a direita). Resgataram a TFP (Tradição Família e Propriedade) do seu ostracismo e irrelevância de décadas; a “Marcha pela Família” também voltou à moda, a mesma que levou mães conservadoras a combater o “comunismo” do rico fazendeiro João Goulart em passeatas nas ruas também. Também surgiram pérolas de líderes da direita contra os homossexuais e por fim, o impensável surgiu numa discussão de debate sobre o país: politizaram a questão do aborto. Novamente, me sinto em 1954, só que desta vez os militares não foram convidados para a “festa da democracia”, ou assim esperamos. Quanta relevância para o destino econômico-político do país de 190 milhões de pessoas.

O PSDB que já foi um partido progressista e de quadros importantes na redemocratização de nossa terra parece ter sido engolido pelo ranço colonial do “Democratas” (sic). Seu discurso saiu da centro-direita ultra-liberal, para a extrema-direita ultra-conservadora em um piscar de olhos. Enterraram seus pensadores Hayek, Friedman, Roberto Campos e o próprio FHC, num obscuro discurso de ataques ao “perigo vermelho” e exaltação de valores familiares irrelevantes para política de estado. Depois alguns acharam que estávamos exagerando ao chamar isso de neo-udenismo. UDN tá aí, firme e forte.

Parece que a direita brasileira, de tão retrógrada, não aprendeu a perder na democracia. Ela é, como dissemos e reafirmamos: golpista. Depois de perder pro Jango, perder pro Lula e agora parece perder para a Dilma, todos trabalhistas de centro-esquerda, apelam para os mais baixos e superficiais argumentos para a discussão política, incitando inclusive argumentos beirando o golpe. Transformam o debate eleitoral numa conversa de esquina entre a donas-de-casa dos anos 50. Partem, apoiados por setores comprados da mídia [parece que só o Rio Revolta está surpreso que o grupo midiático da Veja recebeu 36 milhões de reais do governo Serra nos últimos dois anos??], a direita partiu para ataques pessoais e morais em questões completamente irrelevantes para o destino do país. Já dizia um professor meu: quanto mais irrelevante o assunto para o país, mais atenção terá na mídia… Talvez agora tenham exagerado, aborto se tornou uma questão de Estado. Reflete bem nosso nível cultural.

O mais incrível é ver a classe média embarcar nesta onda. Cometem o mesmo erro que fizeram contra Vargas. Se este foi o “Pai dos Pobres”, também foi, como disseram, a “Mãe dos Ricos”. Por mais que o PT tenha desmantelado a esquerda brasileira, cooptado sindicatos, esvaziado a discussão por reformas mais radicais, o seu governo foi ótimo para a classe média e ricos, só não agradou muito ricos, que se fosse por eles, a escravidão seria o tipo ideal de economia e o parlamentarismo dinástico o tipo ideal de governo, com voto censitário claro. Reiterando, por mais que tenha feito tudo isso, é inegável e os números de DIEESE, IBGE, FGV e todos os centros de estatística nacionais e internacionais mostraram, há uma evidente melhora em todos os nívels econômicos brasileiros. Assim, gostaria de saber do que tem medo a classe média? Quem tem medo do Lobo Mal?

Lula não fez reforma agrária, não estatizou empresas – até privatizou algumas rodoviais -, não fechou igrejas, não taxou remessa de lucros,  não diminuiu os juros, se quer teve algum programa político de viéis socialista. No entanto, a classe média adorou rejeitá-lo em apoio ao PSDB. Aquele partido que prega a desintegração do Estado, quase que num anarco-capitalismo brasileiro. Talvez a classe média esqueça isso na hora de fazer todos os concursos públicos possíveis e exaltar – na prática e não no discurso – os milhares de empregos públicos e isenções fiscais que o governo Lula criou, ou ainda as vagas universitárias públicas que sempre domina. O Estado no deles é refresco, e muito. É amor/ódio, ataca o Estado sempre que pode, mas adora um emprego público e uma vaga federal.

