Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: maio 2010

Os EUA, o Irã e a bomba

Teste termonuclear

Curiosa e assustadora a intransigência norte-americana quando ao “programa nuclear” iraniano (entre aspas, mesmo). A última vez que os Estados Unidos acusaram um outro país de ter um perigoso “programa de fabricação de armas de destruição em massa”, rapidamente ressoaram os tambores da guerra e este país, o Iraque, encontra-se hoje destroçado – sendo devidamente reconstruído por empresas norte-americanas. Quanto ao terceiro acusado na época, a Coréia do Norte, mostrou efetivamente ter tal programa – já testou suas bombinhas por aí. Com isso, assegurou sua independência militar, segura de que não será invadida, independentemente das tresloquices que seu guia supremo e timoneiro celestial inventar.

A obsessão atual é o Irã. Acusa-se este país de fabricar armamento nuclear, enquanto na realidade se está de olho em seu petróleo. A infeliz retórica anti-semita do presidente iraniano certamente não ajuda. O que não deve ser confundido com representar o Irã e a sociedade iraniana como anti-semitas; neste tocante, devemos lembrar que há uma comunidade judaica razoavelmente numerosa neste país (calcula-se entre 10 e 40.000 judeus). O judaísmo não é proibido pela Constituição, que o reconhece como uma religião minoritária; nem é oficialmente perseguido pelo Estado iraniano, ainda que a realidade cotidiana nos seja evidentemente impossível de conhecer. O presidente Khatami, anterior ao atual, de linha mais liberal, menos conservadora, era conhecido por visitar centros judaicos iranianos. Acusar o Irã de ser anti-semita é leviano, se não mal intencionado; este talvez possa ser o caso de Ahmadnejad, no entanto.

Retornando à bomba, Rio Revolta é flagrante e inflexivelmente a favor de um mundo sem armas nucleares. Mas acredita que, por uma questão da mais trivial lógica, um mundo sem armas requer que nenhum país as tenha. E existe um seleto clube que as possui e não pretende abrir mão delas – os mesmos que tentam impor a “não-proliferação” ao resto do planeta. Os dois principais deles deram o exemplo há poucas semanas, num fabuloso acordo que reduziu seus arsenais. Rússia e Estados Unidos concordaram em desmontar grande número de ogivas e a partir de algum momento futuro vão possuir apenas em torno de 2.000 ogivas nucleares prontas para utilização cada. E todos nós vamos dormir muito mais tranquilos depois disso.

Rio Revolta acredita que se alguns poucos países possuem tais armas, todos devem ter o direito de possuí-los. Inclusive o Brasil. Principalmente o Brasil, caso queira efetivamente a autonomia e a influência geopolítica na qual hoje tanto se fala. Rio Revolta não se engana com esse “viés republicano e pacífico” da governança global contemporânea e sabe que a História dá voltas. Rio Revolta se escandaliza com a aceitação de tal situação por parte da gigantesca maioria dos Estados nacionais. Rio Revolta lamenta profundamente que 189 paises tenham assinado o “Tratado de Não-Proliferação Nuclear”, cinco dos quais são Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China.

Enola Gay prestes a levar 20 quilotons de democracia ao Japão em 1945.

É chocante e absurdo que 184 Estados nacionais assinaram um tratado que os impede de fabricar uma única ogiva atômica enquanto permite a estas cinco nações continuarem tendo gigantescos arsenais.

E quanto ao perigo do Irã desenvolver armas atômicas, Rio Revolta lembra a todos que só houve até hoje na história um único Estado suficientemente genocida a se mostrar capaz de lançar armas atômicas sobre um outro povo. Brinde a quem acertar.

A.G.

