Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: setembro 2010

Deformadores de Opinião (Parte 2)

O complemento ao texto de ontem ficou muito grande e o converti e reformatei em um novo texto.

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Ao fim do post ontem, alguém poderia se perguntar “por que então, não votar na Marina, no Plínio ou em qualquer outro partido para presidente? Se o intuito é extirpar as forças retrógradas para fortalecer a democracia, não daria no mesmo?”

A resposta é simples.

Marina Silva e o PV jogaram seu passado no lixo nas recentes alianças dos últimos anos com forças ultra-conservadoras e neoliberais, na contramão da política do mundo. Nós criticamos o PV e a onda ‘verde’ em posts anteriores. Se o PV ainda se tinha alguma ponta de progressismo, as declarações de Gabeira e alianças do partido, terminaram com qualquer dúvida do conservadorismo de suas opiniões. Além disso, o voto em Marina Silva coloca o José Serra no segundo turno, é o cenário perfeito para o jogo da direita. Não satisfaz a candidatura dela ou mesmo suas perspectivas políticas, seu status vai continuar – como sempre foi – de uma candidata periférica, de um partido periférico.

Votar na Marina dará mais um mês e meio da Imprensa tipo mcarthista de lutar contra o ‘perigo vermelho’ (sic), ignorando completamente a realidade brasileira, vomitando sua posição anti-popular e anti-nacionalista.

Quanto ao PSOL, PCB, PCO e PSTU, os outros partidos com candidatos a presidência, todos – sem exceção – da esquerda socialista mais ou menos radicalizada, sofrem de um problema fundamental: democracia liberal não foi feita para partidos radicais de esquerda. Essa discussão vem no interior da esquerda há mais de 150 anos. Partidos atomizados e sectários da esquerda radical não quiseram, ou puderam notar que nunca se mostrarão como alternativa viável dentro do processo eleitoral liberal locke-hobbesiano. Não existe um único caso de partido de esquerda chegar ao poder pelas urnas e conseguir implementar mudanças radicais. Mudanças radicais não combinam com democracia. Democracia Liberal é por excelência um processo conservador.

O evidente desapontamento e desilusão da população frente ao voto liberal-democrático, no Brasil e no mundo, enfatizam a percepção popular do aspecto conservador, elitizado e “nobiliárquico” dos parlamentares escolhidos, sempre em consonância com o poder dominante – qualquer que seja. Neste sentido o PMDB aparece como “tipo-ideal” de partido democrático-liberal, ele “apoiaria Satã se a candidatura fosse viável”. Soma-se isso à natureza fisiológica de qualquer poder volátil, que pretende continuar no poder, levando a frequente taxação – em todo mundo – de que na política “só tem corruptos e lobbistas”. E ainda, coloquemos a opinião quase generalizada entre inúmeros estudiosos da democracia no século XXI,  da evidente falta de representatividade e legitimidade popular efetiva no processo democrático locke-hobbesiano. Esse caldeirão todo somado, apenas reforçam que a via eleitoral não é o principal caminho de partidos radicais de esquerda (nem mesmo dos radicais de direita).

Desta maneira, estes pequeninos partidos radicais acabam por corroborar o sistema eleitoral que por natureza inviabiliza suas candidaturas, tentando pois capturar migalhas parlamentares para esbravejar para as paredes do parlamento, caso eleitos. Caso clássico da Social Democracia alemã nos anos 1920. Sua viabilidade como lideranças nacionais efetivas é nula, pois toda vez que a esquerda radical chega ao poder as forças direitistas divergentes se unem e espantam o “mal-vermelho da democracia”. Sobre uma candidatura viável da esquerda radical parafraseio Lacerda: Ela não pode ser candidata. Se o for, não pode vencer as eleições. Se as vencer, não pode tomar posse no cargo. Se tomar, não pode governar!

Daí a natureza golpista da direita toda vez que a democracia deixa de ser conservadora.

Assim, portanto, votar em qualquer outro partido e não no que realmente pode significar uma expressiva derrota da direita conservadora, mesmo que dando vitória a uma esquerda fisiológica,  mas ainda assim progressista, é fazer o jogo claro da direita.  O importante atualmente é derrotar maciçamente a direita e seus arautos na grande imprensa.

Não se iludam. Não foi por acaso que recentemente, diante da garantida derrota de Serra que a direita começou a usar Marina Silva como base de manobra de sua chapa anti-petista para tirar a vitória do Primeiro Turno e  forçar mais um mês e meio. Não é incomum encontrarmos opiniões dentro e fora do círculo conservador (especialmente fora de São Paulo) subitamente apoiando a candidata “verde”, sendo citada e elogiada por blogueiros e colunistas engajados (sic). Vale lembrar que Marina Silva foi colunista da Folha de São Paulo, aquele jornal que fala da “Ditabranda de 64” e que, segundo Paulo Henrique Amorim, emprestava carros para torturadores no mesmo “governo brando”.

Para a direita, distribuir oxigênio é melhor que distribuir renda; salvar o círculo polar ártico é melhor que salvar o círculo da miséria; abraçar a natureza é melhor que abraçar a pobreza.


A classe média adora, só esqueceram de contar a ela que Marina Silva é evangélica da Assembléia de Deus. Como irão convocar a turma católica do Pátria, Família e Propriedade e da Marcha pela Democracia desta forma…

José Livramento (Rio Revolta)

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Deformadores de Opinião

 

Globo e a Democracia

Globo defendendo a "democracia" em 2 de Abril de 1964

 

Rio Revolta retorna de seu longo período de quase um mês sem textos, para defender a nossa democracia. Não porque acreditamos que a democracia liberal locke-hobbesiana seja a organização perfeita da sociedade, inclusive falamos de como – no caso brasileiro – o nosso parlamento se configura apenas como uma nova nobreza no poder e Brasília, nossa Versalhes (leia aqui). Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínimo público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.

Porém, em alguns momentos, este jogo de interesses calha de ser progressista. Em alguns casos também, vale notar, a pressão popular nas ruas ou através de abaixo-assinados (caso brasileiro) levanta questões de alta relevância popular dentro do parlamento, no entanto, como o Ficha Limpa, a votação de origem popular pode terminar num insuspeito “empate”, adiando a decisão para depois da eleição. Favorecendo assim,  candidatos-bandidos que com poderosos advogados e “bons nobres” aliados no judiciário, conseguem se manter eleitos, mesmo com a ficha corrida que faria Al Capone se apequenar.

Por que estamos falando de democracia, afinal? E por que estamos a defendê-la, mesmo após estas duras críticas que já fizemos e continuaremos a fazer? Por que estamos preocupados se em nossa análise das eleições, vários meses atrás, recomendamos o voto nulo? A resposta é simples. Para nossa surpresa, diante da evidente derrota de seu candidato, a direita brasileira mostrou uma face assustadora muito rapidamente, pegou a todos de supetão e radicalizou a discussão política brasileira de um modo que não se via há um bom tempo.

Através de seu aparelho midiático fortíssimo, encabeçado por Veja (que nós batemos aqui), Folha de São Paulo, Rede Globo, Estado de São Paulo (esse ao menos teve a dignidade, aos 43 minutos do segundo tempo, de admitir que defende Serra), a direita mostrou-se extremamente irritada e violenta, vomitando todo tipo de argumentos contra o presidente e sua candidata, que vai vencer fácil. Esta irritação da direita se mostrou extremamente semelhante com a que apareceu nos anos 50 tentando derrubar Vargas e dez anos depois, conseguiu derrubar João Goulart, eleito pelo voto do povo.  Daí nasce a preocupação.

Lendo os editoriais atuais da Folha de São Paulo, do Globo, do Estadão e muitos outros, é impossível não fazer paralelo com a campanha de Lacerda nos anos 50. A capa do Globo que colocamos na introdução mostra muito bem este assustador viés golpista. As palavras são as mesmas, se pegar um texto anti-goulart publicado no Globo em 1964 e só trocar João Goulart por Dilma Roussef ou Lula, teremos um texto novíssimo, pronto para as prensas.

 

Veja e Serra

Veja e sua imparcialidade

 

A Veja por sua vez se tornou um periódico sensacionalista em que nem as capas tem mais o apuro técnico que um dia teve, com aquela célebre – e patética – foto de José Serra quando a soberba já dizia “Serra e o Brasil pós-Lula”. O futebol já nos ensinou que soberba e salto-alto não ganha jogo, ainda mais com um jogador sem carisma e impopular.

Se fosse apenas o velho jogo da “democracia” de um lado criticando o outro, denúncias de corrupção maior ou menor, não estaríamos surpresos. Mas quando a direita raivosa, através de seus arautos, começa a deslegitimar o voto popular, utilizar de “intelectuais” (as aspas seriam maiores se pudesse) como Caetano Veloso e Arnaldo Jabor, alegando que Lula quer venezuelar a democracia brasileira, que em breve os “soviéticos” (palavra do Jabor) irão dominar o Estado brasileiro que a “Democracia está ameçada” (palavras do Globo pouco antes de derrubado Jango) ou ainda, nas palavras também de Jabor: “si vis pacem parabellum” (se queres paz, prepara-te para a guerra), moto fascista nos anos 30. Ainda temos a Folha se utilizando de um ladrão de carga, falsificador de dinheiro, três vezes condenado, como fonte idônea de acusações contra o governo, tentando criar um mar-de-lama exatamente como udenismo fez com Vargas, para legitimar o golpe que viria depois.

Recordar é viver pois não esquecemos que Globo apoiou a ditadura militar, que a Folha de São Paulo emprestava seus carros para torturadores e enriqueceu brutalmente com favores dos “democratas de 1964-85”. A Veja por sua vez, comandada pelo nobre Roberto Civita, tinha Mino Carta – claramente anti-ditadura – como editor, mas após alguns anos de censuras e precisando de dinheiro do governo, Civita demitiu Carta (o governo não iria dar dinheiro para uma publicação com tal sujeito “difamador” na edição) e a Veja pôde atuar com mais liberdade dentro da ditadura, publicando pérolas como “Encontrado Monstro do Lago Ness” (1975) e o boi geneticamente misturado com um tomate (1983). Apuro jornalístico nunca foi o forte da revista.

As semelhanças entre o udenismo antigo e o novo não páram por aí. Da mesma maneira que em 60, estes veículos chamam a classe média para uma “marcha pela democracia”, contra o “perigo vermelho”, reune intelectuais de nome e de berço para fazer coro com seus ideais anti-democráticos. Dá vontade de rir quando se referem ao PT como perigo vermelho… Não é perigoso nem vermelho. Talvez seja perigoso para o Democratas (sic), aquele partido que sempre foi contra a democracia, e para o PSDB, aquele partido da nobreza que queria acabar com o voto direto e colocar um parlamentarismo no Brasil, mas que no poder governou por decreto-lei, vulgarmente chamado de “Medida Provisória”. Mas a direita “democrática” brasileira é curiosa, faz debate pela democracia no Clube Militar, que arquitetou a ditadura, ela só defende a democracia quando está ganhando, quando perde acusa os vitoriosos de “hipnotizar a população” e de instaurar uma ditadura soviética. Engraçado que até agora ninguém comparou Dilma a Stálin, citaram Hitler e Mussolini, mas não Stálin. Curioso.

A venezualização que supostamente Lula quer para a democracia brasileira é muito curiosa. Hoje a Venezuela tem mais canais públicos e rádios livres de controle do governo do que o Brasil. Na Venezuela o voto é facultativo e ainda assim, nas últimas eleições legislativas, a participação da população votante foi imensamente maior que a média das democracias ocidentais com voto facultativo, chengando a 67% (vale lembrar que na nossa última eleição obrigatória, apenas 81% compareceu as urnas). A urna eletrônica venezuelana imprime o seu voto, que pode ser visualmente confirmado e colocado numa urna e serve para recontagem e confirmação. Por aqui, o caudilho Chavez foi chamado de ditador quando emplacou a lei da reeleição, mas quem fez semelhante lei aqui no Brasil foi FHC. Na Venezuela, todos os canais de tv que até hoje a mídia nacional diz que foram fechados já voltaram a ativa há um bom tempo, exceto um, que não quis se adequar as novas leis de rádio-difusão. Aliás, a nossa lei de rádio-difusão é de 1961, altamente defasada. Nenhum país sério do mundo tem uma legislação de imprensa tão desregulada quanto a nossa. Publicar mentiras em capa de revista e depois se corrigir em notas de rodapé, ou criar um mal-estar e mobilizar a opinião pública, influenciando juris em julgamentos ainda em andamento (crime grave nos EUA por exemplo, que pode inclusive invalidar ações judiciais); este tipo de publicação é um crime em todas as democracias do mundo, rende processos milionários. Regular este tipo de crime editorial é por aqui taxado de censura. Rio Revolta defende o direito à palavra universal, mesmo para o Arnaldo Jabor (que calado é um poeta), mas se publicou a história como fato e não como opinião, tem que provar – e não somente com a palavra honrosa de ladrões de carga e falsificadores.

O neo-golpismo reside não nas críticas que a grande imprensa faz sistematicamente contra o governo. Sempre fez isso e tem direito de fazê-lo. O neo-udenismo dela está em deslegitimar o voto popular (hipnotização do povo; a população não sabe votar, marcha para defender a ‘democracia ameaçada’…), deslegitimar a estrutura de poder (acusar o governo – sem qualquer evidência – de instaurar uma ditadura soviética no país), deslegitimar candidaturas aprovadas e investigadas pelo TSE tentando convocar a candidata do governo para depor no Senado sem qualquer prova, simplesmente para “se explicar” (se explicar de que?), buscando invalidar sua candidatura numa tentativa de instaurar um clima de mar-de-lama vinculando toda e qualquer ação corrupta (comprovada ou não) à candidata do governo, justificando sua derrubada. Aí reside o golpismo.

É por estas razões que Rio Revolta se coloca em defesa da democracia. Se a democracia liberal é ruim, a ditadura liberal é muito pior.Vale o que o povo votar. E para enfatizar que não somos cínicos ou obtusos, Rio Revolta, assim como Lula, também quer extirpar os ditadores do Democratas e os neovendilhões, quer dizer neoliberais, do PSDB da política nacional. Rio Revolta também quer ver a derrota da Veja para o qual o “capitalismo é o regime mais justo já criado pela humanidade”, da Folha e a sua “ditabranda”, da Globo e sua “defesa da Democracia” de 1964. Por estas razões é que conjunturalmente, Rio Revolta votará com o Lula. Vamos extirpar este câncer da democracia nacional.

J. L. (Rio Revolta)

EDITADO: veja a continuação deste texto aqui .