Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: julho 2010

Fordismo, Toyotismo e a Indústria Musical (continuação)

Esta entrada do blog é uma continuação e aprofundamento do post anterior, portanto é fundamental que o leiam aqui antes.

Por que este modelo toyotista ainda não triunfou? Teria ele falhado?

Dinossauros

Sabendo que o CDBaby já tem 9 anos e o Digital Audio Music (formato similar da Mp3.com) tem 12 e nenhum dos dois se transformaram em padrão de mercado, poderíamos pensar que este é um formato fracassado ou mesmo morto. Mas temos de nos perguntar:

É mesmo um formato morto? Teriam DAM e CDBaby fracassado?

Primeiramente temos que considerar o fato de que no momento em que ambos começaram, especialmente o DAM, o modo fordista de organização da música não estava saturado. É fundamental notar que no meio pro final dos anos 90 estava acontecendo um suicídio mercadológico: todo mundo estava comprando CDs e ‘rippando’-os, adicionando-os em suas bibliotecas pessoais no computador. A venda de CDs estava nas alturas, assim como a de Gravador de CDs, estes últimos com uma variedade incrível de marcas (até a Sony possuia alguns, apesar de ser dona de importantes selos), todo mundo estava comprando um monte de cds e adorando a idéia de salvá-los em mp3. Usar os equivalentes dos ipods eram “A” moda do meio ao final de 1990 (só para lembrar que os ipods foram lançados em 2001. De um ponto de vista mercadológico, é muito similar à gravação caseira de fitas e o boom de walkmans dos anos 80, assim como a livre troca de fitas que veio junto com ela, apenas a escala que tinha aumentado. Era a grande alegria de poder carregar o seu artista à qualquer lugar de maneira prática, com pouco peso e espaço. Lembrando que os cdplayers portáteis sempre foram atabalhoados e pulos/skips de faixas era um problema evidente. Sendo este um dos grandes trunfos do ipod.

Desta maneira, as vendas de CDs originais iriam ver um crescimento natural, formando o que muitos chamaram da “Era de Ouro” de cds, mesmo com o fato do Kazaa, Emule, Napster, Audiogalaxy e muitos outros sites do mesmo tipo se tornando cada vez mais difundidos. O limite da banda afetava a qualidade e o tempo para o produto atingir seu consumidor. Pessoas ainda compravam cds por causa da facilidade de acesso (só lembrar o boom do número de lojas de cd dos anos 90) e pelo valor material do produto.

Mas sozinho, o enorme sucesso dos anos 90 (e início dos 2000) do sistema fordista da Indústria Musical não pode explicar como e porque um modo mais eficiente, ainda que pequeno, não triunfou.

Primeiramente, reforçando o argumento do post anterior, nós temos que lembrar do que a história economica nos ensinou: para qualquer tipo de indústria, mudar completamente um estrutura e modelo de produção é extremamente caro e algo que leva muito tempo para se consolidar. O modo escravista por examplo, levou quase 500 anos para ser completamente destruído; o modelo soviético do super-partido controlando a propriedade levou 80 anos e ainda hoje há nações seguindo este modelo obsoleto. Mesmo nos modernos dias de hoje é tão caro e lento que o japão levou mais de 20 anos de altos investimentos (público e privado) para ter sucesso e ainda assim, existem partes da indústria que não se adaptaram a este modelo de organização, apesar de sua provada eficiência. Só isso já poderia explicar porque o formato “DAM” não ultrapassou o anterior. Mas isso não é perto de suficiente para nossa explicação.

Do ponto de vista mercadológico, o DAM não falhou como modelo de negócios. Mp3.com, empresa que desenvolveu esse formato, foi comprada apenas três anos depois de sua fundação (1998) pela Vivendi (um influente jogador do setor midiático sediado na França). O curioso é lembrar que a empresa só foi vendida depois de sofrer um gigantesco processo da Universal Music, quando perdeu 54 milhões de dólares na Justiça. Mas mesmo assim a empresa foi vendida por 300 milhões de dólares. E, julgando pela sua vida (12 anos), agora sob tutela da CBS Corp. o formato é financeiramente bem sucedido. Ainda valhe mencionar que o CDBaby foi comprado por U$22 milhões em 2008 e, de maneira alguma, é um “formato mal sucedido de negócio”. Au contraire.

Mas ainda assim nós poderíamos perguntar: por que este modelo não triunfou já que tem mais de 10 anos de idade?

A primeira causa é que não era um canal interessante para as bandas porque algo muito mais importante estava faltando no processo. Esse modelo resolveu apenas o problema de “prensagem/distribuição” do negócio com seu método sob-demanda que envolvia baixos riscos nesta área, estoques reduzidos e oferta controlada. Mostrando-se bom para DAM e CDBaby e bom para o artista que ganhava grande parte da venda final do disco, depois que os custos estavam cobertos. Na prática este modelo transformava a distribuição, anteriormente uma parte do risco de entrar no mercado, num serviço pré-pago, mas pré-pago pelo consumidor e não pelo artista. Lembrando, a venda vem antes do produto de fato.

Mas ainda assim, qual parte mais importante faltava então e por que ela não está faltando hoje?

A grande parcela é propaganda. Nos dias de internet lenta, a parte propaganda de qualquer lançamento consistia numa enorme parcela de qualquer orçamento de banda, portanto eram projetos altamente dependentes de altos financiamentos. Anúncios em tv, rádio e impressos eram parte crucial da indústria musical, daí, como dito acima, a fusão de gravadoras com empresas de marketing e propaganda durante os anos 80 e 90. É muito caro para qualquer banda tentar tv ou rádio, até para aquelas com certa fama. Gastos com anúncios consistiam as maiores despezas de grandes gravadoras e para a maioria dos projetos, uma garantia de boas vendas. Novamente a fusão da indústria musical com empresas de propaganda ganha um significado ainda maior.

Hoje, mais de uma década depois, o cenário é outro. Nós temos a difusão impressionante do acesso a internet rápida, todos estão buscando informação nela, não da tv e menos ainda do rádio ou mídia impressa. Qualquer especialista em marketing pode dizer que nos dias de hoje, o típico homem e mulher assistindo tv ou lendo o jornal não são os principais ‘alvos’ da indústria musical. Eles estão conectados online, visitando youtube, myspace, twitter, facebook e qualquer outra comunidade virtual. Mas isso tudo ainda é irrelevante num cenário mais amplo.

É irrelevante porque as relações digitais se tornaram parte crucial das verdadeiras relações sociais modernas.

As pessoas estão fundando comunidades pelas mais variadas razões, só para mencionar algumas: a busca de uma alma gêmea; pessoas com interesses comuns; pessoas querendo sexo fácil; fãs do Chicago Bulls; troca de conhecimento científico (entre as mais antigas comunidades virtuais); parceriais de negócio; relações de comércio; ou simplesmente a busca por siginificado na vida. Alguem com mais humor poderia gritar: “Assim como na vida real!“. Mas seria incompleto, teríamos de completar: “Sim, mas numa escala muito maior”. Internet é uma parte fundamental e permanente das modernas relações humanas. Nestes últimos 10 anos ela se tornou uma extensão do que fazemos “na vida real” e o fato do debate “internet não é vida real” – um lugar comum na sociologia dos anos 90 – ter se tornado totalmente obsoleto, apenas reforça isso. Internet É a vida real. É um palco de interação humana como ‘a rua’, é conexão direta e indireta ao mesmo tempo. Direta pelo fato de que nós estamos em conexão com pessoas reais do outro lado de uma tela, não é impessoal como a tv ou o rádio. Indireta porque não é tátil, não é material (apesar de webcams, impressoras de cheiro e etc…). É como a vida real, apenas a escla destas relações é que mudaram. Nós podemos ter amizades significativas com pessoas 1500 quilômetros de distância; podemos ter companheiros de poker do Japão, da Rússia e Peru; podemos discutir tópicos com pessoas da África do Sul e do Canadá ao mesmo tempo; podemos escutar música da Romênia, do Brasil e de Mali. A Internet conectou as pessoas permanentemente. Ninguém são pode negar este fato.

Mas isso não é tudo. O centro de porque a estrutura da Indústria Musical precisa mudar é muito mais complexo.

Nós não podemos esquecer que com a internet, propaganda e alcance-de-fãs tornaram-se imensamente mais baratos do que anteriormente. Isso aconteceu basicamente porque: google é grátis; youtube é grátis; twitter é grátis; myspace é grátis; facebook é grátis; orkut é grátis. Isso é Internet 2.0! Todos os principais canais de relações humanas são gratuítos e a imensa maioria é sustentado por propagandas de cada nicho específico enlaçados no interior dessas rede digital. Se internet é a vida real, cobrar de pessoas por interação humana neste nível seria um disparate completo.

Para adentrar ao assunto, nós precisamos voltar um pouquinho aos padrões sociais em relação à música e às leis que existiam antes da internet.

Por que emprestar um CD a um amigo ou familiar não é uma questão moral? Não apenas isso, relações de troca entre amigos e familiares é uma parte crucial das relações humanas. Se você tem um álbum que adora e quer que seu amigo escute, o único padrão moral é emprestá-lo o CD! Ninguém diria “vai comprar na loja, seu ladrão!” De fato, quando uma criança apresenta comportamento similar a este, ela é duramente reprimida por um adulto ou é transformada num outcast pelas outras crianças. E ainda tem mais. No nosso cotidiano nós facilmente cruzamos por diversas formas de compartilhamento coletivo, são músicos tocando numa esquina ou entrada do metrô; são  jovens com o som de um carro nas alturas tocando a última moda do funk; ou cantando canções de incentivo durante um treino de remo ou futebol; ou ainda torcendo ao som de Can’t Take my Eyes of You ou Roberto Carlos, com letra sobre o seu time do coração; ou o seu vizinho fazendo questão de mostrar ao prédio seu gosto musical dele; para não esquecer de teatro escolar, festas de aniversário e outras formas sociais de compartilhar música.

Por que isso era não só permitido mas um padrão social de comportamento nos tempos de vinil, fitas e até nos tempos de CD/DVD e agora, de repente, se tornou roubo e vilania?

Primeiro é importantíssimo lembrar: tecnicamente, todos estes exemplos de compartilhamento social de música que temos desde o surgimento da indústria musical, sempre foram ilegais. E isso é crucial saber. Emprestar, pegar emprestado, escutar publicamente música ou ler um livro em voz alta em público são atividades ilegais. Isso vêm escrito em pequenas mas significativas palavras em qualquer CD/vinil que você tem em casa.

Desde o início da Indústria Musical essas leis existiram mas raramente eram fiscalizadas de maneira rotineira, exceto em alguns regimes autoritários em que livros e músicas subersivas eram constamente sujeitas à censura. Em qualquer sociedade livre, essas letrinhas escritas nos CDs/LPs nunca foram fiscalizadas de fato e de certa maneira, essa fiscalização – quando feita – era frequentemente vista como rudeza e sem sentido. É quase senso comum se pensar que leis não deveriam regular relações humanas neste nível.

Portanto, todos estes exemplos são formas de compartilhamento social da música e – eu repito – sempre foram tecnicamente ilegais, mas não fiscalizados. Em sociedades livres este tipo de compartilhamento sempre foi largamente aceito, nós crescemos com esse tipo de prática nos últimos 70 anos da Indústria Musical, são praticamente quatro gerações aceitando estes valores como padrões sociais em relação à música e muitos acreditam que música é uma forma coletiva de expressão e relação humana, apesar destas leis contra este compartilhamento existirem desde o início. Teóricos do direito poderiam acrescentar: quando as práticas de uma sociedade sistematicamente vão de encontro com a lei escrita, não é a sociedade que está errada, mas as leis que não estão seguindo a realidade. O costume é a base de toda legislação orgânica e ao longo da história, as leis mudaram porque a sociedade mudou e não o contrário. O sistema da “Lei Comum”, tipicamente inglês, mas amplamente divulgado em suas colônias e áreas de influência pode ser definido assim:

Um “sistema de lei comum” é um sistema legal que dá grande peso aos precedentes da lei comum, no princípio que é injusto tratar fatos similares diferentemente em diferentes ocasiões. (wikipedia; italicos são meus).

Considerando isso, não é chocante ver que a Indústria Musical começou a botar na prática e fiscalizar duramente essas leis que ela nunca de fato se importou. Para justificar a repressão virtual ela precisa reprimir a “vida real” também. Há pessoas sendo processadas por escutar rádio no trabalho (*); por causa de festas de aniversário (*); tocando música num pub local (*); todas as formas “reais” de uso coletivo da música precisam ser reprimidas para justificar a repressão “virtual” a esse uso. “Roubo é roubo” alguns ainda colocam. Apesar de que por quase um século ‘pessoas reais’ compartilharam livremente ‘experiências musicais reais’ no ‘mundo real’, enfatizando mais ainda que esse tipo de comportamento não era considerado imoral, roubo ou qualquer ação sujeita a reprovação social.

Apenas o medo e a repressão podem fazer uma lei ser mais poderosa que o comportamento social comum e não é preciso ser um gênio para saber que este tipo de governo não pode persistir por muito tempo.

Apenas compreendendo que a ampla difusão da internet elevou as relações humanas em todos os seus formatos (amizades, sexo, torcida, comunidade, pesquisa científica, conversa fiada, compartilhamento de música) para um nível diferente, para uma escala muito maior. Apenas tendo consciência disso é que temos que comprender porque o compartilhamento digital de música é impossível de parar e nenhuma lei ou tecnologia poderá reprimir isso com sucesso sem ser grosseira e despótica. Pois no fim, todas as “relações humanas digitais” são relações humanas comuns, numa escala muito maior.

É inegável que antes da internet, emprestar, tomar emprestado, cantar em karaokes, escutar rádios em público, cantar em festas de aniversário e todos os outros formatos citados acima, eram interações sociais moralmente aceitas. Até a gravação caseira de mp3s em CDs não era reprimida, especialmente quando milhões de CDs estavam sendo vendidos. Era moralmente aceito que uma pessoa podia emprestar a familiares e amigos seu disco, ou poderia escutar rádio publicamente na vizinhança. Bem, e se alguém tiver 10 amigos reais ou até mesmo 100? Isso ainda seria moralmente aceito? E se cada um deles fizesse uma cópia para uso pessoal? Quando as pessoas emprestavam discos de vinil e cd nos anos 80 (o cd começou a ser comercializado em 1982), a prática de fazer cópias em fita não era sujeita a reprovação moral ou social. Então, sob que padrão universal alguém pode estar seguro que de 1000 membros de uma comunidade não são apenas amigos que gostam de compartilhar experiências, incluindo as musicais? Isso é humano.

Mas então nós músicos estamos ferrados então. Como diabos iremos viver da música num cenário como este.

Estamos em grande necessidade de mudança na nossa maneira de abordar a internet e as leis de Direitos Autorais relativas à música. Nós temos que objetivar a música, pensar na música numa maneira material e não numa forma subjetiva de trabalho abstrato. É a comoditização da música que poderemos abordar melhor em outro tópico futuro. A música precisa se tornar um produto como qualquer outro, protegida apenas contra plágio e uso não autorizado, portanto, precisa passar por uma imensa mudança estrutural. Neste viéis é que nós temos que mudar nossa visão sobre o compartilhamento online a produção da música.

Para nos aprofundar mais, vamos retornar ao pequeno selo independente dos anos 80 e 90.

Nesta época, panfletagem era uma das principais maneiras de anunciar shows e novos lançamentos, precisamente porque a banda ou pequeno selo não tinham dinheiro para anunciar em tvs ou mesmo em rádio ou outdoors. Isso era uma prática comum para bandas independentes: fazer muita panfletagem durante concertos de outras bandas, em áreas movimentadas pelo seu nicho, universidades e qualquer lugar movimento que quisessem. Mas no fundo a única razão disso era ganhar atenção. Similarmente era a execução pública da sua música antes e depois de um concerto, ou o carro-de-som tocando sua música e anunciando o conserto da banda no próximo fim de semana, culminando com o bizarro costume de bandas pagarem para abrir shows de outras bandas muito maiores. São várias as formas de panfletagem. Esse tipo de “ataque de nicho” era a forma mais barata de anunciar seu próximo concerto, lançamento de disco/dvd, todas as expressões materiais de sua obra.

Mas agora a panfletagem ganhou uma versão 2.0 turbo: a internet.

Com a massificação da Mp3, seu conteúdo material perdeu totalmente o valor, como qualquer mercadoria que inunda um mercado. Mas ao invés de ser completamente destruído, como qualquer produto que custa R$0,00, a mp3 se transformou em outra coisa. Ela se tornou propaganda, um veículo e não um produto, uma ponte entre o artista e o fã – um panfleto virtual. Não é muito diferente do que escutar Fergie no comercial do celular. É por isso que, apesar de 70% das pessoas (de todo o mercado) que pegaram o cd In Rainbows (Radiohead) não terem pago um centavo, nós podemos ter certeza de que 100% dos fãs (mercado de nicho) pagaram alguma coisa por isso, numa maneira crua, poderemos pensar que os 70% ‘perdidos’ são os gastos com propaganda. No entanto, deixemos o Radiohead de lado pois ela já era uma banda estabelecida quando fez isso e não é determinante para a explicação aqui.

Vamos fazer o exercício contrário. Vamos voltar e não considerar a mp3 como propaganda/panfleto como sugerido acima. Vamos analizá-la como a Indústria Musical faz atualmente: como um produto qualquer entrando num mercado, uma mercadoria como qualquer outra. O que acontece num mercado normal quando alguém apresenta o mesmo produto que você de graça numa esquina próxima? Ou você vai a falência ou voce chama a repressão. Essa lógica explica a aproximação da Indústria Musical e lobbies governamentais nos EUA (o novo presidente da RIAA, equivalente a um sindicato das gravadoras, dominado pelas Quatro Grandes, foi consultor e lobbista dos Republicanos nos EUA por mais de 15 anos) e também explica porque a recente onda de processos e atos legislativos contra todo o tipo de comunidade pública, digitais e “reais”. Com produtos baratos e abundantes num determinado mercado, o único jeito de elevar (e manter) o seu preço é controlar a demanda, pois você não pode controlar a oferta. Essa é a lógica de pensamento por trás das ações da Indústria Musical hoje. Controlar a demanda na internet não é apenas impossível como entra em direto conflito com os padrões sociais relacionados à música. Controlar a demanda desta maneira sem ser despótico, é inviável.

E nós o que faremos então? Se nós aceitarmos o fato de que música é um produto que tem uma demanda incontrolável, nós precisamos controlar a produção. E é por isso que este modelo toyotista “Just in Time”, apresentado atualmente pelo CDBaby e o DAM, vão se tornar o padrão de negócio e o compartilhamento online vai se tornar lugar de propaganda para a parte material, tangível da música: a mídia física e os concertos.

José Livramento

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Do Fordismo ao Toyotismo: o futuro da Indústria Musical

ChaplinO modo de produção da indústria musical está mudando. Ao contrário do que muitos pensam, a indústria não está ruindo, apenas alterando o seu modo de negócio e fabricação. Como muitos economistas e analistas já teorizaram, toda vez que há uma mudança estrutural em algum setor industrial surge, fundamentalmente, uma crise. Quando Taylor e Ford surgiram com suas respectivas idéias de organização de produção, a indústria mudou bastante. Primeiro em suas áreas (indústria automobilística), depois todos os setores industriais seguiram seu caminho. A ascensão e apogeu ocorreram entre 30-70, a Era do Consumo de Massa, mas ainda hoje muitos setores industriais seguem este modelo.

Apenas para ter certeza do que estamos falando e fazendo as coisas ainda mais suscintas:

Taylorismo é a administração científica da produção, em essência, suas características são a alta divisão do trabalho, estudo complexo do papel de cada tarefa na cadeia produtiva. Esta intimamente relacionado ao fordismo.

Fordismo é a produção em linhas de montagem. Caracteriza-se por alta padronização dos produtos, alta divisão do trabalho em tarefas específicas e repetitivas, portanto, baixa necessidade de mão de obra qualificada. O fordismo é simbiótico ao taylorismo pois são complementares, necessita do estudo complexo de cada tarefa na cadeia produtiva e alta divisão do trabalho.

Então, dos anos 70 aos 90, essa forma ‘clássica’ de organização industrial viu seu declínio gradual, até que um modo muito mais eficiente tomou seu lugar. Estou falando do toyotismo, ou produção “em demanda”. Simplificadamente se caracteriza por “construir o produto somente após a venda ser feita”, inverte a relação de mercado tradicional. A compra/encomenda é feita e alguns dias ou semanas depois, o produto está pronto e entregue.

Mas o que isso muda na  prática? Isso cria um modo economicamente mais eficiente de produzir, elimina a necessidade de grandes estoques (especialmente de produtos finalizados), elimina a grande parte do risco e tem pouco ou nenhuma perda de material/produtos prontos. Faz isso principalmente porque a venda ocorreu antes do produto existir. Foi esse o motivo que levou o crescimento das companias automobilísticas orientais nos 90s, mais barato e mais eficiente.
Mas que diabos isso tem a ver com a indústria musical?!

Nós podemos considerar que o atual modelo de organização da indústria musical é o modelo fordista. A grosso modo, a indústria musical está acostumada a lançar toneladas de cópias de seus produtos no mercado na “esperança” de que as vendas irão pagar os custos e gerar lucro. É por isso que a música volta e meia sofre com superprodução e excesso de estoque. Quando superprodução encontra uma situação de sub-consumo, nós temos uma crise forte.

Para onde a Indústria Musical está indo então?

Neste sentido, afirmo categoricamente, que está mudando do fordismo para o toyotismo. Estamos a caminho de gerar o produto após a venda do produto. Apenas para reforçar em outras palavras, apenas depois de alguém clicar “Comprar” é que as máquinas vão “Prensar a Unidade”. Tecnologia, logística moderna, facilidade de informação e produção altamente automatizada e customizada podem facilmente permitir esta mudança em pouco tempo.

No ramo editorial (de livros) nós já temos algumas empresas trabalhando assim, no ramo musical consigo pensar apenas no CDbaby. Eles fabricam sob demanda, assim que alguem decide comprar alguma obra de seus catálogos, eles começam a fabricar o produto e enviar para qualquer lugar dos EUA (e do mundo). Não é nenhum mistério que este tipo de fabricação “on demand” têm melhores acordos com músicos e selos independentes, eles dizem de maneira transparente quais “seus custos de produção” e os artistas, sabem exatamente quanto têm de cobrar para ter bons retornos financeiros.

Mas o que isso muda no “chão da fábrica” da Indústria Musical?

