Rio Revolta

Análise Política, Histórica, Econômica e Social

Arquivos Mensais: abril 2010

“Revista” Veja, a mídia panfletária e a “liberdade de imprensa”

Curioso o discurso – repetido à exaustão – em prol da tão propagada “liberdade de imprensa”: afinal, o que é e a quem serve essa imprensa no Brasil contemporâneo?

O que podemos chamar, sem sombra de dúvidas, de uma “imprensa livre”? Livre do que? Livre para que? Livre para quem?

A edição da “Revista” Veja de 21.04.2010 é mais um claro exemplo disso: afinal, a imprensa é “livre”, “neutra” e “imparcial” para informar?

A única coisa comprovadamente neutra da qual já tomei conhecimento é sabão. Fora isso, nada nem ninguém é neutro. Mídia, escritores, políticos, jornalistas, técnicos de futebol. Nada. Onde quer que existam seres humanos envolvidos, não há nem pode haver neutralidade. A razão é muito simples: cada ser humano tem suas experiências, expectativas, desejos, repulsas, valores, sua visão de mundo; não há nada que esse ser humano possa fazer – muito menos, pensar e escrever – que não sofra, de uma forma ou de outra, influências de sua personalidade, de seus gostos e desgostos. Não existe neutralidade: tudo que é escrito tem uma visão de mundo, expressa e oculta interesses. Inclusive isso que estou escrevendo aqui. Não se trata de escolher ser neutro ou imparcial; isso não existe. É um discurso que a mídia adota para legitimar-se; para dar a aparência de “verdade” ao que não passa de opinião.

Pois bem, uma vez adotada essa percepção, dar-se-á um fantástico passo no sentido de não se deixar ludibriar por qualquer tipo de “imprensa” – desde o “Inverta” dos comunistas (“comunistas”?) até o “Mídia sem Máscara” do Sr. Olavo de Carvalho – passando, é claro, pela “Veja” de José Serra.

Se conseguirmos substituir em nossa concepção a palavra “imprensa” por “discurso”, faremos então um trabalho ainda melhor à nossa mente – pois “imprensa” não passa de um discurso que, ao invés de falado, está impresso. E por via desse fantástico recurso criado pelo alemão Gutenberg no século XV, pode atingir uma audiência de massas. Então, teremos como resultado que, ao ler, ver e ouvir qualquer veículo midiático, devemos estar conscientes de que se trata de uma mensagem concebida dentro – e a favor – de uma visão de mundo.

Pois é exatamente assim que devemos olhar para a “Veja” – não só em sua “edição José Serra”, mas cotidianamente -; não se trata de uma revista, mas sim de um discurso, um panfleto. Tão panfletária quanto o mais famoso dos panfletos, o “Manifesto do Partido Comunista”; apenas, serve à uma outra causa.

Veja: a imprensa livre de qualquer tendência.

A meiga foto da capa; a sutileza(?) do “Brasil pós-Lula”; a comovente frase – “me preparei a vida toda para ser presidente”; o conteúdo da reportagem (que poderá ser conferido no link abaixo). Compare com a edição “dedicada” à Dilma, algumas semanas antes.

Veja: a imprensa livre de qualquer tendência.

Imprensa livre?” Sim, a imprensa está livre: para escrever o que quiser, quando e como quiser; para manipular – através de palavras ou símbolos – como quiser; livre para ser tendenciosa; livre para dar por encerrados governos e eras – enquanto eles ainda estão aí; livre para decidir quais são os “candidatos importantes” nas eleições – afinal, os candidatos e seus projetos que estão na mídia lá aparecem porque são os candidatos eleitoralmente mais expressivos ou são os candidatos e projetos eleitoralmente mais expressivos porque aparecem na mídia?

Imprensa livre”? Sim, a imprensa está livre – e a consciência está presa.

Jamais devemos permitir que outros pensem por nós. Mas essa é uma tentação muito cômoda, da qual é especialmente difícil fugir, pois pensar dá trabalho e causa sofrimento.

Veja edição José Serra:

http://veja.abril.com.br/210410/com-casa-ordem-serra-vai-luta-p-062.shtml

OBS – no final do artigo, “Veja” chega a justificar – astrologicamente – a vitória de Serra. Obsceno.