Por sua vez, a indústria nacional, o que teme em Dilma? O PT tem apoio de grandes industriais (o próprio vice de Lula). O PT criou estaleiros que estavam fechados há décadas para fortalecer a indústria nacional; reduziu IPI e fortaleceu fortemente o setor automobilístico e de construção civil. Nunca se construiu tanto quanto nestes últimos cinco ou seis anos. Não sei que perigo eles vêem. Trabalhismo sempre foi bom para o setor industrial. Roosevelt salvou a economia dos EUA assim, a Coréia do Sul se tornou o que é por forte política nacionalista e trabalhista. O índices econômicos da indústria são os melhores desde o Milagre econômico da ditadura. E ainda assim, há uma rejeição ao PT.

E o pior, o setor financeiro também vai muito bem obrigado, a Bolsa de São Paulo bate recorde atrás de recorde, e a capitalização da Petrobrás foi um sucesso, apesar dos boicotes internacionais. Especulação e juros altos continuam numa boa. Lula não taxou movimentações financeiras, não taxou remessa de lucros ao exterior (o que dizem derrubou Goulart). Muitos do setor financeiro aliás, vêem no PT a certeza da continuação deste oba oba.

E mais curioso ainda é ver os militares se posicionarem anti-Dilma e PT, favorecendo Serra. Quem desmantelou o nosso exército, achatou seus salários e esvaziou qualquer poder que eles tinham foi exatamente o PSDB, no governo FHC. O exército nunca foi tão fraco quanto do meio pro final de FHC. O PT por sua vez fortaleceu a aviação com novos caças, aumentou o orçamento e estabeleceu metas de reconstrução para o exército, ainda que na defensiva. E, como disse, ainda assim o rejeitam maciçamente.

Por fim, qualquer estatística econômica, social e política – coisas que os neoliberais economicistas adoram usar – está ao lado do PT em seus oito anos de governo. Todos os setores da sociedade viram evidentes melhoras em sua qualidade de vida. Nossa população pobre estava tão largada que uma mera ajuda de custo de R$200 reais – algo que não faz ninguém abandonar o emprego – tirou 28 milhões de pessoas da miséria completa. Porra… perdoe a palavra. R$200 reais! Esse é o salário que a classe média sonha em pagar a sua ‘empregada’.

Sem qualquer embasamento em números e constatações da realidade para atacar o atual governo, é natural então que – exatamente como nos anos 50 – a direita se refugie no discurso da corrupção e da moralidade. Chamem as Mães Conservadoras pois não terão outra forma de atacar o governo. Invoquem o aborto, o perigo vermelho, filhos fora do casamento, lésbicas, gays e afins… Os vermelhos não podem governar!

Nós do Rio Revolta temos certeza de que Lula e o PT não fazem uma “revolução branca”, uma guerra de posição ao estilo gramsciano, como muitos na esquerda acreditam. Não nos iludimos, PT não é revolucionário, é um partido trabalhista, pelego em muitos aspectos, mas ainda assim nacionalista e não-entreguista, não é palanque de venda de nosso patrimônio. A única coisa que Rio Revolta concorda com Veja foi quando esta disse que o “PT é Cor de Rosa”, na ocasião se referindo a Marta Suplicy… O PT não é vermelho, é rosa. Trabalhismo pelego e muito superficial, mas ainda assim trabalhismo, algo que este país precisa e muito.

Apesar de todos os dados estatísticos e práticos ao seu lado o PT ainda é rejeitado pela classe média e elite. A classe média que circula correntes reclamando que o povo não sabe votar não conseguiu gerar uma explicação embasada para votar a favor daqueles que achataram a classe média, arroxaram os salários, estagnaram a economia e venderam metade do país. As principais justificativas derivam de acusações personalistas e julgamentos morais de valor, isto é, preconceito. Isso vindo de pessoas que até ontem diziam que o pobre votava mal pois era personalista e não interessado em projetos de governo e dados econômicos e sociais. Como disse, Hayek, Campos e FHC foram enterrados em preconceito e ranço anti-popular.

Como dissemos antes, RR vota com o PT nesta eleição. Muito mais como um voto anti-neoliberal do que por qualquer alinhamento ou crença ideológica com os Petistas. Derrotar a direita é muito mais importante do que nossas sérias e profundas divergências com o trabalhismo petista. Basta olhar para o outro lado, vender tudo que levamos 500 anos para construir não é projeto de governo. Não se pode escolher líderes que tenham por princípio de governo sua própria ausência da sociedade e mercado. Governar é intervir.

José Livramento