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A nova cara do fascismo

Bush, Olmert e outros cavaleiros do apocalipse

O velho fascismo está praticamente morto. Nada da exaltação de uma raça superior cósmica que tem o direito de dominar o mundo, do discurso anti-comunista explícito, ou ainda da defesa da ordem e de uma família ideal, idílica, que jamais existiu ou existirá, ou mesmo a exaltação do campo e da vida humilde do interior, como ideais de uma pátria intocada pelo vírus estrangeiro. Não, nada disso permanece. Embora o nacionalismo extremado ainda encontre ecos por aí, ele não tem mais aquele apelo que tinha antes, exceto em regiões onde o fundamentalismo religioso é a expressão real do nacionalismo identitário, seja ele islâmico, seja ele wasp. Ainda que países como Coréia do Norte e talvez Tailândia, mostrem que o antigo fascismo, bruto e militar, não é um fator ignorável, ou mesmo que situações conjunturais levem países já consolidados como o Irã a beira de um fascismo de fato, o mundo hoje vê sinais de um novo fascismo, igualmente triste e destruidor, mascarado ao nossos olhos numa cortina de cinismo e ilusão.

O vírus estrangeiro agora é o anti-liberalismo, é a não aceitação dos ideais capitalistas triunfantes e costumes consumistas liberais. Esse vírus têm de ser exterminado, se hoje o capitalismo e o Império não têm fronteiras, o vírus estrangeiro está em espírito, no anti-capitalismo, o questionamento ao pensamento único neoliberal, ‘democrático’ hegemônico é o vírus estrangeiro a ser combatido. Se não temos mais a família ideal camponesa, intocada, idílica do fascismo antigo, temos a família nuclear branca, consumista, de preferência cristã, baseada no american way of life como ideal de vida perpétuo. O nacionalismo identitário deu lugar ao capitalismo identitário, se você não é consumista, você é um estrangeiro, um alienígena que deve ser excluído da sociedade, um terrorista. Compra logo existe.

A democracia hoje não se trata mais de apoio e aprovação popular, perdeu seu sentido de “governo da maioria”, democracia hoje é democracia parlamentar liberal. Ela não é popular, não quer e nem precisa da participação frequente da população. Em sua época, Hitler e Mussolini, os mais emblemáticos fascistas que existiram, se afirmaram em inúmeras ocasiões como democratas e defensores da liberdade, diziam que não precisavam de respaldo de um parlamento fantoche ou votações regulares para se afirmarem pois, além da própria elite hegemônica capitalista de seus países os apoiarem, a população consentia presencialmente o seu poder, por aclamação, por exaltação carismática em enormes comícios e demonstrações públicas, em plebiscitos armados. Antes da era do rádio e tv, o corpo a corpo, os grandes comícios, panfletos explicativos, as viagens intermunicipais e o contato direto com a população era o único caminho para a fundamentação de suas ditaduras e a perseguição de opositores em uma época de questionamento e isolamento do parlamento liberal. O fascismo então, algo como uma resposta autoritária, conservadora, capitalista e anti-liberal ao mundo cosmopolita dinâmico de crescente mercantilização da sociedade, afirmava não precisar do aparato parlamentar liberal para se auto-afirmar. Esta é a maior diferença entre o antigo fascismo e o novo, ambos buscam o respaldo popular, o novo através de eleições vazias e irrelevantes o outro através da aclamação popular direta e muitas vezes fraudada. O novo fascismo é muito mais refinado.

Exército a serviço do capital

O novo fascismo tem, necessariamente, de se auto-afirmar anti-plebiscitário, pois o, dizem, plebiscito é anti-democrático. Nada mais incoerente do que esta afirmação, mas incitando o temor fascista que de fato se utilizava de métodos plebiscitários para obter o respaldo que queria – em uma época de início da espetacularização das eleições -, os neoliberais tem necessariamente de se afirmar anti-plebiscitários, pois o plebiscito, que na prática é a votação direta para questões imediatas, não respeita a hierarquia de poder da democracia liberal e é portanto extremamente arriscado para manter o perpétuo status quo que o novo fascismo liberal necessita. Se a aclamação frequente era necessária para reafirmação do antigo fascismo enquanto movimento que queria parecer democrático, no novo fascismo as eleições surgem da mesma forma como mecanismo de busca do respaldo necessário para a realização de um projeto já em curso, a aclamação regular que precisam para legitimar o único caminho viável, portanto, já decidido. O princípio da governabilidade, tão na moda dos anos 90 para cá, é a resposta da direita ao consenso formado pelas elites e ‘oposições’ atuais de que só um caminho é válido, exatamente como as elites conservadoras e as oposições moderadas tiveram de aceitar o fascismo e o nazismo como única via válida de governo em sua época, para não sucumbir à força crescente do comunismo (capitalismo de estado) bolchevique.

Desta forma, o novo fascismo precisa se auto-afirmar na tecnocracia, no discurso de uma única via de governo possível, em projetos políticos já vitoriosos antes mesmo de concorrer. Se o fascismo antigo se coloca como única solução anti-liberal e anti-comunista, sendo portanto, o único caminho a se seguir por uma elite conservadora, argumento este que os líderes fascistas e seus teóricos não cansavam de repetir; o fascismo novo também se afirma como uma teoria totalitária, na medida em que somente uma resposta é viável e que abarca o total da sociedade, como solução única, no discurso da viabilidade política. Não seguir esta diretriz é condenar a própria sociedade, é excluí-la do mundo, é declarar guerra ao modelo triunfante. O próprio ex-presidente americano George W. Bush reafirma isso: “Ou você está conosco, ou você está com os terroristas”.

Assim, através da construção de consenso ‘cultural’ e de discurso econômico homogêneo, o novo fascismo não precisa ser monopartidário como o fascismo clássico precisava, pois tendo todo o aparato ideológico e midiático, todas as importantes forças materiais formadoras da opinião pública votante com o mesmo ideário hegemônico, o que Gramsci classificou como o partido amplo em sua teoria de hegemonia, reafirmando e sempre revalidando o cânone de que a única forma de governo válida é aquela que segue os ideais neoliberais de democracia parlamentar, estado mínimo (em teoria), livre comércio (em teoria), austeridade fiscal, flexibilização trabalhista, se vertendo na prática em uma constante sublimação da economia em relação à política, levando cada vez mais as decisões econômicas para instituições não elegíveis e não acessíveis pela população, nem mesmo indiretamente, pois as agências reguladoras, corporações e bancos centrais não são controladas por governantes eleitos, muito menos pelas populações. Assim, o parlamento, a democracia representativa hoje é cada vez menos relevante, a eleição serve para validar decisões já tomadas nos bastidores e é por isso que o fascismo de facto pode triunfar numa democracia de jure. O exemplo mais evidente é o uso de ‘eleições’ efetuadas num Iraque ocupado como justificada, aval público das decisões já tomadas. Além disso, mesmo quando as eleições parecem tomar rumos não esperados, caso explícito da eleição de Bush, o próprio sistema dá um jeito de validar eleições fraudulentas. Nada mais fascista.

Com esta superposição de estados, um político, eleito, liberal-democrático, e outro economico, controlado por tiranias corporativas e lobbies eleitorais, o novo fascismo se apresenta também altamente estatizado, como o fascismo clássico. Mas o Estado agora paira diante da sociedade, é virtualizado em centros de decisão alheios à ela. Bancos e grandes corporações, bastiões máximos da tirania, mandam e desmandam nos fragilizados estados nacionais pelo mundo. O dinheiro público é aplicado em grandes empreendimentos particulares, longe do controle da população, em rolamento de dívidas com entes privados, os Estados, como própria representação histórica de uma classe dominante, já estão completamente tomado pelos interesses privados. Como separar o poder privado das corporações e entes particulares quando os próprios representantes eleitos nas democracias ocidentais têm suas campanhas e vida política patrocinados pelas próprias corporações que pretendem controlar, quando os mesmos não são donos e influentes dentro destas mesmas companhias. Além disso, o próprio aparato midiático influente está em constante consonância com o poder estabelecido, caminhando lado a lado como porta-voz indireto mas explicítio das ações do Estado paralelo, caso evidente na FOX americana e na Rede Globo brasileira. Há um conflito de interesse em que quem tem o dinheiro – corporações – é quem manda ou cria a opinião pública necessária para tornar as decisões já tomadas válidas. Hoje o corporativismo, bastião econômico do fascismo clássico, é tão consolidado do que jamais foi, parte integrante e inseparável do funcionamento estatal moderno.