Bem, isso muda tudo. Até recentemente (especialmente no Brasil), os grandes Selos, entravam com a parte arriscada do negócio. Eles patrocinavam artistas, pagando por todos os custos de produção e lançamento do artista, na esperança de retorno financeiro com as vendas. O produto vinha antes da venda, um clássico modelo fordista de produção, portanto, sujeito as incertezas de um mercado que não podiam controlar, daí sua parcela de risco.

Durante sua história porém, a Indústria Musical, mesmo mantendo o seu sistema fordista de produção, tentou eliminar os riscos (como qualquer outra indústria) e caminhou para a monopolização do setor, para assegurar vendas maiores. Assim adquiriu estúdios nos anos 50-60, se fundiu a companhias de distribuição nos anos 70-80, se fundiu a companhias de radio e tele-difusão nos anos 80-90 e finalmente, mais recentemente, setores de marketing e propaganda nos anos 90-00, criando as superpoderosas “Big Fourque controlam 80% do mercado (no Brasil a parcela é ainda maior se incluirmos a Som Livre).

A parte do risco do empreendimento, isto é, dos gastos com artistas/produção e a esperança de retorno com a sua venda, são a principal, talvez a única, justificação para as absurdas parcelas percentuais de Copyrights (direitos autorais) que os Selos levam do produto final. E é aqui que tudo muda para o “chão da fábrica” (músicos, produtores, masterizadores e outros): se a parte do risco foi eliminada, o álbum é produzido depois da venda, como justificar os altíssimos percentuais de venda das gravadoras? Essa pergunta não é retórica.

José Livramento

As Eleições 2010

"Nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder"

Rio Revolta, ainda mais revoltado do que nunca com a patética participação do “país do futebol” na Copa 2010, adentra porém numa nova fase, ou melhor, volta ao seu cotidiano apedrejamento. Afinal, a vida continua, e as Eleições Presidenciais estarão aí em poucos meses.

Lançamos, então, a primeira de nossas análises, seguros de que acertaremos as previsões porque não há mesmo muito o que errar.Lembrando que Rio Revolta, por não acreditar nem no sistema nem nos atores, recomenda expressamente o VOTO NULO.

Não se furta, no entanto, a divertir-se fazendo análises e previsões.

Então, vamos lá.

Os candidatos

Não buscamos aqui falar das histórias de vida dos candidatos, mas sim do que representam, em termos de imagem pública.

Ambos são, sem sombra de dúvidas, candidatos fraquíssimos. Nenhum deles tem o dom da palavra, nenhum deles prende a atenção com seus discursos; nenhum deles se caracteriza pelo bom humor ou pelo carisma. Serra é muito feio; Dilma, depois da plástica, continuou muito feia. Estão rigorosamente empatados neste quesito e nem de longe comoverão como fez Lula.

Dos dois, no entanto, o curso dos fatos parece beneficiar ligeiramente a candidata Dilma Rousseff. Podemos começar argumentando nesta direção lembrando que José Serra já é figura pública há várias décadas; e figura pública de expressão nacional pelo menos desde quando ministro da saúde do governo FHC, ou seja, mais de 15 anos. Já disputou eleições presidenciais, já foi governador de São Paulo, e prefeito da cidade de mesmo nome.

E pasme, com tudo isto, está empatado com Dilma nas “pesquisas eleitorais” da grande mídia.

Quem é Dilma? Figura de longa história na política; porém, não na política eleitoral, vocacionada, mas sim como funcionária da área técnica. Não é, portanto, figura conhecida por eleições passadas. Na realidade, trabalhou por longo tempo nas sombras do governo Lula, num ministério considero de pouca ou média importância, com quase nenhuma exposição na mídia.

Vamos notar que Dilma só se tornou figura proeminente no governo Lula nos últimos tempos, talvez de 1 ou no máximo 2 anos para cá. Portanto, podemos interpretar como um indício claro da absoluta fraqueza da imagem pública de Serra o fato de que encontra-se empatado nas “pesquisas eleitorais” com uma figura que apenas muito recentemente se tornou pública. Sem dúvida é muito pouco para quem já foi até o segundo turno numa eleição presidencial.

Pesa a favor de Dilma, e contra Serra, a seguinte percepção: a classe política desfruta no Brasil hoje em dia de tão ínfimo prestígio e de tal desconfiança que o fato de tratar-se de uma figura nova na política eleitoral pode causar certa desvinculação entre sua imagem e a imagem podre da classe política como um todo. José Serra já não poderá se beneficiar deste fato. Neste sentido, nos dias atuais, é melhor ser inexperiente do que (mal) conhecido.

Portanto, por via de regra, os dois candidatos são muito fracos e, pessoalmente, nada serão capazes de inspirar na opinião pública. Dilma poderá, no entanto, contar com o peso de Lula a seu favor, tomando de empréstimo parte do seu carisma.

Os outros candidatos dispensam análise, pois nada representam. Mas Marina Silva, sobre a qual já escrevemos anteriormente, reiteramos: joga fora uma luta histórica, cheia de coerência, por uma campanha natimorta. Lamentável.

O PSDB e Aécio Neves

É fundamental, para fazer qualquer análise destas eleições, falar a respeito deste personagem: pois ele é o único na política brasileira atual que, ao lado de Lula, poderia reunir as condições necessárias para definir as eleições.

Não é mistério para ninguém que Aécio Neves quer ser Presidente da República. Também não é mistério que sua candidatura teria um apelo emocional considerável, posto que seu avô Tancredo, em dado momento esperança nacional encarnada, foi impedido por uma completa fatalidade de tornar-se Presidente, num momento histórico para a nação. Seria um ótimo tema para seu marketing político, explorar esta possibilidade de “reparar” aquela infelicidade com a eleição de seu neto.

Pois bem, mas entre Tancredo e Aécio, em comum, só mesmo os laços de sangue. Pois Tancredo em seu tempo, e Aécio hoje, representam coisas absolutamente distintas.

Fato é que Aécio Neves tem o que falta a Dilma e a Serra: carisma. Evidentemente que seu carisma nem de longe tem o alcance do carisma de Lula, mas é o suficiente para ser fator decisivo num cenário onde este tal de carisma, definitivamente, não abunda.

Aécio Neves é, no entanto, um político sagaz, muito esperto. Além disto, tem a juventude a seu favor. Pode esperar pacientemente por mais 10, 20 anos, para lançar-se candidato à Presidência no momento certo, de menor resistência ou esforço. Popularíssimo em Minas Gerais, segundo estado brasileiro em número de eleitores, seria candidato fortíssimo à Presidência, e sabe disso. Mas não precisa agarrar-se a idéia, como se fosse sua última chance.

Aécio deixou o tempo correr e percebeu que haveria ótima acolhida para sua candidatura na mídiaopinião pública. Além disto, soube muito bem fazer, ao longo do tempo, o que Serra terá necessariamente que conseguir agora, com remotas chances de sucesso: equilibrar sua imagem pública entre o “pró” e o “contra” o governo Lula. Não é do governo, mas também não parece oposição. O grande problema para ele não estava, porém, lá fora.

O PSDB é um partido estranho. Outrora mais inclinado a esquerda, apoiou, ainda que com certo desgosto, Lula em sua versão “radical” contra Collor nas eleições de 1989. Repentinamente, apenas alguns anos depois, havia se tornado uma espécie de partido orgânico das forças neoliberais que forçavam entrada no Brasil. Hoje é sem dúvida o próprio partido representante dos interesses financeiros e rentistas no Brasil.

Como tal, o que é sua maior força tornou-se, também, sua maior fraqueza. Partido poderoso, pois expressa interesses poderosos, muito bem articulados dentro da tecnocracia nacional e estrangeira sediada em São Paulo; tornou-se, porém, refém de sua própria natureza paulista(na). Forte por representar o que há de mais rico e poderoso na mais rica e poderosa cidade do país, tornou-se prisioneiro da “paulistada”.

Era óbvio para qualquer analista minimamente perspicaz que o candidato para a vitória do PSDB em 2010 chamava-se Aécio Neves, e não José Serra. Serra liga-se historicamente ao mal visto governo FHC; já foi candidato à Presidência em 2002, e perdeu, mesmo com a máquina estatal a seu favor; já está relativamente velho, não tem carisma algum. Eleito governador, e depois prefeito, tem a “mania” de não terminar nenhum mandato. Entrega o cargo para candidatar-se a outro “maior” e consagra um vice do DEMPFL, obscuro qualquer.

Aécio Neves não participou do governo FHC e não tem sua imagem ligada a ele; eleito e reeleito em Minas Gerais, com larga margem, terminou os dois mandatos e é muito bem quisto pela opinião pública de lá; é novo, carismático, e seu sobrenome tem história. Para melhorar, não enfrentaria Lula, mas uma candidata muito, muito menos poderosa. Cenário perfeito.

O problema é que os paulistas do PSDB não conceberam um candidato a Presidência de outro estado que não São Paulo. Forçaram a passagem e impuseram Serra como candidato. Conscientes do gigantesco potencial eleitoral de Aécio, fizeram de tudo para convence-lo a ser vice de Serra. Mas Aécio não é tolo; não tem pressa, pode eleger-se senador com facilidade e ficar 8 anos esperando. Além disto, não aceitou ser usado pelos paulistas do PSDB; pois estes não o queriam, queriam só seus votos. Aécio não tem nada a ganhar se Serra for eleito Presidente. Deu o troco nos paulistas, recusou a vice e foi cuidar da sua vida.

E assim, o PSDB jogou fora sua única chance de vitória. Águas passadas as épocas em que os tucanos eram mais inteligentes.

As Coligações

Também neste ponto não iremos discutir em minúcias. Buscaremos apenas falar do que importa.

Concretamente, existem hoje apenas 4 partidos no Brasil. PMDB, PSDB, DEMPFL e PT. O resto é o resto.

O que importa em nossa análise aqui é verificar o que cada um destes partidos significa, atualmente, no Brasil.

Vamos começar com a chapa de Dilma, PT+PMDB. O PT foi durante muito tempo o partido da “ética na política”, e tinha seu eleitorado nas classes médias urbanas, com grau universitário e tendências mais esquerdizantes. No que diz respeito à “ética”, julgamos desnecessário falar qualquer coisa. Quanto ao eleitorado, há um fator complicador para a análise: saber onde termina o “petismo” e começa o “lulismo”, pois o eleitorado de Lula deslocou-se fortemente das grandes metrópoles do Centro-Sul para as regiões Norte e Nordeste. Neste aspecto, 2010 será a primeira eleição do PT sem Lula como candidato, e só então talvez poderemos saber onde o partido terá um eleitorado petista, e não lulista, considerando que o brasileiro pensa e age quase sempre em termos personalistas, e não partidários.

Quanto ao seu companheiro de chapa, o PMDB, não chega ser nenhuma surpresa. O PMDB é o partido da política municipal brasileira; não é um partido coeso em torno de um conteúdo programático qualquer, mas sim um agrupamento de oligarquias locais fundamentalmente interessadas em conservar a todo custo o poder local. Daí surgem duas características deste partido: 1-Apesar de ser sempre por larga margem o maior partido em representação legislativa, prefeitos e governadores, não consegue forjar consenso em torno de um candidato a Presidência da República; 2-É fisiológico, ou seja, está sempre aliado a quem está no poder.

Não importa quem vença, estará com o PMDB. Lula venceu em 2002 sem ele, rapidamente acabou com ele. Se um dia abrir-se um buraco no solo em algum canto do Brasil e dele emergir Satanás candidatando-se à Presidência, o PMDB aparecerá dizendo ser ele a melhor opção para o Brasil.

O PMDB é portanto um concerto de oligarquias locais, abrangendo o país de norte a sul. Neste sentido, não encontra coesão para lançar candidato próprio a Presidência, pois suas oligarquias focam-se na manutenção do poder local, municipal ou regional, não desejando sacrificar este poder por coalizações nacionais. É o partido do clientelismo local.

Surge assim uma simbiose, na qual o PMDB, para manter o dominío local e controlar a indicação de milhares de cargos e de formidáveis recursos públicos, busca aliar-se com o poder central, seja este qual for; e o partido que elege o Presidente procura o PMDB que, por ser o maior partido nas câmaras legislativas, torna-se indispensável para a governança ordeira e tranquila.

Estamos então falando que a aliança PT+PMDB para a candidatura Dilma representa uma continuidade do esquema de governabilidade do governo Lula, que viu este unir-se a figuras do quilate de José Sarney, Jader Barbalho, Romero Jucá etc etc etc. A candidatura Dilma vai representar então, uma vez bem sucedida, uma aliança entre o petismo (lulismo?) e as oligarquias locais.

Quanto a campanha de José Serra, fundamenta-se na aliança entre PSDB e DEMPFL. O DEM é aquele partido que mudou de nome de um dia para o outro, coisa de quem não deve nada a ninguém. Esta coligação vem desde os tempos do governo FHC, e incluía naqueles tempos, também, o PMDB. Mas se o vínculo entre PSDB e DEMPFL é mais orgânico o deste último, como já vimos, só tem organicidade com o poder. O governo central mudou de mãos, mudou de mãos também o PMDB.

O PSDB, como já dissemos, vem representando nos últimos 15 anos os interesses dos mercados financeiros e dos rentistas. Dentro desta ótica, o combate a inflação, por ser esta fator de corrosão da estabilidade monetária e, portanto, do valor dos ativos financeiros, assume papel central na formulação de política econômica dentro do programa tucano. O governo FHC claramente atuou dentro destes limites, com suas políticas de taxas básicas de juros estratosféricas e controle inflexível da inflação, as custas do crescimento econômico e para festa dos parasitas nacionais e estrangeiros.

Neste cenário, até mesmo o assim chamado “capital produtivo”, industrial, gerador de emprego e renda perdeu espaço dentro da política econômica daqueles tempos. Neste sentido, o PSDB não defende interesses do capital como um todo, mas sim de grupos capitalistas específicos. A eleição de Lula em 2002 com um industrial têxtil mineiro como vice foi indicativo forte na direção contrária, sinalizando uma retomada de posição junto ao capital produtivo por parte do governo federal, ao mesmo tempo em que assegurou com a “Carta ao Povo Brasileiro” a aceitação e cumprimento dos ditames do status quo.

O DEMPFL é, por outro lado, o partido representante do que há de mais retrógrado na sociedade brasileira moderna: os ruralistas ou, na sua alcunha moderna, muito mais palatável, o “agronegócio”. Retrógrado porque para isto, ou seja, tornar-se um país exportador de produtos primários, agrícolas, o Brasil foi moldado desde sua descoberta. Trata-se, portanto, das estruturais sociais mais arcaicas e reacionárias ainda hoje aqui existentes. Por sinal, forças muito fortes e poderosas, glamourizadas pela mídiaopinião pública como um setor econômico dos mais dinâmicos.

A coligação de José Serra representa, portanto, uma aliança entre os capitais financeiros nacionais e os internacionais aos quais os primeiros subordinam-se e o latifundio agro-exportador. Não deve ser necessário dizê-lo, mas mesmo assim é sempre bom relembrar, que tais forças tratam-se dos verdadeiros e mais orgânicos representantes da subordinação da sociedade brasileira aos interesses externos.

Apresenta-se a sociedade, então, uma belíssima escolha a fazer. Assistencialismo + Oligarquias clientelistas locais ou Capitalismo Financeiro Global + Latifundio. Pouca coisa pode ser mais trágica.


A Coligação PSDB-PFLDEM e a escolha do vice

Como já dissemos, o sonho de consumo do PSDB para a vice presidência chamava-se Aécio Neves. Mas este, insatisfeito com o papel subalterno que os paulistas pretenderam lhe dar, recusou-se a entrar no jogo e deu o troco, condenando José Serra e o PSDB a derrota.

Não bastasse ter perdido o único vice que poderia efetivamente mudar alguma coisa no curso das eleições, o PSDB falha novamente, ao indicar, totalmente a revelia do DEMPFL, seu “parceiro” de coligação, o senador Alvaro Dias para o posto de vice presidente na chapa de José Serra.

Errou uma vez, por indicar figura inexpressiva, desconhecido nacionalmente e oriundo de um estado de porte apenas médio em número de eleitores e de tendências eleitorais já profundamente conservadoras e, portanto, eleitorado por excelência de Serra.

E errou duas vezes, por atropelar o DEMPFL na escolha do vice, causando a ira dos integrantes deste partido que já haviam afirmado inúmeras vezes que só abririam mão da indicação do vice presidente em prol de Aécio Neves.

Pois bem, acontece que os vínculos entre PSDB e DEMPFL são orgânicos. Dois partidos irmãos, ou dois braços do mesmo partido (em sentido amplo). Não demorariam a se entender, e foi o que se passou.

O DEMPFL reclamou e o PSDB resolveu então lhe devolver a prerrogativa da escolha do vice. Derrota total para Alvaro Dias e seu irmão Osmar, que tentaram de todas as formas forçar a manutenção de sua indicação a vice, ao mesmo tempo em que aliciavam os dirigentes do DEMPFL para aceitar a situação.

Desgaste para a campanha de José Serra, que mostra todo o seu despreparo. Terá tempo, no entanto, para recuperar-se deste problema, que logo terá sido esquecido.

O DEMPFL reune-se então para indicar o seu vice para a chapa de Serra. E quem eles indicam? Índio da Costa, obscuríssimo deputado federal do Rio de Janeiro, completamente desconhecido fora da nobre zona sul e do seleto grupo de eleitores (?) de Cesar Maia. Sem qualquer voto, sem qualquer experiência. O candidato mais inexpressivo que poderiam ter encontrado.

Mas para quem não conhece seus grandiosos feitos, informo: Índio da Costa é arquiteto e, entre outras coisas, desenhou (e deve ter ganho muito $$$ com isso) os novos quiosques que a prefeitura do Rio de Janeiro instalou nas praias da cidade, no último ano do “governo” de Cesar Maia.

Ah bom.

A própria mídia adesista não resistiu em fazer uma graça com a situação. No dia seguinte à divulgação da escolha, veiculou-se que Índio da Costa falou pessoalmente uma (1) única vez com José Serra, em toda a sua “carreira política”. Garantia, portanto, de muita sintonia programática e canais livres de comunicação entre os companheiros de chapa.

Quanto ao DEMPFL, isso que é parceiro! Resta saber se foi intencional ou não, homicídio doloso ou culposo. Não importa: o DEMPFL acabou de matar a campanha de Serra, caso isto ainda fosse necessário.

O Marketing Político

O próprio termo “marketing político”, tão utilizado por aí, revela a essência das instituições políticas representativas: o candidato tem de ser (bem) vendido, a semelhança de todo e qualquer produto. Nas sociadades capitalistas até mesmo a política torna-se, em última instância, uma relação de mercado alicerçada na oferta e na demanda.

Daí o caráter inerentemente conservador, e por isto tão conveniente à reprodução das relações capitalistas de produção, deste modo de fazer política. Pois um candidato só poderá encontrar compradores se oferecer-se como um produto vantajoso; numa sociedade onde os compradores são ensinados a pensar como capitalistas, isto significa dizer que o candidato terá de defender uma plataforma pró-capitalismo.

A esta forma de proceder, totalmente contraditória pois realiza o que pareceria impossível, isto é, a despolitização da política, convencionou-se chamar de “democracia”.

No entanto, não é esta a discussão aqui. Retornemos ao ponto.

A campanha de Dilma Rousseff buscará, em termos de marketing político, uma estratégia óbvia: apresentar-se como a candidata sucessora do Presidente Lula, que deixará o cargo com níveis de popularidade jamais vistos. E tais níveis devem aumentar ainda um pouco mais em direção aos últimos meses de seu mandato, em função dos efeitos positivos sobre a mídiaopinião pública que os elevados índices de crescimento econômico (já se fala em mais de 7%) deste ano causarão.

Tal estratégia será, sem dúvida, de fácil execução, e muito bem sucedida. Neste tocante, não há qualquer mistério.

Mas a estratégia de Dilma não se resumirá, evidente, apenas a isto. Cabe a sua equipe de marketing político, também, combater o marketing político de seu adversário. E neste sentido, a estratégia de sua campanha certamente deverá focar-se em trazer constantemente a tona as ligações do candidato José Serra com o governo de Fernando Henrique Cardoso, diante da percepção de que este governo encontra, ainda hoje, enorme rejeição popular.

Tratando-se, como é o caso de FHC, de indivíduo extremamente vaidoso, isto não será difícil; para tanto, prevemos que o Presidente Lula fará, ao longo de sua participação na campanha de Dilma, constantes ataques não exatamente a José Serra, mas sim ao governo FHC. Este, orgulhoso, apresentar-se-á para rebater os ataques nas grandes veículos midiáticos.

A campanha de José Serra terá, neste ponto, duas grandes dificuldades: 1-Conseguir fazer FHC ficar calado quando atacado; 2-Desvincular-se de seu passado.

Quanto a este último ponto, o marketing político de Serra terá que lidar com uma questão delicadíssima: diante do governo Lula, tão popular, não poderá representar o candidato Serra como oposição radical a este, e adotará uma estratégia de elogios periódicos a este governo. Deverá, ainda, numa tentativa de conseguir penetração entre o eleitorado de baixa renda, que se tornou o nicho de Lula, garantir reiteradamente a continuidade dos programas assistencialistas do governo.

Por outro lado, o marketing político de Serra, consciente da grande rejeição sofrida pelo governo FHC, tentará não vincular o candidato diretamente a este governo, nem tampouco ao ex-presidente. Neste sentido, a idéia será a de esconder FHC da campanha eleitoral, o que como já dissemos, será muito difícil, em função de seu ego inflado.

A campanha de Serra está, então, numa verdadeira sinuca de bico: não poderá ser situação, mas também não deseja ser escancaradamente oposição. Tentará equilibrar-se entre estes dois opostos, e possivelmente tentará vender o candidato como uma “oposição responsável”, não-radical. Tarefa extremamente difícil.

Caberá ao marketing político de Dilma carimbar a imagem de José Serra com o selo do governo FHC; ligá-lo forte e inegavelmente à oposição, taxá-lo de privatista, neoliberal, questiona-lo quanto a manutenção dos programas assistencialistas (“terrorismo eleitoral”) e etc.

Neste sentido, a tarefa do marketing político da campanha de Dilma é enormemente mais simples do que a de Serra. Acreditamos que sairá deste embate o principal fator decisivo do resultado final, e apostamos todas as nossas fichas num flagrante sucesso de Dilma neste ponto.

Quanto a candidata do PV, Marina Silva, não importa quem faça seu marketing político, nem como o fará: não passará dos 10 ou 15% dos votos. Se muito.

Previsão das eleições

Vamos ao que mais interessa. A previsão do que acontecerá, arriscando até números.

