Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

A nova cara do fascismo

Bush, Olmert e outros cavaleiros do apocalipse

O velho fascismo está praticamente morto. Nada da exaltação de uma raça superior cósmica que tem o direito de dominar o mundo, do discurso anti-comunista explícito, ou ainda da defesa da ordem e de uma família ideal, idílica, que jamais existiu ou existirá, ou mesmo a exaltação do campo e da vida humilde do interior, como ideais de uma pátria intocada pelo vírus estrangeiro. Não, nada disso permanece. Embora o nacionalismo extremado ainda encontre ecos por aí, ele não tem mais aquele apelo que tinha antes, exceto em regiões onde o fundamentalismo religioso é a expressão real do nacionalismo identitário, seja ele islâmico, seja ele wasp. Ainda que países como Coréia do Norte e talvez Tailândia, mostrem que o antigo fascismo, bruto e militar, não é um fator ignorável, ou mesmo que situações conjunturais levem países já consolidados como o Irã a beira de um fascismo de fato, o mundo hoje vê sinais de um novo fascismo, igualmente triste e destruidor, mascarado ao nossos olhos numa cortina de cinismo e ilusão.

O vírus estrangeiro agora é o anti-liberalismo, é a não aceitação dos ideais capitalistas triunfantes e costumes consumistas liberais. Esse vírus têm de ser exterminado, se hoje o capitalismo e o Império não têm fronteiras, o vírus estrangeiro está em espírito, no anti-capitalismo, o questionamento ao pensamento único neoliberal, ‘democrático’ hegemônico é o vírus estrangeiro a ser combatido. Se não temos mais a família ideal camponesa, intocada, idílica do fascismo antigo, temos a família nuclear branca, consumista, de preferência cristã, baseada no american way of life como ideal de vida perpétuo. O nacionalismo identitário deu lugar ao capitalismo identitário, se você não é consumista, você é um estrangeiro, um alienígena que deve ser excluído da sociedade, um terrorista. Compra logo existe.

A democracia hoje não se trata mais de apoio e aprovação popular, perdeu seu sentido de “governo da maioria”, democracia hoje é democracia parlamentar liberal. Ela não é popular, não quer e nem precisa da participação frequente da população. Em sua época, Hitler e Mussolini, os mais emblemáticos fascistas que existiram, se afirmaram em inúmeras ocasiões como democratas e defensores da liberdade, diziam que não precisavam de respaldo de um parlamento fantoche ou votações regulares para se afirmarem pois, além da própria elite hegemônica capitalista de seus países os apoiarem, a população consentia presencialmente o seu poder, por aclamação, por exaltação carismática em enormes comícios e demonstrações públicas, em plebiscitos armados. Antes da era do rádio e tv, o corpo a corpo, os grandes comícios, panfletos explicativos, as viagens intermunicipais e o contato direto com a população era o único caminho para a fundamentação de suas ditaduras e a perseguição de opositores em uma época de questionamento e isolamento do parlamento liberal. O fascismo então, algo como uma resposta autoritária, conservadora, capitalista e anti-liberal ao mundo cosmopolita dinâmico de crescente mercantilização da sociedade, afirmava não precisar do aparato parlamentar liberal para se auto-afirmar. Esta é a maior diferença entre o antigo fascismo e o novo, ambos buscam o respaldo popular, o novo através de eleições vazias e irrelevantes o outro através da aclamação popular direta e muitas vezes fraudada. O novo fascismo é muito mais refinado.

Exército a serviço do capital

O novo fascismo tem, necessariamente, de se auto-afirmar anti-plebiscitário, pois o, dizem, plebiscito é anti-democrático. Nada mais incoerente do que esta afirmação, mas incitando o temor fascista que de fato se utilizava de métodos plebiscitários para obter o respaldo que queria – em uma época de início da espetacularização das eleições -, os neoliberais tem necessariamente de se afirmar anti-plebiscitários, pois o plebiscito, que na prática é a votação direta para questões imediatas, não respeita a hierarquia de poder da democracia liberal e é portanto extremamente arriscado para manter o perpétuo status quo que o novo fascismo liberal necessita. Se a aclamação frequente era necessária para reafirmação do antigo fascismo enquanto movimento que queria parecer democrático, no novo fascismo as eleições surgem da mesma forma como mecanismo de busca do respaldo necessário para a realização de um projeto já em curso, a aclamação regular que precisam para legitimar o único caminho viável, portanto, já decidido. O princípio da governabilidade, tão na moda dos anos 90 para cá, é a resposta da direita ao consenso formado pelas elites e ‘oposições’ atuais de que só um caminho é válido, exatamente como as elites conservadoras e as oposições moderadas tiveram de aceitar o fascismo e o nazismo como única via válida de governo em sua época, para não sucumbir à força crescente do comunismo (capitalismo de estado) bolchevique.