Assim, entrando em outra característica do fascismo clássico que é bastante semelhante no novo fascismo é a questão da militarização. O novo fascismo é igualmente militarizado, mas sua aparência é diferente. Se hoje, o mundo é sem fronteiras, se não existem realidades externas ao mundo neoliberal da democracia parlamenta, austera e suprema, nas palavras de Negri, se “o Império não tem fronteira [e] não tolera realidades externas à sua […] toda a guerra é uma guerra civil, uma guerra interna, um conflito doméstico. [E] o inimigo é sempre interno, a militarização é parte e conjunto do cotidiano e toda guerra, necessariamente, precisa se assemelhar a uma operação policial”. Os atentados de 11 de Setembro ainda acentuaram esta perspectiva, os novos exércitos estão travestidos de polícia, ou ainda, mais explicitamente em verdadeiros exércitos mercenários que controlam as ruas de países ocupados como o Iraque e em parte da Colômbia. Além ainda, das ações de forças internacionais em defesa de interesses corporativos, como a utilização da Onu em conflitos no Iraque, Afeganistão, Haiti (antes do terremoto), ou ainda, a atividade policial do mais neofascista dos estados atuais, Israel. Em geral, representam o exército de fato que as potências imperialistas já não podem mais mostrar as caras sem parecer belicismo fascista claro.

Israel aliás, é emblemático neste sentido, pois mostra como a criação de consenso democrático e o apoio absoluto da maior força material e militar do mundo (EUA) pode criar uma democracia fascista. Israel violou muito mais tratados da ONU do que a odiada Cuba e mesmo do que o IRã, matou mais civis que a Coréia do Norte e é mais militarizado do que a China. Recentemente, não pela primeira vez, atacou um comboio de ajuda humanitária aos famintos da Faixa de Gaza, não muito diferente do que o fascismo alemão ou russo fizeram durante a Segunda Guerra. É triste ver o estado israelense fazendo em tão claras ações, atitudes dignas do que o que seu povo mais deveriam odiar: o nacionalismo identitário, base mental do fascismo. Não ouso afirmar, como alguns, que Israel se compara aos nazistas pois além disso ser falso e ofensivo, é fato que os campos de extermínio de comunistas, homossexuais, ciganos e judeus, era uma industria de carnificina, verdadeira fábrica de cadáveres que a própria Itália fascista tinha receio, e algo que, felizmente, não irá se repetir da mesma forma. Todavia, o que Israel faz na Palestina e com os países árabes vizinhos, não é muito diferente do que os alemães fizeram durante a ocupação Tchecolováquia, Polônia e Rússia, durante a Grande Guerra, ou fizeram com os próprios dissidentes internos em seus países. Assentamentos irregulares, bombardeios vis, assassinatos frequentes, tortura, massacres, expulsão de moradores históricos da região, reassentamentos em massa, embargos econômicos, destruição de patrimônio cultural, supressão de direitos básicos e acordos humanitários históricos, prisões ilegais. Tudo com o consenso eleitoral que só o medo e o dinheiro podem proporcionar. Assim como fascismo clássico, o novo fascismo também tem no medo, seu principal aliado.

O Estado de Israel a representação política do que a elite ultra-conservadora americana sempre quis fazer nos EUA mas nunca obteve o aval para tal, afinal as tradições democráticas dos EUA são muito mais fortes e arraigadas do que num país recém criado na sombra da culpa ocidental do extermínio judaico. Nas palavras de Bush, o mais explícito dos novo-facistas: “Numa ditadura seria tudo mais fácil”. E é isso que conseguiram em Israel. Todo o ranço fascista americano, os mesmos que sempre defenderam a política do Big Stick, a guerra acima de tudo (lema fascista por excelência) e a submissão do Terceiro Mundo às suas aspirações imperiais, especialmente os que têm petróleo, conseguiram efetivar suas políticas no estado de Israel.