Previsão 1 – Haverá segundo turno.

Nem Lula com todo o seu carisma conseguiu evitar o segundo turno em suas duas eleições vitoriosas. Fernando Henrique Cardoso venceu suas duas eleições sem precisar do segundo turno, mas é evidente que a razão não estava num carisma que ele definitivamente não tem. Era o poder estupendo da mídia adesista sobre a “opinião pública” e a capitalização pela vitória do Plano Real sobre a (hiper)inflação. Quando a estabilidade monetária ruiu, em 1999, logo após sua reeleição, ruiu junto a popularidade de FHC e de seu governo – e pelo visto, também do seu partido, que nunca mais voltou a ganhar coisa alguma.

Teremos, então, segundo turno.

Previsão 2 – Dilma vencerá.

Já dissemos que ambos os candidatos carecem inteiramente de carisma, o que é importantíssimo. A campanha será de baixo, baixíssimo nível, como costumeiramente vem sendo. Pesa muito para isto o caráter plebiscitário e despolitizado do cenário político atual, onde apenas dois partidos foram promovidos ao patamar de importantes pela mídia-“opinião pública”, o PT e o PSDB. Acontece que seu antagonismo não ultrapassa as raias da retórica: em termos de políticas, realizaram praticamente as mesmas coisas. É uma certa “americanização” da política brasileira; lá existem apenas dois partidos de expressão, democratas e republicanos, que se odeiam amargamente, mas são as duas faces da mesma moeda. Compartilham dos mesmos valores e consensos, mas os primeiros são “soft power”, ao passo que os segundos são “hard”.

Por estados e regiões do Brasil:

No Sul, Serra vencerá Dilma por uma margem de 5 a 10% dos votos, talvez mais no Paraná, estado de voto mais conservador na região e sob direta influência paulistana.

No Sudeste, Serra vencerá Dilma em São Paulo, estado onde o PSDB mostra-se hegemônico. Ela vencerá, no entanto, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, em especial neste último estado, onde Serra carecerá de palanque expressivo, ao passo que Dilma desfrutará do palanque de Sergio Cabral, que será reeleito, além do voto evangélico, muito forte por aqui. Em Minas, o “fator Aécio”, que potencialmente poderia trazer muitos votos para Serra, não deve-se mostrar forte, pois aquele não fará campanha com afinco para este último. No apanhado geral da região, deve haver uma vantagem muito estreita para um dos dois candidatos, possivelmente para Serra; isto porque São Paulo tem o maior número de eleitores do país, e aqui Serra vencerá.

No Centro-Oeste, haverá vitória mais folgada de Serra: é a região brasileira cuja principal atividade repousa sobre o “agronegócio” exportador, portanto, de tendência claramente conservadora. Também uma região sob forte influência paulistana. Contribui para isto, num contexto mais específico, o total vácuo de poder no qual se encontra o Distrito Federal após o colapso do governo Arruda e toda aquela questão da corrupção. Brasília é o único pólo do Centro-Oeste que possui influência nacional. Por isto, será a região onde a coligação PSDB-PFLDEM deverá encontrar mais consenso; mas o Centro-Oeste quase não tem eleitores.

No Nordeste, Dilma alcançará vitória esmagadora, e da mesma forma que em 2006, será aqui que o PT conquistará sua vitória. Dilma ganhará em todos os estados nordestinos por vantagem de no mínimo 20% dos votos e, talvez, 30, 40 ou mesmo mais. A figura do Presidente Lula desfruta hoje de uma dimensão imagética incontrastável naquela região, como podemos ver na eleição de governadores do PT ou de sua base em vários desses estados nas eleições de 2006, com frequencia derrotando candidatos das oligarquias tradicionais. Outro fato que pesará decisivamente para uma vitória esmagadora de Dilma no NE, a coligação nacional do PT com o PMDB, que significa, como já dissemos, a aliança com o poder municipal, as bases do clientelismo. Serra terá poucos palanques nessa região, em alguns estados não terá nenhum, posto que em alguns deles, como no Maranhão, até a própria oligarquia conservadora é aliada do governo Lula. Além disso, não terá nenhum porta voz na região que contrabalanceie, por mínimo que seja, o peso de Lula. Como também nunca foi muito afeito ao povo, Serra evitará passear pelo Nordeste, já o considerando caso perdido. Derrota certa.

Quanto ao Norte, não há muito o que dizer: não importa o que aconteça por lá, quase não há eleitores, não decidirá nada. Só Marina Silva para achar que com uma candidatura do Acre e uma plataforma política ecologista de direita poderá conseguir alguma coisa. Em todo caso, também no Norte Dilma ganhará com grande facilidade. Exceção deve ser Roraima, da mesma forma que se deu em 2006, quando Lula lá perdeu – por razões de política local: em especial, a atuação do governo Lula contra os fazendeiros na questão criação da Reserva Raposa-Serra do Sol.

Votos nacionais:

Serra tem um eleitorado cativo, que soma aproximadamente um terço do eleitorado nacional. No entanto, tem também uma “rejeição cativa”, que o limita abaixo dos 45 ou 50% dos votos nacionais. Terá em torno de 35 a 45% dos votos válidos nos dois turnos. Terá o tradicional apoio da mídia, mas como o PT não assusta mais ninguém, dessa vez não poderá fazer uso do terrorismo, alegando ameaças à estabilidade monetária, como ocorreu em 2002. Ao contrário, essa arma agora está nas mãos do adversário.

Dilma também sofrerá considerável rejeição, por parte do eleitorado conservador, que costuma ser inflexível. Além disso, sofrerá oposição da mídia, como de costume. Mesmo assim, terá de 45 a 50% dos votos no primeiro turno; 55 a 60% no segundo. Terá a seu favor o terrorismo, e sua campanha espalhará por todos os cantos que um governo Serra encerraria os programas sociais do governo Lula.

Marina Silva poderá chegar a 10%, mas deve mesmo ficar com 6 ou 7%. Não tem campanha, não tem coerência e não tem voto estadual.

Quanto aos outros, tanto faz, não se inserem nesta ordem; e especialmente os de “esquerda”, ao concorrerem apenas legitimam a ordem liberal burguesa.

Em Resumo: Dilma só perderá numa catástrofe, Serra só vencerá num milagre. Nenhum dos dois ocorrerão.

A.G.

A Seleção Brasileira na Copa 2010

Seleção de Dunga

Muitos volantes, nenhuma direção

Após 1 mês de sepulcral silêncio, apaziguado pelo maior espetáculo da Terra, Rio Revolta retorna com um tema lúdico, um resenha futebolística de palavras fortes. Desperta amargurado e enfurecido pela derrota da seleção nacional na Copa 2010.

Vamos então fazer um breve passeio sobre as causas deste fracasso (que não se deve propriamente à derrota, mas sim à banalidade desta).

O futebol brasileiro, em Copas do Mundo, só perde para si mesmo. Basta aliar talento e disciplina, torna-se imbatível. Convoque-se 23 jogadores, 18 ou 20 peões de obra, regulares, e mais 3, 4 ou 5 talentos excepcionais, e somos campeões.

Em 1994, um elenco limitado, mas disciplinado taticamente e com dois gênios no ataque: Romário e Bebeto.

Em 1998, não tivemos o primeiro, mas tivemos o segundo. Fez mais uma brilhante Copa, mas tínhamos Júnior Baiano na zaga e existem forças maiores que parecem não permitir que jogadores como este vençam um título mundial.

Em 2002, geração de talento acima da média, o melhor técnico de cultura latina existente no mundo e 3 gênios: Rivaldo, Ronaldo e o Gaúcho. Título e melhor campanha da história das Copas.

Em 2006, time talentoso, mas sem disciplina.

Em 2010, time disciplinado, mas sem talento.

A crônica da derrota começou a ser escrita por Dunga na convocação para a Copa. Grafites e Donis não importam: não fariam mesmo qualquer diferença, curtiram um safári na África. O problema estava nos 8 meio campistas, 6 volantes, e se lembrarmos que Julio Baptista era volante, e dos ruins, no São Paulo, tornam-se 7; um único armador, Kaká, que nem tão armador assim é, tratando-se mais de um rápido carregador de bola do que um passador preciso.

Nos veículos automotores, volante é aquela peça ou mecanismo através do qual o condutor imprime a direção desejada ao conjunto da máquina.

Pois bem, no futebol, talvez o volante devesse servir para a mesma coisa, talvez tenha o seu nome vindo desta mesma idéia. Infelizmente, porém, na seleção brasileira de Dunga, sobraram volantes mas faltou direção.

É complicado condená-lo pois, até então, aparte o atropelamento sofrido pelo nosso time olímpico pela Argentina, tudo vinha dando certo. O problema é que Dunga, tão aferrado à sua idéia de coerência, esqueceu que ser coerente é ser dinâmico, pois a vida é dinâmica. Preferiu ser estático, como se a vida fosse estática.

Convocou seus homens de confiança. Nada contra, confiança é fundamental, sem ela não se ganha, mas futebol é momento. Basicamente o mesmo time que foi humilhado por Honduras na Copa América no final de 2001 ganharia a Copa do Mundo poucos meses depois.

Dunga não poderia jamais ter se dado ao luxo de não levar jogadores em momento muito melhor do que outros de sua “confiança”: Hernanes, do São Paulo, poderia ter sido um belo volante que sabe sair pro jogo, destes que efetivamente dão direção ao time; Ganso, do Santos, seria um perfeito armador reserva para a Seleção, ao mesmo tempo dando experiência ao garoto e aliviando pelo menos um pouco da responsabilidade sobre Kaká.

Se futebol é momento, determinadas exceções também podem fazer bem. Apesar de toda sua falta de seriedade e comprometimento, Adriano é um jogador técnico, artilheiro, extraordinariamente forte fisicamente, de fama mundial, que mete medo nos adversários, Argentina que o diga; Ronaldinho Gaúcho, um fanfarrão, também poderia estar lá, ao menos como opção no banco de reservas. Jogadores que Dunga não poderia ter deixado de fora.

Levou um time mediocre, limitado; jogadores de times gregos, turcos, do depauperado campeonato alemão, as vezes até reservas. Suas apostas repousaram em Luís Fabiano, que é um bom atacante, mas apenas bom e que em nada lembra outros camisas 9 do passado; Robinho, um artista de circo mais que um jogador de futebol, mas que não chegou a decepcionar na Copa, fez 2 gols e assumiu a responsabilidade em alguns momentos; e Kaká, a barbie da Gilete que, como bad boy, mostrou-se um perfeito evangélico.

Tudo isto é muito, muito pouco para um selecionado representante do futebol brasileiro. Mas mesmo muito pouco, tudo isto vinha funcionando até então. Estávamos nas quartas de final. Chegamos, então, no ponto que queríamos. No meio de todos aqueles volantes, um era a expressão máxima desta contradição, de volantes sem direção.

Felipe Melo.

Este nosso gênio descoberto (inventado?) por Dunga que disputou jogos de COPA DO MUNDO como se fossem contra o Madureira, pelo estadual do Rio. Nada contra o Madureira, mas em termos de expressão regional é um time do segundo escalão.Trazendo para jogos de COPA DO MUNDO rivalidades sabe-se lá quais, sabe-se lá de onde. Trocando pancadas com o “português” Pepe na base do toma lá dá cá.

Infelizmente, neste jogo só lhe deram amarelo. O segundo em 3 jogos. Suspenso, não jogou contra o Chile. Entrou Ramires, e que diferença fantástica! Um volante que finalmente deu esta direção – diga-se de passagem, ofensiva – ao time. Jogada brilhante no terceiro gol. Felipe Melo teria que renascer algumas vezes para esboçar algo daquele tipo.

Dunga não tirou Ramires de campo a tempo, contra o Chile, antes deste tomar o cartão amarelo e ser suspenso. Talvez de propósito. Sem a possibilidade de ter Ramires, ninguém encheria seu saco quanto ao retorno de Felipe Melo.

Felipe Melo entrou em campo, contra a Holanda. Pra que? Pra já dar uma primeira porrada, num holandês sem bola, com 2 ou 3 minutos de jogo. Minutos depois, deu um passe primoroso para o gol de Robinho. “Pode ser que eu esteja implicando com o cara”, pensei. Mas não estava, Felipe Melo é Felipe Melo. Seguiu em seu inabalável curso, seu grande projeto de COPA DO MUNDO 2010: demonstrar toda a sua falta de consciência, a sua boçalidade.

Atrapalhou-se com o goleiro Julio Cesar no gol de empate dos holandeses. Um dos gols mais patéticos que já assistimos numa COPA DO MUNDO. Julio Cesar, “melhor goleiro do mundo” que falhou de forma bisonha e inacreditável neste lance. Mas cansou de salvar o time em inúmeras oportunidades. Tem crédito, todo o crédito, e seguirá sendo nosso goleiro.

Mas Felipe Melo ainda não estava satisfeito. Alguns minutos depois, falha na marcação e apenas observa Sneijder virar o jogo para a Holanda. De cabeça, do alto de seu 1,70 de altura. Ouvi dizer por aí, seu primeiro gol de cabeça. NA CARREIRA.

Acabou? Não, não acabou. Mais alguns minutos, faz falta e não satisfeito agride covardamente o holandês Robben, caído no chão. Expulso com toda a justiça do mundo. Sepulta de forma definitiva a seleção. Não satisfeito em gerar a derrota, ainda mancha o time com seus atos de vandalismo e barbárie.

A seleção brasileira não saiu da COPA DO MUNDO apenas derrotada, saiu sem dignidade. Time violento, de botineiros.
Felipe Melo joga no lixo toda uma história, disputando (mais) um jogo de COPA DO MUNDO como se fossem peladas de colégio. Vai lá e dá uma porrada no babaca da turma 306, revide de uma entrada dele no jogo de 15 dias atrás. Este é o nível do débil mental. Não tem consciência do que representa, do papel a ser cumprido.

Crônica de uma tragédia anunciada.

Qualquer espectador dos jogos do Brasil nesta COPA DO MUNDO 2010 sabia que Felipe Melo pedia, implorava por ser expulso em algum momento. E foi. No momento decisivo. Só Dunga não percebia isto. Devia estar vendo outros jogos, e não os mesmos que nós. É possível compreender o engano de Dunga, que julgou ter reencontrado sua juventude em Felipe Melo. Já que não podia mais entrar em campo, que mandasse sua imagem.

Engano imperdoável. Entre Dunga e Felipe Melo, nada a ver. Dunga, apesar de meio babaca, tacanho, é um elemento digno, não era desleal como jogador e fez carreira fantástica, vitoriosíssima. Capitão do Tetracampeonato.

E Felipe Melo, bem, é o Felipe Melo. Que os próximos técnicos tenham a dignidade de jamais permitir novamente este nível de banditismo vestindo a camisa da seleção brasileira. E que algo ou alguém dê a este volante a única razão de sua existência, direção. Se serve de consolo, melhor perder pra Holanda nas quartas do que pra Argentina na final. Deste escárnio não nos livraríamos nunca.

Que 2014 nos seja bem melhor. Na Copa no Brasil, a grande farra do dinheiro público.

Até lá.

Equipe Rio Revolta