Desta forma, o novo fascismo precisa se auto-afirmar na tecnocracia, no discurso de uma única via de governo possível, em projetos políticos já vitoriosos antes mesmo de concorrer. Se o fascismo antigo se coloca como única solução anti-liberal e anti-comunista, sendo portanto, o único caminho a se seguir por uma elite conservadora, argumento este que os líderes fascistas e seus teóricos não cansavam de repetir; o fascismo novo também se afirma como uma teoria totalitária, na medida em que somente uma resposta é viável e que abarca o total da sociedade, como solução única, no discurso da viabilidade política. Não seguir esta diretriz é condenar a própria sociedade, é excluí-la do mundo, é declarar guerra ao modelo triunfante. O próprio ex-presidente americano George W. Bush reafirma isso: “Ou você está conosco, ou você está com os terroristas”.

Assim, através da construção de consenso ‘cultural’ e de discurso econômico homogêneo, o novo fascismo não precisa ser monopartidário como o fascismo clássico precisava, pois tendo todo o aparato ideológico e midiático, todas as importantes forças materiais formadoras da opinião pública votante com o mesmo ideário hegemônico, o que Gramsci classificou como o partido amplo em sua teoria de hegemonia, reafirmando e sempre revalidando o cânone de que a única forma de governo válida é aquela que segue os ideais neoliberais de democracia parlamentar, estado mínimo (em teoria), livre comércio (em teoria), austeridade fiscal, flexibilização trabalhista, se vertendo na prática em uma constante sublimação da economia em relação à política, levando cada vez mais as decisões econômicas para instituições não elegíveis e não acessíveis pela população, nem mesmo indiretamente, pois as agências reguladoras, corporações e bancos centrais não são controladas por governantes eleitos, muito menos pelas populações. Assim, o parlamento, a democracia representativa hoje é cada vez menos relevante, a eleição serve para validar decisões já tomadas nos bastidores e é por isso que o fascismo de facto pode triunfar numa democracia de jure. O exemplo mais evidente é o uso de ‘eleições’ efetuadas num Iraque ocupado como justificada, aval público das decisões já tomadas. Além disso, mesmo quando as eleições parecem tomar rumos não esperados, caso explícito da eleição de Bush, o próprio sistema dá um jeito de validar eleições fraudulentas. Nada mais fascista.

Com esta superposição de estados, um político, eleito, liberal-democrático, e outro economico, controlado por tiranias corporativas e lobbies eleitorais, o novo fascismo se apresenta também altamente estatizado, como o fascismo clássico. Mas o Estado agora paira diante da sociedade, é virtualizado em centros de decisão alheios à ela. Bancos e grandes corporações, bastiões máximos da tirania, mandam e desmandam nos fragilizados estados nacionais pelo mundo. O dinheiro público é aplicado em grandes empreendimentos particulares, longe do controle da população, em rolamento de dívidas com entes privados, os Estados, como própria representação histórica de uma classe dominante, já estão completamente tomado pelos interesses privados. Como separar o poder privado das corporações e entes particulares quando os próprios representantes eleitos nas democracias ocidentais têm suas campanhas e vida política patrocinados pelas próprias corporações que pretendem controlar, quando os mesmos não são donos e influentes dentro destas mesmas companhias. Além disso, o próprio aparato midiático influente está em constante consonância com o poder estabelecido, caminhando lado a lado como porta-voz indireto mas explicítio das ações do Estado paralelo, caso evidente na FOX americana e na Rede Globo brasileira. Há um conflito de interesse em que quem tem o dinheiro – corporações – é quem manda ou cria a opinião pública necessária para tornar as decisões já tomadas válidas. Hoje o corporativismo, bastião econômico do fascismo clássico, é tão consolidado do que jamais foi, parte integrante e inseparável do funcionamento estatal moderno.

Assim, entrando em outra característica do fascismo clássico que é bastante semelhante no novo fascismo é a questão da militarização. O novo fascismo é igualmente militarizado, mas sua aparência é diferente. Se hoje, o mundo é sem fronteiras, se não existem realidades externas ao mundo neoliberal da democracia parlamenta, austera e suprema, nas palavras de Negri, se “o Império não tem fronteira [e] não tolera realidades externas à sua […] toda a guerra é uma guerra civil, uma guerra interna, um conflito doméstico. [E] o inimigo é sempre interno, a militarização é parte e conjunto do cotidiano e toda guerra, necessariamente, precisa se assemelhar a uma operação policial”. Os atentados de 11 de Setembro ainda acentuaram esta perspectiva, os novos exércitos estão travestidos de polícia, ou ainda, mais explicitamente em verdadeiros exércitos mercenários que controlam as ruas de países ocupados como o Iraque e em parte da Colômbia. Além ainda, das ações de forças internacionais em defesa de interesses corporativos, como a utilização da Onu em conflitos no Iraque, Afeganistão, Haiti (antes do terremoto), ou ainda, a atividade policial do mais neofascista dos estados atuais, Israel. Em geral, representam o exército de fato que as potências imperialistas já não podem mais mostrar as caras sem parecer belicismo fascista claro.

Israel aliás, é emblemático neste sentido, pois mostra como a criação de consenso democrático e o apoio absoluto da maior força material e militar do mundo (EUA) pode criar uma democracia fascista. Israel violou muito mais tratados da ONU do que a odiada Cuba e mesmo do que o IRã, matou mais civis que a Coréia do Norte e é mais militarizado do que a China. Recentemente, não pela primeira vez, atacou um comboio de ajuda humanitária aos famintos da Faixa de Gaza, não muito diferente do que o fascismo alemão ou russo fizeram durante a Segunda Guerra. É triste ver o estado israelense fazendo em tão claras ações, atitudes dignas do que o que seu povo mais deveriam odiar: o nacionalismo identitário, base mental do fascismo. Não ouso afirmar, como alguns, que Israel se compara aos nazistas pois além disso ser falso e ofensivo, é fato que os campos de extermínio de comunistas, homossexuais, ciganos e judeus, era uma industria de carnificina, verdadeira fábrica de cadáveres que a própria Itália fascista tinha receio, e algo que, felizmente, não irá se repetir da mesma forma. Todavia, o que Israel faz na Palestina e com os países árabes vizinhos, não é muito diferente do que os alemães fizeram durante a ocupação Tchecolováquia, Polônia e Rússia, durante a Grande Guerra, ou fizeram com os próprios dissidentes internos em seus países. Assentamentos irregulares, bombardeios vis, assassinatos frequentes, tortura, massacres, expulsão de moradores históricos da região, reassentamentos em massa, embargos econômicos, destruição de patrimônio cultural, supressão de direitos básicos e acordos humanitários históricos, prisões ilegais. Tudo com o consenso eleitoral que só o medo e o dinheiro podem proporcionar. Assim como fascismo clássico, o novo fascismo também tem no medo, seu principal aliado.

O Estado de Israel a representação política do que a elite ultra-conservadora americana sempre quis fazer nos EUA mas nunca obteve o aval para tal, afinal as tradições democráticas dos EUA são muito mais fortes e arraigadas do que num país recém criado na sombra da culpa ocidental do extermínio judaico. Nas palavras de Bush, o mais explícito dos novo-facistas: “Numa ditadura seria tudo mais fácil”. E é isso que conseguiram em Israel. Todo o ranço fascista americano, os mesmos que sempre defenderam a política do Big Stick, a guerra acima de tudo (lema fascista por excelência) e a submissão do Terceiro Mundo às suas aspirações imperiais, especialmente os que têm petróleo, conseguiram efetivar suas políticas no estado de Israel.

Charge sobre Israel e Gaza

Israel só consegue fazer o que faz com o respaldo da maior força material e militar do mundo, os EUA. Israel é a última empreitada colonial do capitalismo moderno, como nação soberana é inviável, sua economia é largamente sustentada pelos EUA, seja em ajuda militar, envio direto de dinheiro, ou parceria comercial, sua industria e sua base de emprego é altamente baseada na fomentação do exército e indústria bélica, sua exportação chega a quase 10% do consumo mundial de armamentos, a situação de perpétuo conflito em que se encontra é que faz a sua roda economica virar, exatamente como no fascismo clássico. É uma nova Esparta, “precisa guerrear para continuar guerreando” e sustentar sua sociedade. Israel não conhece nem tentou a paz seriamente desde que foi criado, quando quase o fez, um terrorista israelense, anti-árabe e belicoso, matou o líder pacifista israelense, restaurando o conflito a sua perpétua guerra. Quem herdou o poder nem teve a preocupação de retomar a paz anterior, inclusive, antes de descobrirem que se tratava de um israelense de extrema-direita, já saíram acusando e atacando os árabes rivais como de costume. Nunca haverá paz, pois o Estado de Israel é uma força de ocupação colonial no Oriente Médio, e como tal, o povo local resiste como pode.

Israel possui bomba atômica e nem é questionado por isso, Israel já usou munição radioativa (que causou câncer em vários de seus soldados) e nem por isso sofreu embargo ou intervenções ‘pacificadoras’ externas, Israel fere constantemente acordos internacionais anti-bélicos e o direito internacional, ataca constantemente uma nação que sequer tem exército oficial para se defender, e que quando usa das forças paramilitares que tem, altamente e compreensivelmente radicalizadas, é considerado como ato de terrorismo pela ‘inteligenzia’ interionacional, pois não respaldam seus atos em eleições parlamentares ou apoio internacional, apenas na auto-defesa nacionalista. Mas de que outra forma a Palestina se defenderia, se mal tem um Estado para fundamentar suas eleições e legitimar os seus líderes? Quando o Hamaz venceu a eleição recentemente o consenso externo tratou logo de invalidar e desmobilizar este referendo popular. Se todas as ações imperialistas são mascaradas de ações policiais, todas as ações anti-imperialistas são automaticamente consideradas terroristas e bandidas, nunca ações de guerra. Israel é a ponta da lança do novo fascismo americano.

J. L.

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7 Respostas para “A nova cara do fascismo

  1. Louis Linoge 1 de junho de 2010 às 7:01

    Isto é um reflexo natural da fase econômica em que o mundo se encontra. Já prevista em governos anteriores. A avidez por recursos, faz da soberania alheia a primeira coisa a ser sacrificada. A nível individual, todos acham bom se sobressair sobre seu semelhante mais fraco, agora ao se agremiar como nação para esta finalidade, faz de sua “nação” uma nação facista-nacionalista. Claro que a desumanidade deste período reflete a fragilidade da estrutura política vigente no mundo, e independentemente da fronteiras geográficas estabelecidas, todo indivíduo que o compõe, vai ser normalizado e posicionado em uma pirâmide social. A rigor, vivemos ainda do escárnio do que nosso semelhante acumulou em vida para sí. MAIS-VALIA ainda serve com escoadouro de patrimônio em direção ao topo da pirâmide, em uma sangrenta batalha,

    onde em terra de canibal, vegetariano vira janta…

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  5. armando 13 de setembro de 2011 às 22:29

    voce tinha que ter vergonha por falar tantas idiotices….

  6. riorevolta 13 de setembro de 2011 às 23:21

    Faço minhas as palavras de um importante historiador, judeu, Eric Hobsabawn, ao qual admiro muito:

    “Desde 1945 os judeus, dentro e fora de Israel, beneficiaram-se muito da má consciência de um mundo ocidental que se recusou a receber migrantes judeus nos anos 30, antes de o mesmo ocidente ou cometer genocídio ou não lutar contra ele.

    Quanto, dessa má consciência, que conseguiu eliminar virtualmente o antissemitismo ocidental por 60 anos e produziu uma era de ouro para a diáspora dos judeus, sobrevive hoje?

    A cada nova aventura militar, como em Gaza e no Líbano, mais essa solução de conciliação vai-se tornando difícil e mais se reforça o poder da direita israelense e dos colonos judeus fanáticos da Cisjordânia que jamais desejaram qualquer solução de conciliação.

    Como já aconteceu na guerra do Líbano em 2006, o massacre de Gaza torna ainda mais sombrio o futuro de Israel. E também tornou mais sombrio o futuro dos nove milhões de judeus da diáspora. Não sejamos hipócritas: criticar Israel não implica qualquer antissemitismo.”

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