Charge sobre Israel e Gaza

Israel só consegue fazer o que faz com o respaldo da maior força material e militar do mundo, os EUA. Israel é a última empreitada colonial do capitalismo moderno, como nação soberana é inviável, sua economia é largamente sustentada pelos EUA, seja em ajuda militar, envio direto de dinheiro, ou parceria comercial, sua industria e sua base de emprego é altamente baseada na fomentação do exército e indústria bélica, sua exportação chega a quase 10% do consumo mundial de armamentos, a situação de perpétuo conflito em que se encontra é que faz a sua roda economica virar, exatamente como no fascismo clássico. É uma nova Esparta, “precisa guerrear para continuar guerreando” e sustentar sua sociedade. Israel não conhece nem tentou a paz seriamente desde que foi criado, quando quase o fez, um terrorista israelense, anti-árabe e belicoso, matou o líder pacifista israelense, restaurando o conflito a sua perpétua guerra. Quem herdou o poder nem teve a preocupação de retomar a paz anterior, inclusive, antes de descobrirem que se tratava de um israelense de extrema-direita, já saíram acusando e atacando os árabes rivais como de costume. Nunca haverá paz, pois o Estado de Israel é uma força de ocupação colonial no Oriente Médio, e como tal, o povo local resiste como pode.

Israel possui bomba atômica e nem é questionado por isso, Israel já usou munição radioativa (que causou câncer em vários de seus soldados) e nem por isso sofreu embargo ou intervenções ‘pacificadoras’ externas, Israel fere constantemente acordos internacionais anti-bélicos e o direito internacional, ataca constantemente uma nação que sequer tem exército oficial para se defender, e que quando usa das forças paramilitares que tem, altamente e compreensivelmente radicalizadas, é considerado como ato de terrorismo pela ‘inteligenzia’ interionacional, pois não respaldam seus atos em eleições parlamentares ou apoio internacional, apenas na auto-defesa nacionalista. Mas de que outra forma a Palestina se defenderia, se mal tem um Estado para fundamentar suas eleições e legitimar os seus líderes? Quando o Hamaz venceu a eleição recentemente o consenso externo tratou logo de invalidar e desmobilizar este referendo popular. Se todas as ações imperialistas são mascaradas de ações policiais, todas as ações anti-imperialistas são automaticamente consideradas terroristas e bandidas, nunca ações de guerra. Israel é a ponta da lança do novo fascismo americano.

J. L.

Marina Silva, Gabeira, o PV e a direita

Ambição eleitoral e o “fim de histórias”

Gabeira e Eduardo PaesHá um estranho fenômeno na política eleitoral que parece não estar coberto pelos principais guias, livros e artigos sobre o assunto – esse fenômeno que faz determinados políticos profissionais jogarem por terra anos – ou melhor, décadas – de história em prol de alianças bizarras com forças e interesses políticos nefastos numa tentativa até engraçada de tentar o impossível – viabilizar candidaturas eleitorais inviáveis.

Tal síndrome toma de assalto, a cada véspera de eleições gerais ou municipais, a cabeça de muitos políticos profissionais no Brasil. Como um furtivo vírus, esconde-se por trás dos mais duvidosos discursos e ataca duramente nos meses que antecedem os pleitos, confundindo ainda mais uma já confusa percepção que a população brasileira tem – quando tem – da política eleitoral.

Nas eleições que virão nos próximos meses, mais uma vez isso acontecerá. E quero aqui analisar brevemente dois nomes e um partido tomados por esse vírus: a candidata do PV à Presidência da República; o candidato do PV ao governo do estado do Rio de Janeiro; e o próprio Partido Verde.

Começo pela candidata à Presidência. Figura histórica ligada aos movimentos sociais de inspiração católica e aos movimentos ambientais do norte do país, oriunda de um dos estados mais pobres e desabitados da Federação – o Acre. Participa do governo Lula como ministra do Meio Ambiente, onde tem atuação destacada na execução e defesa de suas políticas – evidentemente e por isso mesmo, entrando em constante confronto com outras pastas, especialmente a do Planejamento.

