Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Particularismo: doença infantil do ativismo

Flash Mob

Flash Mob: o coletivo de imbecis

Parodio o título de famoso livro para lembrar deste fenômeno contemporâneo que é o ativismo particularista. Isto é, o crescente interesse das pessoas em se reunirem coletivamente para expressar não vontades coletivas, mas suas escolhas pessoais, para se auto-afirmarem enquanto indivíduos, expressar coletivamente sua decisão particular.

O particularismo é um fenômeno de desintegração da sociedade na qual as partes de um conjunto vivem como se à parte do todo que estão inseridos. Indica que os indivíduos e grupos de indivíduos, deixam de se sentir como parte de um todo maior, e em conseqüência deixa de compartilhar os sentimentos dos demais. É o fenômeno da atomização dos indivíduos, do isolamento de cada pessoa em um sujeito isolado, alienado do mundo que o cerca, forçosamente passivo diante dos problemas que o cercam.  Hoje em dia é mais fácil encontrarmos todo o tipo de manifestações em prol de afirmações individuais do que expressando vontades coletivas.

As reuniões de afirmação cristãs costumam reunir 1 milhão de pessoas sem esforço nos dias de hoje (uma delas inclusive, parou o Rio no dia de Tirandentes), mas todas elas têm conteúdo político zero, em geral afirmam variáveis do “Eu sou cristão e tenho orgulho disso” ou coisas do tipo. Quando digo político não quero dizer partidário, pois atualmente o mais comum é figuras políticas (partidárias) aparecerem em reuniões cristãs, mas sim relacionado e preocupado com acontecimentos da “pólis” (da cidade, da sociedade). Não vou entrar no mérito de escolha religiosa, mas como análise política até as passeatas cristãs do passado tinham forte conteúdo social, exemplo foi o movimento direitaço Tradição Família e Propriedade dizia “Eu sou cristão e não gosto do que estes comunistas estão fazendo”, forte viés político ainda que de caráter altamente duvidoso. Não, hoje o interesse das reuniões cristãs é puramente auto-afirmativo, mostrar ao mundo que são cristãos – e vazios de idéias -, além é claro, de promover a eleição de outro traste para a Nobreza de Brasília ou local. O que estas reuniões monumentais fazem em prol da população oprimida que estão largamente representadas nestes quadros? Nada, absolutamente nada. Pobre e violento ao aceitar Deus vira pobre pacato e submisso. As elites adoram, problema resolvido.

Da mesma maneira, outro claro exemplo são as manifestações de orgulho gay que vemos no brasil, muitas chamadas de Gay Parade e etc. Antes de mais nada: longe de mim colocar qualquer posição retrógrada aos direitos homossexuais, ao contrário, penso que como cidadãos têm direto de fazer qualquer coisa, casar, adotar crianças, ir e vir como qualquer outro. E que isso fique bem claro, jamais defenderei posição contrária. E reitero que é evidente que o problema do preconceito deve ser levantado, debatido em todos os círculos sociais, porém, o que me refiro no presente texto é como esta aglomeração se dá num contexto individualista e isolado. O conteúdo político do movimento gay, como tem se apresentado nos dias de hoje, é praticamente nulo, é individualista e meramente auto-afirmativo, alienado em relação a sociedade que o cerca. Eu pergunto: tá você é gay, mas e daí? o que você vai fazer a respeito dos 3/4 da população oprimida do mundo? Das 16 horas de trabalho diárias que estamos sujeitos no Brasil? Dos salários irrisórios? Dos desmandos de nossos governantes? O que você vai fazer? Nada? Foi o que pensei, agora que a sociedade já o aceita, seus problemas acabaram. Alguém pode me dizer o que defendia Clodovil enquanto deputado federal pelo Partido Trabalhista Crisão (coincidência?), eleito com maciços votos de homossexuais? Ele se mostrou abertamente contra o casamento gay e o movimento homossexual brasileiro, além de soltar expressões anti-semitas e racistas. Difícil exemplo melhor para o que tento explicar. Seu conteúdo político conseguia ser inferior ao da Mãe Loira, ou seja, absolutamente particularista, individual e ausente de idéias. Mostra outro exemplo claro de como um movimento que no passado foi altamente progressista e alinhado com as lutas sociais das esquerdas, se tornou um movimento alienado, vazio e festeiro.

