Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Do Fordismo ao Toyotismo: o futuro da Indústria Musical

ChaplinO modo de produção da indústria musical está mudando. Ao contrário do que muitos pensam, a indústria não está ruindo, apenas alterando o seu modo de negócio e fabricação. Como muitos economistas e analistas já teorizaram, toda vez que há uma mudança estrutural em algum setor industrial surge, fundamentalmente, uma crise. Quando Taylor e Ford surgiram com suas respectivas idéias de organização de produção, a indústria mudou bastante. Primeiro em suas áreas (indústria automobilística), depois todos os setores industriais seguiram seu caminho. A ascensão e apogeu ocorreram entre 30-70, a Era do Consumo de Massa, mas ainda hoje muitos setores industriais seguem este modelo.

Apenas para ter certeza do que estamos falando e fazendo as coisas ainda mais suscintas:

Taylorismo é a administração científica da produção, em essência, suas características são a alta divisão do trabalho, estudo complexo do papel de cada tarefa na cadeia produtiva. Esta intimamente relacionado ao fordismo.

Fordismo é a produção em linhas de montagem. Caracteriza-se por alta padronização dos produtos, alta divisão do trabalho em tarefas específicas e repetitivas, portanto, baixa necessidade de mão de obra qualificada. O fordismo é simbiótico ao taylorismo pois são complementares, necessita do estudo complexo de cada tarefa na cadeia produtiva e alta divisão do trabalho.

Então, dos anos 70 aos 90, essa forma ‘clássica’ de organização industrial viu seu declínio gradual, até que um modo muito mais eficiente tomou seu lugar. Estou falando do toyotismo, ou produção “em demanda”. Simplificadamente se caracteriza por “construir o produto somente após a venda ser feita”, inverte a relação de mercado tradicional. A compra/encomenda é feita e alguns dias ou semanas depois, o produto está pronto e entregue.

Mas o que isso muda na  prática? Isso cria um modo economicamente mais eficiente de produzir, elimina a necessidade de grandes estoques (especialmente de produtos finalizados), elimina a grande parte do risco e tem pouco ou nenhuma perda de material/produtos prontos. Faz isso principalmente porque a venda ocorreu antes do produto existir. Foi esse o motivo que levou o crescimento das companias automobilísticas orientais nos 90s, mais barato e mais eficiente.
Mas que diabos isso tem a ver com a indústria musical?!

Nós podemos considerar que o atual modelo de organização da indústria musical é o modelo fordista. A grosso modo, a indústria musical está acostumada a lançar toneladas de cópias de seus produtos no mercado na “esperança” de que as vendas irão pagar os custos e gerar lucro. É por isso que a música volta e meia sofre com superprodução e excesso de estoque. Quando superprodução encontra uma situação de sub-consumo, nós temos uma crise forte.

Para onde a Indústria Musical está indo então?

Neste sentido, afirmo categoricamente, que está mudando do fordismo para o toyotismo. Estamos a caminho de gerar o produto após a venda do produto. Apenas para reforçar em outras palavras, apenas depois de alguém clicar “Comprar” é que as máquinas vão “Prensar a Unidade”. Tecnologia, logística moderna, facilidade de informação e produção altamente automatizada e customizada podem facilmente permitir esta mudança em pouco tempo.

No ramo editorial (de livros) nós já temos algumas empresas trabalhando assim, no ramo musical consigo pensar apenas no CDbaby. Eles fabricam sob demanda, assim que alguem decide comprar alguma obra de seus catálogos, eles começam a fabricar o produto e enviar para qualquer lugar dos EUA (e do mundo). Não é nenhum mistério que este tipo de fabricação “on demand” têm melhores acordos com músicos e selos independentes, eles dizem de maneira transparente quais “seus custos de produção” e os artistas, sabem exatamente quanto têm de cobrar para ter bons retornos financeiros.

Mas o que isso muda no “chão da fábrica” da Indústria Musical?

Bem, isso muda tudo. Até recentemente (especialmente no Brasil), os grandes Selos, entravam com a parte arriscada do negócio. Eles patrocinavam artistas, pagando por todos os custos de produção e lançamento do artista, na esperança de retorno financeiro com as vendas. O produto vinha antes da venda, um clássico modelo fordista de produção, portanto, sujeito as incertezas de um mercado que não podiam controlar, daí sua parcela de risco.

Durante sua história porém, a Indústria Musical, mesmo mantendo o seu sistema fordista de produção, tentou eliminar os riscos (como qualquer outra indústria) e caminhou para a monopolização do setor, para assegurar vendas maiores. Assim adquiriu estúdios nos anos 50-60, se fundiu a companhias de distribuição nos anos 70-80, se fundiu a companhias de radio e tele-difusão nos anos 80-90 e finalmente, mais recentemente, setores de marketing e propaganda nos anos 90-00, criando as superpoderosas “Big Fourque controlam 80% do mercado (no Brasil a parcela é ainda maior se incluirmos a Som Livre).

A parte do risco do empreendimento, isto é, dos gastos com artistas/produção e a esperança de retorno com a sua venda, são a principal, talvez a única, justificação para as absurdas parcelas percentuais de Copyrights (direitos autorais) que os Selos levam do produto final. E é aqui que tudo muda para o “chão da fábrica” (músicos, produtores, masterizadores e outros): se a parte do risco foi eliminada, o álbum é produzido depois da venda, como justificar os altíssimos percentuais de venda das gravadoras? Essa pergunta não é retórica.

José Livramento

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5 Respostas para “Do Fordismo ao Toyotismo: o futuro da Indústria Musical

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  2. Antonio 19 de julho de 2010 às 2:24

    Fala CJay! Resumindo seu texto, o futuro é on demand! Faz sentido, mas esse papo dá muito pano para manga! Como economista, você sabe a infinidade de variáveis envolvidas. E uma das faces mais específicas da música, é a relação entre artista e público. Hoje possível…pra mim todo futuro vem daí. Dessa relação entre público e artista, Cada vez mais direta e variada. O CD é só uma mídia ruim e ultrapassada. A pergunta é, quais mídias, suportes, canais que vão substituir o modelo de receita na música. O modelo morto era muito simplista, hoje é sofisticado e em construção.
    Abs e vamos debater isso!

  3. Pingback: Do fordismo ao Toyotismo parte 2 « Rio Revolta !

  4. LETICIA 17 de setembro de 2010 às 15:10

    MUITO BOA ESSA MATERIA,ME AJUDOU BASTANTE…OBRIGADA

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