A segunda vez como farsa

janeiro 30, 2012

o mundo é seuDurante alguns séculos certos países do mundo tiveram maneiras muito “curiosas” de enriquecimento e financiamento de seu progresso material. Isto é, muito além da bela história empreendedora que nos passam, algo muito mais significativo ocorreu para a “excepcionalidade” do capitalismo ocidental. O cientista social norte-americano Leo Huberman, colocou nestas palavras:

Poderíamos dizer que o capital necessário para iniciar a produção capitalista veio das almas cuidadosas que trabalharam duro, gastaram apenas o indispensável e ajuntaram as economias aos poucos. Houve sempre quem economizasse, é verdade, mas não foi desta forma que se concentrou a massa de capital inicial. Seria bonito se assim fosse, mas a verdade é bem diversa.

A verdade não é bonita.

Antes da idade capitalista, o capital era acumulado principalmente através do comércio – termo elástico, significando não apenas a troca de mercadorias, mas incluindo também a conquista, pirataria, saque e exploração”.

IN: História da Riqueza do Homem, pg 169, 17ª edição, Zahar, 1981

Para nós no Terceiro Mundo não é muito difícil enumerar alguns destes “curiosos” métodos, pois muitos continuam assim até hoje: escravidão, conquista, suborno, saques, pilhagens, invasões, cooptação, ameaça, além é claro do comércio mono e oligopolista e o extrativismo exploratório.

É importante ressaltar que já nessa época de capitalismo nascente que o autor se refere, entre os séculos XVI e XVIII (dependendo da parte do mundo), a parceria entre privado e público já era notória. O conto de fadas da iniciativa privada pura e virtuosa, triunfando “apesar” de um Estado parasita já se apresentava cínico e despropositado, cinismo que foi desmascarado pelo grande livro de Carl Polanyi A Grande Transformação. As grandes navegações e o assentamento de colônias foi muitas vezes perpetrado por agentes privados, mas com altos incentivos, especialmente com a proteção do exército estatal, outras vezes com financiamento, mas sobretudo delegando privilégios reais a qualquer “empreendedor” que quisesse fazer o trabalho da coroa seguindo bem os “comandos estatais”.

As rotas comerciais, invasões em busca de escravos, seja por parte de ingleses, portugueses ou holandeses, também eram determinada por políticas de Estado. O estado entrava com seu exército e bandeira, legitimando a ação, para a iniciativa privada fazer seu negócio. Já em seu nascimento o Estado Moderno usava de agentes capitalistas para fazer valer suas vontades, num processo de mútuo benefício e, muitas vezes, comando mutuo, isto é, quando a iniciativa privada também necessitava e via uma oportunidade, usava seu poder econômico para determinar certas políticas do Estado. Caso notório foi do monopólio inglês dos portos portugueses na América, beneficiando e muito a navegação privada inglesa, acumulando verdadeira fortuna no processo. Também podemos dizer o mesmo das empreitadas portuguesas para comprar escravos no litoral africano e usar frotas particulares para enriquecer os ricos coronéis do Brasil.

Neste caso vale assinalar que aonde não podia agir como Estado de facto, isto é, flamulando sua bandeira ao vento, em conflito, o governo de alguns países pioneiros no capitalismo usava do setor privado para fazer valer suas ações. Piratas famosos foram por décadas patrocinados pela coroa inglesa e holandesa, entre eles gente como Sir Francis Drake, condecorado pele rainha pelos seus “serviços”. Comerciantes holandeses subornavam autoridades portuguesas para tirar vantagens em cidades da costa brasileira, onde o comércio era proibido a eles, sob auspícios da coroa de Orange. A pirataria estatal dos chamados corsários (privateers), foi fundamental para a acumulação primitiva do capitalismo inglês e holandês, pilhando portugueses mas especialmente os espanhóis em seu decadente império.

Já na América, na formação econômica dos Estados Unidos, é de conhecimento de qualquer historiador que o principal método para evitar as barreiras impostas pelo colonialismo inglês, era o contrabando, efetuado por corsários e bucaneiros que, nos portos livres do Caribe, burlavam o monopólio colonial inglês e trocavam mercadorias das 13 Colonias com a França, Espanha e Holanda. É sabido que esse comércio ilegal foi fundamental para a base econômica que pouco depois financiou a guerra de independência contra a Coroa Inglesa.

Mais adiante, já como nação formada, os EUA incentivaram diversos métodos de desenvolvimento nacional, um dos mais importantes, foi ignorar completamente as patentes internacionais. Ha Joon Chang, economista sul-coreano, mostra com uma série imensa de exemplos em seu livro “Chutando a Escada”, como os EUA tinham inclusive leis para quebrar patentes estrangeiras, protegendo os empresários americanos de eventuais perseguições internacionais. Neste caso vale lembrar o recente texto do Pirate Bay – notório site suéco pró-pirataria – lembrando-nos de como foi formada Hollywood e a indústria do entretenimento norte-americana (tradução minha):

Aproxidamente um século atrás, Thomas Edison obteve a patente para um aparelho que faria “para os olhos o que o fonógrafo faz para os ouvidos”. Ele o chamou de “Cinetoscópio”. Ele não só foi um dos primeiros a gravar um vídeo, como foi a primeira pessoa a deter os direitos de um filme.

Por causa das patentes de Edison sobre filmes era quase impossível financeiramente criar filmes na Costa Leste dos EUA. Os estúdios de cinema foram portanto relocados para a Califórnia, e fundaram o que hoje se chama Hollywood. A razão principal era porque não haviam patentes. Também não havia copyrights por assim dizer, assim os estúdios podiam copiar velhas histórias e fazer filmes com eles – como Fantasia, um dos principais sucessos da Disney”

IN: http://static.thepiratebay.org/legal/sopa.txt< , acessado 27-01-2012.

Outro caso também envolvendo corporações norte-americanas e inglesas, poderia ser da recente guerra ao Iraque. Wikileaks e jornalistas como John Pilger (The War you Don’t See) revelaram que muitos contratos de extração de petróleo e “reconstrução” do Iraque estavam sendo estabelecidos antes mesmo da guerra ser declarada e o país invadido, além é claro, dos contratos de exércitos privados, contratados a peso de ouro com dinheiro público, para atuar na ocupação, onde a bandeira americana “iria pegar mal”. É incrível a semelhança com os condottiere do século XVI, chefes de milícias particulares que prestavam serviço ao Estado em troca de dinheiro e favores. O que seria esta ação no Iraque, além da mais escancarada pirataria patrocinada pelo mais poderoso Estado do mundo?

Poderíamos prosseguir com muitos outros exemplos de verdadeiros roubos instaurados no âmago do capitalismo “livre” ocidental, quem quiser ler mais alguns exemplos de como somos solapados diariamente, vale o clássico livro A Ditadura dos Cartéis” (Kurt Rudolf Mirow, 1978). Lembro que eles já está um pouco defasado, pois a lista de usurpações, pilhagem e pirataria perpetrada por grandes corporações já aumentou muito desde a sua publicação. Quem não quiser ler um litro tão antigo recomendo documentários como The Corporation, Good Copy Bad Copy, RIP: A Remix Manifesto, Capitalismo: Uma história de amor, entre outros.

Enfim, por que fiz essa volta enorme ao passado para falar da pirataria e da relação promíscua entre Estado e Capital Privado?

Basicamente para demonstrar que há muito mais em discussão do que o simples direito de compartilhar músicas, filmes e seriados. A discussão vai no âmago da base de toda cultura capitalista, de toda história capitalista. É uma discussão sobre propriedade. Um tempo atrás, postei especificamente sobre a Indústria Musical, sobre como nos relacionamos com a música, mas poderia ser para filmes e seriados:

[…] compreendendo que a ampla difusão da internet elevou as relações humanas em todos os seus formatos (amizades, sexo, torcida, comunidade, pesquisa científica, conversa fiada, compartilhamento de música) para um nível diferente, para uma escala muito maior. Apenas tendo consciência disso é que temos que compreender porque o compartilhamento digital de música [de entretenimento] é impossível de parar e nenhuma lei ou tecnologia poderá reprimir isso com sucesso sem ser grosseira e despótica. Pois no fim, todas as “relações humanas digitais” são relações humanas comuns, numa escala muito maior.

E hoje, mais ainda que um ano e meio atrás – quando este citado texto foi escrito -, o debate sobre pirataria, Estado, propriedade intelectual e corporações é incrivelmente relevante. Nesta discussão reside o futuro de tudo que entendemos como propriedade e liberdade de pensamento. Estamos vendo agora um escalonamento dos conflitos de pirataria, sites se antecipando e autocensurando seu conteúdo (Twitter, Google), sites de compartilhamento também buscaram a autocensura (filesonic, fileserver, rapidshare entre outros), fundamentais para a disseminação de arquivos e, também, é claro, o mais emblemático caso: o do Mega Upload.

Justamente no momento em que o Megaupload estava rumo a sua “legalização”, na criação do Megabox, uma espécie de gravadora virtual baseada exclusivamente em anúncios, similar ao que o Youtube fez com vídeos, batendo fortemente de frente contra os “velhos capitalistas” da Indústria Musical (Universal, Warner, Sony). O Megaupload vinha arregimentando celebridades, artistas e músicos consagrados, embasando fortemente este formato genuinamente novo (nesta escala), que nasceria com parte dos 1 bilhão de acessos que o site acumulava (infinitamente superior ao nascimento do Youtube), este formato (ver link em inglês) alega-se, daria 90% da renda iria para os artistas inscritos, ao contrário dos 1 a 15% no formato tradicional dos velhos capitalistas.

Aliás, vale nota para afirmar que com este movimento, o Megaupload iria fazer exatamente o mesmo caminho do Youtube, que ficou popular graças a milhões de vídeos que deliberadamente infringiam as velhas leis de copyright e dava dinheiro através de propaganda de terceiros, para então se legalizar e passar a combater os vídeos que ferem direitos autorais. Também lembro que o Youtube foi sistematicamente tomado pelas grandes gravadoras, principais fornecedoras de conteúdo para o site através do VEVO, que hoje domina 65% dos acessos ao portal.

O que foi este movimento se não a velha guerra entre capitalistas, que na primeira oportunidade chutam a escada de seus rivais. Se a intenção fosse o combate à pirataria, os EUA deveriam começar em casa, pelo Bit Torrent, fundamental ferramenta de compartilhamento virtual, mas cujo dono é a mega corporação midiática norte-americana CBS, pioneira da radiodifusão. É curioso notar que até a difusão pública de rádio está sendo atacada pelos tubarões da indústria musical! Sobre isso escrevi no mesmo post citado acima:

Para justificar a repressão virtual ela precisa reprimir a “vida real” também. Há pessoas sendo processadas por escutar rádio no trabalho (*); por causa de festas de aniversário (*); tocando música num pub local (*);todas as formas “reais” de uso coletivo da música precisam ser reprimidas para justificar a repressão “virtual” a esse uso. “Roubo é roubo” alguns ainda colocam. Apesar de que por quase um século ‘pessoas reais’ compartilharam livremente ‘experiências musicais reais’ no ‘mundo real’, enfatizando mais ainda que esse tipo de comportamento não era considerado imoral, roubo ou qualquer ação sujeita a reprovação social.

Apenas o medo e a repressão podem fazer uma lei ser mais poderosa que o comportamento social comum e não é preciso ser um gênio para saber que este tipo de governo não pode persistir por muito tempo.

Mas não exatamente isso que os governos do primeiro mundo estão fazendo?

Não estariam instaurando uma espécie de caça-às-bruxas macartista para proteger o status quo do atual sistema? Talvez esperando que a indústria cultural norte-americana ganhe tempo para se adequar aos novos tempos, provavelmente roubando ou comprando os formatos de novas mídias estrangeiras, numa espécie de neo-protecionismo virtual.

Não seria a SOPA e PIPA uma busca por transformar a internet norte-americana numa versão ocidental da chinesa, onde temos as mesmas corporações ganhando dinheiro livremente mas com controle de conteúdo por parte do Estado? A diferença que na China estão preocupado com a imagem e a divulgação de informações contra o Partidão Chinês, já nos EUA querem impedir a divulgação de conteúdo protegido de suas corporações oligopolistas.

E não seria a ACTA o mais recente capítulo deste conflito, da reafirmação do capitalismo primeiro-mundista frente à expansão “trapaceira” dos BRICs (os líderes absolutos em pirataria no mundo)?

Não pense que este confronto é meramente sobre filmes, jogos e música. É muito mais que isso. A ACTA, usando o mercado audio-visual como desculpa, ataca violentamente e em escala mundial, qualquer alternativa antissistêmica que qualquer país possa encontrar para burlar as barreiras comerciais que o Primeiro Mundo impôs. É a cristalização mais crua e evidente possível do “chutar da escada” de Ha Joon Chang. “Agora que estou no topo e controlando tudo, ninguém mais poderá repetir o que eu fiz”, é o velho cinismo da lei da ponte do capitalismo liberal: “é proibido tanto a ricos quanto a pobres, dormir embaixo da ponte”. A falsa neutralidade como instrumento de repressão.

Desta maneira, fica claro que se trata de mais uma edição da disputa de mercados, simbolizado em conflitos entre interesses nacionais rivais, entre corporações conflitantes que não querem, não podem ou ainda não conseguiram fazer um cartel para evitar o atrito prejudicial aos negócios. É essencialmente, a mesma lógica que nos levou a duas Guerras Mundiais. Parafraseando o colonizador-escravocrata-empresário inglês Cecil Rhodes: “Eu patentearia os planetas se pudesse”.

José Livramento

Varre Varre Vassourinha

outubro 25, 2011
Varre Varre Vassourinha

Varre Varre Vassourinha

De uns meses para cá voltou com força às manchetes o dragão da corrupção. Enxurrada de capas bombásticas em vários jornais, denúncias retumbantes, espionagem em hotéis, todo o tipo de acusação. As vassourinhas voltaram às manchetes. Em geral, e era de se esperar, as denúncias se focam no governo e seus aliados.Não é novidade, lembrando dos massacres públicos nos diários e semanários em 2004, que quase derrubaram o ex-presidente Lula, denúncias que até hoje não foram muito adiante por falta de provas, além da baixaria das últimas eleições (tópico abordado aqui em vários posts), a grande imprensa em uníssono espanca diariamente o governo e seus aliados.

Na grande mídia a exceção é a Record que, apesar de implicitamente apoiar o governo, agregou jornalistas um pouco mais sérios e menos elitistas nos últimos tempos, criando reportagens investigativas com o mínimo teor republicano e equilíbrio, variando entre crítica e defesa do governo. Seu principal mérito é ser o único agente grande da imprensa, sistematicamente atacando a FIFA e a CBF, ambos envolvidos em falcatruas esportivas muito maiores que o ministério do PseudoB, PCdoB quero dizer. Embora deixe de lado as falcatruas da Universal… coisa para outro post.

Mas se estamos falando de como a corrupção aparece na mídia, estamos falando do jogo das elites. É exatamente disso que se trata na verdade toda a discussão sobre a corrupção na imprensa. O Brasil vive um momento de transição de elites, para o bem ou para o mal. O PT nos últimos dez anos se consolidou como uma nova elite política, apoiada por novos setores da elite econômica brasileira, além das tradicionais bases urbanas médio-classistas que já o acompanhavam desde os anos 90.

O capitalismo industrial nacional esmagado pelo fundamentalismo liberal de mercado do PSDB-PFL acabou por abandonar o ‘projeto‘ de país que os demotucanos queriam, embarcando no projeto mais ‘nacionalista’ do PT. Arriscada de ser quase destruída durante 1994-2002, com a abertura escancarada do nosso mercado sem qualquer política de estruturação e competitividade real para a pequena e média empresa nacional, esse setor importante, que emprega a maior parte da mão de obra, passou a apoiar os petistas. A aliança de Lula com o falecido industrial Alencar, apenas evidenciava esse fato.

Do outro lado, o PT teve a genial iniciativa de fazer a expansão econômica brasileira baseada no crédito bancário. O partido compreendeu exatamente o que fizeram os norte-americanos depois de sua crise econômica de 1979 e trataram de expandir a renda através da garantia de crédito – relativamente – barato aos trabalhadores e não no aumento real dos salários, como o keynesianismo tradicional pregaria. Nesse sentido, o setor financeiro brasileiro adorou a idéia, e foi algo que os demotucanos jamais conseguiram executar, pois estavam muito mais voltados para o setor financeiro especulativo e de commodities exportadores do que o de crédito popular e formação de mercado interno. Não é por acaso que Lula chamou seus amigos banqueiros e empresários, patrocinadores de campanha, de ‘camaradas’ em ocasião de um evento da Fiesp. A expansão do crédito e consequentemente de bancos como Itaú e Bradesco no país foi impressionante. Não há camarada melhor [para eles]!

Além disso, soma-se que as medidas anticíclicas do governo, citadas pelo Rio Revolta aqui, seguraram a crise financeira nacional e permitiram a expansão do emprego e da renda média nacional, levando mais setores das classes baixas à apoiar o PT. Sem contar os pequenos incentivos paliativos tipo Bolsa Família (o nosso food-stamp) e Minha Casa Minha Vida, ambos dando sólidas bases de eleitorado baixa renda ao PT. País abandonado de tal forma que a mera inserção econômica de um auxílio-alimentação irrisório (especialmente em relação ao PIB) eleva em médio prazo toda a renda das classes mais baixas e consequentemente de toda a economia.

Por outro lado, já era evidente para qualquer um mais atento, que o PSDB estava mais interessado na velha elite industrial paulista e na elite agro-exportadora, latifundiária, ambos largamente baseados no setor de commodities e mercado financeiro especulativo, setores que sempre os apoiaram e que podemos chamar de ‘velha elite’ nacional. Não foi a toa que partidos que sempre caminharam do lado dele foram PFL-DEM, herdeiro dos latifundiários e da velha burguesia sulista (como Bornhausen) e o PPB (hoje PP), da tradicional burguesia, como Maluf e Amin em Santa Catarina. Além, é claro, do PMDB, eterno partido do poder, fisiologismo no seu mais alto grau. Assim, o PSDB nunca teve preocupação real com o desenvolvimento do capitalismo nacional ou com a expansão do mercado interno. Algo fatal, especialmente em momentos de crise mundial.

Então, voltando ao tema do presente texto.

No bojo desta troca de elites no poder brasileiro que vivemos, vemos a velha elite exportadora, em franca decadência, vociferar através dos principais aparelhos midiáticos que ainda controla, contra o novo poder constituído. Isso também não é novidade. Quando esta mesma elite foi preterida pelo trabalhismo na Era Vargas e depois no seu ápice com Jango, ela vociferou tanto que botou os tanques na rua contra o governo. Mas antes dos tanques vieram as marchas da família e as vassourinhas contra a corrupção. Por isso que citamos o lacerdismo com frequência, especialmente quando se fala de José Serra.

Essa elite arcaica, atrasada e acostumada a estar eternamente com o poder absoluto do país, tão falada em nosso blog (aquiaqui e aqui), não tem um projeto nacional definido, nada substancial, especialmente agora em crise agonizante do neoliberalismo em sua própria matriz. Nela o oportunismo reina. Assim, a única bandeira que a restou foi a do combate à corrupção, da moralidade e da acusação do ‘mar-de-lama’ que vivemos, não importa que quase a metade dos que estão no poder agora, são exatamente as mesmas forças que estavam quando o poder era o ‘tradicional’. A moralidade, muitas vezes, dá as mãos ao fascismo nacional, como denunciamos aqui, e o ‘combate’ a corrupção atende perfeitamente a agenda de qualquer elite que não esteja no poder. “A corrupção é sempre maior agora do que era quando nós governávamos”. Lema elitista por excelência, cansei de ouvir isso em relação aos anos militares e os anos de ‘privataria’ de FHC.

Mas não nos enganemos, a corrupção é sim um evidente problema. Ninguém pode negar isso. Porém, a raiz de nossa corrupção não é de uma fraca moralidade do PT ou de maneira filosófica, de como o ‘poder corrompe’ quem chega lá em cima. Outra frase que ouvimos por aí com frequência. Nosso problema de corrupção é histórico e altamente arraigado em todos os setores da sociedade, do empresário que dá propina pro fiscal até o assessor preso com dinheiro na cueca. A corrupção estava aí bem antes do PT, aliás, por mais que pareça absurdo, é o governo que tem mais combatido a corrupção em décadas. A Polícia Federal nunca prendeu tanto e pela primeira vez na história, um banqueiro foi preso e algemado por corrupção. Embora o judiciário tenha decidido ser “republicano” num momento tão conveniente e embarreirou os ‘excessos’ da ABIN e PF, soltando Daniel Dantas pouco depois. Além de que, se formos friamente nos números, DEM (PFL) e PSDB lideram absolutos no ranking de cassados pela Ficha Limpa. O mar-de-lama mais grosso que a mídia mostra agora, é apenas rebuliço dos arautos do conservadorismo brasileiro.

A origem da corrupção brasileira é uma fraca república. E ela é fraca pois jamais eliminou sua elite tradicional, agro-exportadora, vinculada ao capital estrangeiro. Uma elite que olha para fora, manda os filhos para Europa e EUA para estudar e passar férias; que acha tudo maravilhoso no Primeiro Mundo, admira ricos sendo presos na Alemanha e EUA,  mas esquece como e o que foi fundamental para o consolidá-lo como tal: completa eliminação da mentalidade do Antigo Regime. Seja em repúblicas como França, EUA e Alemanha, ou reinos como Inglaterra, Japão e Dinamarca. O Antigo Regime e sua mentalidade só foram destruídos à força, com muita prisão, morte, deportação e em muitos casos, com guerra. Como um profundo ‘aggiornamento’ das elites à nova mentalidade. No Brasil, jamais expulsamos, matamos e prendemos os bandidos nobiliárquicos do nosso passado. Nossa república foi fundada pelos mesmos nobres e militares que estavam no Império e na Colônia, com os mesmos costumes. Nosso absolutismo nobiliárquico foi suplantado pela república nobiliárquica. Mudaram as estruturas, mas o fantasma das idéias persistiu. Já dissemos isso milhões de vezes aqui no blog.

Então, clamar por combate a corrupção sem entrar neste mérito fundamental é ser usado pelo oportunista de plantão para atuar politicamente contra a elite que atualmente manda.

Além disso, temos outra questão fundamental. Mesmo que peguemos como verdadeiro o dado da última edição da revista Veja – porta-voz das elites tradicionais e conservadoras -, em que quase 3% do nosso PIB é perdido para a corrupção e que esta é a razão primordial para o nosso subdesenvolvimento e atraso, chegamos a um evidente problema: 97% do nosso PIB é ‘bem utilizado’ e ainda assim vivemos nesta estagnação estrutural e subdesenvolvida.
É claro então, que esse argumento é de uma falácea impressionante. Se agora vivemos no nosso ‘pior momento de corrupção da história’ e ainda assim, utilizamos 97% do nosso PIB sem roubos, o problema do nosso subdesenvolvimento não é a corrupção. Ela é um problema sério do ponto de vista do valor bruto perdido, mas marginal em nossa estrutura econômica e desenvolvimento. Se é para falar de percentagens, a grande mídia não toca no assunto de que amortização de dívida e juros comem mais de 30% do nosso PIB. TRINTA POR CENTO. Pelo menos 10 vezes mais dinheiro escorre pelo ralo financeirista do que perdidos na corrupção. E em termos de impostos, 44% do que pagamos, vai direto para pagamento destes juros e amortização de dívidas antigas, algumas muitas vezes pagas em relação ao montante emprestado. Como dizem: “juros compostos são a maior arma de destruição em massa já inventada”. E, para citar jargões do conservadorismo anti-imposto: se nós trabalhamos 147 dias por ano apenas para pagar impostos ao Estado, 64 são dias inteiros que trabalhamos para pagar os bancos dívidas que já pagamos. Isso sim é que é um crime.

O problema muito menos é o chamado ’excesso de Estado’ que o establishment neoliberal costuma insistir e, frequentemente, associando excesso de estado à corrupção. Este jargão ultra neoliberal ainda é insistente por aqui, mas agora vai contra a maré keynesiana que parece pegar os conservadores do mundo neste momento. Ele ignora completamente que foi justamente o oba-oba do setor privado norte-americano, altamente corrupto, que destruiu o mercado imobiliário e foi estopim da última crise, num país altamente desregulamentado como os EUA.

E ainda vale lembrar que foi precisamente a ação anti-cíclica estatal do governo Lula, absurdamente criticada por ‘gênios’ como Miriam Leitão, que salvou o Brasil do completo desastre econômico que o resto do mundo viveu a partir da Crise de 2008. “Excesso de Estado” que recentemente elevou a taxa de importação de automóveis, sob protestos retumbantes dos jornalões e do DEM, levando a Hyundai a anunciar a abertura de uma montadora aqui no Brasil. Aula primária de protecionismo que muitos neobobos parecem ter faltado.
Voltando novamente ao ponto. A corrupção brasileira é estrutural e arraigada na sociedade justamente porque confrontamos um ideário relativamente republicano (constitucional) – ainda que muito superficial -, com uma realidade estrutural de relações de poder altamente clientelista, coronelista, enfim, de Antigo Regime. Na história do ‘constitucionalismo’ (Revolução Francesa), as críticas burguesas (no sentido clássico) ao Antigo Regime eram absurdamente focadas neste clientelismo, favoritismo, personalismo e privilégios de classe (nobiliárquica). Para a burguesia em ascensão, o sistema nobiliárquico era corrupto e destrutivo.

Desta maneira que no Brasil, assumindo o fato de que nossa estrutura de estado é de Antigo Regime, nobiliárquica, temos a preocupante constatação de que a corrupção brasileira está engendrada em lei. Ela não é uma ‘simples’ falcatrua de roubar aqui é ali, estimulada pela falta de punição. A própria falta de punição é legalmente estabelecida e organicamente construída dentro das relações entre os poderes estatais para que não ataque e afete as elites estabelecidas, os ‘nobres’.

A corrupção brasileira é uma canetada de um prefeito criando uma estrada pública no meio do terreno de um ‘camarada’ seu; é a relação de troca de favores econômicos entre lobistas e senadores; é a escolha de certas empresas para execução de tais obras (as cartas marcadas tão corriqueiras em contratos públicos); é a escolha de uma matriz de transporte como o automóvel em detrimento do trem; é a escolha de uma política de juros que favorece uma pequena elite financeira, botando imensos contingentes de capital público sob controle direto do setor privado; é a reestruturação e atualização tecnológica de uma estatal com dinheiro público, para pouco tempo depois ser privatizada como ‘ineficaz’, ou pior, o sucateamento deliberado de setores anteriormente eficazes, justificando assim sua venda; é a concessão à indústria pesada em locais anteriormente proibidos; é a construção de açudes ‘públicos’ em terrenos de amigos de um deputado ou prefeito qualquer do interior do nordeste; a assinatura em massa de certas revistas em detrimento de outras com dinheiro público; é a remoção de famílias pobres inteiras para construção de condomínios de luxo; é a escolha deliberada de um prefeito de não fortalecer a escola pública em favorecimento do setor particular; são empreiteiras bancando políticos para que os favoreçam quando eleitos… Enfim, poderia me estender indefinidade com exemplos de práticas legalizadas que são altamente anti-republicanas.

Estas formas legalizadas, institucionalizadas, são representações muito mais sérias e acachapantes de corrupção do que qualquer desvio, roubo ou enriquecimento ilícito. De pequena canetada em pequena canetada, nosso desenvolvimento inteiro é engessado pelo funcionamento nobiliárquico elitista de nossa democracia. Roubar e desviar dinheiro é crime, escravizar uma nação inteira, é lei!

Kadafi está morto

outubro 23, 2011

Kadafi e antigos amigos (2009).

Kadafi está morto. Parabens aos Líbios!

O lado positivo de eventos históricos excepcionais como o que o mundo presenciou no último dia 20 de Outubro, é que eles expõem com toda a clareza e sem rodeios as grosseiras fraudes e contradições do lamentável e vergonhoso discurso político hegemônico que correntemente domina o imaginário das sociedades ocidentais e daquelas que, como a brasileira, lhe são periféricas.

Neste dia, Muammar Kadafi, líder líbio, foi assassinado (pelos vídeos, foi executado mesmo). Não importa, e jamais saberemos ao certo, quem apertou o gatilho. Para todos os fins, foi assassinado por uma coalizão de potências interventoras estrangeiras ocidentais com elementos internos da sociedade líbia.

O que Rio Revolta pensa deste assassinato? Não nos interessa fazer qualquer juízo de valor a respeito de sua morte. Simplesmente aconteceu e, como dado da realidade, requer nossa análise fria.

Tampouco nos importa saber se Kadafi era ou não um líder legítimo para os líbios. Rio Revolta não acredita minimamente que as falidas instituições liberais burguesas (especialmente em países que se quer tiveram revoluções constitucionalistas significativas), baseadas em idealismos superficiais como “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido” e o “voto” como genuína expressão da vontade popular, sejam ponto irrefutável de defesa. Portanto, para nós, nada significa que ele não tenha sido eleito por esse sistema.

Poder legítimo é aquele que detém o monopólio do uso consentido da violência física numa dada sociedade por longos períodos de tempo. Repito, USO CONSENTIDO. Portanto, da nossa perspectiva, Kadafi era o líder legítimo da Líbia até o início da revolta, quando deixou de ser, porque a partir de então nem detinha mais o monopólio nem era consentido como seu detentor. Não é por acaso que na Líbia, assim como no Egito, os ‘governos de transição’ são compostos fundamentalmente por elites militares e políticas que já estavam no poder anteriormente, algumas fiéis escudeiras de seus recém-depostos líderes. O consentimento de seus pares acabou.

Vale notar, portanto, que nossa concepção de “legitimidade” não se inclina para juízos de valor idealistas, mas apenas para dados que por ventura possam ser apreendidos da realidade.

Tampouco acreditamos neste discurso fácil e falacioso que vê no “desejo de democracia e liberdade” dos povos árabes a motivação final para a rebelião contra seus poderes constituídos. Para começar, não sabemos o que estas idéias significam na cabeça de um líbio ou egípcio contemporâneo. Além do que, é difícil acreditar que um dos principais núcleos rebeldes anti-Kadafi, descendentes e seguidores de Idris Sinnassi, o monarca absolutista pan-islâmico, deposto ainda em 1959 por republicanos liderados pelo então ‘progressista’ e nacionalista Kadafi, sejam defensores da liberdade e da democracia.

A realidade é por demais complexa para ser simplificada em dicotomias bom x mal, liberdade x tirania. Rio Revolta acredita piamente que estas rebeliões tem fundamentos multicausais, e muitas, se não a maioria destas causas, são e permanecerão sendo intangíveis. O que é possível fazer é traçar cenários aqui e acolá, considerando questões de teoria política geral e da história daqueles povos. Portanto, quanto a este patético discurso enlatado, otimista e autorreferenciado, com requintes fukuyamistas de “fim da história”, o deixamos para “cientistas políticos” como William Waack ou, ainda “cineastas” como Arnaldo Jabor.

O que interessa para nós é colocar as brutais contradições que emergem deste fato já neste exato momento, e as que emergirão no futuro.

Kadafi e Tony Blair em 2007, na "African Farewell" tour do inglês.

Primeiramente, não podemos enxergar o mundo sob o prisma de filmes de velho oeste hollywoodianos. Não cremos na existência de mocinhos no filme da história da humanidade. Cabe, portanto, distinguir entre os bandidos e, arbitrariamente, escolher o seu preferido. Ou não.

Segundo, Kadafi parece ter tido um destino, de certa forma, merecido. Para dizer isso, pensamos em quantos milhares devem ter sofrido mortes igualmente sórdidas e humilhantes por sua pura e simples vontade e caprichos. Mas isto não resolve absolutamente o problema, ao contrário, o aprofunda. Porque sua morte não foi um ato de “justiça”, mas sim, de vingança dos vitoriosos. Vale relembrar que das principais forças rebeldes são herdeiras de forças que Kadafi depôs, 40 anos atrás.

Não adianta Kadafi ir embora enquanto Bush (pai e filho), Clinton, Obama, Blair, Brown, Cameron, Chirac, Sarkozy etc etc etc etc continuam circulando por aí. Isso para ficar apenas nas três potências que, efetivamente, invadiram a Líbia: EUA, Inglaterra e França (sempre eles, sempre eles….).

Não é só porque Kadafi perdeu que se transformou num criminoso de guerra contra a humanidade. Isto ele já era, de longa data. Mas os outros também são, e infelizmente continuarão por ai. E o pior, representados midiática e socialmente como os defensores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Kadafi e Obama em Outubro de 2009.

Mais impressionante ainda, um deles, o Sr. Barack “Hope” Obama, ganhou um Nobel da Paz… Especializando-se em “assassinatos seletivos”: Bin Laden, Al-Alawiki (este um cidadão americano, trazendo à lembrança os assassinatos igualmente ‘seletivos’ da CIA contra dissidentes internos norte- americanos nos anos 50 e 60). E agora, Kadafi. Mas quem será o próximo?

Mas Obama, no fundo, é um ‘nice guy’. Ele mata para que acabem as mortes. Faz a guerra para que acabem as guerras. Guerra é Paz, dissemos no nosso último post. Ah, bom!

Enquanto isso, não cria um mísero emprego para o proletário norte-americano. A idéia de torcer para que perca a reeleição em 2012 bem que seduziria Rio Revolta, não fosse a disputa contra um candidato qualquer do Tea Party republicano… Neste caso, já que é seis por meia dúzia, melhor que tudo continue como está. É como dizem da diferença do republicano pros democratas: os últimos pelo menos usam vaselina. “Quer me foder, me beija porra”.

Terceiro, apesar dos pesares – da ‘tirania’, ‘falta de democracia’ e toda a lenga-lenga hipócrita midiática – a Líbia era, até poucos meses atrás, de certo, o país de maior qualidade de vida da África e do mundo islâmico. Dados do IDH da ONU. Aliás, tomado por este mesmo índice, era um país em torno de 30 anos mais avançado que o livre e democrático Brasil, para não falar das outras 150 ‘democracias’ do mundo em completa miséria. Juscelino Kubitschek – o conservador Seu Nonô – uma vez, sabiamente, disse: “Liberdade não é mais do que uma palavra vazia para os que vivem na miséria”…

O segredo para o relativo sucesso da Líbia, isto era relativamente simples. Um país posicionado sobre um enorme lago de petróleo, com uma população bastante reduzida e dotado de indústria petrolífera consideravelmente, mas não de todo, nacionalizada. O regime socialista (não confundir com comunista ou bolchevique) de Kadafi fornecia gratuitamente à população serviços de educação, saúde, alimentação e moradia.

Vale para Kadafi o mesmo raciocínio que para Fidel. OK, pode ser ruim ou bem ruim com ele. Mas o que teria sido sem? Cuba era o cassino-puteiro da elite norte-americana. A Líbia era o poço de petróleo fácil e barato do Mediterrâneo e, na ausência de Kadafi, seria o que? Uma Nigéria com seus estupros coletivos e barbáries tribais? O Sudão da fome e concentração de renda? Mereceria outro ditador menos ‘ilustrado’ como Mubarak? Estagnando o Egito por 30 anos. Para não falar de outras ‘democracias’ africanas que fazem Cuba e a Líbia parecerem a Noruega. Triste mesmo é constatar que estes países caminham a passos largos para ser o que talvez tenham chegado perto de evitar: colonia econômica da barbárie sem fronteira capitalista. É a História andando, para trás.

Vamos ver daqui há 10 anos, quiçá, o que vai achar o cidadão líbio médio que hoje se sente libertado, da perspectiva de obtenção desta mesma saúde, educação e alimentação através das forças automáticas e impessoais dos ‘perfeitos mercados’… E sem dúvida, dada a correlação de forças recém estabelecida na Líbia – a vitória de uma guerrilha “libertadora” comprometida até sua última gota de sangue com os interesses corporativos estrangeiros -, será este o fabuloso do país: a ‘democracia liberal burguesa de mercado’, e nenhum outro.

Quarto. Claro está que a questão humanitária foi a última razão da intervenção ocidental na Líbia e a execução filmada de Khadafi veio coroar esta mentira. O mesmo pode ser dito da defesa dos valores ideológicos ocidentais. Mas é evidente que a representação social vem sendo esta, soa muito mais bonito e agradável, especialmente em países que vivem o simulacro de escolha do mercado eleitoral. E o mais impressionante é que não faltam ingênuos e otários acreditando.

Nunca vi o Jornal Nacional chamando de tirano ditador sanguinário o Rei Saudita – aquele mesmo cujo regime impõe uma versão radical da lei islâmica que impede até mesmo as mulheres de dirigir. O mesmo rei que mandou, não tem dois meses, tropas para ajudar na dura repressão da população do Bahrein que tentava fazer a sua ‘primavera’; que enviou tropas para reprimir rebeldes em 2009 no Iemen. Parece que uns são mais tirânicos e ditadores do que outros. Para não dizer das inúmeras ‘boas’ reuniões de líderes ‘democráticos’ ocidentais com Kadafi nos últimos 5 ou 6 anos. Bem, talvez os direitos humanos dos líbios subitamente se tornaram mais importantes que o das mulheres sauditas ou de agitadores do Bahrein ou Iêmen. Curiosa maneira de ver o mundo.

Estamos assistindo ao recrudescimento do imperialismo ou, se preferem, uma nova (a terceira?) onda imperialista. E ela está recomeçando precisamente pela interseção de seus elos mais frágeis, a África e o mundo islâmico.

A razão para isto é simples. O Ocidente em geral e os Estados Unidos em particular continuam drogados-viciados-doentes terminais em petróleo e seu ‘capitalismo liberal’ cada vez mais dependente de ações concretas do Estado para se expandir (Irônico, não?)

Só que necessitam do petróleo alheio, e há um novo monstro geopolítico em aberta ofensiva expansionista: a China. É necessário, portanto, reafirmar o controle ocidental\norte-americano direto sobre as fontes energéticas, quem sabe mesmo, se preciso for, com o restabelecimento de colônias. Sinal de tempos difíceis à frente.

O regime de Kadafi vinha sendo recebido de braços abertos pelo Ocidente nos últimos anos, como o demonstra as várias fotos que postamos neste artigo.

Mutassim Kadafi (filho) e Hillary Clinton (2009)

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

Kadafi e Berlusconi no final de 2010.

E então, repentinamente, um levante popular ganha o apoio de todos os que se reaproximavam do “sanguinário ditador” até anteontem. E claro está que sem a intervenção da OTAN, os rebeldes teriam sido rapidamente esmagados. O Ocidente foi, portanto, o fiel da balança e principal responsável pelo resultado. Levando ao poder, curiosamente, vários fiéis seguidores e colaboradores de Kadafi, mas que não são tão nacionalistas ou socialistas como era Kadafi. Porque o problema do Ocidente não é ditadura ou democracia, mas sim, a confiabilidade do ditador, a garantia de seu domínio.

Disto fica, então, a nossa quinta e última contradição. O destino de Kadafi é o dos “amigos” do Ocidente. Porque este só tem, mesmo, um amigo único: $$$

Arnaldo Gordo
Pequena colaboração de José Livramento.

Nenhuma imagem pertence ao Rio Revolta, para saber as fontes consulte  http://www.tineye.com/

10 anos do 11 de Setembro

outubro 6, 2011
War is Peace

Guerra é Paz!

É um lugar comum falar do 11 de Setembro neste momento em que lembramos dez anos do ocorrido. As mais diversas opiniões já foram dadas sobre o tema, desde americanos ingênuos ou cínicos se perguntando “por que?” ou radicais anti-norte-americanos cegos dizendo que mereceram o que ocorreu. Há ainda os dados comparativos evidenciando o fato que os quase 200 mil mortos no Iraque, Afeganistão e agora, na Líbia, além dos milhares e milhares de desabrigados em países já maltratados pelas agruras terceiro-mundistas, especialmente o Afeganistão, são uma reação extremamente exagerada para o ataque às Torres Gêmeas. Na lógica da destruição e da opressão seria correto, mas não satisfatório ou mesmo digno, pois reduz os ataques e a resposta a eles a mera contagem de corpos comum à qualquer guerra. Não. A Guerra ao Terror não é uma guerra comum.

As evidentes consequências materiais oriundas das retaliações sistemáticas ao 11 de Setembro são, ao menos em curto prazo, irremediáveis, especialmente em Bagdá e, agora, em menor escala, Trípoli, para não falar de Kabul. Três cidades que recuaram pelo menos 30 anos em organização, estrutura e, de maneira geral, progresso, além da incontestável tragédia humana. Kabul em todo caso, já era uma sombra do que fora nos anos 60. Um belo entreposto progressista, tolerante e amigável, com jardins e casas de fumo adoradas por hippies que faziam a “trilha mágica” até Goa na Índia em ônibus e vãs psicodélicas. Mas ela se tornou esta ruína assombrada e grosseira justamente no cego e interesseiro patrocínio dos EUA às forças mais retrógradas do Afeganistão para combater o imperialismo soviético na região, levando o país a décadas de trevas sob o obscurantismo fundamentalista. Tudo em nome da luta contra o “comunismo”. Um enorme esqueleto no armário pra política externa americana.

Porém, as consequências ideológicas do 11 de Setembro são hoje são mais nítidas e assustadoras. Como diria Zizek em “Bem Vindo ao Deserto do Real”, ao invés de acordar os EUA de sua alienação primeiro-mundista, os ataques às Torres ao contrário, mergulharam os EUA no mais alto delírio ideológico imaginado. Reforçou-se como nunca, o antigo “Destino Manifesto” dos EUA, colocando lenha na fogueira que minguava da Missão Civilizatória do Homem Branco e seu papel no mundo. Argumento que no final dos anos 90 se mostrava cada vez mais cínico e evidentemente fora de contexto, especialmente depois que concluiu-se com extrema obviedade, que a história não tinha chegado ao fim (para citar Fukuyama), que a luta de oprimidos e opressores ainda continuava firme e forte, apenas um opressor ambíguo, URSS, havia desaparecido. Vale lembrar que “o povo de Seattle” crescia ano a ano com mega demonstrações nos centros do mundo, nos chamados – pejorativamente – movimentos anti-globalização.

O ‘delírio ideológico’ que os EUA passaram a defender como política e filosofia de Estado é justamente na sua vitimização, no discurso de sua fragilidade e impotência e portanto, na justeza de suas ações pelo mundo, transformadas em ‘reações’ aos inimigos que insistem em não aceitar a (sic) “democracia e os valores universais americanos”. A distorção chega a tal ponto que tudo ganha eufemismos épicos de uma luta justa. Tortura vira ‘interrogatório especial’; invasão de nações soberanas vira “Defesa Preventiva”; contestadores do poder, mesmo pacíficos, viram terroristas e anti-patrióticos. De Julian Assange, uma versão moderna e ‘anabolizada’ de Daniel Elsberg (o militar americano que, do mesmo modo que Assange, vazou à jornais inúmeros documentos secretos evidenciando crimes norte-americanos na Guerra do Vietnã), às ocupações de prefeituras pelo interior dos EUA contra o esmagamento dos sindicatos, ou os recentes “Occupy Wall Street”  (Ocupar Wall Street). Todos são terroristas, todos são inimigos do Estado.

A justeza das ações duras do Estado contra seus inimigos é incontestável, é como se dada por Deus. Alegoria aliás que o ex-presidente estadunidense George W. Bush repetiu dezenas de vezes. Justifica-se a criminalização de movimentos sociais, de contestadores “anti-patrióticos” que se recusam à apoiar a guerra, a tortura e o massacre de nações atrasadas e primitivas. Vale lembrar que este sentimentos de fundamentalismo ocidental, contra todos os dissidentes e esmagamento da esquerda radical em nome de patriotismo, não foram exclusivos dos EUA, mas de todos que abraçam o que se entende por “civilização ocidental”. De Berlusconi à Putim, passando por lideranças belgas, alemãs e francesas, ocorreram variações análogas repetidas na direita e extrema direita européias. Esses sentimentos foram recentemente canalizados nas ações do fundamentalista cristão Brevik contra a esquerda de seu país, ao qual dedicamos um texto semanas atrás.

Isso tudo fica ainda mais cínico quando as próprias lideranças americanas admitem, dez anos depois, que sempre souberam que o Iraque e o Afeganistão nada tinham a ver com os acontecimentos do 11 de Setembro. Assim, posso esticar minha análise da “Doutrina Bush”, esta mudança de paradigma na política norte-americana, para a conclusão que a mesma não passa de uma atualização grosseira do “Destino Manifesto” estadunidense, pensamento fundamental para entender o nacionalismo ianque. Citando a mais banal fonte da internet, o Destino Manifesto poderia ser resumido assim:

“Todo o continente Norte Americano parece estar destinado pela Divina Providência à ser povoado por uma única nação, falando uma única linguagem, professando um sistema religioso e político geral e acostumado a um caráter geral de usos e costumes. Para a alegria comum de todos eles, pela paz e prosperidade, eu creio que é indispensável que eles sejam associados a uma única união federal.” (palavras de John Quincy Adams IN: wikipedia, verbete Manifest Destiny, tradução minha)

Se pudéssemos atualizar as palavras de Adams para a Doutrina Bush e seu bojo ideológico, ficaria mais ou menos assim:

“Todo o planeta parece estar destinado pela Divina Providência a ser povoado pelas ideias de uma única civilização [a ocidental capitalista], falando uma linguagem universal [dinheiro], professando um sistema religioso e político universal [a democracia parlamentar liberal, de preferência judaico-cristã], acostumado a um valor universal de usos e costumes [o consumista american way of life]. Eu acredito que é indispensável que eles sejam associados a um única união federal [os EUA]”

O delírio reside no fato dos EUA e muitos dos seus intelectuais e importantes figuras públicas falarem abertamente em variações destes termos, acreditando piamente ou cinicamente na justeza e no caráter especial da “América” (sic) e no seu papel do mundo como juíz, policial e legislador. Seus porta-vozes oficiais como Donald Rumsfeld, Robert Gates ou Sarah Palin, para citar apenas alguns dos mais cínicos, repetem mentiras, no melhor estilo Goebbels ou no melhor estilo Grande Irmão (Guerra é Paz), como foi o caso das armas de destruição em massa no Iraque.

Além disso, seus arautos não abertamente oficiais, os veículos pára-estatais de propaganda da Doutrina Bush, como a indústria do cinema de Hollywood e a grande mídia americana, em particular a FOXNews, trabalharam incansavelmente para transformar qualquer contestação, por mais insignificante que seja, num ataque direto à civilização americana e seus valores, vitimados por vis assassinos em terrível data. E pior, enobreceram o invasor como um altruísta, exatamente no espírito missionário colonialista europeu na ocupação das américas. Aliás, o 11 de Setembro deixou evidente, em mais de uma dezena de vezes, que Hollywood e a grande mídia americana, ambos agentes privados, são de fato, no termo gramsciano, “aparelhos ideológicos de estado”, seguidamente financiados por dinheiro público, criando pérolas belicistas como Transformers e Guerra ao Terror (este último ganhou Oscar), ambos com largo financiamento do exército norte-americano, repetem incansavelmente a ideologia do Estado reforçando as idéias que este quer passar e conduzir. Sem contar o embedded jornalism dos grandes veículos jornalísticos, brilhantemente denunciado pelo britânico John Pilger no filme “The War You Don’t See” (ainda não traduzido para o português).

A onda ideológica é tão forte no ocidente, que chega ao ponto de levar o presidente Barack Obama, que enviou mais tropas ao Afeganistão, que ordenou assassinatos sem julgamento pela CIA, que bombardeou a Líbia e continuou a destruição do Iraque, a ser premiado com o Nobel da Paz! Guerra é Paz, literalmente. Quando isso ocorreu, imediatamente me lembrei do sanguinário Czar russo Nicolau II, que foi beatificado pela Igreja Ortodoxa Russa como santo, mesmo tendo ordenado pogroms contra judeus, massacrado grevistas, centenas de trabalhadores (Domingo Sangrento) e rivais do seu regime. O criminoso fundamentalista Bin Laden acertou em alguns poucos pontos em seu “Carta à América”, mas esta frase ele pisou na ferida: “Se Sharon é um homem de paz aos olhos de Bush, então nós somos também, homens de paz!!!”. Ariel Sharon é o Carniceiro de Qybia, general de longa data do exército israelense, transformado em Primeiro Ministro nos anos 2000, e homem de confiança de Bush no Oriente Médio, chamado por este de honrado lutador pela paz no oriente médio. A história se repte como farsa.

Porém, voltando especificamente para os EUA e os defensores de sua nova doutrina de dominação mundial, as mudanças ideológicas causadas pelo 11 de Setembro são fundamentais para entender o futuro do mundo. O brilhante – no mais perverso sentido da palavra –  da Guerra ao Terror e da Doutrina Bush é que o Inimigo foi completamente virtualizado, foi transformado numa entidade amorfa. Não existe mais uma nação, uma sede, uma entidade nítida e clara, portanto ele se enquadra no arquétipo ideal do Outro. Todos são culpados até que provem o contrário. Mesmo que um racista, pejorativamente reduza à uma guerra aos islâmicos, o universo de 1.5 bilhões de pessoas é tão grande que se pode-se dizer que ele é virtual, não possui face. E oficialmente nenhuma autoridade – sensata – vai declarar abertamente e honestamente este caráter de sua luta, mesmo que alguns tenham feito isso (Geert Wilders na Holanda por exemplo, líder do – sic – Partido da Liberdade). Se o Inimigo não possui face pode ser adaptado a qualquer um, como for conveniente. É o Outro primordial. Qualquer um que não aceita a imposição, que não aceita o sistema, os mandos do Estado e da Doutrina, será massacrado, eliminado como uma doença, aniquilado fisicamente, como o ditador Saddam, ou aniquilado socialmente, como Bradley Manning.

A analogia da Doutrina Bush com um perigosíssimo neofascismo é evidente. O fato dos EUA usarem Guantánamo – uma colônia militar em território cubano – como sua base para torturas e “interrogatórios especiais” de terroristas é emblemático, lembra automaticamente o fato de que não havia campos de concentração na Alemanha, só nos países vizinhos; como na URSS onde se praticavam as barbáries na Sibéria, onde ninguém estava lá para testemunhar. O “Ato Patriótico” de 2001 é uma afronta à constituição americana e pode ser considerada uma Lei Marcial, similar à que Hitler passou para atacar os comunistas e dissidentes depois do Incêndio do Reichstag, mas graças a campanha de medo na grande mídia, passou batida por 10 anos, nem Obama o revogou. Em defesa da “liberdade” faremos tudo, até acabar com o Estado de Direito.

Mais problemático ainda é constatar que o fascismo clássico também buscava incessantemente se legitimar, diferente por exemplo das ditaduras latino-americanas ou soviéticas, onde não era “necessário” buscar seguidamente a aprovação popular para se manter no poder. O nazismo seguidamente se aclamava como verdadeiramente democrático e o “princípio da aclamação”, onde a população em massa é convocada para aclamar pessoalmente o führer, é uma sofisticação teórica deste elemento, visto que uma vez eleito, o NSDAP não fez outras eleições, botou a constituição em “lei marcial” temporariamente por 13 anos. Em seus livros, Mussolini pregava que a democracia fascista (sic) era muito mais profunda e igualitária que a “farsa liberal” e que o ultrapassado assembleísmo pusilânime dos comunistas. O fascismo clássico nunca deixou de repetir que estava defendendo a maioria, protegendo a população da invasão de elementos que só queriam o mal da comunidade nacional, que conspiravam contra a ‘saúde’ da pura e ingênua sociedade ocidental, oprimida por um poderoso inimigo externo cosmopolita, invisível mas poderoso.

A analogia com o antissemitismo de livros como o apócrifo “Protocolos dos Sábios do Sião” é evidente e quanto mais se nega a conspiração da Al Qaeda e de inimigos dos EUA mas ela se torna forte e é necessária o endurecimento do Estado. Também para o fascismo clássico a idéia do inimigo é essencial. A importância de um inimigo incansável e fortemente interiorizado na sociedade, corrompendo-a e ameaçando-a frequentemente é um traço, se não uma condição sine qua non, da doutrina do medo do fascismo. A grande diferença é que o fascismo atual consegue ser ainda mais cínico e potencialmente muito mais destrutivo, apoiado por aparelho ideológico muito mais sofisticado. Afinal, se a nação mais rica e com o maior exército do mundo cair definitivamente num obscurantismo fundamentalista, militarizado e  com a brutalidade típica do fascismo clássico, teremos a maior tirania já imaginada.

José Livramento

Crítica aos Princípios das Organizações Globo

agosto 20, 2011

Globo-grafiteFaz pouco mais de uma semana que as Organizações Globo, sabe-se lá porque, resolveram sair do armário. Alguns especularam que foi pelo que foi dito na blogosfera sobre a situação interna da Globo, do pautamento de reportagens e etc… Talvez tenha sido o Murdoch, quem sabe?

Assim, divulgaram um documento, com considerável destaque em seu site, contendo seus princípios programáticos, ou seja, os valores que norteiam o jornalismo (“jornalismo”) da Organização. Vale a pena lembrar outros momentos que a Globo fez grande alarde para seus princípios editoriais e compromissos com a ‘informação’ e democracia.

Certamente a mais importante foi o editorial de 2 de Abril de 1964, uma ode ao Golpe Militar contra um presidente eleito e popular. A segunda vez, também igualmente marcante foi em 1984 quando ressaltaram sua participação na “Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais, de preservação das instituições democráticas, ameaçados pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Vale a pena ler na íntegra.

Não menos importante foram as declarações de isenção e princípios (sic) após a escandalosa montagem do debate de 1989 e campanha difamatória desta mesma eleição, contra Lula e Brizola. Muito apartidário e isento.

Rio Revolta apoia integralmente esta iniciativa de transparência que certos veículos fizeram. Seria fantástico se todos os veículos de comunicação de massa fizessem o mesmo, assumindo para que vieram ao mundo e sua corrente ideológica, como fez o Estadão no calor da batalha eleitoral de 2010. Não poderíamos, entretanto, abster-se de comentar fato de tamanha importância. Por isso, segue-se o texto integral, mais precisamente, a Parte III do documento, a única que realmente nos interessa, e que disserta sobre os tais valores fundamentais.

***

As Organizações Globo serão sempre independentes, apartidárias, laicas e praticarão um jornalismo que busque a isenção, a correção e a agilidade, como estabelecido aqui de forma minuciosa. Não serão, portanto, nem a favor nem contra governos, igrejas, clubes, grupos econômicos, partidos. Mas defenderão intransigentemente o respeito a valores sem os quais uma sociedade não pode se desenvolver plenamente: a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza.

Para os propósitos deste documento, não cabe defender a importância de cada um desses valores; ela é evidente por si só. O que se quer é frisar que todas as ações que possam ameaçá-los devem merecer atenção especial, devem ter uma cobertura capaz de jogar luz sobre elas. Não haverá, contudo, apriorismos. Essas ações devem ser retratadas com espírito isento e pluralista, acolhendo- se amplamente o contraditório, de acordo com os princípios aqui descritos, de modo a que o público possa concluir se há ou não riscos e como se posicionar diante deles.

A afirmação destes valores é também uma forma de garantir a própria atividade jornalística. Sem a democracia, a livre iniciativa e a liberdade de expressão, é impossível praticar o modelo de jornalismo de que trata este documento, e é imperioso defendê-lo de qualquer tentativa de controle estatal ou paraestatal. Os limites do jornalista e das empresas de comunicação são as leis do país, e a liberdade de informar nunca pode ser considerada excessiva.

Esta postura vigilante gera incômodo, e muitas vezes acusações de partidarismos. Deve-se entender o incômodo, mas passar ao largo das acusações, porque o jornalismo não pode abdicar desse seu papel: não se trata de partidarismos, mas de esmiuçar toda e qualquer ação, de qualquer grupo, em especial de governos, capaz de ameaçar aqueles valores. Este é um imperativo do jornalismo do qual não se pode abrir mão.

Isso não se confunde com a crença, partilhada por muitos, de que o jornalismo deva ser sempre do contra, deva sempre ter uma postura agressiva, de crítica permanente. Não é isso. Não se trata de ser contra sempre (nem a favor), mas de cobrir tudo aquilo que possa pôr em perigo os valores sem os quais o homem, em síntese, fica tolhido na sua busca por felicidade. Essa postura está absolutamente em linha com o que rege as ações das Organizações Globo. No documento “Visão, Princípios e Valores”, de 1997, está dito logo na abertura: “Queremos ser o ambiente onde todos se encontram. Entendemos mídia como instrumento de uma organização social que viabilize a felicidade.

O jornalismo que praticamos seguirá sempre este postulado.”

***

Para quem tem o mínimo de leitura e consciência, a coleção de fraudes e engôdos destes poucos parágrafos é vasta. Vamos então caminhando por partes.

A primeira coisa evidente que se nota no texto é o seu viés explicitamente liberal e, um pouco mais implicitamente, utilitarista. Estas afirmações fundamentam-se caso prestemos atenção na evidente obsessão do documento com a idéia de controle das funções jornalísticas pelo Estado, que deve ser, afinal, “fiscalizado” por aquelas; e na referência implícita ao “princípio da maior felicidade”.

Para os interessados, vale a pena ler A Liberdade\Utilitarismo, de John Stuart Mill, que mais parece ter sido o próprio autor desse texto global, ainda que Mill escreva muito melhor do que qualquer jornalista da Globo.

Mesmo que este discurso liberal clássico tenha sido seguidamente desmascarado, refutado, posto a prova seguidas vezes por intelectuais tão grandes ou maiores que o próprio Mill, ou quando a própria realidade nua e crua solapa o pouco de substância que discursos como este possam ter, como o fez e vem fazendo o caso Murdoch na Inglaterra; ou com os inúmeros documentos vazados pelo Wikileaks ligando a nata do jornalismo (global ou não) ao interesse político da embaixada norte-americana. Mesmo com tudo isso, ainda há os que acreditam na fantasia da liberdade de expressão liberal… bem, maravilha! Para nós do Rio Revolta só resta, quanto a isso, a lamentar.

Da primeira frase, extraímos as seguintes qualificações: independentes, apartidárias, laicas, isenção, correção, agilidade.

Laicismo e agilidade não nos importam. E mesmo que fôssemos entrar prfundamente neste mérito, vale ressaltar que qualquer análise rasteira da programação global constata que seu ideário é majoritariamente judaico-cristão, tendendo para a corrente conservadora católica. Mas não aprofundaremos esta questão. E quanto à agilidade, não foram poucas vezes que a qualidade (!) da reportagem foi esvaziada pela necessidade de publicá-la o mais rápido possível. Houve um caso recente que o jornal “matou” um político antes da hora, sem confirmar sua morte e, mais recentemente ainda, prenderam a diretora da Caixa, antes mesmo da polícia saber do “crime” da dita cuja.

Correção é uma idéia completamente subjetiva, o que é correto para um não é para outro, e portanto o termo sequer deveria constar do documento, que se propõe a ser “objetivo” desde seu início.

Independência não nos diz nada, é um termo vazio, sem esclarecer: com relação ao que?

A coisa se agrava significativamente quando fala a respeito de apartidarismo e isenção. Qualquer discurso que se represente como “apartidário” e “isento” é, a princípio, um discurso fraudulento, mentiroso. Apartidarismo e isenção são duas idéias completamente abstratas e irrealizáveis. É objetivamente impossível para qualquer mensagem, se expresse ela da forma que for – falada, escrita, televisionada ou o que mais se queira imaginar – ser isenta ou apartidária. Ela necessariamente expressa um conjunto de valores quaisquer considerados por seus autores, a priori, mais importantes ou relevantes do que outros, que se considera menos importantes ou, simplesmente, se rejeita.

E quanto a isso não cabem subterfúgios. A própria idéia de ser “neutro” já é resultado da adesão a um determinado valor – o de que se deve buscar ser neutro… Já dizia o ditado: a única coisa neutra que existe é sabão.

Nada nem ninguém conseguirá jamais escapar deste imperativo. Mensagem é, antes de mais nada, uma transmissão de valores. Por isto não existem isenção e apartidarismo. Qualquer estudante de comunicação aprende isso no primeiro período de faculdade, ou melhor, deveria aprender. O que as Organizações Globo pretendem com os termos “apartidarismo” e “isenção” é se atribuir uma idéia de neutralidade que a coloque, diante do público, como um interlocutor “neutro”, “científico” e, portanto, “desideologizado”, confiável. Todos sabem que isto é falso, então, afirmar o contrário, só tem um nome: Isto se chama FRAUDE.

Rio Revolta, por sinal, não se propõe a ser mentiroso e fraudulento e, portanto, expõe clara e explicitamente que defende um determinado ponto de vista, uma visão de mundo específica que não é uma VERDADE auto-evidente e absoluta, mas se não uma opinião a qual se adere ou se ataca.

A mesma preocupação não permeia as Organizações Globo, que afirmam a importância dos valores “a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza” como evidentes por si só, não cabendo, portanto, sequer defendê-los (e por analogia, nem atacá-los). Ou seja, as Organizações se propõem a invocar a própria VERDADE inconteste e revelada quando alardeiam qualquer destes princípios. Tratam de travestir de verdades absolutas idéias que não passam de opiniões – ainda que largamente aceitas. Mais uma vez, trata-se de uma FRAUDE.

Aprofundemos um pouco alguns destes elementos.

Democracia, em princípio, nada nos diz. Que tipo de Democracia se fala? Popular? Socialista? Representativa? Direta? Greco-romana?

É evidente que Rio Revolta sabe que as Organizações se referem às instituições liberais democráticas burguesas. Quando o documento ausenta qualquer adjetivo que qualifique aquela democracia que defende, nada mais faz do que tentar passar a idéia de que “democracia” não precise, mesmo, de um termo que a qualifique, o que implica, em última instância, que a ÙNICA democracia que se possa conceber seja este teatro eleitoreiro em que vivemos. Este tipo de “democracia” em que o cidadão só é digno deste nome enquanto eleitor-consumidor, exercendo sua soberania política uma única vez a cada quatro anos, num apertar de botões numa urna eletrônica supostamente “isenta”. Trata-se, uma vez mais, de uma FRAUDE.

Já escrevemos sobre a democracia liberal antes e, neste caso, vale repetir:

Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínimo público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.” (Deformadores de Opinião, 27/09/2010).

Quanto aos direitos humanos, na medida em que asseguram mais do que qualquer outra coisa o direito irrestrito à propriedade, ao lucro e à utilização de dinheiro para ganhar mais dinheiro – não interessando os danos aos “direitos humanos” ALHEIOS que possam advir destas ações -, não podem prescindir de uma retificação: não são direitos humanos de fato, mas sim direitos BURGUESES. Trata-se aqui da velha e incrivelmente eficaz ideologia liberal-burguesa que faz do homem burguês o ideal absoluto e a-histórico de ser humano. É a universalização de um valor particularista, específico de uma classe e segmento social, Meszaros fala muito disso em sua obra prima Para Além do Capital. É necessário contextualizar historicamente este homem burguês que se quer como o homem por natureza, identificar como a ideologia liberal-burguesa reescreveu o passado para justificar o presente no melhor estilo “Grande Irmão” ou como eficazmente Carl Polanyi desmistifica este mito do homem ideal liberal clássico. E neste sentido, o discurso das Organizações só pode ser – uma vez mais – uma FRAUDE.

Para quem quiser tirar a dúvida com seus próprios olhos: Declaração Universal dos Direitos do Homem. Depois de ler, reflita bem no silêncio do seu lar, quais os únicos destes artigos que REALMENTE são cumpridos e universalmente propagados.

Liberdades Individuais e Livre Iniciativa – valores auto-evidentes para as Organizações -, só podem ser entendidos desta maneira se se aceita a fraude do discurso burguês sobre os direitos humanos. É evidente que liberdades individuais e livre iniciativa só se tornam fatos concretos e defensáveis na medida em que as liberdades e iniciativas de uns não obstaculizem ou impossibilitem as liberdades e iniciativas de outros – e este definitivamente não é o caso de nenhuma sociedade capitalista, na medida em que não se conhece nenhum exemplo deste tipo em que não exista um pequeno punhado de exploradores que enriquecem se apropriando da riqueza produzida pelo trabalho de uma enormidade de explorados.

Ainda se coloca que o estágio do “capitalismo de livre iniciativa” que existiu em certa época e em certos cantinhos do mundo é uma lenda do passado, praticamente inexistente no presente. A consequência última da competição capitalista se fez nos mais poderosos monopólios e oligopólios do mundo, largamente e abertamente patrocinados, protegidos ou mesmo criados pelos Estados em favorecimento de certas elites, de acordo com o interesse. Poucas grandes corporações e gigantescos grupos financeiros hoje dominam a esmagadora maioria da “iniciativa” privada do mundo. Negar isso é uma fraude. Esse fato já era evidente ainda uns 80 anos atrás e economistas da época, tanto de esquerda e de direita, procuraram combater estes problemas, sem sucesso.

Uma vez desfeita esta fraude e postas essas duas idéias sob a devida perspectiva histórica – ou seja, como interesses de classe (burguesa), e jamais como necessidades naturais do homem -, perdem totalmente sua substância e capacidade de embasar um discurso verdadeiro de liberdade.

Por fim, a cereja do nosso bolo: a Liberdade de Expressão. O que significa isso? Significa que um jornal possa, isenta e apartidariamente, revelar a VERDADE ao público, tornando-o informado das podres entranhas do poder estatal que tenta a todo instante nos escravizar, roubar nosso dinheiro, calar nossas vozes e – evidentemente – censurar os jornalistas, controlando e manipulando a livre consciência dos povos, impedindo o livre fluxo de informações e condenando-nos todos ao pior dos mundos!

Rio Revolta se regozija com a perspectiva de ter nas Organizações Globo a sua perspectiva de salvação de cenário de tal maneira sombrio e se sente um filho adolescente mimado e super-protegido, porém rebelde e mal agradecido.

Liberdade de Imprensa significa: que grupos capitalistas extremamente poderosos vão tentar controlar ideologicamente a sociedade, determinando quais valores correspondem a sua visão de mundo e devem, portanto, ser difundidos com variados graus de sutileza; e determinando, de forma análoga, quais valores são prejudiciais aos seus interesses mais fundamentais e devem, por isto, ser reprimidos ou desacreditados mediante uma associação qualquer a um passado arcaico, jurássico, “ideologizado” etc etc etc.

Liberdade de Imprensa significa: que grupos capitalistas extremamente poderosos terão suas inúmeras redes de rádio, jornais e televisão e poderão manipular livremente a agenda pública de um país qualquer, determinando o que é e o que não é interessante que caia na boca do povo e torne-se foco de discussão. E significa também que o povo não terá qualquer participação na elaboração ativa de conteúdo “jornalístico”, pois o máximo que seus parcos recursos materiais e organizacionais permitirá será a constituição de pequenos veículos de mídia locais.

Liberdade de Imprensa significa: que a elite dominante, rica burguesia, contará para você a história que quiser, da forma que quiser, e não contará para você o que a interessar que você não saiba. E que os homens do governo não só não deve ousar tolher a “liberdade de informar”, deixando a tal burguesia agir como bem entender de acordo com os interesses que bem quiser, como devem ver a mesma telenovela que você vê.

Eis que, depois disso tudo, as Organizações Globo aparecem com uma tal “função” do jornalismo…. Não nos interessa a “função” deste tal de jornalismo, posto que Rio Revolta não acredita na existência disso.

“Jornalismo” significa a transmissão de valores em larga escala permitida pelo desenvolvimento tecnológico e pela capacidade de aglutinação de capitais, recursos organizacionais e habilidades humanas proporcionadas pela moderna sociedade industrial.

“Jornalismo” significa fazer rigorosamente isto que a blogosfera faz, com o Rio Revolta incluído, contar uma história baseada numa visão de mundo específica que se adotou as expensas de várias outras que não foram adotadas por critérios completamente parciais e subjetivos.

Com a diferença de que Organizações como a Globo dispõem de meios infinitamente superiores aos da blogosfera, e uma dose também infinitamente maior de falta de vergonha na cara para fazer passar suas opiniões por verdades absolutas objetivas e inatacáveis.

Mas é fácil identificar a função das Organizações Globo: como todo grupo capitalista, sua função é a de usar dinheiro para ganhar cada vez mais dinheiro. Com a peculiaridade de que ao invés de fabricar e vender comida, remédios, crédito bancário, minério de ferro ou eletrodomésticos – fabricam e vendem notícias.

Para encerrar, caros leitores, gostaríamos de lembrar-lhes uma velha máxima:

Jornalismo não informa; deforma.

Arnaldo Gordo

participação: José Livramento

Revisitando: FHC – Da Teoria da Dependência à Prática da Dependência

agosto 17, 2011

FHC

Aproveitando que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso andou em alta nos últimos meses, refundando partido, aparecendo em filme e fazendo polêmica, resolvi resgatar um texto meu, escrito há alguns anos atrás. Estava guardado aqui no computador esperando em algum momento que eu o divulgasse, agora o faço. Espero que gostem:

***

 

Da Teoria da Dependência à Prática da Dependência

Introdução

A finalidade deste texto é confrontar os escritos teóricos de Fernando Henrique Cardoso, especialmente em seus livros “Dependência e Desenvolvimento na América Latina”, “Mudanças Sociais na América Latina” e “O Modelo Político Brasileiro”, onde encontramos o cerne de seu pensamento, com sua atuação como líder de uma nação capaz de por em prática o que propôs pouco mais de 20 anos antes. Isto é, confrontar o FHC teórico com o FHC presidente e líder político. O título atribuído a esta análise se faz não por chacota ou desprezo ao autor analisado, mas simplesmente pelas idéias expostas em sua própria obra que, numa explicação reduzida, prega que diante de uma inevitável dependência às economias centrais, os países subdesenvolvidos não devem buscar uma ruptura e sim, procurar um crescimento econômico em “situação de dependência”, cada vez mais ligados ao capitalismo internacional.

Em uma primeira leitura de “Dependência de Desenvolvimento na América Latina” e “Mudanças Sociais na América Latina” é preciso ter bastante atenção nas conceituações, linguagem e método teórico do autor. Os textos – deveras prolixos diga-se de passagem – detêm uma tipologia e construção bastante relacionada com o pensamento de esquerda (e mesmo com o marxismo) e apesar de muitos o classificarem como marxista1, sua posição como teórico econômico é muito simpática com Max Weber (o que soa um tanto impensável para um marxista), como podemos ver em entrevista à Folha de São Paulo2. Em certos pontos, de fato, Fernando Henrique se insere no que podemos chamar de esquerda, porém, esta posição foi mais determinada pelo contexto em que seus textos foram escritos e a repercussão que tiveram, do que propriamente pelo que os textos continham “nas entrelinhas”. Isto quer dizer, que o fato dele se posicionar como crítico da dependência, de se inserir num meio de debates lotado de esquerdistas, de ter sido, como muitos deles, caçado pela ditadura (expulso da USP por exemplo) e exilado, o fez ser consagrado como homem democrático e de esquerda, o que, veremos, dificilmente foi.

1 Como por exemplo Blömstrom e Hetnne, em Theotônio dos Santos em “A Teoria da Dependência: balanço e perspectivas” pág. 27.

2 Folha de São Paulo, Especial, Sábado 10 de Maio de 2003, página E3.

Desenvolvimento Capitalista Integrado

A teoria de FHC é bastante importante por criticar a visão mecanicista e economicista da sociedade terceiro-mundista da América Latina. Seus escritos procuravam romper com a “perspectiva de análise, altamente influenciada pela teoria de formação dos países ‘de desenvolvimento inicial’, quer dizer Europa Ocidental e Estados Unidos”1. Sua análise das formações econômicas das sociedades latino-americanas e da relação que as variadas elites de cada país tiveram com o seu Estado e com as forças econômicas internacionais introduziu e tornou muito clara a situação de dependência que se encontravam as economias latino-americanas. A contribuição de Fernando Henrique reside principalmente em identificar o processo de construção e dinâmica das burguesias<2nacionais sob a influência das burguesias internacionais e da relação de dependência que aquelas tinham com estas. Para explicar isso FHC descreve a trajetória e formação de várias economias latino-americanas, dividindo-as de acordo com especificidades econômicas. O objetivo primordial de sua análise é estabelecer uma “análise integrada do desenvolvimento”, isto é, demonstrar a gradativa integração das burguesias latino-americanas ao mundo capitalista, defendendo a tese de que não é possível desenvolver-se sem esta integração. Este é o cerne das teorias de FHC e que, como governante, podemos identificar seus esforços nesta integração: procurar inserir o capitalismo brasileiro, ou melhor, partes específicas do capitalismo brasileiro, numa lógica capitalista global. Atentos a este ponto importantíssimo de seus escritos e observando sua gestão presidencial, podemos constatar como falsa a frase “Esqueçam o que eu escrevi”, atribuída a ele pela esquerda desatenta e desmentida na mesma entrevista da Folha de São Paulo que citei anteriormente. Seu governo, 25 anos após seus principais escritos, é bastante condizente com as idéias de seu livro.

A concepção de que não haveria saída aos países subdesenvolvidos à exploração imperialista estrangeira, isto é, não seria possível estabelecer um desenvolvimento nacional a partir de uma ruptura (ainda que parcial) com o capitalismo mundial e, a partir desta conclusão, era preciso integrar os setores mais dinâmicos da economia nacional dos países latino-americanos à estrutura de poder do capitalismo mundial. Assim, constatando que a dependência nacional não se dava apenas como uma submissão a forças externas, mas muito mais do que isso, que se esta “nova forma de dependência tem explicações exteriores à nação, por outra parte a relação interna entre as classes não lhe é alheia; ao contrário, a relação interna entre as classes é que torna possível e dá fisionomia própria à dependência”3. Desta maneira, FHC vinculava a situação de dependência não só a fatores externos como muitos faziam (e ainda fazem), mas também à “capacidade dos sistemas internos de alianças” (entre burguesias) gerarem expansão econômica.

Portanto, como teórico, é interessante dividir em duas partes as concepções de Fernando Henrique. A primeira parte é quanto a sua crítica e visão sobre como se processa a dependência nos países terceiro-mundistas (em especial América Latina), isto é, como ocorre a dinâmica de integração das economias periféricas às economias centrais e a relação entre as forças internas e externas inseridas num mercado mundial. Neste contexto, FHC poderia ser um dos primeiros teóricos latino-americanos a defender abertamente a globalização econômica em tão claras palavras. Esta análise de integração dos interesses particulares nacionais a interesses particulares internacionais se torna bastante evidente na conclusão de Dependência de Desenvolvimento na América Latina: “não existe uma relação metafísica de dependência entre uma Nação e outra, um Estado e outro. Essas relações se tornam possíveis concretamente por intermédio de uma rede de interesses e de coações que ligam uns grupos sociais aos outros, umas classes às outras. Sendo assim, é preciso determinar interpretativamente a forma que essas relações assumem em cada situação básica de dependência, mostrando como Estado, Classe e Produção se relacionam”4. É claro portanto o conceito de que a dependência não é um “jogo” entre Nações somente, como muitos tentam parecer que é, mas sim, uma relação entre vários interesses independentes ou não do governo que estão inseridos. Esta concepção aproximou FHC de muitos pensadores de esquerda, especialmente marxistas, para os quais “O capitalismo não tem pátria”.

A segunda parte da teoria de FH, é quanto ao que fazer diante da conclusão de que há uma integração, ainda que setorial, das economias nacionais dependentes com a economia mundial. O autor, diante de uma perspectiva de que não há saída para esta situação de dependência, visto, como tenta demonstrar, várias situações históricas dadas em cada país subdesenvolvido. Assim, vendo a dependência como inevitável ele procura teorizar uma maior integração das economias latino-americanas com a internacional. E prega que a mudança se processará dentro de uma esfera periférica do capitalismo mundial. Desta forma, reafirma uma posição teórica contra o “nacional-desenvolvimentismo”, movimento que procurava um desenvolvimento do capitalismo com base no fortalecimento de uma burguesia autônoma aos interesses internacionais e visava, através disso, o pleno desenvolvimento independente ou parcialmente independente e criação de um mercado interno. Muitos teóricos contemporâneos de FHC e que se inserem no contexto da Teoria da Dependência situavam-se neste modelo “nacional-desenvolvimentista” que integrava interesses do capitalismo nacional com interesses populares e superação da situação de dependência. Porém, FHC, não via viabilidade na matriz econômica destes teóricos e acreditava que este fosse uma excrescência do passado: “Que sentido tem [...] reviver o ideal da Nação baseado no pressuposto econômico de um setor empresarial local ativo e de um Estado a ele ligado, que faça uma ponte com a massa popular?”5. Para corroborar sua aversão ao nacional-desenvolvimentismo temos a declaração de FHC como presidente, quase vinte e cinco anos após esta citada, de que seu governo era o “fim da era Vargas”. Suas palavras se mostraram verdadeiras.

Portanto, dividindo assim seu pensamento, fica mais claro entender como Fernando Henrique foi adorado por grande parte da esquerda e foi consagrado pelos conservadores como presidente do Brasil. A divisão entre o Fernando Henrique crítico do imperialismo, identificador das formas de dominação, da relação entre os interesses capitalistas locais e internacionais e como os Estados Nacionais latino-americanos acabavam por se subordinar a estes interesses particulares e o Fernando Henrique que via na integração ao capitalismo mundial, isto é, no fortalecimento dos setores dinâmicos do capitalismo nacional latino-americano que pudessem se inserir de fato, isto é, competitivamente, no capitalismo global. Assim, é fundamental identificar esta divisão nos seus escritos e verificar que a esquerda que o adorava não o leu ou, se o leu, não o entendeu de fato e exaltou este “primeiro” FHC, enquanto que o que os conservadores que o levaram ao poder, identificaram o “segundo” como verdadeiro Fernando Henrique Cardoso. Alegorias à parte, esta divisão no seu pensamento só era clara para setores mais esclarecidos da esquerda (e da própria direita) e se tornaram evidentes com a explicitação de suas idéias quando ele se tornou figura proeminente da política brasileira sob governo Itamar Franco.

1 Mudanças Sociais na América Latina, pág. 8.

2 Uso do termo “burguesias” aqui está no sentido que FHC descreve em Dependência e Desenvolvimento na América Latina pág. 55: “Aqui empregamos este conceito [de burguesia] com o propósito de destacar o caráter de ‘produtores capitalistas’ ou de ‘empresários capitalistas’ – em sua maior parte ligados à área rural – em oposição ao conceito de ‘senhores de terra’, de ‘grupos feudais’ ou de ‘oligarquia latifundiária’”.

3 Dependência e Desenvolvimento na América Latina, pág. 36.

4 Ibid pág 140.

5 Citação de Fernando Henrique Cardoso em artigo de Mário Maestri para a revista Consciência Net.

A Prática da Dependência

Identificar a teoria de Fernando Henrique em sua prática como presidente se mostra mais fácil ao analisarmos, principalmente, três pontos de sua gestão que estão interligados: o Plano Real; o Plano de Privatizações e os incentivos ao grande Capital. Neste sentido, FHC tinha todo um planejamento para gerir o Brasil, ainda que ocorressem algumas improvisações em seu governo, especialmente após a crise de 1998, tudo estava razoavelmente bem arquitetado.

Para inserir a economia brasileira na economia mundial, antes de tudo, o Brasil precisava de uma moeda estável. Esta idéia, pode se afirmar, se inseria no contexto do pensamento capitalista internacional, que John Williamson deu o nome de “Consenso de Washington”, em que era claro uma posição de consenso entre teóricos e políticos de centro e de direita principalmente, sobre as medidas necessárias a serem tomadas pelos países pobres e subdesenvolvidos para se tornarem prósperos. Estas medidas do “Consenso”, para citar seu autor, requerem “um rigoroso esforço de equilíbrio fiscal, austeridade fiscal ao máximo, o que passa inevitavelmente por um programa de reformas administrativas, previdenciárias e fiscais, e um corte violento no gasto público”1. Somente nesta frase está resumida boa parte das medidas e discursos de Fernando Henrique, sua cúpula governamental e grande imprensa dos anos noventa. Estabilizar a moeda portanto, é apenas uma das medidas do pacote de enxugamento da economia brasileira.

O modo como Fernando Henrique procurou estabilizar a moeda é que se deu de maneira particular, mas ainda inserida no contexto neoliberal da última década. Em praticamente todo primeiro mandato de Fernando Henrique, isto é, de 1994 a 1998, o Plano Real tratou de supervalorizar a moeda e lastreá-la em dólares. Resumidamente, o lastramento se deu através de captação de recursos estrangeiros, seja através de empréstimos internacionais junto ao FMI e, por conseguinte, a bancos internacionais, seja pela privatização de estatais, lucrativas ou não e, sem menos importância, reformas administrativas, largamente embasadas no largo contexto neoliberal explicitado pelo Consenso supracitado. Adicionam-se os juros extremamente altos, a fim de trazer investimentos, ainda que especulativos e de curtíssimo prazo, para novamente, fomentar o lastro da moeda.

Outra medida importante era o fortalecimento do grande capital nacional, a fim de aumentar as exportações que, por sua vez, trariam mais dólares para os cofres nacionais, aumentando mais ainda o lastro da moeda. Assim, como afirmei anteriormente, as três principais políticas de Fernando Henrique estão intrinsecamente interligadas e não podem ser vislumbradas em separado. A moeda precisava ser estável e com seu valor equiparado ao dólar, para que, no momento das privatizações em massa (Plano Nacional de Desestatizações, iniciado ainda no governo Collor) o governo se capitalizasse da melhor maneira possível. Isto é, o governo vende suas estatais com preço dolarizado e assim fatura em dólar o que arrecadava em moeda nacional. O lastro de dólares em cofre portanto, era fundamental para a estabilização da moeda e esta era condição básica para estabilização da economia que acarretaria maiores investimentos estrangeiros e maior integração da economia brasileira com a internacional e maior inserção das multinacionais em território brasileiro.

“Exportar é viver”, lema propagado em seu governo, novamente está condizendo com a idéia de inserção do Brasil no mercado internacional. O incentivo por parte de FHC no grande capital nacional, vide a criação da Ambev, do Complexo Sadia-Perdigão, do enxugamento da Petrobrás (a fim de faze-la funcionar como uma empresa privada e competitiva internacionalmente, terceirizando praticamente todos os seus setores produtivos), entre outros setores, é evidente. Este fortalecimento do Grande Capital nacional é fundamentalmente diferente do pregado pelos “nacional-desenvolvimentistas” por não se basear num crescimento baseado no mercado interno e sim, como disse, no modelo de exportações. Da mesma forma, o setor altamente favorecido pelo governo Fernando Henrique foi o agro-negócio, traduzido especialmente pelo ramo exportador da soja e da carne. Este setor altamente mecanizado e “moderno” foi carro-chefe de propagandas do governo, porém, o que uns chamam de moderno, outros chamam de atraso, afinal, o fortalecimento do setor agrícola no PIB brasileiro, identificado claramente nos dados estatísticos do IBGE2, estão em pleno acordo com os discursos imperialistas advindos dos EUA principalmente (a partir de 1950) que cada país deve seguir sua vocação, no caso do Brasil, “vocação agrícola histórica”. A “modernização” portanto, é tornar o Brasil um agro-exportador “clássico” como o fora até 1930, discurso este que a CEPAL e a Teoria da Dependência (em geral) procurou desmantelar a partir dos anos 60.

A partir deste fortalecimento do grande Capital exportador, o incentivo de FHC também se aplicou à expansão internacional destas grandes empresas. Assim, vemos a Petrobrás em Angola, Bolívia, Oriente Médio, vemos o Banco Bradesco se espalhando pelo mundo, como no México, Argentina e outros países latino-americanos, vemos a inserção da Ambev no mercado europeu e americano, exportando o nome do Brasil para fora. Este processo alguns autores chamam de “subimperialismo” brasileiro e toda sua política externa foi voltada para esta inserção do Brasil no mundo e criação de uma hegemonia econômica e política brasileira na América do Sul.

1 Citação de John Williamson em palestra de José Luís Fiori no CCBB, 1996.

2 Segundo o Panorama Agrícola 2002 do Ministério da Fazenda, de 1994 até 2002, o PIB agrícola cresceu em média 4,5% ao ano, contra menos de 3% da economia brasileira toda. Isto quer dizer que a agropecuária é gradativamente mais importante no nosso PIB.

Conclusão

Este modelo implementado por FHC no entanto levou a uma fragilidade da economia nacional brasileira sem igual na história, a “integração” se deu de tal forma que o governo brasileiro perdeu praticamente todo o controle de sua economia, exemplo claro disso é a Crise Energética. Assim, o desenvolvimento “integrado” da economia preconizado em seus artigos, longe de “desenvolver” o país como se pensou, elevou a concentração de renda e capitais, destruiu praticamente todo a micro e pequena empresa nacional, chegando a ponto de, segundo o Sebrae, 80% das empresas criadas fecharem em até cinco anos, uma das maiores taxas do mundo, criou uma dependência tamanha da nossa economia que muitos alimentos e produtos antes produzidos aqui, foram substituídos por importações. Assim, se o “nacional-desenvolvimentismo” se baseou muitas vezes numa “substituição de importações”, o pensamento e prática de Fernando Henrique levou a um “nacional-dependentismo” baseado num modelo de “intensificação de importações”.

Portanto, é crucial ressaltar que FHC como presidente em momento algum traiu suas “concepções conservadoras, antipopulares e pró-imperialistas” (Maestri) contidas em seus escritos, mais claramente em “Modelo Político Brasileiro”. Sua descrença de um capitalismo autônomo nas zonas de periferia do mundo e impossibilidade de autonomia das nações subdesenvolvidas e, principalmente, descrença num potencial de mudança das burguesias latino-americanas, idéias que ficam mais claras nas palavras do próprio autor: “Eu não penso, entretanto, que a burguesia local, fruto de um capitalismo dependente, possa realizar uma revolução econômica no sentido forte do conceito. A sua ‘revolução’ consiste em integrar-se no capitalismo internacional como associada e dependente”1. Assim, fica mais claro o que se tentou elaborar em todo este trabalho e que é o cerne do pensamento de FHC: a única saída para a economia terceiro-mundista é aceitar a dominação e tentar viver dentro dela.

José Livramento

BIBLIOGRAFIA

CARDOSO, Fernando Henrique, FALETTO, Enzo: Dependência e Desenvolvimento na América Latina; 7ª edição, Rio de Janeiro, Zahar 1984
CARDOSO, Fernando Henrique: Mudanças Sociais na América Latina; São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1965
CARDOSO, Fernando Henrique: O modelo político brasileiro e outros ensaios. São Paulo, Difel,1977.
LESBAUPIN, Ivo (organizador): O Desmonte da Nação: Balanço do Governo FHC, 3ª edição, Petrópolis, Vozes, 2000;
SANTOS, Theotônio dos: A Teoria da Dependência: balanço e perspectivas, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000
MAESTRI, Mário: “Em defesa de FHC”, IN: Revista Consciência Net; 23 de Maio de 2003

OUTRAS FONTES

Revista Cadernos do Terceiro Mundo, “Proezas do Real”; nº 234, Agosto de 2001
Folha de São Paulo, Caderno Especial, 10 de Maio de 2003
Sítios da Internet:
IBGE
Sebrae
Ministério da Fazenda

Política norte-americana para chinês ver

agosto 15, 2011

Segue-se abaixo uma das coisas mais relevantes publicadas pela mídia nacional nos últimos tempos. Trata-se de um trecho de uma reportagem:

“Fora do clube do “AAA” (nota máxima), a reação ao rebaixamento americano também foi forte. A China, principal credor dos títulos soberanos americanos – com US$ 1,15 trilhão – subiu o tom e acusou os Estados Unidos de serem “viciados em dívida” e palco de lutas políticas “míopes”. O governo de Pequim, de acordo com a agência Xinhua, defendeu que o mundo precisa de uma nova moeda estável para suas reservas e exigiu garantia para os ativos chineses em dólar.” (site O Globo, 07/08/2011).

Isso aí pode parecer uma grande bobagem ao leitor mais desavisado, mas estas curtas frases merecem cuidadosa análise.

Segundo a reportagem, o governo chinês teria aproveitado o rebaixamento da nota da Standard & Poors aos títulos da dívida norte-americanos para dar um aviso claro ao governo dos Estados Unidos em três pontos cruciais:

1 – Advertiu para o aprofundamento aparentemente irreversível do já gigantesco déficit das contas externas dos EUA;

2 – Acusou a política norte-americana de obstaculizar soluções para este problema;

3 – Sugeriu pela primeira vez a substituição do dólar como a moeda fundamental das transações internacionais.

 

Alguns dias mais tarde, autoridades chinesas atribuíram a escalada deficitária norte-americana às suas “aventuras militares” após os atentados do 11 de setembro.

As implicações destas três afirmações são, cada uma a seu modo, bastante profundas. É bom que se diga que, para Rio Revolta, estas colocações chinesas não se constituem em ameaças – são avisos ou, no máximo, blefes. Explicaremos mais a frente porque.

 

Analisemos tópico a tópico. Mas antes, uma pergunta: que tipo de poder é esse que faz de uma agenciazinha qualquer que responde sabe-se lá a que interesses um núcleo decisório capaz de estabelecer qual o valor ou a validade dos títulos de dívida pública de Estados nacionais constituídos, até mesmo do mais poderoso do mundo?

 

1 – Já desde os anos 80, os Estados Unidos vêm, praticamente sem exceção, operando com déficits externos crescentes em suas contas nacionais.

As razões destes déficits e o que eles realmente significam são temas de aberto e amplo debate na economia política até hoje. Para uma visão que Rio Revolta considera a mais completa – mas de bastante difícil compreensão -, recomendamos ao leitor interessado que leia o capítulo II do livro “O Mito do Colapso do Poder Americano”, organizado por José Luis Fiori.

Não nos interessa entrar nesta discussão. Nos interessa apenas marcar que estes déficits surgiram principalmente na esteira da desregulamentação financeira e da intensa elevação dos gastos militares promovidas pelo governo de Ronald Reagan nos anos 80 – “curiosamente”, eleito com a plataforma de enxugar o Estado… E nos interessa também colocarmos que, excetuando-se um pequeno período no governo Clinton, estes déficits aumentam desde então, tendo-se aprofundado violentamente no governo Baby Bush – mais uma vez em função dos tresloucados orçamentos militares pós-11 de setembro.

Os EUA vem financiando estes déficits crescentes e gigantescos através de vários instrumentos – investimento estrangeiro direto (do qual é o maior receptor mundial), petrodólares (que não deixam de ser, é claro, uma forma de IED) etc., mas o principal vem a ser seus títulos de dívida pública. E o principal comprador destes títulos tem sido, já há algum tempo, a China, o que significa dizer que este país vem sendo o principal financiador daqueles déficits.

Mas isto significa dizer também que a China tem um enorme montante de suas reservas denominado em dólares norte-americanos, a partir destes títulos da dívida norte-americana que possui. Isso quer dizer que a China exigirá dos EUA garantias de pagamento destas obrigações.

O recado chinês neste caso foi, portanto, muito claro. Os chineses queixam-se do “vício em dívida” dos Estados Unidos e afirmam que, se as garantias não forem totais, deixarão de financiar este déficit.

 

2 – A segunda afirmação é a que, particularmente, mais agradou a nós do Rio Revolta. Os chineses basicamente se referem à completa irresponsabilidade política que ficou abertamente demonstrada nas negociações da ampliação do limite da dívida entre o “governo” Obama e a oposição republicana.

O estado atual de coisas é, aqui, extremamente claro. O Partido Republicano deliberadamente obstaculizou qualquer plano consistente de administração desta crescente dívida pública com o único e evidente objetivo de desgastar politicamente o governo Obama.

Em outras palavras, seus congressistas levaram conscientemente o país praticamente ao limite da insolvência afim de extrair ganhos políticos para si, independentemente das consequências materiais deste seu ato para seu país e para o resto do mundo. Isso dá uma boa amostra do impressionante grau de fundamentalismo conservador e neoliberal que atualmente domina seus dirigentes.

Conseguiram, por fim, um pacote que prolonga de forma bastante tímida o limite do endividamento norte-americano em troca de um pacote fiscal baseado num amplo e grosseiro corte de gastos públicos pelos próximos anos.

Justamente num momento em que a economia norte-americana dá claros sinais de incapacidade de reagir à crise financeira de 2007-2011(?) com base somente nas atividades privadas. Este é justamente o momento em que o ciclo recessivo mais necessita de uma elevação dos gastos autônomos do governo para ser revertido, e esta elevação é justamente o que este pacote inviabiliza.

O resultado desta combinação de recessão prolongada com redução drástica dos gastos do governo dificilmente deixará de ser um aprofundamento da recessão nos próximos semestres ou anos. Um excepcional golpe dos republicanos e uma estranha rendição do governo Obama, que na visão de Rio Revolta com isso complica substancialmente seu cenário de reeleição.

E os chineses a ver com isso tudo? Eis que afirmam que os EUA tornaram-se “palco de lutas políticas míopes”.

O que significa dizer que estão afirmando que as instituições políticas representativas liberais burguesas dos quais os norte-americanos e mais um punhado de elites mundo afora tanto se orgulham constituem-se em cenários de lutas mesquinhas nas quais o que menos importa é o destino e o desenvolvimento de seus países e o que mais importa são os ganhos políticos imediatistas que os atores envolvidos puderem auferir – ainda que para isso necessitem lançar seu país ou mesmo boa parte do planeta em violentas crises.

Quem diria, um regime de partido único dito ditatorial e totalitário criticando a ineficácia e a mesquinhez das tão maravilhosas e perfeitas instituições representativas liberais dos povos livres e esclarecidos… É um ótimo ponto de partida para outro texto do Riorevolta.

 

3 – Talvez esta seja a mais interessante e, ao mesmo tempo, importante mensagem contida nas críticas dos chineses.

John Maynard Keynes já sabia desde antes dos acordos de Bretton Woods no pós-Segunda Guerra Mundial que a moeda de denominação das transações comerciais e financeiras internacionais deveria ser uma moeda internacional diretamente desvinculada de qualquer autoridade estatal em particular, dada a gigantesca possibilidade de comando político em escala mundial que um tal país se tornaria capaz de exercer.

Não foi por outra razão que, naquelas negociações, propôs e insistiu através da delegação britânica que se criasse uma moeda internacional supra-nacional chamada Bancor afim de desempenhar este papel.

Mas os norte-americanos, é claro, não eram bobos, e sabiam muito bem dos poderes que tal moeda internacional seria capaz de conferir ao seu dono. Dispunham, por sua vez, do poder material e bélico capaz de impor suas vontades goela abaixo de uma Europa economicamente devastada e transformada eu seu protetorado militar. O resto da história, todos hoje conhecemos.

Os chineses foram, neste ponto, direto na mosca. Deixaram muito claro que, sem garantias políticas substanciais por parte do governo dos Estados Unidos frente a seus títulos, balançam os alicerces do prédio que sustenta a confiança no dólar como a moeda por excelência de denominação das transações internacionais.

Neste cenário caberia, então, uma substituição de tal moeda por uma outra, de caráter não especificado pela reportagem. Pode ser uma espécie de Bancor, ou uma cesta com as moedas das principais economias mundiais, ou quem sabe uma moeda nacional de uma nova potência hegemônica.

Boa parte do poder norte-americano no pós-Segunda Guerra fundamenta-se na sua posição de emissor e garantidor desta moeda internacional. Esta posição lhe dá vantagens absolutamente incomparáveis nas suas relações políticas e econômicas com o resto do mundo. Não nos interessa aqui enumerá-las mas, entre várias, podemos citar a sua capacidade única de simplesmente emitir papel-moeda para financiar seus déficits externos e sua capacidade, também única, de afetar todos os preços relativos das centenas de moedas nacionais existentes com uma simples alteração da sua taxa básica de juros.

 

Agora, a realidade.

 

Rio Revolta, como já disse, não vê nestas palavras um aberto desafio mas, no máximo, um blefe, e mais provavelmente, apenas um aviso um pouco mais enérgico. Não há qualquer razão para crermos num conflito ou tentativa de ruptura chinesa com relação aos Estados Unidos, a despeito dos vários profetas do apocalipse que, confundindo análise com expectativas pessoais, desejam ver na China uma nova potência hegemônica capaz e desejosa de derrotar os EUA, libertando o mundo de seu terrível jugo imperialista.

(Como se uma outra hegemonia fosse mais benevolente, chinesa ou de quem quer que seja…)

A complementaridade econômica atual entre China e EUA é gigantesca. Transnacionais norte-americanas tem hoje enorme parte de sua capacidade de produção instalada na China. A China atrai IED (investimento estrangeiro direto) norte-americano em larga escala, desejosa de incorporar suas tecnologias, produtos e processos. Os EUA ainda tem – e acreditamos que continuará tendo – na China o principal financiador de seus déficits. A China, por sua vez, tem boa parte de suas reservas denominada em títulos e moeda norte-americana.

Não seria minimamente inteligente, portanto, que os chineses trabalhassem pela derrocada do dólar, com o que teriam também eles enormes prejuízos.

Todos esses motivos nos fazem crer que a irritação dos chineses apenas ao se deve ao que percebem como uma falta de controle e racionalidade dos processos institucionais na política e economia norte-americana. Parece muito mais um chamado à coerência e uma vontade de prosseguir esta virtuosa (para ambos) cooperação do que uma vontade de ruptura.

Rio Revolta não vê no momento, nem mesmo no médio ou longo prazo, nenhuma ruptura ou escalada de conflito entre China e EUA – e acredita piamente que, caso se dê, virá da parte dos norte-americanos. O histórico pragmatismo chinês os impedirá, ainda por muito tempo, de desafiar abertamente os norte-americanos ou de trabalhar pelo acirramento de seus antagonismos – que sem dúvida, existem. A China com certeza só caminhará nesta direção no dia que seus dirigentes tiverem a mais absoluta certeza de que seu país está preparado o suficiente para extrair deste cenário muito mais ganhos do que prejuízos.

Hoje a China, a despeito de todos os incríveis avanços que vem obtendo, ainda corresponde a uma pequena fração do poderio econômico, tecnológico, cultural\ideológico e, principalmente, militar, dos Estados Unidos.

O dia do conflito aberto – se chegar – ainda tarda, e muito.

Rio Revolta recomenda, apenas, atenção ao tema.

Como simbolismo, fica o que pode ter sido a primeira demonstração chinesa de confiança para dialogar com a superpotência hegemônica de igual para igual.

 

Arnaldo Gordo

 

Terror e cinismo

julho 27, 2011

A balela do choque de civilizações foi mais uma vez desmentida pela realidade. Não bastou  livros e mais livros das mais variadas correntes ideológicas das tradições da esquerda, acabassem com o argumento hungtingtoniano por escrito, que desmistificassem as bases do status quo neoliberal, da farsa ideológica que é a globalização ocidental e sua resistência… Foi preciso que mais um ato bárbaro perpetrado pela extrema-direita no coração da “civilização” ocidental, para que caísse a ficha da mentalidade mediana midiática sobre a realidade político-social do mundo.

Repetidas vezes ao longo dos últimos anos, religião islâmica e terrorismo eram associados indiscriminadamente, uma fortíssima agenda norte-americana, repetida há mil pela direita do mundo todo, inclusive a brasileira. Descaradamente agora nos atos do neonazista Andrew Breivik, quando antes de saber do acontecido, associaram imediatamente o ataque na Noruega ao islamismo, com sucessivas declarações resgatando o Choque das Civilzações de Huntington. Não é preciso  dizer que poucos pediram desculpas às comunidades islâmicas depois de comprovado que o ato era de um neonazista.

Desde o 11 de Setembro e até um pouco antes,  são frequentes os comentários, posts, artigos e declarações – inclusive oficiais –  tentando associar a mentalidade islâmica e o Corão ao terrorismo, como se o Corão fosse o novo Protocolo dos Sábios do Sião. Foi Berlusconi mesmo – tido há anos como neofascista pela esquerda -, que disse que o Ocidente teria de retomar uma Cruzada. Seguidas vezes vimos exercícios de retórica, logo desmascarados como não científicos, muito menos éticos, de partir de um pressuposto “islamismo é vil” e procurar em todas as fontes possíveis dados que corroborem este argumento. Esta, diga-se de passagem é a definição típica da pseudo-ciência: partir de um pressuposto e procurar acontecimentos que a corroborem, ignorando uma maciça ordem de argumentos e acontecimentos que desmentem a teoria inicial. É a pseudo-ciência incrivelmente popular na direita e aqui incluo o stalinismo nas mais altas tradições da direita pseudo-científica (vale ler o lyssenkantismo).  Não é suficiente desmacará-la como pseudo-ciência seguidas vezes, pois a sua lógica é a da soberba, do preconceito, da superioridade, da infalibilidade inexorável de uma raça, líder ou idéia.

Breivik é o estereótipo do extrema direita, mas seu discurso percorre vários elementos comuns à direita. Acredita que antes houve uma era de ouro na Europa, que a sociedade está contaminada, que ele traz a cura e precisa divulgá-la para uma população cegada pela agenda liberal e marxista. Seu discurso é tão semelhante ao do Mein Kampf de Adolf Hitler, que sua tentativa de usar o julgamento como palanque foi exatamente o que Hitler fez quando condenado à prisão pelo Putsch da Cervejaria, por isso, jamais Breivik teve intenção de se matar e sempre procurou manter a calma e a “sobriedade”. Essa é a parte radical do seu discurso, que dá as mãos ao nazismo. Hitler dizia que o marxismo e o liberalismo eram duas faces da mesma moeda.

Porém quando você avança para outros argumentos fundamentais da crença de Breivik e de grande parte da extrema-direita, se encontra uma consonância assustadora com elementos tidos como moderados e “coerentes”. Bravatas como crer que a ONU é um agente da dominação marxista mundial; que Clinton (e os democratas mais liberais nos EUA) são agentes de Pequim em Washington; mais recentemente que Obama é um socialista, são argumentos comuns na direita liberal radical por aqui no Brasil. Aliás, a expressão “marxismo cultural” Breivik usa frequentemente em seus textos é lugar comum em anti-comunistas radicais como Olavo de Carvalho e sua versão vaselinada Arnaldo Jabor. Para não falar em “sovietização do Brasil” e “ditadura socialista petista”, outras expressões frequentes em veículos “liberais” altamente anti-esquerda, como Veja e Estadão. Inclusive Breivik usa a expressão “Revolução Marxista Brasileira”, para falar da degeneração que se vive em nossa terra.

O terrorista norueguês é um fundamentalista cristão, racista e social-darwinista. Este elemento-chave de seu pensamento é altamente coerente segundo a lógica da extrema-direita, social-darwinista e da superioridade cultural branca ocidental. Sua lógica é similar a que levou Huntington a nomear o Choque das Civilizações entre o ocidente civilizado e o oriente bárbaro.  Huntington e seu ethos neoliberal, cultuador do Livre Mercado, são apenas demonstrações moderadas do darwinismo-social que se baseia a economia néo-clássica, cerne do culto neoliberal. Enquanto Breivik é a linha de frente deste novo tipo de fascismo, a verdade nua e crua do mesmo bojo cultural que a civilização huntingtoniana toma como ideal.

O ato de Breivik não veio apenas revelar o quão perigoso e visível está a extrema-direita na Europa, isso para a esquerda atenta, já era visível há um bocado de tempo e, muito por isso, que constantemente escrevo sobre o fascismo neste blog. Como Hobsbawn disse: o nacionalismo ainda é uma força política incrivelmente potente, que não pode ser subestimada. Mas acima da evidente desumanidade que o radicalismo pode levar, o terrorismo deste neonazista veio revelar a mais clara perspectiva sobre o chamado terrorismo islâmico.

Há pelo menos 15 anos que Edwar Said e Tariq Ali, para citar apenas dois intelectuais, dizem que as raízes do extremismo árabe são da extrema-direita nacionalista. Que a esmagadora maioria dos grupos extremistas islâmicos tem demandas nacionalistas: querem a fundação de um estado; querem sua terra desocupada por forças estrangeiras; querem ter autonomia para tomar suas decisões; querem independência econômica; direito de escolher a própria política nacional. Em nenhum momento foi colocado pela mídia tradicional, pelos intelectuais tradicionais do centro e da direita que estes terroristas islâmicos, assim como Breivik, eram fanáticos nacionalistas, acima de qualquer retórica e público religioso que possam discursar. Lembrando Zizek, para cada região afundada em extremismo e obscurantismo há uma esquerda esmagada e humilhada alguns anos antes, do Kansas ao Afeganistão.

Ignorar que os valores claramente defendidos por radicais monstruosos como Breivik são bandeiras comuns à direita é puro exercício de cinismo. A exaltação de superioridade da civilização ocidental, simbolizada no seu apogeu sob o livre mercado e no capitalismo identitário,  a noção de que “os outros” (islâmicos, latinos, africanos) são incapazes de absorver os valores que esta civilização tem e portanto precisam ser forçadamente integrados a ela, não faz senão dar novos nomes à missão civilizatória do homem branco, ponto nevrálgico das teorias raciais e darwinistas sociais. Há pouco tempo vários líderes europeus “moderados” declararam o fim do multiculturalismo, arrochavam seguidamente suas políticas anti-imigrantes, transbordavam seu antes escondido senso de superioridade em medidas altamente racistas e anti-iluministas.

Acreditar que estes pilares fundamentais do radicalismo de Breivik são meras idéias confinadas na extrema direita e não a raiz por trás de todo o discurso que procura declarar o capitalismo ocidental como o fim da história, é um forte exercício de cinismo. Brevik simboliza a definitiva união do antigo fascismo com o novo.

José Livramento

Fascistização à Brasileira

junho 19, 2011
Carros esperando por miseráveis.

Carros esperando por miseráveis.

Historicamente a adesão ao fascismo sempre foi um fenômeno das classes médias empobrecidas, em maior ou menor grau. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha, dos camisas-negras na Itália, os integralistas brasileiros dos anos 30, dos nacionalistas (caudilhistas) espanhóis seguidores de Franco, as classes médias empobrecidas descontentes com os rumos de suas vidas e governo, adentravam as fileiras extremistas do fascismo.

Na primeira onda fascista, a roda extremista era empurrada pelo contexto de crise extrema gerada pela crise econômica de 1929, que empobreceu todos os setores da sociedade, deixando os governos liberais reféns de sua ortodoxia. As crises são sempre berçários de extremismos. Assim, faz muito mais sentido a força que ganhou o neofascismo russo (Nacional Bolchevismo e a liga Outra Rússia) depois da queda da URSS durante a esmagadora crise econômica que o país viveu nos anos 90 e só foi se recuperar nos últimos anos. Para estas populações médio-classistas, o medo do empobrecimento, da consequente perda de sua posição social, levava as pessoas a decisões mais radicais. Ressalto que nas eleições de Hitler em 1932, somados Socialistas (naquela época eram bem mais radicais), Comunistas e os Nacional Socialistas, tiveram quase 85% dos votos dos eleitores alemães. Os conservadores, ortodoxos, estavam perdidos em seu continuísmo e pusilanimidade, sem saber o que fazer da economia.

Este sentimento, este medo de empobrecimento e da perda de situação social, foi chamado por inúmeros estudiosos do assunto de “declassemént” ou ‘declassê” no aportuguesado, algo como ‘deixar de ser alguém de classe”. Era o medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente estavam associados a este sentimento, o medo do prestígio social ou do reconhecimento social por sua posição econômica; havia também uma rejeição conservadora ao comunismo ateu; uma rejeição da política tradicional, num certo sentido, uma apolitização; um nacionalismo radical em nações que recentemente passaram por processos de reestruturação de poder que, em decorrência disso, gerou uma certa rejeição republicana, uma reação conservadora à consolidação dos ideais liberais na estrutura social e de poder, especialmente por parte dos setores que tradicionalmente tinham poderes, privilégios e certa posição social na sociedade antes desta onda liberal. E estes sentimentos juntos consolidaram o grande número de simpatizantes do fascismo por todo o mundo.

Sim, é fato que as massas aderiram ao fascismo, especialmente na Alemanha, mas seu núcleo, seu ethos cultural e uma proporção enorme dos seus seguidores eram profissionais liberais, trabalhadores do colarinho-branco, funcionários médio e superiores da indústria, não o esquétipo do “trabalhador”. O pobre, proletário, trabalhador comum era sindicalizado, ligado aos comunistas, anarquistas ou socialistas.

Mas porque estou falando disso?

Observo hoje no Brasil um interessante fenômeno de fascistização das classes médias e procuro entender as razões.

Que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carregam fortes sentimentos anti-republicanos, herdados da nossa completa falta de revoluções conflituosas na história, eu já falei várias vezes neste blog (aqui, aqui e aqui); que as classes médias e a elite tem um ódio encarnado de “comunista” nossa história recente dá mais e mais provas disso, como o ódio elitista ao Lula (haha que comunista…) ou ao MST (aliás, muitos acham que Reforma Agrária é coisa de comunista – outra piada) também não é novidade; que cresce mais e mais um sentimento apolitizante nas classes médias também não é mistério nenhum (falei rapidamente disso aqui).

Porém, nossa sociedade não parece estar em crise econômica grave que justifique esta radicalização à direita recente. E não está de fato, pela primeira vez em décadas, o país vive um certo otimismo econômico e enquanto no final dos anos 90 1 em cada 5 brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é 1 para 10. No entanto, as classes médias tradicionais e as elites continuam se radicalizando e dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, aversão a esquerda, suporte a medidas extremadas do estado, aplausos à repressão e aquela saudade explícita da ditadura.

Vamos citar uns breves exemplos para clarificar o que digo:

- seguidas manifestações explícitas contra nordestinos, homossexuais, negros e ‘gente diferenciada’ (especialmente em São Paulo, nata da velha classe média e elite conservadora);

- frequente apoio às políticas de repressão contra sindicatos, professores, manifestantes e etc. Apoio este evidente em jornalões de grande circulação.

- exaltação do Caveirão do Bope, a Gestapo do Sérgio Cabral.

- bombardeio severo às políticas de inclusão social rápida e paleativa (Bolsa Família, política de cotas sócio-raciais…);

- exaltação frequente de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro. As próprias declarações preconceituosas de Bolsonaro ganham ecos que anteriormente não tinham.

- as seguidas manifestações em redes sociais e correntes de email contra pobres, com Mayara como figurinha da vez… As próprias defesas dela em blogs e jornalões apenas aumentam o bojo desta radicalização à direita da classe média e média alta.

Enfim, há uma série de fatores que mostram uma radicalização política à direita das classes médias e elites brasileiras. Vale lembrar também que estes setores conservadores elitistas e médio-classistas sempre fazem suas defesas em nome da nação, numa concepção de nação hoje degenerada mas que um dia foi linda e bela, onde seus poderes eram intocados. Neste sentido o nacionalismo de nossas elites é muito mais vil do que o dos fascismos dos anos 30. Ele é cínico e conservador, é o ‘nacionalismo’ dos ditadores de 64 (“O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”).

Mas no entanto isto tudo não me deixa satisfeito na explicação desta radicalização das classes médias e elite. Acredito que as forças materiais é que no fundo, movem o mundo de fato. Penso que as pessoas tendem a se radicalizar muito mais quando a situação é de crise econômica do que em qualquer outra situação. Não há o evidente declassment, o empobrecimento econômico, ou o medo do mesmo, desta forma, não acho que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o elitismo de nossas classes médias (sonhando com palácios de princesas em apartamentos de dois quartos de condomínios fechados) sejam suficiente para esta radicalização recente destes setores sociais.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão mais e mais se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato. Esta sensação vêm não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas.

Nossa elite e classe média cultivou por tanto tempo a sua superioridade cultural e econômica, seu sangue-azul, sua nobreza histórica, a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo no mais desigual país do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares que ela, gera um asco e uma rejeição tremenda à atual sociedade. A frase do Luís Carlos Prates, ‘jornalista’ catarinense resume bem esta idéia: “por causa deste governo espúrio… agora qualquer miserável pode ter um carro”. Qualquer miserável agora tem celular mp7, smartphone; qualquer miserável pode ir aos shoppings, lotar os aeroportos; votar em interesse próprio…

Estes setores tradicionais, tão conservadoras que são, tão elitistas e mal acostumadas que são, rejeitam a tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, “a gente diferenciada”, que a ascensão dos ‘diferenciados’ faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia culto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares antigos. Não há mais máscara, a elite e classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social.

Temem concluir o que sempre foi óbvio: somos todos proletários.

José Livramento

A Arma das Drogas não supera a Droga das Armas.

abril 30, 2011
Direitos Humanos enlatado

Direitos Humanos enlatado

O Dinheiro da Droga ou a Droga do Dinheiro.

A grande maioria das vezes que se discute drogas temos um forte viés moralista na questão, geralmente resumidos em: “drogas são ruins e precisam ser controladas” ou “usa drogas quem quer e por isso devem ser liberadas”. A razão moral para rejeitá-las ou tolerá-las é por vezes ideológica, religiosa ou política. É frequente figuras públicas negarem ou admitirem o uso de drogas para se enquadrar em determinados nichos culturais que querem atingir, exemplos clássicos: Bill Clinton, Gabeira e FHC, ou Bolsonaro num outro extremo.

Por outro lado, há os críticos das políticas anti-drogas que tomam o viés econômico, afirmando que os custos da guerra anti-drogas são muito altos e que seguir irrestritamente a agenda norte-americana na questão pode ser um problema maior que a solução. Por agenda norte-americana leia-se combate irrestrito ao usuário e aos traficantes, aplicação da agenda anti-terror aos traficantes e produtores de drogas (as leis californianas seriam uma exceção aqui). Apesar do argumento econômico já ser um caminho um pouco melhor na compreensão da questão do combate ou não às drogas, ainda é insuficiente, pois não abraça toda lógica por trás da agenda da guerra às drogas.

A Guerra Contra as Drogas é uma política antiga do governo Norte Americano. Interessante que ela começou antes mesmo do boom de usuários nos EUA, do meio pro final dos anos 70 e seu ápice atual de uso per capita de drogas ilícitas. Só aí reforça o argumento que faremos a seguir, o uso de drogas não era nem de perto um problema sério de Estado como se tornou nos anos 80 e 90, mas já em 1970 ela toma forma de Guerra mesmo, com várias intervenções desde então: Panamá, El Salvador, Granada, Colombia… Intervenções e influência em políticas internas de praticamente todos os países latino-americanos, em especial no México, maior entreposto de drogas para os EUA. Diga-se de passagem os EUA são o maior consumidor do mundo de todas as drogas ‘tradicionais’, em 2004 cálculos oficiais mostraram mais de 15% da população americana já havia usado cocaína e 2.7% usava regularmente.

Assim, do ponto de vista da retórica moralista anti-drogas dos EUA, esta guerra teria algum sentido. É compreensível que uma bancada evangélica fortíssima, WASP, queira acabar com as mazelas do mundo, fazendo valer o destino manifesto de todo ultra-religioso e em particular, destino manifesto ‘civilizador’ muito comum na retórica norte-americana. O porém é que no mundo em que vivemos, nós já estamos carecas de saber que a moral não é parâmetro para política de estado, vivemos na era do “dinheiro über Alles” e nele, a moral está submetida ao poder do dinheiro. Exemplos não faltam, só de lembrar que a CIA já foi – e talvez ainda seja – um dos maiores atravessadores e facilitadores do tráfico de drogas internacional, sem falar. A partir deste fato temos de reanalisar a política de drogas no mundo e, em particular no Brasil.

No médio-longo prazo, a grande parte das leis no Estado capitalista seguem a seguinte lógica: se os custos para fazer valer a lei são muito maiores que os gastos com os reparos dos problemas que sua falta provoca, a lei é inviável. Esta é a pura lógica do mercado aplicada ao Estado, principalmente nesta última fase de 30 anos para cá, no bojo do ideário neoliberal, que enfraqueceu o viés ideológico do Estado, nos EUA principalmente e no Brasil em particular. Não se esqueça da retórica pós-soviética de que o político – o representante – se apresentou no discurso anti-estatal dos neoliberais como mero administrador do Estado, este se tornou algo altamente instrumentalizado, o político como um financista controlando o Estado de maneira apolítica e descarregado de moral e ideologia. A retórica é que “a política é ruim”, “o fim das ideologias”, “não existe esquerda e direita”, esse tipo de coisa que procura despolitizar e alienar as decisões do Estado, camuflando os reais interesses – altamente políticos e econômicos – presentes no fundo deste discurso.

No entanto, é essa a regra mercadológica que rege por exemplo, legislação do trânsito. O governo brasileiro notou que o custo econômico em hospitais, tratamento, recuperação de estradas, indenização de vítimas, infraestrutura de resgate, médicos e etc, educação no trânsito, é um bocado maior do que aplicar leis mais rígidas de radares e de álcool ao dirigir. Além é claro, da indústria das multas, caça-níquel fácil, num páis que as leis não pegam e quebrar leis é quase obrigatório. A redução no custo hospitalar e reativo (de reação ao problema) foi enorme. Obviamente, o lado humano em reduzir em até 25% o número de mortes no trânsito vem a calhar politicamente para os realizadores da empreitada e, de fato, para a sociedade em geral. Mas é como disse em outro texto:

Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar as decisões tomadas fora do domínio público, por agentes poderosos do grande capitalismo. Lobby, o velho jogo de interesses é a principal força que domina o parlamento liberal.”

No caso do cigarro, essa lógica foi largamente documentada nos últimos 20 anos. Os governos pelo mundo notaram que fazer campanhas anti-tabagismo e proibir fumo em locais públicos reduzia drasticamente os gastos hospitalares a médio-longo prazo, nas doenças ligadas ao cigarro, fumaça e etc. O nome bonito disso é prevenção, o nome feio é “planejamento de custos”. Planejamento de saúde aliás que faz Cuba, a ilha maldita, ter a melhor relação saúde-custos per capita do mundo, já dizia o ditado: prevenir é melhor que remediar.

Mas o que isso tem a ver com o nosso texto? A lógica do combate ou liberação das drogas como política de Estado segue este raciocínio. Porém, é ainda mais complexo.

Na questão das drogas temos de levar em conta este tipo de planejamento do governo, mas temos de levar em conta que o principal Estado engajado na Guerra Contra as Drogas é os EUA. Nós não vemos outras potências como Alemanha, França, Japão e mesmo Espanha, tradicional aliado norte-americano, tão engajados em combater as drogas pelo mundo como os EUA. Será mesmo uma cruzada religiosa contra esta imoralidade da droga?! Dificilmente.

A Guerra Contra as Drogas envolve um titã econômico pouco falado nas discussões sobre os entorpecentes: as armas. Adicione este poderoso elemento na equação acima e temos uma bombástica política infinita de produção e destruição capitalista.

Alguém já se perguntou porque armamento é algo tão fundamental para a indústria capitalista?

Pense num AR-15 (também conhecido como M-16) ou num AK-47… Estas duas armas consistem em produtos que de tão eficazes são praticamente idêntico ao modelo criado em 1964 e 1947 respectivamente, inclusive com pentes facilmente adaptados entre todas as versões produzidas há décadas… Como um produto capitalista que, por natureza, tem obsolescência programada, poderia sobreviver ao longo destes anos, praticamente inalterado? Aliás, de tão bem feitos, em ambos os modelos existem peças em funcionamento há mais de 30 anos. A indústria de armamento ganha muito mais na munição (no projétil) do que na arma que a atira. Pense que produto magnífico pro ciclo mercadológico capitalista: uma vez usado, ele não só se autodestrói como destrói alguma coisa no caminho… E tudo isso feito majoritariamente com dinheiro público transferido para a iniciativa privada! Maravilha. E sim, usei o exemplo do soviético AK-47 de propósito, para demonstrar como a lógica capitalista nunca foi derrubada na URSS, como já demonstrou Istvan Meszaros e outros intelectuais críticos soviéticos.

Sob esta lógica a política anti-drogas norte-americana é muito mais compreensível. A moralidade passa longe e do fundo do discurso humanitário, preocupado com o bem comum, novamente surge o que sempre foi o interesse: o dinheiro. Assim, fica claro porque a defesa econômica da liberalização das drogas também é falha. Por mais que a legalização das drogas traga colossais dividendos em termos de impostos e vantagens comerciais a países pequenos e economicamente inexpressivos, primário-exportadores; e que reduza o tamanho necessário de forças policiais e de fiscais de fronteiras, além de fundamentalmente diminuir a violência, como as experiências portuguesas e espanholas dos últimos 10 anos mostraram. Essa economia jamais será superior ao montante garantido da venda de armas, amortização das dívidas geradas em países pequenos que não têm dinheiro para as armas, nem para os hospitais, nem para a fiscalização de fronteiras. Sim, países expressivos como Espanha e Holanda conseguem quebrar o esquema que praticamente só favorece a indústria americana, mas o que dirá de Guatemala, Honduras, El Salvador, Colômbia, Equador, países primário-exportadores com históricas elites cooptadas, a serviço do dinheiro estrangeiro para se perpetuar no poder… Até o México, um país rico economicamente é refém da política anti-drogas e da violência degeneradora que ela causa. Além do que, a vista grossa implícita na política americana anti-drogas é evidente. Cada ano que passa os EUA consomem mais drogas e de maior qualidade, apesar de ter mais e mais gastos com o combate a elas.

Assim temos que a Guerra contra as Drogas não é sobre drogas, é sobre guerra, ou a manutenção da guerra. Seguindo a lógica da Guerra ao Terror – ou melhor, cronologicamente falando, esta segue a lógica da Guerra às Drogas -. Ela é criada para não acabar, apenas se expandir e ficar mais violenta e no maior número de estados satélites possível. O governo dos EUA faz lobby em países com elites fracas e facilmente cooptáveis, suscetíveis ao seu imenso poder de “barganha”, como a maioria dos países da América Central, como o México, uma colônia americana de fato mas não de direito, Guatemala e Colômbia para aplicarem leis anti-drogas mais fortes. Desta maneira estes governos compram mais armas dos fabricantes norte-americanos, consequentemente os traficantes compram mais armas dos EUA para se defender de uma força repressora mais forte. Há dados de que perto de 10% do PIB da Guatemala sejam de armas e drogas (viomundo.com.br). Da mesma forma que pegam mais dinheiro emprestado para financiar seu aparato de fiscalização, seus hospitais para tratar os feridos nas altíssimas taxas de criminalidade destes países.

Um exemplo claro desta ação é que as FARC estão praticamente controladas, reduzidas a uma ínfima parcela do que já foram e no entanto as drogas colombianas continuam a entrar nos EUA normalmente, indicando um fato importante: ou as FARC nunca foram responsáveis pelo montante de fabricação de drogas que sempre lhe foi atribuída, ou forças “governistas” na Colômbia continuam a produzir para os EUA, no vácuo das FARC. Em qualquer das alternativas, a retórica da invasão e semi-colonização da Colômbia cai por terra.

Assim, reitero que discutir a política de combate as drogas sem mencionar a indústria de armamentos, de endividamento, de controle político e social (nem entrei nesta parte porque Hélio Luz já disse tudo no outro post) e sustentação de governos faroáveis em países ricos mas politicamente fracos, da América Latina e Oriente Médio por exemplo, não falar disso tudo ao discutir a questão das drogas é continuar com o discurso vazio e inócuo que jamais terá algumsucesso. A economia move o mundo.

José Livramento


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