Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Marina Silva, Gabeira, o PV e a direita

Ambição eleitoral e o “fim de histórias”

Gabeira e Eduardo PaesHá um estranho fenômeno na política eleitoral que parece não estar coberto pelos principais guias, livros e artigos sobre o assunto – esse fenômeno que faz determinados políticos profissionais jogarem por terra anos – ou melhor, décadas – de história em prol de alianças bizarras com forças e interesses políticos nefastos numa tentativa até engraçada de tentar o impossível – viabilizar candidaturas eleitorais inviáveis.

Tal síndrome toma de assalto, a cada véspera de eleições gerais ou municipais, a cabeça de muitos políticos profissionais no Brasil. Como um furtivo vírus, esconde-se por trás dos mais duvidosos discursos e ataca duramente nos meses que antecedem os pleitos, confundindo ainda mais uma já confusa percepção que a população brasileira tem – quando tem – da política eleitoral.

Nas eleições que virão nos próximos meses, mais uma vez isso acontecerá. E quero aqui analisar brevemente dois nomes e um partido tomados por esse vírus: a candidata do PV à Presidência da República; o candidato do PV ao governo do estado do Rio de Janeiro; e o próprio Partido Verde.

Começo pela candidata à Presidência. Figura histórica ligada aos movimentos sociais de inspiração católica e aos movimentos ambientais do norte do país, oriunda de um dos estados mais pobres e desabitados da Federação – o Acre. Participa do governo Lula como ministra do Meio Ambiente, onde tem atuação destacada na execução e defesa de suas políticas – evidentemente e por isso mesmo, entrando em constante confronto com outras pastas, especialmente a do Planejamento.

Pois bem, eis que a então ministra recebe a tentadora proposta de abandonar seu partido histórico – o PT, ao qual esteve filiada desde os anos 80 – e o governo Lula para filiar-se ao PV, em nome de uma tal “possibilidade eleitoral concreta” que o PV havia identificado no seu nome, junto ao eleitorado brasileiro. A ministra, então, prontamente atende ao chamado; como se não tivesse nada a ver com toda a sua história, abandona partido, abandona governo; filia-se ao PV; passa quase que imediatamente a adotar um discurso de oposição – de direita. Sugere então, entre outras coisas, que num eventual segundo turno, recomendaria voto em José Serra.

Tudo isso, para quê? Em nome de uma “campanha eleitoral” que, se muito, conseguirá aglutinar 5 ou 10% dos votos nacionais? Campanha promovida por um partido nanico, pequeno-burguês, sem raízes históricas de longa data, sem mídia e sem voto? Campanha baseada num estado desabitado, sequer podendo desfrutar de um voto regional expressivo?

A ex-ministra agora-candidata, como historiadora formada, mulher de lutas e experiência política TEM que saber que as eleições 2010 terão o mesmo caráter plebiscitário que já caracterizou as últimas duas eleições presidenciais: só há atualmente dois projetos políticos eleitoralmente viáveis e considerados – e por isso tornados – “importantes” pela cobertura midiática: um, o do PT; o outro, o do PSDB. Então, que estranho fenômeno é esse que causa tal cegueira na candidata, a ponto de contradizer décadas de história, lutas, coerência e ainda um papel de razoável envergadura no governo em prol de uma candidata presidencial natimorta, sem a mais remota possibilidade de êxito?

Se ao menos a ex-ministra, enquanto candidata à Presidência, será poupada – pelo menos, no 1o turno – de defender, com clareza e com todas as palavras, as forças e interesses políticos mais reacionários que supostamente sempre combateu – por força de estar disputando a Presidência contra a própria chapa orgânica dessas forças, o que dizer então do candidato do PV ao governo do estado do Rio de Janeiro?

Pois bem, este – em função da virtual inexistência, no estado do Rio, do PSDB; e da virtual destruição, após oito (ou doze ou dezesseis) anos de César Maia, do PFL-DEM – articulará uma chapa estadual com esses dois partidos e seus candidatos que representam basicamente o que há de mais conservador na política e na sociedade brasileiras nos tempos de hoje. Fornecerá, certamente, importante palanque à candidatura conservadora de José Serra.

De forma cretina e hipócrita, sabendo da rejeição de seu eleitorado – tradicionalmente a classe média liberal, de “esquerda” – à essas forças orgânicas do PSDB e PFL-DEM, o candidato do PV ao estado do RJ ainda tentará, de todas as formas, se desvincular dos candidatos mais rejeitados ao Senado e à Câmara dos Deputados de sua chapa – leia-se, principalmente, o próprio César Maia. Não poderá, no entanto, fugir do fato de que será ele o candidato da coligação conservadora ao governo do estado do Rio.

Assim como a candidata à Presidência da República, o candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro, em nome de uma candidatura eleitoralmente inviável – posto que o atual governador do Estado, com base eleitoral entre o vasto eleitorado das classes baixas (o que para mim soa tragicômico), apoiado pelas igrejas evangélicas e pelo governo Lula, será, salvo uma catástrofe, facilmente reeleito -, joga por terra sua história de oposição ao regime militar, ao conservadorismo, ao desrespeito aos “direitos humanos” e à discriminação de gênero e opção sexual ao optar por um suporte reacionário-conservador à uma candidatura sem qualquer chance de êxito.

Delírios eleitorais povoam a mente desses senhores e de seu partido. Os desconecta totalmente da realidade. Em nome de candidaturas inviáveis, que já nascem derrotadas, entram em total contradição com sua história; a questionam, parecem querer jogá-las no lixo. Talvez caiba então perguntar: construiram mesmo uma história, ou tudo não passava de uma fraude, exposta nua e cruamente no alvorecer do mais rasteiro oportunismo?

A.G.

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