Pois bem, eis que a então ministra recebe a tentadora proposta de abandonar seu partido histórico – o PT, ao qual esteve filiada desde os anos 80 – e o governo Lula para filiar-se ao PV, em nome de uma tal “possibilidade eleitoral concreta” que o PV havia identificado no seu nome, junto ao eleitorado brasileiro. A ministra, então, prontamente atende ao chamado; como se não tivesse nada a ver com toda a sua história, abandona partido, abandona governo; filia-se ao PV; passa quase que imediatamente a adotar um discurso de oposição – de direita. Sugere então, entre outras coisas, que num eventual segundo turno, recomendaria voto em José Serra.

Tudo isso, para quê? Em nome de uma “campanha eleitoral” que, se muito, conseguirá aglutinar 5 ou 10% dos votos nacionais? Campanha promovida por um partido nanico, pequeno-burguês, sem raízes históricas de longa data, sem mídia e sem voto? Campanha baseada num estado desabitado, sequer podendo desfrutar de um voto regional expressivo?

A ex-ministra agora-candidata, como historiadora formada, mulher de lutas e experiência política TEM que saber que as eleições 2010 terão o mesmo caráter plebiscitário que já caracterizou as últimas duas eleições presidenciais: só há atualmente dois projetos políticos eleitoralmente viáveis e considerados – e por isso tornados – “importantes” pela cobertura midiática: um, o do PT; o outro, o do PSDB. Então, que estranho fenômeno é esse que causa tal cegueira na candidata, a ponto de contradizer décadas de história, lutas, coerência e ainda um papel de razoável envergadura no governo em prol de uma candidata presidencial natimorta, sem a mais remota possibilidade de êxito?

Se ao menos a ex-ministra, enquanto candidata à Presidência, será poupada – pelo menos, no 1o turno – de defender, com clareza e com todas as palavras, as forças e interesses políticos mais reacionários que supostamente sempre combateu – por força de estar disputando a Presidência contra a própria chapa orgânica dessas forças, o que dizer então do candidato do PV ao governo do estado do Rio de Janeiro?

Pois bem, este – em função da virtual inexistência, no estado do Rio, do PSDB; e da virtual destruição, após oito (ou doze ou dezesseis) anos de César Maia, do PFL-DEM – articulará uma chapa estadual com esses dois partidos e seus candidatos que representam basicamente o que há de mais conservador na política e na sociedade brasileiras nos tempos de hoje. Fornecerá, certamente, importante palanque à candidatura conservadora de José Serra.

De forma cretina e hipócrita, sabendo da rejeição de seu eleitorado – tradicionalmente a classe média liberal, de “esquerda” – à essas forças orgânicas do PSDB e PFL-DEM, o candidato do PV ao estado do RJ ainda tentará, de todas as formas, se desvincular dos candidatos mais rejeitados ao Senado e à Câmara dos Deputados de sua chapa – leia-se, principalmente, o próprio César Maia. Não poderá, no entanto, fugir do fato de que será ele o candidato da coligação conservadora ao governo do estado do Rio.

Assim como a candidata à Presidência da República, o candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro, em nome de uma candidatura eleitoralmente inviável – posto que o atual governador do Estado, com base eleitoral entre o vasto eleitorado das classes baixas (o que para mim soa tragicômico), apoiado pelas igrejas evangélicas e pelo governo Lula, será, salvo uma catástrofe, facilmente reeleito -, joga por terra sua história de oposição ao regime militar, ao conservadorismo, ao desrespeito aos “direitos humanos” e à discriminação de gênero e opção sexual ao optar por um suporte reacionário-conservador à uma candidatura sem qualquer chance de êxito.

Delírios eleitorais povoam a mente desses senhores e de seu partido. Os desconecta totalmente da realidade. Em nome de candidaturas inviáveis, que já nascem derrotadas, entram em total contradição com sua história; a questionam, parecem querer jogá-las no lixo. Talvez caiba então perguntar: construiram mesmo uma história, ou tudo não passava de uma fraude, exposta nua e cruamente no alvorecer do mais rasteiro oportunismo?

A.G.

Particularismo: doença infantil do ativismo

Flash Mob

Flash Mob: o coletivo de imbecis

Parodio o título de famoso livro para lembrar deste fenômeno contemporâneo que é o ativismo particularista. Isto é, o crescente interesse das pessoas em se reunirem coletivamente para expressar não vontades coletivas, mas suas escolhas pessoais, para se auto-afirmarem enquanto indivíduos, expressar coletivamente sua decisão particular.

O particularismo é um fenômeno de desintegração da sociedade na qual as partes de um conjunto vivem como se à parte do todo que estão inseridos. Indica que os indivíduos e grupos de indivíduos, deixam de se sentir como parte de um todo maior, e em conseqüência deixa de compartilhar os sentimentos dos demais. É o fenômeno da atomização dos indivíduos, do isolamento de cada pessoa em um sujeito isolado, alienado do mundo que o cerca, forçosamente passivo diante dos problemas que o cercam.  Hoje em dia é mais fácil encontrarmos todo o tipo de manifestações em prol de afirmações individuais do que expressando vontades coletivas.

As reuniões de afirmação cristãs costumam reunir 1 milhão de pessoas sem esforço nos dias de hoje (uma delas inclusive, parou o Rio no dia de Tirandentes), mas todas elas têm conteúdo político zero, em geral afirmam variáveis do “Eu sou cristão e tenho orgulho disso” ou coisas do tipo. Quando digo político não quero dizer partidário, pois atualmente o mais comum é figuras políticas (partidárias) aparecerem em reuniões cristãs, mas sim relacionado e preocupado com acontecimentos da “pólis” (da cidade, da sociedade). Não vou entrar no mérito de escolha religiosa, mas como análise política até as passeatas cristãs do passado tinham forte conteúdo social, exemplo foi o movimento direitaço Tradição Família e Propriedade dizia “Eu sou cristão e não gosto do que estes comunistas estão fazendo”, forte viés político ainda que de caráter altamente duvidoso. Não, hoje o interesse das reuniões cristãs é puramente auto-afirmativo, mostrar ao mundo que são cristãos – e vazios de idéias -, além é claro, de promover a eleição de outro traste para a Nobreza de Brasília ou local. O que estas reuniões monumentais fazem em prol da população oprimida que estão largamente representadas nestes quadros? Nada, absolutamente nada. Pobre e violento ao aceitar Deus vira pobre pacato e submisso. As elites adoram, problema resolvido.

Da mesma maneira, outro claro exemplo são as manifestações de orgulho gay que vemos no brasil, muitas chamadas de Gay Parade e etc. Antes de mais nada: longe de mim colocar qualquer posição retrógrada aos direitos homossexuais, ao contrário, penso que como cidadãos têm direto de fazer qualquer coisa, casar, adotar crianças, ir e vir como qualquer outro. E que isso fique bem claro, jamais defenderei posição contrária. E reitero que é evidente que o problema do preconceito deve ser levantado, debatido em todos os círculos sociais, porém, o que me refiro no presente texto é como esta aglomeração se dá num contexto individualista e isolado. O conteúdo político do movimento gay, como tem se apresentado nos dias de hoje, é praticamente nulo, é individualista e meramente auto-afirmativo, alienado em relação a sociedade que o cerca. Eu pergunto: tá você é gay, mas e daí? o que você vai fazer a respeito dos 3/4 da população oprimida do mundo? Das 16 horas de trabalho diárias que estamos sujeitos no Brasil? Dos salários irrisórios? Dos desmandos de nossos governantes? O que você vai fazer? Nada? Foi o que pensei, agora que a sociedade já o aceita, seus problemas acabaram. Alguém pode me dizer o que defendia Clodovil enquanto deputado federal pelo Partido Trabalhista Crisão (coincidência?), eleito com maciços votos de homossexuais? Ele se mostrou abertamente contra o casamento gay e o movimento homossexual brasileiro, além de soltar expressões anti-semitas e racistas. Difícil exemplo melhor para o que tento explicar. Seu conteúdo político conseguia ser inferior ao da Mãe Loira, ou seja, absolutamente particularista, individual e ausente de idéias. Mostra outro exemplo claro de como um movimento que no passado foi altamente progressista e alinhado com as lutas sociais das esquerdas, se tornou um movimento alienado, vazio e festeiro.

Não poderia deixar de falar das massas futebolísticas, paixão nacional. É impressionante como partes da população se reunem para apedrejar ônibus de jogadores, destruir sedes esportivas e protestar contra a pífia atuação de seus times a ponto de soltar bombas em treinos e sair no tapa com os jogadores. Enquanto o canalha que este mesmo grupo de pessoas elegeu para a Nobreza, quer dizer, para o Congresso, está pintando e bordando impunemente. O mais impressionante é que jogador de time o povo não escolhe, campeonato não é escolha. Eleição é escolha, apedrejar sede de políticos é protesto de fato. Pessoalmente sou apaixonado por futebol, mas só um completo alienado para não observar como essa paixão é direcionada pelo povo. Pode ser conspiração demais para alguns, mas particularmente não acho que seja coincidência que as eleições presidenciais sejam em ano de Copa do Mundo. Antes do Golpe Empresarial-Militar de 1964 não eram em ano de copa, e o Brasil já era duas vezes campeão do mundo, a paixão era enorme como é hoje (em 54 até apedrejamos embaixada de outro país por conta de humilhações futebolísticas). Enfim.

A internet nos deu novas formas de união, interação e comunicação. O chamado cyber-ativismo é a base das organizações modernas, vários movimentos recentes e esmagadores protestos foram feitos graças a internet. Só para lembrar 1998 em Seattle, 2000 em Washington, 2001 em Genova, os Forum Social Mundial, todas as reuniões do G8 nos últimos anos, as seguidas manifestações recentes da Grécia, enfim, uma série de protestos maciços, com mais de 50 mil pessoas em cada, alguns chegando a 300 mil, foram fortemente e rapidamente organizados graças a internet.

No entanto, no que facilitou a prática de movimentos com conteúdo, progressistas, facilitou formas muito mais estúpidas e maciças de organização. A mais notável é o flashmob. “Todos ao mesmo tempo vamos deitar no meio da rua” ou “vamos andar com a camisa do avesso”. Desculpem o termo: Porra!! Que desperdício de capacidade e tempo, que deserto intelectual. E esse tipo de ‘genialidade’ ainda é reverenciado na TV como revolucionário. Isso me lembra o videozinho abaixo (está em inglês, mas posso colocar uma tradução).

Basicamente diz de uma maneira muito bem humorada: ver tv emburrece e muito.

Em linhas gerais, ativismo não é sinônimo de algo produtivo ou mesmo progressista como muitas vezes os meios de comunicação deixam a entender. O ativismo particularista é vazio de propósito, é auto-afirmativo apenas como identificação individualista, não questiona, apenas reafirma o sistema e é por isso que cada vez mais ganha atenção na grande mídia. Se 100 pessoas fazem um panelaço na Cinelândia pela Reforma Agrária, não passa nem perto da grande mídia, mas se 25 pessoas fazem um Flash Mob sentados na Avenida Paulista, ganham até programa na emissora.

Concluindo, ainda que o ativismo particularista não seja exclusivo dos dias de hoje, mais do que nunca, hoje ele se faz presente em nossa sociedade como força arrebatadora de desagregação e emburrecimento. O paradoxo é que este fenômeno se tornou mais forte a medida que a tecnologia nos deu mais acesso à informação, cultura, facilitou a comunicação e o transporte de multidões. Como é possível que hoje, com todos os meios de contato entre as pessoas, internet, celular, blogs, facebooks, twitters, orkuts, a sociedade está cada vez mais desagregada enquanto coletividade? Mais particularista? Mais atomizada? As pessoas não se sentem cada vez mais isoladas? Todas as formas de organização coletiva tradicionais estão enfraquecidas, partidos, sindicatos, no entanto comunidades virtuais crescem vertiginosamente. O ativismo particularista sempre me lembra do Cazuza: “Ideologia, eu quero uma para viver”; além é claro de me lembrar que meus inimigos continuam no poder.

Enfim, muito pano para manga essa história ainda tem para dar e voltaremos a discuti-la.

J. L.