Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

As Eleições 2010

"Nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder"

Rio Revolta, ainda mais revoltado do que nunca com a patética participação do “país do futebol” na Copa 2010, adentra porém numa nova fase, ou melhor, volta ao seu cotidiano apedrejamento. Afinal, a vida continua, e as Eleições Presidenciais estarão aí em poucos meses.

Lançamos, então, a primeira de nossas análises, seguros de que acertaremos as previsões porque não há mesmo muito o que errar.Lembrando que Rio Revolta, por não acreditar nem no sistema nem nos atores, recomenda expressamente o VOTO NULO.

Não se furta, no entanto, a divertir-se fazendo análises e previsões.

Então, vamos lá.

Os candidatos

Não buscamos aqui falar das histórias de vida dos candidatos, mas sim do que representam, em termos de imagem pública.

Ambos são, sem sombra de dúvidas, candidatos fraquíssimos. Nenhum deles tem o dom da palavra, nenhum deles prende a atenção com seus discursos; nenhum deles se caracteriza pelo bom humor ou pelo carisma. Serra é muito feio; Dilma, depois da plástica, continuou muito feia. Estão rigorosamente empatados neste quesito e nem de longe comoverão como fez Lula.

Dos dois, no entanto, o curso dos fatos parece beneficiar ligeiramente a candidata Dilma Rousseff. Podemos começar argumentando nesta direção lembrando que José Serra já é figura pública há várias décadas; e figura pública de expressão nacional pelo menos desde quando ministro da saúde do governo FHC, ou seja, mais de 15 anos. Já disputou eleições presidenciais, já foi governador de São Paulo, e prefeito da cidade de mesmo nome.

E pasme, com tudo isto, está empatado com Dilma nas “pesquisas eleitorais” da grande mídia.

Quem é Dilma? Figura de longa história na política; porém, não na política eleitoral, vocacionada, mas sim como funcionária da área técnica. Não é, portanto, figura conhecida por eleições passadas. Na realidade, trabalhou por longo tempo nas sombras do governo Lula, num ministério considero de pouca ou média importância, com quase nenhuma exposição na mídia.

Vamos notar que Dilma só se tornou figura proeminente no governo Lula nos últimos tempos, talvez de 1 ou no máximo 2 anos para cá. Portanto, podemos interpretar como um indício claro da absoluta fraqueza da imagem pública de Serra o fato de que encontra-se empatado nas “pesquisas eleitorais” com uma figura que apenas muito recentemente se tornou pública. Sem dúvida é muito pouco para quem já foi até o segundo turno numa eleição presidencial.

Pesa a favor de Dilma, e contra Serra, a seguinte percepção: a classe política desfruta no Brasil hoje em dia de tão ínfimo prestígio e de tal desconfiança que o fato de tratar-se de uma figura nova na política eleitoral pode causar certa desvinculação entre sua imagem e a imagem podre da classe política como um todo. José Serra já não poderá se beneficiar deste fato. Neste sentido, nos dias atuais, é melhor ser inexperiente do que (mal) conhecido.

Portanto, por via de regra, os dois candidatos são muito fracos e, pessoalmente, nada serão capazes de inspirar na opinião pública. Dilma poderá, no entanto, contar com o peso de Lula a seu favor, tomando de empréstimo parte do seu carisma.

Os outros candidatos dispensam análise, pois nada representam. Mas Marina Silva, sobre a qual já escrevemos anteriormente, reiteramos: joga fora uma luta histórica, cheia de coerência, por uma campanha natimorta. Lamentável.

O PSDB e Aécio Neves

É fundamental, para fazer qualquer análise destas eleições, falar a respeito deste personagem: pois ele é o único na política brasileira atual que, ao lado de Lula, poderia reunir as condições necessárias para definir as eleições.

Não é mistério para ninguém que Aécio Neves quer ser Presidente da República. Também não é mistério que sua candidatura teria um apelo emocional considerável, posto que seu avô Tancredo, em dado momento esperança nacional encarnada, foi impedido por uma completa fatalidade de tornar-se Presidente, num momento histórico para a nação. Seria um ótimo tema para seu marketing político, explorar esta possibilidade de “reparar” aquela infelicidade com a eleição de seu neto.

Pois bem, mas entre Tancredo e Aécio, em comum, só mesmo os laços de sangue. Pois Tancredo em seu tempo, e Aécio hoje, representam coisas absolutamente distintas.

Fato é que Aécio Neves tem o que falta a Dilma e a Serra: carisma. Evidentemente que seu carisma nem de longe tem o alcance do carisma de Lula, mas é o suficiente para ser fator decisivo num cenário onde este tal de carisma, definitivamente, não abunda.

Aécio Neves é, no entanto, um político sagaz, muito esperto. Além disto, tem a juventude a seu favor. Pode esperar pacientemente por mais 10, 20 anos, para lançar-se candidato à Presidência no momento certo, de menor resistência ou esforço. Popularíssimo em Minas Gerais, segundo estado brasileiro em número de eleitores, seria candidato fortíssimo à Presidência, e sabe disso. Mas não precisa agarrar-se a idéia, como se fosse sua última chance.

Aécio deixou o tempo correr e percebeu que haveria ótima acolhida para sua candidatura na mídiaopinião pública. Além disto, soube muito bem fazer, ao longo do tempo, o que Serra terá necessariamente que conseguir agora, com remotas chances de sucesso: equilibrar sua imagem pública entre o “pró” e o “contra” o governo Lula. Não é do governo, mas também não parece oposição. O grande problema para ele não estava, porém, lá fora.

O PSDB é um partido estranho. Outrora mais inclinado a esquerda, apoiou, ainda que com certo desgosto, Lula em sua versão “radical” contra Collor nas eleições de 1989. Repentinamente, apenas alguns anos depois, havia se tornado uma espécie de partido orgânico das forças neoliberais que forçavam entrada no Brasil. Hoje é sem dúvida o próprio partido representante dos interesses financeiros e rentistas no Brasil.

Como tal, o que é sua maior força tornou-se, também, sua maior fraqueza. Partido poderoso, pois expressa interesses poderosos, muito bem articulados dentro da tecnocracia nacional e estrangeira sediada em São Paulo; tornou-se, porém, refém de sua própria natureza paulista(na). Forte por representar o que há de mais rico e poderoso na mais rica e poderosa cidade do país, tornou-se prisioneiro da “paulistada”.

Era óbvio para qualquer analista minimamente perspicaz que o candidato para a vitória do PSDB em 2010 chamava-se Aécio Neves, e não José Serra. Serra liga-se historicamente ao mal visto governo FHC; já foi candidato à Presidência em 2002, e perdeu, mesmo com a máquina estatal a seu favor; já está relativamente velho, não tem carisma algum. Eleito governador, e depois prefeito, tem a “mania” de não terminar nenhum mandato. Entrega o cargo para candidatar-se a outro “maior” e consagra um vice do DEMPFL, obscuro qualquer.

Aécio Neves não participou do governo FHC e não tem sua imagem ligada a ele; eleito e reeleito em Minas Gerais, com larga margem, terminou os dois mandatos e é muito bem quisto pela opinião pública de lá; é novo, carismático, e seu sobrenome tem história. Para melhorar, não enfrentaria Lula, mas uma candidata muito, muito menos poderosa. Cenário perfeito.

O problema é que os paulistas do PSDB não conceberam um candidato a Presidência de outro estado que não São Paulo. Forçaram a passagem e impuseram Serra como candidato. Conscientes do gigantesco potencial eleitoral de Aécio, fizeram de tudo para convence-lo a ser vice de Serra. Mas Aécio não é tolo; não tem pressa, pode eleger-se senador com facilidade e ficar 8 anos esperando. Além disto, não aceitou ser usado pelos paulistas do PSDB; pois estes não o queriam, queriam só seus votos. Aécio não tem nada a ganhar se Serra for eleito Presidente. Deu o troco nos paulistas, recusou a vice e foi cuidar da sua vida.

E assim, o PSDB jogou fora sua única chance de vitória. Águas passadas as épocas em que os tucanos eram mais inteligentes.

As Coligações

Também neste ponto não iremos discutir em minúcias. Buscaremos apenas falar do que importa.

Concretamente, existem hoje apenas 4 partidos no Brasil. PMDB, PSDB, DEMPFL e PT. O resto é o resto.

O que importa em nossa análise aqui é verificar o que cada um destes partidos significa, atualmente, no Brasil.

Vamos começar com a chapa de Dilma, PT+PMDB. O PT foi durante muito tempo o partido da “ética na política”, e tinha seu eleitorado nas classes médias urbanas, com grau universitário e tendências mais esquerdizantes. No que diz respeito à “ética”, julgamos desnecessário falar qualquer coisa. Quanto ao eleitorado, há um fator complicador para a análise: saber onde termina o “petismo” e começa o “lulismo”, pois o eleitorado de Lula deslocou-se fortemente das grandes metrópoles do Centro-Sul para as regiões Norte e Nordeste. Neste aspecto, 2010 será a primeira eleição do PT sem Lula como candidato, e só então talvez poderemos saber onde o partido terá um eleitorado petista, e não lulista, considerando que o brasileiro pensa e age quase sempre em termos personalistas, e não partidários.

Quanto ao seu companheiro de chapa, o PMDB, não chega ser nenhuma surpresa. O PMDB é o partido da política municipal brasileira; não é um partido coeso em torno de um conteúdo programático qualquer, mas sim um agrupamento de oligarquias locais fundamentalmente interessadas em conservar a todo custo o poder local. Daí surgem duas características deste partido: 1-Apesar de ser sempre por larga margem o maior partido em representação legislativa, prefeitos e governadores, não consegue forjar consenso em torno de um candidato a Presidência da República; 2-É fisiológico, ou seja, está sempre aliado a quem está no poder.

Não importa quem vença, estará com o PMDB. Lula venceu em 2002 sem ele, rapidamente acabou com ele. Se um dia abrir-se um buraco no solo em algum canto do Brasil e dele emergir Satanás candidatando-se à Presidência, o PMDB aparecerá dizendo ser ele a melhor opção para o Brasil.

O PMDB é portanto um concerto de oligarquias locais, abrangendo o país de norte a sul. Neste sentido, não encontra coesão para lançar candidato próprio a Presidência, pois suas oligarquias focam-se na manutenção do poder local, municipal ou regional, não desejando sacrificar este poder por coalizações nacionais. É o partido do clientelismo local.

Surge assim uma simbiose, na qual o PMDB, para manter o dominío local e controlar a indicação de milhares de cargos e de formidáveis recursos públicos, busca aliar-se com o poder central, seja este qual for; e o partido que elege o Presidente procura o PMDB que, por ser o maior partido nas câmaras legislativas, torna-se indispensável para a governança ordeira e tranquila.

Estamos então falando que a aliança PT+PMDB para a candidatura Dilma representa uma continuidade do esquema de governabilidade do governo Lula, que viu este unir-se a figuras do quilate de José Sarney, Jader Barbalho, Romero Jucá etc etc etc. A candidatura Dilma vai representar então, uma vez bem sucedida, uma aliança entre o petismo (lulismo?) e as oligarquias locais.

Quanto a campanha de José Serra, fundamenta-se na aliança entre PSDB e DEMPFL. O DEM é aquele partido que mudou de nome de um dia para o outro, coisa de quem não deve nada a ninguém. Esta coligação vem desde os tempos do governo FHC, e incluía naqueles tempos, também, o PMDB. Mas se o vínculo entre PSDB e DEMPFL é mais orgânico o deste último, como já vimos, só tem organicidade com o poder. O governo central mudou de mãos, mudou de mãos também o PMDB.