Veja edição Dilma Roussef:

http://veja.abril.com.br/240210/candidata-conquista-ninho-p-050.shtml

OBS – “ Veja” “esqueceu” de publicar o horóscopo da vitória de Dilma.

A. G.

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Brasília, Versalhes Tupiniquim

Brasília

Brasília: a Versalhes Brasileira

Brasília, Versalles Tupiniquim

A construção de Brasília é um dos maiores atentados à democracia já realizado contra o povo brasileiro na era republicana. Se equipara ao Golpe de 64, aos anos brutais de Vargas, aos Decretos de FHC, ao Voto de Cabresto do início do século XX. É um afronte ao direto de protesto, a participação popular no cotidiano do poder e à transparência e visibilidade da ação dos governantes.

Brasília tinha um papel explícito: povoar uma área isolada do território brasileiro. Se este fosse o principal papel dela, seria algo interessante, mas consigo pensar em diversas maneiras de se fazer isso sem precisar privar o povo da presença de seus líderes principais. Poderia ter sido um bom lugar para uma Reforma Agrária baseada na pequena propriedade e nicho industrial ligado ao campo, algo aliás feito em pouquíssimas partes do país. Ou ainda um grandioso polo industrial, como a Rússia fez para lá dos Urais durante os anos 30, poderia ter sido erguido ali. Talvez mesmo, numa decisão mais radical, poderiam erguer uma Las Vegas no meio do cerrado. Embora esta última solução não resolva o problema da bandidagem, esquemas e jogatinas rotineiros na nossa atual capital.

Havia um papel papel implícito muito mais importante na construção da nova cidade: retirar a capital dos efervescentes núcleos populacionais do Rio e São Paulo. Vale lembrar, para os que acham que o povo brasileiro não tem tradição de brigas e levantes que em 1917 e 18 Rio e São Paulo viveram greves populares gerais, com governos depostos e outras atividades altamente relevantes para o princípio democrático. Na década de 20, os tenentes com certo apoio popular causaram diversos problemas no Rio e em outras partes do país num levante contra o governo fraco da época. Na década de 1930, Rio e São Paulo explodiam com passeatas comunistas, anarquistas e fascistas. Todos metendo o pau no governo que “estava ali do lado”, onde as pedras e os molotovs alcançavam vez ou outra. Imagine se o Rio ainda fosse a capital durante a Marcha dos 100 mil em 1968? Certamente ou iriamos derrubar a ditadura precocemente ou iriamos iniciar um guerra civil sem precedentes em nossa história. Mas enquanto isso, 1.300km dali os governantes riam da nossa cara e endureciam o regime, com vista de camarote.

A mudança da capital para Brasília colaborou fundamentalmente para o apaziguamento e formação da apatia política brasileira que conhecemos hoje. Nosso povo não vivia nessa melancolia que conhecemos. Protestar contra as mazelas corriqueiras de nossas vida era uma atividade normal de nossos avós e bizavós. Os partidos mais radicais da época tinham números astronômicos de filiados e outro maior ainda de simpatizantes. O Partido Comunista chegou a ter 300 mil afiliados nos anos 30, número extremo para um partido que estava sempre sendo jogado para ilegalidade e perseguição. Da mesma forma os integralistas chegaram a ter mais de 1 milhão em seu auge por volta de 1935 e 36, embora tivessem certa simpatia dos governos. A grande maioria destes dois nichos radicais que tomei como exemplo, estavam em Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. Vale lembrar que estes dados em 1935 significavam que 2,5% da população brasileira inteira era filiada ao Integralismo e quase 1% era filiada ao Partido Comunista. Se esse dado fosse transportado para hoje, seriam 5 milhões de filiados no Integralismo e quase 2 milhões no Partido Comunista. Só para ter uma idéia o maior partido brasileiro hoje é o PMDB com pouco mais de 2 milhões de inscritos. Estes dados de 1935, se transpassados para hoje colocariam o partido fascista Integralista como maior partido do país e o partido comunista como terceira potência eleitoral. Então, 75 anos, uma Brasília, uma Ditadura e uma Rede Globo depois, o povo brasileiro é um pacífico e melancólico poodle envelhecido que não late nem quando lhe retiram o seu pote de comida.