Não poderia deixar de falar das massas futebolísticas, paixão nacional. É impressionante como partes da população se reunem para apedrejar ônibus de jogadores, destruir sedes esportivas e protestar contra a pífia atuação de seus times a ponto de soltar bombas em treinos e sair no tapa com os jogadores. Enquanto o canalha que este mesmo grupo de pessoas elegeu para a Nobreza, quer dizer, para o Congresso, está pintando e bordando impunemente. O mais impressionante é que jogador de time o povo não escolhe, campeonato não é escolha. Eleição é escolha, apedrejar sede de políticos é protesto de fato. Pessoalmente sou apaixonado por futebol, mas só um completo alienado para não observar como essa paixão é direcionada pelo povo. Pode ser conspiração demais para alguns, mas particularmente não acho que seja coincidência que as eleições presidenciais sejam em ano de Copa do Mundo. Antes do Golpe Empresarial-Militar de 1964 não eram em ano de copa, e o Brasil já era duas vezes campeão do mundo, a paixão era enorme como é hoje (em 54 até apedrejamos embaixada de outro país por conta de humilhações futebolísticas). Enfim.

A internet nos deu novas formas de união, interação e comunicação. O chamado cyber-ativismo é a base das organizações modernas, vários movimentos recentes e esmagadores protestos foram feitos graças a internet. Só para lembrar 1998 em Seattle, 2000 em Washington, 2001 em Genova, os Forum Social Mundial, todas as reuniões do G8 nos últimos anos, as seguidas manifestações recentes da Grécia, enfim, uma série de protestos maciços, com mais de 50 mil pessoas em cada, alguns chegando a 300 mil, foram fortemente e rapidamente organizados graças a internet.

No entanto, no que facilitou a prática de movimentos com conteúdo, progressistas, facilitou formas muito mais estúpidas e maciças de organização. A mais notável é o flashmob. “Todos ao mesmo tempo vamos deitar no meio da rua” ou “vamos andar com a camisa do avesso”. Desculpem o termo: Porra!! Que desperdício de capacidade e tempo, que deserto intelectual. E esse tipo de ‘genialidade’ ainda é reverenciado na TV como revolucionário. Isso me lembra o videozinho abaixo (está em inglês, mas posso colocar uma tradução).

Basicamente diz de uma maneira muito bem humorada: ver tv emburrece e muito.

Em linhas gerais, ativismo não é sinônimo de algo produtivo ou mesmo progressista como muitas vezes os meios de comunicação deixam a entender. O ativismo particularista é vazio de propósito, é auto-afirmativo apenas como identificação individualista, não questiona, apenas reafirma o sistema e é por isso que cada vez mais ganha atenção na grande mídia. Se 100 pessoas fazem um panelaço na Cinelândia pela Reforma Agrária, não passa nem perto da grande mídia, mas se 25 pessoas fazem um Flash Mob sentados na Avenida Paulista, ganham até programa na emissora.

Concluindo, ainda que o ativismo particularista não seja exclusivo dos dias de hoje, mais do que nunca, hoje ele se faz presente em nossa sociedade como força arrebatadora de desagregação e emburrecimento. O paradoxo é que este fenômeno se tornou mais forte a medida que a tecnologia nos deu mais acesso à informação, cultura, facilitou a comunicação e o transporte de multidões. Como é possível que hoje, com todos os meios de contato entre as pessoas, internet, celular, blogs, facebooks, twitters, orkuts, a sociedade está cada vez mais desagregada enquanto coletividade? Mais particularista? Mais atomizada? As pessoas não se sentem cada vez mais isoladas? Todas as formas de organização coletiva tradicionais estão enfraquecidas, partidos, sindicatos, no entanto comunidades virtuais crescem vertiginosamente. O ativismo particularista sempre me lembra do Cazuza: “Ideologia, eu quero uma para viver”; além é claro de me lembrar que meus inimigos continuam no poder.

Enfim, muito pano para manga essa história ainda tem para dar e voltaremos a discuti-la.

J. L.

Anúncios

Uma resposta para “Particularismo: doença infantil do ativismo

  1. Pingback: Fascistização à Brasileira « Rio Revolta !

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: