Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Brasília, Versalhes Tupiniquim

Brasília

Brasília: a Versalhes Brasileira

Brasília, Versalles Tupiniquim

A construção de Brasília é um dos maiores atentados à democracia já realizado contra o povo brasileiro na era republicana. Se equipara ao Golpe de 64, aos anos brutais de Vargas, aos Decretos de FHC, ao Voto de Cabresto do início do século XX. É um afronte ao direto de protesto, a participação popular no cotidiano do poder e à transparência e visibilidade da ação dos governantes.

Brasília tinha um papel explícito: povoar uma área isolada do território brasileiro. Se este fosse o principal papel dela, seria algo interessante, mas consigo pensar em diversas maneiras de se fazer isso sem precisar privar o povo da presença de seus líderes principais. Poderia ter sido um bom lugar para uma Reforma Agrária baseada na pequena propriedade e nicho industrial ligado ao campo, algo aliás feito em pouquíssimas partes do país. Ou ainda um grandioso polo industrial, como a Rússia fez para lá dos Urais durante os anos 30, poderia ter sido erguido ali. Talvez mesmo, numa decisão mais radical, poderiam erguer uma Las Vegas no meio do cerrado. Embora esta última solução não resolva o problema da bandidagem, esquemas e jogatinas rotineiros na nossa atual capital.

Havia um papel papel implícito muito mais importante na construção da nova cidade: retirar a capital dos efervescentes núcleos populacionais do Rio e São Paulo. Vale lembrar, para os que acham que o povo brasileiro não tem tradição de brigas e levantes que em 1917 e 18 Rio e São Paulo viveram greves populares gerais, com governos depostos e outras atividades altamente relevantes para o princípio democrático. Na década de 20, os tenentes com certo apoio popular causaram diversos problemas no Rio e em outras partes do país num levante contra o governo fraco da época. Na década de 1930, Rio e São Paulo explodiam com passeatas comunistas, anarquistas e fascistas. Todos metendo o pau no governo que “estava ali do lado”, onde as pedras e os molotovs alcançavam vez ou outra. Imagine se o Rio ainda fosse a capital durante a Marcha dos 100 mil em 1968? Certamente ou iriamos derrubar a ditadura precocemente ou iriamos iniciar um guerra civil sem precedentes em nossa história. Mas enquanto isso, 1.300km dali os governantes riam da nossa cara e endureciam o regime, com vista de camarote.

A mudança da capital para Brasília colaborou fundamentalmente para o apaziguamento e formação da apatia política brasileira que conhecemos hoje. Nosso povo não vivia nessa melancolia que conhecemos. Protestar contra as mazelas corriqueiras de nossas vida era uma atividade normal de nossos avós e bizavós. Os partidos mais radicais da época tinham números astronômicos de filiados e outro maior ainda de simpatizantes. O Partido Comunista chegou a ter 300 mil afiliados nos anos 30, número extremo para um partido que estava sempre sendo jogado para ilegalidade e perseguição. Da mesma forma os integralistas chegaram a ter mais de 1 milhão em seu auge por volta de 1935 e 36, embora tivessem certa simpatia dos governos. A grande maioria destes dois nichos radicais que tomei como exemplo, estavam em Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. Vale lembrar que estes dados em 1935 significavam que 2,5% da população brasileira inteira era filiada ao Integralismo e quase 1% era filiada ao Partido Comunista. Se esse dado fosse transportado para hoje, seriam 5 milhões de filiados no Integralismo e quase 2 milhões no Partido Comunista. Só para ter uma idéia o maior partido brasileiro hoje é o PMDB com pouco mais de 2 milhões de inscritos. Estes dados de 1935, se transpassados para hoje colocariam o partido fascista Integralista como maior partido do país e o partido comunista como terceira potência eleitoral. Então, 75 anos, uma Brasília, uma Ditadura e uma Rede Globo depois, o povo brasileiro é um pacífico e melancólico poodle envelhecido que não late nem quando lhe retiram o seu pote de comida.

Voltando a Brasília. Alguns detalhes arquitetônicos revelam outros detalhes desta anti-democrática capital: avenidas largas para evitar aglomerações e facilitar a passagem de tanques e veículos opressores maiores; espaçamento largo entre os prédios para facilitar a defesa em caso de levantes, evitando barricadas, um problema que era comum no Rio e São Paulo. Mas o principal é sua localização: longe de qualquer alma viva para reclamar e uma dificuldade imensa de acesso pelas massas, pois afinal, nunca se construiu trens no Brasil. É como se os EUA retirassem sua capital de Washington e colocassem em Casper, Wyoming, ou a Rússia retirasse a capital de Moscou e colocasse nas fronteiras da Sibéria.

Porém, há de se fazer uma mea culpa neste ataque fulminante à Brasília. Protestos podem ser feitos de qualquer parte de país que, dependendo do tamanho, seriam visíveis o suficiente para causar problemas aos líderes que nos ‘descomandam’. A virtualização do poder com a tecnologia diminui as distâncias, para o bem ou para o mal, isto é, existe também uma certa virtualização do protesto, no entanto, ainda é fato que “a arma da crítica não supera a crítica das armas”, isto é, reclamar a distância é uma coisa, fazer barricada na frente do palácio do governo é outra bem diferente. E se fazemos bem pouco do primeiro, quase zero fazemos do segundo.

Além disso, adiciona-se que a apatia não está condicionada à distância do poder somente. Prefeitos e governadores que também “moram aqui do nosso lado” sofreram pouquíssimo com nossos levantes e reclamações constantes nos últimos tempos, nada comparável às décadas de 1910 a 1960. Aqui no Rio é mais fácil reunir 1 milhão numa passeata de afirmação particularista do que 10 mil num protesto contra mazelas coletivas. Outro detalhe também em defesa dos brasilienses e que nos indica uma possível mudança, é a radical posição que se formou nas ruas em relação ao pústula do Arruda, que em caso recente, mas nada surpeendente, se envolveu em alta maracutaia.

No entanto, o ‘espírito de Brasília’ é bem o resumo da nossa elite nobiliárquica, medrosa e retrógrada, o clássico e radical exemplo da modernização conservadora. Ocupa e desenvolve o centro do país mas recua um século em conquistas democráticas e dinamismo político, afastando o centro de controle dos centros de produção. Num país onde o estado começava a ser visível (anos 30 a 50), Brasília é um passo atrás, rumo ao tempo pré-republicano onde o Estado só aparecia em regalias reais e para dar porrada no povo. Brasília é uma Versalhes tupiniquim, antro de nobres e seus vassalos, sugando das tetas de um estado gordo, descompromissado e prepotente, uma ode à organização imperial que a elite brasileira sempre quis (man)ter. Brasília é 150 anos de retrocesso em 50 de história.

J. L.

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5 Respostas para “Brasília, Versalhes Tupiniquim

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