O PSDB, como já dissemos, vem representando nos últimos 15 anos os interesses dos mercados financeiros e dos rentistas. Dentro desta ótica, o combate a inflação, por ser esta fator de corrosão da estabilidade monetária e, portanto, do valor dos ativos financeiros, assume papel central na formulação de política econômica dentro do programa tucano. O governo FHC claramente atuou dentro destes limites, com suas políticas de taxas básicas de juros estratosféricas e controle inflexível da inflação, as custas do crescimento econômico e para festa dos parasitas nacionais e estrangeiros.

Neste cenário, até mesmo o assim chamado “capital produtivo”, industrial, gerador de emprego e renda perdeu espaço dentro da política econômica daqueles tempos. Neste sentido, o PSDB não defende interesses do capital como um todo, mas sim de grupos capitalistas específicos. A eleição de Lula em 2002 com um industrial têxtil mineiro como vice foi indicativo forte na direção contrária, sinalizando uma retomada de posição junto ao capital produtivo por parte do governo federal, ao mesmo tempo em que assegurou com a “Carta ao Povo Brasileiro” a aceitação e cumprimento dos ditames do status quo.

O DEMPFL é, por outro lado, o partido representante do que há de mais retrógrado na sociedade brasileira moderna: os ruralistas ou, na sua alcunha moderna, muito mais palatável, o “agronegócio”. Retrógrado porque para isto, ou seja, tornar-se um país exportador de produtos primários, agrícolas, o Brasil foi moldado desde sua descoberta. Trata-se, portanto, das estruturais sociais mais arcaicas e reacionárias ainda hoje aqui existentes. Por sinal, forças muito fortes e poderosas, glamourizadas pela mídiaopinião pública como um setor econômico dos mais dinâmicos.

A coligação de José Serra representa, portanto, uma aliança entre os capitais financeiros nacionais e os internacionais aos quais os primeiros subordinam-se e o latifundio agro-exportador. Não deve ser necessário dizê-lo, mas mesmo assim é sempre bom relembrar, que tais forças tratam-se dos verdadeiros e mais orgânicos representantes da subordinação da sociedade brasileira aos interesses externos.

Apresenta-se a sociedade, então, uma belíssima escolha a fazer. Assistencialismo + Oligarquias clientelistas locais ou Capitalismo Financeiro Global + Latifundio. Pouca coisa pode ser mais trágica.


A Coligação PSDB-PFLDEM e a escolha do vice

Como já dissemos, o sonho de consumo do PSDB para a vice presidência chamava-se Aécio Neves. Mas este, insatisfeito com o papel subalterno que os paulistas pretenderam lhe dar, recusou-se a entrar no jogo e deu o troco, condenando José Serra e o PSDB a derrota.

Não bastasse ter perdido o único vice que poderia efetivamente mudar alguma coisa no curso das eleições, o PSDB falha novamente, ao indicar, totalmente a revelia do DEMPFL, seu “parceiro” de coligação, o senador Alvaro Dias para o posto de vice presidente na chapa de José Serra.

Errou uma vez, por indicar figura inexpressiva, desconhecido nacionalmente e oriundo de um estado de porte apenas médio em número de eleitores e de tendências eleitorais já profundamente conservadoras e, portanto, eleitorado por excelência de Serra.

E errou duas vezes, por atropelar o DEMPFL na escolha do vice, causando a ira dos integrantes deste partido que já haviam afirmado inúmeras vezes que só abririam mão da indicação do vice presidente em prol de Aécio Neves.

Pois bem, acontece que os vínculos entre PSDB e DEMPFL são orgânicos. Dois partidos irmãos, ou dois braços do mesmo partido (em sentido amplo). Não demorariam a se entender, e foi o que se passou.

O DEMPFL reclamou e o PSDB resolveu então lhe devolver a prerrogativa da escolha do vice. Derrota total para Alvaro Dias e seu irmão Osmar, que tentaram de todas as formas forçar a manutenção de sua indicação a vice, ao mesmo tempo em que aliciavam os dirigentes do DEMPFL para aceitar a situação.

Desgaste para a campanha de José Serra, que mostra todo o seu despreparo. Terá tempo, no entanto, para recuperar-se deste problema, que logo terá sido esquecido.

O DEMPFL reune-se então para indicar o seu vice para a chapa de Serra. E quem eles indicam? Índio da Costa, obscuríssimo deputado federal do Rio de Janeiro, completamente desconhecido fora da nobre zona sul e do seleto grupo de eleitores (?) de Cesar Maia. Sem qualquer voto, sem qualquer experiência. O candidato mais inexpressivo que poderiam ter encontrado.

Mas para quem não conhece seus grandiosos feitos, informo: Índio da Costa é arquiteto e, entre outras coisas, desenhou (e deve ter ganho muito $$$ com isso) os novos quiosques que a prefeitura do Rio de Janeiro instalou nas praias da cidade, no último ano do “governo” de Cesar Maia.

Ah bom.

A própria mídia adesista não resistiu em fazer uma graça com a situação. No dia seguinte à divulgação da escolha, veiculou-se que Índio da Costa falou pessoalmente uma (1) única vez com José Serra, em toda a sua “carreira política”. Garantia, portanto, de muita sintonia programática e canais livres de comunicação entre os companheiros de chapa.

Quanto ao DEMPFL, isso que é parceiro! Resta saber se foi intencional ou não, homicídio doloso ou culposo. Não importa: o DEMPFL acabou de matar a campanha de Serra, caso isto ainda fosse necessário.

O Marketing Político

O próprio termo “marketing político”, tão utilizado por aí, revela a essência das instituições políticas representativas: o candidato tem de ser (bem) vendido, a semelhança de todo e qualquer produto. Nas sociadades capitalistas até mesmo a política torna-se, em última instância, uma relação de mercado alicerçada na oferta e na demanda.

Daí o caráter inerentemente conservador, e por isto tão conveniente à reprodução das relações capitalistas de produção, deste modo de fazer política. Pois um candidato só poderá encontrar compradores se oferecer-se como um produto vantajoso; numa sociedade onde os compradores são ensinados a pensar como capitalistas, isto significa dizer que o candidato terá de defender uma plataforma pró-capitalismo.

A esta forma de proceder, totalmente contraditória pois realiza o que pareceria impossível, isto é, a despolitização da política, convencionou-se chamar de “democracia”.

No entanto, não é esta a discussão aqui. Retornemos ao ponto.

A campanha de Dilma Rousseff buscará, em termos de marketing político, uma estratégia óbvia: apresentar-se como a candidata sucessora do Presidente Lula, que deixará o cargo com níveis de popularidade jamais vistos. E tais níveis devem aumentar ainda um pouco mais em direção aos últimos meses de seu mandato, em função dos efeitos positivos sobre a mídiaopinião pública que os elevados índices de crescimento econômico (já se fala em mais de 7%) deste ano causarão.

Tal estratégia será, sem dúvida, de fácil execução, e muito bem sucedida. Neste tocante, não há qualquer mistério.

Mas a estratégia de Dilma não se resumirá, evidente, apenas a isto. Cabe a sua equipe de marketing político, também, combater o marketing político de seu adversário. E neste sentido, a estratégia de sua campanha certamente deverá focar-se em trazer constantemente a tona as ligações do candidato José Serra com o governo de Fernando Henrique Cardoso, diante da percepção de que este governo encontra, ainda hoje, enorme rejeição popular.

Tratando-se, como é o caso de FHC, de indivíduo extremamente vaidoso, isto não será difícil; para tanto, prevemos que o Presidente Lula fará, ao longo de sua participação na campanha de Dilma, constantes ataques não exatamente a José Serra, mas sim ao governo FHC. Este, orgulhoso, apresentar-se-á para rebater os ataques nas grandes veículos midiáticos.

A campanha de José Serra terá, neste ponto, duas grandes dificuldades: 1-Conseguir fazer FHC ficar calado quando atacado; 2-Desvincular-se de seu passado.

Quanto a este último ponto, o marketing político de Serra terá que lidar com uma questão delicadíssima: diante do governo Lula, tão popular, não poderá representar o candidato Serra como oposição radical a este, e adotará uma estratégia de elogios periódicos a este governo. Deverá, ainda, numa tentativa de conseguir penetração entre o eleitorado de baixa renda, que se tornou o nicho de Lula, garantir reiteradamente a continuidade dos programas assistencialistas do governo.

Por outro lado, o marketing político de Serra, consciente da grande rejeição sofrida pelo governo FHC, tentará não vincular o candidato diretamente a este governo, nem tampouco ao ex-presidente. Neste sentido, a idéia será a de esconder FHC da campanha eleitoral, o que como já dissemos, será muito difícil, em função de seu ego inflado.

A campanha de Serra está, então, numa verdadeira sinuca de bico: não poderá ser situação, mas também não deseja ser escancaradamente oposição. Tentará equilibrar-se entre estes dois opostos, e possivelmente tentará vender o candidato como uma “oposição responsável”, não-radical. Tarefa extremamente difícil.

Caberá ao marketing político de Dilma carimbar a imagem de José Serra com o selo do governo FHC; ligá-lo forte e inegavelmente à oposição, taxá-lo de privatista, neoliberal, questiona-lo quanto a manutenção dos programas assistencialistas (“terrorismo eleitoral”) e etc.

Neste sentido, a tarefa do marketing político da campanha de Dilma é enormemente mais simples do que a de Serra. Acreditamos que sairá deste embate o principal fator decisivo do resultado final, e apostamos todas as nossas fichas num flagrante sucesso de Dilma neste ponto.

Quanto a candidata do PV, Marina Silva, não importa quem faça seu marketing político, nem como o fará: não passará dos 10 ou 15% dos votos. Se muito.

Previsão das eleições

Vamos ao que mais interessa. A previsão do que acontecerá, arriscando até números.

Previsão 1 – Haverá segundo turno.

Nem Lula com todo o seu carisma conseguiu evitar o segundo turno em suas duas eleições vitoriosas. Fernando Henrique Cardoso venceu suas duas eleições sem precisar do segundo turno, mas é evidente que a razão não estava num carisma que ele definitivamente não tem. Era o poder estupendo da mídia adesista sobre a “opinião pública” e a capitalização pela vitória do Plano Real sobre a (hiper)inflação. Quando a estabilidade monetária ruiu, em 1999, logo após sua reeleição, ruiu junto a popularidade de FHC e de seu governo – e pelo visto, também do seu partido, que nunca mais voltou a ganhar coisa alguma.

Teremos, então, segundo turno.

Previsão 2 – Dilma vencerá.

Já dissemos que ambos os candidatos carecem inteiramente de carisma, o que é importantíssimo. A campanha será de baixo, baixíssimo nível, como costumeiramente vem sendo. Pesa muito para isto o caráter plebiscitário e despolitizado do cenário político atual, onde apenas dois partidos foram promovidos ao patamar de importantes pela mídia-“opinião pública”, o PT e o PSDB. Acontece que seu antagonismo não ultrapassa as raias da retórica: em termos de políticas, realizaram praticamente as mesmas coisas. É uma certa “americanização” da política brasileira; lá existem apenas dois partidos de expressão, democratas e republicanos, que se odeiam amargamente, mas são as duas faces da mesma moeda. Compartilham dos mesmos valores e consensos, mas os primeiros são “soft power”, ao passo que os segundos são “hard”.

Por estados e regiões do Brasil:

No Sul, Serra vencerá Dilma por uma margem de 5 a 10% dos votos, talvez mais no Paraná, estado de voto mais conservador na região e sob direta influência paulistana.

No Sudeste, Serra vencerá Dilma em São Paulo, estado onde o PSDB mostra-se hegemônico. Ela vencerá, no entanto, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, em especial neste último estado, onde Serra carecerá de palanque expressivo, ao passo que Dilma desfrutará do palanque de Sergio Cabral, que será reeleito, além do voto evangélico, muito forte por aqui. Em Minas, o “fator Aécio”, que potencialmente poderia trazer muitos votos para Serra, não deve-se mostrar forte, pois aquele não fará campanha com afinco para este último. No apanhado geral da região, deve haver uma vantagem muito estreita para um dos dois candidatos, possivelmente para Serra; isto porque São Paulo tem o maior número de eleitores do país, e aqui Serra vencerá.

No Centro-Oeste, haverá vitória mais folgada de Serra: é a região brasileira cuja principal atividade repousa sobre o “agronegócio” exportador, portanto, de tendência claramente conservadora. Também uma região sob forte influência paulistana. Contribui para isto, num contexto mais específico, o total vácuo de poder no qual se encontra o Distrito Federal após o colapso do governo Arruda e toda aquela questão da corrupção. Brasília é o único pólo do Centro-Oeste que possui influência nacional. Por isto, será a região onde a coligação PSDB-PFLDEM deverá encontrar mais consenso; mas o Centro-Oeste quase não tem eleitores.

No Nordeste, Dilma alcançará vitória esmagadora, e da mesma forma que em 2006, será aqui que o PT conquistará sua vitória. Dilma ganhará em todos os estados nordestinos por vantagem de no mínimo 20% dos votos e, talvez, 30, 40 ou mesmo mais. A figura do Presidente Lula desfruta hoje de uma dimensão imagética incontrastável naquela região, como podemos ver na eleição de governadores do PT ou de sua base em vários desses estados nas eleições de 2006, com frequencia derrotando candidatos das oligarquias tradicionais. Outro fato que pesará decisivamente para uma vitória esmagadora de Dilma no NE, a coligação nacional do PT com o PMDB, que significa, como já dissemos, a aliança com o poder municipal, as bases do clientelismo. Serra terá poucos palanques nessa região, em alguns estados não terá nenhum, posto que em alguns deles, como no Maranhão, até a própria oligarquia conservadora é aliada do governo Lula. Além disso, não terá nenhum porta voz na região que contrabalanceie, por mínimo que seja, o peso de Lula. Como também nunca foi muito afeito ao povo, Serra evitará passear pelo Nordeste, já o considerando caso perdido. Derrota certa.

Quanto ao Norte, não há muito o que dizer: não importa o que aconteça por lá, quase não há eleitores, não decidirá nada. Só Marina Silva para achar que com uma candidatura do Acre e uma plataforma política ecologista de direita poderá conseguir alguma coisa. Em todo caso, também no Norte Dilma ganhará com grande facilidade. Exceção deve ser Roraima, da mesma forma que se deu em 2006, quando Lula lá perdeu – por razões de política local: em especial, a atuação do governo Lula contra os fazendeiros na questão criação da Reserva Raposa-Serra do Sol.

Votos nacionais:

Serra tem um eleitorado cativo, que soma aproximadamente um terço do eleitorado nacional. No entanto, tem também uma “rejeição cativa”, que o limita abaixo dos 45 ou 50% dos votos nacionais. Terá em torno de 35 a 45% dos votos válidos nos dois turnos. Terá o tradicional apoio da mídia, mas como o PT não assusta mais ninguém, dessa vez não poderá fazer uso do terrorismo, alegando ameaças à estabilidade monetária, como ocorreu em 2002. Ao contrário, essa arma agora está nas mãos do adversário.

Dilma também sofrerá considerável rejeição, por parte do eleitorado conservador, que costuma ser inflexível. Além disso, sofrerá oposição da mídia, como de costume. Mesmo assim, terá de 45 a 50% dos votos no primeiro turno; 55 a 60% no segundo. Terá a seu favor o terrorismo, e sua campanha espalhará por todos os cantos que um governo Serra encerraria os programas sociais do governo Lula.

Marina Silva poderá chegar a 10%, mas deve mesmo ficar com 6 ou 7%. Não tem campanha, não tem coerência e não tem voto estadual.

Quanto aos outros, tanto faz, não se inserem nesta ordem; e especialmente os de “esquerda”, ao concorrerem apenas legitimam a ordem liberal burguesa.

Em Resumo: Dilma só perderá numa catástrofe, Serra só vencerá num milagre. Nenhum dos dois ocorrerão.

A.G.

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