Voltando a Brasília. Alguns detalhes arquitetônicos revelam outros detalhes desta anti-democrática capital: avenidas largas para evitar aglomerações e facilitar a passagem de tanques e veículos opressores maiores; espaçamento largo entre os prédios para facilitar a defesa em caso de levantes, evitando barricadas, um problema que era comum no Rio e São Paulo. Mas o principal é sua localização: longe de qualquer alma viva para reclamar e uma dificuldade imensa de acesso pelas massas, pois afinal, nunca se construiu trens no Brasil. É como se os EUA retirassem sua capital de Washington e colocassem em Casper, Wyoming, ou a Rússia retirasse a capital de Moscou e colocasse nas fronteiras da Sibéria.

Porém, há de se fazer uma mea culpa neste ataque fulminante à Brasília. Protestos podem ser feitos de qualquer parte de país que, dependendo do tamanho, seriam visíveis o suficiente para causar problemas aos líderes que nos ‘descomandam’. A virtualização do poder com a tecnologia diminui as distâncias, para o bem ou para o mal, isto é, existe também uma certa virtualização do protesto, no entanto, ainda é fato que “a arma da crítica não supera a crítica das armas”, isto é, reclamar a distância é uma coisa, fazer barricada na frente do palácio do governo é outra bem diferente. E se fazemos bem pouco do primeiro, quase zero fazemos do segundo.

Além disso, adiciona-se que a apatia não está condicionada à distância do poder somente. Prefeitos e governadores que também “moram aqui do nosso lado” sofreram pouquíssimo com nossos levantes e reclamações constantes nos últimos tempos, nada comparável às décadas de 1910 a 1960. Aqui no Rio é mais fácil reunir 1 milhão numa passeata de afirmação particularista do que 10 mil num protesto contra mazelas coletivas. Outro detalhe também em defesa dos brasilienses e que nos indica uma possível mudança, é a radical posição que se formou nas ruas em relação ao pústula do Arruda, que em caso recente, mas nada surpeendente, se envolveu em alta maracutaia.

No entanto, o ‘espírito de Brasília’ é bem o resumo da nossa elite nobiliárquica, medrosa e retrógrada, o clássico e radical exemplo da modernização conservadora. Ocupa e desenvolve o centro do país mas recua um século em conquistas democráticas e dinamismo político, afastando o centro de controle dos centros de produção. Num país onde o estado começava a ser visível (anos 30 a 50), Brasília é um passo atrás, rumo ao tempo pré-republicano onde o Estado só aparecia em regalias reais e para dar porrada no povo. Brasília é uma Versalhes tupiniquim, antro de nobres e seus vassalos, sugando das tetas de um estado gordo, descompromissado e prepotente, uma ode à organização imperial que a elite brasileira sempre quis (man)ter. Brasília é 150 anos de retrocesso em 50 de história.

J. L.

Lobo em Pele de Cordeiro

César Maia e o choro vermelho.

Olá amigos do Rio Revolta,

Agora falaremos de um assunto que por muitos anos revoltou os colunistas do Rio Revolta durante seus anos acadêmicos. A revolta agora é contra um tipo comum encontrado nas universidades cariocas, públicas ou privadas, e que irritam muita gente e enganam os desavisados. Estou falando dos revoltadinhos pequeno-burgueses do tipo “fui ativista político durante a faculdade e agora tentarei ser vereador”. Inclusive penso que este assunto seja comum em outras universidades pelo Brasil, mas como estamos no Rio, escreverei com a experiência das universidades cariocas.

Todos que frequentam o meio universitário conhecem bem o tipo. Eles tem fala mansa e bem articulada. É aquele “estudante” profissional, mas que estudar mesmo faz pouco. Pega uma matéria por período, se forma em centenas de semestres – quando se forma, pois muitos trancam -, é especialista em interromper aulas para falar sobre os tópicos da sua chapa na eleição do corpo estudantil ou quanto suas propostas são superiores em relação a outra chapa de semelhantes proto-ativistas. Enquanto isso é comum observarmos em volta da universidade guetos que mal tem assistência/cobertura do Estado que eles pretendem tomar; ou mesmo quando a própria universidade carece de recursos primários como limpeza, elevadores e segurança (a UERJ vem a mente aqui). Também é comum vê-los jogando sinuca no DCE, aglomerados em choppadas ou no bar mais próximo discutindo a supremacia do “comunismo” chinês e o obviedades aparentemente engajadas como os EUA e o petróleo no Oriente Médio. O nível de “seriadade” é tão grande que não é raro encontrá-los no interior da faculdade fumando maconha. Deixo claro que sou a favor da liberalização das drogas, mas defendendo ou não o uso da cannabis, o seu uso dentro das instalações da universidade é intolerável em qualquer contexto, legal ou ilegal, como o é o do álcool na maioria das universidades e do tabaco em algumas. É uma questão de seriedade.

Considero importante ressaltar que não critico diretamente as eleições universitárias, elas são fundamentais para a existência de um diálogo entre corpo estudantil e corpo docente e para debate das questões nacionais envolvendo o mundo universitário. Porém, existe um problema de desinteresse similar ao que temos com nossas eleições gerais para os biltres de Brasília. Na universidade, no entanto, ainda existe um agravante: a grande maioria das pessoas não faz idéia das responsabilidades do Corpo Estudantil, qual sua função, poder, estrutura e relação com a reitoria da instituíção. Se no geral as pessoas já são negligentes quanto ao seu senador ou prefeito que votaram, ambos cargos que – supõe-se – sabemos qual o papel deles na estrutura de poder, o que dirá num ambiente transitório (para muitos) que é a universidade. Poucos dão alguma atenção. De fato, existe um vácuo educativo para os alunos: nos meus cinco anos de faculdade, raríssimos foram os debates sobre a função prática e o poder real que o DCE dentro da universidade e isso eu tive de me esforçar como aluno para tentar saber mais a respeito, 90% dos estudantes não se dá a esse trabalho.

Esclareço também, que minhas críticas não se direcionam a ativistas universtários sérios. Estes conheci alguns, altamente respeitáveis e exemplos que admirei e muitas vezes segui. É emblemático notar que nenhum destes seguiu carreira política partidária, tentando ser outro nobre no Congresso. Durante a faculdade e depois até, faziam seu trabalho silencioso, estudando com afinco, frequentando aulas, participando pragmaticamente do mundo acadêmico, descobrindo os pormenores e dificuldades da tarefa hercúlea que resolveram escolher: tornar o mundo um lugar mais justo. Estes, são os que realmente fazem as mudanças, que fazem a roda da história mudar. De maneira alguma são eles os que me irritam.

Esses proto-revoltosos, se utilizam da universidade como palanque eleitoral para cimentar sua futura carreira política, muitas vezes inclusive já possuem parentes que adentraram o meio político. No geral, no entanto, sua carreira política começa em algum inexpressivo partido de extrema esquerda e vai gradativamente rumando para a direita, até acabar como José Serra, Lindberg Faria, Fernando Gabeira ou o exemplo de mudança radical, César Maia. Seu conteúdo político é bastante superficial e passa da defesa cega de uma revolução bolchevique no Brasil, soltando clássicos clichês de Marx e Lenin – embora tenha lido muito pouco dos dois – até a defesa da Luta Armada, isso quando o mais próximo que chegaram de uma arma provavelmente foi a do segurança da boca onde volta e meia vão comprar maconha quando o delivery tá em falta. Aliás, falando de armas, não que a nossa casta política e governante não mereça umas boas rajadas, isso merecem sim, mas Luta Armada no Brasil, maoísmo e foquismo tupiniquim são de uma ingenuidade primária, ativismo de colegial.

Não raro também, é ver estes pseudo-ativistas, muitos anos depois, esquecerem completamente o que pareciam pregar, inclusive indo diretamente contra seus antigos ideais, chegando até a criação da frase apócrifa de FHC: “esqueçam o que eu escrevi”. FHC por sinal, exemplifica muito bem a ingenuidade dos desavisados de sua época (e ainda de hoje). Qualquer pessoa que tenha lido e compreendido o que os livros que o consagraram como intelectual, todos do final dos anos 60 e início de 70, a saber: “Dependência e Desenvolvimento na América Latina”, “Mudanças Sociais na América Latina” e “O Modelo Político Brasileiro”; pode afirmar sem a menor dúvida que ele sempre foi pelego, defensor dos interesses de elites nacionais e estrangeiras e do capitalismo dependente brasileiro, nas claras palavras de Mario Maestri: suas concepções sempre foram “conservadoras, antipopulares e pró-imperialistas” (Maestri) Uma esquerda altamente imbecilizada o seguiu e uma direita ainda mais imbecil o baniu.

Assim, concluo a minha exposição destes farsantes pseudo-revoltados. Reafirmo minha intenção de expor sua face ridícula e mostrar que eles não enganam a todos. Sua mente combativa e discurso de esquerda são todos da boca pra fora e em poucos anos é fácil notar suas reais intenções oportunistas em suas posições durante sua vida acadêmica. O lobo muitas vezes está vivendo entre os cordeiros.
J.L.

Ir e vir no Hell de Janeiro

Caos no trânsito

Caos cotidiano.

Aproveito o acidente recente (16 de Abril) do trem da SuperVia para escrever sobre algo que há muito me incomoda: a lambança que é o “ir e vir” no Rio de Janeiro.

O trânsito é uma merda, os ônibus são uma merda, os trens são uma merda, o metrô – que agora realmente é utilizado – também se tornou uma merda. Em todo lugar é uma lambança só, nem como pedestre você escapa. São carros fechando a passagem em cima da faixa, parados nas calçadas, estas por sinal em geral mal conservadas, barulho ensurdecedor de buzinas e superposição de motores barulhentos, ônibus fechando cruzamentos importantes, ruas e trajetos mal desenhados, guardas de trânsito fazendo figuração, ou melhor, apenas alertas para aplicação de multas. Organizar que é bom, nada.

Você pega um ônibus, que são caminhões velhos adaptados com motores recondicionados e de baixa qualidade, e nota que é impossível passar um dia “indo e vindo” no Rio, sem notar o descaso completo do transporte público carioca. Aliás, de público mesmo só os usuários, pois é privatizado e muito lucrativo para os patrões, constituindo dos lobbies mais poderosos da cidade. É a velha tática de organização econômica Público-Privada brasileira: o Estado entra com o dinheiro e as Empresas entram captando os lucros, socializando os prejuízos com a população e privatizando os lucros.

Esse velho assalto vil nós já vimos em outras situações, mas no transporte público é mais descarado, chega a demonstrar o quão otários somos todos nós. O exemplo mais evidente desta situação foi a implementação do metrô, aquele mesmo que o Rio Revolta disse ironicamente uns dias atrás: o mais abrangente, eficiente e barato do país [Coff! Coff !Coff! tosse para disfarçar a mentira]. Esta merda subterrânea sobre trilhos levou mais de 20 anos para ter uma malha mínimamente viável e bilhões dos contribuintes quando ‘do nada’ – nos Anos de Saque e Pilhagem – o governo em nome da eficácia, bom serviço, modernidade e outras balelas neoliberais para pegar otário, privatizou uma empresa lucrativa, organizada e com pouquíssimas reclamações que era o Metro carioca. Alguns podem pensar “é mais o metrô era pequeno e precisava de expansão”. Lógico, concordo, mas aí é que nós contribuintes entramos com a bunda e o alto patronato entra com a pica: o governo continuou responsável por todos os investimentos de expansão. Que conveniente, “nós entramos com o dinheiro e vocês captando os lucros”.

Não muito diferente é a situação dos trens. Eu diria que é ainda pior que o ônibus. A falta de manutenção gritante, insegurança, superlotação – SEM ar condicionado – , desconforto, abuso e claro uma malha altamente duvidosa (mas problema ferroviário não é exclusividade carioca, o Brasil todo é uma merda neste quesito). Além de tudo ainda corre-se o risco de levar chicotada dos “bem treinados” agentes de segurança, capatazes modernos prontos para açoitar e oprimir a população.

Vale notar que o processo de pilhagem dos brasileiros também ocorreu nos trens do rio. Sendo largamente utilizado até fins de 1970 e anos 80, o conhecido esquema de “Sucatear e Vender” tornou rapidamente o trem que transportava 1 milhão de pessoas por dia numa minhoca de merda sobre trilhos. É curioso lembrar que o sistema de trilhos foi vendido por 280 milhões de dólares, sendo que destes apenas 30 milhões de dólares ficariam com o estado o resto (250) a empresa se comprometia a investir nos próximos 10 anos. PORRA! Na época aproximadamente 150 mil pessoas usavam o trem diariamente (mas com potencial já instalado de até 1 milhão). Se a empresa não fizesse absolutamente nada, com o preço da passagem da época (+- 1,50 dólar; a passagem hoje é bem mais cara) seriam 225 mil brutos por dia e em apenas 3 anos ela arrecadaria os 250 milhões que ela precisaria gastar em 10 anos. Porém, a pica ainda é maior, pois foi com boa parte de nosso dinheiro público que se expandiu, reparou, comprou novos trens e modernizou-se tudo. Novamente entramos com a bunda e o piratas modernos entraram com o pau.

Porém, voltemos ao assunto. O transporte público do rio é uma merda, mas não é só a inoperância, má fé e pilantragem que o tornam assim. O carioca é muito mal educado mesmo. Fechar cruzamento? Nossa especialidade. Parar na calçada? Somos profissionais nisso. Buzinar? Também. É impossível pegar um ônibus no Rio que pare corretamente nos pontos (no recuo) durante o dia todo ou que o motorista fica naquela anda-pára-acelera-freia que frequentemente derruba velhinhos e senhoras por aí.

Os carros, propriedades exclusivas da classe mérdia carioca, são intocáveis, senhores de tudo e todos, entidades supremas no cosmos urbano carioca. Páram em cima da faixa, buzinam, fecham cruzamento. É raro encontrar uma viva-alma que dê passagem para você sair de uma garagem ou de uma vaga. E a fila dupla? irritante. Existem pontos crônicos de fila dupla que parece que nenhuma autoridade ver (provavelmente não lêem os emails periódicos que mando para a ouvidoria da prefeitura…): no centro tem a Rua México, em frente a Secretaria de Estado de Saúde. Uma merda homérica. No reduto das madames a fila dupla em frente a Pizzaria Guanabara e aqueles restaurantes metido-a-besta no final do Leblon. No Grajaú a lambança conhecida é na Praça Verdun. Em Copa existem vários pontos, mas em frente a supermercados e lojas comerciais é gritante. Em Botafogo são os milhões de carros parados para buscar filhinhos no colégio. O mais irritante é a São Clemente em frente a dois riquíssimos colégios: Santo Inácio e Corcovado. Existem milhões de outros pontos, mas deu para ter uma idéia, basta andar pela rua e ficar revoltado.

Enfim, este assunto rende muita revolta e posso voltar nele no futuro. Não mencionei as falcatruas das empresas de ônibus, a merda que é a Avenida Brasil, o tosquíssimo asfalto em frente ao Palácio do Governo em Laranjeiras, as famílias com quatro carros, o embuste do ‘carro popular’, a Lei Seca, enfim! Muita revolta ainda vai rolar por aqui neste assunto.

J.L.

O Sr. Governador chora por óleo ($$$) mas não chora por mortos

Rio Revolta volta no tempo algumas semanas…

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Há algumas poucas semanas, um comovido Sr. Governador encontrava-se na PUC-RJ quando, visivelmente muito emocionado e comovido, chorou como uma criança que teve seu pirulito roubado.

O nosso teatral Sr. Governador, além de estar revivendo suas veias artísticas de suas épocas de aluno do Tablado, não chorava o choro sincero do infante lesado em suas guloseimas; mas chorava, sim, o choro demagógico de quem sabe que, por obra de um determinado Sr. Deputado do Sul do país, seu grupo político-partidário perderia acesso à verdadeiras montanhas de $$$…. Além do mais, sua reeleição no final do ano, até então tranquilamente encaminhada, sofreria sem dúvida um desagradável percalço, sendo o assunto devidamente explorado pela “oposição”.

Passemos às palavras do próprio Sr. Governador:

“O Rio de Janeiro quebra”

“Não é que a gente não consiga fazer as Olimpíadas. A gente não consegue fazer mais nada. Nem pegar um empréstimo”

Isso em função das perdas no orçamento do estado, que chegariam a 5 bilhões R$ diretamente; e mais 2 bilhões R$ indiretamente, que deixariam de ser arrecadados pelos municípios.

Pois bem. Nosso Sr. Governador tem toda a razão em estar desesperado, comovido; deve estar preocupadíssimo porque na falta desse dinheiro, o estado que governa deixará de apresentar o asfalto mais liso e as melhores estradas do país; os programas habitacionais de milhões de casas construídas terão que ser interrompidos; a educação secundária do estado cairá assustadoramente de nível e não poderá mais rivalizar com as escolas japonesas; o sistema-modelo de saneamento básico da Baixada Fluminense não poderá sofrer reparos e rapidamente desaparecerá; o Metrô do Rio continuará sendo o mais abrangente, eficiente e barato do país; ah e claro, não poderia esquecer das Olimpíadas, motivo de orgulho máximo e a solução para todos os problemas da cidade: não poderá, infelizmente, ser mais realizada…..

Algumas semanas, uns dias de chuva e mais ou menos 250 mortos depois, o referido Sr. Governador, falando ao vivo para a televisão nos pés do desmanchado Morro do Bumba, não demonstrou nem de longe tal comoção. Também não chorou.

E quanto as vaias que recebeu?

http://www.youtube.com/watch?v=chGdDNlnMig

A. G.

O Prefeito (de Niterói), as chuvas e o tsunami

Rio Revolta também cruza a ponte e usa suas escaramuças contra a inoperaçância niteroiense.

Frase do respeitabilíssimo Sr. Prefeito de Niterói

“Eu não fujo às minhas responsabilidades, eu não me omito. Mas ninguém responsabilizou, por exemplo, os governos da Ásia pelo tsunami, que matou centenas de milhares de pessoas, nem responsabilizou a Prefeitura de Santiago, no Chile, pelo terremoto. E o povo de Niterói sabe que o que houve foi um desastre natural, como se fosse tsunami ou terremoto, algo impossível de se prever”

De fato, Sr. Prefeito de Niterói, o senhor não pode ser responsabilizado pelas chuvas. O Sr. Não tem culpa pelo volume colossal de chuvas que caiu em 24 horas na área de jurisdição do município de Niterói. Da mesma forma, Michelle Bachelet não teve culpa pelo terremoto de 8.8 graus no Chile; René Préval não teve culpa pelo terremoto de 7.0 graus no Haiti.

Mas talvez, quem sabe, ocasionalmente, Michelle Bachelet e os antecessores presidentes do Chile possam ser louvados por terem preparado seu país a ponto de resistir à um terremoto dessa potência com o espantoso número de apenas 500 mortes, aproximadamente. E talvez, quem sabe, ocasionalmente, René Préval e seus antecessores podem ser responsabilizados pelo total despreparo que fez com que um terremoto centenas de vezes mais fraco que o chileno matasse o assombroso número de 230.000 pessoas.

A responsabilidade dos governantes não pode ser evidentemente medida pela frequência ou potência de eventos naturais catastróficos; mas ela deve, ou melhor, TEM QUE ser medida pelo número de vítimas que esses eventos causam. É inconcebível que em 2010, com todos os recursos humanos e econômicos e a tecnologia disponíveis, morram no estado do Rio de Janeiro mais de 200 pessoas em função de “chuvas excepcionais”. O problema não foi a chuva, mas sim, a situação vergonhosa e precária de habitação de enorme parte da população carioca e fluminense. Situação para a qual governos e elites nunca tem soluções, nem responsabilidades.

Fosse o Brasil um país muito sério, ninguem haveria morrido, pois todos morariam bem, ou ao menos em locais seguros. Fosse o Brasil um país apenas um pouco sério, Sr. Prefeito de Niterói, você e seus antecessores estariam agora sendo processados por omissão e homicídio culposo pelo Ministério Público e estariam a caminho da cadeia (com a devida companhia do Governador do Estado e do Prefeito do Rio de Janeiro, cúmplices no seu crime), de onde não deveriam por muito tempo sair.

A.G.